quarta-feira, outubro 23, 2013
quarta-feira, outubro 09, 2013
«Às vezes, quando penso nos homens célebres, sinto
por eles toda a tristeza da celebridade.
A celebridade é um plebeísmo. Por isso deve ferir uma
alma delicada. É um plebeísmo porque estar em evidência,
ser olhado por todos inflige a uma criatura delicada uma
sensação de parentesco exterior com as criaturas que
armam escândalo nas ruas, que gesticulam e falam alto nas
praças. O homem que se torna célebre fica sem vida íntima:
tornam-se de vidro as paredes de sua vida doméstica; é
sempre como se fosse excessivo o seu traje; e aquelas suas
mínimas ações — ridiculamente humanas às vezes — que
ele quereria invisíveis, côa-as a lente da celebridade para
espetaculosas pequenezes, com cuja evidência a sua alma
se estraga ou se enfastia. É preciso ser muito grosseiro para
se poder ser célebre à vontade.»
Fernando Pessoa
terça-feira, outubro 08, 2013
A Few Words on the Soul
We have a soul at times.
No one’s got it non-stop,
for keeps.
Day after day,
year after year
may pass without it.
Sometimes/
it will settle for awhile/
only in childhood’s fears and raptures./
Sometimes only in astonishment/
that we are old./
It rarely lends a hand/
in uphill tasks,/
like moving furniture,/
or lifting luggage,/
or going miles in shoes that pinch./
It usually steps out/
whenever meat needs chopping/
or forms have to be filled./
For every thousand conversations/
it participates in one,/
if even that,/
since it prefers silence./
Just when our body goes from ache to pain,/
it slips off-duty./
It’s picky:/
it doesn’t like seeing us in crowds,/
our hustling for a dubious advantage/
and creaky machinations make it sick./
Joy and sorrow/
aren’t two different feelings for it./
It attends us/
only when the two are joined./
We can count on it/
when we’re sure of nothing/
and curious about everything./
Among the material objects/
it favors clocks with pendulums/
and mirrors, which keep on working/
even when no one is looking./
It won’t say where it comes from/
or when it’s taking off again,/
though it’s clearly expecting such questions./
We need it/
but apparently/
it needs us
for some reason too.
sábado, outubro 05, 2013
quarta-feira, outubro 02, 2013
terça-feira, outubro 01, 2013
segunda-feira, setembro 30, 2013
- Sempre dei mais valor ao indivíduo do que ao colectivo, ao afecto do que à suposta razão. Depois do 25 de Abril, era comunista e sempre me causou asco os que deixaram de falar aos amigos. Tinha amigos de direita e ia atravessar a rua para os cumprimentar, eles andavam envergonhados e ficavam admirados. Sempre pus a amizade à frente do resto. Não confundo ideias com paixões.
domingo, setembro 29, 2013
«Begin with an individual, and before you know it you find that you have created a type; begin with a type, and you find that you have created nothing. That is because we are all queer fish, queerer behind our faces and voices than we want any one to know or than we know ourselves. When I hear a man proclaiming himself an "average, honest, open fellow," I feel pretty sure that he has some definite and perhaps terrible abnormality which he has agreed to conceal - and his protestation of being average and honest and open is his way of reminding himself of his misprision.»
FSF
- Eu nunca ajudo ninguém, acho que ajudar é interferir na ordem natural. Quando era miúdo, fiquei com um colega na escola que estava a chorar, a tentar apoiá-lo, demorei horas, na altura não havia telemóvel, os meus pais andaram à minha procura. A minha mãe teve uma crise de nervos. Aprendi a lição. E mais tarde vim a deparar com situações assim. Não vale a pena tentar mexer no funcionamento regular das coisas. Arranjei emprego a um amigo que está mal e depois ele prejudicou outros e foi despedido e ficou pior do que estava. Se visses - se fosse possível veres - todas as implicações do efeito borboleta, retrairias muitas das tuas tentativas de ajudar o outro.
sábado, setembro 28, 2013
sexta-feira, setembro 27, 2013
Uma história real. Num bairro social, o miserável denuncia o pobre por este alegadamente gastar o dinheiro do rendimento mínimo em álcool e ter outros biscates. Já sabíamos que, mormente em alturas de crise, a raiva social é sempre encaminhada para o vizinho socioeconómico que vive portas-meias. De todas as marcas deixadas pelo actual Governo, destaco a destruição dos laços sociais - os novos contra velhos; os desempregados contra precários; os precários contra efectivos; os públicos (que se quer pôr em média a trabalhar o máximo legal do privado; média/máximo e não média/média) contra privados; os pobres contra miseráveis.
quinta-feira, setembro 26, 2013
Dos sete aos dezasseis, Bukowski, todos os dias, levou uma tareia do pai. «Imaginas quantas tareias levei? Fazes ideia do que isso é?» O pai obrigava-o a uniformizar o corte da grama. No início, Bukowski não acertava - e o pai batia-lhe. Quando conseguiu uniformizar a grama, o pai deitava-se na grama e via sempre, dessa perspectiva horizontal, um espiga mais alta - e batia-lhe. A mãe era passiva e, por vezes, dizia quando o pai lhe batia: «A ver se esse preguiçoso aprende a trabalhar!» Bukowski diz que se industriou a ser tremendamente frio e a encarar o mundo com frieza e indiferença e alheamento - e que isso nunca o largou. Por outro lado, diz que, graças ao pai, aprendeu a escrever. Ao sentir e guardar o sentimento de «pain without reason», libertou-se de todo o adorno literário. Quando estamos na merda, flores no discurso, na escrita parecem postiças. E o amarelo é insuportável.
quarta-feira, setembro 25, 2013
terça-feira, setembro 24, 2013
Bater onde dói, a antítese do jornalismo hodierno
Por paradoxal que possa parecer, apesar da ideia largamente disseminada de que não são os políticos quem nos governa, mas os grandes grupos económicos, o escrutínio feito pelos media à elite económica permanece residual ou nulo. Dezenas de comentadores, dezenas de «especialistas» enxameiam a televisão e os jornais, sempre atreitos a discutir os tacticismos partidários e a futebolização da política, sem discutir demoradamente as questões de fundo da política nacional e internacional.
Repare-se como se difunde, sem um exame profundo e crítico, a diabolização das PPP, anátema que surgiu repentinamente após anos e anos a fio de PPP e que rapidamente se instalou como uma verdade feita para o cidadão comum, sem que contudo esse mesmo cidadão comum saiba quem está por trás dos contratos. Quem são estes grupos, os seus accionistas, quem beneficia e continuará a beneficar por muitos anos com tais contratos? Quem «rouba» afinal o Estado (que a maioria dos comentadores nos quer fazer esquecer de que somos todos nós)?
Ainda Jorge Sampaio era presidente da República e uma sondagem aos jornalistas revelou que 90% se confessavam compelidos a produzir jornalismo (uma contradição nos termos) de acordo com a linha editorial do órgão em que estavam. Na altura, o presidente mostrou uma certa comoção e apreensão, mas desde então nada mudou. Pelo menos, para melhor, nada mudou.
A concentração da propriedade da dita comunicação social cresce a par com os mecanismos de coacção pela publicidade, cada vez mais tremendos numa época de crise, de falência de publicações periódicas e de precariedade do jornalismo. Veja-se o tom bajulatório e deliciado com que a directora do Público descreve a filha do arquipoderoso Belmiro ou o editorial que José António Saraiva escreveu a endeusar Balsemão quando era director do Expresso, veja-se como os grandes senhores do dinheiro têm sempre entrevistadores neutrinhos, sorridentes e de pancadinhas nas costas, veja-se como o Governo de Angola é abordado com um extremo cuidado, para se achar tudo isto uma grotesca farsa. Faça-se um estudo de quantos media ousam investigar ou criticar os seus patrões ou as empresas que lhes pagam a publicidade.
Qual é o pensamento destes grandes senhores do dinheiro? Os sinais que temos do seu «pensamento» são terrivelmente antidemocráticos, cavernícolas e racistas sociais de uma forma desdenhosa e sarcasticamente perversa.
Belmiro de Azevedo, o homem que não está habituado a ouvir uma crítica e que disse que Marcelo Rebelo de Sousa tinha de ser «erradicado» e «aniquilado» da vida política quando ousou contrariá-lo, o companheiro de squash de Vítor Gaspar, garante que «se não for a mão-de-obra barata, não há emprego para ninguém», assegurando que «as manifestações são um divertimento para desempregados».
Soares dos Santos, o homem que trata qualquer jornalista com enfado e condescendência, salpicando constantemente o seu interlocutor com «Ó filho, não é nada disso», entende que a economia enferma de problemas nascidos nesse terrível ano de 1974, sublinhando que não lhe interessa a Constituição e que «andamos sempre a mamar na teta do Estado. Porquê, porquê?».
