domingo, julho 28, 2013

Um grupo de revisores terroristas que se dedica a emendar todos os erros na paisagem urbana assinando RT. Todos os «ç» assinalados em vermelhos e trocados por «ss», as pizzaria que passam a pizzeria, as vírgulas nos vocativos das inscrições em murais «Carrega, Benfica», «Amo-te, Teresa».
Há alturas para leituras densas e alturas para leituras fluidas. Mas não devemos desistir perenemente das primeiras, sabendo que procrastinar é muitas vezes uma ilusão e que a preguiça transforma o presente em perpetuidade. Lembro-me da tremenda dificuldade da primeira página de Ulisses, dos estranhíssimos adjectivos de abertura, «Pomposo e roliço», que me pareciam desenquadrados, dos objectos em cima da tijela, de como tudo não parecia fazer sentido e de como na quadragésima leitura as formas e as cores se agruparam e de como esse clarão foi arranhador do meu íntimo. Ou de como Proust com camadas sobre camadas na primeira página do primeiro tomo foi árduo, árduo. Isto que remetia para aquilo que sua vez para aqueloutro. O comboio, o apito, os vitrais, o século não sei quantos, o sofá e como tudo isso se ligou ao fim de meia hora de escalpe da página - o extenuamento cedeu ante a escrita hipnótica. Como ultrapassadas as dificuldades, grandes livros ficam cá dentro. Mais do que isso - como coisas que na altura, findo o livro, não eram importantes em mim e como, com os anos, eles ganharam peso e forma - e como ainda hoje são nutritivas do meu espírito. Como certas pessoas que com a distância aprendemos a admirar e a amar.

sábado, julho 27, 2013

Ela 1 tem o cabelo azul, rodeia-se de homens de cabelo comprido, sujos, calças rasgadas e cães. Subitamente, namora um executivo que conheceu por amigos dos dos pais. Ela 2 namora um amigo meu, artista. Tem uma grande paixão por ele. (Sim, isso sente-se) Os projectos dele em tempo de crise fazem-no ter uma vida financeira periclitante. Ela começa a namorar um auditor, casa e engravida. «Ele não me dava segurança, sempre com altos e baixos na vida, não podia prospectivar uma vida estável.» Ela 3 jurava que a liberdade e a independência eram os seus valores motrizes e que nunca por nunca carreira, casamento e filhos. Viajou, esteve com os índios, e nos últimos dois meses soube-a casada com um gestor «de sucesso». E grávida. Ela 4 ia sempre a bares góticos e punks. Sempre a encontrava quando ia a determinados sítios. Para meu espanto, ao fim de muitos anos sem a ver, vi-a com um advogado sócio de uma grande sociedade. Provoquei-a e recebi: «Ia ficar com um looser, queres ver?» Ela 5 é minha amiga há dezasseis anos. Conheço-a. Sei que é pouco dada à imagem, ao material, ao estatuto, aos que outros pensam, aos ditames sociais. Nesta semana, disse-me: «Há um lado meu que nem imaginas. Eu sou prática, muito prática nos relacionamentos, as mulheres são práticas e cerebrais, mais do que tu possas imaginar, e eu também sou; eu estou com 36 anos e o pai dos meus filhos tem de ter um emprego que me garanta uma casa razoável, o sustento necessário para partilharmos as despesas, tem de ser equilibrado, não pode ser mulherengo, e tem de saber muito bem o que quer da vida e ser uma pessoa que saiba cuidar da casa e, por mais que te choque, preferencialmente deve ter carro.» Só me consigo lembrar do conto The sensible thing de F. Scott Fitzgerald.

sexta-feira, julho 26, 2013

Ironia inteligente é isto

«Em 1517, o padre Bartolomé de Las Casas compadeceu-se dos índios que se extenuavam nos laboriosos infernos das minas de ouro antilhanas, e propôs ao imperador Carlos V a importação de negros, que se extenuassem nos laboriosos infernos das minas de ouro antilhanas. A essa curiosa variação de um filantropo devemos infinitos factos [...]» Jorge Luis Borges
O publicitário meu conhecido ao fim de oito anos extenuantes a procurar que a empresa número dois excedesse a número um na venda de softwares dedica-se agora extenuantemente na nova empresa número um a que esta não seja ultrapassada pela número dois - demonstrando o quão sem sentido é a sua vida.

quinta-feira, julho 25, 2013

O par

http://www.scottandzelda.com/

Esqueça as notícias - e aproveite para conversar por MANUEL MARIA CARRILHO

«Desta vez foi de mais, acabamos de viver um mês em que as notícias mais pareciam mosquitos de Verão que nos atacam por todos os lados, do que informação que nos permitisse olhar com algum discernimento para o País. O resultado é uma sociedade cada vez mais atordoada, desvitalizada e rebocada: atordoada pela confusão, desvitalizada pela deceção, rebocada pela rotina. Se calhar, o melhor é mesmo seguir o conselho de Rolf Dobelli, que recentemente sugeriu num estimulante texto publicado no The Guardian que as "news is bad for you - and giving up reading it will make you happpier" (12.04.2013). A ideia central é que, nos dias de hoje, as notícias se tornaram tão tóxicas para a mente, como o açúcar se revelou ser para o corpo. E propõe, em apoio desta corajosa analogia, dez pontos em que vale a pena refletir, sobretudo depois da semana de excitada e inútil especulação noticiosa que Cavaco Silva impôs ao País. Esses dez pontos são, na sua perspetiva, que as notícias enganam, são irrelevantes, não explicam, são tóxicas para o organismo, aumentam os erros cognitivos, impedem de pensar, funcionam como um uma droga, fazem perder tempo, tornam-nos passivos e matam a criatividade. As notícias enganam porque focam sempre o mais pitoresco ou o mais anedótico em qualquer acontecimento, em prejuízo do fundamental. As notícias são irrelevantes porque, se pensarmos nas cerca de dez mil novas histórias que as notícias passaram nos últimos doze meses, somos incapazes de indicar uma única que nos tenha ajudado a tomar uma boa decisão na nossa vida. Quando toda a gente vive em competição, elas são uma desvantagem competitiva. As notícias não explicam nada, elas são como a espuma à superfície das águas e quanto mais prendem a nossa atenção, mais incapazes nos tornam de compreender verdadeiramente o que se passa e mais insensíveis nos tornam ao que de facto conta. As notícias são tóxicas para o nosso corpo, elas interferem com o nosso sistema límbico (que é o responsável tanto pelas nossas emoções como pelos nossos comportamentos sociais), podendo alterar a produção de glucocorticóides, desregulando o sistema imunitário, afetando o crescimento e induzindo diversos problemas de saúde. As notícias funcionam como uma droga, elas estimulam os circuitos neuronais de "skimming" e multitarefas, bloqueando outros, nomeadamente os da leitura e do pensamento focado. O que, com o tempo, acaba por alterar a própria estrutura física do cérebro. As notícias aumentam os erros cognitivos porque em geral valorizam a confirmação e a repetição do que se sabe, ou se pensa que sabe, em detrimento de tudo o que é diferente e surpreende. As notícias inibem o pensamento, porque este requer um tempo de concentração que exige uma atenção contínua. Mas também porque elas afetam a memória, sujeitando-a a um fluxo ininterrupto de distrações e de insignificâncias. As notícias são uma perda de tempo. Todos sabemos, por experiência, que na verdade bastam uns minutos por dia para nos manter informados, o resto é repetição e ruminação que apenas visam alimentar o "infotenimento". As notícias tornam-nos passivos, elas valorizam tão intensamente o que está fora do nosso alcance, que só podem conduzir à resignação e ao conformismo. Por fim, as notícias matam a criatividade. Não há "notícia" de um único criador, seja em que domínio for, que seja um dependente, um obcecado ou um viciado em notícias. As notícias são inimigas da criação, elas colam-nos às ideias gastas e às velhas soluções, à sua banalidade e inutilidade. O argumentário é, como se vê, sugestivo. O leitor pode conhecer melhor a "lente" com que Rolf Robelli revê o mundo lendo "A Arte de Pensar com Clareza - 52 Erros de Raciocínio Que não Deveríamos Cometer", obra que acaba de ser editada em português pela editora Temas e Debates. O que R. Dobelli - muito inspirado por N. N. Taleb, o autor do famoso êxito O Cisne Negro - defende neste livro, é uma abordagem fria da racionalidade, que valoriza não só a propensão para o erro no comportamento humano, mas também o seu carácter sistemático. As notícias são, por isso, para ele, um excelente material para testar as consequências desta perspetiva, porque "a comunicação social é o meio onde a tendência para acreditar no relato se dissemina como uma doença contagiosa"(p. 62), tornando frequente o paradoxo de ser melhor a explicar do que a compreender. Eis pois um bom programa para o mês de agosto que se aproxima: esquecer as notícias - e, já agora, aproveitar para conversar. Aqui, o autor a seguir é Theodore Zeldin, que escreveu um fantástico "elogio da conversa", editado pela Gradiva. A conversa pode ser o antídoto das notícias: ela pode aproximar da verdade, pode ser explicativa e relevante, estimular o pensamento, a criatividade, desintoxicar a mente e a explorar as ressonâncias com o mundo. Como diz T. Zeldin, a conversa é, entre coisas, uma atividade que se situa entre o jogo e o puzzle, e que pode "modificar não só a maneira de ver o mundo, mas também o próprio mundo" - ora não é isto mesmo que todos queremos hoje»

E, hoje, Drummond, aquele que quando acerta acerta

és tu mesmo, é tua poesia,/ tua pungente, inefável poesia,/ ferindo as almas, sob a aparência balsâmica,/ queimando as almas, fogo celeste, ao visitá-las;/ é o fenômeno poético, de que te constituíste o misterioso portador/

sábado, julho 20, 2013

Gatos

http://www.anda.jor.br/20/05/2012/quem-convive-com-gatos-vive-melhor-segundo-estudo

LUZ QUENTE, Bukowski

sozinho/ esta noite/ aqui em casa,/ sozinho com/ 6 gatos/ que me dizem/ sem/ esforço/ tudo o que/ há/ para saber

quinta-feira, julho 18, 2013

AGORA por Charles Bukowski

chegar aqui/ deslizando para a velhice/ as décadas passadas/ sem nunca ter conhecido uma pessoa/ realmente excepcional/ sem nunca ter conhecido uma pessoa/ realmente boa/ deslizando para a velhice/ as décadas passadas/ o pior são as manhãs.

quarta-feira, julho 17, 2013

Alguns gostam de poesia, Wislawa Szymborska

«Alguns gostam de poesia./ Alguns –/ quer dizer nem todos./ Nem a maioria de todos, mas a minoria./ Excluindo escolas, onde se deve/ e os próprios poetas,/ serão talvez dois em mil./ Gostam –/ mas também se gosta de canja de massa,/ gosta-se da lisonja e da cor azul,/ gosta-se de um velho cachecol,/ gosta-se de levar a sua avante,/ gosta-se de fazer festas a um cão./ De poesia –/ mas o que é a poesia?/ Algumas respostas vagas/ já foram dadas,/ mas eu não sei e não sei, e a isto me agarro/ como a um corrimão providencial.»

terça-feira, julho 16, 2013

jaça nome feminino 1. matéria estranha dentro de uma pedra preciosa, mancha 2. falha, defeito 3. popular cama 4. popular calabouço (De origem obscura) jaça In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013. [Consult. 2013-07-16]. Disponível na www: . 1jaça Datação: Referência bibliográfica da fonte de datação 1696 cf. MBLuz Cada um dos sentidos de uma palavra n substantivo feminino 1 imperfeição (mancha ou falha) na estrutura física de uma pedra preciosa 2 Derivação: por metáfora. mácula (p.ex., na reputação); desdouro Ex.: homem de caráter sem j.

segunda-feira, julho 15, 2013

Aleluia!

