sábado, junho 29, 2013

Álvaro de Campos, Passagem das Horas

Penso em que é que me ficará desta vida aos bocados, deste auge,/ Desta entrada às curvas, deste automóvel à beira da estrada, deste aviso,/ Desta turbulência tranqüila de sensações desencontradas,/ Desta transfusão, desta insubsistência, desta convergência iriada,/ Deste desassossego no fundo de todos os cálices,/ Desta angústia no fundo de todos os prazeres,/ Desta sociedade antecipada na asa de todas as chávenas,/ Deste jogo de cartas fastiento entre o Cabo da Boa Esperança e as Canárias./ Não sei se a vida é pouco ou demais para mim./ Não sei se sinto de mais ou de menos, não sei/ Se me falta escrúpulo espiritual, ponto-de-apoio na inteligência,/ Consangüinidade com o mistério das coisas, choque/ Aos contatos, sangue sob golpes, estremeção aos ruídos,/ Ou se há outra significação para isto mais cômoda e feliz./ Seja o que for, era melhor não ter nascido,/ Porque, de tão interessante que é a todos os momentos,/ A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger,/ A dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair/ Para fora de todas as casas, de todas as lógicas e de todas as sacadas,/ E ir ser selvagem para a morte entre árvores e esquecimentos,/ Entre tombos, e perigos e ausência de amanhãs,/

A REVISTA DA TASCA

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quarta-feira, junho 26, 2013

Idem

«O homem deseja um mundo em que o bem e o mal sejam nitidamente discerníveis, porque nele há o desejo, inato e indomável, de julgar antes de compreender. Sobre este desejo são fundadas as religiões e as ideologias. Estas não se podem reconciliar com o romance a não ser que traduzam a linguagem de relatividade e de ambiguidade dele para o seu discurso apodítico e dogmático.»

A história como luta entre memória e esquecimento

«A nossa época está obcecada pelo desejo de esquecimento e é para realizar esse desejo que se abandona ao demónio da velocidade; acelera o passo porque quer fazer-nos compreender que já não aspira a ser lembrada; que se sente cansada de si própria; farta de si própria; que quer soprar a chamazinha trémula da memória.» Milan Kundera

Enrique Vila-Matas

««En la literatura, así como en la vida - escribe en sus memorias Sándor Márai -, sólo el silencio es sincero.» Es una frase que, desde que la conozco, me ha hecho reflexionar. A medida que envejezco, aprecio mejor el silencio, que muchas veces - tal como pretende el tópico - parece decir más que qualquier palabra. Márai piensa que toda la vida nos callamos sobre quienes somos, algo que sólo nosotros sabemos y sobre lo que no podemos hablar con nadie. «Sin embargo, sabemos que quienes somos y eso que no podemos decir constituyen la verdad. Somos aquello de lo que guardamos silencio.» Estas palabras de Márai me hacen pensar siempre. Van contra la literatura, está claro. Por eso, si algunas veces odio la odio (la literatura), seguramente es porque hay días en los que intuyo, con más fuerza de la habitual, que ella, con tanta palabra escrita, hace esfuerzos para alejarme del núcleo central de mi verdad.»

terça-feira, junho 25, 2013

Ele e ela coabitam o mesmo café há uns anos. Ele zanga-se com ela constantemente, principalmente quando ela tem namorado. Pretexta isto e aquilo e censura-a e ralha - uma opinião estúpida, o ela falar alto quando há Quiz, o ela ter o computador a ocupar a tomada mais tempo do que os outros. Algumas vezes, ele entornou-lhe um líquido, alegadamente sem querer. Ela hesita em protestar - não sabe se foi intencional. Ele jura que não foi. (Seria um «acto falhado» para Freud.) Mas da última vez ela gritou com ele - ele disse que ela estava maluca, que ninguém gritava a ninguém por sem querer lhe entornar uns pingos de água. Além disso, ele treme das mãos. Era cruel, ela. No café, as amigas disseram-lhe que ela lhe dera o troféu - conseguira gerar-lhe uma reacção. Mostrava que não lhe era indiferente. Todas as semanas, ele anuncia que deixou de falar com ela - e voltar sempre a falar com ela. E a relação conduz sempre a novos conflitos. A nova maledicência - estão sempre a dizer mal um do outro, mas não conseguem sair do quadrado malsão, não se conseguem libertar - principalmente ele que arranja sempre forma de lhe voltar a falar. Ela por amizade, diz. Ele não diz porquê. Todos lhe dizem para a ignorar. Ele faz votos de renovadas promessas. «É que desta vez nunca mais lhe dirijo a palavra, nem um "olá". Se me quiserem ter na mesa, garanto-vos que só se ela não estiver.» Mas ele voltou sempre.Para novos gritos, discussões, agressões. Quantas relações não conheces assim?
Miguel Esteves Cardoso diz que não é verdade estejamos todos ligados - estamos todos separados e os livros unem-nos. Paul Auster diz que o romance nunca morrerá por ser o único lugar em que dois estranhos se encontram num espaço de absoluta intimidade.