Fernando Ulrich soltou o célebre «ai, aguentam, aguentam» e reiteraria a sua certeza mais tarde desmontando a ideia de que se tratara de uma gafe, quando jurou que, sim, os Portugueses aguentavam mais austeridade, se até os sem-abrigo aguentavam, homessa. Este mesmo homem marcou presença na Quadratura do Círculo, naquele que foi um dos discursos mais confrangedores no espaço mediático, quer na forma nervosa que demonstrou perante quem o confrontava no plano das ideias, quer na total ausência de conteúdo, singularmente vácuo e contraditório. Quem quiser que veja o tristíssimo exercício em vídeo para aferir como estas conspícuas criaturas tartamudeiam e se afundam perante um homem culto e com relativa independência de espírito e coragem como Pacheco Pereira.
Ricardo Salgado, o homem que se «esqueceu» de declarar 8,5 milhões ao Fisco, o homem que não se sabe com que mandato entra no Conselho de Ministros em que se irá aprovar o Orçamento do Estado, é severo a analisar a moralidade dos Portugueses que «preferem o subsídio de desemprego a trabalhar». Desempregados são, no fundo, preguiçosos. Alguém explique ao Dr. Ricardo Salgado que o subsídio de desemprego diminuiu ao longo dos últimos anos, sucessivamente, em montante, em condições de acesso, em extensão no tempo, e que o desemprego cresceu mais do que nunca. E de caminho pergunte-se a estes senhores como é que a sua solução da desregulamentação do mercado de trabalho que sempre preconizaram (por eles docemente referida como «flexibilização»), aplicada pelos sucessivos Governos não contribuiu para a diminuição do desemprego. Muito antes pelo contrário. Alguém lhe explique também que noutros países, que muitas vezes são referenciados parcialmente nas suas políticas, a desregulamentação foi contrabalançada pelo reforço das prestações sociais e que aqui sucedeu o contrário, aumentando-se o desemprego e agravando-se as condições de quem cai nas malhas do flagelo, cada vez mais contíguo à miséria e à exclusão social. E alguém o acompanhe na vida de um desempregado de longa duração (que os dados da OCDE de 2010 mostravam ser Portugal o país com mais percentagem de desempregados de longa duração) que toda a vida trabalhou e que o mercado de trabalho penaliza pela idade. Mas Ricardo Salgado está preocupado com questões maiores e decidiu brindar-nos com a conclusão filosófica das suas profundas elucubrações: «O sistema capitalista é amoral, tem de produzir resultados. As pessoas é que podem ser morais ou imorais, mas o sistema tem de ser amoral.»
O excelso empresário Miguel Pais do Amaral «foi acusado pelo Ministério Público de ter apresentado, enquanto presidente da Media Capital, várias facturas, entre 2001 e 2004, num valor total superior a 4,5 milhões de euros, que circularam por empresas criadas no estrangeiro com o objectivo de fugir aos impostos». Esse mesmo homem que comanda inúmeras editoras em Portugal afirmou alegremente desconhecer Oscar Wilde e não «saber nada de poesia, filosofia e literatura» porque «não lhe interessam para nada».
António Lobo Xavier, o homem da Sonae, da Mota-Engil, do fundo Vallis, da Riopele, da Fundação Serralves, da SIC Notícias,da Morais Leitão e Galvão Teles, da Soares da Silva & Associados, da ACEGE, da Associação Comercial do Porto, da Têxtil Manuel Gonçalves, da Jerónimo Martins e do CDS, é um comentador que poderá ser independente? É um homem que poderá não levantar suspeições quanto à parte interessada ao superintender a comissão de revisão do IRC? Este comentador fixo de um dos programas televisivos mais vistos de debate público defende que a redução das desigualdades em Portugal, o segundo país mais desigual da União Europeia, não deve ser uma prioridade e que tal não é «sustentável».
É este o ideário que dirige superiormente as empresas destes sábios espíritos? São estes homens que reclamam contra «a mama», que falam em baixar salários e que troçam das prestações sociais, que a Autoridade Bancária Europeia revelou que estão entre os que mais ganharam em 2011 na União Europeia.« Num universo de 27 países, Portugal ficou em décimo, fruto dos rendimentos de 11 banqueiros portugueses, cujos nomes não foram revelados.» São estes «liberais» quem mais recebe do Estado, são estes os únicos donos de empresas que têm os seus prejuízos nacionalizados, isto é, encaminhados para todos os Portugueses, quando a sua gestão corre mal, ao mesmo tempo que defendem a privatização das empresas lucrativas do Estado.
Termino com um episódio que vivi enquanto jornalista.No dia 28 de Fevereiro de 2007, estive numa palestra sobre a responsabilidade social das organizações, concretamente do Millenium BCP. A extensão das palmas parecia-me própria dos discursos de Estaline. Na minha mesa, um conjunto de funcionários do BCP reforçou-me a ideia de que estava numa liturgia. «Estão a ver as vossas mãos? Têm todas um eme [M] nas linhas... É um eme de Millenium.» Assustei-me com o tom. Quando perguntei pela satisfação laboral e a responsabilidade social do BPC, um fanático debitou: «No Millenium BCP, há 11 mil trabalhadores e não há um único insatisfeito.» Notando a incredulidade no meu rosto, repetiu maquinalmente: «No Millenium BCP, há 11 mil trabalhadores e não há um único insatisfeito.» No final, perguntei publicamente a Paulo Teixeira Pinto se era verdade que as doenças de foro psiquiátrico tinham aumentado no sector bancário, designadamente no BCP, e se havia estudos sobre isso. Os rostos da sala ficaram tensos, sussurando entre dentes. Enfurecido, respondeu-me que não havia estudos, que o mal em Portugal era preferir-se morrer por não se ter trabalho a morrer-se a trabalhar, desfiou a catilinária contra o rendimento mínimo, contou a piada de que quando perguntaram a um empresário quantos pessoas trabalhavam na sua empresa este respondera cerca de metade. No dia seguinte, na galeria Zé dos Bois, num lançamento de um livro, um indivíduo que não conhecia veio ter comigo e disse que eu não poderia ter feito o que fiz, que Paulo Teixeira Pinto era um homem perigoso que se vestia como SS na faculdade e que se eu estava interessado em ter uma carreira não poderia voltar a fazer uma pergunta assim.
segunda-feira, setembro 23, 2013
sábado, setembro 21, 2013
Ela 1: Bem, acabei de postar há um minuto o nosso jantar e já tenho quatro likes!
Ela 2: Chi, não vais acreditar! O Flávio mudou o estado para numa relação com.
Ela 1: Quem é? Quem é?
Ela 2: Uma Paula Teixeira.
Ela 1: Abre lá a foto!
Ela 2: É o que ´tou a fazer!
Ela 3: Aí... que grande quenga! Aposto que a conheceu na noite.
Ela 4: Mostra lá mais.
Ela 2: Porra, isto não dá para ampliar.
Ela 1: Ela tem 853 fotografias.
Ela 2: Mas estão quase todas bloqueadas...
Ela 3: Pede amizade.
Ela 2: ´Tás louca?
Ela 4: Mostra lá as fotos do casamento a que foste.
Ela 2: Tenho no PC. Descarreguei e apaguei.
Ela 1: Hoje, há uma festa no Jamaica.
Ela 2: Hoje não, meninas... Eu não vou.
Ela 3: Tenho uma sensação na gengiva desde que acordei. Bué estranha...
Ela 1: Mas não querem ir sair um bocadinho?
Ela 3: Eu gostava. Vamos só a um barzinho.
Ela 2: É um barzinho e depois é o costume... Não me enganam...
Ela 4: Anda lá, é só um bocadinho. Eu hoje nem fiz a depilação.
Ela 2: Vão... eu fico a ver umas séries aqui.
Ela 4: Anda lá, ou vão as quatro bruxinhas ou não vai nenhuma.
Ela 2: Não, a sério, ´tou buéda cansada... E nem arranjei o cabelo.
Ela 1: Pintei hoje. Gostam?
Ela 3 segura-lhe as mãos e assente.
Ela 2: Não vou, a sério, fiz uma aula de fat burn e ´tou toda partida.
Ela 4: Eu agora só faço glúteos e pernas. Vou todas as quartas a uma de lower body blast.
Ela 1: Hoje, há búeda people que vai a um evento no Lust.
Ela 3: Ainda não fui lá! Mostra lá os amigos em comum que vão.
Ela 1: ´Tá lenta a Net.
Ela 4: Bora lá a algum lado...
Ela 3: Esta cena nas gengivas... Posso usar a tua pasta?
Ela 2: A minha pasta ou a minha escova?
Ela 3: Pois, a tua escova...
Ela 1: Eh, pá, hoje há buéda gente que vai sair... Temos de dar um pezinho...
Ela 2: Preciso de um massagista e de um cabeleireiro primeiro...
Ela 4: Deixa-te de coisas, miguita. Estás com ar de quem dormiu bem e estás bonita.
Ela 2: Hoje, preciso de um sono de beleza. Saímos amanhã.
Ela 4 sussurra a Ela 3.
Ela 3 faz sinal a Ela 1.
Levantam-se todas.
- BRUXINHAS POWER| BRUXINHAS POWER! BRUXINHAS POWER! - gritam em uníssono esticando o braço com o punho cerrado para frent.
Ela 2: Vá vamos lá. Mas levo o meu bóbi para não ficar dependente.
Ela 4: Vamos de táxi. Bruxinha bebe sempre qualquer coisinha!
