sexta-feira, setembro 13, 2013
As ditaduras começam assim
http://www.dn.pt/politica/interior.aspx?content_id=3417213
http://www.publico.pt/politica/noticia/sondagem-diz-que-87-dos-portugueses-estao-desiludidos-com-a-democracia-1563811
Desafio: escrever um livro sem uma palavra repetida (tirando artigos e preposições, e quando muito advérbios). Já foram publicados livros que começam todos pela mesma letra, sem um único adjectivo, etc. (A designada escrita constrangida.) Prosa, claro. Em poesia, diferente. (Eugénio e a sua casa de palavras.)
1, 2, 3, 4, 5
Estava andar na rua quando um indivíduo a correr me obrigou a desviar. Encostou-se a uma parede, começou a fazer alongamentos enquanto dizia de forma bastante audível: - Um, dois, três, quatro, cinco. Um, dois, três, quatro, cinco. Um, dois, três, quatro, cinco. Mais tarde, alguém me interceptava num chat enquanto trabalhava. Vi que essa me dizia me dizia «Estás aí? 5, 4, 3, 2...» (Respondi antes do um.) No dia seguinte, quando atravessava a passadeira, agradeci ao carro que parava subitamente ao ver o peão. Foda-se! A matrícula era 12-34. Comecei a sentir-me dentro um livro de Auster (acaba de sair em Portugal a tradução do último). Ontem, ao ligar a televisão na SIC Notícias, vi instintivamente as horas: 12h34.
quarta-feira, setembro 11, 2013
A tudo, o mestre budista respondia com duas palavras.
E a morte? Faz parte.
E a dor física? Faz parte.
E o envelhecimento e a decrepitude? Faz parte.
E a tristeza e o desespero que tenho de sentir? Faz parte.
E a crueldade? Faz parte.
E a ignorância? Faz parte.
E a dissolução de todos os laços? Faz parte.
terça-feira, setembro 10, 2013
O último poema, Manuel Bandeira
Assim eu quereria meu último poema/
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais/
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas/
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume/
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos/
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.
segunda-feira, setembro 09, 2013
sexta-feira, setembro 06, 2013
quarta-feira, setembro 04, 2013
Compartimentar
Claro que está que ninguém consegue estar inteiramente no presente, sem sombras e fantasmas do passado e sem inquietações quanto ao futuro.
Claro que está que a maioria conhece, instintivamente que seja, os velhos adágios: grandes desgraças curam desgraças (há sempre alguém pior do que tu); não há bem ou mal que sempre dure; um homem pode ser destruído, mas não pode ser derrotado (EH); somos damos valor àquilo que perdemos desperdiçando o milagre que é ter saúde, ter os entes amados vivos, ter um tecto e comida; aquilo que não podes mudar, aceita - aquilo que podes mudar - luta, basta adquirires a sabedoria ao longo da vida para distinguir as duas.
Ajudam, é certo.
O envelhecer também ajuda - sempre vi o envelhecimento um abrandamento, uma moderação das paixões da alma. Envelhecer é não nos deixarmos atingir tanto pela vida. A alma calejada não se deixa voar estonteante na felicidade nem afundar no mais fundo abismo na melancolia. Muitos anciãos dizem que é isso a paz.
Tudo esta introdução serve para apresentar uma ideia. Eis uma definição: a felicidade depende da capacidade de lidar com o verbo «compartimentar».
Todos temos problemas (um truísmo) - mas a capacidade de usufruir da vida depende de como conseguimos absorver cada momento feliz, cada pequeno pormenor, o modo como conseguimos olhar um campo de girassóis no meio do trânsito infernal.
Lembro-me sempre de duas histórias e de uma vivência. (E em todas emerge o padrão: compartimentar é o essencial.
A primeira história é a do britânico fleumático que, ao sair da sua empresa na sexta-feira à noite, viu um envelope esquecido. Abriu a carta. A sua empresa falira. Fechou o envelope e disse: «Muito vou ter de me preocupar na segunda-feira.»
A segunda é a do budista que em meio do apocalipse, vendavais, destruição, limpava com uma vassoura sorrindo um cantinho da estrada. (E cruzo isto com Tolstoi: se queres ser universal, pinta a tua aldeia.)
A terceira (real) é da pessoa que eu conheci que mais bem sabia compartimentar. Nas férias que passámos, ele recebeu notícias terríveis da sua saúde de um familiar internado, enquanto lhe ligava a toda a hora da sua empresa de «eventos» a pedir isto e aquilo. Lembro-me de estar com ele nas montanhas a ver uma paisagem e de ele estar absolutamente concentrado (e contudo leve), extático, a contemplar um sol róseo, o céu na nossa frente, o azul límpido, e de me dizer com um sorriso: «Estou a ter uma epifania. Passei de ateu a agnóstico.»
«A lentidão, que na verdade foi sempre uma condição sine qua non da civilização, tem vindo a ser cada vez mais substituída por uma apologia estonteada da velocidade, que se tornou, como escreveu Milan Kundera, na forma contemporânea do êxtase, apesar de muitas vezes mais não ser do que um atalho para o regresso à selva. Institui-se deste modo uma tirania do imediato que [...] se acompanha de um incentivo à excitação cada vez mais alucinada que atravessa todo o sistema de comunicação - imprensa, televisões, blogosfera, redes sociais, etc. -, transformando cada cidadão num espectador histérico, preso a narrativas que o hipnotizam e manipulam sem fim nem contraponto.»
Manuel Maria Carrilho
uma palavrinha sobre os fazedores de poemas rápidos e modernos
é muito fácil parecer moderno/
enquanto se é o maior idiota jamais nascido;/
eu sei; eu joguei fora um material horrível/
mas não tão horrível como o que leio nas revistas;/
eu tenho uma honestidade interior nascida de putas e hospitais/
que não me deixará fingir que sou/
uma coisa que não sou —/
o que seria um duplo fracasso: o fracasso de uma pessoa/
na poesia/
e o fracasso de uma pessoa/
na vida./
e quando você falha na poesia/
você erra a vida,/
e quando você falha na vida/
você nunca nasceu/
não importa o nome que sua mãe lhe deu./
as arquibancadas estão cheias de mortos/
aclamando um vencedor/
esperando um número que os carregue de volta/
para a vida,/
mas não é tão fácil assim —/
tal como no poema/
se você está morto/
você podia também ser enterrado/
e jogar fora a máquina de escrever/
e parar de se enganar com/
poemas cavalos mulheres a vida:/
você está entulhando a saída — portanto saia logo/
e desista das/
poucas preciosas/
páginas.
Charles Bukowski
domingo, setembro 01, 2013
JAAB ou José Alberto Braga, o grande frasista
«O preço da liberdade é a eterna vigilância. Ou cem mil dólares ao câmbio de hoje.»
quinta-feira, agosto 29, 2013
Percebi o paradoxo: porque gosto tanto de policiais (Rex Stout, o Maior) e porque, ainda assim, não os considero, regra geral, bons livros.
A perda de vontade de releitura. Livros há que te prendem do início ao fim - mas cuja releitura é enfadonha. O final está fechado. Estiveste suspenso à espera de obter algo - depois de o obteres, a releitura (se a memória guarda esse algo) é vã.
terça-feira, agosto 27, 2013
Conheci um casal no mundo rural que está junto há mais de trinta e cinco anos. À lareira, um senhor de idade respeitável contar-me-ia:
- Aquele senhor que estava a falar contigo é o grande amor da vida dela e ela é o grande amor da vida dele.
- A sério?
- É das poucas certezas que tenho na vida, rapaz.
- Eles namoraram?
- Eles nunca tiveram nada, rapaz. Os tempos também eram outros.
- E eles sabem?
- Não sei. É assim desde criança.
- E a mulher dele e o marido dela sabem?
- Penso que não. Mas amor e tosse não se escondem, não é? Viste o olhar deles? Vê. Repara como olham um para o outro.
- Desculpe a indiscrição, mas como é que tem essa certeza?
- Sei desde que éramos miúdos e brincávamos com fisgas junto do muro da igreja. Ele chorava por ela. Sou amigo dele há mais de sessenta anos.
- Ele nunca lhe disse a ela?
- Nunca. Nem ela a ele. Dela sei pela minha mulher, que é amiga dela há muito tempo.
- Como é possível?
- Não sei, orgulho, timidez. Essas coisas acontecem.
domingo, agosto 25, 2013
Conversas da burguesia interceptadas num restaurante
Pai 1: - O João tirou agora um MBA, foi o melhor aluno da turma. E ele dá-se muito bem lá com os colegas. Vai jantar com eles e tudo. Pode ser que arranje lá um bom contacto...
Pai 2: - Sim, senhor. O João sempre foi um rapaz socialmente muito bem enquadrado.
Pai 1: - É, mas o gajo, pá, tem a mania de tirar dúvidas aos outros. Já lhe disse mais do que uma vezes: não dês o teu conhecimento, vende-o. Ninguém dá nada a ninguém. Até uma cantora anda lá no MBA, veja lá... Eu vi umas fotos dela no Facebook. Uma tipa jeitosa... O João tira-lhe dúvidas... Uma cantora... Aquele João tem uma paciência. Para dar umas voltas, ainda vá. Mas, porra, não quero netos de uma cantora.