domingo, junho 23, 2013

- Acho que quando me sentar um dia para chorar, vou ficar dias a fio.

sábado, junho 22, 2013

Ligações improváveis (ou não)

«Quando você for tentado a julgar outro ser humano, não importa como, obviamente, ele ou ela mereça, lembre-se de que todos estão fazendo o melhor que podem, a partir do seu próprio nível de consciência.» http://universonatural.wordpress.com/ «In my younger and more vulnerable years my father gave me some advice that I've been turning over in my mind ever since. "Whenever you feel like criticizing any one," he told me, "just remember that all the people in this world haven't had the advantages that you've had."» F. Scott Fitzgerald

quinta-feira, junho 20, 2013

Armadilhas da imitação por Manuel Maria Carrilho

«Tudo gira, hoje, em torno da riqueza: da que existe, da que desapareceu, da que se procura. Foi a pensar nela que Adam Smith lançou as bases da economia política moderna. Mas, ao contrário do que geralmente se diz, as questões que mais o inquietavam não surgiram na sua obra mais conhecida, A Riqueza das Nações, de 1776, mas quase vinte anos antes, em 1759, no seu livro Teoria dos Sentimentos Morais. E a sua ideia central surpreenderá muitos, porque o que Adam Smith afirmou nessa obra notável foi que a riqueza não é o que assegura o nosso bem-estar - para isso, bastaria uma vida sem carências, mas frugal. Não, o que ele intuiu foi que a riqueza, mais do que ser aquilo que se acumula, é afinal o que nós identificamos como o que é mais desejado pelos outros. O que Adam Smith descobriu foi que não é a necessidade material que está na base da procura da riqueza, mas antes o desejo. Ora, enquanto a necessidade cessa com a satisfação, o desejo, pelo contrário, renova-se e renasce de cada vez que se sacia. A riqueza é o que é desejado pelo olhar que mais conta para cada um de nós, que é o olhar desse espectador constante, multiforme e indefinível que constitui o que chamamos "os outros". Esta perspetiva identifica assim, na origem da aspiração humana à riqueza, um complexo dispositivo de comparação e de imitação, que seria como que inato à humanidade. Como se tudo se passasse, na experiência humana, como no caso descrito pelo primatólogo Frans de Waal com dois chimpanzés instalados em duas jaulas contíguas. Enquanto se lhes dá a ambos a mesma comida, um pequeno pepino, eles respondem lançando pequenas pedras para o exterior, mostrando-se contentes com este jogo. Mas no momento em que se dá a um só deles umas uvas, a sua comida preferida, o outro imediatamente para o jogo e amua, rejeitando o pepino e enfurecendo-se cada vez mais... enquanto o primeiro rejubila com a situação! São várias as investigações que, nesta linha, têm insistido no decisivo papel que a comparação, nos seus constantes e múltiplos jogos e combinações, tem na felicidade e na infelicidade humana. Basta, para o reconhecer, um exemplo banal: se me anunciam um aumento salarial de trezentos euros, ficarei muito contente. Mas se logo a seguir encontrar um amigo que teve um aumento de seiscentos, toda a alegria dará lugar a um incontornável abatimento. A questão é saber porque é que passamos o nosso tempo a comparar tudo - riqueza, saúde, carreira, aspeto, etc. -, apesar de manifestamente se tratar de um processo que conduz mais à infelicidade do que à felicidade? É uma questão a que já se procuraram dar