segunda-feira, junho 10, 2013
O Barão, Branquinho da Fonseca
«Não gosto de viajar. Mas sou inspector das escolas de instrução primária e tenho a obrigação de correr constantemente todo o País. Ando no caminho da bela aventura, da sensação nova e feliz, como um cavaleiro andante. Na verdade lembro-me de alguns momentos agradáveis, de que tenho saudades, e espero ainda encontrar outros que me deixem novas saudades. É uma instabilidade de eterna juventude, com perspectivas e horizontes sempre novos. Mas não gosto de viajar. Talvez só por ser uma obrigação e as obrigações não darem prazer. Entusiasmo-me com a beleza das paisagens que valem como pessoas, e tive já uma grande curiosidade pelos tipos rácicos, pelos costumes, e pela diferença de mentalidade do povo de região para região.
Num país tão pequeno, é estranhável tal diversidade. Porém não sou etnógrafo, nem folclorista, nem estudioso de nenhum desses aspectos e logo me desinteresso. Seja pelo que for, não gosto de viajar. Já pensei em pedir a demissão. Mas é difícil arranjar outro emprego equivalente a este nos vencimentos. Ganho dois mil escudos e tenho passe nos comboios, além das ajudas de custo. Como vivo sozinho, é suficiente para as minhas necessidades. Posso fazer algumas economias e, durante o mês de licença que o Ministério me dá todos os anos, poderia ir ao estrangeiro. Mas não vou. Não posso. Durante este mês quero estar quieto, parado, preciso de estar o mais parado possível. Acordar todas essas trinta manhãs no meu quarto! Ver durante trinta dias seguidos a mesma rua! Ir ao mesmo café, encontrar as mesmas pessoas!... Se soubessem como é bom! Como dá uma calma interior e como as ideias adquirem continuidade e nitidez! Para pensar bem é preciso estar quieto. Talvez depois também cansasse, mas a natureza exige certa monotonia. As árvores não podem mexer-se. E os animais só por necessidade física, de alimento ou de clima, devem sair da sua região. Acerca disto tenho ideias claras e uma experiência definitiva. É até, talvez, a única coisa sobre que tenho ideias firmes e uma experiência suficiente.»
sábado, junho 08, 2013
Borges
Nem a intimidade da tua fronte clara como uma festa,/
nem o hábito do teu corpo, ainda de menina e misterioso e tácito,/
nem a sucessão da tua vida assumindo palavras ou silêncios/
serão favor tão misterioso/
como olhar o teu sono envolvido/
na vigília dos meus braços:/
Virgem milagrosamente outra vez, pela virtude absolutória do sono,/
serena e resplandecente como a alegria que a memória escolhe,/
dar-me-ás essa margem da tua vida que tu própria não tens./
Entregue à serenidade,/
divisirei essa praia última do teu ser/
e ver-te-ei acaso pela primeira vez/
como Deus te verá,/
já dissipada a ficção do Tempo,/
sem o amor, sem mim.
sexta-feira, junho 07, 2013
oren·da noun \ōˈrendə\
-s
Definition of ORENDA
: extraordinary invisible power believed by the Iroquois Indians to pervade in varying degrees all animate and inanimate natural objects as a transmissible spiritual energy capable of being exerted according to the will of its possessor
Origin of ORENDA
«Podemos dizer que a tarefa do poeta, como poeta, é apenas indireta com relação ao seu povo: sua tarefa direta é com sua língua, primeiro para preservá-la; segundo, para distendê-la e aperfeiçoá-la. Ao exprimir o que outras pessoas sentem, também ele está modificando seu sentimento ao torná-lo mais consciente; ele está tornando as pessoas mais conscientes daquilo que já sentem e, por conseguinte, ensinando-lhes algo sobre si próprias. Mas o poeta não é apenas uma pessoa mais consciente do que as outras; é também individualmente distinto de outra pessoa, assim como de outros poetas, e pode fazer com que seus leitores partilhem conscientemente de novos sentimentos que ainda não haviam experimentado. Essa é a diferença entre o escritor que é apenas excêntrico ou louco e o autêntico poeta.»
T. S. Eliot
quarta-feira, junho 05, 2013
terça-feira, junho 04, 2013
segunda-feira, junho 03, 2013
«Herberto Helder...
Essa coisa de se auto-octogenar e de se manter absoluto, andando vivo e lúcido...
E o que é mais giroscópio é o facto de o poeta continuar a perceber a tessitura da vida...
Esse entendimento vívido, pleno, para lá e para cá do além... o zénite do todo, do tudo....
Este homem, sendo, consegue helderizar a vida.
Pois é, este homem é Portugal! Precisamos nos helderizar também,
abrir os olhos em português.
Mandar à merda os ensaios sobre a cegueira.
Helder dá o mote. Leia-se e entenda-se.»
José Alberto Braga
sábado, junho 01, 2013
Tecnofilia
Vais a um jantar em que só conheces uma pessoa. Tiras o telemóvel que toca do bolso e alguém diz que é igual ao dele e fala sobre quanto custou, como o comprou, pergunta-te quanto te custou, se sabes que há o -S. Indiferente ao teu ar de enfado, perora que vai sair o número ponto não sei quê e como isso mudará a vida dele e de muitos dotando-a de um conforto amigo, a conversa alastra, comparam «aplicações», soltam gritinhos «ah!», «espectáculo», «vou já sacar essa».
Vais a um concerto e na tua frente várias criaturas em posição de imobilidade filmam com o seu i-coiso o espectáculo, horas a fio, quietas, olhando para o ecrã, perguntas-te se aquela é a sua ideia de fruição, cansam-se pedem a outro que vá segurando e olhando por um bocado, fazem a transição do equipamento com muito cuidado não vá um micro segundo ficar com a qualidade da imagem afectada, segura com jeitinho, pega nele aqui nesta posição em que está. Vais a uma iniciativa recreativa e metade dos pais estão a filmar os filhos com o mesmo zelo dos que estavam no concerto. Ouves comentários de que a fotografia já foi para o Facebook, de que ficou «brutal».
Vais com um amigo a andar, subitamente ele entra numa loja, fica deslumbrado, erotizado com a forma, o desenho, a curva, a textura dos mil e um objectos que servem de auxílio aos i-merda. Pensas na criação de necessidades artificiais que sustenta o tecnocapitalismo.
O teu amigo continua a ver coisas e tu ficas perplexo a ver o que ele vê, não sabias que a empresa da maçã daquele filho de puta hoje é uma causa. Que I LOVE APPLE vende. Que há estojos para miúdos e uma parafernália de objectos úteis em forma de i-merda. Não consegues entender como outros não vêm nisso um processo de infantilização. Continuas a ver os objectos e descobres coisas espantosas, como autocolantes de metal para o frigorífico em forma de aplicações. Não consegues entender como isto pode ser uma cenoura para um cérebro de um ser vivente, já nem dizes pensante. A teu lado, olhos bem abertos de drogados. Parabéns, tecnocapitalismo, que transformaste cidadãos em consumidores.
Pensas que vives num país em que num ano houve uma queda na compra de livros não escolares de um milhão, de 1, 9 milhões de bilhetes de cinema, de 45 milhões de validações de viagens em transportes públicos - e que simultaneamente os telefones espertos aumentaram as suas vendas 46%.
Que vives num mundo em que a hiperinformação conduz a pessoas menos informadas. Em que a facilidade de comunicação conduz a pessoas mais distantes entre si, menos afectuosas (aquele grupo de quatro amigos que marcaram um encontro para cada um deles estar no seu i-merda). Um mundo que tem afastado as pessoas das coisas fundas (porque necessariamente lentas), do silêncio, da recolha da alma, da reflexão, ao mesmo tempo que as dota de uma ilusão de conhecimento. Que vives num mundo em que tudo é urgente, em que todos temos sempre portas abertas para a nossa entidade laboral entrar. Em que tudo é premente. Em que tudo é agora. Em que há quem viva em directo. Que há quem não sinta o acontecimento se este não for visto na montra. Em que o importante é arranhar a superfície das coisas sendo multitarefa. Em que os múltiplos tópicos são mais valiosos do que um pensamento estruturado, reflexivo, demorado. Ir a reboque do 4.0, 4.0 e uma letra, 5.0, como matóides acéfalos. Validar uma coisa pelo número de likes, uma pessoa pelo número de pessoas que tem, validar algo como verdade ou falso em função do que a net dita. Um mundo que escarnece da privacidade. Um mundo que glorifica um ser para dois dias o demonizar. Um mundo em que numa semana se é herói para na semana seguinte, pela súbita fama e súbito escrutínio da sua vida, essa pessoa ficar louca ou ser morta. (Vejam o que aconteceu, por exemplo, ao do vídeo do Kony.)
Todas as semanas te falam de dez blogues que tens de ver, cada um deles remetendo para não sei quantos outros, de sítios que tens de conhecer, de aplicações que tens de ter, pedem-te centenas de vezes para gostares de centenas de página.
Perguntas-te se és tu que estás desfasado do mundo ou o mundo desfasado de ti.
«Conheces a frase, grandes males, grandes remédios.
Logo que cheguei aí, de regresso, circa 1982, uns poucos anos a seguir, conheci um empresário brasileiro que tinha uma "ideia maluca" para resolver boa parte do problema económico português. Qual era a sugestão do gajo? Plantar soja em todo o solo alentejano! Soja, como sabes, substitui a carne e, se plantada em Portugal, chegaria aos demais países da Europa com um preço excepcional. Ele correu todas as igrejinhas do poder e... nada conseguiu.
Outra, esta lembrei-me eu. Os chineses, que têm uma certa simpatia para com os portugueses (se é que os chineses têm simpatia com coisa alguma), poderiam ser convencidos a usarem Portugal como estância turística! Se concordassem, imagina a quantidade de massa que entraria aí...
Estas são duas ideias, mas existem tantas!
Custa-me ver, ou melhor, ler, o Carrilho a suar as estopinhas, a teorizar Portugal e ninguém pegar nenhuma ideia do gajo.
Se bem me lembro, quando o MEC era jovem (já reparaste que ele está parecido com o "pequeno velho príncipe", do Exupery?), o MEC chegou a criar um escritório de ideias novas, algo assim, para vender novidades.
É essa falta de criatividade que nos leva ao "revertere ad locum tuum", como se lê nos cemitérios, (e aqui logo me lembro do Cavaco), que quer dizer... voltar para o lugar de onde vieste. E, no caso, é ir embora sem um golpe de asa! Apre!»
JAAB
quinta-feira, maio 30, 2013
Com a música celestial e com as almas do círculo hermético, assim sucede
«Quando se acaba de ouvir um trecho de Mozart, o silêncio que se lhe segue ainda é dele.»
Sacha Guitry
terça-feira, maio 28, 2013
Para quem ainda não o comprou...
http://www.tsf.pt/PaginaInicial/Vida/Interior.aspx?content_id=3241601
Reading and forgetting
http://www.newyorker.com/online/blogs/books/2013/05/the-curse-of-reading-and-forgetting.html
segunda-feira, maio 27, 2013
domingo, maio 26, 2013
«A leitura tem elementos que são contra as características do nosso tempo: é lenta, é totalitária – quando se está a ler, não se pode fazer outra coisa –, e isso contrasta com a facilidade da televisão e do cinema. [...] Toda a sociedade funciona para eliminar o tempo longo, o silêncio, a discrição, é tudo a favor do consumo imediato, da fruição imediata e de uma certa preguiça colectiva.»
Pacheco Pereira
sexta-feira, maio 24, 2013
E de repente a maravilha-se instala-se
Herberto Helder publica Servidões
LUÍS MIGUEL QUEIRÓS 22/05/2013 - 20:35 (actualizado às 21:44)
Depois de A Faca Não Corta o Fogo , em 2008, o poeta regressa, aos 82 anos, com um novo livro de inéditos.
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TÓPICOS
Livros
Herberto Helder
Poesia
Chega na segunda-feira às livrarias, com a chancela da Assírio & Alvim, do grupo Porto Editora, um novo livro de Herberto Helder, Servidões , que reúne largas dezenas de poemas inéditos.