http://divinacomedia.pt/wordpress/historia-da-minha-vida-1/ A maior lacuna editorial foi preenchida. O português do Brasil tem uma edição notável ilustrada. Havia excertos publicados. Tenho uma edição antiga Uma Aventura Amorosa, havia o livro da Visão e da sua colecção erótica, havia um pequeno livro com páginas sobre a fuga da prisão. Finalmente, 1200 páginas (das 4000, é certo...) são publicadas. Em dois tomos. O primeiro já está nas livrarias (e no meu quarto), o segundo sairá em Setembro. A tradução de Tamen já me demonstrou, pelo cotejo com outras do Brasil, que traduzir abre caminhos tão diferentes. Casanova, mais do que um ginecómano, foi um literato, um filósofo, um religioso, um conhecedor fundo da vida mundana e livresca - e, acima de tudo, um escritor exímio com uma diversidade vocabular singularíssima. Um clássico. «Aquele que tem a força de suspender os seus actos até que chegue a calma, esse é o sábio. Um ser raro.» Giacomo Casanova

domingo, julho 14, 2013

Apresentação da personagem

Tenho óculos, barba, o rosto e o corpo franzinos. Tenho muitos tiques nos olhos. O pessoal na escola gozava comigo, sempre me chamaram «intelectual» em tom trocista. Quando era novo, falava pouco, hoje falo muito e de forma eléctrica. Quando falo muito, os meus olhos piscam muito - é o que me dizem; as pessoas reparam mais na forma do que no conteúdo, especialmente as gajas fúteis e irritantes, passo o pleonasmo. Hoje, o estigma de «intelectual» mudou para «revoltado». Nunca fui particularmente tímido, mas fui sempre relativamente insociável - não suporto a estupidez humana de 90% dos viventes. Desde novo que costumo ir para cafés, beber café (bebo entre nove a onze cafés por dia), ouvir música, ler revolucionários socialistas, ler ateus, ou fazer coisas no computador. Não consigo ouvir um reaccionário num café, nem que tenha o dobro do meu tamanho, sem lhe procurar desmontar a estupidez do seu raciocínio. A generalidade das pessoas fala sem conhecer os assuntos, sem ler, sem reflectir, sem conhecer. Também não suporto crentes teístas - têm de levar sempre com Freud e a fantochada pueril do Papá, com Marx e Nietzsche. Umas figuras de Jeová que me interceptaram no caminho para o café levaram tal banho intelectual, que hoje fogem para o outro lado da rua. Julgam que estou possuído. Estou farto do anestesiamento e da passividade - é preciso agitar as mentes dormentes e ignaras. Por vezes, tenho momentos de uma ansiedade tal, que me apetece morrer. Quando mudei de casa, a ideia de ter de mudar os móveis todos, de tratar de uma série de burocracias fizeram-me desejar a morte. Por vezes, a simples antecipação de que no dia seguinte tenho de fazer isto e aquilo deixa-me de tal modo, que não consigo dormir. Mas a revolução precisa de mim.
A mãe disse à filha sobre o seu namorado: «Ele é boa pessoa, mas deves largá-lo. Ele é guiado por forças que não pode domar.»

sexta-feira, julho 12, 2013

A honra perdida de uma época que foi

«Sempre me fascinou o episódio de Egas Moniz, de baraço ao pescoço e filhos ao lado, de procurar cumprir, junto do rei de Castela, a palavra a que D. Afonso Henriques faltara. Lenda, História, mentira, verdade?, pouco me interessa. A natureza do assunto é que me toca. O símbolo da honra, contido na metáfora, exprime um princípio sagrado: quando se diz, faz-se. Cresci e fui educado, pela família e por velhos hábitos de antigos mestres, com estes princípios. Nada de heróico: simplesmente o cumprimento natural das exigências morais de conduta. A minha geração raramente traiu o testamento. "Entre os portugueses / traidores houve às vezes", falou Camões. Mas a generalidade (tomando as generalizações com todas as precauções devidas) manteve-se-lhe leal. Digo "leal" e não "fiel" porque fidelidade é coisa de cão, e lealdade tem a ver com carácter. A fidelidade pode conduzir ao apoio das maiores perversões e das mais torpes ignomínias. A lealdade, pelo contrário, tem a ver com convicções de natureza ética, e não pactua com a infâmia ou se torna conivente com a perfídia. Estou mais do lado de Sartre ou de Camus, que arriscaram a opinião, e algumas vezes erraram, porque envolvidos no turbilhão da época, do que de um Aron, ardiloso e medido. Como as ideias de um homem não lhe pertencem em sistema de exclusividade, antes fazem parte de um "tempo", de um "ambiente" e, até de uma "cultura" de grupo, fomos, em Portugal, os rapazes do meu tempo, marcados por essa "atmosfera." Reconheço que os nossos impulsos ideológicos e intelectuais conduziram, acaso, a injustiças e a arrogâncias tão desnecessárias quanto cruéis. Mas a grandeza do que íamos aprendendo talvez explicasse o propósito. E este consistia no seguinte: amigo não trai amigo; não se denuncia nunca; a amizade é um posto. Estes padrões de comportamento podem, nos sombrios tempos de agora, suscitar algum desdém e zombaria, mas eram exigências da razão antifascista. E o antifascismo, não esqueçamos e não admitamos que o deformem, foi uma admirável frente moral, que congregou comunistas e socialistas, monárquicos e católicos, democratas e simples cidadãos, movidos pelo singelo desejo de ser livres e felizes. A batalha pela liberdade era, antes e tudo, a batalha pela dignidade humana, que teria, inevitavelmente, de criar os seus valores e de recuperar o que de melhor envolvia o humanismo. "Humanismo e Terror" é, justamente, o título de um livro de Merleau-Ponty, outro dos grandes, a que regresso com frequência, e cuja leitura está longe de ser obsoleta ou datada. Honra, conhecimento, vontade e paixão representam, afinal, sinónimos da mesma galáxia. Quem não percebe a força destes conceitos e o que eles comportam de vida, de essência dos laços sociais, não percebe nada de nada. Sou um velho caturra, mas nunca serei um moralista caturra. O que define um homem, repito, é a qualidade das suas lealdades; não a servidão das suas fidelidades. E sei muito bem o que custou, a muitos homens, de mágoa, desapontamento e dor, a alteração das suas ideias. O que nos aconteceu foi sentirmos, na pele e na alma, vergonha por um homem que a não teve nem tem. Por um homem que representa uma associação de outros homens, os quais não se demarcaram do opróbrio e até, diz-se, que o empurraram para o acto. Alguma coisa se perdeu, nesta caminhada desventurada para o pior dos abismos: o que resta do que fomos. E que resta é tão escassa e selectiva como a memória delida de uma antiga juventude.» Baptista-Bastos

Duende

http://www.poetryintranslation.com/PITBR/Spanish/LorcaDuende.htm

Encantado com o conceito

http://en.wikipedia.org/wiki/Hubris

segunda-feira, julho 08, 2013

Um dos maiores elogios

- A minha maior fobia é entrar numa casa alheia. Nunca me sinto à vontade para ser eu. Gosto de estar meio despido com os pés na mesa. Sinto-me sempre constrangido, especialmente em casas em que se respira burguesmente, em que há cerimónia, vigilância, gestos controlados. Hipocrisia. Não suporto. Fico doente. Não poder pôr a beata onde quero, poder deixar cair um pinga no sofazinho novo. A tua casa é o único sítio que sinto como uma extensão da minha casa. Que é uma casa e não uma instituição. Gramo à brava poder ter descoberto um sítio em que posso ser eu além da minha pocilga.

Apresentação da personagem

Tenho sessenta e seis anos, mas se virem o meu rosto hediondo - porém, magnético - não acreditarão que tenho menos de oitenta. A cara sulcada, a pele curtida, os olhos duros, os lábios zangados, as sobrancelhas espessas e determinadas. Ainda assim, certas garotas param para me contemplar.(Cada vez menos.) Uma vez, uma mulher num bar, de tez trigueira e expressão juvenil, abeirou-se do meu posto solitário e disse que eu tinha um «rosto forte e admirável». (Na verdade, ela não disse isto, mas era isto que diria se se soubesse expressar.) Não gosto de dançar. Não gosto de crianças. Não gosto de passear. Não gosto de viajar. Não gosto de trânsito. Não gosto de planos. Detesto multidões. Não gosto do amarelo. Não gosto de manhãs. Não gosto de almoços de família, nem de beijinhos da prima, nem de conversa de chacha. Abomino gente que fala depressa. Abomino gente que fala muito. Não gosto de ruído. Não suporto publicidade. (Tenho pavor às figuras de plástico com largos sorrisos que exibem dentições perfeitas no cartazes da cidade.) Não gosto de abrir os lábios se não for para os encostar à espuma de uma garrafa ou à pachacha de uma rapariguinha. [Ultimamente, o meu emagrecimento verbal foi levado ao limite e chego a passar dias em que não emiti uma única palavra. (Como chego a casa leve nesses dias!) A palavra que mais utilizo é «Não».] Não gosto de restaurantes. Tenho horror a festas e a concentrações de entusiasmo. Não gosto de andar a pé. (Tenho a perna esquerda esfacelada, mas a verdade é que nunca suportei andar mais do que dez passos.) Não gosto de sol. Não gosto de caminhadas. Não gosto de sábados. Não gosto de médicos. Execro vendedores. (O mundo está cheio de vendedores. São todos vendedores. Vendedores de quinquilharias, vendedores de tecnologias, de futilidades, de necessidades induzidas, vendedores de si próprios.) Acham tudo isto bastante desnutrido? Estou-me nas tintas. Não tenho qualquer crença. Não defendo nenhuma ideia ou causa - não acredito em nada. Conheço-me. Isso basta-me. Estar comigo é suficiente. O sossego é o meu templo. Não imaginam o apaziguamento que é chegar a casa, bater com a porta, atirar as minhas velhas botifarras para um canto e estirar-me no sofá. Se tiver cerveja no frigorífico, um combate de pugilismo ou um filme pornográfico na televisão, consigo passar 363 dias felizes. Os outros são preenchidos com uma prostituta (a única categoria profissional que entrou cá em casa, tirando um pescador de rosto quase tão marcado como o meu e homem de pouquíssimas falas, que veio cá três vezes), preferencialmente duas vezes ou três vezes mais nova do que eu e com coxas e nádegas que me encham a mão. Durante as minhas incursões fora de casa, evito qualquer diálogo, por mais breve que seja, e tenho sempre o punho direito preparado para qualquer garoto que me venha importunar. Ao fim de duas semanas de silêncio absoluto, sou capaz de encontrar uma certa paz numa taberna se esta estiver frequentada por meia dúzia de almas solitárias sem ambição nem sonhos.

quarta-feira, julho 03, 2013

Está tudo nos livros

«A indiferença silenciosa, grave, quase benévola, é a manifestação legítima da morte de toda a crença.» Alexandre Herculano

segunda-feira, julho 01, 2013

Ele foi criticado e com razão, mas eu achei a frase de uma bravura, comicidade, genuinidade. A verdade é que o seu interlocutor fica com uma fácies digna de uma fotografia.

- Ei, tu estás obcecado com a ideia de que quero «comer» a tua mulher. É mentira. Além de não gostar de determinantes possessivos, digo-te a verdade. Eu quero conquistar a «tua» mulher. Não comê-la. De resto, abominar isso verbo aplicada a seres humanos. [Lembrei-me de Herberto Helder. O Bom Ladrão não é o que rouba a cinza, mas o fogo.]

Da maledicência dos cafés ociosos (conversas interceptadas)

- Já viste a namorada do Miguel? - Ai, nem me digas nada. Tem umas olheiras. - E magra, é tão magra. - Que amostra de gente. Credo, mete medo ao assusto. Quando a vi aqui, aqueles olhos, aquela palidez, ao menos podia pintá-los, pôr maquilhagem. - E tem uma pele. Viste as mãos? Pele seca. E tremia a segurar a chávena. - O que é o que Miguel anda a fazer com ela, poça. - Eu não entendo aquele homem. Então agora que está desempregado pede jarros de sangria. Mas de onde é que lhe vem o dinheiro? - Ele não tem dinheiro para isso. Ele está maluco. Deve andar nalgum esquema ou a estoirar o dinheiro de alguém. - Eu digo-te uma coisa. Eu trabalho e não consumo como ele aqui. Ai, podes querer que não.

Blargh

Verdadeiramente insuportável - as pessoas que usam uma linguagem informática e de gestão pejada de estrangeirismos (e de alguns neologismos ainda mais odientos) para descrever as coisas da vida. «Faz reset. Vamos começar de novo. Start-up. O.K, ´bora lá.» Mais à frente na reunião. «Desculpem lá, só para fazer um checkcpoint. Deixem-me lá ver o paper. Ah, depois teremos de fazer aqui um upload.» De repente, um eureca. «Ah, agora já deu. Podem logar-se.» Percebi logo que nunca navegaríamos nas mesmas águas.

