quinta-feira, maio 30, 2013
Com a música celestial e com as almas do círculo hermético, assim sucede
«Quando se acaba de ouvir um trecho de Mozart, o silêncio que se lhe segue ainda é dele.»
Sacha Guitry
terça-feira, maio 28, 2013
Para quem ainda não o comprou...
http://www.tsf.pt/PaginaInicial/Vida/Interior.aspx?content_id=3241601
Reading and forgetting
http://www.newyorker.com/online/blogs/books/2013/05/the-curse-of-reading-and-forgetting.html
segunda-feira, maio 27, 2013
domingo, maio 26, 2013
«A leitura tem elementos que são contra as características do nosso tempo: é lenta, é totalitária – quando se está a ler, não se pode fazer outra coisa –, e isso contrasta com a facilidade da televisão e do cinema. [...] Toda a sociedade funciona para eliminar o tempo longo, o silêncio, a discrição, é tudo a favor do consumo imediato, da fruição imediata e de uma certa preguiça colectiva.»
Pacheco Pereira
sexta-feira, maio 24, 2013
E de repente a maravilha-se instala-se
Herberto Helder publica Servidões
LUÍS MIGUEL QUEIRÓS 22/05/2013 - 20:35 (actualizado às 21:44)
Depois de A Faca Não Corta o Fogo , em 2008, o poeta regressa, aos 82 anos, com um novo livro de inéditos.
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Herberto Helder
Poesia
Chega na segunda-feira às livrarias, com a chancela da Assírio & Alvim, do grupo Porto Editora, um novo livro de Herberto Helder, Servidões , que reúne largas dezenas de poemas inéditos.
Chega na segunda-feira às livrarias, com a chancela da Assírio & Alvim, do grupo Porto Editora, um novo livro de Herberto Helder, Servidões, que reúne largas dezenas de poemas inéditos. A notícia foi avançada nesta terça-feira pelo grupo Porto Editora, que presumivelmente obedeceu aos desejos do autor ao só anunciar agora a existência do livro e ao dispensar qualquer sessão de lançamento.
Tal como os anteriores títulos de Herberto Helder, Servidões não será reeditado autonomamente, embora seja de admitir que venha a integrar uma próxima edição de Ofício Cantante, a sua poesia completa. Dado que a tiragem deste novo livro não excederá os cinco mil exemplares, tudo indica que terá o mesmo destino de A Faca Não Corta o Fogo, de 2008, que se esgotou num mês.
A primeira impressão que Servidões provoca em quem acabou de ler o livro talvez se deixe dizer melhor numa expressão inglesa: he did it again. Mais uma vez, depois de a energia e a capacidade de inovação de A Faca Não Corta o Fogo terem assombrado os que não julgavam possível uma tal voltagem poética num autor de 80 anos, Herberto Helder repete o milagre.
Servidões abre com um texto em prosa construído a partir de três textos anteriores: o mais antigo aparecia a abrir Edoi Lelia Doura, a “antologia das vozes comunicantes da poesia moderna portuguesa” que o autor organizou em 1985, e os restantes tinham surgido respectivamente na publicação brasileira Cult e na Telhados de Vidro, a revista da editora Averno. É significativo que Herberto Helder tenha querido iniciar este livro com um texto marcadamente autobiográfico, que começa com a sua infância na Madeira, povoada de “visões” e “vozes” que terão contribuído para selar precocemente o seu destino de poeta, e não por acaso de um poeta que acredita, sem ironia, nos poderes da poesia, como outrora, em criança, acreditou nas “enigmáticas figuras” de animais que a seiva das bananeiras deixava na lâmina de uma faca, ou nos raios que atingiriam os espelhos se não houvesse a prudência, “em tempo de trovoadas”, de os cobrir com lençóis.
O texto termina com esta passagem: “Cumprira-se aquilo que eu sempre desejara – uma vida subtil, unida e invisível que o fogo celular das imagens devorava. Era uma vida que absorvera o mundo e o abandonara depois, abandonara a sua realidade fragmentária. Era compacta e limpa. Gramatical”.