Ela 2: Tenho de pôr a gravar a série na Box antes de sair.
sexta-feira, setembro 20, 2013
Natália Rediviva
«"O Botequim da Liberdade", belíssimo livro de Fernando Dacosta (Casa das Letras Editores), recupera o ambiente, a atmosfera, o espírito do lugar e a memória das pessoas que frequentaram o espaço, criado por Natália Correia, no Largo da Graça. É, também, a recriação de uma época em que tantas coisas, tantas questões e tantas dúvidas foram postas em causa, problematizadas por gente de alta qualidade, que apreciava a discussão pela discussão com elegância e cortesia, mas com veemência e convicção. O Botequim da Natália foi a decorrência directa das tertúlias que a grande poetisa e ensaísta animou, durante anos, na sua residência. Por ali passou, discutiu e conspirou o melhor da estirpe cultural, moral, artística e política daquele tempo. Henry Miller lá esteve, numa das noites mais felizes do convívio estabelecido em volta da poderosa criadora de "Cântico do País Emerso", autora, igualmente, do ensaio sobre o barroco, editado pela Moraes, do melhor e mais original que, sobre o tema, em Portugal, foi publicado. Há um tenebroso esquecimento da importância da Natália na cultura, mas também na ética da liberdade, por ela pleiteada com coragem e brilho incomuns.
Fernando Dacosta recupera episódios que, para alguns, podem parecer "petite histoire", mas que constituem informações definitivas acerca do carácter de uma mulher indomável, para a qual o conceito de ser livre era uma expressão marcada de filosofia de vida e uma estética. Uma mulher de rara beleza, que deixava atrás de si um halo de mistério e deslumbramento. Com a minúcia de um entomologista, Dacosta realiza o filme dos sentimentos, das acções e dos comportamentos de muitos de nós, sem aleivosia e com a atenção curiosa, por vezes irónica, do repórter que anota o quotidiano como elemento de História. Um livro fascinante a vários títulos, a merecer a meditação empenhada dos leitores. E uma comovida memória daquela grande senhora portuguesa. Sei do que falo porque estive lá, no Botequim, e nessa época fabulosa. Neste tempo de injúria e opróbrio, é urgente regressarmos à lição de Natália Correia.»
Baptista-Bastos
Paul Auster, Relatório do Interior (continuação ou reformulação de Diário de Inverno - o primeiro o relato a autobiografia do corpo, o segundo, da mente)
No início, tudo estava vivo. Os mais pequenos objetos eram dotados de corações pulsantes, e até as nuvens tinham nomes. As tesouras caminhavam, os telefones e os bules eram primos direitos, os olhos e os óculos eram irmãos. A face do relógio era uma face humana, cada ervilha na tua taça tinha uma personalidade diferente, e a grelha na frente do carro dos teus pais era uma boca sorridente com muitos dentes. As canetas eram aviões. As moedas eram discos voadores. Os ramos das árvores eram braços. As pedras pensavam e Deus estava em toda a parte.
quarta-feira, setembro 18, 2013
terça-feira, setembro 17, 2013
Voltando à tese de que as multidões quase nunca têm razão. Uma conferência. O orador Marinho e Pinto diz aquilo que deveria ser uma obviedade: que os presos também têm direitos. (Recordemo-nos de que foi há muito poucos anos que foi removido o balde que servia para os dejectos dos prisioneiros que passava de cela em cela com o excremento acumulado.) Pois bem, um jovem dos seus vintes levantou-se e disse:
- Como se pode vir defender os criminosos. Há velhos que não têm direito a pensões e vem-se para aqui falar de afectar mais recursos públicos para os criminosos, dinheiro esse que deveria ir para as pensões?
A sala ovacionou-o. Acreditem: olhei para trás e para os lados e para a frente e não vi uma pessoa que não batesse palmas.
É um truque baratucho, emocional, falso a conversa do rapaz. Nem vale a pena alongar-me. Já avisava Marco Aurélio nos seus pensamentos e reflexões de um estóico de que o homem sensato não se deveria espantar espantar e indignar com a estupidez e a ignorância e a crueldade - todos os dias iríamos tropeçar nela.
Camus dizia que para o crime do indivíduo se equiparar ao crime da pena de morte perpetrado pelo Estado implicava que um ser humano reunisse um série de criaturas, as enclausurasse, cada um sabendo que ia morrer, mas não quando, vendo, um por um, todos os outros se encaminharem na direcção da morte, tão inevitável quanto a sua.
segunda-feira, setembro 16, 2013
Juntem-se quatro homens que não têm por hábito falar de gajas, que não apreciam «gajas» pelo mero invólucro, que até repudiam o verbo «comer», que não separam o afecto do sexo - juntem-se esses quatro homens e o mecanismo de pressão grupal, de tactear um terreno comum fá-los-á cair nessa boçalidade, perdendo a sua individualidade.
domingo, setembro 15, 2013
«No quinquagésimo capítulo de sua História, Gibbon quer reduzir o esplendor do Inferno e escreve que os dois vulgaríssimos ingredientes que são o fogo e a escuridão bastam para criar uma sensação de dor, a qual pode ser agravada infinitamente pela ideia de uma duração eterna. Esta advertência, difícil de satisfazer, prova talvez que a preparação do Inferno é fácil, porém, não suaviza o admirável espanto de sua invenção. O atributo de eternidade é o horroroso. O de continuidade — os factos de que a perseguição divina carece de intervalos e de que no Inferno não existe o sono — é ainda pior, porém é de impossível imaginação. A eternidade da pena é o que se contesta.»
Jorge Luis Borges
Para Borges, a eternidade é sempre um castigo - e o Paraíso, por ser eterno, transforma-se no Inferno. Isso é verdade - mas numa concepção humana. A acreditar na vida além da morte, não tendemos a pensar em quantas gajas lá iremos ter à nossa espera, quem estará lá, que sensações teremos (de calor, por exemplo) ou se haverá música ou jardins no Paraíso - estamos presos a grilhões do mundo e da mente humana ao fazê-lo. Da mesma forma que um ser humano não consegue anatomicamente voar ou dar um salto de trinta metros, também mentalmente devemos aceitar limitações. Borges não se apercebe disso - é o problema de quem se julga sábio.
Bukowski dizia que quando via filas de gente, seguia sempre a que tinha menos pessoas - as maiorias quase nunca têm razão. (E não há nada mais terrível do que a psicologia das multidões. Um argumento popular desce da superfície da assimilação acrítica e da falta de profundidade. Koestler: a última verdade é sempre em penúltima análise uma mentira. Na Índia, para satisfação dos e das manifestantes lá enforcaram quatro indivíduos. Cá em Portugal, circula a petição para apanhar o Patrick, um suspeito (note-se bem, suspeito) de espoletar incêndio(s). Espuma-se que ele seja apanhado e morto e que devolva a vida de quem morreu heroicamente. E que talvez em se o apanhando grande parte do desemprego, da miséria, da exploração cesse - milhares e milhares de pessoas estão nesta causa. Não é difícil de imaginar o que aconteceria ao Patrick se a turba de 50 mil bárbaros o apanhasse. E talvez os piores até sejam os que não escrevem que ele devia ser isto&aquilo antes de ser assassinado - cão que não ladra morde. E com isto lembrei-me do final de Ratos e Homens de Steinbeck, um dos mais comoventes - para mim. O problema da pena de morte é o problema da matemática - duas negativas não fazem uma positiva. Como se pode em nome do valor da vida dar o exemplo com o Estado matando?
sexta-feira, setembro 13, 2013
As ditaduras começam assim
http://www.dn.pt/politica/interior.aspx?content_id=3417213
http://www.publico.pt/politica/noticia/sondagem-diz-que-87-dos-portugueses-estao-desiludidos-com-a-democracia-1563811
Desafio: escrever um livro sem uma palavra repetida (tirando artigos e preposições, e quando muito advérbios). Já foram publicados livros que começam todos pela mesma letra, sem um único adjectivo, etc. (A designada escrita constrangida.) Prosa, claro. Em poesia, diferente. (Eugénio e a sua casa de palavras.)
1, 2, 3, 4, 5
Estava andar na rua quando um indivíduo a correr me obrigou a desviar. Encostou-se a uma parede, começou a fazer alongamentos enquanto dizia de forma bastante audível: - Um, dois, três, quatro, cinco. Um, dois, três, quatro, cinco. Um, dois, três, quatro, cinco. Mais tarde, alguém me interceptava num chat enquanto trabalhava. Vi que essa me dizia me dizia «Estás aí? 5, 4, 3, 2...» (Respondi antes do um.) No dia seguinte, quando atravessava a passadeira, agradeci ao carro que parava subitamente ao ver o peão. Foda-se! A matrícula era 12-34. Comecei a sentir-me dentro um livro de Auster (acaba de sair em Portugal a tradução do último). Ontem, ao ligar a televisão na SIC Notícias, vi instintivamente as horas: 12h34.
quarta-feira, setembro 11, 2013
A tudo, o mestre budista respondia com duas palavras.
E a morte? Faz parte.
E a dor física? Faz parte.
E o envelhecimento e a decrepitude? Faz parte.
E a tristeza e o desespero que tenho de sentir? Faz parte.
