quarta-feira, agosto 14, 2013
Sei que é ridiculamente banal o que vou dizer. Os heróis modernos não se destacam por uma causa, pela melhoria do bem-estar da comunidade. Vejam-se os ídolos modernos. Veja-se a toponímia. José Mourinho tem uma rua em Setúbal, juntamente com Cunhal. Pesem embora as mil críticas justas (e eu subscrevo-as, até a do social-fascista), Cunhal esteve preso onze anos, foi barbaramente torturado, nunca denunciou um camarada, viveu períodos de total incomunicabilidade - tudo em nome de um ideal para o seu povo e o mundo.
Heróis são outros. Não os modelos, actores de séries ou jogadores de futebol.
Heróis são os que vivem em Portugal com 294 euros ou menos de pensão - um milhão...
Soa a cliché, mas penso neles - penso em como conseguem gerir a sua vida - e, não raras vezes, a dos outros. E como tantos não lamentam a sua condição.
Heróis são os que trabalham 15 horas por dia mais os transportes públicos para os subúrbios para ter 600 euros e governar a sua vida e do cônjuge desempregado e do filho toxicodependente. Tudo isto sem Xanax.
Heróis são os que renunciam à vida confortável e vão para o Haiti salvar vidas.
Heróis são muitos bombeiros. A dita comunicação social deveria falar mais destes heróis anónimos. Aqueles que se penduram num poste ou se lançam no mar bravio arriscando a sua vida para salvar a de outro.
terça-feira, agosto 13, 2013
- Se a felicidade é o intervalo entre as ocupações; sou profundamente infeliz; se a felicidade é como estamos na maior parte do tempo; sou feliz. Passo o dia a trabalhar. O resto a dormir. Mesmo a comer, estou em pequenas reuniões, a despachar assuntos ao telefone e a pensar que não tarda nada estou a trabalhar. Estando no «palco», as coisas são óptimas, ter coisas para fazer e fazê-las, assuntos para resolver e resolvê-los, uma efervescência danada. O melhor são as segundas. O pior é o regresso a casa, o conduzir sem um assunto que possa resolver, as idas à casa de banho em que tenho de me enfrentar só, os sábados longos... Mas regresso sempre ao trabalho e esqueço isso e sinto-me útil, organizado e com um auto-respeito sólido.
segunda-feira, agosto 12, 2013
«A mais completa liberdade [deve] ser garantida a todas as formas de amor e de contacto sexual. Nenhuma sociedade estará jamais segura, em qualquer parte, enquanto uma igreja, um partido ou um grupo de cidadãos hipersensíveis possa ter o direito de governar a vida privada de alguém. [Um dos] prazeres sexuais dos seres humanos tem sido o de reprimir a sexualidade, a própria e a dos outros. Defendo todas as formas de prostituição, como profissão protegida pela lei e vigiada pela saúde pública. Ainda que isso possa chocar muita gente, parece que, desde sempre, houve machos e fêmeas cujo talento na vida, e cuja vocação definida, é emprestarem o próprio corpo. E quem se vende ou quem compra (o que não tem nada a ver com capitalismo, mas com o direito de qualquer pessoa a dispor de si mesma, em acordo com outra) deve ter a protecção da lei contra redes de exploração, chantagens, etc. O que duas pessoas (ou um grupo delas) fazem uma com a outra, fora das vistas dos demais, não diz respeito a esses demais, a não ser que eles vivam na observação mórbida de imaginarem (num misto de horror e curiosidade, que os torna moralistas raivosos) o que os outros fazem. E o que os outros fazem não altera em nada o equilíbrio social. [A pornografia pode ser] um prazer para muita gente e, às vezes, o único que lhes é concedido, pois as pessoas idosas, solitárias, não atractivas, não encontram nunca o chinelo velho para o seu pé doente. Uma prostituição oficializada é obra de caridade para com os feios e os tímidos. [Porque hão-de ser] só os ricos e os de maiores posses a terem acesso à pornografia, e não os pobres? As classes mais desprotegidas deviam ter a sua pornografia mais barata, subsidiada pelo Governo, se o Governo fosse ao mesmo tempo inteligente e progressista nestas matérias. Somos um país imoral, um país depravado às ocultas. Foi isso, no entanto, que nos salvou de mergulhar nas sombras horrendas do puritanismo. Puritanismo que não é parte da nossa herança cultural. Mil vezes a pornografia do que a castração, a prostituição do que a hipocrisia. Se alguma coisa há que deve ser sagrada, é o prazer sexual entre pessoas mutuamente concordantes em dá-lo e recebê-lo, ou negociá-lo. [Os adolescentes e as crianças sempre souberam] muito mais do que os adultos fingem que eles sabem. Raros terão sido os jovens seduzidos na sua inocência. Na maior parte dos casos, o contrário é que é verdade. Se alguma coisa há que deva ser sagrada, é o prazer sexual entre pessoas concordantes em usufruí-lo e partilhá-lo.»
Jorge de Sena
domingo, agosto 11, 2013
- Uma coisa que sempre me inquietou é saber que parte de mim sou eu, aquela parte intacta, incontaminada pela vida, pelos outros, pela sociedade, pela família, pela escola, pelo trabalho. Será que existe essa parte intrínseca? E, por outro lado, essa parte intrínseca se é a que veio comigo, então é aquela sobre a qual tive menor escolha. Porque somos isto e não aquilo? Porque escolhemos o que escolhemos?
sábado, agosto 10, 2013
Tens de ver isto. Tens de ler isto. Tens de ouvir isto.
Pensar que em 1500 a bibliografia da história da humanidade eram 35 000 títulos.
Pensar que isso hoje nasce por dia. De trinta em trinta segundos, um livro.
Soma todos os livros, todas as publicações periódicas, todos os filmes e séries «obrigatórios», todos os vídeos que tens de ver, todos os blogues, todas as notícias relevantes, todas as músicas.
A hiperinformação enlouquece.
Ao longo da conversa, registei algumas frases.
- Não gosto de pornografia. Acho que as pessoas com alguma sensibilidade, regra geral, não gostam.
- Quando vejo um homem muito musculado, penso: «Tanto tempo gasto para ter o corpo assim. Aquilo é uma prioridade para ele. O que poderia ele ter feito com todo aquele tempo... É uma pessoa que não me interessa.»
- O sexo pelo sexo provoca uma sensação pós-coital de tristeza e de um infinito vazio. Pelo menos, para quem não se viciou nisso, para quem pensa sobre as coisas e para quem já experimentou a diferença de sexo com sentimento fundo.
(Ela disse e eu... confesso... acreditei/senti que ela estava a ser autêntica.)
Aquele que Harold Bloom disse nunca ter expelido uma frase errada
A coisa mais banal é maravilhosa se alguém a esconde.
sexta-feira, agosto 09, 2013
A academia moldou-lhe o que pensa. Pior: moldou-lhe como pensa.
Rasurou o arredondado da sua escrita - secando-a, normalizando-a, burrocratizando-a.
Especializou-a - eufemismo para a exclusão progressiva do conhecimento.
As coisas não lhe interessavam - importavam em função da sua carreira. Da sua vaidade.
Os assuntos deixaram de se dividir entre estimulantes e não estimulantes - apenas úteis ou inúteis. (E com o que não se vibra, não se aprende, escreveu Bukowski.)
quinta-feira, agosto 08, 2013
Dizem que uma mente desocupada é uma oficina do Demónio. E é bem verdade. É lá - e só lá - que se filosofa.
O excesso de coisas práticas afasta-te de saberes de onde és e quem és e porque és o que és. Pagar a electricidade, a água, o gás, a multa do carro, ir ao supermercado, ao dentista, arrumar a casa, juntar as facturas. Mas se não fosse isso, terias muito mais problemas mentais - terias de enfrentar o espelho.
quarta-feira, agosto 07, 2013
Agosto
Não o mais cruel dos meses, mas o mais estúpido dos meses. Os raríssimos programas de televisão que valem alguma coisa suspendem-se. Os cronistas vão de férias. Tudo é leve, fútil, estupidificante. A inteligência suspende-se. A inteligência vai de férias. E as medidas mais tenebrosas passam ante a complacência dos dormentes.
terça-feira, agosto 06, 2013
Não temos todos o mesmo nível de consciência. (Seja de empatia com as emoções do Outro, seja de compaixão, seja de autoconhecimento, seja de dimensão metafísica, de densidade psicológica, de sensibilidade às promessas da vida, à poesia.) Não temos todos o mesmo nível de consciência. De forma alguma.
Saber esperar alguém, Maria Gabriela Llansol
Não há mais sublime sedução do que saber esperar alguém./
Compor o corpo, os objectos em sua função, sejam eles/
A boca, os olhos, ou os lábios. Treinar-se a respirar/
Florescentemente. Sorrir pelo ângulo da malícia./
Aspergir de solução libidinal os corredores e a porta./
Velar as janelas com um suspiro próprio. Conceder/
Às cortinas o dom de sombrear. Pegar então num/
Objecto contundente e amaciá-lo com a cor. Rasgar/
Num livro uma página estrategicamente aberta./
Entregar-se a espaços vacilantes. Ficar na dureza/
Firme. Conter. Arrancar ao meu sexo de ler a palavra/
Que te quer. Soprá-la para dentro de ti -------------------/
----------------------------- até que a dor alegre recomece.
segunda-feira, agosto 05, 2013
E o Unabomber é louco? 4
Próximo iPhone poderá ser capaz de reconhecer impressões digitais
O próximo aparelho da Apple, o iOS7, poderá ser dotado de uma função de reconhecimento de impressões digitais.