Chega na segunda-feira às livrarias, com a chancela da Assírio & Alvim, do grupo Porto Editora, um novo livro de Herberto Helder, Servidões, que reúne largas dezenas de poemas inéditos. A notícia foi avançada nesta terça-feira pelo grupo Porto Editora, que presumivelmente obedeceu aos desejos do autor ao só anunciar agora a existência do livro e ao dispensar qualquer sessão de lançamento.
Tal como os anteriores títulos de Herberto Helder, Servidões não será reeditado autonomamente, embora seja de admitir que venha a integrar uma próxima edição de Ofício Cantante, a sua poesia completa. Dado que a tiragem deste novo livro não excederá os cinco mil exemplares, tudo indica que terá o mesmo destino de A Faca Não Corta o Fogo, de 2008, que se esgotou num mês.
A primeira impressão que Servidões provoca em quem acabou de ler o livro talvez se deixe dizer melhor numa expressão inglesa: he did it again. Mais uma vez, depois de a energia e a capacidade de inovação de A Faca Não Corta o Fogo terem assombrado os que não julgavam possível uma tal voltagem poética num autor de 80 anos, Herberto Helder repete o milagre.
Servidões abre com um texto em prosa construído a partir de três textos anteriores: o mais antigo aparecia a abrir Edoi Lelia Doura, a “antologia das vozes comunicantes da poesia moderna portuguesa” que o autor organizou em 1985, e os restantes tinham surgido respectivamente na publicação brasileira Cult e na Telhados de Vidro, a revista da editora Averno. É significativo que Herberto Helder tenha querido iniciar este livro com um texto marcadamente autobiográfico, que começa com a sua infância na Madeira, povoada de “visões” e “vozes” que terão contribuído para selar precocemente o seu destino de poeta, e não por acaso de um poeta que acredita, sem ironia, nos poderes da poesia, como outrora, em criança, acreditou nas “enigmáticas figuras” de animais que a seiva das bananeiras deixava na lâmina de uma faca, ou nos raios que atingiriam os espelhos se não houvesse a prudência, “em tempo de trovoadas”, de os cobrir com lençóis.
O texto termina com esta passagem: “Cumprira-se aquilo que eu sempre desejara – uma vida subtil, unida e invisível que o fogo celular das imagens devorava. Era uma vida que absorvera o mundo e o abandonara depois, abandonara a sua realidade fragmentária. Era compacta e limpa. Gramatical”.
Nada de muito diferente do que há muito escrevera num texto hoje recolhido em Photomaton & Vox: “(...) As pessoas perdem o nome, as coisas limpam-se, cessam a fuga do espaço e o movimento dispersivo do tempo. Fica um núcleo cerrado. Fico eu.” Mas é verdade que se sente em Servidões, talvez mais do que noutros livros do autor, um certo desejo de revelar, de esclarecer, talvez de corrigir leituras exteriores que lhe terão parecido equívocas. Não se trata nunca, note-se, de propor a sua própria leitura da obra, mas antes de tentar aclarar a natureza do trajecto de que ela é a face visível.Este é também um livro em que Herberto Helder vai mais longe do que nunca na sua determinação de sair da literatura, de desprezar todo o ornamento. E o livro parece ir acelerando, até atingir, em muitos dos poemas finais, uma violenta energia: “dá-me o êxtase infernal de Santa Teresa de Ávila/ arrebatada ar acima num orgasmo anarquista,/ a ideia de paraíso é apenas um apoio/ para o salto soberano,/ não um inferninho brasileiro com menininhas de programa,/ púberes putinhas das favelas,/ mas o inferno complexo onde passeia a Beatriz das drogas duras,/ um inferno à medida de cada qual dificílimo (...)”.
Embora a proximidade da morte seja um tópico recorrente em Servidões, nem há aqui melancolia alguma, nem o corpo que se lê nestes poemas dá grandes sinais de decadência física. Mas a verdade é que nenhum corpo real, tivesse ele 30 ou 80 anos, pôde alguma vez plausivelmente corresponder à energia sexual desta escrita. O que é realmente digno de assombro não é tanto isso, é um cérebro de 82 anos ser capaz desta intensidade criativa.
terça-feira, maio 21, 2013
Um dos melhores artigos de opinião dos últimos anos
O garrote do consenso
«Fala-se muito da necessidade de consenso, mas o que verdadeiramente faz falta é mais dissenso. Ou melhor, o que o alimenta: um efetivo pluralismo de perspetivas sobre a sociedade e uma autêntica diversidade na análise dos seus problemas. E onde hoje essa falta mais se sente é no domínio que, nas última décadas, absorveu quase integralmente a política: na economia.
Existe uma cartilha de onde tudo brota e tudo delimita, que se arroga um estatuto de ciência exata sem, contudo, satisfazer nenhum dos seus quesitos. Quer ela se designe como abordagem neoclássica ou como financismo, o seu estatuto mais parece divino, dado o modo como escapa aos próprios factos que sistematicamente a desmentem, tanto nos seus dogmas centrais como nas suas previsões mais banais.
Temos tido em Portugal, nos últimos dois anos, um eloquente exemplo desta tão insólita como generalizada situação, em que os erros, em vez de levarem à questionação dos diagnósticos e das terapias que suscitaram, são apresentados - por mais clamorosos que seja, e têm sido - como imunes às suas consequências, e até mesmo como um estímulo à sua perpetuação.
Muitos atribuirão esta situação à particularidade deste ou daquele economista, à idiossincrasia deste ou daquele ministro. E essas características terão sem dúvida o seu papel. Mas as raízes da situação encontram-se bem mais fundo, elas têm que ver com a formação que, nestas áreas, a universidade dá aos seus alunos, e que os media em geral amplificam.
Por todo o mundo (Canadá, Estados Unidos, França, Alemanha, Israel, Argentina, etc.) têm vindo a multiplicar-se as análises desta formação, que mostram bem a responsabilidade que ela teve na crise que se desencadeou em finais da década passada e no impasse mas ou menos intermitente que se tem vivido desde então.
Essas análises apontam fundamentalmente para três aspetos dos curricula e dos programas do ensino económico-financeiro dominante, que não podem deixar de ter pesadas consequências. Em primeiro lugar, uma quase completa ausência de distância crítica, em termos ideológicos ou históricos. Depois, o estrangulamento do pluralismo teórico na abordagem e enquadramento dos problemas. Por fim, o corte com o conhecimento do mundo que as ciências sociais e as ciências humanas propiciam.
Percebe-se melhor a sofisticada ignorância, e a emproada incompetência, de tantos economistas dos nossos dias, se soubermos - por exemplo - que a atenção que é dada à história da sua própria disciplina e dos acontecimentos económicos raramente chega aos 2% nos curricula escolares. Ou que é quase total a ausência de reflexão epistemológica, que deveria avaliar com detalhe os fundamentos metodológicos e científicos da disciplina. Ou, ainda, que o espaço dado à articulação dos problemas económicos com outros temas contemporâneos (sociais, políticos, culturais, etc.) ronda, nos respetivos programas, 1,5% do total.
Torna-se assim possível fazer um curso de Economia quase sem falar do que de mais importante acontece no mundo. Como se fosse possível reduzir tudo a modelos matemáticos e a métodos quantitativos que, naturalmente indispensáveis, são completamente insuficientes na compreensão da realidade. Sobretudo porque, neste âmbito, a sofisticação técnica anda em geral a par com o simplismo das abordagens, ao contrário do que as sociedades contemporâneas exigem, que é a atenção à sua crescente e inextrincável complexidade.
O recente caso Rogoff/Reinhart, e as suas teorias sobre a ligação entre o crescimento económico e a dívida pública (usada para caucionar a política austeritária dos últimos tempos), é muito esclarecedor sobre as areias extremamente movediças da "ciência" económica, em que se permanentemente se confundem três coisas bem distintas: os elementos e as correlações estatísticas, as causas dos factos e as razões dos acontecimentos.
O mundo de hoje exige outras visões da economia, onde o pluralismo tem de ser a regra: um pluralismo crítico que ofereça aos estudantes (e aos cidadãos em geral) uma perspetiva global sobre a história e os procedimentos nucleares da disciplina. Um pluralismo doutrinário que apresente as várias linhas de pensamento económico existentes, promova a competição explicativa entre as suas argumentações e ofereça uma diversidade de pontos de vista. Um pluralismo interdisciplinar, que valorize os contributos de outras disciplinas e saberes na compreensão e tratamento dos problemas do mundo de hoje, que são cada vez mais polifacetados, interdependentes e complexos.
Tudo isto exige, como comecei por dizer, mais dissenso do que consenso. Exige sobretudo que se compreenda que o consenso de que falam os zelotas do financismo divino é um mero garrote para, justamente, impedir que surjam e se trabalhem ideias e propostas alternativas àquelas que, apesar de falharem os seus proclamados objetivos, continuam, todavia, a dominar impunemente o mundo.
É pena, pois, que por cá não se tenha dado a devida atenção ao relatório coordenado pelo prof. José Mattoso em 2011 , no âmbito do Conselho Científico das Ciências Sociais da Fundação para a Ciência e Tecnologia, que apontava para a degradação do ensino e da investigação da economia em Portugal. Lá se pode ler "que a ausência de pluralismo na ciência económica não resulta diretamente, longe disso, da maior capacidade explicativa da visão mainstream. No caso da economia, tem-se mesmo popularizado um termo, o "pensamento único", para traduzir o afunilamento e ausência de pluralismo que tem afetado nas últimas três décadas a investigação nesta área científica, com consequências negativas evidentes sobre o respetivo progresso.»
Manuel Maria Carrilho
segunda-feira, maio 20, 2013
«Ser imortal é coisa sem importância. Excepto o homem, todas as criaturas o são, porque ignoram a morte. O divino, o terrível, o incompreensível, é considerar-se imortal. Já notei que, embora desagrade às religiões, essa convicção é raríssima. Israelitas, cristãos e muçulmanos professam a imortalidade, mas a veneração que dedicam ao primeiro século prova que apenas crêem nele, e destinam todos os outros, em número infinito, para o premiar ou para o castigar.
Mais razoável me parece o círculo descrito por certas religiões do Indostão. Nesse círculo, que não tem princípio nem fim, cada vida é uma consequência da anterior e engendra a seguinte, mas nenhuma determina o conjunto... Doutrinada por um exercício de séculos, a república dos homens imortais tinha conseguido a perfeição da tolerância e quase do desdém. Sabia que num prazo infinito ocorrem a qualquer homem todas as coisas. Pelas suas passadas ou futuras virtudes, qualquer homem é credor de toda a bondade, mas também de toda a traição pelas suas infâmias do passado ou do futuro. Assim como nos jogos de azar as cifras pares e ímpares permitem o equilíbrio, assim também se anulam e se corrigem o engenho e a estupidez.»
Jorge Luis Borges
sexta-feira, maio 17, 2013
quinta-feira, maio 16, 2013
quarta-feira, maio 15, 2013
Pode-se dar o que não se tem?
Evangelho segundo S. Lucas 21,1-4.
«Naquele tempo, Jesus levantou os olhos e viu os ricos deitarem no cofre do tesouro as suas ofertas.
Viu também uma viúva pobre deitar lá duas moedinhas e disse: "Em verdade vos digo que esta viúva pobre deitou mais do que todos os outros;
pois eles deitaram no tesouro do que lhes sobejava, enquanto ela, da sua indigência, deitou tudo o que tinha para viver."»
Este episódio da Bíblia foi sempre rasamente interpretado. Não é só a parte material. Quem está triste, quem está deprimido, quem tem as circunstância da vida a concorrer contra si (mesmo que nenhuma delas seja material) tem de fazer um esforço maior para dar ao Outro.
Jorge Luis Borges, que gostava de paradoxos (de Zenão, por exemplo) dizia ser um milagre como alguém podia não ter alegria dentro de si e conseguir dá-la ao outro - mas que isso acontecia.
Mas é muito mais difícil. E isto conduz-me à Viúva Pobre. Quem está na merda e consegue ser solidário numa unha tem mais mérito de quem está tranquilo e cheio e dá um braço.