Pai 2: - Ele sabe o que faz. É uma pessoa dirigida.
Pai 1: - Ele gasta é um balúrdio em fatos. Agora, descobriu o Rosa & Teixeira e não quer outra coisa. Gasta muito. Já lhe disse que parece o Governo socialista.
(Risos.)
Pai 2: - A paixão do Eduardo são os carros. Agora, anda fisgado num Audi. Aquilo tem umas jantes e um motor que é um espectáculo, pá. Ele era para vir hoje, mas já tinha combinado andar lá com os colegas de mota de água.
Pai 1: - Fez bem, fez bem. Quando é ele volta para Angola?
Pai 2: - No fim do mês, no fim do mês. Então e o meu amigo já deixou o golfe?
Pai 1: - Oh, pá, a malta lá da Sonae é uma brigada de artroses.
(Risos.)
Pai 2: - Um dia destes, desafiou-o para um partidinha de squash?
Pai 1: - Não tenho coração para isso.
Pai 2: Faz ao seu ritmo. Vai gostar. Levo-o ao meu ginásio, aquele tem umas pequenas bem jeitosas. E não há ali pé de chinelo... Um sítio óptimo.
Pai 1: Ténis ainda aceito.
Pai 2: Também pode ser. Tem de fazer desporto.
Pai 1: A Mariana é que é uma boa jogadora. Ela foi campeã inter-regional aos 17 anos.
Pai 2: Vai um uisquezinho?
Pai 1: Sim. Chame aí a rapariga.
- Queres ir sair?
- Obrigado, mas só se houver mulheres. Sem mulheres, mesmo só para conversar, nota bem; sem mulheres, a noite é um bocejo. Já não tenho a mínima paciência. Muito raramente, para aí uma em duzentas, há uma noite em que tenho uma conversa invulgarmente estimulante com um homem; mas é tão raro, que já só saio para a noite na noite havendo elementos femininos. Até porque depois as outras olham mais e baixam as defesas. Elas sentem o desespero e a solidão num homem a quilómetros de distância.
quinta-feira, agosto 22, 2013
quarta-feira, agosto 21, 2013
Casado, quotidiano, tributável e fútil
Ele 1 não tem «família» - no sentido clássico. Vive com a namorada do momento. É visto pelos amigos como tendo falhado numa dimensão da vida. Mas ele é feliz assim.
Ele 2 ganhava 3000 € numa empresa de grafismo com código de indumentária, horários, obediência a parâmetros que no seu entendimento lhe cerceavam a arte. Deixou o trabalho, ganhou um terço enquanto trabalhador independente - baixou de estatuto, eles dizem. «O poder dispor do meu tempo, o poder ir a uma esplanada às três da tarde ou passear a minha filha num jardim vale mais do que dez ordenados», ele disse-lhes.
O regresso da sopa dos pobres como modelo de apoio social (José Vítor Malheiros)
«O filho mais velho de Cláudia tem dez anos e acompanha a mãe e os dois irmãos mais pequenos à cantina social de Matosinhos. Levam sacos com recipientes vazios que vão levar para casa com o almoço da família. Pai e mãe estão desempregados e o subsídio de desemprego não chega para cobrir as despesas e comprar comida para todos. Ao entrar na cantina, o rapaz cruzou-se com um colega da escola, que deve ter percebido o que a família ia fazer. “Que vergonha!”, disse o rapaz à mãe.
A história é contada numa reportagem de Ana Cristina Pereira, publicada há poucos dias nestas páginas, a par de um artigo de Andreia Sanches sobre o Programa de Emergência Alimentar. E nós não podemos senão repetir, como o filho mais velho de Cláudia, “Que vergonha!”.
Que vergonha que o Governo de Passos Coelho esteja a mergulhar cada vez mais famílias na pobreza, a destruir os apoios sociais a que todos os cidadãos têm direito nos momentos de necessidade e para os quais todos contribuímos, e a substituí-los por humilhantes programas de caridade, onde os direitos se transformam em esmolas, onde a dignidade das pessoas é ofendida, onde a sua autonomia é negada, onde a sua perda de estatuto é ofensivamente reiterada dia após dia.
É infame que o ministro Mota Soares envergonhe o filho mais velho de Cláudia, uma criança de dez anos cujo único crime é ter pais desempregados. É infame que o ministro Mota Soares apenas aceite alimentar os filhos das Cláudias em troca da sua humilhação. Mas Mota Soares, que de facto é não só ministro para a Promoção da Miséria mas também grão-mestre da Humilhação dos Pobres, não se fica por aqui. Há todos os dias milhares e milhares de crianças que comem a sopa da caridade, sob o olhar envergonhado dos pais, e que rezam para que nenhum colega da escola os veja entrar numa cantina social ou entrar de sacos vazios e sair de sacos cheios de uma IPSS ou de um Centro Paroquial. Mota Soares pode achar esta vergonha despropositada em miseráveis, pode considerar que todos eles têm muita sorte por ter a sua sopinha grátis e pode até argumentar que seria pior se não a tivessem, mas a questão é que o Estado tem o dever de proteger os direitos das pessoas em geral e dos seus cidadãos mais frágeis em particular e que estas doações não são senão retribuições que a sociedade lhes deve – como no-las deve a cada um de nós em caso de necessidade porque todos contribuímos solidariamente uns para os outros. Mota Soares não percebe que o seu papel é gerir os recursos de todos de acordo com as políticas solidárias que a sociedade colectivamente sancionou e não impor um programa de submissão dos pobrezinhos para aterrorizar os trabalhadores e facilitar o ataque aos seus direitos. Mota Soares não percebe que as pessoas são todas iguais em direitos e dignidade e que não pode impor aos filhos dos mais pobres o que nunca admitiria que fosse imposto aos seus filhos. Mota Soares não percebe que está a vender a sua sopa a um preço demasiado alto.
Mota Soares não percebe que é abjecto organizar apoios sociais de uma forma que humilha os necessitados, que eterniza a sua dependência porque não lhes permite qualquer autonomia e que nem sequer é a mais eficiente.
Há 415.000 portugueses que vivem de alimentos doados, quer pelo Banco Alimentar contra a Fome quer pelas cantinas sociais do Programa de Emergência Alimentar. Se somarmos a estes os que são alimentados por organizações privadas que não estão ligadas àqueles programas e por indivíduos a título pessoal, o número excederá certamente o meio milhão. Meio milhão de pessoas que só podem comer todos os dias se forem pedir comida.
O Programa Alimentar de Emergência cresceu paralelamente à redução das prestações e do âmbito do rendimento social de inserção (RSI), que apoia cada vez menos pessoas apesar do evidente aumento das necessidades, mas todos os especialistas consideram que um grande alargamento do RSI seria a medida mais justa, mais respeitadora da dignidade das pessoas, mais promotora da sua autonomia e até mais benéfica para a economia nacional. Porque é que o Governo gosta de distribuir sopa mas reduz o RSI? Porque o RSI proporciona uma autonomia que o Governo não quer promover. O RSI serve para fazer sopa ou para um bilhete de autocarro. A sopa é só sopa. Não permite veleidades.
Usando habilmente de uma propaganda sem escrúpulos, o Governo e a direita em geral conseguiram difundir a ideia de que o RSI promovia a preguiça e atrofiava a iniciativa, além de gastar recursos gigantescos. Era e é mentira, mas a campanha ajudou a estabelecer a sopa dos pobres como modelo social alternativo.
Mota Soares prefere dar sopa e anunciar que os pobres podem fazer bicha para a sopa. “É bom para o Governo e para a alma”, sonha Mota Soares. “É maravilhoso ter muitos pobres a quem dar sopa, porque quem dá sopa aos pobres pratica a caridade e quem pratica a caridade está na graça de Deus.” É por isso que Mota Soares exulta com a sopa dos pobres. Por isso e porque sabe que na bicha da sopa só estarão os filhos dos outros.»
terça-feira, agosto 20, 2013
Liga-se a televisão e é quase sempre estúpido.Sorri e irrita-se perante o ecrã luminoso com o que querem que sorria e se irrite.
A maioria quase nunca têm razão.
A hiper-informação matou o rigor.
Os livros mais lidos quase nunca perdurarão, quase nunca prestam.
Na arte, os best sellers nunca são long sellers.
A maioria das pessoas defeca opinião sem O MÍNIMO conhecimento das coisas. Assimila acriticamente sem mecanismos de defesa. Cospe pela boca o que lhe impingem no cu. Reproduz, perpetua.
Já viste como se comporta uma multidão, um grupo, uma legião?
segunda-feira, agosto 19, 2013
Tecnologia, o assunto sobre o qual as pessoas não têm visão histórica, caramba, é tão fácil entender o padrão
Vou a uma dessas lojas mais conhecidas - já quase não há telemóveis. Há i/smart/phones. Pergunto ao funcionário. Há lá uns lá para o canto, mas o senhor não queria um equipamento com?
NÃO!
Mas repare tem as mesmas funções e ainda...
NÃO!