Para Gastão Cruz

Todas as línguas do mundo se sujaram./ Fomos condenados à gaguez triunfal/ pela qual procuramos ainda dizer o que nos recusaram./ Na mínima dor há um pomar onde colhemos/ os esplêndidos frutos que alimentam a nossa linfa, o nosso sangue,/ a corrente que sem recurso nos prende/ à furiosa morte./ A metáfora da alma será ainda a melhor dádiva/ deste corpo tão eficiente e tão pobre./ Assim nos saciamos. Luís Quintais

sábado, junho 29, 2013

Álvaro de Campos, Passagem das Horas

Penso em que é que me ficará desta vida aos bocados, deste auge,/ Desta entrada às curvas, deste automóvel à beira da estrada, deste aviso,/ Desta turbulência tranqüila de sensações desencontradas,/ Desta transfusão, desta insubsistência, desta convergência iriada,/ Deste desassossego no fundo de todos os cálices,/ Desta angústia no fundo de todos os prazeres,/ Desta sociedade antecipada na asa de todas as chávenas,/ Deste jogo de cartas fastiento entre o Cabo da Boa Esperança e as Canárias./ Não sei se a vida é pouco ou demais para mim./ Não sei se sinto de mais ou de menos, não sei/ Se me falta escrúpulo espiritual, ponto-de-apoio na inteligência,/ Consangüinidade com o mistério das coisas, choque/ Aos contatos, sangue sob golpes, estremeção aos ruídos,/ Ou se há outra significação para isto mais cômoda e feliz./ Seja o que for, era melhor não ter nascido,/ Porque, de tão interessante que é a todos os momentos,/ A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger,/ A dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair/ Para fora de todas as casas, de todas as lógicas e de todas as sacadas,/ E ir ser selvagem para a morte entre árvores e esquecimentos,/ Entre tombos, e perigos e ausência de amanhãs,/

A REVISTA DA TASCA

http://issuu.com/filipassuncao/docs/portela_magazine_n__10_web

quarta-feira, junho 26, 2013

Idem

«O homem deseja um mundo em que o bem e o mal sejam nitidamente discerníveis, porque nele há o desejo, inato e indomável, de julgar antes de compreender. Sobre este desejo são fundadas as religiões e as ideologias. Estas não se podem reconciliar com o romance a não ser que traduzam a linguagem de relatividade e de ambiguidade dele para o seu discurso apodítico e dogmático.»

A história como luta entre memória e esquecimento

«A nossa época está obcecada pelo desejo de esquecimento e é para realizar esse desejo que se abandona ao demónio da velocidade; acelera o passo porque quer fazer-nos compreender que já não aspira a ser lembrada; que se sente cansada de si própria; farta de si própria; que quer soprar a chamazinha trémula da memória.» Milan Kundera

Enrique Vila-Matas

««En la literatura, así como en la vida - escribe en sus memorias Sándor Márai -, sólo el silencio es sincero.» Es una frase que, desde que la conozco, me ha hecho reflexionar. A medida que envejezco, aprecio mejor el silencio, que muchas veces - tal como pretende el tópico - parece decir más que qualquier palabra. Márai piensa que toda la vida nos callamos sobre quienes somos, algo que sólo nosotros sabemos y sobre lo que no podemos hablar con nadie. «Sin embargo, sabemos que quienes somos y eso que no podemos decir constituyen la verdad. Somos aquello de lo que guardamos silencio.» Estas palabras de Márai me hacen pensar siempre. Van contra la literatura, está claro. Por eso, si algunas veces odio la odio (la literatura), seguramente es porque hay días en los que intuyo, con más fuerza de la habitual, que ella, con tanta palabra escrita, hace esfuerzos para alejarme del núcleo central de mi verdad.»

terça-feira, junho 25, 2013

Ele e ela coabitam o mesmo café há uns anos. Ele zanga-se com ela constantemente, principalmente quando ela tem namorado. Pretexta isto e aquilo e censura-a e ralha - uma opinião estúpida, o ela falar alto quando há Quiz, o ela ter o computador a ocupar a tomada mais tempo do que os outros. Algumas vezes, ele entornou-lhe um líquido, alegadamente sem querer. Ela hesita em protestar - não sabe se foi intencional. Ele jura que não foi. (Seria um «acto falhado» para Freud.) Mas da última vez ela gritou com ele - ele disse que ela estava maluca, que ninguém gritava a ninguém por sem querer lhe entornar uns pingos de água. Além disso, ele treme das mãos. Era cruel, ela. No café, as amigas disseram-lhe que ela lhe dera o troféu - conseguira gerar-lhe uma reacção. Mostrava que não lhe era indiferente. Todas as semanas, ele anuncia que deixou de falar com ela - e voltar sempre a falar com ela. E a relação conduz sempre a novos conflitos. A nova maledicência - estão sempre a dizer mal um do outro, mas não conseguem sair do quadrado malsão, não se conseguem libertar - principalmente ele que arranja sempre forma de lhe voltar a falar. Ela por amizade, diz. Ele não diz porquê. Todos lhe dizem para a ignorar. Ele faz votos de renovadas promessas. «É que desta vez nunca mais lhe dirijo a palavra, nem um "olá". Se me quiserem ter na mesa, garanto-vos que só se ela não estiver.» Mas ele voltou sempre.Para novos gritos, discussões, agressões. Quantas relações não conheces assim?
Miguel Esteves Cardoso diz que não é verdade estejamos todos ligados - estamos todos separados e os livros unem-nos. Paul Auster diz que o romance nunca morrerá por ser o único lugar em que dois estranhos se encontram num espaço de absoluta intimidade.

domingo, junho 23, 2013

- Acho que quando me sentar um dia para chorar, vou ficar dias a fio.

sábado, junho 22, 2013

Ligações improváveis (ou não)

«Quando você for tentado a julgar outro ser humano, não importa como, obviamente, ele ou ela mereça, lembre-se de que todos estão fazendo o melhor que podem, a partir do seu próprio nível de consciência.» http://universonatural.wordpress.com/ «In my younger and more vulnerable years my father gave me some advice that I've been turning over in my mind ever since. "Whenever you feel like criticizing any one," he told me, "just remember that all the people in this world haven't had the advantages that you've had."» F. Scott Fitzgerald

quinta-feira, junho 20, 2013

Armadilhas da imitação por Manuel Maria Carrilho

«Tudo gira, hoje, em torno da riqueza: da que existe, da que desapareceu, da que se procura. Foi a pensar nela que Adam Smith lançou as bases da economia política moderna. Mas, ao contrário do que geralmente se diz, as questões que mais o inquietavam não surgiram na sua obra mais conhecida, A Riqueza das Nações, de 1776, mas quase vinte anos antes, em 1759, no seu livro Teoria dos Sentimentos Morais. E a sua ideia central surpreenderá muitos, porque o que Adam Smith afirmou nessa obra notável foi que a riqueza não é o que assegura o nosso bem-estar - para isso, bastaria uma vida sem carências, mas frugal. Não, o que ele intuiu foi que a riqueza, mais do que ser aquilo que se acumula, é afinal o que nós identificamos como o que é mais desejado pelos outros. O que Adam Smith descobriu foi que não é a necessidade material que está na base da procura da riqueza, mas antes o desejo. Ora, enquanto a necessidade cessa com a satisfação, o desejo, pelo contrário, renova-se e renasce de cada vez que se sacia. A riqueza é o que é desejado pelo olhar que mais conta para cada um de nós, que é o olhar desse espectador constante, multiforme e indefinível que constitui o que chamamos "os outros". Esta perspetiva identifica assim, na origem da aspiração humana à riqueza, um complexo dispositivo de comparação e de imitação, que seria como que inato à humanidade. Como se tudo se passasse, na experiência humana, como no caso descrito pelo primatólogo Frans de Waal com dois chimpanzés instalados em duas jaulas contíguas. Enquanto se lhes dá a ambos a mesma comida, um pequeno pepino, eles respondem lançando pequenas pedras para o exterior, mostrando-se contentes com este jogo. Mas no momento em que se dá a um só deles umas uvas, a sua comida preferida, o outro imediatamente para o jogo e amua, rejeitando o pepino e enfurecendo-se cada vez mais... enquanto o primeiro rejubila com a situação! São várias as investigações que, nesta linha, têm insistido no decisivo papel que a comparação, nos seus constantes e múltiplos jogos e combinações, tem na felicidade e na infelicidade humana. Basta, para o reconhecer, um exemplo banal: se me anunciam um aumento salarial de trezentos euros, ficarei muito contente. Mas se logo a seguir encontrar um amigo que teve um aumento de seiscentos, toda a alegria dará lugar a um incontornável abatimento. A questão é saber porque é que passamos o nosso tempo a comparar tudo - riqueza, saúde, carreira, aspeto, etc. -, apesar de manifestamente se tratar de um processo que conduz mais à infelicidade do que à felicidade? É uma questão a que já se procuraram dar muitas respostas, sobretudo desde que os estudos de Richard Easterlin mostraram que, apesar do aumento do PIB de 200% ou 300% em diversos países, entre os anos cinquenta e setenta do século passado, o "nível de felicidade" declarado pelas pessoas permanece inalterado. A conclusão de Easterlin (consagrada como o "paradoxo de Easterlin) foi que, quando uma sociedade satisfaz as suas necessidades vitais, o desenvolvimento económico deixa de ter uma influência direta sobre a evolução do bem-estar médio da população, que passa a ser muito mais relativo, conforme os objetivos do contexto. Uma das ideias que decorre destes trabalhos é que o ser humano sofre e se deprime mais com comparações negativas do que se alegra e anima com as comparações positivas. Como se a felicidade fosse tanto mais difícil de viver quanto a adaptação ao que se conquistou é fácil, obnubilando assim o valor do que se obteve. Mas será possível alterar este processo? Não parece fácil. Sobretudo se tivermos em conta a descoberta feita em 1996 por Giacomo Rizzolatti dos chamados "neurónios-espelho", que condicionam desde o nascimento o funcionamento do nosso sistema psíquico, que se forma como que fotocopiando o dos outros e oscilando entre uma imitação ora mais cooperativa ora mais competitiva. Isto confirma que a razão pela qual permanentemente nos comparamos com os outros é porque, na verdade, o nosso desejo é determinado pelo que os outros desejam, num inextrincável jogo em que, por um lado, se cruzam a intenção cooperativa e a rivalidade competitiva e, por outro lado, se confundem o desejo mimético e a necessidade objetiva. E isto passa-se tanto no comportamento individual como no coletivo, na economia como na política. Áreas em que de resto a reincidente conversa sobre os "modelos" a seguir mostra toda a força da imitação e das suas armadilhas. É bom lembrar os modelos que se têm sucedido, num vertiginoso carrossel de devoção e de deceção que já passou pelos modelos americano, sueco, japonês, irlandês, finlandês, etc., antes de se chegar ao alemão!... O que se passa, como há dias sublinhava Jean-Pierre Dupuy, é que temos dificuldade em aceitar que a economia é movida mais pelo desejo do que pela necessidade. Por um "desejo de ser reconhecido pelos outros, de ser admirado por eles, numa admiração mesclada de inveja - e, disto, nunca se tem que chegue". (Le Monde, 11.6.2013) E a chave desta dificuldade encontra-se no desconhecimento, na opacidade dos agentes em relação às suas próprias motivações, que se enganam ao "acreditarem que a riqueza lhes trará o bem-estar material que pensam necessário à sua felicidade. A riqueza atrai sobre quem a possui o olhar de cobiça dos outros. Pouco importa porquê, o que conta é o próprio olhar da cobiça. É esse olhar que, sem o saber, cada um mais aprecia. A economia é em suma um jogo de enganos, em que todos são sempre enganados e e cúmplices do engano. Ela é uma imensa mentira do coletivo em relação a si próprio". As armadilhas da imitação, percebemo-lo cada vez melhor, são infindáveis. Mas são talvez elas o que melhor explica - para usar uma expressão de René Girard que fez história - que continue a haver "tantas coisas escondidas desde a formação do mundo".» »

quarta-feira, junho 19, 2013

Mensagem que recebi

Ex.mo Sr. Agradecemos muito o seu reparo, que teremos em conta no futuro. Com os melhores cumprimentos,

Mensagem que enviei à Assírio & Alvim a propósito de Servidões

Mensagem: Bem sei que Herberto Helder troca propositadamente certas grafias. Mas não foi o que sucedeu com a palavra «octagenário». É um erro. E um erro ou gralha de revisão. «Octogenário», como «octogésimo». A corrigir quando editarem obra completa. Saudações.
«O meu pai a fumar e eu queria tanto fumar também. Perguntei - Posso fumar? e a resposta um par de olhos terríveis. O chalet que me parecia sempre abandonado, com espinhos em torno. Não me lembro muito nitidamente da minha mãe nessa época, lembro-me mais da minha avó, omnipresente. Imensas chávenas de asa quebrada. O meu avô usava um aparelho de ouvir complicadíssimo, quase não falava, sempre de casaco de linho branco. Lia o jornal na varanda, ia para a varanda, que esquisito, durante as trovoadas de verão, enquanto a minha avó rezava, apavorada. Era alta, o meu avô nem por isso, alta, de olhos azuis, sempre tão boa para mim. Adorava-a. Adorava a família da minha mãe, de resto, [sempre] me trataram com tanta ternura. Não tenho razão de queixa de ninguém. Reparo agora, que curioso, que até hoje a única pessoa de quem tenho razões de queixa é de mim mesmo. Fui um afortunado, sempre, embora nunca tivéssemos sido ricos. Que alegria chegar àquela casa, que pena virmo-nos embora para a tristeza do inverno, a tristeza das aulas, o suplício dos professores. Já escrevia nessa altura, versos, ninharias. Mas ia ser o maior escritor do mundo, isso era certo. Na minha opinião sou, claro, não vale a pena escrever se não se é o maior escritor do mundo. Infância, ainda sinto o teu mistério, as descobertas diárias, o teu murmúrio no meu sangue. Ainda me acompanhas com, nos intervalos da alegria, tristezas inexplicáveis que passavam depressa, perplexidades inexplicáveis que passavam depressa, angústias inexplicáveis que passavam depressa. Saudades disso, também e, de repente, o maravilhamento de novo. Paixões por meninas entrevistas, um par de tranças sem cara, um sorriso que se me não dirigia, e ainda bem porque, no caso de se me dirigir, não saberia o que fazer com ele. Isto vai tudo mal redigido mas pouco me importa. Importa-me a casa da minha infância muito longe de Lisboa, para mim, em criança, no outro lado do mundo, entre pinhais, castanheiros, a vinha, montes ao longe. E as amoras, claro, as amoras. A conversa das pessoas crescidas, à noite, no andar de cima, conversas, risos, passos no corredor e a trepadeira no postigo sempre, a trepadeira no postigo.» António Lobo Antunes

terça-feira, junho 18, 2013

Se reparares, quase tudo o que ouves são clichés. É certo que quanto menor a intimidade, maior o efeito de conversas de elevador, de truísmos ou de aparentes verdades insofismáveis que se assimilam acriticamente, se reproduzem acriticamente. Quase todas as conversas assentes em clichés. Os anúncios televisivos. Mesmo os longos discursos. Tão difícil ser eu. Tão difícil encontrar a nossa voz. Tão difícil não ser hipócrita. Tão difícil a autenticidade com medo do juízo, da reprovação social. Tanto medo de ser causa de escândalo. Conheço pessoas a quem nunca ouvi algo que não fosse a reprodução do que emprenharam, sem estudo, sem reflexão, sem o mirar de todos os ângulos. Dizia Aristóteles que só conhecendo TUDO, ABSOLUTAMENTE TUDO, toda a informação, todos os ângulos de visão, todos os entendimentos sobre um assunto poderíamos então formular um juízo.