A notícia é antecipada por fontes especializadas depois da recepção por programadores, esta semana, de uma primeira versão do smartphone - ainda em desenvolvimento - contendo diversos ficheiros relativos a um sistema de reconhecimento por biometria.
A assumpção de que a fabricante norte-americana estará a desenvolver a funcionalidade é reforçada pela aquisição, realizada em agosto de 2012, da empresa AnthenTec, especialista no domínio em causa, por 356 milhões de dólares.
E o Unabomber é louco? 3
ANUNCIADO COM DELEITE NA RTP1 - JÁ PODE ACOMPANHAR AS PULSAÇÕES DOS ATLETAS EM DIRECTO! O MUNDO NÃO ESTÁ LOUCO?
Aplicação portuguesa aproxima ciclismo, ciclistas e aficionados
A Bike Spy surge como uma aplicação de análise em tempo real aos ciclistas, que permite controlar com mais pormenor a velocidade e esforço feito pelos atletas na modalidade.
A poucas semanas do Tour e da Vuelta, duas das principais provas do circuito mundial de ciclismo, e também a poucas semanas do início da Volta a Portugal, a aplicação que se segue destina-se tanto a profissionais, amadores e adeptos da modalidade. A Bike Spy é desenvolvida por portugueses e quer tornar o desporto sobre rodas mais informado.
A aplicação é da responsabilidade da Dailywork, uma empresa da área das tecnologias da informação. A Bike Spy aparece como uma segunda aventura na área do ciclismo, já que a empresa tem uma outra aplicação, a On Bike Computer, que foi desenvolvida em parceria com a Federação de Ciclismo Portuguesa como sistema de apoio a atletas de alto rendimento.
A Bike Spy quer criar uma maior ligação entre público e atletas das diferentes modalidades do ciclismo, seja ele de estrada, BTT ou indoor. No ecrã do telemóvel ou tablet os utilizadores vão poder controlar os valores das pulsações e velocidade com que os ciclistas passam, ajudando a diminuir o conceito de fugacidade.
Mas qual é que é o interesse de saber quais os batimentos cardíacos de um atleta? Ricardo Prata, da Dailywork, recorreu a uma analogia para explicar ao TeK o interesse destes dados: "por exemplo, no futebol há diversas estatísticas e até é apresentada a distância percorrida pelos futebolistas, permitindo assim observar o esforço de cada um". "No ciclismo há interesse em saber a velocidade real e os batimentos cardíacos equivalentes ao esforço", acrescentou.
E o Unabomber é louco? 2
Denunciada mega-fraude que rouba milhares de euros através de SMS
O esquema faz uso de uma rede colaborativa de distribuidores de malware que recebem dinheiro por cada utilizador enganado. A Rússia é um dos mercados onde estas fraudes têm mais impacto, mas pode acontecer o mesmo noutros países.
A empresa de segurança Lookout Mobile Security denunciou um esquema que está a ser usado por empresas russas para roubar dinheiro através da cobrança de SMS por serviços de valor acrescentado, sem que os utilizadores saibam. Estas redes operam de forma aberta e não exigem grandes conhecimentos técnicos.
A revelação foi feita na conferência DEF CON 21 e desmascarou a estratégia usada por dez empresas russas - conhecidas como Malware HQ. Estas empresas criam código malicioso que é integrado em páginas que prometem o download de aplicações famosas - como o Angry Birds e Skype -, mas que acabam por instalar no telemóvel um vírus que envia mensagens de valor acrescentado de forma secreta.
O valor das mensagens varia entre os 3 e 18 dólares - cerca de 2,20 a 13,50 euros - e o dinheiro angariado serve para alimentar uma rede de distribuidores desse malware.
Através de páginas de recrutamento, vários utilizadores podem candidatar-se como distribuidores dos Malware HQ e disseminam os vírus através de perfis falsos no Twitter e de anúncios para plataformas móveis. Os utilizadores são então redirecionados para o download das aplicações falsas que contém código malicioso.
Um dos investigadores da Lookout refere que um dos pontos mais críticos desta mega-fraude é que ela acontece de forma "aberta" na Internet, sem qualquer tentativa de mascarar o negócio ou de o tornar secreto. Existe inclusive uma tabela que mostra quais os parceiros da rede que geraram mais dinheiro, provocando assim uma onda de competitividade e de mais malware na Internet.
Evitar sites e publicidades cuja origem não seja de confiança e fazer download de aplicações apenas através das lojas oficiais dos ecossistemas é uma das formas de evitar cair nestes esquemas. Os investigadores referem que apesar de o esquema ter sido detetado na Rússia, pode ter replicações em vários países do mundo e em escalas diferentes.
A operação da Lookout ficou conhecida como Dragon Lady.
E o Unabomber é louco? 1
Carne produzida a partir de células tronco de boi será consumida por dois voluntários
Reuters
Em laboratório no oeste de Londres vai fazer história culinária e científica na segunda-feira, quando os cientistas cozinharem e servirem o primeiro hambúrguer de carne cultivada em laboratório do mundo.
Leia mais: Um hambúrguer de R$ 650 mil
Reuters
Mark Post em seu laboratório onde produz carne artificial: processo caro é benéfico ao ambiente
O hambúrguer in-vitro, cultivado a partir de células-tronco de gado --o primeiro exemplo do que o seu criador diz que poderia ser uma resposta à escassez global de alimentos e ajudar a combater a mudança climática--, será frito em uma panela e provado por dois voluntários.
O hambúrguer é o resultado de anos de pesquisa do cientista holandês Mark Post, um biólogo vascular da Universidade de Maastricht, que está trabalhando para mostrar como a carne cultivada pode um dia ser uma verdadeira alternativa à carne de gado.
A carne do hambúrguer foi feita por entrelaçamento de fios de cerca de 20 mil proteínas que têm sido cultivadas a partir de células-tronco de gado no laboratório de Post.
O tecido é produzido colocando as células em um anel, como uma rosca, em torno de um cubo de gel de nutrientes, explicou Post.
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Para preparar o hambúrguer, os cientistas misturaram a carne cultivada com outros ingredientes normalmente utilizados em hambúrgueres, tais como sal, ovos em pó e farinha de rosca. Suco de beterraba vermelha e açafrão foram adicionados para trazer as suas cores naturais.
"Nosso hambúrguer é feito a partir de células musculares retiradas de uma vaca" disse Post em um comunicado na sexta-feira. "Para termos sucesso tem que aparentar e ter gosto da coisa verdadeira."
(Por Kate Kelland)
sábado, agosto 03, 2013
sexta-feira, agosto 02, 2013
«Imagine a society that subjects people to conditions that make them terribly unhappy, then gives them the drugs to take away their unhappiness. Science fiction? It is already happening to some extent in our own society. It is well known that the rate of clinical depression had been greatly increasing in recent decades. We believe that this is due to disruption of the power process, as explained in paragraphs 59-76. But even if we are wrong, the increasing rate of depression is certainly the result of SOME conditions that exist in today's society. Instead of removing the conditions that make people depressed, modern society gives them antidepressant drugs. In effect, antidepressants are a means of modifying an individual's internal state in such a way as to enable him to tolerate social conditions that he would otherwise find intolerable. (Yes, we know that depression is often of purely genetic origin. We are referring here to those cases in which environment plays the predominant role.)»
Pois, já acontece, claro. Tirem os antidepressivos, os antipsicóticos, os ansiolíticos, as redes sociais, as novelas, os casinos, o álcool, etc., etc. e verão quantos pessoas suportam a existência na sociedade moderna.
quinta-feira, agosto 01, 2013
Kafka, o prazer de um chocolate preto
«Muitos se queixam de que as palavras dos sábios frequentemente são apenas parábolas, mas sem utilidade para a nossa vida do dia a dia, que é, afinal, a única que temos. Quando o sábio diz: "Passa para o outro lado", não quer dizer que devemos ir para a outra margem, coisa que sempre poderíamos fazer, se o resultado do caminho valesse a pena. Refere-se, sim, a um lendário outro lado, a qualquer coisa que não conhecemos, que nem ele próprio consegue definir de forma mais exacta, e que por isso não nos serve de nada neste mundo. Todas essas parábolas querem dizer, no fundo, que o inexplicável é inexplicável, e isso já nós sabíamos. Mas aquilo que nos dá que fazer todos os dias são outras coisas.
Ao que alguém disse: "Porquê toda essa resistência? Se vos deixásseis guiar pelas parábolas, transformar-vos-íeis vós próprios em parábolas e ficaríeis livres das canseiras diárias."
E um outro respondeu: "Aposto que também isso é uma parábola."
O primeiro: "Ganhaste."
O segundo: "Sim, mas infelizmente só na parábola."
O primeiro: "Não, na realidade. Na parábola perdeste."»
O Papa, Baptista-Bastos
A visita do Papa Francisco ao Brasil, passada a euforia inicial, poderá, acaso, suscitar alguma reflexão sobre as consequências do acto. Aquele país, o maior, católico, da América Latina, perdeu, nas últimas décadas, mais de 40 por cento dos seus fiéis, em favor de outras confissões e crenças. A perseguição de João Paulo II e de Ratzinger à Teologia da Libertação, que propunha uma Igreja do homem e não, exclusivamente, do divino, do dogma e da obediência, pode ser uma das causas desse cisma. O ser humano tem necessidade de transcendência, e o mundo actual, com o desenvolvimento do capitalismo até capítulos violentíssimos, afastou-o do sagrado e dos laços sociais que o justificam. O Vaticano poucas vezes se refere, criticamente, a este estádio do "sistema", que arrasta consigo um cortejo horroroso de miséria, opressão e terror. E a Igreja portuguesa tem-lhe seguido os passos do silêncio.
