sábado, maio 04, 2013
Do real
O prédio tem porteira há uma dezena de anos. A senhora ucraniana é estimada pessoal e profissionalmente pelos moradores. Tem uma filha que estuda (aluna brilhante) e trabalha dezasseis horas por dia e se dedica ao estudo da língua portuguesa com uma amiga ucraniana. No sentido de poupar (palavra sacrossanta), no sentido de aquele prédio de classe média alta ganhar uns troquinhos por mês, mandaram a porteira embora. Bem sei que em tempos de austeridade a qualidade dos serviços é preterida em favor do racionamento de custos (por experiência, sei que hoje o tradutor que consegue trabalho não é o que traduz melhor, mas o que cobra menos). Mas o que mais me choca é que o humanismo se perde. Nesta decisão, como em muitas a que tenho assistido, vemos a dissolução dos laços sociais. O custo «imaterial» do desemprego da senhora, as dificuldades da filha, a ligação emocional - não foram pesadas, não entraram na balança. O mundo está feio.
quinta-feira, maio 02, 2013
O cheiro da pobreza
O objeto que representa a civilização e o progresso não é o livro, o telefone, a Internet
ou a bomba atômica. É a privada
por Mario Vargas Llosa
Há três anos, durante uma viagem de Lima a Ayacucho por terra, fizemos uma escala
no meio de uma chapada na cordilheira, numa aldeia onde havia um pequeno posto
policial. Pedi licença ao chefe para usar o banheiro. "À vontade, doutor", disse ele
gentilmente. "O senhor quer urinar ou defecar?". Respondi que a primeira alternativa.
Sua curiosidade era acadêmica, porque o "banheiro" do posto era um cercado exposto à
intempérie onde urina e fezes se confundiam em meio a nuvens de moscas e um fedor
estonteante.
A lembrança dessa cena me perseguiu sem trégua enquanto, às vezes tapando o nariz, eu
folheava as 422 páginas de um relatório, recentemente publicado pelas Nações Unidas,
intitulado A água para além da escassez: poder, pobreza e a crise mundial da água. A
prudência do título e a frieza e neutralidade de sua redação burocrática não impedem
que esse extraordinário estudo, sem dúvida inspirado na sábia concepção de economia
e progresso de Amartya Sen - um economista que não acredita que o progresso se
resuma a estatísticas -, estremeça o leitor, ao confrontá-lo com rigor cruel à realidade
da pobreza e seus horrores no mundo em que vivemos. A pesquisa realizada por Kevin
Watkins e sua equipe deveria ser consulta obrigatória para todos os que queiram saber o
que significa - na prática - o subdesenvolvimento econômico, a marginalização social e
o fosso que separa as sociedades que os padecem daquelas que já atingiram um nível de
vida alto ou médio.
A primeira conclusão dessa leitura é que o objeto que representa a civilização e o
progresso não é o livro, o telefone, a Internet ou a bomba atômica, e sim a privada.
Onde os seres humanos esvaziam a bexiga e os intestinos é determinante para saber se
ainda estão mergulhados na barbárie do subdesenvolvimento, ou se já começaram a
progredir. As conseqüências desse fato simples e transcendental na vida das pessoas são
vertiginosas. No mínimo um terço da população do planeta - uns 2,6 bilhões de pessoas
- não sabe o que é um sanitário, uma latrina, uma fossa séptica, e faz suas necessidades
como os animais, no mato, à beira de córregos e mananciais, ou em sacolas e latas que
são jogados no meio da rua. E mais ou menos 1 bilhão utiliza águas contaminadas por
fezes humanas e animais para beber, cozinhar, lavar a roupa e fazer a higiene pessoal.
Isso faz com que pelo menos 2 milhões de crianças morram, a cada ano, vítimas de
diarréia. E que doenças infecciosas como cólera, tifo e parasitoses, causadas pelo que
o relatório chama eufemisticamente de "falta de acesso ao saneamento", provoquem
enormes devastações na África, na Ásia e na América Latina, constituindo a segunda
causa de mortalidade infantil no mundo.
Num importante bairro de Nairóbi, no Quênia, chamado Kibera, é generalizado o
sistema das chamadas "privadas voadoras", sacolas de plástico em que as pessoas
fazem suas necessidades para em seguida atirá-las na rua (daí o nome). A prática eleva
as doenças infecciosas no bairro a níveis altíssimos. E os principais atingidos são as
crianças e as mulheres. Por quê? Porque cabe a elas cuidar da limpeza doméstica e do
transporte da água, e com isso se expõem mais ao contágio do que os homens.