segunda-feira, junho 17, 2013

«Senti a primeira palpitação de Lolita em Paris, em fins de 1939 ou começo de 1940, quando estava acamado com uma séria crise de nevralgia intercostal. Tanto quanto me recordo, o frêmito inicial de inspiração foi de alguma forma provocado por certo artigo de imprensa sobre um macaco no Jardin des Plantes, o qual, após ser persuadido durante meses por um cientista, enfim produziu o primeiro desenho feito por um animal: nele só apareciam as grades da jaula da pobre criatura. Esse impulso não tinha nenhuma conexão textual com a linha de pensamento por ele suscitada, da qual resultou, entretanto, o protótipo de Lolita.» Nabokov
Uma vez, num recital de poesia, ouvi um poema que terminava com «Feliz aquele que no fim da sua vida pode dizer uma só palavra». A ideia: quem viveu por (diferente viver por de viver para, tão diferente) um palavra. Será? Certos religiosos vivem assim, alguns comunistas vivem ou viveram assim, alguns românticos terão vivido a palavra do nome do seu amor, o escritor vive assim.

domingo, junho 16, 2013

Sentindo um olhar de lupa sobre si, disparou: - Não me olhes assim, porra; sou sujeito, não objecto.
Ouvi um desses casos de amor trágico em que ela termina a relação esperando que ele entendesse que ela não estava satisfeita com aquilo que entendia ser uma indefinição do compromisso, esperando que ele no dia seguinte se ajoelhasse pedindo-a em casamento, e em que ele que nunca amara ninguém como a ela ficou descoroçoado durante meses e anos perguntando-se porquê, porquê, porquê, e esperando o telefonema que nunca veio.

quinta-feira, junho 13, 2013

«Sim, a qualidade do silêncio está organicamente ligada à da linguagem. Estamos aqui sentados, nesta casa com jardim, onde não há outro som para além da nossa conversa. Aqui, consigo trabalhar, sonhar, tentar pensar. O silêncio tornou-se um enorme luxo. As pessoas vivem no meio da algazarra. Já não há noite nas cidades. Os jovens têm medo do silêncio. O que vai acontecer às leituras sérias e difíceis? Ler uma página de Platão com um walkman nos ouvidos?! Isso deixa-me muito assustado. As novas tecnologias estão a transformar o diálogo com o livro. Abreviam, simplificam, conectam. O espirito está “ligado”. Já não se lê da mesma maneira. O fenómeno Harry Potter parece ser uma exceção. Todas as crianças da Terra, esquimós, zulus, leem e releem essa saga ultrainglesa, com um vocabulário extremamente rico e sintaxe sofisticada. É ótimo. O livro é um grande defensor da privacidade. A Inglaterra ainda é um país de privacy. O que pode ter aspetos absurdos: podemos ser vizinhos durante 50 anos e não trocar uma única palavra. Este culto da "private life" tem imenso significado político: é uma fonte de resistência.» George Steiner
«Pessoas com QI alto são mais propensas a trabalhar melhor à noite, enquanto que os menos inteligentes acordam cedo e funcionam melhor durante o dia, segundo os pesquisadores da Escola de Economia de Londres. Outros estudos encontraram uma ligação entre o período vespertino com tirar notas boas na escola, diz a pesquisa, republicada pelo site Winnipeg Free Press. No entanto, as pessoas que ficam acordadas até tarde são menos confiáveis e mais propensas a sofrer de depressão e vícios diversos, quando comparado com aqueles que dormem e acordam cedo.»

segunda-feira, junho 10, 2013

Muito gostaria de que Freud me interpretasse este sonho. Só eu sabia da existência de um autor que nunca ninguém lera. Cujos livros ninguém abrira ou sequer vira - estavam apenas numa livraria distante num país remoto por trás de livros por trás de livros tombados. Viajei até lá. Com receio, procurava a fila onde sabia o livro estar por trás tombado. Esperei por um momento em que não tivesse ninguém a passar por aquela fila. Com um golpe de mão, tirei o livro obscuro. Tremi ao ler a escrita funda, densa, incandescente - aquilo rasurava tudo o que tinha sido escrito e, pior do que isso, todo o porvir literário. Mergulhei numa atmosfera tal, que os livros me parecem todos banais e rasos.

O Barão, Branquinho da Fonseca

«Não gosto de viajar. Mas sou inspector das escolas de instrução primária e tenho a obrigação de correr constantemente todo o País. Ando no caminho da bela aventura, da sensação nova e feliz, como um cavaleiro andante. Na verdade lembro-me de alguns momentos agradáveis, de que tenho saudades, e espero ainda encontrar outros que me deixem novas saudades. É uma instabilidade de eterna juventude, com perspectivas e horizontes sempre novos. Mas não gosto de viajar. Talvez só por ser uma obrigação e as obrigações não darem prazer. Entusiasmo-me com a beleza das paisagens que valem como pessoas, e tive já uma grande curiosidade pelos tipos rácicos, pelos costumes, e pela diferença de mentalidade do povo de região para região. Num país tão pequeno, é estranhável tal diversidade. Porém não sou etnógrafo, nem folclorista, nem estudioso de nenhum desses aspectos e logo me desinteresso. Seja pelo que for, não gosto de viajar. Já pensei em pedir a demissão. Mas é difícil arranjar outro emprego equivalente a este nos vencimentos. Ganho dois mil escudos e tenho passe nos comboios, além das ajudas de custo. Como vivo sozinho, é suficiente para as minhas necessidades. Posso fazer algumas economias e, durante o mês de licença que o Ministério me dá todos os anos, poderia ir ao estrangeiro. Mas não vou. Não posso. Durante este mês quero estar quieto, parado, preciso de estar o mais parado possível. Acordar todas essas trinta manhãs no meu quarto! Ver durante trinta dias seguidos a mesma rua! Ir ao mesmo café, encontrar as mesmas pessoas!... Se soubessem como é bom! Como dá uma calma interior e como as ideias adquirem continuidade e nitidez! Para pensar bem é preciso estar quieto. Talvez depois também cansasse, mas a natureza exige certa monotonia. As árvores não podem mexer-se. E os animais só por necessidade física, de alimento ou de clima, devem sair da sua região. Acerca disto tenho ideias claras e uma experiência definitiva. É até, talvez, a única coisa sobre que tenho ideias firmes e uma experiência suficiente.»
O quase septuagenário acendeu o cachimbo, inalou, expeliu fumo desenhando argolas da cor da barba com a boca em círculo. E atirou-me: «Angel, os homens procuram a perfeição; as mulheres, a plenitude.»

sábado, junho 08, 2013

Borges

Nem a intimidade da tua fronte clara como uma festa,/ nem o hábito do teu corpo, ainda de menina e misterioso e tácito,/ nem a sucessão da tua vida assumindo palavras ou silêncios/ serão favor tão misterioso/ como olhar o teu sono envolvido/ na vigília dos meus braços:/ Virgem milagrosamente outra vez, pela virtude absolutória do sono,/ serena e resplandecente como a alegria que a memória escolhe,/ dar-me-ás essa margem da tua vida que tu própria não tens./ Entregue à serenidade,/ divisirei essa praia última do teu ser/ e ver-te-ei acaso pela primeira vez/ como Deus te verá,/ já dissipada a ficção do Tempo,/ sem o amor, sem mim.

sexta-feira, junho 07, 2013

oren·da noun \ōˈrendə\ -s Definition of ORENDA : extraordinary invisible power believed by the Iroquois Indians to pervade in varying degrees all animate and inanimate natural objects as a transmissible spiritual energy capable of being exerted according to the will of its possessor Origin of ORENDA
«Podemos dizer que a tarefa do poeta, como poeta, é apenas indireta com relação ao seu povo: sua tarefa direta é com sua língua, primeiro para preservá-la; segundo, para distendê-la e aperfeiçoá-la. Ao exprimir o que outras pessoas sentem, também ele está modificando seu sentimento ao torná-lo mais consciente; ele está tornando as pessoas mais conscientes daquilo que já sentem e, por conseguinte, ensinando-lhes algo sobre si próprias. Mas o poeta não é apenas uma pessoa mais consciente do que as outras; é também individualmente distinto de outra pessoa, assim como de outros poetas, e pode fazer com que seus leitores partilhem conscientemente de novos sentimentos que ainda não haviam experimentado. Essa é a diferença entre o escritor que é apenas excêntrico ou louco e o autêntico poeta.» T. S. Eliot

quarta-feira, junho 05, 2013

«Eu amava-a dolorosa e tranquilamente./ A lua formava-se/ com uma ponta subtil de ferocidade,/ e a maçã tomava um princípio/ de esplendor.» HH

terça-feira, junho 04, 2013

«Foi Georges Perec que criou o neologismo endótico para ser antónimo de exótico. O exótico faz exorbitar os olhos por ser tão estranho e surpreendente. O endótico torna os olhos cegos por ser tão familiar e esperado.» Miguel Esteves Cardoso

segunda-feira, junho 03, 2013

«Herberto Helder... Essa coisa de se auto-octogenar e de se manter absoluto, andando vivo e lúcido... E o que é mais giroscópio é o facto de o poeta continuar a perceber a tessitura da vida... Esse entendimento vívido, pleno, para lá e para cá do além... o zénite do todo, do tudo.... Este homem, sendo, consegue helderizar a vida. Pois é, este homem é Portugal! Precisamos nos helderizar também, abrir os olhos em português. Mandar à merda os ensaios sobre a cegueira. Helder dá o mote. Leia-se e entenda-se.» José Alberto Braga