E a crueldade? Faz parte.
E a ignorância? Faz parte.
E a dissolução de todos os laços? Faz parte.
terça-feira, setembro 10, 2013
O último poema, Manuel Bandeira
Assim eu quereria meu último poema/
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais/
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas/
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume/
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos/
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.
segunda-feira, setembro 09, 2013
sexta-feira, setembro 06, 2013
quarta-feira, setembro 04, 2013
Compartimentar
Claro que está que ninguém consegue estar inteiramente no presente, sem sombras e fantasmas do passado e sem inquietações quanto ao futuro.
Claro que está que a maioria conhece, instintivamente que seja, os velhos adágios: grandes desgraças curam desgraças (há sempre alguém pior do que tu); não há bem ou mal que sempre dure; um homem pode ser destruído, mas não pode ser derrotado (EH); somos damos valor àquilo que perdemos desperdiçando o milagre que é ter saúde, ter os entes amados vivos, ter um tecto e comida; aquilo que não podes mudar, aceita - aquilo que podes mudar - luta, basta adquirires a sabedoria ao longo da vida para distinguir as duas.
Ajudam, é certo.
O envelhecer também ajuda - sempre vi o envelhecimento um abrandamento, uma moderação das paixões da alma. Envelhecer é não nos deixarmos atingir tanto pela vida. A alma calejada não se deixa voar estonteante na felicidade nem afundar no mais fundo abismo na melancolia. Muitos anciãos dizem que é isso a paz.
Tudo esta introdução serve para apresentar uma ideia. Eis uma definição: a felicidade depende da capacidade de lidar com o verbo «compartimentar».
Todos temos problemas (um truísmo) - mas a capacidade de usufruir da vida depende de como conseguimos absorver cada momento feliz, cada pequeno pormenor, o modo como conseguimos olhar um campo de girassóis no meio do trânsito infernal.
Lembro-me sempre de duas histórias e de uma vivência. (E em todas emerge o padrão: compartimentar é o essencial.
A primeira história é a do britânico fleumático que, ao sair da sua empresa na sexta-feira à noite, viu um envelope esquecido. Abriu a carta. A sua empresa falira. Fechou o envelope e disse: «Muito vou ter de me preocupar na segunda-feira.»
A segunda é a do budista que em meio do apocalipse, vendavais, destruição, limpava com uma vassoura sorrindo um cantinho da estrada. (E cruzo isto com Tolstoi: se queres ser universal, pinta a tua aldeia.)
A terceira (real) é da pessoa que eu conheci que mais bem sabia compartimentar. Nas férias que passámos, ele recebeu notícias terríveis da sua saúde de um familiar internado, enquanto lhe ligava a toda a hora da sua empresa de «eventos» a pedir isto e aquilo. Lembro-me de estar com ele nas montanhas a ver uma paisagem e de ele estar absolutamente concentrado (e contudo leve), extático, a contemplar um sol róseo, o céu na nossa frente, o azul límpido, e de me dizer com um sorriso: «Estou a ter uma epifania. Passei de ateu a agnóstico.»
«A lentidão, que na verdade foi sempre uma condição sine qua non da civilização, tem vindo a ser cada vez mais substituída por uma apologia estonteada da velocidade, que se tornou, como escreveu Milan Kundera, na forma contemporânea do êxtase, apesar de muitas vezes mais não ser do que um atalho para o regresso à selva. Institui-se deste modo uma tirania do imediato que [...] se acompanha de um incentivo à excitação cada vez mais alucinada que atravessa todo o sistema de comunicação - imprensa, televisões, blogosfera, redes sociais, etc. -, transformando cada cidadão num espectador histérico, preso a narrativas que o hipnotizam e manipulam sem fim nem contraponto.»
Manuel Maria Carrilho
uma palavrinha sobre os fazedores de poemas rápidos e modernos
é muito fácil parecer moderno/
enquanto se é o maior idiota jamais nascido;/
eu sei; eu joguei fora um material horrível/
mas não tão horrível como o que leio nas revistas;/
eu tenho uma honestidade interior nascida de putas e hospitais/
que não me deixará fingir que sou/
uma coisa que não sou —/
o que seria um duplo fracasso: o fracasso de uma pessoa/
na poesia/
e o fracasso de uma pessoa/
na vida./
e quando você falha na poesia/
você erra a vida,/
e quando você falha na vida/
você nunca nasceu/
não importa o nome que sua mãe lhe deu./
as arquibancadas estão cheias de mortos/
aclamando um vencedor/
esperando um número que os carregue de volta/
para a vida,/
mas não é tão fácil assim —/
tal como no poema/
se você está morto/
você podia também ser enterrado/
e jogar fora a máquina de escrever/
e parar de se enganar com/
poemas cavalos mulheres a vida:/
você está entulhando a saída — portanto saia logo/
e desista das/
poucas preciosas/
páginas.
Charles Bukowski
domingo, setembro 01, 2013
JAAB ou José Alberto Braga, o grande frasista
«O preço da liberdade é a eterna vigilância. Ou cem mil dólares ao câmbio de hoje.»
quinta-feira, agosto 29, 2013
Percebi o paradoxo: porque gosto tanto de policiais (Rex Stout, o Maior) e porque, ainda assim, não os considero, regra geral, bons livros.
A perda de vontade de releitura. Livros há que te prendem do início ao fim - mas cuja releitura é enfadonha. O final está fechado. Estiveste suspenso à espera de obter algo - depois de o obteres, a releitura (se a memória guarda esse algo) é vã.
terça-feira, agosto 27, 2013
Conheci um casal no mundo rural que está junto há mais de trinta e cinco anos. À lareira, um senhor de idade respeitável contar-me-ia:
- Aquele senhor que estava a falar contigo é o grande amor da vida dela e ela é o grande amor da vida dele.
- A sério?
- É das poucas certezas que tenho na vida, rapaz.
- Eles namoraram?
- Eles nunca tiveram nada, rapaz. Os tempos também eram outros.
- E eles sabem?
- Não sei. É assim desde criança.
- E a mulher dele e o marido dela sabem?
- Penso que não. Mas amor e tosse não se escondem, não é? Viste o olhar deles? Vê. Repara como olham um para o outro.
- Desculpe a indiscrição, mas como é que tem essa certeza?
- Sei desde que éramos miúdos e brincávamos com fisgas junto do muro da igreja. Ele chorava por ela. Sou amigo dele há mais de sessenta anos.
- Ele nunca lhe disse a ela?
- Nunca. Nem ela a ele. Dela sei pela minha mulher, que é amiga dela há muito tempo.
- Como é possível?
- Não sei, orgulho, timidez. Essas coisas acontecem.
domingo, agosto 25, 2013
Conversas da burguesia interceptadas num restaurante
Pai 1: - O João tirou agora um MBA, foi o melhor aluno da turma. E ele dá-se muito bem lá com os colegas. Vai jantar com eles e tudo. Pode ser que arranje lá um bom contacto...
Pai 2: - Sim, senhor. O João sempre foi um rapaz socialmente muito bem enquadrado.
Pai 1: - É, mas o gajo, pá, tem a mania de tirar dúvidas aos outros. Já lhe disse mais do que uma vezes: não dês o teu conhecimento, vende-o. Ninguém dá nada a ninguém. Até uma cantora anda lá no MBA, veja lá... Eu vi umas fotos dela no Facebook. Uma tipa jeitosa... O João tira-lhe dúvidas... Uma cantora... Aquele João tem uma paciência. Para dar umas voltas, ainda vá. Mas, porra, não quero netos de uma cantora.
Pai 2: - Ele sabe o que faz. É uma pessoa dirigida.
Pai 1: - Ele gasta é um balúrdio em fatos. Agora, descobriu o Rosa & Teixeira e não quer outra coisa. Gasta muito. Já lhe disse que parece o Governo socialista.
(Risos.)
Pai 2: - A paixão do Eduardo são os carros. Agora, anda fisgado num Audi. Aquilo tem umas jantes e um motor que é um espectáculo, pá. Ele era para vir hoje, mas já tinha combinado andar lá com os colegas de mota de água.
Pai 1: - Fez bem, fez bem. Quando é ele volta para Angola?
Pai 2: - No fim do mês, no fim do mês. Então e o meu amigo já deixou o golfe?
Pai 1: - Oh, pá, a malta lá da Sonae é uma brigada de artroses.
(Risos.)
Pai 2: - Um dia destes, desafiou-o para um partidinha de squash?
Pai 1: - Não tenho coração para isso.
Pai 2: Faz ao seu ritmo. Vai gostar. Levo-o ao meu ginásio, aquele tem umas pequenas bem jeitosas. E não há ali pé de chinelo... Um sítio óptimo.
Pai 1: Ténis ainda aceito.
Pai 2: Também pode ser. Tem de fazer desporto.
Pai 1: A Mariana é que é uma boa jogadora. Ela foi campeã inter-regional aos 17 anos.
Pai 2: Vai um uisquezinho?
Pai 1: Sim. Chame aí a rapariga.
- Queres ir sair?