Em Dharavi, uma zona populosa de Mumbai, na Índia, há um único banheiro para cada
1.440 pessoas, e na estação das chuvas as enxurradas transformam as ruas da cidade em
rios de excrementos. A fartura de água é, nesse caso, como no de muitas outras cidades
do terceiro mundo, uma tragédia: as condições de existência fazem com que a água, em
vez de vida, seja muitas vezes instrumento de doença e morte.
Paradoxalmente, a questão da água, indissociável da do saneamento, é talvez o principal
problema que mantém homens e mulheres prisioneiros do subdesenvolvimento. Os
dados do relatório são concludentes. Quando os pobres têm acesso à água, trata-se em
geral de águas com todo tipo de bactérias, de males que os contaminam e matam. Mas,
na maioria dos casos, a pobreza condena as pessoas a uma seca ainda mais catastrófica
para a saúde e para as possibilidades de melhorar as condições de vida. Uma das
conclusões mais chocantes da pesquisa é de que os pobres pagam muito mais caro pela
água do que os ricos, justamente porque os povoados e bairros onde eles vivem carecem
de instalações de abastecimento e descarga, o que os obriga a comprá-la de fornecedores
comerciais, a preços exorbitantes.
Assim, os habitantes dos bairros pobres de Jacarta (Indonésia), Manila (Filipinas) e
Nairóbi (Quênia) "pagam 5 a 10 vezes mais por unidade de água do que as pessoas
que vivem nas zonas de elevado rendimento das suas próprias cidades - e mais do que
pagam os consumidores em Londres ou Nova York". Esse preço desigual faz com que
os 20% de famílias mais pobres de El Salvador, Jamaica e Nicarágua invistam um
quinto de seus rendimentos em água, ao passo que no Reino Unido o gasto médio dos
cidadãos com a água representa apenas 3% de sua renda.
Não resisto a citar essa estatística do relatório: "Quando um europeu puxa uma
descarga, ou quando um americano toma banho, utiliza mais água do que a disponível
para centenas de milhões de indivíduos que vivem em bairros degradados ou zonas
áridas do mundo em desenvolvimento". E também a estimativa de que, com a água
poupada caso os "civilizados" fechássemos a torneira enquanto escovamos os dentes,
um continente inteiro de "bárbaros" poderia tomar banho.
À primeira vista, não parece haver muita relação entre a falta de água e a educação das
meninas. E, no entanto, ela existe e é estreita. O relatório calcula que 443 milhões de
dias letivos são perdidos a cada ano por causa de doenças ligadas à água, e que milhões
de meninas faltam à escola e recebem uma educação deficiente ou nula, e em todo caso
inferior à dos meninos, por terem que buscar água diariamente em açudes, rios e poços
que, muitas vezes, ficam a horas de caminhada.
Em "Os miseráveis", Victor Hugo escreveu que "os esgotos são a consciência da
cidade". Numa dessas digressões do narrador que pontuam o romance, enquanto
Jean Valjean chapinhava na merda com o desmaiado Marius às costas, arriscou uma
curiosa interpretação da história a partir do excremento humano. O formidável estudo
da ONU faz coisa parecida, sem a poesia nem a eloqüência do grande romântico
francês, mas com muito mais conhecimento científico. Propondo-se a apenas descrever
as circunstâncias e conseqüências de um problema concreto que atinge um terço da
humanidade, o relatório radiografa com dramática precisão o extraordinário privilégio
de que os outros dois terços desfrutamos toda vez que, quase sem perceber, abrimos
uma torneira para lavar as mãos ou o chuveiro para receber esse jato de água fresca
que nos limpa e revigora, ou quando, impelidos por uma dor de barriga, sentamos na
intimidade do banheiro, aliviamos as entranhas e, distraídos, limpamos com um pedaço
de papel higiênico todos os rastros dessa cerimônia, para em seguida puxar a descarga
e sentir, no turbilhão do vaso, nossa sujeira recôndita sumir nas entranhas dos esgotos,
longe, longe de nossa vida e nosso olfato, para o bem da própria saúde e bom gosto.
Como é infinitamente diversa a experiência desses bilhões de seres humanos que
nascem, vivem e morrem literalmente sufocados pela própria imundície, sem conseguir
arrancá-la de suas vidas, pois, visível ou invisível, a sujeira fecal que expulsam volta
para eles como uma maldição divina, na comida que comem, na água em que se lavam e
até no ar que respiram, causando-lhes doenças e mantendo-os no limite da subsistência,
sem chance de escapar dessa prisão na qual mal sobrevivem.