sábado, junho 01, 2013

Tecnofilia

Vais a um jantar em que só conheces uma pessoa. Tiras o telemóvel que toca do bolso e alguém diz que é igual ao dele e fala sobre quanto custou, como o comprou, pergunta-te quanto te custou, se sabes que há o -S. Indiferente ao teu ar de enfado, perora que vai sair o número ponto não sei quê e como isso mudará a vida dele e de muitos dotando-a de um conforto amigo, a conversa alastra, comparam «aplicações», soltam gritinhos «ah!», «espectáculo», «vou já sacar essa». Vais a um concerto e na tua frente várias criaturas em posição de imobilidade filmam com o seu i-coiso o espectáculo, horas a fio, quietas, olhando para o ecrã, perguntas-te se aquela é a sua ideia de fruição, cansam-se pedem a outro que vá segurando e olhando por um bocado, fazem a transição do equipamento com muito cuidado não vá um micro segundo ficar com a qualidade da imagem afectada, segura com jeitinho, pega nele aqui nesta posição em que está. Vais a uma iniciativa recreativa e metade dos pais estão a filmar os filhos com o mesmo zelo dos que estavam no concerto. Ouves comentários de que a fotografia já foi para o Facebook, de que ficou «brutal». Vais com um amigo a andar, subitamente ele entra numa loja, fica deslumbrado, erotizado com a forma, o desenho, a curva, a textura dos mil e um objectos que servem de auxílio aos i-merda. Pensas na criação de necessidades artificiais que sustenta o tecnocapitalismo. O teu amigo continua a ver coisas e tu ficas perplexo a ver o que ele vê, não sabias que a empresa da maçã daquele filho de puta hoje é uma causa. Que I LOVE APPLE vende. Que há estojos para miúdos e uma parafernália de objectos úteis em forma de i-merda. Não consegues entender como outros não vêm nisso um processo de infantilização. Continuas a ver os objectos e descobres coisas espantosas, como autocolantes de metal para o frigorífico em forma de aplicações. Não consegues entender como isto pode ser uma cenoura para um cérebro de um ser vivente, já nem dizes pensante. A teu lado, olhos bem abertos de drogados. Parabéns, tecnocapitalismo, que transformaste cidadãos em consumidores. Pensas que vives num país em que num ano houve uma queda na compra de livros não escolares de um milhão, de 1, 9 milhões de bilhetes de cinema, de 45 milhões de validações de viagens em transportes públicos - e que simultaneamente os telefones espertos aumentaram as suas vendas 46%. Que vives num mundo em que a hiperinformação conduz a pessoas menos informadas. Em que a facilidade de comunicação conduz a pessoas mais distantes entre si, menos afectuosas (aquele grupo de quatro amigos que marcaram um encontro para cada um deles estar no seu i-merda). Um mundo que tem afastado as pessoas das coisas fundas (porque necessariamente lentas), do silêncio, da recolha da alma, da reflexão, ao mesmo tempo que as dota de uma ilusão de conhecimento. Que vives num mundo em que tudo é urgente, em que todos temos sempre portas abertas para a nossa entidade laboral entrar. Em que tudo é premente. Em que tudo é agora. Em que há quem viva em directo. Que há quem não sinta o acontecimento se este não for visto na montra. Em que o importante é arranhar a superfície das coisas sendo multitarefa. Em que os múltiplos tópicos são mais valiosos do que um pensamento estruturado, reflexivo, demorado. Ir a reboque do 4.0, 4.0 e uma letra, 5.0, como matóides acéfalos. Validar uma coisa pelo número de likes, uma pessoa pelo número de pessoas que tem, validar algo como verdade ou falso em função do que a net dita. Um mundo que escarnece da privacidade. Um mundo que glorifica um ser para dois dias o demonizar. Um mundo em que numa semana se é herói para na semana seguinte, pela súbita fama e súbito escrutínio da sua vida, essa pessoa ficar louca ou ser morta. (Vejam o que aconteceu, por exemplo, ao do vídeo do Kony.) Todas as semanas te falam de dez blogues que tens de ver, cada um deles remetendo para não sei quantos outros, de sítios que tens de conhecer, de aplicações que tens de ter, pedem-te centenas de vezes para gostares de centenas de página. Perguntas-te se és tu que estás desfasado do mundo ou o mundo desfasado de ti.
«Conheces a frase, grandes males, grandes remédios. Logo que cheguei aí, de regresso, circa 1982, uns poucos anos a seguir, conheci um empresário brasileiro que tinha uma "ideia maluca" para resolver boa parte do problema económico português. Qual era a sugestão do gajo? Plantar soja em todo o solo alentejano! Soja, como sabes, substitui a carne e, se plantada em Portugal, chegaria aos demais países da Europa com um preço excepcional. Ele correu todas as igrejinhas do poder e... nada conseguiu. Outra, esta lembrei-me eu. Os chineses, que têm uma certa simpatia para com os portugueses (se é que os chineses têm simpatia com coisa alguma), poderiam ser convencidos a usarem Portugal como estância turística! Se concordassem, imagina a quantidade de massa que entraria aí... Estas são duas ideias, mas existem tantas! Custa-me ver, ou melhor, ler, o Carrilho a suar as estopinhas, a teorizar Portugal e ninguém pegar nenhuma ideia do gajo. Se bem me lembro, quando o MEC era jovem (já reparaste que ele está parecido com o "pequeno velho príncipe", do Exupery?), o MEC chegou a criar um escritório de ideias novas, algo assim, para vender novidades. É essa falta de criatividade que nos leva ao "revertere ad locum tuum", como se lê nos cemitérios, (e aqui logo me lembro do Cavaco), que quer dizer... voltar para o lugar de onde vieste. E, no caso, é ir embora sem um golpe de asa! Apre!» JAAB

quinta-feira, maio 30, 2013

Com a música celestial e com as almas do círculo hermético, assim sucede

«Quando se acaba de ouvir um trecho de Mozart, o silêncio que se lhe segue ainda é dele.» Sacha Guitry

terça-feira, maio 28, 2013

Que Miguel Esteves Cardoso escrevia assim já o sabia. Que o José Rodrigues dos Santos o pronunciasse assim no telejornal já o sabia. Mais surpreso fiquei quando o último livro de Herberto o regista assim. Não existe «octagenário» - como não existe «octagésimo». Octogenário. Octogésimo.

Para quem ainda não o comprou...

http://www.tsf.pt/PaginaInicial/Vida/Interior.aspx?content_id=3241601

Reading and forgetting

http://www.newyorker.com/online/blogs/books/2013/05/the-curse-of-reading-and-forgetting.html

A última entrevista de Aquilino

http://www.casaldasletras.com/Textos/AQUILINO_RIBEIRO.pdf

segunda-feira, maio 27, 2013

- Voltei a ouvir música com arroubos de alma. - O que descobriste? - Nada. Estou apaixonado.

domingo, maio 26, 2013

«A leitura tem elementos que são contra as características do nosso tempo: é lenta, é totalitária – quando se está a ler, não se pode fazer outra coisa –, e isso contrasta com a facilidade da televisão e do cinema. [...] Toda a sociedade funciona para eliminar o tempo longo, o silêncio, a discrição, é tudo a favor do consumo imediato, da fruição imediata e de uma certa preguiça colectiva.» Pacheco Pereira

sexta-feira, maio 24, 2013

E de repente a maravilha-se instala-se

Herberto Helder publica Servidões LUÍS MIGUEL QUEIRÓS 22/05/2013 - 20:35 (actualizado às 21:44) Depois de A Faca Não Corta o Fogo , em 2008, o poeta regressa, aos 82 anos, com um novo livro de inéditos. 6 TÓPICOS Livros Herberto Helder Poesia Chega na segunda-feira às livrarias, com a chancela da Assírio & Alvim, do grupo Porto Editora, um novo livro de Herberto Helder, Servidões , que reúne largas dezenas de poemas inéditos. Chega na segunda-feira às livrarias, com a chancela da Assírio & Alvim, do grupo Porto Editora, um novo livro de Herberto Helder, Servidões, que reúne largas dezenas de poemas inéditos. A notícia foi avançada nesta terça-feira pelo grupo Porto Editora, que presumivelmente obedeceu aos desejos do autor ao só anunciar agora a existência do livro e ao dispensar qualquer sessão de lançamento. Tal como os anteriores títulos de Herberto Helder, Servidões não será reeditado autonomamente, embora seja de admitir que venha a integrar uma próxima edição de Ofício Cantante, a sua poesia completa. Dado que a tiragem deste novo livro não excederá os cinco mil exemplares, tudo indica que terá o mesmo destino de A Faca Não Corta o Fogo, de 2008, que se esgotou num mês. A primeira impressão que Servidões provoca em quem acabou de ler o livro talvez se deixe dizer melhor numa expressão inglesa: he did it again. Mais uma vez, depois de a energia e a capacidade de inovação de A Faca Não Corta o Fogo terem assombrado os que não julgavam possível uma tal voltagem poética num autor de 80 anos, Herberto Helder repete o milagre. Servidões abre com um texto em prosa construído a partir de três textos anteriores: o mais antigo aparecia a abrir Edoi Lelia Doura, a “antologia das vozes comunicantes da poesia moderna portuguesa” que o autor organizou em 1985, e os restantes tinham surgido respectivamente na publicação brasileira Cult e na Telhados de Vidro, a revista da editora Averno. É significativo que Herberto Helder tenha querido iniciar este livro com um texto marcadamente autobiográfico, que começa com a sua infância na Madeira, povoada de “visões” e “vozes” que terão contribuído para selar precocemente o seu destino de poeta, e não por acaso de um poeta que acredita, sem ironia, nos poderes da poesia, como outrora, em criança, acreditou nas “enigmáticas figuras” de animais que a seiva das bananeiras deixava na lâmina de uma faca, ou nos raios que atingiriam os espelhos se não houvesse a prudência, “em tempo de trovoadas”, de os cobrir com lençóis. O texto termina com esta passagem: “Cumprira-se aquilo que eu sempre desejara – uma vida subtil, unida e invisível que o fogo celular das imagens devorava. Era uma vida que absorvera o mundo e o abandonara depois, abandonara a sua realidade fragmentária. Era compacta e limpa. Gramatical”. Nada de muito diferente do que há muito escrevera num texto hoje recolhido em Photomaton & Vox: “(...) As pessoas perdem o nome, as coisas limpam-se, cessam a fuga do espaço e o movimento dispersivo do tempo. Fica um núcleo cerrado. Fico eu.” Mas é verdade que se sente em Servidões, talvez mais do que noutros livros do autor, um certo desejo de revelar, de esclarecer, talvez de corrigir leituras exteriores que lhe terão parecido equívocas. Não se trata nunca, note-se, de propor a sua própria leitura da obra, mas antes de tentar aclarar a natureza do trajecto de que ela é a face visível.Este é também um livro em que Herberto Helder vai mais longe do que nunca na sua determinação de sair da literatura, de desprezar todo o ornamento. E o livro parece ir acelerando, até atingir, em muitos dos poemas finais, uma violenta energia: “dá-me o êxtase infernal de Santa Teresa de Ávila/ arrebatada ar acima num orgasmo anarquista,/ a ideia de paraíso é apenas um apoio/ para o salto soberano,/ não um inferninho brasileiro com menininhas de programa,/ púberes putinhas das favelas,/ mas o inferno complexo onde passeia a Beatriz das drogas duras,/ um inferno à medida de cada qual dificílimo (...)”. Embora a proximidade da morte seja um tópico recorrente em Servidões, nem há aqui melancolia alguma, nem o corpo que se lê nestes poemas dá grandes sinais de decadência física. Mas a verdade é que nenhum corpo real, tivesse ele 30 ou 80 anos, pôde alguma vez plausivelmente corresponder à energia sexual desta escrita. O que é realmente digno de assombro não é tanto isso, é um cérebro de 82 anos ser capaz desta intensidade criativa.

terça-feira, maio 21, 2013

Um dos melhores artigos de opinião dos últimos anos

O garrote do consenso «Fala-se muito da necessidade de consenso, mas o que verdadeiramente faz falta é mais dissenso. Ou melhor, o que o alimenta: um efetivo pluralismo de perspetivas sobre a sociedade e uma autêntica diversidade na análise dos seus problemas. E onde hoje essa falta mais se sente é no domínio que, nas última décadas, absorveu quase integralmente a política: na economia. Existe uma cartilha de onde tudo brota e tudo delimita, que se arroga um estatuto de ciência exata sem, contudo, satisfazer nenhum dos seus quesitos. Quer ela se designe como abordagem neoclássica ou como financismo, o seu estatuto mais parece divino, dado o modo como escapa aos próprios factos que sistematicamente a desmentem, tanto nos seus dogmas centrais como nas suas previsões mais banais. Temos tido em Portugal, nos últimos dois anos, um eloquente exemplo desta tão insólita como generalizada situação, em que os erros, em vez de levarem à questionação dos diagnósticos e das terapias que suscitaram, são apresentados - por mais clamorosos que seja, e têm sido - como imunes às suas consequências, e até mesmo como um estímulo à sua perpetuação. Muitos atribuirão esta situação à particularidade deste ou daquele economista, à idiossincrasia deste ou daquele ministro. E essas características terão sem dúvida o seu papel. Mas as raízes da situação encontram-se bem mais fundo, elas têm que ver com a formação que, nestas áreas, a universidade dá aos seus alunos, e que os media em geral amplificam. Por todo o mundo (Canadá, Estados Unidos, França, Alemanha, Israel, Argentina, etc.) têm vindo a multiplicar-se as análises desta formação, que mostram bem a responsabilidade que ela teve na crise que se desencadeou em finais da década passada e no impasse mas ou menos intermitente que se tem vivido desde então. Essas análises apontam fundamentalmente para três aspetos dos curricula e dos programas do ensino económico-financeiro dominante, que não podem deixar de ter pesadas consequências. Em primeiro lugar, uma quase completa ausência de distância crítica, em termos ideológicos ou históricos. Depois, o estrangulamento do pluralismo teórico na abordagem e enquadramento dos problemas. Por fim, o corte com o conhecimento do mundo que as ciências sociais e as ciências humanas propiciam. Percebe-se melhor a sofisticada ignorância, e a emproada incompetência, de tantos economistas dos nossos dias, se soubermos - por exemplo - que a atenção que é dada à história da sua própria disciplina e dos acontecimentos económicos raramente chega aos 2% nos curricula escolares. Ou que é quase total a ausência de reflexão epistemológica, que deveria avaliar com detalhe os fundamentos metodológicos e científicos da disciplina. Ou, ainda, que o espaço dado à articulação dos problemas económicos com outros temas contemporâneos (sociais, políticos, culturais, etc.) ronda, nos respetivos programas, 1,5% do total. Torna-se assim possível fazer um curso de Economia quase sem falar do que de mais importante acontece no mundo. Como se fosse possível reduzir tudo a modelos matemáticos e a métodos quantitativos que, naturalmente indispensáveis, são completamente insuficientes na compreensão da realidade. Sobretudo porque, neste âmbito, a sofisticação técnica anda em geral a par com o simplismo das abordagens, ao contrário do que as sociedades contemporâneas exigem, que é a atenção à sua crescente e inextrincável complexidade. O recente caso Rogoff/Reinhart, e as suas teorias sobre a ligação entre o crescimento económico e a dívida pública (usada para caucionar a política austeritária dos últimos tempos), é muito esclarecedor sobre as areias extremamente movediças da "ciência" económica, em que se permanentemente se confundem três coisas bem distintas: os elementos e as correlações estatísticas, as causas dos factos e as razões dos acontecimentos. O mundo de hoje exige outras visões da economia, onde o pluralismo tem de ser a regra: um pluralismo crítico que ofereça aos estudantes (e aos cidadãos em geral) uma perspetiva global sobre a história e os procedimentos nucleares da disciplina. Um pluralismo doutrinário que apresente as várias linhas de pensamento económico existentes, promova a competição explicativa entre as suas argumentações e ofereça uma diversidade de pontos de vista. Um pluralismo interdisciplinar, que valorize os contributos de outras disciplinas e saberes na compreensão e tratamento dos problemas do mundo de hoje, que são cada vez mais polifacetados, interdependentes e complexos. Tudo isto exige, como comecei por dizer, mais dissenso do que consenso. Exige sobretudo que se compreenda que o consenso de que falam os zelotas do financismo divino é um mero garrote para, justamente, impedir que surjam e se trabalhem ideias e propostas alternativas àquelas que, apesar de falharem os seus proclamados objetivos, continuam, todavia, a dominar impunemente o mundo. É pena, pois, que por cá não se tenha dado a devida atenção ao relatório coordenado pelo prof. José Mattoso em 2011 , no âmbito do Conselho Científico das Ciências Sociais da Fundação para a Ciência e Tecnologia, que apontava para a degradação do ensino e da investigação da economia em Portugal. Lá se pode ler "que a ausência de pluralismo na ciência económica não resulta diretamente, longe disso, da maior capacidade explicativa da visão mainstream. No caso da economia, tem-se mesmo popularizado um termo, o "pensamento único", para traduzir o afunilamento e ausência de pluralismo que tem afetado nas últimas três décadas a investigação nesta área científica, com consequências negativas evidentes sobre o respetivo progresso.» Manuel Maria Carrilho