O Concílio Vaticano II abriu uma luz no hermetismo canónico e o papa João XXIII reergueu os valores de uma Igreja soterrada com a sua própria essência. É uma época fascinante a vários títulos, sobretudo pela discussão aberta que propõe e estimula.
A festa durou pouco. João Paulo II e Bento VI "normalizaram" o que poderia ser considerado apostasia. São dois reaccionários, um dos quais perigosíssimo, por extremamente culto (Ratzinger), que pretendem, e conseguem, comprimir o tempo, de um modo quase patogénico, promovendo a capacidade de cegueira do grupo, que se define como a rejeição do conhecimento e a repulsa pela dissidência. Seja: a servidão em elevado grau.
Este Papa, o seu discurso e a sua conduta parecem desejar outro modo de ser Igreja, recuperando a expressão "revolucionário" para o trânsito das ideias comuns, como necessidade e como urgência. E di-lo e fá--lo com a simplicidade de quem ainda acredita na força de um humanismo redentor. Devo dizer aos meus Dilectos que este Francisco redespertou-me ressonâncias antigas, como as da reflexão colectiva e da releitura daqueles, como Bertrand Russell (Por Que não Sou Cristão), cujo ateísmo ou agnosticismo não dificultou a pesquisa do sagrado para o reencontro com a própria condição.
Claro que há uma diferenciação de percursos, o que não pode, de maneira alguma, impedir-me de seguir o de este homem que tanto entusiasmo e efusão está a despertar. Há dias, na SIC Notícias, ouvi o franciscano frei Fernando Ventura discretear sobre a natureza essencial do que nos une, sobretudo nas dissemelhanças. É esse lado humano, imperfeito e deformado, essa acumulação de opostos, que garante a alma dos valores, e nos permite questionar sobre o Bem e o Mal, e revelar a qualidade muito pouco cristã de certos políticos portugueses, interrogando-nos sobre se o verdadeiro horizonte estará, mesmo, nessa revolução de que o Papa Francisco falou, nas praias de Copacabana?
Oscar Wilde, o prazer de comer doces compulsivamente
«Só há duas tragédias na vida: uma é não se conseguir o que se quer, a outra
é consegui-lo.»
quarta-feira, julho 31, 2013
terça-feira, julho 30, 2013
- É à noite que as coisas acontecem. Eu preciso de sair à noite - é lá que tudo acontece. Basta sair à noite e estar sentado. Pode demorar. Mas algo acontece, algo vem ter comigo. Sempre. Basta ser paciente. Os diálogos íntimos, as confissões, o conhecimento de estranhas criaturas, incidentes estranhos, excessos, milagres, beijos, contactos telefónicos, promessas. Mesmo as coisas más, tudo isso passado algum tempo adquire outros contorno. A galeria da minha vida foi construída na noite. A noite é sempre incerta, quando pensas que nada nascerá, eis que surge a magia.
domingo, julho 28, 2013
Há alturas para leituras densas e alturas para leituras fluidas. Mas não devemos desistir perenemente das primeiras, sabendo que procrastinar é muitas vezes uma ilusão e que a preguiça transforma o presente em perpetuidade.
Lembro-me da tremenda dificuldade da primeira página de Ulisses, dos estranhíssimos adjectivos de abertura, «Pomposo e roliço», que me pareciam desenquadrados, dos objectos em cima da tijela, de como tudo não parecia fazer sentido e de como na quadragésima leitura as formas e as cores se agruparam e de como esse clarão foi arranhador do meu íntimo.
Ou de como Proust com camadas sobre camadas na primeira página do primeiro tomo foi árduo, árduo. Isto que remetia para aquilo que sua vez para aqueloutro. O comboio, o apito, os vitrais, o século não sei quantos, o sofá e como tudo isso se ligou ao fim de meia hora de escalpe da página - o extenuamento cedeu ante a escrita hipnótica.
Como ultrapassadas as dificuldades, grandes livros ficam cá dentro. Mais do que isso - como coisas que na altura, findo o livro, não eram importantes em mim e como, com os anos, eles ganharam peso e forma - e como ainda hoje são nutritivas do meu espírito. Como certas pessoas que com a distância aprendemos a admirar e a amar.
sábado, julho 27, 2013
Ela 1 tem o cabelo azul, rodeia-se de homens de cabelo comprido, sujos, calças rasgadas e cães. Subitamente, namora um executivo que conheceu por amigos dos dos pais.
Ela 2 namora um amigo meu, artista. Tem uma grande paixão por ele. (Sim, isso sente-se) Os projectos dele em tempo de crise fazem-no ter uma vida financeira periclitante. Ela começa a namorar um auditor, casa e engravida. «Ele não me dava segurança, sempre com altos e baixos na vida, não podia prospectivar uma vida estável.»
Ela 3 jurava que a liberdade e a independência eram os seus valores motrizes e que nunca por nunca carreira, casamento e filhos. Viajou, esteve com os índios, e nos últimos dois meses soube-a casada com um gestor «de sucesso». E grávida.
Ela 4 ia sempre a bares góticos e punks. Sempre a encontrava quando ia a determinados sítios. Para meu espanto, ao fim de muitos anos sem a ver, vi-a com um advogado sócio de uma grande sociedade. Provoquei-a e recebi: «Ia ficar com um looser, queres ver?»
Ela 5 é minha amiga há dezasseis anos. Conheço-a. Sei que é pouco dada à imagem, ao material, ao estatuto, aos que outros pensam, aos ditames sociais. Nesta semana, disse-me: «Há um lado meu que nem imaginas. Eu sou prática, muito prática nos relacionamentos, as mulheres são práticas e cerebrais, mais do que tu possas imaginar, e eu também sou; eu estou com 36 anos e o pai dos meus filhos tem de ter um emprego que me garanta uma casa razoável, o sustento necessário para partilharmos as despesas, tem de ser equilibrado, não pode ser mulherengo, e tem de saber muito bem o que quer da vida e ser uma pessoa que saiba cuidar da casa e, por mais que te choque, preferencialmente deve ter carro.»
Só me consigo lembrar do conto The sensible thing de F. Scott Fitzgerald.
sexta-feira, julho 26, 2013
Ironia inteligente é isto
«Em 1517, o padre Bartolomé de Las Casas compadeceu-se dos índios que se extenuavam nos laboriosos infernos das minas de ouro antilhanas, e propôs ao imperador Carlos V a importação de negros, que se extenuassem nos laboriosos infernos das minas de ouro antilhanas. A essa curiosa variação de um filantropo devemos infinitos factos [...]»
Jorge Luis Borges
quinta-feira, julho 25, 2013
Esqueça as notícias - e aproveite para conversar por MANUEL MARIA CARRILHO
«Desta vez foi de mais, acabamos de viver um mês em que as notícias mais pareciam mosquitos de Verão que nos atacam por todos os lados, do que informação que nos permitisse olhar com algum discernimento para o País. O resultado é uma sociedade cada vez mais atordoada, desvitalizada e rebocada: atordoada pela confusão, desvitalizada pela deceção, rebocada pela rotina.
Se calhar, o melhor é mesmo seguir o conselho de Rolf Dobelli, que recentemente sugeriu num estimulante texto publicado no The Guardian que as "news is bad for you - and giving up reading it will make you happpier" (12.04.2013). A ideia central é que, nos dias de hoje, as notícias se tornaram tão tóxicas para a mente, como o açúcar se revelou ser para o corpo.
E propõe, em apoio desta corajosa analogia, dez pontos em que vale a pena refletir, sobretudo depois da semana de excitada e inútil especulação noticiosa que Cavaco Silva impôs ao País. Esses dez pontos são, na sua perspetiva, que as notícias enganam, são irrelevantes, não explicam, são tóxicas para o organismo, aumentam os erros cognitivos, impedem de pensar, funcionam como um uma droga, fazem perder tempo, tornam-nos passivos e matam a criatividade.
As notícias enganam porque focam sempre o mais pitoresco ou o mais anedótico em qualquer acontecimento, em prejuízo do fundamental. As notícias são irrelevantes porque, se pensarmos nas cerca de dez mil novas histórias que as notícias passaram nos últimos doze meses, somos incapazes de indicar uma única que nos tenha ajudado a tomar uma boa decisão na nossa vida. Quando toda a gente vive em competição, elas são uma desvantagem competitiva.
As notícias não explicam nada, elas são como a espuma à superfície das águas e quanto mais prendem a nossa atenção, mais incapazes nos tornam de compreender verdadeiramente o que se passa e mais insensíveis nos tornam ao que de facto conta.
As notícias são tóxicas para o nosso corpo, elas interferem com o nosso sistema límbico (que é o responsável tanto pelas nossas emoções como pelos nossos comportamentos sociais), podendo alterar a produção de glucocorticóides, desregulando o sistema imunitário, afetando o crescimento e induzindo diversos problemas de saúde.
As notícias funcionam como uma droga, elas estimulam os circuitos neuronais de "skimming" e multitarefas, bloqueando outros, nomeadamente os da leitura e do pensamento focado. O que, com o tempo, acaba por alterar a própria estrutura física do cérebro.