É claro que o telemóvel caminha para a extinção. As pessoas - mesmo as mais lúcidas - não têm uma visão geral da tecnologia. Não percebem que tudo caminha para o obsoletismo. E cada vez mais rápido. Não percebem que foi sempre assim. Que as cassetes se foram. Os Beta. Os VHS. Pensam sempre que o que há agora se mantém (seja o DVD ou o telemóvel sem computador). Não mantém.
São tão estúpidas nesta matéria QUE NÃO ENTENDEM QUE UM PRODUTO NOVO ACABA SEMPRE POR APARECER COMO UMA NOVA POSSIBILIDADE ATÉ SE TORNAR OBRIGATÓRIO.
O telemóvel - era uma opção - permitia/concedia a «liberdade» de a pessoa estar mais tempo contactável. Tornou-se obrigatório. Pessoalmente em sociedade. Profissionalmente. E TU TENS DE ESTAR SEMPRE CONTACTÁVEL.
O e-mail, a mesma merda.
Aparecendo sempre com uma possibilidade de liberdade adicional, qualquer nova introdução tecnológica se torna sempre obrigatória (SOCIALMENTE OBRIGATÓRIO, LABORALMENTE OBRIGATÓRIA) e, pior do que isso, RECONFIGURANDO TODA A SOCIEDADE. (VEJAM O AUTOMÓVEL, A TELEVISÃO, A INTERNET.)
domingo, agosto 18, 2013
Quando o trabalho obriga a vender o coração e o sorriso
«”I´m lovin´ it!” A frase vem estampada nos uniformes, nos cartazes, nas embalagens e no material publicitário da cadeia de fast food McDonald”s. O slogan foi criado em 2003 pela agência Heye & Partner (diz-nos a Wikipedia) e desde essa altura que invadiu os milhares de restaurantes da cadeia em todo o mundo. A Heye & Partner tem sede na Alemanha, perto de Munique, e o slogan ecoa num tom moderno esse outro lema alemão famoso: “Arbeit macht Frei.” A primeira versão do “I”m lovin” it!” foi, por isso, “Ich liebe es”. Gosto disto. Estou a adorar! Isto é mesmo porreiro, pá! Este Arbeit dá gozo, meu!
A particularidade do slogan é que não se trata da declaração de um atributo da marca, de um compromisso da empresa, de uma garantia de qualidade, de uma promessa de bom serviço ou de qualquer outra coisa. Este slogan foi criado pela empresa mas é posto na boca dos trabalhadores. Foi criado para que fossem eles a dizê-lo, como se eles o pensassem e o sentissem. A empresa defenderá que se trata de um contrato livre entre duas partes e que ninguém é obrigado a ir trabalhar para a McDonald”s e, portanto, ninguém é obrigado a ostentar o slogan, o que é formalmente verdade, mas todos sabemos o grau de liberdade existente na negociação de contratos de trabalho. Quem vai trabalhar para a McDonald”s tem de fazer o seu trabalho, depressa e bem, e tem de dizer que adora trabalhar ali, ainda que o seu trabalho seja duro, mal pago e precário.
Pode defender-se que isto não é muito diferente de tantas outras obrigações profissionais em que se incorre ao assinar um contrato de trabalho e é evidente que existe da parte de qualquer trabalhador um dever geral de protecção do bom nome da empresa onde se trabalha, mas este “I”m lovin” it!” vai um passo à frente. Este “I”m lovin” it!” não é uma mera defesa da reputação da empresa. Nem é sequer uma mera publicidade da marca, que seria entendível sempre como uma declaração da própria empresa. Este “I”m lovin” it!” obriga todos os trabalhadores a declararem activamente a todo o momento o seu gosto pelo trabalho que fazem e a sua adoração pela empresa que os emprega e a fazê-lo em nome pessoal. É uma usurpação da consciência individual que aqui tem lugar. É um abuso em termos de direitos individuais e um atropelo da liberdade de expressão porque limita a liberdade do indivíduo e se apropria, em benefício do empregador, de algo que é da esfera privada do trabalhador: o seu gosto pessoal, a sua liberdade de declarar aquilo de que gosta ou não gosta. Se cada empregado da McDonald”s trouxesse um autocolante na camisa que dissesse “Os nossos hambúrgueres são os melhores do mundo!” isso seria entendido como uma alegação da empresa, que não comprometeria a identidade de cada trabalhador. Mas ao impor aquele “I” e aquele “lovin”", a McDonald”s visa apropriar-se da alma e do coração das pessoas que trabalham para si. Estas pessoas pertencem-me. Não apenas o seu Arbeit, mas o seu Eu. A questão levanta problemas jurídicos interessantes: se declarar que se adora o seu trabalho faz parte dos deveres de um trabalhador da McDonald”s, será que esse mesmo trabalhador da McDonald”s, nas suas horas livres, pode dizer que detesta o seu trabalho? Repare-se que não se trata de difamar ou de fazer sequer uma crítica ao seu empregador, mas de fazer um comentário que é da estrita esfera pessoal (“não gosto de”).
2. Há muitos exemplos de como as empresas limitam de uma forma cada vez mais insidiosa as liberdades dos seus trabalhadores, impondo ditaduras de facto que restringem o exercício das liberdades cívicas constitucionais a escassas horas da vida dos cidadãos – as que decorrem entre o trabalho e o sono – e se apropriam de uma forma cada vez mais invasiva de espaços reservados da sua vida social e privada.
Uma das formas de repressão laboral que se tornaram mais comuns – em particular nos trabalhadores que têm de atender o público – é a obrigação… de sorrir. Porquê? Pela mesma razão por que os empregados da McDonald”s têm de dizer que adoram o que fazem: porque os magos do marketing descobriram que, assim, os clientes se sentem mais felizes e, quando os clientes se sentem mais felizes, compram mais. E porque, cada vez mais, os patrões pensam que são donos dos seus trabalhadores. Nos Estados Unidos, o sorriso pode ser uma obrigação contratual e a sua falta, justa causa de despedimento. Haverá coisa mais triste? É evidente que todos preferimos ser atendidos por empregados naturalmente alegres e sorridentes, mas será lícito impor, como condição contratual, o sorriso constante? Fará o sorriso parte das obrigações profissionais, como pesar a farinha ou dar informações sobre um frigorífico? Ou fará parte daquele eu íntimo que não queremos e não devemos pôr à venda? Que não se pode pôr à venda porque não é uma mercadoria, porque não foi feito para ser vendido?
Impor um sorriso como ferramenta de trabalho é dizer a uma pessoa que não é dona dos seus sentimentos nem da sua expressão, que eles pertencem “à companhia”, que são meras ferramentas de produção. Impor um sorriso como ferramenta de trabalho é uma forma de proxenetismo, de esclavagismo light, aquele que a gestão moderna se tem empenhado em impor em substituição dos campos de trabalho.»
José Vítor Malheiros
sábado, agosto 17, 2013
quinta-feira, agosto 15, 2013
O FIO VERMELHO DO DESTINO
«O fio vermelho do destino ou fio vermelho é uma lenda chinesa. De acordo com este mito, os deuses amarram uma corda vermelha invisível ao redor dos tornozelos dos homens e mulheres que estão destinados a ser a alma gêmea um do outro.
Segundo a lenda chinesa, a divindade a cargo do "fio" acredita-se ser Xia Lao Yue (muitas vezes abreviado para "Yuelao" , o antigo deus lunar casamenteiro, que é também responsável por casamentos.
"Um fio invisível conecta os que estão destinados a conhecer-se
Independentemente do tempo, lugar ou circunstância
O fio pode esticar ou emaranhar-se
mas nunca irá partir."
- Uma antiga crença chinesa
A lenda , desde então, também se tornou um mito popular na cultura japonesa e história fala sobre um fio invisível que é amarrado no dedo mindinho de duas pessoas que estão destinadas a viverem juntas para sempre. É como uma ligação espiritual que representa o amor eterno.»
http://cultura-japonesa.blogspot.pt/
quarta-feira, agosto 14, 2013
Sei que é ridiculamente banal o que vou dizer. Os heróis modernos não se destacam por uma causa, pela melhoria do bem-estar da comunidade. Vejam-se os ídolos modernos. Veja-se a toponímia. José Mourinho tem uma rua em Setúbal, juntamente com Cunhal. Pesem embora as mil críticas justas (e eu subscrevo-as, até a do social-fascista), Cunhal esteve preso onze anos, foi barbaramente torturado, nunca denunciou um camarada, viveu períodos de total incomunicabilidade - tudo em nome de um ideal para o seu povo e o mundo.
Heróis são outros. Não os modelos, actores de séries ou jogadores de futebol.
Heróis são os que vivem em Portugal com 294 euros ou menos de pensão - um milhão...
Soa a cliché, mas penso neles - penso em como conseguem gerir a sua vida - e, não raras vezes, a dos outros. E como tantos não lamentam a sua condição.
Heróis são os que trabalham 15 horas por dia mais os transportes públicos para os subúrbios para ter 600 euros e governar a sua vida e do cônjuge desempregado e do filho toxicodependente. Tudo isto sem Xanax.