Nada de muito diferente do que há muito escrevera num texto hoje recolhido em Photomaton & Vox: “(...) As pessoas perdem o nome, as coisas limpam-se, cessam a fuga do espaço e o movimento dispersivo do tempo. Fica um núcleo cerrado. Fico eu.” Mas é verdade que se sente em Servidões, talvez mais do que noutros livros do autor, um certo desejo de revelar, de esclarecer, talvez de corrigir leituras exteriores que lhe terão parecido equívocas. Não se trata nunca, note-se, de propor a sua própria leitura da obra, mas antes de tentar aclarar a natureza do trajecto de que ela é a face visível.Este é também um livro em que Herberto Helder vai mais longe do que nunca na sua determinação de sair da literatura, de desprezar todo o ornamento. E o livro parece ir acelerando, até atingir, em muitos dos poemas finais, uma violenta energia: “dá-me o êxtase infernal de Santa Teresa de Ávila/ arrebatada ar acima num orgasmo anarquista,/ a ideia de paraíso é apenas um apoio/ para o salto soberano,/ não um inferninho brasileiro com menininhas de programa,/ púberes putinhas das favelas,/ mas o inferno complexo onde passeia a Beatriz das drogas duras,/ um inferno à medida de cada qual dificílimo (...)”.
Embora a proximidade da morte seja um tópico recorrente em Servidões, nem há aqui melancolia alguma, nem o corpo que se lê nestes poemas dá grandes sinais de decadência física. Mas a verdade é que nenhum corpo real, tivesse ele 30 ou 80 anos, pôde alguma vez plausivelmente corresponder à energia sexual desta escrita. O que é realmente digno de assombro não é tanto isso, é um cérebro de 82 anos ser capaz desta intensidade criativa.
terça-feira, maio 21, 2013
Um dos melhores artigos de opinião dos últimos anos
O garrote do consenso
«Fala-se muito da necessidade de consenso, mas o que verdadeiramente faz falta é mais dissenso. Ou melhor, o que o alimenta: um efetivo pluralismo de perspetivas sobre a sociedade e uma autêntica diversidade na análise dos seus problemas. E onde hoje essa falta mais se sente é no domínio que, nas última décadas, absorveu quase integralmente a política: na economia.
Existe uma cartilha de onde tudo brota e tudo delimita, que se arroga um estatuto de ciência exata sem, contudo, satisfazer nenhum dos seus quesitos. Quer ela se designe como abordagem neoclássica ou como financismo, o seu estatuto mais parece divino, dado o modo como escapa aos próprios factos que sistematicamente a desmentem, tanto nos seus dogmas centrais como nas suas previsões mais banais.
Temos tido em Portugal, nos últimos dois anos, um eloquente exemplo desta tão insólita como generalizada situação, em que os erros, em vez de levarem à questionação dos diagnósticos e das terapias que suscitaram, são apresentados - por mais clamorosos que seja, e têm sido - como imunes às suas consequências, e até mesmo como um estímulo à sua perpetuação.
Muitos atribuirão esta situação à particularidade deste ou daquele economista, à idiossincrasia deste ou daquele ministro. E essas características terão sem dúvida o seu papel. Mas as raízes da situação encontram-se bem mais fundo, elas têm que ver com a formação que, nestas áreas, a universidade dá aos seus alunos, e que os media em geral amplificam.
Por todo o mundo (Canadá, Estados Unidos, França, Alemanha, Israel, Argentina, etc.) têm vindo a multiplicar-se as análises desta formação, que mostram bem a responsabilidade que ela teve na crise que se desencadeou em finais da década passada e no impasse mas ou menos intermitente que se tem vivido desde então.
Essas análises apontam fundamentalmente para três aspetos dos curricula e dos programas do ensino económico-financeiro dominante, que não podem deixar de ter pesadas consequências. Em primeiro lugar, uma quase completa ausência de distância crítica, em termos ideológicos ou históricos. Depois, o estrangulamento do pluralismo teórico na abordagem e enquadramento dos problemas. Por fim, o corte com o conhecimento do mundo que as ciências sociais e as ciências humanas propiciam.
Percebe-se melhor a sofisticada ignorância, e a emproada incompetência, de tantos economistas dos nossos dias, se soubermos - por exemplo - que a atenção que é dada à história da sua própria disciplina e dos acontecimentos económicos raramente chega aos 2% nos curricula escolares. Ou que é quase total a ausência de reflexão epistemológica, que deveria avaliar com detalhe os fundamentos metodológicos e científicos da disciplina. Ou, ainda, que o espaço dado à articulação dos problemas económicos com outros temas contemporâneos (sociais, políticos, culturais, etc.) ronda, nos respetivos programas, 1,5% do total.
Torna-se assim possível fazer um curso de Economia quase sem falar do que de mais importante acontece no mundo. Como se fosse possível reduzir tudo a modelos matemáticos e a métodos quantitativos que, naturalmente indispensáveis, são completamente insuficientes na compreensão da realidade. Sobretudo porque, neste âmbito, a sofisticação técnica anda em geral a par com o simplismo das abordagens, ao contrário do que as sociedades contemporâneas exigem, que é a atenção à sua crescente e inextrincável complexidade.