Um dos aspectos mais sombrios da questão é que, em grande parte por causa do nojo
e da repulsa que os seres humanos sentimos por tudo o que tem a ver com a merda,
os governos e organismos internacionais de promoção do desenvolvimento não
costumam dar a ela a devida prioridade. Geralmente a subestimam, e dedicam recursos
insignificantes a projetos de saneamento. A verdade é que viver em meio à sujeira é
nefasto não apenas para o corpo mas também para o espírito, para a mais elementar
auto-estima, para o ânimo que permite erguer a cabeça contra o infortúnio e manter viva
a esperança, motor de todo progresso. "Nascemos entre fezes e urina", escreveu Santo
Agostinho. Um calafrio deveria subir por nossas costas como uma cobra de gelo ao
pensarmos que um terço de nossos contemporâneos nunca acaba de sair da imundície
em que veio a este vale de lágrimas.
De ora em diante, entendo que todos deveríamos escrever o «Presidente da República» entre aspas
«Um discurso
por BAPTISTA BASTOS
Um alarido inusitado, por injustificável, envolveu o discurso do dr. Cavaco nas cerimónias oficiais do 25 de Abril. No Parlamento a coisa foi pífia, nas ruas a festa assumiu o carácter do protesto contra o que estamos a viver. Ouvi e li o que disse o dr. Cavaco e não fiquei nem surpreendido nem chocado. É a criatura que há, o Presidente que se arranja, irremissível e sombrio. Medíocre, ressentido, mau-carácter, incapaz de compreender a natureza e a magnitude histórica da revolução. E sempre agiu e se comportou consoante a estreita concepção de mundo com que foi educado. A defesa da direita mais estratificada está-lhe no sangue e na alma, além de manter, redondo e inamovível, um verdete avassalador pela cultura. O possidonismo da sua estrutura comportamental pode ser aferido naquela cena irremediável, em que, de mão dada com a família, sobe a rampa que conduz ao Pátio dos Bichos, no Palácio de Belém, quando venceu as presidenciais.
O homem confunde Thomas Mann com Thomas More; ignora que Os Lusíadas são compostos por dez cantos; omite o nome de José Saramago, por torpe vingança, na recente viagem à Colômbia, enquanto o Presidente deste país nomeou o Nobel português com satisfação e realce; não se lhe conhece o mais módico interesse pela leitura; e, quando primeiro-ministro, recusou à viúva de Salgueiro Maia uma pensão, que, jubiloso e feliz, atribuiu a antigos torcionários da PIDE. Conhece-se a arteirice com a qual acabrunhou Fernando Nogueira, seu afeiçoado; a inventona das escutas em Belém, montada por um assessor insalubre e por um jornalista leviano; a confusa alcavala com o BPN, com a qual auferiu uns milhares de euros; contrariou uma tradição, por ódio e rancor (sempre o ódio e o rancor), e não condecorou José Sócrates, quando este saiu de primeiro-ministro. É uma criatura sem amigos; dispõe, apenas, de instantes de amizade interesseira. Nada mais.
O discurso que tem suscitado tanta brotoeja é o seu normal. Tão mal escrito quanto os outros; desprovido de conteúdo racional, emocional e ético; e um atropelo às mais elementares normas de sensatez e equilíbrio exigíveis a quem desempenha aquelas nobres funções. Espanto e indignação porquê e para quê?, se ele não tem emenda nem berço que o recomende.
Mas as coisas, ultimamente, têm atingido proporções inquietantes. A ida a Belém do primeiro-ministro e do ministro das Finanças perturbou o senhor. Parece julgar-se a rainha de Inglaterra, considerando o papel superior a que a si mesmo se atribui. A soberba dele sobe de tom, admitindo alguns de nós e muitos de entre eles que pode haver indícios de oligofrenia, doença incurável. "Eu bem avisei! Eu bem avisei!", costuma agora dizer, como uma tenebrosa ameaça. No núcleo estrutural deste homem emerge a complexidade indecisa de uma alma juvenil irresolvida - e, por isso mesmo, extremamente perigosa.»
«A fadiga presidencial
por MANUEL MARIA CARRILHOHoje23 comentários
A crise tende a multiplicar os impasses, os impasses tendem a aprofundar a crise. Assim se adensa, tanto na vida das pessoas como na das nações, o carrossel de todos os dramas. E o pior que nestas situações pode acontecer é ficar-se preso na teia do que Gregory Batteson designou uma vez como o "double bind".