segunda-feira, maio 20, 2013

«Ser imortal é coisa sem importância. Excepto o homem, todas as criaturas o são, porque ignoram a morte. O divino, o terrível, o incompreensível, é considerar-se imortal. Já notei que, embora desagrade às religiões, essa convicção é raríssima. Israelitas, cristãos e muçulmanos professam a imortalidade, mas a veneração que dedicam ao primeiro século prova que apenas crêem nele, e destinam todos os outros, em número infinito, para o premiar ou para o castigar. Mais razoável me parece o círculo descrito por certas religiões do Indostão. Nesse círculo, que não tem princípio nem fim, cada vida é uma consequência da anterior e engendra a seguinte, mas nenhuma determina o conjunto... Doutrinada por um exercício de séculos, a república dos homens imortais tinha conseguido a perfeição da tolerância e quase do desdém. Sabia que num prazo infinito ocorrem a qualquer homem todas as coisas. Pelas suas passadas ou futuras virtudes, qualquer homem é credor de toda a bondade, mas também de toda a traição pelas suas infâmias do passado ou do futuro. Assim como nos jogos de azar as cifras pares e ímpares permitem o equilíbrio, assim também se anulam e se corrigem o engenho e a estupidez.» Jorge Luis Borges

sexta-feira, maio 17, 2013

vilegiatura Datação: 1899 cf. CF1 n substantivo feminino temporada de recreio, repouso, férias que se passa fora dos centros urbanos, no campo, praia ou balneário
- Da mesma forma que há testes psicotécnicos para o trabalho, penso que deveria haver também para a escolha do parceiro.

quinta-feira, maio 16, 2013

- Já alguma vez evitaste os olhos de um louco com medo de uma lucidez que não conseguisses suportar? - Quantas vezes...

quarta-feira, maio 15, 2013

Pode-se dar o que não se tem?

Evangelho segundo S. Lucas 21,1-4. «Naquele tempo, Jesus levantou os olhos e viu os ricos deitarem no cofre do tesouro as suas ofertas. Viu também uma viúva pobre deitar lá duas moedinhas e disse: "Em verdade vos digo que esta viúva pobre deitou mais do que todos os outros; pois eles deitaram no tesouro do que lhes sobejava, enquanto ela, da sua indigência, deitou tudo o que tinha para viver."» Este episódio da Bíblia foi sempre rasamente interpretado. Não é só a parte material. Quem está triste, quem está deprimido, quem tem as circunstância da vida a concorrer contra si (mesmo que nenhuma delas seja material) tem de fazer um esforço maior para dar ao Outro. Jorge Luis Borges, que gostava de paradoxos (de Zenão, por exemplo) dizia ser um milagre como alguém podia não ter alegria dentro de si e conseguir dá-la ao outro - mas que isso acontecia. Mas é muito mais difícil. E isto conduz-me à Viúva Pobre. Quem está na merda e consegue ser solidário numa unha tem mais mérito de quem está tranquilo e cheio e dá um braço. Lembro-me sempre de um amigo meu que pouco antes de morrer nos paliativos do Hospital da Luz de um cancro no estômago limpava sempre o seu vómito para não dar trabalho às enfermeiras.

segunda-feira, maio 13, 2013

«O País assiste assim à sua destruição económica. De acordo com a teoria económica que suporta estas intervenções, não há nestes dados nada de mal e de anormal. Mesmo que todas as estimativas saiam furadas e revistas a preto. Até há beleza, como disse um responsável governamental esta semana. A deslocação (nome eufemístico para a emigração) do fator trabalho é vista como normal e até positiva. Nestes modelos, países, pessoas em territórios, e, nestes, afetividades, culturas e relações sociais não existem. Um País pode desaparecer, e as pessoas deslocarem para o Centro e o Norte da Europa, que a situação é vista como ajustamento e normalidade no modelo de intervenção. Acrescenta-se aqui, normal para os outros, não para si, os decisores, os seus empregos, as suas facilidades, as suas networks e lealdades, e, inclusive, as suas relações com o poder económico e financeiro dominante.» Francisco Madelino
Se há poucos anos alguém tirasse uma fotografia do seu almoço e enviado automaticamente por telemóvel para 500 pessoas a dizer «Vejam o meu almoço» seria considerado esquisito. Se há vinte anos alguém ligasse do fixo a dizer a toda a gente o que almoçara seria considerado louco. Pois, agora, com o FB, já ninguém liga.

A mão no arado

«Feliz aquele que administra sabiamente a tristeza e aprende a reparti-la pelos dias Podem passar os meses e os anos nunca lhe faltará Oh! como é triste envelhecer à porta entretecer nas mãos um coração tardio Oh! como é triste arriscar em humanos regressos o equilíbrio azul das extremas manhãs do verão ao longo do mar transbordante de nós no demorado adeus da nossa condição É triste no jardim a solidão do sol vê-lo desde o rumor e as casas da cidade até uma vaga promessa de rio e a pequenina vida que se concede às unhas Mais triste é termos de nascer e morrer e haver árvores ao fim da rua É triste ir pela vida como quem regressa e entrar humildemente por engano pela morte dentro É triste no outono concluir que era o verão a única estação Passou o solitário vento e não o conhecemos e não soubemos ir até ao fundo da verdura como rios que sabem onde encontrar o mar e com que pontes com que ruas com que gentes com que montes conviver através de palavras de uma água para sempre dita Mas o mais triste é recordar os gestos de amanhã Triste é comprar castanhas depois da tourada entre o fumo e o domingo na tarde de novembro e ter como futuro o asfalto e muita gente e atrás a vida sem nenhuma infância revendo tuido isto algum tempo depois A tarde morre pelos dias fora É muito triste andar por entre Deus ausente Mas, ó poeta, administra a tristeza sabiamente.» Ruy Belo

domingo, maio 12, 2013

- O caminho espiritual não é uma linha recta.
- Mas é assim. É a única forma que conheço. Numa relação longa, temos de nos perdoar mutuamente.

sábado, maio 11, 2013

Se és noctívago, se tens predisposição orgânica para deitar tarde e acordar tarde, se o teu cérebro e corpo mais ágeis com a quietude da noite - tens de te adaptar. Se não tens paciência para estudar fiscalidade e se não tens manha para querer aproveitar todos os buracos do sistema - vais perder bastante dinheiro. Se não tens nem aptidão nem apetência pela linguagem dos computadores, serás muito penalizado. Se tens um espírito renascentista, se te elevam as coisas do espírito, nasceste na época errada - para o produtivismo, só interessa o conhecimento que produz técnica. Se tens o cabelo azul, há uma série de trabalhos que te são vedados. Se gostas de te vestires com identidade, cuidado - vê se coincide com a indumentária do teu ofício. Se és honesto, generoso - aceita o prejuízo no mercado de trabalho ou então não pagues o preço e quebra a integridade e os espelhos. Mas lembra-te: a força de trabalho é a única coisa que tens para vender (ou então vive de algo que te caiu ao colo ou da exploração do trabalho alheio). Ela é a única forma de sustentares as necessidades artificias criadas pelo sistema e as necessidades incriadas. Não tens hipótese.

quinta-feira, maio 09, 2013

«Se eu me esquecer de ti, ó Jerusalém, que minha mão direita se paralise! Que minha língua se me apegue ao paladar, se eu não me lembrar de ti, se não puser Jerusalém acima de todas as minhas alegrias.» (Salmo 136, 5.6)

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- Depois de aturado estudo e muito bater com a cabeça, conheço apenas três regras em relação ao sexo feminino. 1. O desprezo é afrodisíaco. 2. Gajas atraem gajas. Quanto mais tens, mais fácil é teres outras. E versa-vice. 3. Nenhuma regra se aplica a todas e nem a mesma regra se aplica sempre à mesma - nem mesmo ao longo da mesma semana.
http://lifestyle.publico.pt/noticias/319781_barba-aumenta-o-sex-appeal
Olhamos as linhas do corpo, mas somos capazes também de ler nas entrelinhas Luana Piovani leu a crônica da semana passada, um carinho sobre as mulheres que estão fora do padrão da beleza em cartaz. Não gostou. Criticou a sugestão do colunista para que o programa “Superbonita”, do qual é apresentadora, fizesse, na contramão do poema “Receita de Mulher”, de Vinicius de Moraes — aquele da beleza é fundamental —, um especial pacificador sobre a bobagem de se reprimir uns centímetros a mais nos culotes e outras aflições daquelas que o mundo tacha como feias. Luana Piovani respondeu pelo seu tambor preferido, o twitter: “Sugestão declinada. Teremos sim programa para como se livrar deles. Precisamos de audiência e ninguém vai assistir a um pgm que incentive a inércia no duvidoso. Incentivamos a sua melhor versão. Todos temos! Agora, você me diz onde estão esses homens que curtem bunda mole com furinhos, a testa giga, barriguinha e cabelos crespos polvorosos pq no planeta q moro, homem tá mais vaidoso q a gente.” Daí que peço licença aos leitores para hoje escrever diretamente a Luana, uma das mais completas e perfeitas traduções em 2013 do poema de Vinicius. Querida Luana, A versão mais bonita de uma mulher é aquela que aprendemos a admirar e, se me permite a simplicidade de incorporar a linguagem twitter, ter tesão. Vamos colocar a língua para fora e deixar escapulir o Einstein que nos habita. Esse negócio de “bunda mole” é muito relativo. Eu conheci uma moça que poderia ser enquadrada nessa categoria e, no entanto, noves fora a suposta flacidez, era linda. Ela se movimentava como uma dessas garças que o Vinicius fazia pairar sobre as árvores de suas poesias, um pescoço de dois metros, e aquilo era um espetáculo de soberba tão deslumbrante que só agora, Luana, provocado por suas palavras, percebo que talvez ela pudesse estar nessa categoria calipígia que você desdenha como um downgrade. No entanto, tal moça tinha borogodó. A soma do quadrado dos seus catetos dava o quadrado de uma hipotenusa fantástica. Fomos felizes assim. Eu estive ali, pertinho, e longe de qualquer acidez crítica, era-lhe só reverência e vassalagem. De homem eu entendo, Luana, e não sou bobo de desdenhar da carne dura, da pele macia, da bunda desenhada a compasso e outros clássicos da mulher bonita. Mas nem sempre é possível tamanha poesia numa hora dessas. Tenho certeza que havia dois Vinicius de Moraes. Um sentava à escrivaninha, no tempo da caneta tinteiro, e escrevia sobre a necessidade de que os seios tivessem “uma expressão greco-romana, mas que gótica ou barroca” e pudessem “iluminar o escuro com uma capacidade mínima de cinco velas”. Outro Vinicius andava pelas ruas. Seguia as mulheres com os olhos, súdito servil em lhes encontrar outros tipos de graça. Era capaz de, diante de alguma de seios de expressão divertidamente cubista, pedir o favor de que lhe caíssem nas mãos, róseos, plúmbeos, da cor do azeviche ou do maracujá, e fizessem o favor apenas de apagar a dor, aquietar o espírito e pôr ordem na correria insana de uma vida de resto sem sentido. Definitivamente, Luana, vida real é outra coisa. Não cabe na pauta do ótimo “Superbonita”. Ninguém precisa ser super em nada. Assim como você, também acredito que todos temos a nossa melhor versão e precisamos incentivá-la, mas o que se vê em geral é a tentativa de obrigar todas as mulheres ao mesmo padrão. Fazê-las correr obrigatoriamente atrás do cabelo chapinhado, das pernas musculosas e dos peitos com a centimetragem de uma bomba que vai daqui até o pé da página, mas apontando para o alto, claro, prestes a estourar nos olhos do freguês. Há quem dê preferência, mas existem homens com desejos mais sutis. Eu, a propósito, sou das antigas, e aproveito o ensejo para cantar Noel, aquele do “há tantas santas no mundo, que vivem fora do templo, santas de olhar tão profundo, você, por exemplo, você, por exemplo”. Nada contra a mulher bonita. Desde a primeira que eu vi, aquela com dois baldinhos na lata do Leite Moça, eu dedico boa parte do meu tempo a trazê-las para dentro das minhas retinas, jamais fatigadas com tamanho espetáculo. Eu só queria dizer, Luana, que homens têm um padrão mais elástico do que o recomendado na pauta do programa. Podemos, sim, curtir uma “barriguinha, a testa giga” e outras delícias a serem declaradas no próximo programa como esteticamente incorretas. Mulheres são desdobráveis, dizia a linda poeta Adélia Prado, e eu, mundano, já que a nossa pauta é outra, completo — elas são capazes de se redesenharem com um jeito de falar, uma maneira de silenciar ou uma promessa de queima de fogos ao se oferecer. Olhamos as linhas do corpo, mas somos capazes também de ler nas entrelinhas. Temos a força, como quer o desenho animado, mas ainda a espada da fantasia, a poesia da imaginação. Qual de nós, diante daquele sorriso maliciosamente desengonçado, pediria, antes de se apaixonar, para avaliar, se duro ou com estrias, o bumbum da Diane Keaton?
Tolerância, um conceito pernóstico. Tolerar é dizer: eu sou melhor que isso, mas a minha imensurável magnanimidade não regista essa falta. Pior do que tolerância só condescendência.
Certos comunistas, como certos católicos, usam na lapela as insígnias da bondade, da verdade, da superior inteligência e moral.