O recente caso Rogoff/Reinhart, e as suas teorias sobre a ligação entre o crescimento económico e a dívida pública (usada para caucionar a política austeritária dos últimos tempos), é muito esclarecedor sobre as areias extremamente movediças da "ciência" económica, em que se permanentemente se confundem três coisas bem distintas: os elementos e as correlações estatísticas, as causas dos factos e as razões dos acontecimentos.
O mundo de hoje exige outras visões da economia, onde o pluralismo tem de ser a regra: um pluralismo crítico que ofereça aos estudantes (e aos cidadãos em geral) uma perspetiva global sobre a história e os procedimentos nucleares da disciplina. Um pluralismo doutrinário que apresente as várias linhas de pensamento económico existentes, promova a competição explicativa entre as suas argumentações e ofereça uma diversidade de pontos de vista. Um pluralismo interdisciplinar, que valorize os contributos de outras disciplinas e saberes na compreensão e tratamento dos problemas do mundo de hoje, que são cada vez mais polifacetados, interdependentes e complexos.
Tudo isto exige, como comecei por dizer, mais dissenso do que consenso. Exige sobretudo que se compreenda que o consenso de que falam os zelotas do financismo divino é um mero garrote para, justamente, impedir que surjam e se trabalhem ideias e propostas alternativas àquelas que, apesar de falharem os seus proclamados objetivos, continuam, todavia, a dominar impunemente o mundo.
É pena, pois, que por cá não se tenha dado a devida atenção ao relatório coordenado pelo prof. José Mattoso em 2011 , no âmbito do Conselho Científico das Ciências Sociais da Fundação para a Ciência e Tecnologia, que apontava para a degradação do ensino e da investigação da economia em Portugal. Lá se pode ler "que a ausência de pluralismo na ciência económica não resulta diretamente, longe disso, da maior capacidade explicativa da visão mainstream. No caso da economia, tem-se mesmo popularizado um termo, o "pensamento único", para traduzir o afunilamento e ausência de pluralismo que tem afetado nas últimas três décadas a investigação nesta área científica, com consequências negativas evidentes sobre o respetivo progresso.»
Manuel Maria Carrilho
segunda-feira, maio 20, 2013
«Ser imortal é coisa sem importância. Excepto o homem, todas as criaturas o são, porque ignoram a morte. O divino, o terrível, o incompreensível, é considerar-se imortal. Já notei que, embora desagrade às religiões, essa convicção é raríssima. Israelitas, cristãos e muçulmanos professam a imortalidade, mas a veneração que dedicam ao primeiro século prova que apenas crêem nele, e destinam todos os outros, em número infinito, para o premiar ou para o castigar.
Mais razoável me parece o círculo descrito por certas religiões do Indostão. Nesse círculo, que não tem princípio nem fim, cada vida é uma consequência da anterior e engendra a seguinte, mas nenhuma determina o conjunto... Doutrinada por um exercício de séculos, a república dos homens imortais tinha conseguido a perfeição da tolerância e quase do desdém. Sabia que num prazo infinito ocorrem a qualquer homem todas as coisas. Pelas suas passadas ou futuras virtudes, qualquer homem é credor de toda a bondade, mas também de toda a traição pelas suas infâmias do passado ou do futuro. Assim como nos jogos de azar as cifras pares e ímpares permitem o equilíbrio, assim também se anulam e se corrigem o engenho e a estupidez.»
Jorge Luis Borges
sexta-feira, maio 17, 2013
quinta-feira, maio 16, 2013
quarta-feira, maio 15, 2013
Pode-se dar o que não se tem?
Evangelho segundo S. Lucas 21,1-4.
«Naquele tempo, Jesus levantou os olhos e viu os ricos deitarem no cofre do tesouro as suas ofertas.
Viu também uma viúva pobre deitar lá duas moedinhas e disse: "Em verdade vos digo que esta viúva pobre deitou mais do que todos os outros;
pois eles deitaram no tesouro do que lhes sobejava, enquanto ela, da sua indigência, deitou tudo o que tinha para viver."»
Este episódio da Bíblia foi sempre rasamente interpretado. Não é só a parte material. Quem está triste, quem está deprimido, quem tem as circunstância da vida a concorrer contra si (mesmo que nenhuma delas seja material) tem de fazer um esforço maior para dar ao Outro.