Trata-se de um dilema que coloca uma pessoa ou uma comunidade perante mensagens ou exigências conflituantes, de tal modo que bloqueia qualquer saída, dando origem a comportamentos paradoxais. É o que acontece quando um professor diz a um aluno "para não ser tão obediente" - ele deve obedecer-lhe desobedecendo ou desobedecer-lhe obedecendo?
Aníbal Cavaco Silva já tinha revelado tendência para a criação deste tipo de situações paradoxísticas, colocando frequentemente os portugueses perante dilemas semelhantes, ao declinar variações discursivas que consistem em acentuar vivamente uma perspetiva para, logo depois, apontar no sentido oposto.
Foi assim que, depois de denunciar com vigor a espiral recessiva que ameaçava o País, veio defender sem equívocos a política que a provocou e os protagonistas que a incentivaram. Que, depois de denunciar a incompetência da troika, do seu memorando e do seu acompanhamento, veio exigir e aplaudir o seu cego cumprimento. Que, depois de denunciar a desorientação e a inação europeias e os seus custos, veio apelar à submissão aos seus mais contraproducentes ditames...
Que, no dia da comemoração da democracia instaurada no 25 de Abril, veio fazer a apologia da sua inutilidade, aconselhando o País a preparar-se para acolher mais ou menos de joelhos os imperativos do novo poder global, de matriz financeiro-especulativa, que hoje corrói todos os regimes democráticos.
Só faltava mesmo a cereja no bolo: e ela apareceu com a insólita aposta de fazer o País caminhar para o consenso através da intensificação dos antagonismos e em apelar à convergência político-partidária estimulando a desconfiança na democracia!
Este passo é, todos o reconheceram, dificilmente compatível com as funções de representação nacional, de mediação institucional e de pedagogia política que deveria caracterizar o exercício presidencial. Não admira por isso que, com esta espiral paradoxística de Cavaco Silva, o País dê crescentes sinais de um novo tipo de fadiga, a fadiga presidencial...
É que há, no bizarro apelo ao consenso do Presidente da República, dois problemas: um de timing e outro de conceito. O de timing remete-nos para o ano de 2009, e para a incompreensão da gravidade da crise que era já então uma evidência, e que devia ter dado lugar a um pedagógico esforço de abertura e de realismo.
A situação deveria ter levado o Presidente da República a procurar então uma solução governamental maioritária, dado que um governo minoritário vive quase sempre num registo de preocupação diária com a sua sobrevivência, o que o torna necessariamente débil e fugaz, como mais uma vez se viu!...O Presidente da República deixou passar a oportunidade, como depois deixaria passar outras...
O que nos leva ao segundo ponto, o do conceito. O consenso remete sempre ora para uma identidade de valores ora para um acordo de objetivos. Mas nem num caso nem no outro se trata de dados adquiridos ou inequívocos, sobretudo numa comunidade em crise, como hoje acontece.
É justamente por isso que o consenso exige uma magistratura presidencial extremamente trabalhosa e exigente do ponto de vista da comunicação e da pedagogia . Eleito por sufrágio direto dos portugueses, autónomo em relação aos partidos, livre das pressões do curto prazo e do imediato, é dele que se espera uma atenção ao essencial que permita criar os laços e estabelecer as relações que as políticas partidárias hoje dificilmente conseguem tecer.
Para o fazer não basta, todavia, jurar a constituição perante o Parlamento. Exige-se mais, requere--se um desígnio, uma visão, um sinal que atraia e focalize a hoje tão disputada atenção dos cidadãos. Exige-se proximidade, afeto, cumplicidade, conversa - o contrário do estilo mestre-escola, em que Cavaco Silva se especializou.
É onde Cavaco Silva mais tem falhado. A sua reação à generalizada crítica que o seu discurso do 25 de Abril suscitou diz realmente tudo: " depois não digam que eu não avisei!", comentou. Na verdade, o seu magistério foi sempre estritamente funcional, burocrático, minimalista, no limite vertiginosamente apolítico!...Uma im- prudência porque, como a política tem horror ao vazio, mais tarde ou mais cedo os acontecimentos tinham de o colocar de novo na arena político-partidária. Foi o que aconteceu com o discurso do 25 de Abril.