- Obrigado, mas só se houver mulheres. Sem mulheres, mesmo só para conversar, nota bem; sem mulheres, a noite é um bocejo. Já não tenho a mínima paciência. Muito raramente, para aí uma em duzentas, há uma noite em que tenho uma conversa invulgarmente estimulante com um homem; mas é tão raro, que já só saio para a noite na noite havendo elementos femininos. Até porque depois as outras olham mais e baixam as defesas. Elas sentem o desespero e a solidão num homem a quilómetros de distância.
quinta-feira, agosto 22, 2013
quarta-feira, agosto 21, 2013
Casado, quotidiano, tributável e fútil
Ele 1 não tem «família» - no sentido clássico. Vive com a namorada do momento. É visto pelos amigos como tendo falhado numa dimensão da vida. Mas ele é feliz assim.
Ele 2 ganhava 3000 € numa empresa de grafismo com código de indumentária, horários, obediência a parâmetros que no seu entendimento lhe cerceavam a arte. Deixou o trabalho, ganhou um terço enquanto trabalhador independente - baixou de estatuto, eles dizem. «O poder dispor do meu tempo, o poder ir a uma esplanada às três da tarde ou passear a minha filha num jardim vale mais do que dez ordenados», ele disse-lhes.
O regresso da sopa dos pobres como modelo de apoio social (José Vítor Malheiros)
«O filho mais velho de Cláudia tem dez anos e acompanha a mãe e os dois irmãos mais pequenos à cantina social de Matosinhos. Levam sacos com recipientes vazios que vão levar para casa com o almoço da família. Pai e mãe estão desempregados e o subsídio de desemprego não chega para cobrir as despesas e comprar comida para todos. Ao entrar na cantina, o rapaz cruzou-se com um colega da escola, que deve ter percebido o que a família ia fazer. “Que vergonha!”, disse o rapaz à mãe.
A história é contada numa reportagem de Ana Cristina Pereira, publicada há poucos dias nestas páginas, a par de um artigo de Andreia Sanches sobre o Programa de Emergência Alimentar. E nós não podemos senão repetir, como o filho mais velho de Cláudia, “Que vergonha!”.
Que vergonha que o Governo de Passos Coelho esteja a mergulhar cada vez mais famílias na pobreza, a destruir os apoios sociais a que todos os cidadãos têm direito nos momentos de necessidade e para os quais todos contribuímos, e a substituí-los por humilhantes programas de caridade, onde os direitos se transformam em esmolas, onde a dignidade das pessoas é ofendida, onde a sua autonomia é negada, onde a sua perda de estatuto é ofensivamente reiterada dia após dia.
É infame que o ministro Mota Soares envergonhe o filho mais velho de Cláudia, uma criança de dez anos cujo único crime é ter pais desempregados. É infame que o ministro Mota Soares apenas aceite alimentar os filhos das Cláudias em troca da sua humilhação. Mas Mota Soares, que de facto é não só ministro para a Promoção da Miséria mas também grão-mestre da Humilhação dos Pobres, não se fica por aqui. Há todos os dias milhares e milhares de crianças que comem a sopa da caridade, sob o olhar envergonhado dos pais, e que rezam para que nenhum colega da escola os veja entrar numa cantina social ou entrar de sacos vazios e sair de sacos cheios de uma IPSS ou de um Centro Paroquial. Mota Soares pode achar esta vergonha despropositada em miseráveis, pode considerar que todos eles têm muita sorte por ter a sua sopinha grátis e pode até argumentar que seria pior se não a tivessem, mas a questão é que o Estado tem o dever de proteger os direitos das pessoas em geral e dos seus cidadãos mais frágeis em particular e que estas doações não são senão retribuições que a sociedade lhes deve – como no-las deve a cada um de nós em caso de necessidade porque todos contribuímos solidariamente uns para os outros. Mota Soares não percebe que o seu papel é gerir os recursos de todos de acordo com as políticas solidárias que a sociedade colectivamente sancionou e não impor um programa de submissão dos pobrezinhos para aterrorizar os trabalhadores e facilitar o ataque aos seus direitos. Mota Soares não percebe que as pessoas são todas iguais em direitos e dignidade e que não pode impor aos filhos dos mais pobres o que nunca admitiria que fosse imposto aos seus filhos. Mota Soares não percebe que está a vender a sua sopa a um preço demasiado alto.
Mota Soares não percebe que é abjecto organizar apoios sociais de uma forma que humilha os necessitados, que eterniza a sua dependência porque não lhes permite qualquer autonomia e que nem sequer é a mais eficiente.
Há 415.000 portugueses que vivem de alimentos doados, quer pelo Banco Alimentar contra a Fome quer pelas cantinas sociais do Programa de Emergência Alimentar. Se somarmos a estes os que são alimentados por organizações privadas que não estão ligadas àqueles programas e por indivíduos a título pessoal, o número excederá certamente o meio milhão. Meio milhão de pessoas que só podem comer todos os dias se forem pedir comida.
O Programa Alimentar de Emergência cresceu paralelamente à redução das prestações e do âmbito do rendimento social de inserção (RSI), que apoia cada vez menos pessoas apesar do evidente aumento das necessidades, mas todos os especialistas consideram que um grande alargamento do RSI seria a medida mais justa, mais respeitadora da dignidade das pessoas, mais promotora da sua autonomia e até mais benéfica para a economia nacional. Porque é que o Governo gosta de distribuir sopa mas reduz o RSI? Porque o RSI proporciona uma autonomia que o Governo não quer promover. O RSI serve para fazer sopa ou para um bilhete de autocarro. A sopa é só sopa. Não permite veleidades.
Usando habilmente de uma propaganda sem escrúpulos, o Governo e a direita em geral conseguiram difundir a ideia de que o RSI promovia a preguiça e atrofiava a iniciativa, além de gastar recursos gigantescos. Era e é mentira, mas a campanha ajudou a estabelecer a sopa dos pobres como modelo social alternativo.
Mota Soares prefere dar sopa e anunciar que os pobres podem fazer bicha para a sopa. “É bom para o Governo e para a alma”, sonha Mota Soares. “É maravilhoso ter muitos pobres a quem dar sopa, porque quem dá sopa aos pobres pratica a caridade e quem pratica a caridade está na graça de Deus.” É por isso que Mota Soares exulta com a sopa dos pobres. Por isso e porque sabe que na bicha da sopa só estarão os filhos dos outros.»
terça-feira, agosto 20, 2013
Liga-se a televisão e é quase sempre estúpido.Sorri e irrita-se perante o ecrã luminoso com o que querem que sorria e se irrite.
A maioria quase nunca têm razão.
A hiper-informação matou o rigor.
Os livros mais lidos quase nunca perdurarão, quase nunca prestam.
Na arte, os best sellers nunca são long sellers.
A maioria das pessoas defeca opinião sem O MÍNIMO conhecimento das coisas. Assimila acriticamente sem mecanismos de defesa. Cospe pela boca o que lhe impingem no cu. Reproduz, perpetua.
Já viste como se comporta uma multidão, um grupo, uma legião?
segunda-feira, agosto 19, 2013
Tecnologia, o assunto sobre o qual as pessoas não têm visão histórica, caramba, é tão fácil entender o padrão
Vou a uma dessas lojas mais conhecidas - já quase não há telemóveis. Há i/smart/phones. Pergunto ao funcionário. Há lá uns lá para o canto, mas o senhor não queria um equipamento com?
NÃO!
Mas repare tem as mesmas funções e ainda...
NÃO!
É claro que o telemóvel caminha para a extinção. As pessoas - mesmo as mais lúcidas - não têm uma visão geral da tecnologia. Não percebem que tudo caminha para o obsoletismo. E cada vez mais rápido. Não percebem que foi sempre assim. Que as cassetes se foram. Os Beta. Os VHS. Pensam sempre que o que há agora se mantém (seja o DVD ou o telemóvel sem computador). Não mantém.
São tão estúpidas nesta matéria QUE NÃO ENTENDEM QUE UM PRODUTO NOVO ACABA SEMPRE POR APARECER COMO UMA NOVA POSSIBILIDADE ATÉ SE TORNAR OBRIGATÓRIO.
O telemóvel - era uma opção - permitia/concedia a «liberdade» de a pessoa estar mais tempo contactável. Tornou-se obrigatório. Pessoalmente em sociedade. Profissionalmente. E TU TENS DE ESTAR SEMPRE CONTACTÁVEL.
O e-mail, a mesma merda.
Aparecendo sempre com uma possibilidade de liberdade adicional, qualquer nova introdução tecnológica se torna sempre obrigatória (SOCIALMENTE OBRIGATÓRIO, LABORALMENTE OBRIGATÓRIA) e, pior do que isso, RECONFIGURANDO TODA A SOCIEDADE. (VEJAM O AUTOMÓVEL, A TELEVISÃO, A INTERNET.)
domingo, agosto 18, 2013
Quando o trabalho obriga a vender o coração e o sorriso
«”I´m lovin´ it!” A frase vem estampada nos uniformes, nos cartazes, nas embalagens e no material publicitário da cadeia de fast food McDonald”s. O slogan foi criado em 2003 pela agência Heye & Partner (diz-nos a Wikipedia) e desde essa altura que invadiu os milhares de restaurantes da cadeia em todo o mundo. A Heye & Partner tem sede na Alemanha, perto de Munique, e o slogan ecoa num tom moderno esse outro lema alemão famoso: “Arbeit macht Frei.” A primeira versão do “I”m lovin” it!” foi, por isso, “Ich liebe es”. Gosto disto. Estou a adorar! Isto é mesmo porreiro, pá! Este Arbeit dá gozo, meu!