Heróis são os que renunciam à vida confortável e vão para o Haiti salvar vidas.
Heróis são muitos bombeiros. A dita comunicação social deveria falar mais destes heróis anónimos. Aqueles que se penduram num poste ou se lançam no mar bravio arriscando a sua vida para salvar a de outro.
terça-feira, agosto 13, 2013
- Se a felicidade é o intervalo entre as ocupações; sou profundamente infeliz; se a felicidade é como estamos na maior parte do tempo; sou feliz. Passo o dia a trabalhar. O resto a dormir. Mesmo a comer, estou em pequenas reuniões, a despachar assuntos ao telefone e a pensar que não tarda nada estou a trabalhar. Estando no «palco», as coisas são óptimas, ter coisas para fazer e fazê-las, assuntos para resolver e resolvê-los, uma efervescência danada. O melhor são as segundas. O pior é o regresso a casa, o conduzir sem um assunto que possa resolver, as idas à casa de banho em que tenho de me enfrentar só, os sábados longos... Mas regresso sempre ao trabalho e esqueço isso e sinto-me útil, organizado e com um auto-respeito sólido.
segunda-feira, agosto 12, 2013
«A mais completa liberdade [deve] ser garantida a todas as formas de amor e de contacto sexual. Nenhuma sociedade estará jamais segura, em qualquer parte, enquanto uma igreja, um partido ou um grupo de cidadãos hipersensíveis possa ter o direito de governar a vida privada de alguém. [Um dos] prazeres sexuais dos seres humanos tem sido o de reprimir a sexualidade, a própria e a dos outros. Defendo todas as formas de prostituição, como profissão protegida pela lei e vigiada pela saúde pública. Ainda que isso possa chocar muita gente, parece que, desde sempre, houve machos e fêmeas cujo talento na vida, e cuja vocação definida, é emprestarem o próprio corpo. E quem se vende ou quem compra (o que não tem nada a ver com capitalismo, mas com o direito de qualquer pessoa a dispor de si mesma, em acordo com outra) deve ter a protecção da lei contra redes de exploração, chantagens, etc. O que duas pessoas (ou um grupo delas) fazem uma com a outra, fora das vistas dos demais, não diz respeito a esses demais, a não ser que eles vivam na observação mórbida de imaginarem (num misto de horror e curiosidade, que os torna moralistas raivosos) o que os outros fazem. E o que os outros fazem não altera em nada o equilíbrio social. [A pornografia pode ser] um prazer para muita gente e, às vezes, o único que lhes é concedido, pois as pessoas idosas, solitárias, não atractivas, não encontram nunca o chinelo velho para o seu pé doente. Uma prostituição oficializada é obra de caridade para com os feios e os tímidos. [Porque hão-de ser] só os ricos e os de maiores posses a terem acesso à pornografia, e não os pobres? As classes mais desprotegidas deviam ter a sua pornografia mais barata, subsidiada pelo Governo, se o Governo fosse ao mesmo tempo inteligente e progressista nestas matérias. Somos um país imoral, um país depravado às ocultas. Foi isso, no entanto, que nos salvou de mergulhar nas sombras horrendas do puritanismo. Puritanismo que não é parte da nossa herança cultural. Mil vezes a pornografia do que a castração, a prostituição do que a hipocrisia. Se alguma coisa há que deve ser sagrada, é o prazer sexual entre pessoas mutuamente concordantes em dá-lo e recebê-lo, ou negociá-lo. [Os adolescentes e as crianças sempre souberam] muito mais do que os adultos fingem que eles sabem. Raros terão sido os jovens seduzidos na sua inocência. Na maior parte dos casos, o contrário é que é verdade. Se alguma coisa há que deva ser sagrada, é o prazer sexual entre pessoas concordantes em usufruí-lo e partilhá-lo.»
Jorge de Sena
domingo, agosto 11, 2013
- Uma coisa que sempre me inquietou é saber que parte de mim sou eu, aquela parte intacta, incontaminada pela vida, pelos outros, pela sociedade, pela família, pela escola, pelo trabalho. Será que existe essa parte intrínseca? E, por outro lado, essa parte intrínseca se é a que veio comigo, então é aquela sobre a qual tive menor escolha. Porque somos isto e não aquilo? Porque escolhemos o que escolhemos?
sábado, agosto 10, 2013
Tens de ver isto. Tens de ler isto. Tens de ouvir isto.
Pensar que em 1500 a bibliografia da história da humanidade eram 35 000 títulos.
Pensar que isso hoje nasce por dia. De trinta em trinta segundos, um livro.
Soma todos os livros, todas as publicações periódicas, todos os filmes e séries «obrigatórios», todos os vídeos que tens de ver, todos os blogues, todas as notícias relevantes, todas as músicas.
A hiperinformação enlouquece.
Ao longo da conversa, registei algumas frases.
- Não gosto de pornografia. Acho que as pessoas com alguma sensibilidade, regra geral, não gostam.
- Quando vejo um homem muito musculado, penso: «Tanto tempo gasto para ter o corpo assim. Aquilo é uma prioridade para ele. O que poderia ele ter feito com todo aquele tempo... É uma pessoa que não me interessa.»
- O sexo pelo sexo provoca uma sensação pós-coital de tristeza e de um infinito vazio. Pelo menos, para quem não se viciou nisso, para quem pensa sobre as coisas e para quem já experimentou a diferença de sexo com sentimento fundo.
(Ela disse e eu... confesso... acreditei/senti que ela estava a ser autêntica.)
Aquele que Harold Bloom disse nunca ter expelido uma frase errada
A coisa mais banal é maravilhosa se alguém a esconde.
sexta-feira, agosto 09, 2013
A academia moldou-lhe o que pensa. Pior: moldou-lhe como pensa.
Rasurou o arredondado da sua escrita - secando-a, normalizando-a, burrocratizando-a.
Especializou-a - eufemismo para a exclusão progressiva do conhecimento.
As coisas não lhe interessavam - importavam em função da sua carreira. Da sua vaidade.
Os assuntos deixaram de se dividir entre estimulantes e não estimulantes - apenas úteis ou inúteis. (E com o que não se vibra, não se aprende, escreveu Bukowski.)
quinta-feira, agosto 08, 2013
Dizem que uma mente desocupada é uma oficina do Demónio. E é bem verdade. É lá - e só lá - que se filosofa.
O excesso de coisas práticas afasta-te de saberes de onde és e quem és e porque és o que és. Pagar a electricidade, a água, o gás, a multa do carro, ir ao supermercado, ao dentista, arrumar a casa, juntar as facturas. Mas se não fosse isso, terias muito mais problemas mentais - terias de enfrentar o espelho.
quarta-feira, agosto 07, 2013
Agosto
Não o mais cruel dos meses, mas o mais estúpido dos meses. Os raríssimos programas de televisão que valem alguma coisa suspendem-se. Os cronistas vão de férias. Tudo é leve, fútil, estupidificante. A inteligência suspende-se. A inteligência vai de férias. E as medidas mais tenebrosas passam ante a complacência dos dormentes.
terça-feira, agosto 06, 2013
Não temos todos o mesmo nível de consciência. (Seja de empatia com as emoções do Outro, seja de compaixão, seja de autoconhecimento, seja de dimensão metafísica, de densidade psicológica, de sensibilidade às promessas da vida, à poesia.) Não temos todos o mesmo nível de consciência. De forma alguma.
Saber esperar alguém, Maria Gabriela Llansol
Não há mais sublime sedução do que saber esperar alguém./
Compor o corpo, os objectos em sua função, sejam eles/
A boca, os olhos, ou os lábios. Treinar-se a respirar/
Florescentemente. Sorrir pelo ângulo da malícia./
Aspergir de solução libidinal os corredores e a porta./
Velar as janelas com um suspiro próprio. Conceder/
Às cortinas o dom de sombrear. Pegar então num/
Objecto contundente e amaciá-lo com a cor. Rasgar/
Num livro uma página estrategicamente aberta./
Entregar-se a espaços vacilantes. Ficar na dureza/
Firme. Conter. Arrancar ao meu sexo de ler a palavra/
Que te quer. Soprá-la para dentro de ti -------------------/
----------------------------- até que a dor alegre recomece.
segunda-feira, agosto 05, 2013
E o Unabomber é louco? 4
Próximo iPhone poderá ser capaz de reconhecer impressões digitais
O próximo aparelho da Apple, o iOS7, poderá ser dotado de uma função de reconhecimento de impressões digitais.
A notícia é antecipada por fontes especializadas depois da recepção por programadores, esta semana, de uma primeira versão do smartphone - ainda em desenvolvimento - contendo diversos ficheiros relativos a um sistema de reconhecimento por biometria.
A assumpção de que a fabricante norte-americana estará a desenvolver a funcionalidade é reforçada pela aquisição, realizada em agosto de 2012, da empresa AnthenTec, especialista no domínio em causa, por 356 milhões de dólares.
E o Unabomber é louco? 3
ANUNCIADO COM DELEITE NA RTP1 - JÁ PODE ACOMPANHAR AS PULSAÇÕES DOS ATLETAS EM DIRECTO! O MUNDO NÃO ESTÁ LOUCO?