muitas respostas, sobretudo desde que os estudos de Richard Easterlin mostraram que, apesar do aumento do PIB de 200% ou 300% em diversos países, entre os anos cinquenta e setenta do século passado, o "nível de felicidade" declarado pelas pessoas permanece inalterado. A conclusão de Easterlin (consagrada como o "paradoxo de Easterlin) foi que, quando uma sociedade satisfaz as suas necessidades vitais, o desenvolvimento económico deixa de ter uma influência direta sobre a evolução do bem-estar médio da população, que passa a ser muito mais relativo, conforme os objetivos do contexto. Uma das ideias que decorre destes trabalhos é que o ser humano sofre e se deprime mais com comparações negativas do que se alegra e anima com as comparações positivas. Como se a felicidade fosse tanto mais difícil de viver quanto a adaptação ao que se conquistou é fácil, obnubilando assim o valor do que se obteve. Mas será possível alterar este processo? Não parece fácil. Sobretudo se tivermos em conta a descoberta feita em 1996 por Giacomo Rizzolatti dos chamados "neurónios-espelho", que condicionam desde o nascimento o funcionamento do nosso sistema psíquico, que se forma como que fotocopiando o dos outros e oscilando entre uma imitação ora mais cooperativa ora mais competitiva. Isto confirma que a razão pela qual permanentemente nos comparamos com os outros é porque, na verdade, o nosso desejo é determinado pelo que os outros desejam, num inextrincável jogo em que, por um lado, se cruzam a intenção cooperativa e a rivalidade competitiva e, por outro lado, se confundem o desejo mimético e a necessidade objetiva. E isto passa-se tanto no comportamento individual como no coletivo, na economia como na política. Áreas em que de resto a reincidente conversa sobre os "modelos" a seguir mostra toda a força da imitação e das suas armadilhas. É bom lembrar os modelos que se têm sucedido, num vertiginoso carrossel de devoção e de deceção que já passou pelos modelos americano, sueco, japonês, irlandês, finlandês, etc., antes de se chegar ao alemão!... O que se passa, como há dias sublinhava Jean-Pierre Dupuy, é que temos dificuldade em aceitar que a economia é movida mais pelo desejo do que pela necessidade. Por um "desejo de ser reconhecido pelos outros, de ser admirado por eles, numa admiração mesclada de inveja - e, disto, nunca se tem que chegue". (Le Monde, 11.6.2013) E a chave desta dificuldade encontra-se no desconhecimento, na opacidade dos agentes em relação às suas próprias motivações, que se enganam ao "acreditarem que a riqueza lhes trará o bem-estar material que pensam necessário à sua felicidade. A riqueza atrai sobre quem a possui o olhar de cobiça dos outros. Pouco importa porquê, o que conta é o próprio olhar da cobiça. É esse olhar que, sem o saber, cada um mais aprecia. A economia é em suma um jogo de enganos, em que todos são sempre enganados e e cúmplices do engano. Ela é uma imensa mentira do coletivo em relação a si próprio". As armadilhas da imitação, percebemo-lo cada vez melhor, são infindáveis. Mas são talvez elas o que melhor explica - para usar uma expressão de René Girard que fez história - que continue a haver "tantas coisas escondidas desde a formação do mundo".» »

quarta-feira, junho 19, 2013

Mensagem que recebi

Ex.mo Sr. Agradecemos muito o seu reparo, que teremos em conta no futuro. Com os melhores cumprimentos,