A particularidade do slogan é que não se trata da declaração de um atributo da marca, de um compromisso da empresa, de uma garantia de qualidade, de uma promessa de bom serviço ou de qualquer outra coisa. Este slogan foi criado pela empresa mas é posto na boca dos trabalhadores. Foi criado para que fossem eles a dizê-lo, como se eles o pensassem e o sentissem. A empresa defenderá que se trata de um contrato livre entre duas partes e que ninguém é obrigado a ir trabalhar para a McDonald”s e, portanto, ninguém é obrigado a ostentar o slogan, o que é formalmente verdade, mas todos sabemos o grau de liberdade existente na negociação de contratos de trabalho. Quem vai trabalhar para a McDonald”s tem de fazer o seu trabalho, depressa e bem, e tem de dizer que adora trabalhar ali, ainda que o seu trabalho seja duro, mal pago e precário.
Pode defender-se que isto não é muito diferente de tantas outras obrigações profissionais em que se incorre ao assinar um contrato de trabalho e é evidente que existe da parte de qualquer trabalhador um dever geral de protecção do bom nome da empresa onde se trabalha, mas este “I”m lovin” it!” vai um passo à frente. Este “I”m lovin” it!” não é uma mera defesa da reputação da empresa. Nem é sequer uma mera publicidade da marca, que seria entendível sempre como uma declaração da própria empresa. Este “I”m lovin” it!” obriga todos os trabalhadores a declararem activamente a todo o momento o seu gosto pelo trabalho que fazem e a sua adoração pela empresa que os emprega e a fazê-lo em nome pessoal. É uma usurpação da consciência individual que aqui tem lugar. É um abuso em termos de direitos individuais e um atropelo da liberdade de expressão porque limita a liberdade do indivíduo e se apropria, em benefício do empregador, de algo que é da esfera privada do trabalhador: o seu gosto pessoal, a sua liberdade de declarar aquilo de que gosta ou não gosta. Se cada empregado da McDonald”s trouxesse um autocolante na camisa que dissesse “Os nossos hambúrgueres são os melhores do mundo!” isso seria entendido como uma alegação da empresa, que não comprometeria a identidade de cada trabalhador. Mas ao impor aquele “I” e aquele “lovin”", a McDonald”s visa apropriar-se da alma e do coração das pessoas que trabalham para si. Estas pessoas pertencem-me. Não apenas o seu Arbeit, mas o seu Eu. A questão levanta problemas jurídicos interessantes: se declarar que se adora o seu trabalho faz parte dos deveres de um trabalhador da McDonald”s, será que esse mesmo trabalhador da McDonald”s, nas suas horas livres, pode dizer que detesta o seu trabalho? Repare-se que não se trata de difamar ou de fazer sequer uma crítica ao seu empregador, mas de fazer um comentário que é da estrita esfera pessoal (“não gosto de”).
2. Há muitos exemplos de como as empresas limitam de uma forma cada vez mais insidiosa as liberdades dos seus trabalhadores, impondo ditaduras de facto que restringem o exercício das liberdades cívicas constitucionais a escassas horas da vida dos cidadãos – as que decorrem entre o trabalho e o sono – e se apropriam de uma forma cada vez mais invasiva de espaços reservados da sua vida social e privada.
Uma das formas de repressão laboral que se tornaram mais comuns – em particular nos trabalhadores que têm de atender o público – é a obrigação… de sorrir. Porquê? Pela mesma razão por que os empregados da McDonald”s têm de dizer que adoram o que fazem: porque os magos do marketing descobriram que, assim, os clientes se sentem mais felizes e, quando os clientes se sentem mais felizes, compram mais. E porque, cada vez mais, os patrões pensam que são donos dos seus trabalhadores. Nos Estados Unidos, o sorriso pode ser uma obrigação contratual e a sua falta, justa causa de despedimento. Haverá coisa mais triste? É evidente que todos preferimos ser atendidos por empregados naturalmente alegres e sorridentes, mas será lícito impor, como condição contratual, o sorriso constante? Fará o sorriso parte das obrigações profissionais, como pesar a farinha ou dar informações sobre um frigorífico? Ou fará parte daquele eu íntimo que não queremos e não devemos pôr à venda? Que não se pode pôr à venda porque não é uma mercadoria, porque não foi feito para ser vendido?
Impor um sorriso como ferramenta de trabalho é dizer a uma pessoa que não é dona dos seus sentimentos nem da sua expressão, que eles pertencem “à companhia”, que são meras ferramentas de produção. Impor um sorriso como ferramenta de trabalho é uma forma de proxenetismo, de esclavagismo light, aquele que a gestão moderna se tem empenhado em impor em substituição dos campos de trabalho.»
José Vítor Malheiros
sábado, agosto 17, 2013
quinta-feira, agosto 15, 2013
O FIO VERMELHO DO DESTINO
«O fio vermelho do destino ou fio vermelho é uma lenda chinesa. De acordo com este mito, os deuses amarram uma corda vermelha invisível ao redor dos tornozelos dos homens e mulheres que estão destinados a ser a alma gêmea um do outro.
Segundo a lenda chinesa, a divindade a cargo do "fio" acredita-se ser Xia Lao Yue (muitas vezes abreviado para "Yuelao" , o antigo deus lunar casamenteiro, que é também responsável por casamentos.
"Um fio invisível conecta os que estão destinados a conhecer-se
Independentemente do tempo, lugar ou circunstância
O fio pode esticar ou emaranhar-se
mas nunca irá partir."
- Uma antiga crença chinesa
A lenda , desde então, também se tornou um mito popular na cultura japonesa e história fala sobre um fio invisível que é amarrado no dedo mindinho de duas pessoas que estão destinadas a viverem juntas para sempre. É como uma ligação espiritual que representa o amor eterno.»
http://cultura-japonesa.blogspot.pt/
quarta-feira, agosto 14, 2013
Sei que é ridiculamente banal o que vou dizer. Os heróis modernos não se destacam por uma causa, pela melhoria do bem-estar da comunidade. Vejam-se os ídolos modernos. Veja-se a toponímia. José Mourinho tem uma rua em Setúbal, juntamente com Cunhal. Pesem embora as mil críticas justas (e eu subscrevo-as, até a do social-fascista), Cunhal esteve preso onze anos, foi barbaramente torturado, nunca denunciou um camarada, viveu períodos de total incomunicabilidade - tudo em nome de um ideal para o seu povo e o mundo.
Heróis são outros. Não os modelos, actores de séries ou jogadores de futebol.
Heróis são os que vivem em Portugal com 294 euros ou menos de pensão - um milhão...
Soa a cliché, mas penso neles - penso em como conseguem gerir a sua vida - e, não raras vezes, a dos outros. E como tantos não lamentam a sua condição.
Heróis são os que trabalham 15 horas por dia mais os transportes públicos para os subúrbios para ter 600 euros e governar a sua vida e do cônjuge desempregado e do filho toxicodependente. Tudo isto sem Xanax.
Heróis são os que renunciam à vida confortável e vão para o Haiti salvar vidas.
Heróis são muitos bombeiros. A dita comunicação social deveria falar mais destes heróis anónimos. Aqueles que se penduram num poste ou se lançam no mar bravio arriscando a sua vida para salvar a de outro.
terça-feira, agosto 13, 2013
- Se a felicidade é o intervalo entre as ocupações; sou profundamente infeliz; se a felicidade é como estamos na maior parte do tempo; sou feliz. Passo o dia a trabalhar. O resto a dormir. Mesmo a comer, estou em pequenas reuniões, a despachar assuntos ao telefone e a pensar que não tarda nada estou a trabalhar. Estando no «palco», as coisas são óptimas, ter coisas para fazer e fazê-las, assuntos para resolver e resolvê-los, uma efervescência danada. O melhor são as segundas. O pior é o regresso a casa, o conduzir sem um assunto que possa resolver, as idas à casa de banho em que tenho de me enfrentar só, os sábados longos... Mas regresso sempre ao trabalho e esqueço isso e sinto-me útil, organizado e com um auto-respeito sólido.