Aplicação portuguesa aproxima ciclismo, ciclistas e aficionados
A Bike Spy surge como uma aplicação de análise em tempo real aos ciclistas, que permite controlar com mais pormenor a velocidade e esforço feito pelos atletas na modalidade.
A poucas semanas do Tour e da Vuelta, duas das principais provas do circuito mundial de ciclismo, e também a poucas semanas do início da Volta a Portugal, a aplicação que se segue destina-se tanto a profissionais, amadores e adeptos da modalidade. A Bike Spy é desenvolvida por portugueses e quer tornar o desporto sobre rodas mais informado.
A aplicação é da responsabilidade da Dailywork, uma empresa da área das tecnologias da informação. A Bike Spy aparece como uma segunda aventura na área do ciclismo, já que a empresa tem uma outra aplicação, a On Bike Computer, que foi desenvolvida em parceria com a Federação de Ciclismo Portuguesa como sistema de apoio a atletas de alto rendimento.
A Bike Spy quer criar uma maior ligação entre público e atletas das diferentes modalidades do ciclismo, seja ele de estrada, BTT ou indoor. No ecrã do telemóvel ou tablet os utilizadores vão poder controlar os valores das pulsações e velocidade com que os ciclistas passam, ajudando a diminuir o conceito de fugacidade.
Mas qual é que é o interesse de saber quais os batimentos cardíacos de um atleta? Ricardo Prata, da Dailywork, recorreu a uma analogia para explicar ao TeK o interesse destes dados: "por exemplo, no futebol há diversas estatísticas e até é apresentada a distância percorrida pelos futebolistas, permitindo assim observar o esforço de cada um". "No ciclismo há interesse em saber a velocidade real e os batimentos cardíacos equivalentes ao esforço", acrescentou.
E o Unabomber é louco? 2
Denunciada mega-fraude que rouba milhares de euros através de SMS
O esquema faz uso de uma rede colaborativa de distribuidores de malware que recebem dinheiro por cada utilizador enganado. A Rússia é um dos mercados onde estas fraudes têm mais impacto, mas pode acontecer o mesmo noutros países.
A empresa de segurança Lookout Mobile Security denunciou um esquema que está a ser usado por empresas russas para roubar dinheiro através da cobrança de SMS por serviços de valor acrescentado, sem que os utilizadores saibam. Estas redes operam de forma aberta e não exigem grandes conhecimentos técnicos.
A revelação foi feita na conferência DEF CON 21 e desmascarou a estratégia usada por dez empresas russas - conhecidas como Malware HQ. Estas empresas criam código malicioso que é integrado em páginas que prometem o download de aplicações famosas - como o Angry Birds e Skype -, mas que acabam por instalar no telemóvel um vírus que envia mensagens de valor acrescentado de forma secreta.
O valor das mensagens varia entre os 3 e 18 dólares - cerca de 2,20 a 13,50 euros - e o dinheiro angariado serve para alimentar uma rede de distribuidores desse malware.
Através de páginas de recrutamento, vários utilizadores podem candidatar-se como distribuidores dos Malware HQ e disseminam os vírus através de perfis falsos no Twitter e de anúncios para plataformas móveis. Os utilizadores são então redirecionados para o download das aplicações falsas que contém código malicioso.
Um dos investigadores da Lookout refere que um dos pontos mais críticos desta mega-fraude é que ela acontece de forma "aberta" na Internet, sem qualquer tentativa de mascarar o negócio ou de o tornar secreto. Existe inclusive uma tabela que mostra quais os parceiros da rede que geraram mais dinheiro, provocando assim uma onda de competitividade e de mais malware na Internet.
Evitar sites e publicidades cuja origem não seja de confiança e fazer download de aplicações apenas através das lojas oficiais dos ecossistemas é uma das formas de evitar cair nestes esquemas. Os investigadores referem que apesar de o esquema ter sido detetado na Rússia, pode ter replicações em vários países do mundo e em escalas diferentes.
A operação da Lookout ficou conhecida como Dragon Lady.
E o Unabomber é louco? 1
Carne produzida a partir de células tronco de boi será consumida por dois voluntários
Reuters
Em laboratório no oeste de Londres vai fazer história culinária e científica na segunda-feira, quando os cientistas cozinharem e servirem o primeiro hambúrguer de carne cultivada em laboratório do mundo.
Leia mais: Um hambúrguer de R$ 650 mil
Reuters
Mark Post em seu laboratório onde produz carne artificial: processo caro é benéfico ao ambiente
O hambúrguer in-vitro, cultivado a partir de células-tronco de gado --o primeiro exemplo do que o seu criador diz que poderia ser uma resposta à escassez global de alimentos e ajudar a combater a mudança climática--, será frito em uma panela e provado por dois voluntários.
O hambúrguer é o resultado de anos de pesquisa do cientista holandês Mark Post, um biólogo vascular da Universidade de Maastricht, que está trabalhando para mostrar como a carne cultivada pode um dia ser uma verdadeira alternativa à carne de gado.
A carne do hambúrguer foi feita por entrelaçamento de fios de cerca de 20 mil proteínas que têm sido cultivadas a partir de células-tronco de gado no laboratório de Post.
O tecido é produzido colocando as células em um anel, como uma rosca, em torno de um cubo de gel de nutrientes, explicou Post.
Leia também:
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Especialistas indicam o que fará parte do cardápio nos próximos 20 anos
Para preparar o hambúrguer, os cientistas misturaram a carne cultivada com outros ingredientes normalmente utilizados em hambúrgueres, tais como sal, ovos em pó e farinha de rosca. Suco de beterraba vermelha e açafrão foram adicionados para trazer as suas cores naturais.
"Nosso hambúrguer é feito a partir de células musculares retiradas de uma vaca" disse Post em um comunicado na sexta-feira. "Para termos sucesso tem que aparentar e ter gosto da coisa verdadeira."
(Por Kate Kelland)
sábado, agosto 03, 2013
sexta-feira, agosto 02, 2013
«Imagine a society that subjects people to conditions that make them terribly unhappy, then gives them the drugs to take away their unhappiness. Science fiction? It is already happening to some extent in our own society. It is well known that the rate of clinical depression had been greatly increasing in recent decades. We believe that this is due to disruption of the power process, as explained in paragraphs 59-76. But even if we are wrong, the increasing rate of depression is certainly the result of SOME conditions that exist in today's society. Instead of removing the conditions that make people depressed, modern society gives them antidepressant drugs. In effect, antidepressants are a means of modifying an individual's internal state in such a way as to enable him to tolerate social conditions that he would otherwise find intolerable. (Yes, we know that depression is often of purely genetic origin. We are referring here to those cases in which environment plays the predominant role.)»
Pois, já acontece, claro. Tirem os antidepressivos, os antipsicóticos, os ansiolíticos, as redes sociais, as novelas, os casinos, o álcool, etc., etc. e verão quantos pessoas suportam a existência na sociedade moderna.
quinta-feira, agosto 01, 2013
Kafka, o prazer de um chocolate preto
«Muitos se queixam de que as palavras dos sábios frequentemente são apenas parábolas, mas sem utilidade para a nossa vida do dia a dia, que é, afinal, a única que temos. Quando o sábio diz: "Passa para o outro lado", não quer dizer que devemos ir para a outra margem, coisa que sempre poderíamos fazer, se o resultado do caminho valesse a pena. Refere-se, sim, a um lendário outro lado, a qualquer coisa que não conhecemos, que nem ele próprio consegue definir de forma mais exacta, e que por isso não nos serve de nada neste mundo. Todas essas parábolas querem dizer, no fundo, que o inexplicável é inexplicável, e isso já nós sabíamos. Mas aquilo que nos dá que fazer todos os dias são outras coisas.
Ao que alguém disse: "Porquê toda essa resistência? Se vos deixásseis guiar pelas parábolas, transformar-vos-íeis vós próprios em parábolas e ficaríeis livres das canseiras diárias."
E um outro respondeu: "Aposto que também isso é uma parábola."
O primeiro: "Ganhaste."
O segundo: "Sim, mas infelizmente só na parábola."
O primeiro: "Não, na realidade. Na parábola perdeste."»
O Papa, Baptista-Bastos
A visita do Papa Francisco ao Brasil, passada a euforia inicial, poderá, acaso, suscitar alguma reflexão sobre as consequências do acto. Aquele país, o maior, católico, da América Latina, perdeu, nas últimas décadas, mais de 40 por cento dos seus fiéis, em favor de outras confissões e crenças. A perseguição de João Paulo II e de Ratzinger à Teologia da Libertação, que propunha uma Igreja do homem e não, exclusivamente, do divino, do dogma e da obediência, pode ser uma das causas desse cisma. O ser humano tem necessidade de transcendência, e o mundo actual, com o desenvolvimento do capitalismo até capítulos violentíssimos, afastou-o do sagrado e dos laços sociais que o justificam. O Vaticano poucas vezes se refere, criticamente, a este estádio do "sistema", que arrasta consigo um cortejo horroroso de miséria, opressão e terror. E a Igreja portuguesa tem-lhe seguido os passos do silêncio.