Lembro-me sempre de um amigo meu que pouco antes de morrer nos paliativos do Hospital da Luz de um cancro no estômago limpava sempre o seu vómito para não dar trabalho às enfermeiras.
segunda-feira, maio 13, 2013
«O País assiste assim à sua destruição económica. De acordo com a teoria económica que suporta estas intervenções, não há nestes dados nada de mal e de anormal. Mesmo que todas as estimativas saiam furadas e revistas a preto. Até há beleza, como disse um responsável governamental esta semana. A deslocação (nome eufemístico para a emigração) do fator trabalho é vista como normal e até positiva.
Nestes modelos, países, pessoas em territórios, e, nestes, afetividades, culturas e relações sociais não existem. Um País pode desaparecer, e as pessoas deslocarem para o Centro e o Norte da Europa, que a situação é vista como ajustamento e normalidade no modelo de intervenção. Acrescenta-se aqui, normal para os outros, não para si, os decisores, os seus empregos, as suas facilidades, as suas networks e lealdades, e, inclusive, as suas relações com o poder económico e financeiro dominante.»
Francisco Madelino
Se há poucos anos alguém tirasse uma fotografia do seu almoço e enviado automaticamente por telemóvel para 500 pessoas a dizer «Vejam o meu almoço» seria considerado esquisito.
Se há vinte anos alguém ligasse do fixo a dizer a toda a gente o que almoçara seria considerado louco.
Pois, agora, com o FB, já ninguém liga.
A mão no arado
«Feliz aquele que administra sabiamente a tristeza e aprende a reparti-la pelos dias Podem passar os meses e os anos nunca lhe faltará Oh! como é triste envelhecer à porta entretecer nas mãos um coração tardio Oh! como é triste arriscar em humanos regressos o equilíbrio azul das extremas manhãs do verão ao longo do mar transbordante de nós no demorado adeus da nossa condição É triste no jardim a solidão do sol vê-lo desde o rumor e as casas da cidade até uma vaga promessa de rio e a pequenina vida que se concede às unhas Mais triste é termos de nascer e morrer e haver árvores ao fim da rua É triste ir pela vida como quem regressa e entrar humildemente por engano pela morte dentro É triste no outono concluir que era o verão a única estação Passou o solitário vento e não o conhecemos e não soubemos ir até ao fundo da verdura como rios que sabem onde encontrar o mar e com que pontes com que ruas com que gentes com que montes conviver através de palavras de uma água para sempre dita Mas o mais triste é recordar os gestos de amanhã Triste é comprar castanhas depois da tourada entre o fumo e o domingo na tarde de novembro e ter como futuro o asfalto e muita gente e atrás a vida sem nenhuma infância revendo tuido isto algum tempo depois A tarde morre pelos dias fora É muito triste andar por entre Deus ausente Mas, ó poeta, administra a tristeza sabiamente.» Ruy Belo
domingo, maio 12, 2013
sábado, maio 11, 2013
Se és noctívago, se tens predisposição orgânica para deitar tarde e acordar tarde, se o teu cérebro e corpo mais ágeis com a quietude da noite - tens de te adaptar.
Se não tens paciência para estudar fiscalidade e se não tens manha para querer aproveitar todos os buracos do sistema - vais perder bastante dinheiro.
Se não tens nem aptidão nem apetência pela linguagem dos computadores, serás muito penalizado.
Se tens um espírito renascentista, se te elevam as coisas do espírito, nasceste na época errada - para o produtivismo, só interessa o conhecimento que produz técnica.
Se tens o cabelo azul, há uma série de trabalhos que te são vedados.
Se gostas de te vestires com identidade, cuidado - vê se coincide com a indumentária do teu ofício.
Se és honesto, generoso - aceita o prejuízo no mercado de trabalho ou então não pagues o preço e quebra a integridade e os espelhos.
Mas lembra-te: a força de trabalho é a única coisa que tens para vender (ou então vive de algo que te caiu ao colo ou da exploração do trabalho alheio). Ela é a única forma de sustentares as necessidades artificias criadas pelo sistema e as necessidades incriadas. Não tens hipótese.
quinta-feira, maio 09, 2013
- Depois de aturado estudo e muito bater com a cabeça, conheço apenas três regras em relação ao sexo feminino. 1. O desprezo é afrodisíaco. 2. Gajas atraem gajas. Quanto mais tens, mais fácil é teres outras. E versa-vice. 3. Nenhuma regra se aplica a todas e nem a mesma regra se aplica sempre à mesma - nem mesmo ao longo da mesma semana.
Olhamos as linhas do corpo, mas somos capazes também de ler nas entrelinhas
Luana Piovani leu a crônica da semana passada, um carinho sobre as mulheres que estão fora do padrão da beleza em cartaz. Não gostou. Criticou a sugestão do colunista para que o programa “Superbonita”, do qual é apresentadora, fizesse, na contramão do poema “Receita de Mulher”, de Vinicius de Moraes — aquele da beleza é fundamental —, um especial pacificador sobre a bobagem de se reprimir uns centímetros a mais nos culotes e outras aflições daquelas que o mundo tacha como feias. Luana Piovani respondeu pelo seu tambor preferido, o twitter:
“Sugestão declinada. Teremos sim programa para como se livrar deles. Precisamos de audiência e ninguém vai assistir a um pgm que incentive a inércia no duvidoso. Incentivamos a sua melhor versão. Todos temos! Agora, você me diz onde estão esses homens que curtem bunda mole com furinhos, a testa giga, barriguinha e cabelos crespos polvorosos pq no planeta q moro, homem tá mais vaidoso q a gente.”
Daí que peço licença aos leitores para hoje escrever diretamente a Luana, uma das mais completas e perfeitas traduções em 2013 do poema de Vinicius.
Querida Luana,
A versão mais bonita de uma mulher é aquela que aprendemos a admirar e, se me permite a simplicidade de incorporar a linguagem twitter, ter tesão. Vamos colocar a língua para fora e deixar escapulir o Einstein que nos habita. Esse negócio de “bunda mole” é muito relativo. Eu conheci uma moça que poderia ser enquadrada nessa categoria e, no entanto, noves fora a suposta flacidez, era linda. Ela se movimentava como uma dessas garças que o Vinicius fazia pairar sobre as árvores de suas poesias, um pescoço de dois metros, e aquilo era um espetáculo de soberba tão deslumbrante que só agora, Luana, provocado por suas palavras, percebo que talvez ela pudesse estar nessa categoria calipígia que você desdenha como um downgrade. No entanto, tal moça tinha borogodó. A soma do quadrado dos seus catetos dava o quadrado de uma hipotenusa fantástica. Fomos felizes assim. Eu estive ali, pertinho, e longe de qualquer acidez crítica, era-lhe só reverência e vassalagem.
De homem eu entendo, Luana, e não sou bobo de desdenhar da carne dura, da pele macia, da bunda desenhada a compasso e outros clássicos da mulher bonita. Mas nem sempre é possível tamanha poesia numa hora dessas. Tenho certeza que havia dois Vinicius de Moraes. Um sentava à escrivaninha, no tempo da caneta tinteiro, e escrevia sobre a necessidade de que os seios tivessem “uma expressão greco-romana, mas que gótica ou barroca” e pudessem “iluminar o escuro com uma capacidade mínima de cinco velas”. Outro Vinicius andava pelas ruas. Seguia as mulheres com os olhos, súdito servil em lhes encontrar outros tipos de graça. Era capaz de, diante de alguma de seios de expressão divertidamente cubista, pedir o favor de que lhe caíssem nas mãos, róseos, plúmbeos, da cor do azeviche ou do maracujá, e fizessem o favor apenas de apagar a dor, aquietar o espírito e pôr ordem na correria insana de uma vida de resto sem sentido.
Definitivamente, Luana, vida real é outra coisa. Não cabe na pauta do ótimo “Superbonita”. Ninguém precisa ser super em nada. Assim como você, também acredito que todos temos a nossa melhor versão e precisamos incentivá-la, mas o que se vê em geral é a tentativa de obrigar todas as mulheres ao mesmo padrão. Fazê-las correr obrigatoriamente atrás do cabelo chapinhado, das pernas musculosas e dos peitos com a centimetragem de uma bomba que vai daqui até o pé da página, mas apontando para o alto, claro, prestes a estourar nos olhos do freguês. Há quem dê preferência, mas existem homens com desejos mais sutis. Eu, a propósito, sou das antigas, e aproveito o ensejo para cantar Noel, aquele do “há tantas santas no mundo, que vivem fora do templo, santas de olhar tão profundo, você, por exemplo, você, por exemplo”.
Nada contra a mulher bonita. Desde a primeira que eu vi, aquela com dois baldinhos na lata do Leite Moça, eu dedico boa parte do meu tempo a trazê-las para dentro das minhas retinas, jamais fatigadas com tamanho espetáculo. Eu só queria dizer, Luana, que homens têm um padrão mais elástico do que o recomendado na pauta do programa. Podemos, sim, curtir uma “barriguinha, a testa giga” e outras delícias a serem declaradas no próximo programa como esteticamente incorretas. Mulheres são desdobráveis, dizia a linda poeta Adélia Prado, e eu, mundano, já que a nossa pauta é outra, completo — elas são capazes de se redesenharem com um jeito de falar, uma maneira de silenciar ou uma promessa de queima de fogos ao se oferecer. Olhamos as linhas do corpo, mas somos capazes também de ler nas entrelinhas. Temos a força, como quer o desenho animado, mas ainda a espada da fantasia, a poesia da imaginação.
Qual de nós, diante daquele sorriso maliciosamente desengonçado, pediria, antes de se apaixonar, para avaliar, se duro ou com estrias, o bumbum da Diane Keaton?
«Se o mundo vos aborrece, sabei que antes de vós me aborreceu a mim» Jesus Cristo
Os cátaros (do grego «puros», uma heresia (uma questão de ângulo de visão, porque para eles o superlativo herege era o Papa) dos séculos XII [versaletes] e XIII [versaletes], tinham um pensamento original (o pensamento original sempre me leva a estudá-lo). A realidade era dual. A espiritual, divina, celestial, e a do mundo, maligna. Como o mundo era a parte negativa (mais bem dito: o Inferno era na Terra), defendiam o suicídio, o aborto, a igualdade entre homens e mulheres, eram contra a procriação (a homossexualidade era um bem), contra os direitos de propriedade, contra os espelhos - reprodutores e alimentadores da ilusão. Desprezavam o corpo, a matéria, em favor do etéreo e espiritual. O mundo era um lugar pouco recomendável. Convinha ascender ao plano superior. Eram coerentes. Algo que poderia ter encantado libertinos é que defendiam que nos banhássemos na mais extrema luxúria para que a rejeitássemos e valorizássemos o espírito - todo o extremo conduz à porta de saída. Acabaram na fogueira.
Mas ó tu, terra de Glória,
Se eu nunca vi tua essência,
Como me lembras na ausência?
Não me lembras na memória,
Senão na reminiscência.
Que a alma é tábua rasa
Que, com a escrita doutrina
Celeste, tanto imagina,
Que voa da própria casa
E sobe à pátria divina.
Não é logo a saudade
Das terras onde nasceu
A carne, mas é do Céu,
Daquela santa Cidade
Donde esta alma descendeu.
[...]
E tu, ó carne que encantas,
Filha de Babel tão feia,
Toda de misérias cheia,
Que mil vezes te levantas
Contra quem te senhoreia,
Beato só pode ser
Quem co'a ajuda celeste
Contra ti prevalecer,
E te vier a fazer
O mal que lhe tu fizeste;
Quem com disciplina crua
Se fere mais que ua vez,
Cuja alma, de vícios nua,
Faz nódoas na carne sua,
Que já a carne na alma fez.
E beato quem tomar
Seus pensamentos recentes
E em nascendo os afogar,
Por não virem a parar
Em vícios graves e urgentes;
Quem com eles logo der
Na pedra do furor santo
E, batendo, os desfizer
Na Pedra, que veio a ser,
Enfim, cabeça do Canto;
Quem logo, quando imagina
Nos vícios da carne má,
Os pensamentos declina
Àquela carne divina
Que na Cruz esteve já;
Quem do vil contentamento
Cá deste mundo visível,
Quanto ao homem for possível,
Passar logo o entendimento
Pera o mundo inteligível.