«Se o mundo vos aborrece, sabei que antes de vós me aborreceu a mim» Jesus Cristo

Os cátaros (do grego «puros», uma heresia (uma questão de ângulo de visão, porque para eles o superlativo herege era o Papa) dos séculos XII [versaletes] e XIII [versaletes], tinham um pensamento original (o pensamento original sempre me leva a estudá-lo). A realidade era dual. A espiritual, divina, celestial, e a do mundo, maligna. Como o mundo era a parte negativa (mais bem dito: o Inferno era na Terra), defendiam o suicídio, o aborto, a igualdade entre homens e mulheres, eram contra a procriação (a homossexualidade era um bem), contra os direitos de propriedade, contra os espelhos - reprodutores e alimentadores da ilusão. Desprezavam o corpo, a matéria, em favor do etéreo e espiritual. O mundo era um lugar pouco recomendável. Convinha ascender ao plano superior. Eram coerentes. Algo que poderia ter encantado libertinos é que defendiam que nos banhássemos na mais extrema luxúria para que a rejeitássemos e valorizássemos o espírito - todo o extremo conduz à porta de saída. Acabaram na fogueira. Mas ó tu, terra de Glória, Se eu nunca vi tua essência, Como me lembras na ausência? Não me lembras na memória, Senão na reminiscência. Que a alma é tábua rasa Que, com a escrita doutrina Celeste, tanto imagina, Que voa da própria casa E sobe à pátria divina. Não é logo a saudade Das terras onde nasceu A carne, mas é do Céu, Daquela santa Cidade Donde esta alma descendeu. [...] E tu, ó carne que encantas, Filha de Babel tão feia, Toda de misérias cheia, Que mil vezes te levantas Contra quem te senhoreia, Beato só pode ser Quem co'a ajuda celeste Contra ti prevalecer, E te vier a fazer O mal que lhe tu fizeste; Quem com disciplina crua Se fere mais que ua vez, Cuja alma, de vícios nua, Faz nódoas na carne sua, Que já a carne na alma fez. E beato quem tomar Seus pensamentos recentes E em nascendo os afogar, Por não virem a parar Em vícios graves e urgentes; Quem com eles logo der Na pedra do furor santo E, batendo, os desfizer Na Pedra, que veio a ser, Enfim, cabeça do Canto; Quem logo, quando imagina Nos vícios da carne má, Os pensamentos declina Àquela carne divina Que na Cruz esteve já; Quem do vil contentamento Cá deste mundo visível, Quanto ao homem for possível, Passar logo o entendimento Pera o mundo inteligível. Ali achará alegria Em tudo perfeita e cheia De tão suave harmonia, Que nem, por pouca, escasseia, Nem, por sobeja, enfastia. Ali verá tão profundo Mistério na suma Alteza, Que, vencida a Natureza, Os mores faustos do Mundo Julgue por maior baixeza. Ó tu, divino aposento, Minha pátria singular, Se só com te imaginar Tanto sobe o entendimento, Que fará, se em ti se achar? Ditoso quem se partir Pera ti, terra excelente, Tão justo e tão penitente, Que depois de a ti subir, Lá descanse eternamente!
Com a idade, penso que a felicidade não é a soma dos prazeres, mas a serenidade no intervalo.

quarta-feira, maio 08, 2013

Sobre o Inferno III

Há três formas de lidar com o Inferno. 1. Pensar que é passageiro. Olhar para trás - ver todos os medos que não se concretizaram, todas as ansiedades que redundaram em coisa nenhuma, todo o desespero que julgavas perene e foi transitório. Tudo passou porque tudo passa e tudo passará. 2. Lembrar-te de que há quem estejas em círculos de fogo abaixo do teu. É certo, sabido e experimentado que grandes males curam males. 3. Após uma comichão, o alívio. Após o Inferno, a leveza. Depois de saíres do Inferno, perdes o medo, saboreias loucamente a vida, cada pequeno pormenor dissolve arestas e ganha textura de seda. they say that hell is crowded, yet,/ when you’re in hell,/ you always seem to be alone./ & you can’t tell anyone when you’re in hell/ or they’ll think you’re crazy/ & being crazy is being in hell/ & being sane is hellish too./ those who escape hell, however,/ never talk about it/ & nothing much bothers them after that./ I mean, things like missing a meal,/ going to jail, wrecking your car,/ or even the idea of death itself./ when you ask them,/ “how are things?”/ they’ll always answer, “fine, just fine…”/ once you’ve been to hell and back,/ that’s enough/ it’s the greatest satisfaction known to man./ once you’ve been to hell and back,/ you don’t look behind you when the floor creaks/ and the sun is always up at midnight/ and things like the eyes of mice/ or an abandoned tire in a vancant lot/ can make you smile/ once you’ve been to hell and back.

Sobre o Inferno II

Só um Inferno não é suportável: o Inferno em que não habita a esperança. Nele, futuro e presente fundem-se - o horror é então um presente perpétuo. Nem ao teu pior inimigo o desejarias.

Sobre o Inferno I

Há vários patamares no Inferno. Nunca digas: abaixo disto ninguém pode descer.

domingo, maio 05, 2013

Frases interceptadas

- Se não tivessem cona, nem lhes falava.

sábado, maio 04, 2013

Do real

O prédio tem porteira há uma dezena de anos. A senhora ucraniana é estimada pessoal e profissionalmente pelos moradores. Tem uma filha que estuda (aluna brilhante) e trabalha dezasseis horas por dia e se dedica ao estudo da língua portuguesa com uma amiga ucraniana. No sentido de poupar (palavra sacrossanta), no sentido de aquele prédio de classe média alta ganhar uns troquinhos por mês, mandaram a porteira embora. Bem sei que em tempos de austeridade a qualidade dos serviços é preterida em favor do racionamento de custos (por experiência, sei que hoje o tradutor que consegue trabalho não é o que traduz melhor, mas o que cobra menos). Mas o que mais me choca é que o humanismo se perde. Nesta decisão, como em muitas a que tenho assistido, vemos a dissolução dos laços sociais. O custo «imaterial» do desemprego da senhora, as dificuldades da filha, a ligação emocional - não foram pesadas, não entraram na balança. O mundo está feio.