Mensagem que enviei à Assírio & Alvim a propósito de Servidões

Mensagem: Bem sei que Herberto Helder troca propositadamente certas grafias. Mas não foi o que sucedeu com a palavra «octagenário». É um erro. E um erro ou gralha de revisão. «Octogenário», como «octogésimo». A corrigir quando editarem obra completa. Saudações.
«O meu pai a fumar e eu queria tanto fumar também. Perguntei - Posso fumar? e a resposta um par de olhos terríveis. O chalet que me parecia sempre abandonado, com espinhos em torno. Não me lembro muito nitidamente da minha mãe nessa época, lembro-me mais da minha avó, omnipresente. Imensas chávenas de asa quebrada. O meu avô usava um aparelho de ouvir complicadíssimo, quase não falava, sempre de casaco de linho branco. Lia o jornal na varanda, ia para a varanda, que esquisito, durante as trovoadas de verão, enquanto a minha avó rezava, apavorada. Era alta, o meu avô nem por isso, alta, de olhos azuis, sempre tão boa para mim. Adorava-a. Adorava a família da minha mãe, de resto, [sempre] me trataram com tanta ternura. Não tenho razão de queixa de ninguém. Reparo agora, que curioso, que até hoje a única pessoa de quem tenho razões de queixa é de mim mesmo. Fui um afortunado, sempre, embora nunca tivéssemos sido ricos. Que alegria chegar àquela casa, que pena virmo-nos embora para a tristeza do inverno, a tristeza das aulas, o suplício dos professores. Já escrevia nessa altura, versos, ninharias. Mas ia ser o maior escritor do mundo, isso era certo. Na minha opinião sou, claro, não vale a pena escrever se não se é o maior escritor do mundo. Infância, ainda sinto o teu mistério, as descobertas diárias, o teu murmúrio no meu sangue. Ainda me acompanhas com, nos intervalos da alegria, tristezas inexplicáveis que passavam depressa, perplexidades inexplicáveis que passavam depressa, angústias inexplicáveis que passavam depressa. Saudades disso, também e, de repente, o maravilhamento de novo. Paixões por meninas entrevistas, um par de tranças sem cara, um sorriso que se me não dirigia, e ainda bem porque, no caso de se me dirigir, não saberia o que fazer com ele. Isto vai tudo mal redigido mas pouco me importa. Importa-me a casa da minha infância muito longe de Lisboa, para mim, em criança, no outro lado do mundo, entre pinhais, castanheiros, a vinha, montes ao longe. E as amoras, claro, as amoras. A conversa das pessoas crescidas, à noite, no andar de cima, conversas, risos, passos no corredor e a trepadeira no postigo sempre, a trepadeira no postigo.» António Lobo Antunes

terça-feira, junho 18, 2013

Se reparares, quase tudo o que ouves são clichés. É certo que quanto menor a intimidade, maior o efeito de conversas de elevador, de truísmos ou de aparentes verdades insofismáveis que se assimilam acriticamente, se reproduzem acriticamente. Quase todas as conversas assentes em clichés. Os anúncios televisivos. Mesmo os longos discursos. Tão difícil ser eu. Tão difícil encontrar a nossa voz. Tão difícil não ser hipócrita. Tão difícil a autenticidade com medo do juízo, da reprovação social. Tanto medo de ser causa de escândalo. Conheço pessoas a quem nunca ouvi algo que não fosse a reprodução do que emprenharam, sem estudo, sem reflexão, sem o mirar de todos os ângulos. Dizia Aristóteles que só conhecendo TUDO, ABSOLUTAMENTE TUDO, toda a informação, todos os ângulos de visão, todos os entendimentos sobre um assunto poderíamos então formular um juízo.

segunda-feira, junho 17, 2013

«Senti a primeira palpitação de Lolita em Paris, em fins de 1939 ou começo de 1940, quando estava acamado com uma séria crise de nevralgia intercostal. Tanto quanto me recordo, o frêmito inicial de inspiração foi de alguma forma provocado por certo artigo de imprensa sobre um macaco no Jardin des Plantes, o qual, após ser persuadido durante meses por um cientista, enfim produziu o primeiro desenho feito por um animal: nele só apareciam as grades da jaula da pobre criatura. Esse impulso não tinha nenhuma conexão textual com a linha de pensamento por ele suscitada, da qual resultou, entretanto, o protótipo de Lolita.» Nabokov
Uma vez, num recital de poesia, ouvi um poema que terminava com «Feliz aquele que no fim da sua vida pode dizer uma só palavra». A ideia: quem viveu por (diferente viver por de viver para, tão diferente) um palavra. Será? Certos religiosos vivem assim, alguns comunistas vivem ou viveram assim, alguns românticos terão vivido a palavra do nome do seu amor, o escritor vive assim.

domingo, junho 16, 2013

Sentindo um olhar de lupa sobre si, disparou: - Não me olhes assim, porra; sou sujeito, não objecto.
Ouvi um desses casos de amor trágico em que ela termina a relação esperando que ele entendesse que ela não estava satisfeita com aquilo que entendia ser uma indefinição do compromisso, esperando que ele no dia seguinte se ajoelhasse pedindo-a em casamento, e em que ele que nunca amara ninguém como a ela ficou descoroçoado durante meses e anos perguntando-se porquê, porquê, porquê, e esperando o telefonema que nunca veio.