Ali achará alegria
Em tudo perfeita e cheia
De tão suave harmonia,
Que nem, por pouca, escasseia,
Nem, por sobeja, enfastia.
Ali verá tão profundo
Mistério na suma Alteza,
Que, vencida a Natureza,
Os mores faustos do Mundo
Julgue por maior baixeza.
Ó tu, divino aposento,
Minha pátria singular,
Se só com te imaginar
Tanto sobe o entendimento,
Que fará, se em ti se achar?
Ditoso quem se partir
Pera ti, terra excelente,
Tão justo e tão penitente,
Que depois de a ti subir,
Lá descanse eternamente!
quarta-feira, maio 08, 2013
Sobre o Inferno III
Há três formas de lidar com o Inferno.
1. Pensar que é passageiro. Olhar para trás - ver todos os medos que não se concretizaram, todas as ansiedades que redundaram em coisa nenhuma, todo o desespero que julgavas perene e foi transitório. Tudo passou porque tudo passa e tudo passará.
2. Lembrar-te de que há quem estejas em círculos de fogo abaixo do teu. É certo, sabido e experimentado que grandes males curam males.
3. Após uma comichão, o alívio. Após o Inferno, a leveza. Depois de saíres do Inferno, perdes o medo, saboreias loucamente a vida, cada pequeno pormenor dissolve arestas e ganha textura de seda.
they say that hell is crowded, yet,/
when you’re in hell,/
you always seem to be alone./
& you can’t tell anyone when you’re in hell/
or they’ll think you’re crazy/
& being crazy is being in hell/
& being sane is hellish too./
those who escape hell, however,/
never talk about it/
& nothing much bothers them after that./
I mean, things like missing a meal,/
going to jail, wrecking your car,/
or even the idea of death itself./
when you ask them,/
“how are things?”/
they’ll always answer, “fine, just fine…”/
once you’ve been to hell and back,/
that’s enough/
it’s the greatest satisfaction known to man./
once you’ve been to hell and back,/
you don’t look behind you when the floor creaks/
and the sun is always up at midnight/
and things like the eyes of mice/
or an abandoned tire in a vancant lot/
can make you smile/
once you’ve been to hell and back.
Sobre o Inferno II
Só um Inferno não é suportável: o Inferno em que não habita a esperança. Nele, futuro e presente fundem-se - o horror é então um presente perpétuo. Nem ao teu pior inimigo o desejarias.
domingo, maio 05, 2013
sábado, maio 04, 2013
Do real
O prédio tem porteira há uma dezena de anos. A senhora ucraniana é estimada pessoal e profissionalmente pelos moradores. Tem uma filha que estuda (aluna brilhante) e trabalha dezasseis horas por dia e se dedica ao estudo da língua portuguesa com uma amiga ucraniana. No sentido de poupar (palavra sacrossanta), no sentido de aquele prédio de classe média alta ganhar uns troquinhos por mês, mandaram a porteira embora. Bem sei que em tempos de austeridade a qualidade dos serviços é preterida em favor do racionamento de custos (por experiência, sei que hoje o tradutor que consegue trabalho não é o que traduz melhor, mas o que cobra menos). Mas o que mais me choca é que o humanismo se perde. Nesta decisão, como em muitas a que tenho assistido, vemos a dissolução dos laços sociais. O custo «imaterial» do desemprego da senhora, as dificuldades da filha, a ligação emocional - não foram pesadas, não entraram na balança. O mundo está feio.
quinta-feira, maio 02, 2013
O cheiro da pobreza
O objeto que representa a civilização e o progresso não é o livro, o telefone, a Internet
ou a bomba atômica. É a privada
por Mario Vargas Llosa
Há três anos, durante uma viagem de Lima a Ayacucho por terra, fizemos uma escala
no meio de uma chapada na cordilheira, numa aldeia onde havia um pequeno posto
policial. Pedi licença ao chefe para usar o banheiro. "À vontade, doutor", disse ele
gentilmente. "O senhor quer urinar ou defecar?". Respondi que a primeira alternativa.
Sua curiosidade era acadêmica, porque o "banheiro" do posto era um cercado exposto à
intempérie onde urina e fezes se confundiam em meio a nuvens de moscas e um fedor
estonteante.
A lembrança dessa cena me perseguiu sem trégua enquanto, às vezes tapando o nariz, eu
folheava as 422 páginas de um relatório, recentemente publicado pelas Nações Unidas,
intitulado A água para além da escassez: poder, pobreza e a crise mundial da água. A
prudência do título e a frieza e neutralidade de sua redação burocrática não impedem
que esse extraordinário estudo, sem dúvida inspirado na sábia concepção de economia
e progresso de Amartya Sen - um economista que não acredita que o progresso se
resuma a estatísticas -, estremeça o leitor, ao confrontá-lo com rigor cruel à realidade
da pobreza e seus horrores no mundo em que vivemos. A pesquisa realizada por Kevin
Watkins e sua equipe deveria ser consulta obrigatória para todos os que queiram saber o
que significa - na prática - o subdesenvolvimento econômico, a marginalização social e
o fosso que separa as sociedades que os padecem daquelas que já atingiram um nível de
vida alto ou médio.
A primeira conclusão dessa leitura é que o objeto que representa a civilização e o
progresso não é o livro, o telefone, a Internet ou a bomba atômica, e sim a privada.
Onde os seres humanos esvaziam a bexiga e os intestinos é determinante para saber se
ainda estão mergulhados na barbárie do subdesenvolvimento, ou se já começaram a
progredir. As conseqüências desse fato simples e transcendental na vida das pessoas são
vertiginosas. No mínimo um terço da população do planeta - uns 2,6 bilhões de pessoas
- não sabe o que é um sanitário, uma latrina, uma fossa séptica, e faz suas necessidades
como os animais, no mato, à beira de córregos e mananciais, ou em sacolas e latas que
são jogados no meio da rua. E mais ou menos 1 bilhão utiliza águas contaminadas por
fezes humanas e animais para beber, cozinhar, lavar a roupa e fazer a higiene pessoal.
Isso faz com que pelo menos 2 milhões de crianças morram, a cada ano, vítimas de
diarréia. E que doenças infecciosas como cólera, tifo e parasitoses, causadas pelo que
o relatório chama eufemisticamente de "falta de acesso ao saneamento", provoquem
enormes devastações na África, na Ásia e na América Latina, constituindo a segunda
causa de mortalidade infantil no mundo.
Num importante bairro de Nairóbi, no Quênia, chamado Kibera, é generalizado o
sistema das chamadas "privadas voadoras", sacolas de plástico em que as pessoas
fazem suas necessidades para em seguida atirá-las na rua (daí o nome). A prática eleva
as doenças infecciosas no bairro a níveis altíssimos. E os principais atingidos são as
crianças e as mulheres. Por quê? Porque cabe a elas cuidar da limpeza doméstica e do
transporte da água, e com isso se expõem mais ao contágio do que os homens.
Em Dharavi, uma zona populosa de Mumbai, na Índia, há um único banheiro para cada
1.440 pessoas, e na estação das chuvas as enxurradas transformam as ruas da cidade em
rios de excrementos. A fartura de água é, nesse caso, como no de muitas outras cidades
do terceiro mundo, uma tragédia: as condições de existência fazem com que a água, em
vez de vida, seja muitas vezes instrumento de doença e morte.
Paradoxalmente, a questão da água, indissociável da do saneamento, é talvez o principal
problema que mantém homens e mulheres prisioneiros do subdesenvolvimento. Os
dados do relatório são concludentes. Quando os pobres têm acesso à água, trata-se em
geral de águas com todo tipo de bactérias, de males que os contaminam e matam. Mas,
na maioria dos casos, a pobreza condena as pessoas a uma seca ainda mais catastrófica
para a saúde e para as possibilidades de melhorar as condições de vida. Uma das
conclusões mais chocantes da pesquisa é de que os pobres pagam muito mais caro pela
água do que os ricos, justamente porque os povoados e bairros onde eles vivem carecem
de instalações de abastecimento e descarga, o que os obriga a comprá-la de fornecedores
comerciais, a preços exorbitantes.
Assim, os habitantes dos bairros pobres de Jacarta (Indonésia), Manila (Filipinas) e
Nairóbi (Quênia) "pagam 5 a 10 vezes mais por unidade de água do que as pessoas
que vivem nas zonas de elevado rendimento das suas próprias cidades - e mais do que
pagam os consumidores em Londres ou Nova York". Esse preço desigual faz com que
os 20% de famílias mais pobres de El Salvador, Jamaica e Nicarágua invistam um
quinto de seus rendimentos em água, ao passo que no Reino Unido o gasto médio dos
cidadãos com a água representa apenas 3% de sua renda.
Não resisto a citar essa estatística do relatório: "Quando um europeu puxa uma
descarga, ou quando um americano toma banho, utiliza mais água do que a disponível
para centenas de milhões de indivíduos que vivem em bairros degradados ou zonas
áridas do mundo em desenvolvimento". E também a estimativa de que, com a água
poupada caso os "civilizados" fechássemos a torneira enquanto escovamos os dentes,
um continente inteiro de "bárbaros" poderia tomar banho.
À primeira vista, não parece haver muita relação entre a falta de água e a educação das
meninas. E, no entanto, ela existe e é estreita. O relatório calcula que 443 milhões de
dias letivos são perdidos a cada ano por causa de doenças ligadas à água, e que milhões
de meninas faltam à escola e recebem uma educação deficiente ou nula, e em todo caso
inferior à dos meninos, por terem que buscar água diariamente em açudes, rios e poços
que, muitas vezes, ficam a horas de caminhada.
Em "Os miseráveis", Victor Hugo escreveu que "os esgotos são a consciência da
cidade". Numa dessas digressões do narrador que pontuam o romance, enquanto
Jean Valjean chapinhava na merda com o desmaiado Marius às costas, arriscou uma
curiosa interpretação da história a partir do excremento humano. O formidável estudo
da ONU faz coisa parecida, sem a poesia nem a eloqüência do grande romântico
francês, mas com muito mais conhecimento científico. Propondo-se a apenas descrever
as circunstâncias e conseqüências de um problema concreto que atinge um terço da
humanidade, o relatório radiografa com dramática precisão o extraordinário privilégio
de que os outros dois terços desfrutamos toda vez que, quase sem perceber, abrimos
uma torneira para lavar as mãos ou o chuveiro para receber esse jato de água fresca
que nos limpa e revigora, ou quando, impelidos por uma dor de barriga, sentamos na
intimidade do banheiro, aliviamos as entranhas e, distraídos, limpamos com um pedaço
de papel higiênico todos os rastros dessa cerimônia, para em seguida puxar a descarga
e sentir, no turbilhão do vaso, nossa sujeira recôndita sumir nas entranhas dos esgotos,
longe, longe de nossa vida e nosso olfato, para o bem da própria saúde e bom gosto.
Como é infinitamente diversa a experiência desses bilhões de seres humanos que
nascem, vivem e morrem literalmente sufocados pela própria imundície, sem conseguir
arrancá-la de suas vidas, pois, visível ou invisível, a sujeira fecal que expulsam volta
para eles como uma maldição divina, na comida que comem, na água em que se lavam e
até no ar que respiram, causando-lhes doenças e mantendo-os no limite da subsistência,
sem chance de escapar dessa prisão na qual mal sobrevivem.
Um dos aspectos mais sombrios da questão é que, em grande parte por causa do nojo
e da repulsa que os seres humanos sentimos por tudo o que tem a ver com a merda,
os governos e organismos internacionais de promoção do desenvolvimento não
costumam dar a ela a devida prioridade. Geralmente a subestimam, e dedicam recursos
insignificantes a projetos de saneamento. A verdade é que viver em meio à sujeira é
nefasto não apenas para o corpo mas também para o espírito, para a mais elementar
auto-estima, para o ânimo que permite erguer a cabeça contra o infortúnio e manter viva
a esperança, motor de todo progresso. "Nascemos entre fezes e urina", escreveu Santo
Agostinho. Um calafrio deveria subir por nossas costas como uma cobra de gelo ao
pensarmos que um terço de nossos contemporâneos nunca acaba de sair da imundície
em que veio a este vale de lágrimas.