Cavaco Silva não só falhou o alvo do seu apelo ao consenso, como perdeu o "momentum" em que o podia fazer com autoridade e eficácia. Resta-lhe agora, aos olhos dos portugueses, vacilar - para usar os termos do filósofo Jean-François Lyotard - entre o litígio e o diferendo: enquanto o primeiro pode ficar pela discordância mais ou menos acentuada, já o segundo conduz ao conflito e à guerra. O tempo o dirá.»
terça-feira, abril 30, 2013
In the Paris Métro, Even Dead Legends Can't Smoke
By Bruce Crumley / Paris Thursday, Apr. 23, 2009
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GUILLAUME CLEMENT / AFP / GETTY
A woman looks at the poster of the movie Coco avant Chanel on April 21, 2009 in Paris.
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Even before France's 2007 ban on lighting up in public areas, smokers had been declared persona non grata in Paris' Métro stations, where they risk hefty fines if they venture the merest puff. Now, however, even people who support France's crackdown on smoking feel things may have gone too far. This week, the Métro refused to run posters advertising the new Coco Chanel biopic Coco, Before Chanel, which stars Amélie's Audrey Tautou, saying the photo that depicts the fashion legend with her trademark cigarette violates anti-smoking laws.
Whether it's "tobacco revisionism," as critics contend, or political correctness à la française, things have just gotten tougher for smokers in France — including those who've long kicked the habit in death. Métrobus, the company that handles display advertising for the Paris Métro and SNCF rail company, says it was obliged to refuse a poster for Coco, Before Chanel because it violates a 1991 law "prohibiting all direct or indirect advertising" for tobacco or alcohol in most public venues. Under that ban, Métrobus reasoned that the poster's shot of a pyjama-clad Tautou holding a flaming ciggie aloft in a typical pose of the real Chanel could be interpreted as an encouragement to light up. It's not like anyone in France ever needed much prodding to do that. But Métrobus decided to play it safe, and asked Coco's studio, Warner Bros., to airbrush the cigarette out or lose the ad. (See pictures of old tobacco ads.)
Warner Bros. opted for the latter — sort of. It replaced the 1,100 posters in its Métro campaign with alternative ones showing Tautou as Chanel sans tabac. The original ads won't go to waste — they have been deployed as planned beyond the confines of the Métro. But in refusing to alter its depiction of Chanel wielding one of her beloved cigarettes, Warner Bros. rejected a revisionist compromise that others have been forced to make.
Earlier this month, the Cinématheque Français in Paris was ordered by Métrobus to remove or mask another purported subliminal call to start smoking: legendary filmmaker Jacques Tati's equally legendary pipe. The Cinématheque's ad for its Tati exhibition uses a shot from the 1958 film My Uncle, featuring the filmmaker in his iconic pose: riding a Solex, decked out in felt hat and overcoat, signature pipe clenched between his teeth. Forced by Métrobus — and, claims the company, France's advertising law — to do something about the illicit pipe, the Cinématheque decided not to airbrush it out, but instead drew a yellow propeller over the bowl to turn it into a child's pinwheel.
In doing so, the Cinématheque explained in a statement, it "ensured that the law is respected and that, above all, everyone realizes the absurdity of this substitution." Cinématheque officials aren't alone in their annoyance. Unions representing French film directors and critics issued a joint denunciation of what they called "unbearable revisionism" behind the moves and "censorship" of the beloved Tati's much-adored pipe.
Similarly, Socialist politician Claude Evin — the former health minister who authored the 1991 law behind the current rumpus — lamented the "ridiculous" efforts to erase signs of the very real smoking habits Tati and Chanel had in their lifetimes. Asked by reporters if she supported Métrobus' application of the law, current Health Minister Roselyne Bachelot replied in alarm, "Ah non, I'm not for taking Jacques Tati's pipe away from him!"
But Chanel and Tati aren't the first historical figures with (in)famous smoking addictions to have their cigarettes posthumously confiscated. In 1996, for example, France's postal service issued a stamp of French culture and political icon André Malraux using a well-known photo of him — though only after the smoldering butt visible in his hand in the original had been removed.
And in 2005, France's National Library used a celebrated shot of Jean-Paul Sartre to advertise its "Controversies" exhibit, but first airbrushed the ubiquitous clope from between his tobacco-stained fingers. In the end, the altered picture wound up joining the other controversial photos in the exhibition, after detractors noted the irony of the library's effort to erase that ever-present existential detail from the philosopher's life.
Despite the gnashing of teeth all this tampering has prompted, the debate is sure to continue. After all, British director Guy Ritchie will presumably have to feature a pipe in ads for his upcoming movie about Sherlock Holmes, due out in France next year. And promising to be even more inflammatory, marketing will soon start on French director Joann Sfar's film about late French signer Serge Gainsbourg, a pop hero whose bad boy image was built on lavish public displays of tobacco and alcohol abuse. Good luck banning that.
Read about French culture.