segunda-feira, agosto 12, 2013
«A mais completa liberdade [deve] ser garantida a todas as formas de amor e de contacto sexual. Nenhuma sociedade estará jamais segura, em qualquer parte, enquanto uma igreja, um partido ou um grupo de cidadãos hipersensíveis possa ter o direito de governar a vida privada de alguém. [Um dos] prazeres sexuais dos seres humanos tem sido o de reprimir a sexualidade, a própria e a dos outros. Defendo todas as formas de prostituição, como profissão protegida pela lei e vigiada pela saúde pública. Ainda que isso possa chocar muita gente, parece que, desde sempre, houve machos e fêmeas cujo talento na vida, e cuja vocação definida, é emprestarem o próprio corpo. E quem se vende ou quem compra (o que não tem nada a ver com capitalismo, mas com o direito de qualquer pessoa a dispor de si mesma, em acordo com outra) deve ter a protecção da lei contra redes de exploração, chantagens, etc. O que duas pessoas (ou um grupo delas) fazem uma com a outra, fora das vistas dos demais, não diz respeito a esses demais, a não ser que eles vivam na observação mórbida de imaginarem (num misto de horror e curiosidade, que os torna moralistas raivosos) o que os outros fazem. E o que os outros fazem não altera em nada o equilíbrio social. [A pornografia pode ser] um prazer para muita gente e, às vezes, o único que lhes é concedido, pois as pessoas idosas, solitárias, não atractivas, não encontram nunca o chinelo velho para o seu pé doente. Uma prostituição oficializada é obra de caridade para com os feios e os tímidos. [Porque hão-de ser] só os ricos e os de maiores posses a terem acesso à pornografia, e não os pobres? As classes mais desprotegidas deviam ter a sua pornografia mais barata, subsidiada pelo Governo, se o Governo fosse ao mesmo tempo inteligente e progressista nestas matérias. Somos um país imoral, um país depravado às ocultas. Foi isso, no entanto, que nos salvou de mergulhar nas sombras horrendas do puritanismo. Puritanismo que não é parte da nossa herança cultural. Mil vezes a pornografia do que a castração, a prostituição do que a hipocrisia. Se alguma coisa há que deve ser sagrada, é o prazer sexual entre pessoas mutuamente concordantes em dá-lo e recebê-lo, ou negociá-lo. [Os adolescentes e as crianças sempre souberam] muito mais do que os adultos fingem que eles sabem. Raros terão sido os jovens seduzidos na sua inocência. Na maior parte dos casos, o contrário é que é verdade. Se alguma coisa há que deva ser sagrada, é o prazer sexual entre pessoas concordantes em usufruí-lo e partilhá-lo.»
Jorge de Sena
domingo, agosto 11, 2013
- Uma coisa que sempre me inquietou é saber que parte de mim sou eu, aquela parte intacta, incontaminada pela vida, pelos outros, pela sociedade, pela família, pela escola, pelo trabalho. Será que existe essa parte intrínseca? E, por outro lado, essa parte intrínseca se é a que veio comigo, então é aquela sobre a qual tive menor escolha. Porque somos isto e não aquilo? Porque escolhemos o que escolhemos?
sábado, agosto 10, 2013
Tens de ver isto. Tens de ler isto. Tens de ouvir isto.
Pensar que em 1500 a bibliografia da história da humanidade eram 35 000 títulos.
Pensar que isso hoje nasce por dia. De trinta em trinta segundos, um livro.
Soma todos os livros, todas as publicações periódicas, todos os filmes e séries «obrigatórios», todos os vídeos que tens de ver, todos os blogues, todas as notícias relevantes, todas as músicas.
A hiperinformação enlouquece.
Ao longo da conversa, registei algumas frases.
- Não gosto de pornografia. Acho que as pessoas com alguma sensibilidade, regra geral, não gostam.
- Quando vejo um homem muito musculado, penso: «Tanto tempo gasto para ter o corpo assim. Aquilo é uma prioridade para ele. O que poderia ele ter feito com todo aquele tempo... É uma pessoa que não me interessa.»
- O sexo pelo sexo provoca uma sensação pós-coital de tristeza e de um infinito vazio. Pelo menos, para quem não se viciou nisso, para quem pensa sobre as coisas e para quem já experimentou a diferença de sexo com sentimento fundo.
(Ela disse e eu... confesso... acreditei/senti que ela estava a ser autêntica.)
Aquele que Harold Bloom disse nunca ter expelido uma frase errada
A coisa mais banal é maravilhosa se alguém a esconde.
sexta-feira, agosto 09, 2013
A academia moldou-lhe o que pensa. Pior: moldou-lhe como pensa.
Rasurou o arredondado da sua escrita - secando-a, normalizando-a, burrocratizando-a.
Especializou-a - eufemismo para a exclusão progressiva do conhecimento.
As coisas não lhe interessavam - importavam em função da sua carreira. Da sua vaidade.
Os assuntos deixaram de se dividir entre estimulantes e não estimulantes - apenas úteis ou inúteis. (E com o que não se vibra, não se aprende, escreveu Bukowski.)
quinta-feira, agosto 08, 2013
Dizem que uma mente desocupada é uma oficina do Demónio. E é bem verdade. É lá - e só lá - que se filosofa.
O excesso de coisas práticas afasta-te de saberes de onde és e quem és e porque és o que és. Pagar a electricidade, a água, o gás, a multa do carro, ir ao supermercado, ao dentista, arrumar a casa, juntar as facturas. Mas se não fosse isso, terias muito mais problemas mentais - terias de enfrentar o espelho.
quarta-feira, agosto 07, 2013
Agosto
Não o mais cruel dos meses, mas o mais estúpido dos meses. Os raríssimos programas de televisão que valem alguma coisa suspendem-se. Os cronistas vão de férias. Tudo é leve, fútil, estupidificante. A inteligência suspende-se. A inteligência vai de férias. E as medidas mais tenebrosas passam ante a complacência dos dormentes.
terça-feira, agosto 06, 2013
Não temos todos o mesmo nível de consciência. (Seja de empatia com as emoções do Outro, seja de compaixão, seja de autoconhecimento, seja de dimensão metafísica, de densidade psicológica, de sensibilidade às promessas da vida, à poesia.) Não temos todos o mesmo nível de consciência. De forma alguma.
Saber esperar alguém, Maria Gabriela Llansol
Não há mais sublime sedução do que saber esperar alguém./
Compor o corpo, os objectos em sua função, sejam eles/
A boca, os olhos, ou os lábios. Treinar-se a respirar/
Florescentemente. Sorrir pelo ângulo da malícia./
Aspergir de solução libidinal os corredores e a porta./
Velar as janelas com um suspiro próprio. Conceder/
Às cortinas o dom de sombrear. Pegar então num/
Objecto contundente e amaciá-lo com a cor. Rasgar/
Num livro uma página estrategicamente aberta./
Entregar-se a espaços vacilantes. Ficar na dureza/
Firme. Conter. Arrancar ao meu sexo de ler a palavra/
Que te quer. Soprá-la para dentro de ti -------------------/
----------------------------- até que a dor alegre recomece.
segunda-feira, agosto 05, 2013
E o Unabomber é louco? 4
Próximo iPhone poderá ser capaz de reconhecer impressões digitais
O próximo aparelho da Apple, o iOS7, poderá ser dotado de uma função de reconhecimento de impressões digitais.
A notícia é antecipada por fontes especializadas depois da recepção por programadores, esta semana, de uma primeira versão do smartphone - ainda em desenvolvimento - contendo diversos ficheiros relativos a um sistema de reconhecimento por biometria.
A assumpção de que a fabricante norte-americana estará a desenvolver a funcionalidade é reforçada pela aquisição, realizada em agosto de 2012, da empresa AnthenTec, especialista no domínio em causa, por 356 milhões de dólares.
E o Unabomber é louco? 3
ANUNCIADO COM DELEITE NA RTP1 - JÁ PODE ACOMPANHAR AS PULSAÇÕES DOS ATLETAS EM DIRECTO! O MUNDO NÃO ESTÁ LOUCO?
Aplicação portuguesa aproxima ciclismo, ciclistas e aficionados
A Bike Spy surge como uma aplicação de análise em tempo real aos ciclistas, que permite controlar com mais pormenor a velocidade e esforço feito pelos atletas na modalidade.
A poucas semanas do Tour e da Vuelta, duas das principais provas do circuito mundial de ciclismo, e também a poucas semanas do início da Volta a Portugal, a aplicação que se segue destina-se tanto a profissionais, amadores e adeptos da modalidade. A Bike Spy é desenvolvida por portugueses e quer tornar o desporto sobre rodas mais informado.
A aplicação é da responsabilidade da Dailywork, uma empresa da área das tecnologias da informação. A Bike Spy aparece como uma segunda aventura na área do ciclismo, já que a empresa tem uma outra aplicação, a On Bike Computer, que foi desenvolvida em parceria com a Federação de Ciclismo Portuguesa como sistema de apoio a atletas de alto rendimento.
A Bike Spy quer criar uma maior ligação entre público e atletas das diferentes modalidades do ciclismo, seja ele de estrada, BTT ou indoor. No ecrã do telemóvel ou tablet os utilizadores vão poder controlar os valores das pulsações e velocidade com que os ciclistas passam, ajudando a diminuir o conceito de fugacidade.
Mas qual é que é o interesse de saber quais os batimentos cardíacos de um atleta? Ricardo Prata, da Dailywork, recorreu a uma analogia para explicar ao TeK o interesse destes dados: "por exemplo, no futebol há diversas estatísticas e até é apresentada a distância percorrida pelos futebolistas, permitindo assim observar o esforço de cada um". "No ciclismo há interesse em saber a velocidade real e os batimentos cardíacos equivalentes ao esforço", acrescentou.
E o Unabomber é louco? 2
Denunciada mega-fraude que rouba milhares de euros através de SMS
O esquema faz uso de uma rede colaborativa de distribuidores de malware que recebem dinheiro por cada utilizador enganado. A Rússia é um dos mercados onde estas fraudes têm mais impacto, mas pode acontecer o mesmo noutros países.