De ora em diante, entendo que todos deveríamos escrever o «Presidente da República» entre aspas
«Um discurso
por BAPTISTA BASTOS
Um alarido inusitado, por injustificável, envolveu o discurso do dr. Cavaco nas cerimónias oficiais do 25 de Abril. No Parlamento a coisa foi pífia, nas ruas a festa assumiu o carácter do protesto contra o que estamos a viver. Ouvi e li o que disse o dr. Cavaco e não fiquei nem surpreendido nem chocado. É a criatura que há, o Presidente que se arranja, irremissível e sombrio. Medíocre, ressentido, mau-carácter, incapaz de compreender a natureza e a magnitude histórica da revolução. E sempre agiu e se comportou consoante a estreita concepção de mundo com que foi educado. A defesa da direita mais estratificada está-lhe no sangue e na alma, além de manter, redondo e inamovível, um verdete avassalador pela cultura. O possidonismo da sua estrutura comportamental pode ser aferido naquela cena irremediável, em que, de mão dada com a família, sobe a rampa que conduz ao Pátio dos Bichos, no Palácio de Belém, quando venceu as presidenciais.
O homem confunde Thomas Mann com Thomas More; ignora que Os Lusíadas são compostos por dez cantos; omite o nome de José Saramago, por torpe vingança, na recente viagem à Colômbia, enquanto o Presidente deste país nomeou o Nobel português com satisfação e realce; não se lhe conhece o mais módico interesse pela leitura; e, quando primeiro-ministro, recusou à viúva de Salgueiro Maia uma pensão, que, jubiloso e feliz, atribuiu a antigos torcionários da PIDE. Conhece-se a arteirice com a qual acabrunhou Fernando Nogueira, seu afeiçoado; a inventona das escutas em Belém, montada por um assessor insalubre e por um jornalista leviano; a confusa alcavala com o BPN, com a qual auferiu uns milhares de euros; contrariou uma tradição, por ódio e rancor (sempre o ódio e o rancor), e não condecorou José Sócrates, quando este saiu de primeiro-ministro. É uma criatura sem amigos; dispõe, apenas, de instantes de amizade interesseira. Nada mais.
O discurso que tem suscitado tanta brotoeja é o seu normal. Tão mal escrito quanto os outros; desprovido de conteúdo racional, emocional e ético; e um atropelo às mais elementares normas de sensatez e equilíbrio exigíveis a quem desempenha aquelas nobres funções. Espanto e indignação porquê e para quê?, se ele não tem emenda nem berço que o recomende.
Mas as coisas, ultimamente, têm atingido proporções inquietantes. A ida a Belém do primeiro-ministro e do ministro das Finanças perturbou o senhor. Parece julgar-se a rainha de Inglaterra, considerando o papel superior a que a si mesmo se atribui. A soberba dele sobe de tom, admitindo alguns de nós e muitos de entre eles que pode haver indícios de oligofrenia, doença incurável. "Eu bem avisei! Eu bem avisei!", costuma agora dizer, como uma tenebrosa ameaça. No núcleo estrutural deste homem emerge a complexidade indecisa de uma alma juvenil irresolvida - e, por isso mesmo, extremamente perigosa.»
«A fadiga presidencial
por MANUEL MARIA CARRILHOHoje23 comentários
A crise tende a multiplicar os impasses, os impasses tendem a aprofundar a crise. Assim se adensa, tanto na vida das pessoas como na das nações, o carrossel de todos os dramas. E o pior que nestas situações pode acontecer é ficar-se preso na teia do que Gregory Batteson designou uma vez como o "double bind".
Trata-se de um dilema que coloca uma pessoa ou uma comunidade perante mensagens ou exigências conflituantes, de tal modo que bloqueia qualquer saída, dando origem a comportamentos paradoxais. É o que acontece quando um professor diz a um aluno "para não ser tão obediente" - ele deve obedecer-lhe desobedecendo ou desobedecer-lhe obedecendo?
Aníbal Cavaco Silva já tinha revelado tendência para a criação deste tipo de situações paradoxísticas, colocando frequentemente os portugueses perante dilemas semelhantes, ao declinar variações discursivas que consistem em acentuar vivamente uma perspetiva para, logo depois, apontar no sentido oposto.
Foi assim que, depois de denunciar com vigor a espiral recessiva que ameaçava o País, veio defender sem equívocos a política que a provocou e os protagonistas que a incentivaram. Que, depois de denunciar a incompetência da troika, do seu memorando e do seu acompanhamento, veio exigir e aplaudir o seu cego cumprimento. Que, depois de denunciar a desorientação e a inação europeias e os seus custos, veio apelar à submissão aos seus mais contraproducentes ditames...
Que, no dia da comemoração da democracia instaurada no 25 de Abril, veio fazer a apologia da sua inutilidade, aconselhando o País a preparar-se para acolher mais ou menos de joelhos os imperativos do novo poder global, de matriz financeiro-especulativa, que hoje corrói todos os regimes democráticos.
Só faltava mesmo a cereja no bolo: e ela apareceu com a insólita aposta de fazer o País caminhar para o consenso através da intensificação dos antagonismos e em apelar à convergência político-partidária estimulando a desconfiança na democracia!
Este passo é, todos o reconheceram, dificilmente compatível com as funções de representação nacional, de mediação institucional e de pedagogia política que deveria caracterizar o exercício presidencial. Não admira por isso que, com esta espiral paradoxística de Cavaco Silva, o País dê crescentes sinais de um novo tipo de fadiga, a fadiga presidencial...
É que há, no bizarro apelo ao consenso do Presidente da República, dois problemas: um de timing e outro de conceito. O de timing remete-nos para o ano de 2009, e para a incompreensão da gravidade da crise que era já então uma evidência, e que devia ter dado lugar a um pedagógico esforço de abertura e de realismo.
A situação deveria ter levado o Presidente da República a procurar então uma solução governamental maioritária, dado que um governo minoritário vive quase sempre num registo de preocupação diária com a sua sobrevivência, o que o torna necessariamente débil e fugaz, como mais uma vez se viu!...O Presidente da República deixou passar a oportunidade, como depois deixaria passar outras...
O que nos leva ao segundo ponto, o do conceito. O consenso remete sempre ora para uma identidade de valores ora para um acordo de objetivos. Mas nem num caso nem no outro se trata de dados adquiridos ou inequívocos, sobretudo numa comunidade em crise, como hoje acontece.
É justamente por isso que o consenso exige uma magistratura presidencial extremamente trabalhosa e exigente do ponto de vista da comunicação e da pedagogia . Eleito por sufrágio direto dos portugueses, autónomo em relação aos partidos, livre das pressões do curto prazo e do imediato, é dele que se espera uma atenção ao essencial que permita criar os laços e estabelecer as relações que as políticas partidárias hoje dificilmente conseguem tecer.
Para o fazer não basta, todavia, jurar a constituição perante o Parlamento. Exige-se mais, requere--se um desígnio, uma visão, um sinal que atraia e focalize a hoje tão disputada atenção dos cidadãos. Exige-se proximidade, afeto, cumplicidade, conversa - o contrário do estilo mestre-escola, em que Cavaco Silva se especializou.
É onde Cavaco Silva mais tem falhado. A sua reação à generalizada crítica que o seu discurso do 25 de Abril suscitou diz realmente tudo: " depois não digam que eu não avisei!", comentou. Na verdade, o seu magistério foi sempre estritamente funcional, burocrático, minimalista, no limite vertiginosamente apolítico!...Uma im- prudência porque, como a política tem horror ao vazio, mais tarde ou mais cedo os acontecimentos tinham de o colocar de novo na arena político-partidária. Foi o que aconteceu com o discurso do 25 de Abril.
Cavaco Silva não só falhou o alvo do seu apelo ao consenso, como perdeu o "momentum" em que o podia fazer com autoridade e eficácia. Resta-lhe agora, aos olhos dos portugueses, vacilar - para usar os termos do filósofo Jean-François Lyotard - entre o litígio e o diferendo: enquanto o primeiro pode ficar pela discordância mais ou menos acentuada, já o segundo conduz ao conflito e à guerra. O tempo o dirá.»
terça-feira, abril 30, 2013
In the Paris Métro, Even Dead Legends Can't Smoke
By Bruce Crumley / Paris Thursday, Apr. 23, 2009
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GUILLAUME CLEMENT / AFP / GETTY
A woman looks at the poster of the movie Coco avant Chanel on April 21, 2009 in Paris.
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Even before France's 2007 ban on lighting up in public areas, smokers had been declared persona non grata in Paris' Métro stations, where they risk hefty fines if they venture the merest puff. Now, however, even people who support France's crackdown on smoking feel things may have gone too far. This week, the Métro refused to run posters advertising the new Coco Chanel biopic Coco, Before Chanel, which stars Amélie's Audrey Tautou, saying the photo that depicts the fashion legend with her trademark cigarette violates anti-smoking laws.
Whether it's "tobacco revisionism," as critics contend, or political correctness à la française, things have just gotten tougher for smokers in France — including those who've long kicked the habit in death. Métrobus, the company that handles display advertising for the Paris Métro and SNCF rail company, says it was obliged to refuse a poster for Coco, Before Chanel because it violates a 1991 law "prohibiting all direct or indirect advertising" for tobacco or alcohol in most public venues. Under that ban, Métrobus reasoned that the poster's shot of a pyjama-clad Tautou holding a flaming ciggie aloft in a typical pose of the real Chanel could be interpreted as an encouragement to light up. It's not like anyone in France ever needed much prodding to do that. But Métrobus decided to play it safe, and asked Coco's studio, Warner Bros., to airbrush the cigarette out or lose the ad. (See pictures of old tobacco ads.)
Warner Bros. opted for the latter — sort of. It replaced the 1,100 posters in its Métro campaign with alternative ones showing Tautou as Chanel sans tabac. The original ads won't go to waste — they have been deployed as planned beyond the confines of the Métro. But in refusing to alter its depiction of Chanel wielding one of her beloved cigarettes, Warner Bros. rejected a revisionist compromise that others have been forced to make.
Earlier this month, the Cinématheque Français in Paris was ordered by Métrobus to remove or mask another purported subliminal call to start smoking: legendary filmmaker Jacques Tati's equally legendary pipe. The Cinématheque's ad for its Tati exhibition uses a shot from the 1958 film My Uncle, featuring the filmmaker in his iconic pose: riding a Solex, decked out in felt hat and overcoat, signature pipe clenched between his teeth. Forced by Métrobus — and, claims the company, France's advertising law — to do something about the illicit pipe, the Cinématheque decided not to airbrush it out, but instead drew a yellow propeller over the bowl to turn it into a child's pinwheel.
In doing so, the Cinématheque explained in a statement, it "ensured that the law is respected and that, above all, everyone realizes the absurdity of this substitution." Cinématheque officials aren't alone in their annoyance. Unions representing French film directors and critics issued a joint denunciation of what they called "unbearable revisionism" behind the moves and "censorship" of the beloved Tati's much-adored pipe.
Similarly, Socialist politician Claude Evin — the former health minister who authored the 1991 law behind the current rumpus — lamented the "ridiculous" efforts to erase signs of the very real smoking habits Tati and Chanel had in their lifetimes. Asked by reporters if she supported Métrobus' application of the law, current Health Minister Roselyne Bachelot replied in alarm, "Ah non, I'm not for taking Jacques Tati's pipe away from him!"
But Chanel and Tati aren't the first historical figures with (in)famous smoking addictions to have their cigarettes posthumously confiscated. In 1996, for example, France's postal service issued a stamp of French culture and political icon André Malraux using a well-known photo of him — though only after the smoldering butt visible in his hand in the original had been removed.
And in 2005, France's National Library used a celebrated shot of Jean-Paul Sartre to advertise its "Controversies" exhibit, but first airbrushed the ubiquitous clope from between his tobacco-stained fingers. In the end, the altered picture wound up joining the other controversial photos in the exhibition, after detractors noted the irony of the library's effort to erase that ever-present existential detail from the philosopher's life.