Read more: http://www.time.com/time/world/article/0,8599,1893382,00.html#ixzz2RxDviWTJ
segunda-feira, abril 29, 2013
«Os livros fazem fazer coisas. Divórcios, poemas. O amor também. Ele gosta de livros. Ela gosta dele. Oferece-lhe livros. Ele lê os livros que ela lhe oferece deitado no lado esquerdo da cama. Ela não lê, antes medita: Para que lado se deita o amor? Por qual narina respira melhor? Ela levanta-se do lado direito da cama e veste o robe de seda púrpura. Prepara-se para o afecto. Ele continua a ler: prefere a carne e o odor forte de certas frases. Adormece com o livro aberto a fazer o cume do coração. Com a página 63. Ela destapa-lhe o coração, lê uma frase aleatória. Rasga, amarfanha, mastiga, engole. Despe o robe de seda púrpura e veste o pijama com o cheiro a vésperas. Algodão impregnado de monotonia. Os livros fazem fazer coisas. Divórcios, poemas. O amor também.»
Sandro William Junqueira
domingo, abril 28, 2013
sexta-feira, abril 26, 2013
ATHLETICS »
Honesty of the long-distance runner
Vitoria-based athlete Iván Fernández Anaya refused to take advantage when his rival stopped short of the finishing line in a cross-country race
CARLOS ARRIBAS / EL PAÍS Madrid 19 DIC 2012 - 21:29 CET
Fernández Anaya helps Mutai toward the line. / CALLEJA (DIARIO DE NAVARRA)
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Is winning all that counts? Are you absolutely sure about that?
Two weeks ago, on December 2, Spanish athlete Iván Fernández Anaya was competing in a cross-country race in Burlada, Navarre. He was running second, some distance behind race leader Abel Mutai - bronze medalist in the 3,000-meter steeplechase at the London Olympics. As they entered the finishing straight, he saw the Kenyan runner - the certain winner of the race - mistakenly pull up about 10 meters before the finish, thinking he had already crossed the line.
Fernández Anaya quickly caught up with him, but instead of exploiting Mutai's mistake to speed past and claim an unlikely victory, he stayed behind and, using gestures, guided the Kenyan to the line and let him cross first.
He was the rightful winner. He created a gap that I couldn't have closed"
"I didn't deserve to win it," says 24-year-old Fernández Anaya. "I did what I had to do. He was the rightful winner. He created a gap that I couldn't have closed if he hadn't made a mistake. As soon as I saw he was stopping, I knew I wasn't going to pass him."
Fernández Anaya is coached in Vitoria by former Spanish distance runner Martín Fiz in the same place, the Prado Park, where he clocked up kilometers and kilometers of training to become European marathon champion in 1994 and world marathon champion in 1995.
"It was a very good gesture of honesty," says Fiz. "A gesture of the kind that isn't made any more. Or rather, of the kind that has never been made. A gesture that I myself wouldn't have made. I certainly would have taken advantage of it to win."
I wouldn´t have done it. I would have taken advantage of the mistake to win"
Fiz says his pupil's action does him credit in human if not athletic terms. "The gesture has made him a better person but not a better athlete. He has wasted an occasion. Winning always makes you more of an athlete. You have to go out to win."
Fiz recalls that at the 1997 World Championships in Athens he was followed by his countryman Abel Antón the whole way. In the final meters Antón attacked and easily won the race, having exploited all Fiz's hard work. "I knew that was going to happen. [...] But competition is like that. It wouldn't have been logical for Antón to let me win."
Fernández Anaya trains in the Prado every day, putting in double sessions three times a week - when his vocational studies allow. Experts say he is one step away from entering the elite of Spanish cross-country running. His goal this year is to at least make the Spanish team for the world cross-country champions.
But according to his coach, the pressure gets to him. "He doesn't know how to overcome the pressure, which is what differentiates champions. If he did, he would have been at the recent European championships," Fiz notes.
"In the Burlada cross-country race there was hardly anything at stake [...] apart from being able to say that you had beaten an Olympic medalist," says Fernández Anaya.
"But even if they had told me that winning would have earned me a place in the Spanish team for the European championships, I wouldn't have done it either. Of course it would be another thing if there was a world or European medal at stake. Then, I think that, yes, I would have exploited it to win... But I also think that I have earned more of a name having done what I did than if I had won. And that is very important, because today, with the way things are in all circles, in soccer, in society, in politics, where it seems anything goes, a gesture of honesty goes down well."