O Concílio Vaticano II abriu uma luz no hermetismo canónico e o papa João XXIII reergueu os valores de uma Igreja soterrada com a sua própria essência. É uma época fascinante a vários títulos, sobretudo pela discussão aberta que propõe e estimula.
A festa durou pouco. João Paulo II e Bento VI "normalizaram" o que poderia ser considerado apostasia. São dois reaccionários, um dos quais perigosíssimo, por extremamente culto (Ratzinger), que pretendem, e conseguem, comprimir o tempo, de um modo quase patogénico, promovendo a capacidade de cegueira do grupo, que se define como a rejeição do conhecimento e a repulsa pela dissidência. Seja: a servidão em elevado grau.
Este Papa, o seu discurso e a sua conduta parecem desejar outro modo de ser Igreja, recuperando a expressão "revolucionário" para o trânsito das ideias comuns, como necessidade e como urgência. E di-lo e fá--lo com a simplicidade de quem ainda acredita na força de um humanismo redentor. Devo dizer aos meus Dilectos que este Francisco redespertou-me ressonâncias antigas, como as da reflexão colectiva e da releitura daqueles, como Bertrand Russell (Por Que não Sou Cristão), cujo ateísmo ou agnosticismo não dificultou a pesquisa do sagrado para o reencontro com a própria condição.
Claro que há uma diferenciação de percursos, o que não pode, de maneira alguma, impedir-me de seguir o de este homem que tanto entusiasmo e efusão está a despertar. Há dias, na SIC Notícias, ouvi o franciscano frei Fernando Ventura discretear sobre a natureza essencial do que nos une, sobretudo nas dissemelhanças. É esse lado humano, imperfeito e deformado, essa acumulação de opostos, que garante a alma dos valores, e nos permite questionar sobre o Bem e o Mal, e revelar a qualidade muito pouco cristã de certos políticos portugueses, interrogando-nos sobre se o verdadeiro horizonte estará, mesmo, nessa revolução de que o Papa Francisco falou, nas praias de Copacabana?
Oscar Wilde, o prazer de comer doces compulsivamente
«Só há duas tragédias na vida: uma é não se conseguir o que se quer, a outra
é consegui-lo.»
quarta-feira, julho 31, 2013
terça-feira, julho 30, 2013
- É à noite que as coisas acontecem. Eu preciso de sair à noite - é lá que tudo acontece. Basta sair à noite e estar sentado. Pode demorar. Mas algo acontece, algo vem ter comigo. Sempre. Basta ser paciente. Os diálogos íntimos, as confissões, o conhecimento de estranhas criaturas, incidentes estranhos, excessos, milagres, beijos, contactos telefónicos, promessas. Mesmo as coisas más, tudo isso passado algum tempo adquire outros contorno. A galeria da minha vida foi construída na noite. A noite é sempre incerta, quando pensas que nada nascerá, eis que surge a magia.
domingo, julho 28, 2013
Há alturas para leituras densas e alturas para leituras fluidas. Mas não devemos desistir perenemente das primeiras, sabendo que procrastinar é muitas vezes uma ilusão e que a preguiça transforma o presente em perpetuidade.
Lembro-me da tremenda dificuldade da primeira página de Ulisses, dos estranhíssimos adjectivos de abertura, «Pomposo e roliço», que me pareciam desenquadrados, dos objectos em cima da tijela, de como tudo não parecia fazer sentido e de como na quadragésima leitura as formas e as cores se agruparam e de como esse clarão foi arranhador do meu íntimo.
Ou de como Proust com camadas sobre camadas na primeira página do primeiro tomo foi árduo, árduo. Isto que remetia para aquilo que sua vez para aqueloutro. O comboio, o apito, os vitrais, o século não sei quantos, o sofá e como tudo isso se ligou ao fim de meia hora de escalpe da página - o extenuamento cedeu ante a escrita hipnótica.
Como ultrapassadas as dificuldades, grandes livros ficam cá dentro. Mais do que isso - como coisas que na altura, findo o livro, não eram importantes em mim e como, com os anos, eles ganharam peso e forma - e como ainda hoje são nutritivas do meu espírito. Como certas pessoas que com a distância aprendemos a admirar e a amar.
sábado, julho 27, 2013
Ela 1 tem o cabelo azul, rodeia-se de homens de cabelo comprido, sujos, calças rasgadas e cães. Subitamente, namora um executivo que conheceu por amigos dos dos pais.
Ela 2 namora um amigo meu, artista. Tem uma grande paixão por ele. (Sim, isso sente-se) Os projectos dele em tempo de crise fazem-no ter uma vida financeira periclitante. Ela começa a namorar um auditor, casa e engravida. «Ele não me dava segurança, sempre com altos e baixos na vida, não podia prospectivar uma vida estável.»
Ela 3 jurava que a liberdade e a independência eram os seus valores motrizes e que nunca por nunca carreira, casamento e filhos. Viajou, esteve com os índios, e nos últimos dois meses soube-a casada com um gestor «de sucesso». E grávida.
Ela 4 ia sempre a bares góticos e punks. Sempre a encontrava quando ia a determinados sítios. Para meu espanto, ao fim de muitos anos sem a ver, vi-a com um advogado sócio de uma grande sociedade. Provoquei-a e recebi: «Ia ficar com um looser, queres ver?»
Ela 5 é minha amiga há dezasseis anos. Conheço-a. Sei que é pouco dada à imagem, ao material, ao estatuto, aos que outros pensam, aos ditames sociais. Nesta semana, disse-me: «Há um lado meu que nem imaginas. Eu sou prática, muito prática nos relacionamentos, as mulheres são práticas e cerebrais, mais do que tu possas imaginar, e eu também sou; eu estou com 36 anos e o pai dos meus filhos tem de ter um emprego que me garanta uma casa razoável, o sustento necessário para partilharmos as despesas, tem de ser equilibrado, não pode ser mulherengo, e tem de saber muito bem o que quer da vida e ser uma pessoa que saiba cuidar da casa e, por mais que te choque, preferencialmente deve ter carro.»
Só me consigo lembrar do conto The sensible thing de F. Scott Fitzgerald.
sexta-feira, julho 26, 2013
Ironia inteligente é isto
«Em 1517, o padre Bartolomé de Las Casas compadeceu-se dos índios que se extenuavam nos laboriosos infernos das minas de ouro antilhanas, e propôs ao imperador Carlos V a importação de negros, que se extenuassem nos laboriosos infernos das minas de ouro antilhanas. A essa curiosa variação de um filantropo devemos infinitos factos [...]»
Jorge Luis Borges
quinta-feira, julho 25, 2013
Esqueça as notícias - e aproveite para conversar por MANUEL MARIA CARRILHO
«Desta vez foi de mais, acabamos de viver um mês em que as notícias mais pareciam mosquitos de Verão que nos atacam por todos os lados, do que informação que nos permitisse olhar com algum discernimento para o País. O resultado é uma sociedade cada vez mais atordoada, desvitalizada e rebocada: atordoada pela confusão, desvitalizada pela deceção, rebocada pela rotina.
Se calhar, o melhor é mesmo seguir o conselho de Rolf Dobelli, que recentemente sugeriu num estimulante texto publicado no The Guardian que as "news is bad for you - and giving up reading it will make you happpier" (12.04.2013). A ideia central é que, nos dias de hoje, as notícias se tornaram tão tóxicas para a mente, como o açúcar se revelou ser para o corpo.
E propõe, em apoio desta corajosa analogia, dez pontos em que vale a pena refletir, sobretudo depois da semana de excitada e inútil especulação noticiosa que Cavaco Silva impôs ao País. Esses dez pontos são, na sua perspetiva, que as notícias enganam, são irrelevantes, não explicam, são tóxicas para o organismo, aumentam os erros cognitivos, impedem de pensar, funcionam como um uma droga, fazem perder tempo, tornam-nos passivos e matam a criatividade.
As notícias enganam porque focam sempre o mais pitoresco ou o mais anedótico em qualquer acontecimento, em prejuízo do fundamental. As notícias são irrelevantes porque, se pensarmos nas cerca de dez mil novas histórias que as notícias passaram nos últimos doze meses, somos incapazes de indicar uma única que nos tenha ajudado a tomar uma boa decisão na nossa vida. Quando toda a gente vive em competição, elas são uma desvantagem competitiva.
As notícias não explicam nada, elas são como a espuma à superfície das águas e quanto mais prendem a nossa atenção, mais incapazes nos tornam de compreender verdadeiramente o que se passa e mais insensíveis nos tornam ao que de facto conta.
As notícias são tóxicas para o nosso corpo, elas interferem com o nosso sistema límbico (que é o responsável tanto pelas nossas emoções como pelos nossos comportamentos sociais), podendo alterar a produção de glucocorticóides, desregulando o sistema imunitário, afetando o crescimento e induzindo diversos problemas de saúde.
As notícias funcionam como uma droga, elas estimulam os circuitos neuronais de "skimming" e multitarefas, bloqueando outros, nomeadamente os da leitura e do pensamento focado. O que, com o tempo, acaba por alterar a própria estrutura física do cérebro.