Despite the gnashing of teeth all this tampering has prompted, the debate is sure to continue. After all, British director Guy Ritchie will presumably have to feature a pipe in ads for his upcoming movie about Sherlock Holmes, due out in France next year. And promising to be even more inflammatory, marketing will soon start on French director Joann Sfar's film about late French signer Serge Gainsbourg, a pop hero whose bad boy image was built on lavish public displays of tobacco and alcohol abuse. Good luck banning that.
Read about French culture.
Read more: http://www.time.com/time/world/article/0,8599,1893382,00.html#ixzz2RxDviWTJ
segunda-feira, abril 29, 2013
«Os livros fazem fazer coisas. Divórcios, poemas. O amor também. Ele gosta de livros. Ela gosta dele. Oferece-lhe livros. Ele lê os livros que ela lhe oferece deitado no lado esquerdo da cama. Ela não lê, antes medita: Para que lado se deita o amor? Por qual narina respira melhor? Ela levanta-se do lado direito da cama e veste o robe de seda púrpura. Prepara-se para o afecto. Ele continua a ler: prefere a carne e o odor forte de certas frases. Adormece com o livro aberto a fazer o cume do coração. Com a página 63. Ela destapa-lhe o coração, lê uma frase aleatória. Rasga, amarfanha, mastiga, engole. Despe o robe de seda púrpura e veste o pijama com o cheiro a vésperas. Algodão impregnado de monotonia. Os livros fazem fazer coisas. Divórcios, poemas. O amor também.»
Sandro William Junqueira
domingo, abril 28, 2013
sexta-feira, abril 26, 2013
ATHLETICS »
Honesty of the long-distance runner
Vitoria-based athlete Iván Fernández Anaya refused to take advantage when his rival stopped short of the finishing line in a cross-country race
CARLOS ARRIBAS / EL PAÍS Madrid 19 DIC 2012 - 21:29 CET
Fernández Anaya helps Mutai toward the line. / CALLEJA (DIARIO DE NAVARRA)
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Is winning all that counts? Are you absolutely sure about that?
Two weeks ago, on December 2, Spanish athlete Iván Fernández Anaya was competing in a cross-country race in Burlada, Navarre. He was running second, some distance behind race leader Abel Mutai - bronze medalist in the 3,000-meter steeplechase at the London Olympics. As they entered the finishing straight, he saw the Kenyan runner - the certain winner of the race - mistakenly pull up about 10 meters before the finish, thinking he had already crossed the line.
Fernández Anaya quickly caught up with him, but instead of exploiting Mutai's mistake to speed past and claim an unlikely victory, he stayed behind and, using gestures, guided the Kenyan to the line and let him cross first.
He was the rightful winner. He created a gap that I couldn't have closed"
"I didn't deserve to win it," says 24-year-old Fernández Anaya. "I did what I had to do. He was the rightful winner. He created a gap that I couldn't have closed if he hadn't made a mistake. As soon as I saw he was stopping, I knew I wasn't going to pass him."
Fernández Anaya is coached in Vitoria by former Spanish distance runner Martín Fiz in the same place, the Prado Park, where he clocked up kilometers and kilometers of training to become European marathon champion in 1994 and world marathon champion in 1995.
"It was a very good gesture of honesty," says Fiz. "A gesture of the kind that isn't made any more. Or rather, of the kind that has never been made. A gesture that I myself wouldn't have made. I certainly would have taken advantage of it to win."
I wouldn´t have done it. I would have taken advantage of the mistake to win"
Fiz says his pupil's action does him credit in human if not athletic terms. "The gesture has made him a better person but not a better athlete. He has wasted an occasion. Winning always makes you more of an athlete. You have to go out to win."
Fiz recalls that at the 1997 World Championships in Athens he was followed by his countryman Abel Antón the whole way. In the final meters Antón attacked and easily won the race, having exploited all Fiz's hard work. "I knew that was going to happen. [...] But competition is like that. It wouldn't have been logical for Antón to let me win."
Fernández Anaya trains in the Prado every day, putting in double sessions three times a week - when his vocational studies allow. Experts say he is one step away from entering the elite of Spanish cross-country running. His goal this year is to at least make the Spanish team for the world cross-country champions.
But according to his coach, the pressure gets to him. "He doesn't know how to overcome the pressure, which is what differentiates champions. If he did, he would have been at the recent European championships," Fiz notes.
"In the Burlada cross-country race there was hardly anything at stake [...] apart from being able to say that you had beaten an Olympic medalist," says Fernández Anaya.
"But even if they had told me that winning would have earned me a place in the Spanish team for the European championships, I wouldn't have done it either. Of course it would be another thing if there was a world or European medal at stake. Then, I think that, yes, I would have exploited it to win... But I also think that I have earned more of a name having done what I did than if I had won. And that is very important, because today, with the way things are in all circles, in soccer, in society, in politics, where it seems anything goes, a gesture of honesty goes down well."
Alemanha: "In" ou "Out"?
por MANUEL MARIA CARRILHOOntem55 comentários
O 25 de Abril de que hoje precisamos é europeu. Não porque não haja muito a fazer por cá, mas porque a mudança que agora se impõe como decisiva para que se consiga sair da crise em que estamos atolados é europeia.
Temos que nos concentrar no essencial. E o essencial é que a crise despoletada pela situação da dívida grega em fins de 2009 foi a ocasião, mas também o pretexto, para se desencadear uma operação de profunda transformação da natureza e dos objetivos da União Europeia e, especialmente, da Zona Euro.
O que é preciso ter bem presente é que o euro e a união monetária não apareceram por acaso ou num lance de pura improvisação política. Não, nasceram de uma tripla expectativa - e de um triplo compromisso - de convergência, de crescimento e de equilíbrio, entre os países que constituíram a Zona Euro.
E sejam quais forem as causas que se entenda que estiveram na origem da "crise do euro", não se podem desligar as responsabilidades apuradas - e elas foram bem mais variadas do que muitas vezes se pretende - do quadro de acompanhamento e de solidariedade institucional que permanentemente as enquadrou durante toda uma década.
Foi contudo isto que infelizmente aconteceu, nos últimos dois anos e meio, sob o impulso alemão, a fraqueza francesa e a generalizada vassalagem dos líderes europeus. Tudo começou com a Grécia, mas agora já ninguém sabe onde, nem como, irá acabar... E o que começou não foi bem o que parecia - pôr em ordem um Sul preguiçoso e gastador -, mas um lance extraordinariamente audaz no sentido de um novo, e inédito, domínio alemão na Europa.
Insisto: o que é preciso entender é que a crise do euro criou a ocasião propícia para a Alemanha alterar a correlação de forças europeia, lançando-se numa nova afirmação como potência na Europa. E de o fazer clandestinamente, com o magnífico álibi de estar a ajudar os outros...
O facto é que, em pouco mais de dois anos, ela conseguiu impor-se e dominar a Zona Euro e a União Europeia como nunca tinha acontecido, pondo fim à igualdade dos Estados, abandonando o espírito de solidariedade entre os povos, marginalizando a Comissão Europeia e ignorando o método comunitário. Da Alemanha europeia passou-se à Europa alemã, tão bem descrita por Ul- rich Beck.
A "solução alemã" impôs-se através de uma forma de política de austeridade que, insinuando amanhãs mais radiosos sempre adiados, tudo submete afinal às exigências e aos imperativos da sua política nacional. Acontece que, dois anos passados, os resultados desta política são catastróficos nos países onde ela foi aplicada, e ameaçam agora muitos outros com uma perigosa contaminação.
O "consenso de Berlim" que tem dominado a Europa ameaça assim conduzir-nos ao colapso, com uma recessão cada vez mais funda (2013 será um segundo ano de recessão na Zona Euro) e um desemprego que atingiu valores intoleráveis, 26 milhões em toda a União Europeia.
Neste momento, depois dos países sob resgate formal e informal, é toda a Zona Euro (e não só...) que começa a vacilar com as consequências desta política, com todas as economias a revelarem preocupantes sinais dos efeitos da contaminação austeritária - com exceção da Alemanha, da Áustria... e pouco mais. Até já Durão Barroso fala, embora sem tirar disso as devidas consequências, nos erros e nos limites das políticas de austeridade... E a Holanda dá sinais de alerta, como acabou de se ver na semana passada, ao adiar sine die as medidas de austeridade previstas, em nome da confiança e do crescimento.
Compreendem-se assim bem as polémicas afirmações feitas há dias por George Soros num texto publicado no Syndicate Project, e depois retomadas em entrevista ao El País. Ele chamou a atenção para o essencial, que é o modo como o projeto europeu tem sido estropiado em claro benefício da Alemanha.
A solução da crise europeia passa pois por, de um modo muito claro, se colocar a questão de saber quem é que manda na Europa, e nomeadamente na Zona Euro: se é a Alemanha, mais ou menos a solo, ou se é a maioria do conjunto de países que a constituem. E muito concretamente em saber se esta maioria continua a caucionar a atual linha austeritária, ou se ela pretende retomar e afirmar o espírito e os compromissos que estiveram na sua origem.
Queremos uma Europa de Estados com soberania partilhada ou uma Europa de vassalos de uma potência hegemónica? - é esta a questão. E ela é cada vez mais incontornável e decisiva, é dela que depende o futuro da Europa. E este debate devia fazer-se imediatamente na Cimeira do Euro, entidade que reúne os líderes dos países da Zona Euro, e que foi criada no Último Conselho Europeu.
Se o atual consenso de Berlim só serve, na verdade, à Alemanha e aos seus interesses nacionais, então a saída do euro que se deve equacionar é, como diz G. Soros, a da Alemanha: "A Alemanha deve decidir se quer refazer a Zona Euro na forma que estava destinada a ser, o que supõe que aceita as responsabilidades e os encargos necessários para avançar nessa direção. Ou se, caso contrário, deve considerar sair do euro e deixar que o resto dos países criem as obrigações conjuntas e combatam a crise."
Trata-se de uma perspetiva importante, a reter e a trabalhar. Ela muda o paradigma dominante das relações de força na UE, permitindo alterações estratégicas decisivas para lidar com a crise do euro. E, como sublinha G. Soros, o "efeito sobre os países devedores seria quase miraculoso. De repente, converter-se-iam em economias competitivas e a sua dívida diminuiria enormemente, em termos reais, com a depreciação do euro. O peso do ajuste recairia sobre a Alemanha, que teria de lidar com o peso de uma divisa mais forte do que o euro, retirando-lhe competitividade nos mercados internacionais."
Como também já em 2012 Joseph Stiglitz tinha afirmado em declarações à BBC, nada - nem a ameaça de uma eventual saída da Alemanha do euro - pode ou deve impedir a criação de eurobonds, se a maioria dos países da Zona Euro considerar que tal é vital para o seu futuro. E quanto mais tarde se confrontar a Alemanha neste ponto, pior!
E atenção: os demónios que provocaram duas guerras tremendas na Europa estão apenas adormecidos, como recentemente lembrou Jean-Claude Juncker. E é bom não esquecer que o "imperialismo alemão" que esteve na sua origem tem raízes bem mais fundas do que muitas vezes se pensa. Basta, para o compreender, ler o extraordinário livro de Shelley Baranovski sobre o "german colonialism and imperialism from Bismarck to Hitler" (Cambridge U. P. 2010). Ele ajuda a perceber porque é que um espírito tão aberto, tão tolerante e tão pacifista como Einstein defendeu o desaparecimento da Alemanha do mapa europeu!...
quinta-feira, abril 25, 2013
«Se as consequências próximas ou distantes, leves ou pesadas de uma determinada política se devem considerar ´normais` , porque ubíquas, difusas, endémicas, tal não quer dizer que não se deva tentar que alguns seres humanos, pelo menos, reencontrem a consciência de si próprias e se salvem daquele ´complexo de rebanho` de que fala ALDOUS HUXLEY!!!»
Alberto Castro Ferreira
terça-feira, abril 23, 2013
Palavras Caras
O debate é antigo.