Alemanha: "In" ou "Out"?
por MANUEL MARIA CARRILHOOntem55 comentários
O 25 de Abril de que hoje precisamos é europeu. Não porque não haja muito a fazer por cá, mas porque a mudança que agora se impõe como decisiva para que se consiga sair da crise em que estamos atolados é europeia.
Temos que nos concentrar no essencial. E o essencial é que a crise despoletada pela situação da dívida grega em fins de 2009 foi a ocasião, mas também o pretexto, para se desencadear uma operação de profunda transformação da natureza e dos objetivos da União Europeia e, especialmente, da Zona Euro.
O que é preciso ter bem presente é que o euro e a união monetária não apareceram por acaso ou num lance de pura improvisação política. Não, nasceram de uma tripla expectativa - e de um triplo compromisso - de convergência, de crescimento e de equilíbrio, entre os países que constituíram a Zona Euro.
E sejam quais forem as causas que se entenda que estiveram na origem da "crise do euro", não se podem desligar as responsabilidades apuradas - e elas foram bem mais variadas do que muitas vezes se pretende - do quadro de acompanhamento e de solidariedade institucional que permanentemente as enquadrou durante toda uma década.
Foi contudo isto que infelizmente aconteceu, nos últimos dois anos e meio, sob o impulso alemão, a fraqueza francesa e a generalizada vassalagem dos líderes europeus. Tudo começou com a Grécia, mas agora já ninguém sabe onde, nem como, irá acabar... E o que começou não foi bem o que parecia - pôr em ordem um Sul preguiçoso e gastador -, mas um lance extraordinariamente audaz no sentido de um novo, e inédito, domínio alemão na Europa.
Insisto: o que é preciso entender é que a crise do euro criou a ocasião propícia para a Alemanha alterar a correlação de forças europeia, lançando-se numa nova afirmação como potência na Europa. E de o fazer clandestinamente, com o magnífico álibi de estar a ajudar os outros...
O facto é que, em pouco mais de dois anos, ela conseguiu impor-se e dominar a Zona Euro e a União Europeia como nunca tinha acontecido, pondo fim à igualdade dos Estados, abandonando o espírito de solidariedade entre os povos, marginalizando a Comissão Europeia e ignorando o método comunitário. Da Alemanha europeia passou-se à Europa alemã, tão bem descrita por Ul- rich Beck.
A "solução alemã" impôs-se através de uma forma de política de austeridade que, insinuando amanhãs mais radiosos sempre adiados, tudo submete afinal às exigências e aos imperativos da sua política nacional. Acontece que, dois anos passados, os resultados desta política são catastróficos nos países onde ela foi aplicada, e ameaçam agora muitos outros com uma perigosa contaminação.
O "consenso de Berlim" que tem dominado a Europa ameaça assim conduzir-nos ao colapso, com uma recessão cada vez mais funda (2013 será um segundo ano de recessão na Zona Euro) e um desemprego que atingiu valores intoleráveis, 26 milhões em toda a União Europeia.
Neste momento, depois dos países sob resgate formal e informal, é toda a Zona Euro (e não só...) que começa a vacilar com as consequências desta política, com todas as economias a revelarem preocupantes sinais dos efeitos da contaminação austeritária - com exceção da Alemanha, da Áustria... e pouco mais. Até já Durão Barroso fala, embora sem tirar disso as devidas consequências, nos erros e nos limites das políticas de austeridade... E a Holanda dá sinais de alerta, como acabou de se ver na semana passada, ao adiar sine die as medidas de austeridade previstas, em nome da confiança e do crescimento.
Compreendem-se assim bem as polémicas afirmações feitas há dias por George Soros num texto publicado no Syndicate Project, e depois retomadas em entrevista ao El País. Ele chamou a atenção para o essencial, que é o modo como o projeto europeu tem sido estropiado em claro benefício da Alemanha.
A solução da crise europeia passa pois por, de um modo muito claro, se colocar a questão de saber quem é que manda na Europa, e nomeadamente na Zona Euro: se é a Alemanha, mais ou menos a solo, ou se é a maioria do conjunto de países que a constituem. E muito concretamente em saber se esta maioria continua a caucionar a atual linha austeritária, ou se ela pretende retomar e afirmar o espírito e os compromissos que estiveram na sua origem.
Queremos uma Europa de Estados com soberania partilhada ou uma Europa de vassalos de uma potência hegemónica? - é esta a questão. E ela é cada vez mais incontornável e decisiva, é dela que depende o futuro da Europa. E este debate devia fazer-se imediatamente na Cimeira do Euro, entidade que reúne os líderes dos países da Zona Euro, e que foi criada no Último Conselho Europeu.