As notícias aumentam os erros cognitivos porque em geral valorizam a confirmação e a repetição do que se sabe, ou se pensa que sabe, em detrimento de tudo o que é diferente e surpreende. As notícias inibem o pensamento, porque este requer um tempo de concentração que exige uma atenção contínua. Mas também porque elas afetam a memória, sujeitando-a a um fluxo ininterrupto de distrações e de insignificâncias.
As notícias são uma perda de tempo. Todos sabemos, por experiência, que na verdade bastam uns minutos por dia para nos manter informados, o resto é repetição e ruminação que apenas visam alimentar o "infotenimento". As notícias tornam-nos passivos, elas valorizam tão intensamente o que está fora do nosso alcance, que só podem conduzir à resignação e ao conformismo.
Por fim, as notícias matam a criatividade. Não há "notícia" de um único criador, seja em que domínio for, que seja um dependente, um obcecado ou um viciado em notícias. As notícias são inimigas da criação, elas colam-nos às ideias gastas e às velhas soluções, à sua banalidade e inutilidade.
O argumentário é, como se vê, sugestivo. O leitor pode conhecer melhor a "lente" com que Rolf Robelli revê o mundo lendo "A Arte de Pensar com Clareza - 52 Erros de Raciocínio Que não Deveríamos Cometer", obra que acaba de ser editada em português pela editora Temas e Debates.
O que R. Dobelli - muito inspirado por N. N. Taleb, o autor do famoso êxito O Cisne Negro - defende neste livro, é uma abordagem fria da racionalidade, que valoriza não só a propensão para o erro no comportamento humano, mas também o seu carácter sistemático. As notícias são, por isso, para ele, um excelente material para testar as consequências desta perspetiva, porque "a comunicação social é o meio onde a tendência para acreditar no relato se dissemina como uma doença contagiosa"(p. 62), tornando frequente o paradoxo de ser melhor a explicar do que a compreender.
Eis pois um bom programa para o mês de agosto que se aproxima: esquecer as notícias - e, já agora, aproveitar para conversar. Aqui, o autor a seguir é Theodore Zeldin, que escreveu um fantástico "elogio da conversa", editado pela Gradiva. A conversa pode ser o antídoto das notícias: ela pode aproximar da verdade, pode ser explicativa e relevante, estimular o pensamento, a criatividade, desintoxicar a mente e a explorar as ressonâncias com o mundo.
Como diz T. Zeldin, a conversa é, entre coisas, uma atividade que se situa entre o jogo e o puzzle, e que pode "modificar não só a maneira de ver o mundo, mas também o próprio mundo" - ora não é isto mesmo que todos queremos hoje»
E, hoje, Drummond, aquele que quando acerta acerta
és tu mesmo, é tua poesia,/
tua pungente, inefável poesia,/
ferindo as almas, sob a aparência balsâmica,/
queimando as almas, fogo celeste, ao visitá-las;/
é o fenômeno poético, de que te constituíste o misterioso portador/
sábado, julho 20, 2013
LUZ QUENTE, Bukowski
sozinho/
esta noite/
aqui em casa,/
sozinho com/
6 gatos/
que me dizem/
sem/
esforço/
tudo o que/
há/
para saber
quinta-feira, julho 18, 2013
AGORA por Charles Bukowski
chegar aqui/
deslizando para a velhice/
as décadas passadas/
sem nunca ter conhecido uma pessoa/
realmente excepcional/
sem nunca ter conhecido uma pessoa/
realmente boa/
deslizando para a velhice/
as décadas passadas/
o pior são as manhãs.
quarta-feira, julho 17, 2013
Alguns gostam de poesia, Wislawa Szymborska
«Alguns gostam de poesia./
Alguns –/
quer dizer nem todos./
Nem a maioria de todos, mas a minoria./
Excluindo escolas, onde se deve/
e os próprios poetas,/
serão talvez dois em mil./
Gostam –/
mas também se gosta de canja de massa,/
gosta-se da lisonja e da cor azul,/
gosta-se de um velho cachecol,/
gosta-se de levar a sua avante,/
gosta-se de fazer festas a um cão./
De poesia –/
mas o que é a poesia?/
Algumas respostas vagas/
já foram dadas,/
mas eu não sei e não sei, e a isto me agarro/
como a um corrimão providencial.»
terça-feira, julho 16, 2013
jaça
nome feminino
1. matéria estranha dentro de uma pedra preciosa, mancha
2. falha, defeito
3. popular cama
4. popular calabouço
(De origem obscura)
jaça In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013. [Consult. 2013-07-16].
Disponível na www: .
1jaça Datação: Referência bibliográfica da fonte de datação 1696 cf. MBLuz
Cada um dos sentidos de uma palavra
n substantivo feminino
1 imperfeição (mancha ou falha) na estrutura física de uma pedra preciosa
2 Derivação: por metáfora.
mácula (p.ex., na reputação); desdouro
Ex.: homem de caráter sem j.
segunda-feira, julho 15, 2013
Aleluia!
http://divinacomedia.pt/wordpress/historia-da-minha-vida-1/
A maior lacuna editorial foi preenchida. O português do Brasil tem uma edição notável ilustrada.
Havia excertos publicados.
Tenho uma edição antiga Uma Aventura Amorosa, havia o livro da Visão e da sua colecção erótica, havia um pequeno livro com páginas sobre a fuga da prisão.
Finalmente, 1200 páginas (das 4000, é certo...) são publicadas. Em dois tomos. O primeiro já está nas livrarias (e no meu quarto), o segundo sairá em Setembro.
A tradução de Tamen já me demonstrou, pelo cotejo com outras do Brasil, que traduzir abre caminhos tão diferentes.
Casanova, mais do que um ginecómano, foi um literato, um filósofo, um religioso, um conhecedor fundo da vida mundana e livresca - e, acima de tudo, um escritor exímio com uma diversidade vocabular singularíssima.
Um clássico.
«Aquele que tem a força de suspender os seus actos até que chegue a calma, esse é o sábio. Um ser raro.» Giacomo Casanova
domingo, julho 14, 2013
Apresentação da personagem
Tenho óculos, barba, o rosto e o corpo franzinos. Tenho muitos tiques nos olhos. O pessoal na escola gozava comigo, sempre me chamaram «intelectual» em tom trocista. Quando era novo, falava pouco, hoje falo muito e de forma eléctrica. Quando falo muito, os meus olhos piscam muito - é o que me dizem; as pessoas reparam mais na forma do que no conteúdo, especialmente as gajas fúteis e irritantes, passo o pleonasmo. Hoje, o estigma de «intelectual» mudou para «revoltado». Nunca fui particularmente tímido, mas fui sempre relativamente insociável - não suporto a estupidez humana de 90% dos viventes. Desde novo que costumo ir para cafés, beber café (bebo entre nove a onze cafés por dia), ouvir música, ler revolucionários socialistas, ler ateus, ou fazer coisas no computador. Não consigo ouvir um reaccionário num café, nem que tenha o dobro do meu tamanho, sem lhe procurar desmontar a estupidez do seu raciocínio. A generalidade das pessoas fala sem conhecer os assuntos, sem ler, sem reflectir, sem conhecer. Também não suporto crentes teístas - têm de levar sempre com Freud e a fantochada pueril do Papá, com Marx e Nietzsche. Umas figuras de Jeová que me interceptaram no caminho para o café levaram tal banho intelectual, que hoje fogem para o outro lado da rua. Julgam que estou possuído. Estou farto do anestesiamento e da passividade - é preciso agitar as mentes dormentes e ignaras. Por vezes, tenho momentos de uma ansiedade tal, que me apetece morrer. Quando mudei de casa, a ideia de ter de mudar os móveis todos, de tratar de uma série de burocracias fizeram-me desejar a morte. Por vezes, a simples antecipação de que no dia seguinte tenho de fazer isto e aquilo deixa-me de tal modo, que não consigo dormir. Mas a revolução precisa de mim.
sexta-feira, julho 12, 2013
A honra perdida de uma época que foi
«Sempre me fascinou o episódio de Egas Moniz, de baraço ao pescoço e filhos ao lado, de procurar cumprir, junto do rei de Castela, a palavra a que D. Afonso Henriques faltara. Lenda, História, mentira, verdade?, pouco me interessa. A natureza do assunto é que me toca. O símbolo da honra, contido na metáfora, exprime um princípio sagrado: quando se diz, faz-se. Cresci e fui educado, pela família e por velhos hábitos de antigos mestres, com estes princípios. Nada de heróico: simplesmente o cumprimento natural das exigências morais de conduta.
A minha geração raramente traiu o testamento. "Entre os portugueses / traidores houve às vezes", falou Camões. Mas a generalidade (tomando as generalizações com todas as precauções devidas) manteve-se-lhe leal. Digo "leal" e não "fiel" porque fidelidade é coisa de cão, e lealdade tem a ver com carácter. A fidelidade pode conduzir ao apoio das maiores perversões e das mais torpes ignomínias. A lealdade, pelo contrário, tem a ver com convicções de natureza ética, e não pactua com a infâmia ou se torna conivente com a perfídia. Estou mais do lado de Sartre ou de Camus, que arriscaram a opinião, e algumas vezes erraram, porque envolvidos no turbilhão da época, do que de um Aron, ardiloso e medido. Como as ideias de um homem não lhe pertencem em sistema de exclusividade, antes fazem parte de um "tempo", de um "ambiente" e, até de uma "cultura" de grupo, fomos, em Portugal, os rapazes do meu tempo, marcados por essa "atmosfera."
Reconheço que os nossos impulsos ideológicos e intelectuais conduziram, acaso, a injustiças e a arrogâncias tão desnecessárias quanto cruéis. Mas a grandeza do que íamos aprendendo talvez explicasse o propósito. E este consistia no seguinte: amigo não trai amigo; não se denuncia nunca; a amizade é um posto.