As notícias aumentam os erros cognitivos porque em geral valorizam a confirmação e a repetição do que se sabe, ou se pensa que sabe, em detrimento de tudo o que é diferente e surpreende. As notícias inibem o pensamento, porque este requer um tempo de concentração que exige uma atenção contínua. Mas também porque elas afetam a memória, sujeitando-a a um fluxo ininterrupto de distrações e de insignificâncias.
As notícias são uma perda de tempo. Todos sabemos, por experiência, que na verdade bastam uns minutos por dia para nos manter informados, o resto é repetição e ruminação que apenas visam alimentar o "infotenimento". As notícias tornam-nos passivos, elas valorizam tão intensamente o que está fora do nosso alcance, que só podem conduzir à resignação e ao conformismo.
Por fim, as notícias matam a criatividade. Não há "notícia" de um único criador, seja em que domínio for, que seja um dependente, um obcecado ou um viciado em notícias. As notícias são inimigas da criação, elas colam-nos às ideias gastas e às velhas soluções, à sua banalidade e inutilidade.
O argumentário é, como se vê, sugestivo. O leitor pode conhecer melhor a "lente" com que Rolf Robelli revê o mundo lendo "A Arte de Pensar com Clareza - 52 Erros de Raciocínio Que não Deveríamos Cometer", obra que acaba de ser editada em português pela editora Temas e Debates.
O que R. Dobelli - muito inspirado por N. N. Taleb, o autor do famoso êxito O Cisne Negro - defende neste livro, é uma abordagem fria da racionalidade, que valoriza não só a propensão para o erro no comportamento humano, mas também o seu carácter sistemático. As notícias são, por isso, para ele, um excelente material para testar as consequências desta perspetiva, porque "a comunicação social é o meio onde a tendência para acreditar no relato se dissemina como uma doença contagiosa"(p. 62), tornando frequente o paradoxo de ser melhor a explicar do que a compreender.
Eis pois um bom programa para o mês de agosto que se aproxima: esquecer as notícias - e, já agora, aproveitar para conversar. Aqui, o autor a seguir é Theodore Zeldin, que escreveu um fantástico "elogio da conversa", editado pela Gradiva. A conversa pode ser o antídoto das notícias: ela pode aproximar da verdade, pode ser explicativa e relevante, estimular o pensamento, a criatividade, desintoxicar a mente e a explorar as ressonâncias com o mundo.
Como diz T. Zeldin, a conversa é, entre coisas, uma atividade que se situa entre o jogo e o puzzle, e que pode "modificar não só a maneira de ver o mundo, mas também o próprio mundo" - ora não é isto mesmo que todos queremos hoje»
E, hoje, Drummond, aquele que quando acerta acerta
és tu mesmo, é tua poesia,/
tua pungente, inefável poesia,/
ferindo as almas, sob a aparência balsâmica,/
queimando as almas, fogo celeste, ao visitá-las;/
é o fenômeno poético, de que te constituíste o misterioso portador/
sábado, julho 20, 2013
LUZ QUENTE, Bukowski
sozinho/
esta noite/
aqui em casa,/
sozinho com/
6 gatos/
que me dizem/
sem/
esforço/
tudo o que/
há/
para saber
quinta-feira, julho 18, 2013
AGORA por Charles Bukowski
chegar aqui/
deslizando para a velhice/
as décadas passadas/
sem nunca ter conhecido uma pessoa/
realmente excepcional/
sem nunca ter conhecido uma pessoa/
realmente boa/
deslizando para a velhice/
as décadas passadas/
o pior são as manhãs.
quarta-feira, julho 17, 2013
Alguns gostam de poesia, Wislawa Szymborska
«Alguns gostam de poesia./
Alguns –/
quer dizer nem todos./
Nem a maioria de todos, mas a minoria./
Excluindo escolas, onde se deve/
e os próprios poetas,/
serão talvez dois em mil./
Gostam –/
mas também se gosta de canja de massa,/
gosta-se da lisonja e da cor azul,/
gosta-se de um velho cachecol,/
gosta-se de levar a sua avante,/
gosta-se de fazer festas a um cão./
De poesia –/
mas o que é a poesia?/
Algumas respostas vagas/
já foram dadas,/
mas eu não sei e não sei, e a isto me agarro/
como a um corrimão providencial.»
terça-feira, julho 16, 2013
jaça
nome feminino
1. matéria estranha dentro de uma pedra preciosa, mancha
2. falha, defeito
3. popular cama
4. popular calabouço
(De origem obscura)
jaça In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013. [Consult. 2013-07-16].
Disponível na www: .
1jaça Datação: Referência bibliográfica da fonte de datação 1696 cf. MBLuz
Cada um dos sentidos de uma palavra
n substantivo feminino
1 imperfeição (mancha ou falha) na estrutura física de uma pedra preciosa
2 Derivação: por metáfora.
mácula (p.ex., na reputação); desdouro
Ex.: homem de caráter sem j.
segunda-feira, julho 15, 2013
Aleluia!
http://divinacomedia.pt/wordpress/historia-da-minha-vida-1/
A maior lacuna editorial foi preenchida. O português do Brasil tem uma edição notável ilustrada.
Havia excertos publicados.
Tenho uma edição antiga Uma Aventura Amorosa, havia o livro da Visão e da sua colecção erótica, havia um pequeno livro com páginas sobre a fuga da prisão.
Finalmente, 1200 páginas (das 4000, é certo...) são publicadas. Em dois tomos. O primeiro já está nas livrarias (e no meu quarto), o segundo sairá em Setembro.
A tradução de Tamen já me demonstrou, pelo cotejo com outras do Brasil, que traduzir abre caminhos tão diferentes.
Casanova, mais do que um ginecómano, foi um literato, um filósofo, um religioso, um conhecedor fundo da vida mundana e livresca - e, acima de tudo, um escritor exímio com uma diversidade vocabular singularíssima.
Um clássico.
«Aquele que tem a força de suspender os seus actos até que chegue a calma, esse é o sábio. Um ser raro.» Giacomo Casanova
domingo, julho 14, 2013
Apresentação da personagem
Tenho óculos, barba, o rosto e o corpo franzinos. Tenho muitos tiques nos olhos. O pessoal na escola gozava comigo, sempre me chamaram «intelectual» em tom trocista. Quando era novo, falava pouco, hoje falo muito e de forma eléctrica. Quando falo muito, os meus olhos piscam muito - é o que me dizem; as pessoas reparam mais na forma do que no conteúdo, especialmente as gajas fúteis e irritantes, passo o pleonasmo. Hoje, o estigma de «intelectual» mudou para «revoltado». Nunca fui particularmente tímido, mas fui sempre relativamente insociável - não suporto a estupidez humana de 90% dos viventes. Desde novo que costumo ir para cafés, beber café (bebo entre nove a onze cafés por dia), ouvir música, ler revolucionários socialistas, ler ateus, ou fazer coisas no computador. Não consigo ouvir um reaccionário num café, nem que tenha o dobro do meu tamanho, sem lhe procurar desmontar a estupidez do seu raciocínio. A generalidade das pessoas fala sem conhecer os assuntos, sem ler, sem reflectir, sem conhecer. Também não suporto crentes teístas - têm de levar sempre com Freud e a fantochada pueril do Papá, com Marx e Nietzsche. Umas figuras de Jeová que me interceptaram no caminho para o café levaram tal banho intelectual, que hoje fogem para o outro lado da rua. Julgam que estou possuído. Estou farto do anestesiamento e da passividade - é preciso agitar as mentes dormentes e ignaras. Por vezes, tenho momentos de uma ansiedade tal, que me apetece morrer. Quando mudei de casa, a ideia de ter de mudar os móveis todos, de tratar de uma série de burocracias fizeram-me desejar a morte. Por vezes, a simples antecipação de que no dia seguinte tenho de fazer isto e aquilo deixa-me de tal modo, que não consigo dormir. Mas a revolução precisa de mim.
sexta-feira, julho 12, 2013
A honra perdida de uma época que foi
«Sempre me fascinou o episódio de Egas Moniz, de baraço ao pescoço e filhos ao lado, de procurar cumprir, junto do rei de Castela, a palavra a que D. Afonso Henriques faltara. Lenda, História, mentira, verdade?, pouco me interessa. A natureza do assunto é que me toca. O símbolo da honra, contido na metáfora, exprime um princípio sagrado: quando se diz, faz-se. Cresci e fui educado, pela família e por velhos hábitos de antigos mestres, com estes princípios. Nada de heróico: simplesmente o cumprimento natural das exigências morais de conduta.
A minha geração raramente traiu o testamento. "Entre os portugueses / traidores houve às vezes", falou Camões. Mas a generalidade (tomando as generalizações com todas as precauções devidas) manteve-se-lhe leal. Digo "leal" e não "fiel" porque fidelidade é coisa de cão, e lealdade tem a ver com carácter. A fidelidade pode conduzir ao apoio das maiores perversões e das mais torpes ignomínias. A lealdade, pelo contrário, tem a ver com convicções de natureza ética, e não pactua com a infâmia ou se torna conivente com a perfídia. Estou mais do lado de Sartre ou de Camus, que arriscaram a opinião, e algumas vezes erraram, porque envolvidos no turbilhão da época, do que de um Aron, ardiloso e medido. Como as ideias de um homem não lhe pertencem em sistema de exclusividade, antes fazem parte de um "tempo", de um "ambiente" e, até de uma "cultura" de grupo, fomos, em Portugal, os rapazes do meu tempo, marcados por essa "atmosfera."