quinta-feira, maio 02, 2013

O cheiro da pobreza O objeto que representa a civilização e o progresso não é o livro, o telefone, a Internet ou a bomba atômica. É a privada por Mario Vargas Llosa Há três anos, durante uma viagem de Lima a Ayacucho por terra, fizemos uma escala no meio de uma chapada na cordilheira, numa aldeia onde havia um pequeno posto policial. Pedi licença ao chefe para usar o banheiro. "À vontade, doutor", disse ele gentilmente. "O senhor quer urinar ou defecar?". Respondi que a primeira alternativa. Sua curiosidade era acadêmica, porque o "banheiro" do posto era um cercado exposto à intempérie onde urina e fezes se confundiam em meio a nuvens de moscas e um fedor estonteante. A lembrança dessa cena me perseguiu sem trégua enquanto, às vezes tapando o nariz, eu folheava as 422 páginas de um relatório, recentemente publicado pelas Nações Unidas, intitulado A água para além da escassez: poder, pobreza e a crise mundial da água. A prudência do título e a frieza e neutralidade de sua redação burocrática não impedem que esse extraordinário estudo, sem dúvida inspirado na sábia concepção de economia e progresso de Amartya Sen - um economista que não acredita que o progresso se resuma a estatísticas -, estremeça o leitor, ao confrontá-lo com rigor cruel à realidade da pobreza e seus horrores no mundo em que vivemos. A pesquisa realizada por Kevin Watkins e sua equipe deveria ser consulta obrigatória para todos os que queiram saber o que significa - na prática - o subdesenvolvimento econômico, a marginalização social e o fosso que separa as sociedades que os padecem daquelas que já atingiram um nível de vida alto ou médio. A primeira conclusão dessa leitura é que o objeto que representa a civilização e o progresso não é o livro, o telefone, a Internet ou a bomba atômica, e sim a privada. Onde os seres humanos esvaziam a bexiga e os intestinos é determinante para saber se ainda estão mergulhados na barbárie do subdesenvolvimento, ou se já começaram a progredir. As conseqüências desse fato simples e transcendental na vida das pessoas são vertiginosas. No mínimo um terço da população do planeta - uns 2,6 bilhões de pessoas - não sabe o que é um sanitário, uma latrina, uma fossa séptica, e faz suas necessidades como os animais, no mato, à beira de córregos e mananciais, ou em sacolas e latas que são jogados no meio da rua. E mais ou menos 1 bilhão utiliza águas contaminadas por fezes humanas e animais para beber, cozinhar, lavar a roupa e fazer a higiene pessoal. Isso faz com que pelo menos 2 milhões de crianças morram, a cada ano, vítimas de diarréia. E que doenças infecciosas como cólera, tifo e parasitoses, causadas pelo que o relatório chama eufemisticamente de "falta de acesso ao saneamento", provoquem enormes devastações na África, na Ásia e na América Latina, constituindo a segunda causa de mortalidade infantil no mundo. Num importante bairro de Nairóbi, no Quênia, chamado Kibera, é generalizado o sistema das chamadas "privadas voadoras", sacolas de plástico em que as pessoas fazem suas necessidades para em seguida atirá-las na rua (daí o nome). A prática eleva as doenças infecciosas no bairro a níveis altíssimos. E os principais atingidos são as crianças e as mulheres. Por quê? Porque cabe a elas cuidar da limpeza doméstica e do transporte da água, e com isso se expõem mais ao contágio do que os homens. Em Dharavi, uma zona populosa de Mumbai, na Índia, há um único banheiro para cada 1.440 pessoas, e na estação das chuvas as enxurradas transformam as ruas da cidade em rios de excrementos. A fartura de água é, nesse caso, como no de muitas outras cidades do terceiro mundo, uma tragédia: as condições de existência fazem com que a água, em vez de vida, seja muitas vezes instrumento de doença e morte. Paradoxalmente, a questão da água, indissociável da do saneamento, é talvez o principal problema que mantém homens e mulheres prisioneiros do subdesenvolvimento. Os dados do relatório são concludentes. Quando os pobres têm acesso à água, trata-se em geral de águas com todo tipo de bactérias, de males que os contaminam e matam. Mas, na maioria dos casos, a pobreza condena as pessoas a uma seca ainda mais catastrófica para a saúde e para as possibilidades de melhorar as condições de vida. Uma das conclusões mais chocantes da pesquisa é de que os pobres pagam muito mais caro pela água do que os ricos, justamente porque os povoados e bairros onde eles vivem carecem de instalações de abastecimento e descarga, o que os obriga a comprá-la de fornecedores comerciais, a preços exorbitantes. Assim, os habitantes dos bairros pobres de Jacarta (Indonésia), Manila (Filipinas) e Nairóbi (Quênia) "pagam 5 a 10 vezes mais por unidade de água do que as pessoas que vivem nas zonas de elevado rendimento das suas próprias cidades - e mais do que pagam os consumidores em Londres ou Nova York". Esse preço desigual faz com que os 20% de famílias mais pobres de El Salvador, Jamaica e Nicarágua invistam um quinto de seus rendimentos em água, ao passo que no Reino Unido o gasto médio dos cidadãos com a água representa apenas 3% de sua renda. Não resisto a citar essa estatística do relatório: "Quando um europeu puxa uma descarga, ou quando um americano toma banho, utiliza mais água do que a disponível para centenas de milhões de indivíduos que vivem em bairros degradados ou zonas áridas do mundo em desenvolvimento". E também a estimativa de que, com a água poupada caso os "civilizados" fechássemos a torneira enquanto escovamos os dentes, um continente inteiro de "bárbaros" poderia tomar banho. À primeira vista, não parece haver muita relação entre a falta de água e a educação das meninas. E, no entanto, ela existe e é estreita. O relatório calcula que 443 milhões de dias letivos são perdidos a cada ano por causa de doenças ligadas à água, e que milhões de meninas faltam à escola e recebem uma educação deficiente ou nula, e em todo caso inferior à dos meninos, por terem que buscar água diariamente em açudes, rios e poços que, muitas vezes, ficam a horas de caminhada. Em "Os miseráveis", Victor Hugo escreveu que "os esgotos são a consciência da cidade". Numa dessas digressões do narrador que pontuam o romance, enquanto Jean Valjean chapinhava na merda com o desmaiado Marius às costas, arriscou uma curiosa interpretação da história a partir do excremento humano. O formidável estudo da ONU faz coisa parecida, sem a poesia nem a eloqüência do grande romântico francês, mas com muito mais conhecimento científico. Propondo-se a apenas descrever as circunstâncias e conseqüências de um problema concreto que atinge um terço da humanidade, o relatório radiografa com dramática precisão o extraordinário privilégio de que os outros dois terços desfrutamos toda vez que, quase sem perceber, abrimos uma torneira para lavar as mãos ou o chuveiro para receber esse jato de água fresca que nos limpa e revigora, ou quando, impelidos por uma dor de barriga, sentamos na intimidade do banheiro, aliviamos as entranhas e, distraídos, limpamos com um pedaço de papel higiênico todos os rastros dessa cerimônia, para em seguida puxar a descarga e sentir, no turbilhão do vaso, nossa sujeira recôndita sumir nas entranhas dos esgotos, longe, longe de nossa vida e nosso olfato, para o bem da própria saúde e bom gosto. Como é infinitamente diversa a experiência desses bilhões de seres humanos que nascem, vivem e morrem literalmente sufocados pela própria imundície, sem conseguir arrancá-la de suas vidas, pois, visível ou invisível, a sujeira fecal que expulsam volta para eles como uma maldição divina, na comida que comem, na água em que se lavam e até no ar que respiram, causando-lhes doenças e mantendo-os no limite da subsistência, sem chance de escapar dessa prisão na qual mal sobrevivem. Um dos aspectos mais sombrios da questão é que, em grande parte por causa do nojo e da repulsa que os seres humanos sentimos por tudo o que tem a ver com a merda, os governos e organismos internacionais de promoção do desenvolvimento não costumam dar a ela a devida prioridade. Geralmente a subestimam, e dedicam recursos insignificantes a projetos de saneamento. A verdade é que viver em meio à sujeira é nefasto não apenas para o corpo mas também para o espírito, para a mais elementar auto-estima, para o ânimo que permite erguer a cabeça contra o infortúnio e manter viva a esperança, motor de todo progresso. "Nascemos entre fezes e urina", escreveu Santo Agostinho. Um calafrio deveria subir por nossas costas como uma cobra de gelo ao pensarmos que um terço de nossos contemporâneos nunca acaba de sair da imundície em que veio a este vale de lágrimas.
O poeta caminhava e quedou-se junto da beleza de um lago. - Que flores são estas? - Ora... então, são as flores que tu usas tanto nos teus poemas... - Ah... Elide-se o nome do poeta (Miguel de Unamuno) e das flores (nenúfares) porque o importante é o episódio e o que ele engraçadamente desvela.

De ora em diante, entendo que todos deveríamos escrever o «Presidente da República» entre aspas

«Um discurso por BAPTISTA BASTOS Um alarido inusitado, por injustificável, envolveu o discurso do dr. Cavaco nas cerimónias oficiais do 25 de Abril. No Parlamento a coisa foi pífia, nas ruas a festa assumiu o carácter do protesto contra o que estamos a viver. Ouvi e li o que disse o dr. Cavaco e não fiquei nem surpreendido nem chocado. É a criatura que há, o Presidente que se arranja, irremissível e sombrio. Medíocre, ressentido, mau-carácter, incapaz de compreender a natureza e a magnitude histórica da revolução. E sempre agiu e se comportou consoante a estreita concepção de mundo com que foi educado. A defesa da direita mais estratificada está-lhe no sangue e na alma, além de manter, redondo e inamovível, um verdete avassalador pela cultura. O possidonismo da sua estrutura comportamental pode ser aferido naquela cena irremediável, em que, de mão dada com a família, sobe a rampa que conduz ao Pátio dos Bichos, no Palácio de Belém, quando venceu as presidenciais. O homem confunde Thomas Mann com Thomas More; ignora que Os Lusíadas são compostos por dez cantos; omite o nome de José Saramago, por torpe vingança, na recente viagem à Colômbia, enquanto o Presidente deste país nomeou o Nobel português com satisfação e realce; não se lhe conhece o mais módico interesse pela leitura; e, quando primeiro-ministro, recusou à viúva de Salgueiro Maia uma pensão, que, jubiloso e feliz, atribuiu a antigos torcionários da PIDE. Conhece-se a arteirice com a qual acabrunhou Fernando Nogueira, seu afeiçoado; a inventona das escutas em Belém, montada por um assessor insalubre e por um jornalista leviano; a confusa alcavala com o BPN, com a qual auferiu uns milhares de euros; contrariou uma tradição, por ódio e rancor (sempre o ódio e o rancor), e não condecorou José Sócrates, quando este saiu de primeiro-ministro. É uma criatura sem amigos; dispõe, apenas, de instantes de amizade interesseira. Nada mais. O discurso que tem suscitado tanta brotoeja é o seu normal. Tão mal escrito quanto os outros; desprovido de conteúdo racional, emocional e ético; e um atropelo às mais elementares normas de sensatez e equilíbrio exigíveis a quem desempenha aquelas nobres funções. Espanto e indignação porquê e para quê?, se ele não tem emenda nem berço que o recomende. Mas as coisas, ultimamente, têm atingido proporções inquietantes. A ida a Belém do primeiro-ministro e do ministro das Finanças perturbou o senhor. Parece julgar-se a rainha de Inglaterra, considerando o papel superior a que a si mesmo se atribui. A soberba dele sobe de tom, admitindo alguns de nós e muitos de entre eles que pode haver indícios de oligofrenia, doença incurável. "Eu bem avisei! Eu bem avisei!", costuma agora dizer, como uma tenebrosa ameaça. No núcleo estrutural deste homem emerge a complexidade indecisa de uma alma juvenil irresolvida - e, por isso mesmo, extremamente perigosa.» «A fadiga presidencial por MANUEL MARIA CARRILHOHoje23 comentários A crise tende a multiplicar os impasses, os impasses tendem a aprofundar a crise. Assim se adensa, tanto na vida das pessoas como na das nações, o carrossel de todos os dramas. E o pior que nestas situações pode acontecer é ficar-se preso na teia do que Gregory Batteson designou uma vez como o "double bind". Trata-se de um dilema que coloca uma pessoa ou uma comunidade perante mensagens ou exigências conflituantes, de tal modo que bloqueia qualquer saída, dando origem a comportamentos paradoxais. É o que acontece quando um professor diz a um aluno "para não ser tão obediente" - ele deve obedecer-lhe desobedecendo ou desobedecer-lhe obedecendo? Aníbal Cavaco Silva já tinha revelado tendência para a criação deste tipo de situações paradoxísticas, colocando frequentemente os portugueses perante dilemas semelhantes, ao declinar variações discursivas que consistem em acentuar vivamente uma perspetiva para, logo depois, apontar no sentido oposto. Foi assim que, depois de denunciar com vigor a espiral recessiva que ameaçava o País, veio defender sem equívocos a política que a provocou e os protagonistas que a incentivaram. Que, depois de denunciar a incompetência da troika, do seu memorando e do seu acompanhamento, veio exigir e aplaudir o seu cego cumprimento. Que, depois de denunciar a desorientação e a inação europeias e os seus custos, veio apelar à submissão aos seus mais contraproducentes ditames... Que, no dia da comemoração da democracia instaurada no 25 de Abril, veio fazer a apologia da sua inutilidade, aconselhando o País a preparar-se para acolher mais ou menos de joelhos os imperativos do novo poder global, de matriz financeiro-especulativa, que hoje corrói todos os regimes democráticos. Só faltava mesmo a cereja no bolo: e ela apareceu com a insólita aposta de fazer o País caminhar para o consenso através da intensificação dos antagonismos e em apelar à convergência político-partidária estimulando a desconfiança na democracia! Este passo é, todos o reconheceram, dificilmente compatível com as funções de representação nacional, de mediação institucional e de pedagogia política que deveria caracterizar o exercício presidencial. Não admira por isso que, com esta espiral paradoxística de Cavaco Silva, o País dê crescentes sinais de um novo tipo de fadiga, a fadiga presidencial... É que há, no bizarro apelo ao consenso do Presidente da República, dois problemas: um de timing e outro de conceito. O de timing remete-nos para o ano de 2009, e para a incompreensão da gravidade da crise que era já então uma evidência, e que devia ter dado lugar a um pedagógico esforço de abertura e de realismo. A situação deveria ter levado o Presidente da República a procurar então uma solução governamental maioritária, dado que um governo minoritário vive quase sempre num registo de preocupação diária com a sua sobrevivência, o que o torna necessariamente débil e fugaz, como mais uma vez se viu!...O Presidente da República deixou passar a oportunidade, como depois deixaria passar outras... O que nos leva ao segundo ponto, o do conceito. O consenso remete sempre ora para uma identidade de valores ora para um acordo de objetivos. Mas nem num caso nem no outro se trata de dados adquiridos ou inequívocos, sobretudo numa comunidade em crise, como hoje acontece. É justamente por isso que o consenso exige uma magistratura presidencial extremamente trabalhosa e exigente do ponto de vista da comunicação e da pedagogia . Eleito por sufrágio direto dos portugueses, autónomo em relação aos partidos, livre das pressões do curto prazo e do imediato, é dele que se espera uma atenção ao essencial que permita criar os laços e estabelecer as relações que as políticas partidárias hoje dificilmente conseguem tecer. Para o fazer não basta, todavia, jurar a constituição perante o Parlamento. Exige-se mais, requere--se um desígnio, uma visão, um sinal que atraia e focalize a hoje tão disputada atenção dos cidadãos. Exige-se proximidade, afeto, cumplicidade, conversa - o contrário do estilo mestre-escola, em que Cavaco Silva se especializou. É onde Cavaco Silva mais tem falhado. A sua reação à generalizada crítica que o seu discurso do 25 de Abril suscitou diz realmente tudo: " depois não digam que eu não avisei!", comentou. Na verdade, o seu magistério foi sempre estritamente funcional, burocrático, minimalista, no limite vertiginosamente apolítico!...Uma im- prudência porque, como a política tem horror ao vazio, mais tarde ou mais cedo os acontecimentos tinham de o colocar de novo na arena político-partidária. Foi o que aconteceu com o discurso do 25 de Abril. Cavaco Silva não só falhou o alvo do seu apelo ao consenso, como perdeu o "momentum" em que o podia fazer com autoridade e eficácia. Resta-lhe agora, aos olhos dos portugueses, vacilar - para usar os termos do filósofo Jean-François Lyotard - entre o litígio e o diferendo: enquanto o primeiro pode ficar pela discordância mais ou menos acentuada, já o segundo conduz ao conflito e à guerra. O tempo o dirá.»