Estes padrões de comportamento podem, nos sombrios tempos de agora, suscitar algum desdém e zombaria, mas eram exigências da razão antifascista. E o antifascismo, não esqueçamos e não admitamos que o deformem, foi uma admirável frente moral, que congregou comunistas e socialistas, monárquicos e católicos, democratas e simples cidadãos, movidos pelo singelo desejo de ser livres e felizes.
A batalha pela liberdade era, antes e tudo, a batalha pela dignidade humana, que teria, inevitavelmente, de criar os seus valores e de recuperar o que de melhor envolvia o humanismo. "Humanismo e Terror" é, justamente, o título de um livro de Merleau-Ponty, outro dos grandes, a que regresso com frequência, e cuja leitura está longe de ser obsoleta ou datada. Honra, conhecimento, vontade e paixão representam, afinal, sinónimos da mesma galáxia. Quem não percebe a força destes conceitos e o que eles comportam de vida, de essência dos laços sociais, não percebe nada de nada.
Sou um velho caturra, mas nunca serei um moralista caturra. O que define um homem, repito, é a qualidade das suas lealdades; não a servidão das suas fidelidades. E sei muito bem o que custou, a muitos homens, de mágoa, desapontamento e dor, a alteração das suas ideias. O que nos aconteceu foi sentirmos, na pele e na alma, vergonha por um homem que a não teve nem tem. Por um homem que representa uma associação de outros homens, os quais não se demarcaram do opróbrio e até, diz-se, que o empurraram para o acto.
Alguma coisa se perdeu, nesta caminhada desventurada para o pior dos abismos: o que resta do que fomos. E que resta é tão escassa e selectiva como a memória delida de uma antiga juventude.»
Baptista-Bastos
segunda-feira, julho 08, 2013
Um dos maiores elogios
- A minha maior fobia é entrar numa casa alheia. Nunca me sinto à vontade para ser eu. Gosto de estar meio despido com os pés na mesa. Sinto-me sempre constrangido, especialmente em casas em que se respira burguesmente, em que há cerimónia, vigilância, gestos controlados. Hipocrisia. Não suporto. Fico doente. Não poder pôr a beata onde quero, poder deixar cair um pinga no sofazinho novo. A tua casa é o único sítio que sinto como uma extensão da minha casa. Que é uma casa e não uma instituição. Gramo à brava poder ter descoberto um sítio em que posso ser eu além da minha pocilga.
Apresentação da personagem
Tenho sessenta e seis anos, mas se virem o meu rosto hediondo - porém, magnético - não acreditarão que tenho menos de oitenta. A cara sulcada, a pele curtida, os olhos duros, os lábios zangados, as sobrancelhas espessas e determinadas. Ainda assim, certas garotas param para me contemplar.(Cada vez menos.) Uma vez, uma mulher num bar, de tez trigueira e expressão juvenil, abeirou-se do meu posto solitário e disse que eu tinha um «rosto forte e admirável». (Na verdade, ela não disse isto, mas era isto que diria se se soubesse expressar.) Não gosto de dançar. Não gosto de crianças. Não gosto de passear. Não gosto de viajar. Não gosto de trânsito. Não gosto de planos. Detesto multidões. Não gosto do amarelo. Não gosto de manhãs. Não gosto de almoços de família, nem de beijinhos da prima, nem de conversa de chacha. Abomino gente que fala depressa. Abomino gente que fala muito. Não gosto de ruído. Não suporto publicidade. (Tenho pavor às figuras de plástico com largos sorrisos que exibem dentições perfeitas no cartazes da cidade.) Não gosto de abrir os lábios se não for para os encostar à espuma de uma garrafa ou à pachacha de uma rapariguinha. [Ultimamente, o meu emagrecimento verbal foi levado ao limite e chego a passar dias em que não emiti uma única palavra. (Como chego a casa leve nesses dias!) A palavra que mais utilizo é «Não».] Não gosto de restaurantes. Tenho horror a festas e a concentrações de entusiasmo. Não gosto de andar a pé. (Tenho a perna esquerda esfacelada, mas a verdade é que nunca suportei andar mais do que dez passos.) Não gosto de sol. Não gosto de caminhadas. Não gosto de sábados. Não gosto de médicos. Execro vendedores. (O mundo está cheio de vendedores. São todos vendedores. Vendedores de quinquilharias, vendedores de tecnologias, de futilidades, de necessidades induzidas, vendedores de si próprios.) Acham tudo isto bastante desnutrido? Estou-me nas tintas. Não tenho qualquer crença. Não defendo nenhuma ideia ou causa - não acredito em nada. Conheço-me. Isso basta-me. Estar comigo é suficiente. O sossego é o meu templo. Não imaginam o apaziguamento que é chegar a casa, bater com a porta, atirar as minhas velhas botifarras para um canto e estirar-me no sofá. Se tiver cerveja no frigorífico, um combate de pugilismo ou um filme pornográfico na televisão, consigo passar 363 dias felizes. Os outros são preenchidos com uma prostituta (a única categoria profissional que entrou cá em casa, tirando um pescador de rosto quase tão marcado como o meu e homem de pouquíssimas falas, que veio cá três vezes), preferencialmente duas vezes ou três vezes mais nova do que eu e com coxas e nádegas que me encham a mão. Durante as minhas incursões fora de casa, evito qualquer diálogo, por mais breve que seja, e tenho sempre o punho direito preparado para qualquer garoto que me venha importunar. Ao fim de duas semanas de silêncio absoluto, sou capaz de encontrar uma certa paz numa taberna se esta estiver frequentada por meia dúzia de almas solitárias sem ambição nem sonhos.
quarta-feira, julho 03, 2013
Está tudo nos livros
«A indiferença silenciosa, grave, quase benévola, é a manifestação legítima da morte de toda a crença.»
Alexandre Herculano
segunda-feira, julho 01, 2013
Ele foi criticado e com razão, mas eu achei a frase de uma bravura, comicidade, genuinidade. A verdade é que o seu interlocutor fica com uma fácies digna de uma fotografia.
- Ei, tu estás obcecado com a ideia de que quero «comer» a tua mulher. É mentira. Além de não gostar de determinantes possessivos, digo-te a verdade. Eu quero conquistar a «tua» mulher. Não comê-la. De resto, abominar isso verbo aplicada a seres humanos.
[Lembrei-me de Herberto Helder. O Bom Ladrão não é o que rouba a cinza, mas o fogo.]
Da maledicência dos cafés ociosos (conversas interceptadas)
- Já viste a namorada do Miguel? - Ai, nem me digas nada. Tem umas olheiras. - E magra, é tão magra. - Que amostra de gente. Credo, mete medo ao assusto. Quando a vi aqui, aqueles olhos, aquela palidez, ao menos podia pintá-los, pôr maquilhagem. - E tem uma pele. Viste as mãos? Pele seca. E tremia a segurar a chávena. - O que é o que Miguel anda a fazer com ela, poça. - Eu não entendo aquele homem. Então agora que está desempregado pede jarros de sangria. Mas de onde é que lhe vem o dinheiro? - Ele não tem dinheiro para isso. Ele está maluco. Deve andar nalgum esquema ou a estoirar o dinheiro de alguém. - Eu digo-te uma coisa. Eu trabalho e não consumo como ele aqui. Ai, podes querer que não.
Blargh
Verdadeiramente insuportável - as pessoas que usam uma linguagem informática e de gestão pejada de estrangeirismos (e de alguns neologismos ainda mais odientos) para descrever as coisas da vida.
«Faz reset. Vamos começar de novo. Start-up. O.K, ´bora lá.»
Mais à frente na reunião.
«Desculpem lá, só para fazer um checkcpoint. Deixem-me lá ver o paper. Ah, depois teremos de fazer aqui um upload.»
De repente, um eureca.
«Ah, agora já deu. Podem logar-se.»
Percebi logo que nunca navegaríamos nas mesmas águas.
Para Gastão Cruz
Todas as línguas do mundo se sujaram./
Fomos condenados à gaguez triunfal/
pela qual procuramos ainda dizer o que nos recusaram./
Na mínima dor há um pomar onde colhemos/
os esplêndidos frutos que alimentam a nossa linfa, o nosso sangue,/
a corrente que sem recurso nos prende/
à furiosa morte./
A metáfora da alma será ainda a melhor dádiva/
deste corpo tão eficiente e tão pobre./
Assim nos saciamos.
Luís Quintais
sábado, junho 29, 2013
Álvaro de Campos, Passagem das Horas
Penso em que é que me ficará desta vida aos bocados, deste auge,/
Desta entrada às curvas, deste automóvel à beira da estrada, deste aviso,/
Desta turbulência tranqüila de sensações desencontradas,/
Desta transfusão, desta insubsistência, desta convergência iriada,/
Deste desassossego no fundo de todos os cálices,/
Desta angústia no fundo de todos os prazeres,/
Desta sociedade antecipada na asa de todas as chávenas,/
Deste jogo de cartas fastiento entre o Cabo da Boa Esperança e as Canárias./
Não sei se a vida é pouco ou demais para mim./
Não sei se sinto de mais ou de menos, não sei/
Se me falta escrúpulo espiritual, ponto-de-apoio na inteligência,/
Consangüinidade com o mistério das coisas, choque/
Aos contatos, sangue sob golpes, estremeção aos ruídos,/
Ou se há outra significação para isto mais cômoda e feliz./
Seja o que for, era melhor não ter nascido,/
Porque, de tão interessante que é a todos os momentos,/
A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger,/
A dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair/
Para fora de todas as casas, de todas as lógicas e de todas as sacadas,/
E ir ser selvagem para a morte entre árvores e esquecimentos,/
Entre tombos, e perigos e ausência de amanhãs,/
quarta-feira, junho 26, 2013
Idem
«O homem deseja um mundo em que o bem e o mal sejam nitidamente discerníveis, porque nele há o desejo, inato e indomável, de julgar antes de compreender. Sobre este desejo são fundadas as religiões e as ideologias. Estas não se podem reconciliar com o romance a não ser que traduzam a linguagem de relatividade e de ambiguidade dele para o seu discurso apodítico e dogmático.»