Jorge Luis Borges, que gostava de paradoxos (de Zenão, por exemplo) dizia ser um milagre como alguém podia não ter alegria dentro de si e conseguir dá-la ao outro - mas que isso acontecia.
Mas é muito mais difícil. E isto conduz-me à Viúva Pobre. Quem está na merda e consegue ser solidário numa unha tem mais mérito de quem está tranquilo e cheio e dá um braço.
Lembro-me sempre de um amigo meu que pouco antes de morrer nos paliativos do Hospital da Luz de um cancro no estômago limpava sempre o seu vómito para não dar trabalho às enfermeiras.
segunda-feira, maio 13, 2013
«O País assiste assim à sua destruição económica. De acordo com a teoria económica que suporta estas intervenções, não há nestes dados nada de mal e de anormal. Mesmo que todas as estimativas saiam furadas e revistas a preto. Até há beleza, como disse um responsável governamental esta semana. A deslocação (nome eufemístico para a emigração) do fator trabalho é vista como normal e até positiva.
Nestes modelos, países, pessoas em territórios, e, nestes, afetividades, culturas e relações sociais não existem. Um País pode desaparecer, e as pessoas deslocarem para o Centro e o Norte da Europa, que a situação é vista como ajustamento e normalidade no modelo de intervenção. Acrescenta-se aqui, normal para os outros, não para si, os decisores, os seus empregos, as suas facilidades, as suas networks e lealdades, e, inclusive, as suas relações com o poder económico e financeiro dominante.»
Francisco Madelino
Se há poucos anos alguém tirasse uma fotografia do seu almoço e enviado automaticamente por telemóvel para 500 pessoas a dizer «Vejam o meu almoço» seria considerado esquisito.
Se há vinte anos alguém ligasse do fixo a dizer a toda a gente o que almoçara seria considerado louco.
Pois, agora, com o FB, já ninguém liga.
A mão no arado
«Feliz aquele que administra sabiamente a tristeza e aprende a reparti-la pelos dias Podem passar os meses e os anos nunca lhe faltará Oh! como é triste envelhecer à porta entretecer nas mãos um coração tardio Oh! como é triste arriscar em humanos regressos o equilíbrio azul das extremas manhãs do verão ao longo do mar transbordante de nós no demorado adeus da nossa condição É triste no jardim a solidão do sol vê-lo desde o rumor e as casas da cidade até uma vaga promessa de rio e a pequenina vida que se concede às unhas Mais triste é termos de nascer e morrer e haver árvores ao fim da rua É triste ir pela vida como quem regressa e entrar humildemente por engano pela morte dentro É triste no outono concluir que era o verão a única estação Passou o solitário vento e não o conhecemos e não soubemos ir até ao fundo da verdura como rios que sabem onde encontrar o mar e com que pontes com que ruas com que gentes com que montes conviver através de palavras de uma água para sempre dita Mas o mais triste é recordar os gestos de amanhã Triste é comprar castanhas depois da tourada entre o fumo e o domingo na tarde de novembro e ter como futuro o asfalto e muita gente e atrás a vida sem nenhuma infância revendo tuido isto algum tempo depois A tarde morre pelos dias fora É muito triste andar por entre Deus ausente Mas, ó poeta, administra a tristeza sabiamente.» Ruy Belo
domingo, maio 12, 2013
sábado, maio 11, 2013
Se és noctívago, se tens predisposição orgânica para deitar tarde e acordar tarde, se o teu cérebro e corpo mais ágeis com a quietude da noite - tens de te adaptar.
Se não tens paciência para estudar fiscalidade e se não tens manha para querer aproveitar todos os buracos do sistema - vais perder bastante dinheiro.
Se não tens nem aptidão nem apetência pela linguagem dos computadores, serás muito penalizado.
Se tens um espírito renascentista, se te elevam as coisas do espírito, nasceste na época errada - para o produtivismo, só interessa o conhecimento que produz técnica.
Se tens o cabelo azul, há uma série de trabalhos que te são vedados.
Se gostas de te vestires com identidade, cuidado - vê se coincide com a indumentária do teu ofício.
Se és honesto, generoso - aceita o prejuízo no mercado de trabalho ou então não pagues o preço e quebra a integridade e os espelhos.
Mas lembra-te: a força de trabalho é a única coisa que tens para vender (ou então vive de algo que te caiu ao colo ou da exploração do trabalho alheio). Ela é a única forma de sustentares as necessidades artificias criadas pelo sistema e as necessidades incriadas. Não tens hipótese.
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