Deve o escritor utilizar palavras consabidas ou revitalizar palavras menos conhecidas? Certo é que grandes monstros literários habitam os dois paradigmas, tornando a discussão permanentemente renovável.
Um dos metadiálogos literários sobre o tema pertence a Faulkner e a Hemingway.
He [Ernest Hemingway] has never been known to use a word that might send a reader to the dictionary.
Poor Faulkner. Does he really think big emotions come from big words? He thinks I don't know the ten-dollar words. I know them all right. But there are older and simpler and better words, and those are the ones I use.
Um dos princípios do jornalismo é o de que entre dois sinónimos a opção do escrevente deverá recair no sinónimo mais comummente utilizado, de modo que o público seja o maior possível. Bem sei que literatura e jornalismo são coisas bem distintas, mas, feliz ou infelizmente, muitos jornalistas migram para a ficção transportando essa ideia.
É verdade que a leitura de um texto com palavras caras é menos fluida Ou o leitor pura e simplesmente ignora tais palavras e não vai ao dicionário, deixando zonas brancas na compreensão do texto (a adivinhação pelo contexto é, regra geral, um embuste), ou pega no dicionário ante cada palavra que desconhece ou consulta-o depois de sublinhar um conjunto de palavras na obra. A quebra da fluidez pode afastar leitores, mas não deixa de ser um argumento vicioso – a fluidez do entendimento aumenta na proporção directa do estudo de textos em que tropeçamos mais vezes. Quanto mais lemos, quantas mais palavras caras consultamos nos dicionários, menos vezes temos de o fazer. Percebemos isto facilmente quando nos iniciamos no estudo de uma língua estrangeira. Era o próprio Lenine que afirmava que não era a arte que devia descer ao povo, mas o povo que devia ascender à arte.
Para Borges, uma palavra cara num texto era como um borrão de tinta – qualquer coisa que encadeava a vista e que nos fazia reparar mais na palavra do que na perspectiva global da página, do capítulo ou da obra. Não duvido de que muitos autores, mormente numa fase imatura da sua escrita, procuram despejar uma torrente de palavras caras (muitas vezes encaixadas forçadamente) para exibir uma putativa erudição. O narcisismo, a sensação de vaidade do conhecimento de algo partilhado por muito poucos, o poder de mandar o leitor fazer uma leitura intertextual (de que a ida ao dicionário é o exemplo mais corriqueiro) se quiser compreender a sua obra podem ser móbeis de muitos escritores na senda de Aquilino.
Mas convém lembrar que vivemos tempos em que o léxico utilizado (na televisão, na imprensa, na comunicação das novas tecnologias de informação, nos próprios livros) é cada vez mais reduzido. George Steiner afirmou que «Shakespeare usava 24 mil palavras. Num estudo muito recente, pela companhia telefónica americana Bell, o total de palavras usadas por 90 por cento dos americanos ao telefone é de 150 palavras». James Joyce recorreu a mais de 30 mil palavras em Ulisses.Vasco Pulido Valente escreveu que quando se dedicou a ler a obra inteira de Camilo verificou que muitas palavras não estavam em dicionário algum. Porquê? Porque um dicionário é um registo, um espelho das palavras usadas pelos escreventes e pelos falantes. Não utilizar determinadas palavras é aniquilá-las, é contribuir para a sua expulsão da língua.
Aqui, entramos num ponto essencial. Qual o problema de as palavras irem morrendo? Não é verdade que umas entram e outras saem? Porque devemos a todo o custo tentar preservar palavras que ninguém conhece? Porque quanto mais palavras temos cá dentro, mais chaves de decifração do mundo e do humano possuímos. Não só isso. Mesmo quem não defende a tese de que não há sinónimos perfeitos e de que portanto cada palavra, pelo seu étimo, pela sua conotação, transporta um significado único; mesmo quem não subscreve tal ideia concordará que o escritor munido de mais palavras dispõe de mais instrumentos para trabalhar a plasticidade, a beleza e a musicalidade da língua.
Um acrescento importante. Não são apenas as palavras que morrem pela falta de uso. Determinados significados associados às palavras morrem quando deixam de ser empregados (quando consultamos um dicionário, percebemos que as palavras são quase todas muito mais polissémicas do que julgamos). As almas mundas de Camões remetem-nos para um adjectivo extinto – mundo enquanto oposto de imundo. É essa a preocupação expressa por Orwell no final de 1984, quando a novilíngua mantinha a palavra «livre», mas já não aplicável a homens livres, permanecendo apenas para frases como: «O cão está livre de pulgas.»
Termino com uma confissão. Uma das coisas que mais me alimentam o espírito, provocando aquele preenchimento interior que é a satisfação intelectual, é o de conhecer uma palavra nova todos os dias. É o tipo de contentamento que não envelhece nem se embota – uma delícia no corpo que não consigo transmitir em palavras.
Eis algumas. (Fonte: Houaiss.)
vulpino Datação: 1840-1871 cf. SilCas
n adjetivo
1 relativo a ou próprio de raposa; raposino
Ex.:
2 (1881)Derivação: sentido figurado.
hábil com ardis; ardiloso, astuto, raposeiro, raposino, traiçoeiro
Ex.: vendedor v.
metuendo Datação: 1690 cf. Alma
n adjetivo
Uso: formal.
que causa temor, que mete medo
talássico Datação: 1877 cf. MS7
n adjetivo
1 relativo ao mar e às águas oceânicas profundas
2 Uso: formal.
da cor do mar
Ex.: azul t.
pusilanimidade Datação: sXV cf. FichIVPM
n substantivo feminino
1 característica ou condição do que é pusilânime
2 fraqueza de ânimo, falta de energia, de firmeza, de decisão
3 medo, covardia
queimor Datação: 1858 cf. MS6Ortoépia: ô
n substantivo masculino
1 sabor muito picante; ardência, queimo
Ex.: o q. da pimenta-malagueta
2 Derivação: por metáfora.
estado de sobreexcitação, de arrebatamento; exaltação
Ex.: o q. dos ânimos
3 Derivação: por extensão de sentido.
forte perturbação; ardor
Ex.: o q. das paixões
4 Derivação: por extensão de sentido.
quentura febril
Ex.: o q. do corpo
5 calor intenso
pudicícia Datação: 1540 cf. JBarV
n substantivo feminino
1 qualidade do que é casto; castidade, pureza
2 característica do que é pudico, tímido, recatado
Ex.: a p. do primeiro amor
3 m.q. pudor
femeeiro Datação: 1858 cf. MS6
n adjetivo e substantivo masculino
1 diz-se de ou macho que busca incessantemente a fêmea
Ex.: <é um f., vive atrás da fêmea>
2 Regionalismo: Brasil.
diz-se de ou reprodutor (touro ou garanhão) cujas crias são, na maioria, fêmeas
3 m.q. mulherengo ('dado a mulheres')
n adjetivo
Regionalismo: Minho.
4 m.q. fêmeo (vitic)
n substantivo masculino
5 reunião de meretrizes; femeaço
justafluvial Datação: 1899 cf. CF1
n adjetivo de dois gêneros
que está nas imediações ou junto de um rio; marginal, ribeirinho
deletério Datação: 1713 cf. RB
n adjetivo
1 que é prejudicial à saúde; insalubre
2 Derivação: por extensão de sentido.
que possui um efeito destrutivo; danoso, nocivo
3 Derivação: sentido figurado.
que conduz à imoralidade, à corrupção; degradante
4 Rubrica: genética.
cujo fenótipo é prejudicial para o organismo (diz-se de gene)
malsão Datação: a1587 cf. APP
n adjetivo
1 de saúde precária; que não se curou de todo, em mau estado
Ex.:
2 (1600)
nocivo à saúde; insalubre, doentio
Ex.: o ar m. que se respira junto aos pântanos
3 Derivação: sentido figurado.
que denota uma perversidade intelectual ou moral; mórbido
Ex.: curiosidade m.
4 Derivação: sentido figurado.
que ameaça o equilíbrio intelectual, moral; nocivo, maléfico
Ex.: leitura m.
1mormacento Datação: 1716 cf. RB
n adjetivo
em que há mormaço
Ex.: dia m.
mormaço Datação: 1716 cf. RB
n substantivo masculino
1 neblina quente e úmida, resultante de forte calor
2 temperatura abafada, quente
3 Regionalismo: Brasil. Uso: informal.
indivíduo impertinente, aborrecido
4 Regionalismo: Pernambuco. Uso: informal.
m.q. namoro ('ato', 'relação')
feérico Datação: 1899 cf. CF1
n adjetivo
1 pertencente ao mundo da fantasia; mágico
2 que revela suntuosidade; luxuoso, fastuoso, deslumbrante
Ex.: decoração f.
3 que turva a vista por excesso de luz ou brilho; deslumbrante, ofuscante
Ex.: iluminação f.
empíreo Datação: sXIV cf. FichIVPM
n substantivo masculino
1 Rubrica: mitologia.
lugar em que moram os deuses
2 Rubrica: teologia.
lugar reservado aos santos e bem-aventurados; o céu
n adjetivo
3 relativo ao céu; celestial
4 que está acima de tudo; supremo
adâmico Datação: 1871 cf. DV
n adjetivo
1 Rubrica: religião.
relativo a Adão, o primeiro homem, segundo a Bíblia
2 Derivação: por extensão de sentido.
relativo à primitiva raça humana
3 Derivação: por extensão de sentido.
que é primitivo
imarcescível Datação: 1680 cf. LacSJ
n adjetivo de dois gêneros
1 que não perde o viço, o frescor
Ex.: flor i.
2 Derivação: sentido figurado.
impossível de corromper; incorruptível, inalterável
Manuel Monteiro
sábado, abril 20, 2013
quinta-feira, abril 18, 2013
Por Manuel Maria Carrilho
É possível combater o défice e a dívida, sem o garrote da austeridade. É possível combater o desemprego e a precariedade, mesmo sem grande crescimento. Para tanto, o que é preciso é outra compreensão da crise e pensar a médio/longo prazo, inventado um novo modelo de desenvolvimento. Rebobinar o passado não nos leva ao futuro, mas ao impasse. São estas algumas das teses de um dos sábios do socialismo francês, Michel Rocard.
Nada melhor, nem mais útil, no momento da reeleição de António José Seguro como secretário-geral do Partido Socialista, do que refletir nos conselhos deste antigo primeiro-ministro francês. Conselhos que, à luz das enormes dificuldades atuais do Presidente François Hollande - que está prestes a concluir o seu primeiro ano de mandato em condições calamitosas -, ganham ainda maior pertinência e oportunidade.
Num livro recente, que intitulou La Gauche n"a plus Droit à l"Erreur (Ed. Flammarion), Michel Rocard, que foi sempre um socialista aberto e moderado, faz uma clarificadora análise da situação atual, global e europeia, estabelece um diagnóstico inovador sobre a crise que vivemos, e defende linhas de ação originais que merecem a maior atenção.
Quanto à análise, é bom ter presente que há muito que Michel Rocard insiste em que a ideia, dominante em muitos governos europeus, de pagar a dívida em condições que enfraquecem ou inviabilizam o crescimento e provocam recessão é uma enorme estupidez, sobretudo que justamente condena qualquer perspetiva séria de efetivo pagamento da dívida.
E que, portanto, o que é urgente, é inventar - porque é disso mesmo que se trata - um equilíbrio entre o pagamento da dívida e a despesa (pública, mas não só) necessária à manutenção do poder de compra e do investimento.
Mas como? Tem sido aqui, neste ponto, que todos os impasses se têm acumulado e todos os dilemas se têm agudizado. Talvez porque, como sugeriu Joseph Stiglitz, todos eles conduzem ao paradoxo de se estar a pensar fazer uma transfusão a um doente que tem uma hemorragia interna...
O problema, pensa Michel Rocard, é mesmo este, pelo que a boa questão é a de saber onde é a hemorragia e quais são as suas causas. Isto é, dito de outro modo, "porque é que os nossos países se tornaram viciados na dívida? Porque é que, se diminui a transfusão, eles entram em recessão?"(p. 83)
A resposta está na história. Se olharmos para trás, umas décadas, verifica-se que este processo se inicia nos anos 80, depois de mais ou menos 30 anos em que as economias cresceram sem aumentar a sua dívida: foram 30 anos sob a égide do pleno emprego e do regular aumento do poder de compra.