A história como luta entre memória e esquecimento
«A nossa época está obcecada pelo desejo de esquecimento e é para realizar esse desejo que se abandona ao demónio da velocidade; acelera o passo porque quer fazer-nos compreender que já não aspira a ser lembrada; que se sente cansada de si própria; farta de si própria; que quer soprar a chamazinha trémula da memória.»
Milan Kundera
Enrique Vila-Matas
««En la literatura, así como en la vida - escribe en sus memorias Sándor Márai -, sólo el silencio es sincero.» Es una frase que, desde que la conozco, me ha hecho reflexionar. A medida que envejezco, aprecio mejor el silencio, que muchas veces - tal como pretende el tópico - parece decir más que qualquier palabra. Márai piensa que toda la vida nos callamos sobre quienes somos, algo que sólo nosotros sabemos y sobre lo que no podemos hablar con nadie. «Sin embargo, sabemos que quienes somos y eso que no podemos decir constituyen la verdad. Somos aquello de lo que guardamos silencio.» Estas palabras de Márai me hacen pensar siempre. Van contra la literatura, está claro. Por eso, si algunas veces odio la odio (la literatura), seguramente es porque hay días en los que intuyo, con más fuerza de la habitual, que ella, con tanta palabra escrita, hace esfuerzos para alejarme del núcleo central de mi verdad.»
terça-feira, junho 25, 2013
Ele e ela coabitam o mesmo café há uns anos. Ele zanga-se com ela constantemente, principalmente quando ela tem namorado. Pretexta isto e aquilo e censura-a e ralha - uma opinião estúpida, o ela falar alto quando há Quiz, o ela ter o computador a ocupar a tomada mais tempo do que os outros. Algumas vezes, ele entornou-lhe um líquido, alegadamente sem querer. Ela hesita em protestar - não sabe se foi intencional. Ele jura que não foi. (Seria um «acto falhado» para Freud.) Mas da última vez ela gritou com ele - ele disse que ela estava maluca, que ninguém gritava a ninguém por sem querer lhe entornar uns pingos de água. Além disso, ele treme das mãos. Era cruel, ela. No café, as amigas disseram-lhe que ela lhe dera o troféu - conseguira gerar-lhe uma reacção. Mostrava que não lhe era indiferente. Todas as semanas, ele anuncia que deixou de falar com ela - e voltar sempre a falar com ela. E a relação conduz sempre a novos conflitos. A nova maledicência - estão sempre a dizer mal um do outro, mas não conseguem sair do quadrado malsão, não se conseguem libertar - principalmente ele que arranja sempre forma de lhe voltar a falar. Ela por amizade, diz. Ele não diz porquê. Todos lhe dizem para a ignorar. Ele faz votos de renovadas promessas. «É que desta vez nunca mais lhe dirijo a palavra, nem um "olá". Se me quiserem ter na mesa, garanto-vos que só se ela não estiver.» Mas ele voltou sempre.Para novos gritos, discussões, agressões. Quantas relações não conheces assim?
sábado, junho 22, 2013
Ligações improváveis (ou não)
«Quando você for tentado a julgar outro ser humano, não importa como, obviamente, ele ou ela mereça, lembre-se de que todos estão fazendo o melhor que podem, a partir do seu próprio nível de consciência.»
http://universonatural.wordpress.com/
«In my younger and more vulnerable years my father gave me some advice that I've been turning over in my mind ever since.
"Whenever you feel like criticizing any one," he told me, "just remember that all the people in this world haven't had the advantages that you've had."»
F. Scott Fitzgerald
quinta-feira, junho 20, 2013
Armadilhas da imitação por Manuel Maria Carrilho
«Tudo gira, hoje, em torno da riqueza: da que existe, da que desapareceu, da que se procura. Foi a pensar nela que Adam Smith lançou as bases da economia política moderna. Mas, ao contrário do que geralmente se diz, as questões que mais o inquietavam não surgiram na sua obra mais conhecida, A Riqueza das Nações, de 1776, mas quase vinte anos antes, em 1759, no seu livro Teoria dos Sentimentos Morais.
E a sua ideia central surpreenderá muitos, porque o que Adam Smith afirmou nessa obra notável foi que a riqueza não é o que assegura o nosso bem-estar - para isso, bastaria uma vida sem carências, mas frugal. Não, o que ele intuiu foi que a riqueza, mais do que ser aquilo que se acumula, é afinal o que nós identificamos como o que é mais desejado pelos outros.
O que Adam Smith descobriu foi que não é a necessidade material que está na base da procura da riqueza, mas antes o desejo. Ora, enquanto a necessidade cessa com a satisfação, o desejo, pelo contrário, renova-se e renasce de cada vez que se sacia. A riqueza é o que é desejado pelo olhar que mais conta para cada um de nós, que é o olhar desse espectador constante, multiforme e indefinível que constitui o que chamamos "os outros".
Esta perspetiva identifica assim, na origem da aspiração humana à riqueza, um complexo dispositivo de comparação e de imitação, que seria como que inato à humanidade. Como se tudo se passasse, na experiência humana, como no caso descrito pelo primatólogo Frans de Waal com dois chimpanzés instalados em duas jaulas contíguas.
Enquanto se lhes dá a ambos a mesma comida, um pequeno pepino, eles respondem lançando pequenas pedras para o exterior, mostrando-se contentes com este jogo. Mas no momento em que se dá a um só deles umas uvas, a sua comida preferida, o outro imediatamente para o jogo e amua, rejeitando o pepino e enfurecendo-se cada vez mais... enquanto o primeiro rejubila com a situação!
São várias as investigações que, nesta linha, têm insistido no decisivo papel que a comparação, nos seus constantes e múltiplos jogos e combinações, tem na felicidade e na infelicidade humana. Basta, para o reconhecer, um exemplo banal: se me anunciam um aumento salarial de trezentos euros, ficarei muito contente. Mas se logo a seguir encontrar um amigo que teve um aumento de seiscentos, toda a alegria dará lugar a um incontornável abatimento.
A questão é saber porque é que passamos o nosso tempo a comparar tudo - riqueza, saúde, carreira, aspeto, etc. -, apesar de manifestamente se tratar de um processo que conduz mais à infelicidade do que à felicidade? É uma questão a que já se procuraram dar muitas respostas, sobretudo desde que os estudos de Richard Easterlin mostraram que, apesar do aumento do PIB de 200% ou 300% em diversos países, entre os anos cinquenta e setenta do século passado, o "nível de felicidade" declarado pelas pessoas permanece inalterado.
A conclusão de Easterlin (consagrada como o "paradoxo de Easterlin) foi que, quando uma sociedade satisfaz as suas necessidades vitais, o desenvolvimento económico deixa de ter uma influência direta sobre a evolução do bem-estar médio da população, que passa a ser muito mais relativo, conforme os objetivos do contexto. Uma das ideias que decorre destes trabalhos é que o ser humano sofre e se deprime mais com comparações negativas do que se alegra e anima com as comparações positivas. Como se a felicidade fosse tanto mais difícil de viver quanto a adaptação ao que se conquistou é fácil, obnubilando assim o valor do que se obteve. Mas será possível alterar este processo?
Não parece fácil. Sobretudo se tivermos em conta a descoberta feita em 1996 por Giacomo Rizzolatti dos chamados "neurónios-espelho", que condicionam desde o nascimento o funcionamento do nosso sistema psíquico, que se forma como que fotocopiando o dos outros e oscilando entre uma imitação ora mais cooperativa ora mais competitiva.
Isto confirma que a razão pela qual permanentemente nos comparamos com os outros é porque, na verdade, o nosso desejo é determinado pelo que os outros desejam, num inextrincável jogo em que, por um lado, se cruzam a intenção cooperativa e a rivalidade competitiva e, por outro lado, se confundem o desejo mimético e a necessidade objetiva.
E isto passa-se tanto no comportamento individual como no coletivo, na economia como na política. Áreas em que de resto a reincidente conversa sobre os "modelos" a seguir mostra toda a força da imitação e das suas armadilhas. É bom lembrar os modelos que se têm sucedido, num vertiginoso carrossel de devoção e de deceção que já passou pelos modelos americano, sueco, japonês, irlandês, finlandês, etc., antes de se chegar ao alemão!...