Reconheço que os nossos impulsos ideológicos e intelectuais conduziram, acaso, a injustiças e a arrogâncias tão desnecessárias quanto cruéis. Mas a grandeza do que íamos aprendendo talvez explicasse o propósito. E este consistia no seguinte: amigo não trai amigo; não se denuncia nunca; a amizade é um posto.
Estes padrões de comportamento podem, nos sombrios tempos de agora, suscitar algum desdém e zombaria, mas eram exigências da razão antifascista. E o antifascismo, não esqueçamos e não admitamos que o deformem, foi uma admirável frente moral, que congregou comunistas e socialistas, monárquicos e católicos, democratas e simples cidadãos, movidos pelo singelo desejo de ser livres e felizes.
A batalha pela liberdade era, antes e tudo, a batalha pela dignidade humana, que teria, inevitavelmente, de criar os seus valores e de recuperar o que de melhor envolvia o humanismo. "Humanismo e Terror" é, justamente, o título de um livro de Merleau-Ponty, outro dos grandes, a que regresso com frequência, e cuja leitura está longe de ser obsoleta ou datada. Honra, conhecimento, vontade e paixão representam, afinal, sinónimos da mesma galáxia. Quem não percebe a força destes conceitos e o que eles comportam de vida, de essência dos laços sociais, não percebe nada de nada.
Sou um velho caturra, mas nunca serei um moralista caturra. O que define um homem, repito, é a qualidade das suas lealdades; não a servidão das suas fidelidades. E sei muito bem o que custou, a muitos homens, de mágoa, desapontamento e dor, a alteração das suas ideias. O que nos aconteceu foi sentirmos, na pele e na alma, vergonha por um homem que a não teve nem tem. Por um homem que representa uma associação de outros homens, os quais não se demarcaram do opróbrio e até, diz-se, que o empurraram para o acto.
Alguma coisa se perdeu, nesta caminhada desventurada para o pior dos abismos: o que resta do que fomos. E que resta é tão escassa e selectiva como a memória delida de uma antiga juventude.»
Baptista-Bastos
segunda-feira, julho 08, 2013
Um dos maiores elogios
- A minha maior fobia é entrar numa casa alheia. Nunca me sinto à vontade para ser eu. Gosto de estar meio despido com os pés na mesa. Sinto-me sempre constrangido, especialmente em casas em que se respira burguesmente, em que há cerimónia, vigilância, gestos controlados. Hipocrisia. Não suporto. Fico doente. Não poder pôr a beata onde quero, poder deixar cair um pinga no sofazinho novo. A tua casa é o único sítio que sinto como uma extensão da minha casa. Que é uma casa e não uma instituição. Gramo à brava poder ter descoberto um sítio em que posso ser eu além da minha pocilga.
Apresentação da personagem
Tenho sessenta e seis anos, mas se virem o meu rosto hediondo - porém, magnético - não acreditarão que tenho menos de oitenta. A cara sulcada, a pele curtida, os olhos duros, os lábios zangados, as sobrancelhas espessas e determinadas. Ainda assim, certas garotas param para me contemplar.(Cada vez menos.) Uma vez, uma mulher num bar, de tez trigueira e expressão juvenil, abeirou-se do meu posto solitário e disse que eu tinha um «rosto forte e admirável». (Na verdade, ela não disse isto, mas era isto que diria se se soubesse expressar.) Não gosto de dançar. Não gosto de crianças. Não gosto de passear. Não gosto de viajar. Não gosto de trânsito. Não gosto de planos. Detesto multidões. Não gosto do amarelo. Não gosto de manhãs. Não gosto de almoços de família, nem de beijinhos da prima, nem de conversa de chacha. Abomino gente que fala depressa. Abomino gente que fala muito. Não gosto de ruído. Não suporto publicidade. (Tenho pavor às figuras de plástico com largos sorrisos que exibem dentições perfeitas no cartazes da cidade.) Não gosto de abrir os lábios se não for para os encostar à espuma de uma garrafa ou à pachacha de uma rapariguinha. [Ultimamente, o meu emagrecimento verbal foi levado ao limite e chego a passar dias em que não emiti uma única palavra. (Como chego a casa leve nesses dias!) A palavra que mais utilizo é «Não».] Não gosto de restaurantes. Tenho horror a festas e a concentrações de entusiasmo. Não gosto de andar a pé. (Tenho a perna esquerda esfacelada, mas a verdade é que nunca suportei andar mais do que dez passos.) Não gosto de sol. Não gosto de caminhadas. Não gosto de sábados. Não gosto de médicos. Execro vendedores. (O mundo está cheio de vendedores. São todos vendedores. Vendedores de quinquilharias, vendedores de tecnologias, de futilidades, de necessidades induzidas, vendedores de si próprios.) Acham tudo isto bastante desnutrido? Estou-me nas tintas. Não tenho qualquer crença. Não defendo nenhuma ideia ou causa - não acredito em nada. Conheço-me. Isso basta-me. Estar comigo é suficiente. O sossego é o meu templo. Não imaginam o apaziguamento que é chegar a casa, bater com a porta, atirar as minhas velhas botifarras para um canto e estirar-me no sofá. Se tiver cerveja no frigorífico, um combate de pugilismo ou um filme pornográfico na televisão, consigo passar 363 dias felizes. Os outros são preenchidos com uma prostituta (a única categoria profissional que entrou cá em casa, tirando um pescador de rosto quase tão marcado como o meu e homem de pouquíssimas falas, que veio cá três vezes), preferencialmente duas vezes ou três vezes mais nova do que eu e com coxas e nádegas que me encham a mão. Durante as minhas incursões fora de casa, evito qualquer diálogo, por mais breve que seja, e tenho sempre o punho direito preparado para qualquer garoto que me venha importunar. Ao fim de duas semanas de silêncio absoluto, sou capaz de encontrar uma certa paz numa taberna se esta estiver frequentada por meia dúzia de almas solitárias sem ambição nem sonhos.
quarta-feira, julho 03, 2013
Está tudo nos livros
«A indiferença silenciosa, grave, quase benévola, é a manifestação legítima da morte de toda a crença.»
Alexandre Herculano
segunda-feira, julho 01, 2013
Ele foi criticado e com razão, mas eu achei a frase de uma bravura, comicidade, genuinidade. A verdade é que o seu interlocutor fica com uma fácies digna de uma fotografia.
- Ei, tu estás obcecado com a ideia de que quero «comer» a tua mulher. É mentira. Além de não gostar de determinantes possessivos, digo-te a verdade. Eu quero conquistar a «tua» mulher. Não comê-la. De resto, abominar isso verbo aplicada a seres humanos.
[Lembrei-me de Herberto Helder. O Bom Ladrão não é o que rouba a cinza, mas o fogo.]
Da maledicência dos cafés ociosos (conversas interceptadas)
- Já viste a namorada do Miguel? - Ai, nem me digas nada. Tem umas olheiras. - E magra, é tão magra. - Que amostra de gente. Credo, mete medo ao assusto. Quando a vi aqui, aqueles olhos, aquela palidez, ao menos podia pintá-los, pôr maquilhagem. - E tem uma pele. Viste as mãos? Pele seca. E tremia a segurar a chávena. - O que é o que Miguel anda a fazer com ela, poça. - Eu não entendo aquele homem. Então agora que está desempregado pede jarros de sangria. Mas de onde é que lhe vem o dinheiro? - Ele não tem dinheiro para isso. Ele está maluco. Deve andar nalgum esquema ou a estoirar o dinheiro de alguém. - Eu digo-te uma coisa. Eu trabalho e não consumo como ele aqui. Ai, podes querer que não.
Blargh
Verdadeiramente insuportável - as pessoas que usam uma linguagem informática e de gestão pejada de estrangeirismos (e de alguns neologismos ainda mais odientos) para descrever as coisas da vida.
«Faz reset. Vamos começar de novo. Start-up. O.K, ´bora lá.»
Mais à frente na reunião.
«Desculpem lá, só para fazer um checkcpoint. Deixem-me lá ver o paper. Ah, depois teremos de fazer aqui um upload.»
De repente, um eureca.
«Ah, agora já deu. Podem logar-se.»
Percebi logo que nunca navegaríamos nas mesmas águas.
Para Gastão Cruz
Todas as línguas do mundo se sujaram./
Fomos condenados à gaguez triunfal/
pela qual procuramos ainda dizer o que nos recusaram./
Na mínima dor há um pomar onde colhemos/
os esplêndidos frutos que alimentam a nossa linfa, o nosso sangue,/
a corrente que sem recurso nos prende/
à furiosa morte./
A metáfora da alma será ainda a melhor dádiva/
deste corpo tão eficiente e tão pobre./
Assim nos saciamos.
Luís Quintais
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