Na linha de um fordismo que - convém lembrar - via o salário mais como um elemento nuclear da procura do que como um custo. Foi precisamente isso que levou Henry Ford a quase dobrar os salários dos seus operários e a diminuir o tempo de trabalho - é muito instrutivo reler hoje o famoso discurso onde ele explicou "why I favour 5 days work with 6 days pay", de 1926.
Esta inspiração seria mais tarde desenvolvida, no plano social, por Beveridge, e no plano económico por Keynes, dando forma ao que se convencionou designar o Estado Providência. (Entre parêntesis: e se o pleno emprego se instalou, foi em paralelo com outro processo de que raramente se fala, o da diminuição do tempo de trabalho, uma constante até aos anos 70 do século XX.)
E isto só viria a ser posto em causa nos anos 80, a seguir ao impacto da crise petrolífera da década anterior, com a revolução conservadora de Margaret Tatcher e Ronald Reagan. Foi aí que realmente tudo mudou. Os salários deixaram de crescer, nos quinze países mais ricos da OCDE a percentagem dos salários no PIB caiu constantemente, passando de 67% do PIB em 1982 para 57% em 2007: dez pontos!
É então que a dívida emerge e começa a crescer, num movimento ascendente que nunca mais parará: "Para garantir aos acionistas os lucros colossais e garantir um alto nível de consumo do conjunto da população, o neoliberalismo tem estruturalmente necessidade, todos os anos, de um nível de dívida mais elevado, para continuar a prosperar."(p. 92)
Hoje, a dívida total dos Estados Unidos é de 350% do PIB, e a da Inglaterra é de 900%. E a liquidez em circulação no mundo atinge o "exuberante" valor de 800 biliões de dólares, enquanto o PIB mundial anda nos 62 - ou seja a "economia" virtual é cerca de 13 vezes superior à economia real!
A análise de Michel Rocard altera substancialmente o retrato dominante da crise, e aponta para um diagnóstico que deve fazer pensar: "Nós não estamos face a uma crise do Estado-Providência, mas antes e acima de tudo face a uma crise do capitalismo, cuja duração e gravidade tornam insuficientes as respostas clássicas do Estado-Providência."(p. 107)
E continua: "A causa fundamental da crise encontra-se nas desigualdades que se cavaram no sector privado. Fala-se muito de dívida pública, em particular porque os Estados tiveram de funcionar como garante dos bancos, mas a crise não vem do Estado. A crise vem do desemprego e das desigualdades de rendimentos."
Este diagnóstico conduz, por sua vez, a uma nova abordagem do crescimento, da produtividade, do tempo de trabalho, da energia - além, naturalmente, da Europa. E a um conjunto de medidas muito concretas, que Michel Rocard apresenta com simplicidade, sentido pedagógico e ambição política. Só assim se libertará o futuro das armadilhas do passado. Vale mesmo a pena ler.
«Certo dia parei para observar as mulheres e só pude concluir uma coisa: elas não são humanas. São espiãs. Espiãs de Deus, disfarçadas entre nós.
Pare para refletir sobre o sexto-sentido.
Alguém duvida de que ele exista?
E como explicar que ela saiba exatamente qual mulher, entre as presentes, em uma reunião, seja aquela que dá em cima de você?
E quando ela antecipa que alguém tem algo contra você, que alguém está ficando doente ou que você quer terminar o relacionamento?
E quando ela diz que vai fazer frio e manda você levar um casaco? Rio de Janeiro, 40 graus, você vai pegar um avião pra São Paulo. Só meia-hora de vôo. Ela fala pra você levar um casaco, porque "vai fazer frio". Você não leva. O que acontece?
O avião fica preso no tráfego, em terra, por quase duas horas, depois que você já entrou, antes de decolar. O ar condicionado chega a pingar gelo de tanto frio que faz lá dentro!
"Leve um sapato extra na mala, querido.
Vai que você pisa numa poça..."
Se você não levar o "sapato extra", meu amigo, leve dinheiro extra para comprar outro. Pois o seu estará, sem dúvida, molhado...
O sexto-sentido não faz sentido!
É a comunicação direta com Deus!
Assim é muito fácil...
As mulheres são mães!
E preparam, literalmente, gente dentro de si.
Será que Deus confiaria tamanha responsabilidade a um reles mortal?
E não satisfeitas em ensinar a vida elas insistem em ensinar a vivê-la, de forma íntegra, oferecendo amor incondicional e disponibilidade integral.
Fala-se em "praga de mãe", "amor de mãe", "coração de mãe"...
Tudo isso é meio mágico...
Talvez Ele tenha instalado o dispositivo "coração de mãe" nos "anjos da guarda" de Seus filhos (que, aliás, foram criados à Sua imagem e semelhança).
As mulheres choram. Ou vazam? Ou extravazam?
Homens também choram, mas é um choro diferente. As lágrimas das mulheres têm um não sei quê que não quer chorar, um não sei quê de fragilidade, um não sei quê de amor, um não sei quê de tempero divino, que tem um efeito devastador sobre os homens...
É choro feminino. É choro de mulher...
Já viram como as mulheres conversam com os olhos?
Elas conseguem pedir uma à outra para mudar de assunto com apenas um olhar.
Elas fazem um comentário sarcástico com outro olhar.
E apontam uma terceira pessoa com outro olhar.
Quantos tipos de olhar existem?
Elas conhecem todos...
Parece que freqüentam escolas diferentes das que freqüentam os homens!
E é com um desses milhões de olhares que elas enfeitiçam os homens.
EN-FEI-TI-ÇAM !
E tem mais! No tocante às profissões, por que se concentram nas áreas de Humanas?
Para estudar os homens, é claro!
Embora algumas disfarcem e estudem Exatas...
Nem mesmo Freud se arriscou a adentrar nessa seara. Ele, que estudou, como poucos, o comportamento humano, disse que a mulher era "um continente obscuro".
Quer evidência maior do que essa?
Qualquer um que ama se aproxima de Deus.
E com as mulheres também é assim.
O amor as leva para perto dEle, já que Ele é o próprio amor. Por isso dizem "estar nas nuvens", quando apaixonadas.
É sabido que as mulheres confundem sexo e amor.
E isso seria uma falha, se não obrigasse os homens a uma atitude mais sensível e respeitosa com a própria vida.
Pena que eles nunca verão as mulheres-anjos que têm ao lado.
Com todo esse amor de mãe, esposa e amiga, elas ainda são mulheres a maior parte do tempo.
Mas elas são anjos depois do sexo-amor.
É nessa hora que elas se sentem o próprio amor encarnado e voltam a ser anjos.
E levitam.
Algumas até voam.
Mas os homens não sabem disso.
E nem poderiam.
Porque são tomados por um encantamento
que os faz dormir nessa hora.»
Luís Fernando Veríssimo
quarta-feira, abril 17, 2013
segunda-feira, abril 15, 2013
Há sentimentos que temos que não encontram palavra alguma em idioma algum.
Esta música permitiu-me uma coisa única - senti pela primeira vez que alguém expressava o sentimento que experenciara, particularmente em duas ocasiões. (Deliciosos os adjectivos e a sua musicalidade terminados em i grego que Robert Smith escolhe.)
Ela morava no estrangeiro, estava de passagem indo-se embora no dia seguinte, e eu encontrei-a por acaso na paragem de autocarro. Namoráramos há oito anos e o encontro causou uma efervescência em ambos. Apesar do encanto, apesar de saber que não a voltaria a ver facilmente (e, de facto, não voltei), um trabalho de grupo pendia sobre mim e, a muito custo, disse-lhe que não podia tomar café com ela - tinha um grupo à minha espera na faculdade para fazer um trabalho de não-sei-quê de uma disciplina de que não recordo com pessoas de que não recordo.
O outro é demasiado trágico. Desperdicei em nome das tizzy fizzy idiot things a oportunidade de estar com uma pessoa que morreu - e de dizer-lhe o quanto gostava dela.
sexta-feira, abril 12, 2013
quinta-feira, abril 11, 2013
É certo que a maioria das pessoas é mais de falar do que de ouvir. Mas sabes aquelas que ocupam a maioria do tempo e que mal te ouvem e que quando o fazem fingem que te ouvem ou despacham-te num instante. Pois, pois, claro, claro, sim, sim, sim, como eu estava a dizer... Na cabeça delas, o seu discurso nunca é interrompido. Quando discutes e elas te dão espaço, o que elas estão a fazer é a pensar no que vão dizer a seguir, a lembrar-se de tudo, a estruturar a coisa. E se tu tens um braço partido, a unha dele/a encravada é mais importante.
quarta-feira, abril 10, 2013
Amizade, Emerson
A RUDDY drop of manly blood
The surging sea outweighs;
The world uncertain comes and goes,
The lover rooted stays.
I fancied he was fled,
And, after many a year,
Glowed unexhausted kindliness
Like daily sunrise there.
My careful heart was free again,--
O friend, my bosom said,
Through thee alone the sky is arched,
Through thee the rose is red,
All things through thee take nobler form
And look beyond the earth,
The mill-round of our fate appears
A sun-path in thy worth.
Me too thy nobleness has taught
To master my despair;
The fountains of my hidden life
Are through thy friendship fair.
terça-feira, abril 09, 2013
segunda-feira, abril 08, 2013
Teorias que ouvi sobre as idades.
1. - Tenho oitenta e dois. Farei a última capicua daqui a seis anos na melhor das hipóteses. O mais doloroso foram os quarenta. É esse o meridiano que separa a vida tranquila da vida das coisas chatas. Os quarenta são terríveis, porque de ora em diante são sempre «entas» - entra-se na era dos enta sem se sair.
2. - Falar de uma idade que não se teve é como falar do sexo que não se tem. Só quando cheguei aos cinquenta é que percebi certos aspectos da vida. É impossível percebê-los antes dos cinquenta. A minha vista ficou mais turva e eu não me importei perante a claridade do entendimento que ganhei. É impossível de explicar. É como aquela frase do Leonard Cohen que diz ergueu a taça que não pode ser erguida aos olhos da juventude - a taça da verdade.
3. - O processo de envelhecimento é um processo de embotamento da intensidade - as respostas emocionais são mais brandas, nem tão negativas, nem tão positivas. Os melhores anos são os quarentas. É nessa altura que começa o abrandamento. Ganha-se uma serenidade. Ralamo-nos menos com as coisas, porque passamos a entender o que é verdadeiramente importante e ainda conservando uma forte capacidade de sentir alegremente as coisas boas.
quarta-feira, abril 03, 2013
- Mas se tu não tiveste um período de grande sofrimento, não consegues ter empatia com pessoas que passam por isso. Uma depressão é a forma de passarmos por um processo de autoquestionamento, de formulação das perguntas essenciais, sem o qual esse trabalho interior nunca é conseguido. É duro, muito duro, mas passa sempre e aprende-se o mais importante. Lembro-me sempre da frase de uma mulher que teve cancro e depressão em momento diferentes e disse: «Prefiro o cancro à depressão.»
terça-feira, abril 02, 2013
- Não, não, não, nada disso. Temei antes os fracos. Não é a pessoa resolvida consigo a que entra numa escola ou num café e mata meia dúzia de pessoas. Porque é que essas pessoas têm sempre uma história pessoal de frustração e infelicidade? Não são as conquistas, o sentir-se amado, as realizações pessoais que produzem déspotas, é antes a falta de amor e de compreensão que os leva a vingarem-se numa sede enorme de poder. Não é o homem que foi muito amado aquele que maltrata a mulher. Não é quando a vida vos corre bem menos que estão mais susceptíveis, mais irascíveis, mais propensos à raiva ou à violência? Não é quando estão frustrados por não conseguirem chegar a um sítio a horas que têm tendência a buzinar mais? Acaso será a vingança o resultado de uma compensação por um acto de amor ou de frustração? Freud dix it: a frustração é a origem de todos os males.
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