O que se passa, como há dias sublinhava Jean-Pierre Dupuy, é que temos dificuldade em aceitar que a economia é movida mais pelo desejo do que pela necessidade. Por um "desejo de ser reconhecido pelos outros, de ser admirado por eles, numa admiração mesclada de inveja - e, disto, nunca se tem que chegue". (Le Monde, 11.6.2013)
E a chave desta dificuldade encontra-se no desconhecimento, na opacidade dos agentes em relação às suas próprias motivações, que se enganam ao "acreditarem que a riqueza lhes trará o bem-estar material que pensam necessário à sua felicidade. A riqueza atrai sobre quem a possui o olhar de cobiça dos outros. Pouco importa porquê, o que conta é o próprio olhar da cobiça. É esse olhar que, sem o saber, cada um mais aprecia. A economia é em suma um jogo de enganos, em que todos são sempre enganados e e cúmplices do engano. Ela é uma imensa mentira do coletivo em relação a si próprio". As armadilhas da imitação, percebemo-lo cada vez melhor, são infindáveis. Mas são talvez elas o que melhor explica - para usar uma expressão de René Girard que fez história - que continue a haver "tantas coisas escondidas desde a formação do mundo".»
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quarta-feira, junho 19, 2013
Mensagem que recebi
Ex.mo Sr.
Agradecemos muito o seu reparo, que teremos em conta no futuro.
Com os melhores cumprimentos,
Mensagem que enviei à Assírio & Alvim a propósito de Servidões
Mensagem:
Bem sei que Herberto Helder troca propositadamente certas grafias. Mas não foi o que sucedeu com a palavra «octagenário». É um erro. E um erro ou gralha de revisão. «Octogenário», como «octogésimo». A corrigir quando editarem obra completa. Saudações.
«O meu pai a fumar e eu queria tanto fumar também. Perguntei
- Posso fumar?
e a resposta um par de olhos terríveis. O chalet que me parecia sempre abandonado, com espinhos em torno. Não me lembro muito nitidamente da minha mãe nessa época, lembro-me mais da minha avó, omnipresente. Imensas chávenas de asa quebrada. O meu avô usava um aparelho de ouvir complicadíssimo, quase não falava, sempre de casaco de linho branco. Lia o jornal na varanda, ia para a varanda, que esquisito, durante as trovoadas de verão, enquanto a minha avó rezava, apavorada. Era alta, o meu avô nem por isso, alta, de olhos azuis, sempre tão boa para mim. Adorava-a. Adorava a família da minha mãe, de resto, [sempre] me trataram com tanta ternura. Não tenho razão de queixa de ninguém. Reparo agora, que curioso, que até hoje a única pessoa de quem tenho razões de queixa é de mim mesmo. Fui um afortunado, sempre, embora nunca tivéssemos sido ricos. Que alegria chegar àquela casa, que pena virmo-nos embora para a tristeza do inverno, a tristeza das aulas, o suplício dos professores. Já escrevia nessa altura, versos, ninharias. Mas ia ser o maior escritor do mundo, isso era certo. Na minha opinião sou, claro, não vale a pena escrever se não se é o maior escritor do mundo. Infância, ainda sinto o teu mistério, as descobertas diárias, o teu murmúrio no meu sangue. Ainda me acompanhas com, nos intervalos da alegria, tristezas inexplicáveis que passavam depressa, perplexidades inexplicáveis que passavam depressa, angústias inexplicáveis que passavam depressa. Saudades disso, também e, de repente, o maravilhamento de novo. Paixões por meninas entrevistas, um par de tranças sem cara, um sorriso que se me não dirigia, e ainda bem porque, no caso de se me dirigir, não saberia o que fazer com ele. Isto vai tudo mal redigido mas pouco me importa. Importa-me a casa da minha infância muito longe de Lisboa, para mim, em criança, no outro lado do mundo, entre pinhais, castanheiros, a vinha, montes ao longe. E as amoras, claro, as amoras. A conversa das pessoas crescidas, à noite, no andar de cima, conversas, risos, passos no corredor e a trepadeira no postigo sempre, a trepadeira no postigo.»
António Lobo Antunes
terça-feira, junho 18, 2013
Se reparares, quase tudo o que ouves são clichés. É certo que quanto menor a intimidade, maior o efeito de conversas de elevador, de truísmos ou de aparentes verdades insofismáveis que se assimilam acriticamente, se reproduzem acriticamente. Quase todas as conversas assentes em clichés. Os anúncios televisivos. Mesmo os longos discursos. Tão difícil ser eu. Tão difícil encontrar a nossa voz. Tão difícil não ser hipócrita. Tão difícil a autenticidade com medo do juízo, da reprovação social. Tanto medo de ser causa de escândalo. Conheço pessoas a quem nunca ouvi algo que não fosse a reprodução do que emprenharam, sem estudo, sem reflexão, sem o mirar de todos os ângulos. Dizia Aristóteles que só conhecendo TUDO, ABSOLUTAMENTE TUDO, toda a informação, todos os ângulos de visão, todos os entendimentos sobre um assunto poderíamos então formular um juízo.
segunda-feira, junho 17, 2013
«Senti a primeira palpitação de Lolita em Paris, em fins de 1939 ou começo de 1940, quando estava acamado com uma séria crise de nevralgia intercostal. Tanto quanto me recordo, o frêmito inicial de inspiração foi de alguma forma provocado por certo artigo de imprensa sobre um macaco no Jardin des Plantes, o qual, após ser persuadido durante meses por um cientista, enfim produziu o primeiro desenho feito por um animal: nele só apareciam as grades da jaula da pobre criatura. Esse impulso não tinha nenhuma conexão textual com a linha de pensamento por ele suscitada, da qual resultou, entretanto, o protótipo de Lolita.»
Nabokov
Uma vez, num recital de poesia, ouvi um poema que terminava com «Feliz aquele que no fim da sua vida pode dizer uma só palavra». A ideia: quem viveu por (diferente viver por de viver para, tão diferente) um palavra. Será?
Certos religiosos vivem assim, alguns comunistas vivem ou viveram assim, alguns românticos terão vivido a palavra do nome do seu amor, o escritor vive assim.
domingo, junho 16, 2013
Ouvi um desses casos de amor trágico em que ela termina a relação esperando que ele entendesse que ela não estava satisfeita com aquilo que entendia ser uma indefinição do compromisso, esperando que ele no dia seguinte se ajoelhasse pedindo-a em casamento, e em que ele que nunca amara ninguém como a ela ficou descoroçoado durante meses e anos perguntando-se porquê, porquê, porquê, e esperando o telefonema que nunca veio.
quinta-feira, junho 13, 2013
«Sim, a qualidade do silêncio está organicamente ligada à da linguagem. Estamos aqui sentados, nesta casa com jardim, onde não há outro som para além da nossa conversa. Aqui, consigo trabalhar, sonhar, tentar pensar. O silêncio tornou-se um enorme luxo. As pessoas vivem no meio da algazarra. Já não há noite nas cidades. Os jovens têm medo do silêncio. O que vai acontecer às leituras sérias e difíceis? Ler uma página de Platão com um walkman nos ouvidos?! Isso deixa-me muito assustado. As novas tecnologias estão a transformar o diálogo com o livro. Abreviam, simplificam, conectam. O espirito está “ligado”. Já não se lê da mesma maneira. O fenómeno Harry Potter parece ser uma exceção. Todas as crianças da Terra, esquimós, zulus, leem e releem essa saga ultrainglesa, com um vocabulário extremamente rico e sintaxe sofisticada. É ótimo. O livro é um grande defensor da privacidade. A Inglaterra ainda é um país de privacy. O que pode ter aspetos absurdos: podemos ser vizinhos durante 50 anos e não trocar uma única palavra. Este culto da "private life" tem imenso significado político: é uma fonte de resistência.»
George Steiner
«Pessoas com QI alto são mais propensas a trabalhar melhor à noite, enquanto que os menos inteligentes acordam cedo e funcionam melhor durante o dia, segundo os pesquisadores da Escola de Economia de Londres.
Outros estudos encontraram uma ligação entre o período vespertino com tirar notas boas na escola, diz a pesquisa, republicada pelo site Winnipeg Free Press.
No entanto, as pessoas que ficam acordadas até tarde são menos confiáveis e mais propensas a sofrer de depressão e vícios diversos, quando comparado com aqueles que dormem e acordam cedo.»
segunda-feira, junho 10, 2013
Muito gostaria de que Freud me interpretasse este sonho.
Só eu sabia da existência de um autor que nunca ninguém lera. Cujos livros ninguém abrira ou sequer vira - estavam apenas numa livraria distante num país remoto por trás de livros por trás de livros tombados. Viajei até lá. Com receio, procurava a fila onde sabia o livro estar por trás tombado. Esperei por um momento em que não tivesse ninguém a passar por aquela fila. Com um golpe de mão, tirei o livro obscuro. Tremi ao ler a escrita funda, densa, incandescente - aquilo rasurava tudo o que tinha sido escrito e, pior do que isso, todo o porvir literário. Mergulhei numa atmosfera tal, que os livros me parecem todos banais e rasos.
O Barão, Branquinho da Fonseca
«Não gosto de viajar. Mas sou inspector das escolas de instrução primária e tenho a obrigação de correr constantemente todo o País. Ando no caminho da bela aventura, da sensação nova e feliz, como um cavaleiro andante. Na verdade lembro-me de alguns momentos agradáveis, de que tenho saudades, e espero ainda encontrar outros que me deixem novas saudades. É uma instabilidade de eterna juventude, com perspectivas e horizontes sempre novos. Mas não gosto de viajar. Talvez só por ser uma obrigação e as obrigações não darem prazer. Entusiasmo-me com a beleza das paisagens que valem como pessoas, e tive já uma grande curiosidade pelos tipos rácicos, pelos costumes, e pela diferença de mentalidade do povo de região para região.