A empresa de segurança Lookout Mobile Security denunciou um esquema que está a ser usado por empresas russas para roubar dinheiro através da cobrança de SMS por serviços de valor acrescentado, sem que os utilizadores saibam. Estas redes operam de forma aberta e não exigem grandes conhecimentos técnicos.
A revelação foi feita na conferência DEF CON 21 e desmascarou a estratégia usada por dez empresas russas - conhecidas como Malware HQ. Estas empresas criam código malicioso que é integrado em páginas que prometem o download de aplicações famosas - como o Angry Birds e Skype -, mas que acabam por instalar no telemóvel um vírus que envia mensagens de valor acrescentado de forma secreta.
O valor das mensagens varia entre os 3 e 18 dólares - cerca de 2,20 a 13,50 euros - e o dinheiro angariado serve para alimentar uma rede de distribuidores desse malware.
Através de páginas de recrutamento, vários utilizadores podem candidatar-se como distribuidores dos Malware HQ e disseminam os vírus através de perfis falsos no Twitter e de anúncios para plataformas móveis. Os utilizadores são então redirecionados para o download das aplicações falsas que contém código malicioso.
Um dos investigadores da Lookout refere que um dos pontos mais críticos desta mega-fraude é que ela acontece de forma "aberta" na Internet, sem qualquer tentativa de mascarar o negócio ou de o tornar secreto. Existe inclusive uma tabela que mostra quais os parceiros da rede que geraram mais dinheiro, provocando assim uma onda de competitividade e de mais malware na Internet.
Evitar sites e publicidades cuja origem não seja de confiança e fazer download de aplicações apenas através das lojas oficiais dos ecossistemas é uma das formas de evitar cair nestes esquemas. Os investigadores referem que apesar de o esquema ter sido detetado na Rússia, pode ter replicações em vários países do mundo e em escalas diferentes.
A operação da Lookout ficou conhecida como Dragon Lady.
E o Unabomber é louco? 1
Carne produzida a partir de células tronco de boi será consumida por dois voluntários
Reuters
Em laboratório no oeste de Londres vai fazer história culinária e científica na segunda-feira, quando os cientistas cozinharem e servirem o primeiro hambúrguer de carne cultivada em laboratório do mundo.
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Reuters
Mark Post em seu laboratório onde produz carne artificial: processo caro é benéfico ao ambiente
O hambúrguer in-vitro, cultivado a partir de células-tronco de gado --o primeiro exemplo do que o seu criador diz que poderia ser uma resposta à escassez global de alimentos e ajudar a combater a mudança climática--, será frito em uma panela e provado por dois voluntários.
O hambúrguer é o resultado de anos de pesquisa do cientista holandês Mark Post, um biólogo vascular da Universidade de Maastricht, que está trabalhando para mostrar como a carne cultivada pode um dia ser uma verdadeira alternativa à carne de gado.
A carne do hambúrguer foi feita por entrelaçamento de fios de cerca de 20 mil proteínas que têm sido cultivadas a partir de células-tronco de gado no laboratório de Post.
O tecido é produzido colocando as células em um anel, como uma rosca, em torno de um cubo de gel de nutrientes, explicou Post.
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Para preparar o hambúrguer, os cientistas misturaram a carne cultivada com outros ingredientes normalmente utilizados em hambúrgueres, tais como sal, ovos em pó e farinha de rosca. Suco de beterraba vermelha e açafrão foram adicionados para trazer as suas cores naturais.
"Nosso hambúrguer é feito a partir de células musculares retiradas de uma vaca" disse Post em um comunicado na sexta-feira. "Para termos sucesso tem que aparentar e ter gosto da coisa verdadeira."
(Por Kate Kelland)
sábado, agosto 03, 2013
sexta-feira, agosto 02, 2013
«Imagine a society that subjects people to conditions that make them terribly unhappy, then gives them the drugs to take away their unhappiness. Science fiction? It is already happening to some extent in our own society. It is well known that the rate of clinical depression had been greatly increasing in recent decades. We believe that this is due to disruption of the power process, as explained in paragraphs 59-76. But even if we are wrong, the increasing rate of depression is certainly the result of SOME conditions that exist in today's society. Instead of removing the conditions that make people depressed, modern society gives them antidepressant drugs. In effect, antidepressants are a means of modifying an individual's internal state in such a way as to enable him to tolerate social conditions that he would otherwise find intolerable. (Yes, we know that depression is often of purely genetic origin. We are referring here to those cases in which environment plays the predominant role.)»
Pois, já acontece, claro. Tirem os antidepressivos, os antipsicóticos, os ansiolíticos, as redes sociais, as novelas, os casinos, o álcool, etc., etc. e verão quantos pessoas suportam a existência na sociedade moderna.
quinta-feira, agosto 01, 2013
Kafka, o prazer de um chocolate preto
«Muitos se queixam de que as palavras dos sábios frequentemente são apenas parábolas, mas sem utilidade para a nossa vida do dia a dia, que é, afinal, a única que temos. Quando o sábio diz: "Passa para o outro lado", não quer dizer que devemos ir para a outra margem, coisa que sempre poderíamos fazer, se o resultado do caminho valesse a pena. Refere-se, sim, a um lendário outro lado, a qualquer coisa que não conhecemos, que nem ele próprio consegue definir de forma mais exacta, e que por isso não nos serve de nada neste mundo. Todas essas parábolas querem dizer, no fundo, que o inexplicável é inexplicável, e isso já nós sabíamos. Mas aquilo que nos dá que fazer todos os dias são outras coisas.
Ao que alguém disse: "Porquê toda essa resistência? Se vos deixásseis guiar pelas parábolas, transformar-vos-íeis vós próprios em parábolas e ficaríeis livres das canseiras diárias."
E um outro respondeu: "Aposto que também isso é uma parábola."
O primeiro: "Ganhaste."
O segundo: "Sim, mas infelizmente só na parábola."
O primeiro: "Não, na realidade. Na parábola perdeste."»
O Papa, Baptista-Bastos
A visita do Papa Francisco ao Brasil, passada a euforia inicial, poderá, acaso, suscitar alguma reflexão sobre as consequências do acto. Aquele país, o maior, católico, da América Latina, perdeu, nas últimas décadas, mais de 40 por cento dos seus fiéis, em favor de outras confissões e crenças. A perseguição de João Paulo II e de Ratzinger à Teologia da Libertação, que propunha uma Igreja do homem e não, exclusivamente, do divino, do dogma e da obediência, pode ser uma das causas desse cisma. O ser humano tem necessidade de transcendência, e o mundo actual, com o desenvolvimento do capitalismo até capítulos violentíssimos, afastou-o do sagrado e dos laços sociais que o justificam. O Vaticano poucas vezes se refere, criticamente, a este estádio do "sistema", que arrasta consigo um cortejo horroroso de miséria, opressão e terror. E a Igreja portuguesa tem-lhe seguido os passos do silêncio.
O Concílio Vaticano II abriu uma luz no hermetismo canónico e o papa João XXIII reergueu os valores de uma Igreja soterrada com a sua própria essência. É uma época fascinante a vários títulos, sobretudo pela discussão aberta que propõe e estimula.
A festa durou pouco. João Paulo II e Bento VI "normalizaram" o que poderia ser considerado apostasia. São dois reaccionários, um dos quais perigosíssimo, por extremamente culto (Ratzinger), que pretendem, e conseguem, comprimir o tempo, de um modo quase patogénico, promovendo a capacidade de cegueira do grupo, que se define como a rejeição do conhecimento e a repulsa pela dissidência. Seja: a servidão em elevado grau.
Este Papa, o seu discurso e a sua conduta parecem desejar outro modo de ser Igreja, recuperando a expressão "revolucionário" para o trânsito das ideias comuns, como necessidade e como urgência. E di-lo e fá--lo com a simplicidade de quem ainda acredita na força de um humanismo redentor. Devo dizer aos meus Dilectos que este Francisco redespertou-me ressonâncias antigas, como as da reflexão colectiva e da releitura daqueles, como Bertrand Russell (Por Que não Sou Cristão), cujo ateísmo ou agnosticismo não dificultou a pesquisa do sagrado para o reencontro com a própria condição.
Claro que há uma diferenciação de percursos, o que não pode, de maneira alguma, impedir-me de seguir o de este homem que tanto entusiasmo e efusão está a despertar. Há dias, na SIC Notícias, ouvi o franciscano frei Fernando Ventura discretear sobre a natureza essencial do que nos une, sobretudo nas dissemelhanças. É esse lado humano, imperfeito e deformado, essa acumulação de opostos, que garante a alma dos valores, e nos permite questionar sobre o Bem e o Mal, e revelar a qualidade muito pouco cristã de certos políticos portugueses, interrogando-nos sobre se o verdadeiro horizonte estará, mesmo, nessa revolução de que o Papa Francisco falou, nas praias de Copacabana?
Oscar Wilde, o prazer de comer doces compulsivamente
«Só há duas tragédias na vida: uma é não se conseguir o que se quer, a outra
é consegui-lo.»
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