Num país tão pequeno, é estranhável tal diversidade. Porém não sou etnógrafo, nem folclorista, nem estudioso de nenhum desses aspectos e logo me desinteresso. Seja pelo que for, não gosto de viajar. Já pensei em pedir a demissão. Mas é difícil arranjar outro emprego equivalente a este nos vencimentos. Ganho dois mil escudos e tenho passe nos comboios, além das ajudas de custo. Como vivo sozinho, é suficiente para as minhas necessidades. Posso fazer algumas economias e, durante o mês de licença que o Ministério me dá todos os anos, poderia ir ao estrangeiro. Mas não vou. Não posso. Durante este mês quero estar quieto, parado, preciso de estar o mais parado possível. Acordar todas essas trinta manhãs no meu quarto! Ver durante trinta dias seguidos a mesma rua! Ir ao mesmo café, encontrar as mesmas pessoas!... Se soubessem como é bom! Como dá uma calma interior e como as ideias adquirem continuidade e nitidez! Para pensar bem é preciso estar quieto. Talvez depois também cansasse, mas a natureza exige certa monotonia. As árvores não podem mexer-se. E os animais só por necessidade física, de alimento ou de clima, devem sair da sua região. Acerca disto tenho ideias claras e uma experiência definitiva. É até, talvez, a única coisa sobre que tenho ideias firmes e uma experiência suficiente.»
sábado, junho 08, 2013
Borges
Nem a intimidade da tua fronte clara como uma festa,/
nem o hábito do teu corpo, ainda de menina e misterioso e tácito,/
nem a sucessão da tua vida assumindo palavras ou silêncios/
serão favor tão misterioso/
como olhar o teu sono envolvido/
na vigília dos meus braços:/
Virgem milagrosamente outra vez, pela virtude absolutória do sono,/
serena e resplandecente como a alegria que a memória escolhe,/
dar-me-ás essa margem da tua vida que tu própria não tens./
Entregue à serenidade,/
divisirei essa praia última do teu ser/
e ver-te-ei acaso pela primeira vez/
como Deus te verá,/
já dissipada a ficção do Tempo,/
sem o amor, sem mim.
sexta-feira, junho 07, 2013
oren·da noun \ōˈrendə\
-s
Definition of ORENDA
: extraordinary invisible power believed by the Iroquois Indians to pervade in varying degrees all animate and inanimate natural objects as a transmissible spiritual energy capable of being exerted according to the will of its possessor
Origin of ORENDA
«Podemos dizer que a tarefa do poeta, como poeta, é apenas indireta com relação ao seu povo: sua tarefa direta é com sua língua, primeiro para preservá-la; segundo, para distendê-la e aperfeiçoá-la. Ao exprimir o que outras pessoas sentem, também ele está modificando seu sentimento ao torná-lo mais consciente; ele está tornando as pessoas mais conscientes daquilo que já sentem e, por conseguinte, ensinando-lhes algo sobre si próprias. Mas o poeta não é apenas uma pessoa mais consciente do que as outras; é também individualmente distinto de outra pessoa, assim como de outros poetas, e pode fazer com que seus leitores partilhem conscientemente de novos sentimentos que ainda não haviam experimentado. Essa é a diferença entre o escritor que é apenas excêntrico ou louco e o autêntico poeta.»
T. S. Eliot
quarta-feira, junho 05, 2013
terça-feira, junho 04, 2013
segunda-feira, junho 03, 2013
«Herberto Helder...
Essa coisa de se auto-octogenar e de se manter absoluto, andando vivo e lúcido...
E o que é mais giroscópio é o facto de o poeta continuar a perceber a tessitura da vida...
Esse entendimento vívido, pleno, para lá e para cá do além... o zénite do todo, do tudo....
Este homem, sendo, consegue helderizar a vida.
Pois é, este homem é Portugal! Precisamos nos helderizar também,
abrir os olhos em português.
Mandar à merda os ensaios sobre a cegueira.
Helder dá o mote. Leia-se e entenda-se.»
José Alberto Braga
sábado, junho 01, 2013
Tecnofilia
Vais a um jantar em que só conheces uma pessoa. Tiras o telemóvel que toca do bolso e alguém diz que é igual ao dele e fala sobre quanto custou, como o comprou, pergunta-te quanto te custou, se sabes que há o -S. Indiferente ao teu ar de enfado, perora que vai sair o número ponto não sei quê e como isso mudará a vida dele e de muitos dotando-a de um conforto amigo, a conversa alastra, comparam «aplicações», soltam gritinhos «ah!», «espectáculo», «vou já sacar essa».
Vais a um concerto e na tua frente várias criaturas em posição de imobilidade filmam com o seu i-coiso o espectáculo, horas a fio, quietas, olhando para o ecrã, perguntas-te se aquela é a sua ideia de fruição, cansam-se pedem a outro que vá segurando e olhando por um bocado, fazem a transição do equipamento com muito cuidado não vá um micro segundo ficar com a qualidade da imagem afectada, segura com jeitinho, pega nele aqui nesta posição em que está. Vais a uma iniciativa recreativa e metade dos pais estão a filmar os filhos com o mesmo zelo dos que estavam no concerto. Ouves comentários de que a fotografia já foi para o Facebook, de que ficou «brutal».
Vais com um amigo a andar, subitamente ele entra numa loja, fica deslumbrado, erotizado com a forma, o desenho, a curva, a textura dos mil e um objectos que servem de auxílio aos i-merda. Pensas na criação de necessidades artificiais que sustenta o tecnocapitalismo.
O teu amigo continua a ver coisas e tu ficas perplexo a ver o que ele vê, não sabias que a empresa da maçã daquele filho de puta hoje é uma causa. Que I LOVE APPLE vende. Que há estojos para miúdos e uma parafernália de objectos úteis em forma de i-merda. Não consegues entender como outros não vêm nisso um processo de infantilização. Continuas a ver os objectos e descobres coisas espantosas, como autocolantes de metal para o frigorífico em forma de aplicações. Não consegues entender como isto pode ser uma cenoura para um cérebro de um ser vivente, já nem dizes pensante. A teu lado, olhos bem abertos de drogados. Parabéns, tecnocapitalismo, que transformaste cidadãos em consumidores.
Pensas que vives num país em que num ano houve uma queda na compra de livros não escolares de um milhão, de 1, 9 milhões de bilhetes de cinema, de 45 milhões de validações de viagens em transportes públicos - e que simultaneamente os telefones espertos aumentaram as suas vendas 46%.
Que vives num mundo em que a hiperinformação conduz a pessoas menos informadas. Em que a facilidade de comunicação conduz a pessoas mais distantes entre si, menos afectuosas (aquele grupo de quatro amigos que marcaram um encontro para cada um deles estar no seu i-merda). Um mundo que tem afastado as pessoas das coisas fundas (porque necessariamente lentas), do silêncio, da recolha da alma, da reflexão, ao mesmo tempo que as dota de uma ilusão de conhecimento. Que vives num mundo em que tudo é urgente, em que todos temos sempre portas abertas para a nossa entidade laboral entrar. Em que tudo é premente. Em que tudo é agora. Em que há quem viva em directo. Que há quem não sinta o acontecimento se este não for visto na montra. Em que o importante é arranhar a superfície das coisas sendo multitarefa. Em que os múltiplos tópicos são mais valiosos do que um pensamento estruturado, reflexivo, demorado. Ir a reboque do 4.0, 4.0 e uma letra, 5.0, como matóides acéfalos. Validar uma coisa pelo número de likes, uma pessoa pelo número de pessoas que tem, validar algo como verdade ou falso em função do que a net dita. Um mundo que escarnece da privacidade. Um mundo que glorifica um ser para dois dias o demonizar. Um mundo em que numa semana se é herói para na semana seguinte, pela súbita fama e súbito escrutínio da sua vida, essa pessoa ficar louca ou ser morta. (Vejam o que aconteceu, por exemplo, ao do vídeo do Kony.)
Todas as semanas te falam de dez blogues que tens de ver, cada um deles remetendo para não sei quantos outros, de sítios que tens de conhecer, de aplicações que tens de ter, pedem-te centenas de vezes para gostares de centenas de página.
Perguntas-te se és tu que estás desfasado do mundo ou o mundo desfasado de ti.
«Conheces a frase, grandes males, grandes remédios.
Logo que cheguei aí, de regresso, circa 1982, uns poucos anos a seguir, conheci um empresário brasileiro que tinha uma "ideia maluca" para resolver boa parte do problema económico português. Qual era a sugestão do gajo? Plantar soja em todo o solo alentejano! Soja, como sabes, substitui a carne e, se plantada em Portugal, chegaria aos demais países da Europa com um preço excepcional. Ele correu todas as igrejinhas do poder e... nada conseguiu.
Outra, esta lembrei-me eu. Os chineses, que têm uma certa simpatia para com os portugueses (se é que os chineses têm simpatia com coisa alguma), poderiam ser convencidos a usarem Portugal como estância turística! Se concordassem, imagina a quantidade de massa que entraria aí...
Estas são duas ideias, mas existem tantas!
Custa-me ver, ou melhor, ler, o Carrilho a suar as estopinhas, a teorizar Portugal e ninguém pegar nenhuma ideia do gajo.
Se bem me lembro, quando o MEC era jovem (já reparaste que ele está parecido com o "pequeno velho príncipe", do Exupery?), o MEC chegou a criar um escritório de ideias novas, algo assim, para vender novidades.
É essa falta de criatividade que nos leva ao "revertere ad locum tuum", como se lê nos cemitérios, (e aqui logo me lembro do Cavaco), que quer dizer... voltar para o lugar de onde vieste. E, no caso, é ir embora sem um golpe de asa! Apre!»
JAAB
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