Se o atual consenso de Berlim só serve, na verdade, à Alemanha e aos seus interesses nacionais, então a saída do euro que se deve equacionar é, como diz G. Soros, a da Alemanha: "A Alemanha deve decidir se quer refazer a Zona Euro na forma que estava destinada a ser, o que supõe que aceita as responsabilidades e os encargos necessários para avançar nessa direção. Ou se, caso contrário, deve considerar sair do euro e deixar que o resto dos países criem as obrigações conjuntas e combatam a crise."
Trata-se de uma perspetiva importante, a reter e a trabalhar. Ela muda o paradigma dominante das relações de força na UE, permitindo alterações estratégicas decisivas para lidar com a crise do euro. E, como sublinha G. Soros, o "efeito sobre os países devedores seria quase miraculoso. De repente, converter-se-iam em economias competitivas e a sua dívida diminuiria enormemente, em termos reais, com a depreciação do euro. O peso do ajuste recairia sobre a Alemanha, que teria de lidar com o peso de uma divisa mais forte do que o euro, retirando-lhe competitividade nos mercados internacionais."
Como também já em 2012 Joseph Stiglitz tinha afirmado em declarações à BBC, nada - nem a ameaça de uma eventual saída da Alemanha do euro - pode ou deve impedir a criação de eurobonds, se a maioria dos países da Zona Euro considerar que tal é vital para o seu futuro. E quanto mais tarde se confrontar a Alemanha neste ponto, pior!
E atenção: os demónios que provocaram duas guerras tremendas na Europa estão apenas adormecidos, como recentemente lembrou Jean-Claude Juncker. E é bom não esquecer que o "imperialismo alemão" que esteve na sua origem tem raízes bem mais fundas do que muitas vezes se pensa. Basta, para o compreender, ler o extraordinário livro de Shelley Baranovski sobre o "german colonialism and imperialism from Bismarck to Hitler" (Cambridge U. P. 2010). Ele ajuda a perceber porque é que um espírito tão aberto, tão tolerante e tão pacifista como Einstein defendeu o desaparecimento da Alemanha do mapa europeu!...
quinta-feira, abril 25, 2013
«Se as consequências próximas ou distantes, leves ou pesadas de uma determinada política se devem considerar ´normais` , porque ubíquas, difusas, endémicas, tal não quer dizer que não se deva tentar que alguns seres humanos, pelo menos, reencontrem a consciência de si próprias e se salvem daquele ´complexo de rebanho` de que fala ALDOUS HUXLEY!!!»
Alberto Castro Ferreira
terça-feira, abril 23, 2013
Palavras Caras
O debate é antigo.
Deve o escritor utilizar palavras consabidas ou revitalizar palavras menos conhecidas? Certo é que grandes monstros literários habitam os dois paradigmas, tornando a discussão permanentemente renovável.
Um dos metadiálogos literários sobre o tema pertence a Faulkner e a Hemingway.
He [Ernest Hemingway] has never been known to use a word that might send a reader to the dictionary.
Poor Faulkner. Does he really think big emotions come from big words? He thinks I don't know the ten-dollar words. I know them all right. But there are older and simpler and better words, and those are the ones I use.
Um dos princípios do jornalismo é o de que entre dois sinónimos a opção do escrevente deverá recair no sinónimo mais comummente utilizado, de modo que o público seja o maior possível. Bem sei que literatura e jornalismo são coisas bem distintas, mas, feliz ou infelizmente, muitos jornalistas migram para a ficção transportando essa ideia.
É verdade que a leitura de um texto com palavras caras é menos fluida Ou o leitor pura e simplesmente ignora tais palavras e não vai ao dicionário, deixando zonas brancas na compreensão do texto (a adivinhação pelo contexto é, regra geral, um embuste), ou pega no dicionário ante cada palavra que desconhece ou consulta-o depois de sublinhar um conjunto de palavras na obra. A quebra da fluidez pode afastar leitores, mas não deixa de ser um argumento vicioso – a fluidez do entendimento aumenta na proporção directa do estudo de textos em que tropeçamos mais vezes. Quanto mais lemos, quantas mais palavras caras consultamos nos dicionários, menos vezes temos de o fazer. Percebemos isto facilmente quando nos iniciamos no estudo de uma língua estrangeira. Era o próprio Lenine que afirmava que não era a arte que devia descer ao povo, mas o povo que devia ascender à arte.
Para Borges, uma palavra cara num texto era como um borrão de tinta – qualquer coisa que encadeava a vista e que nos fazia reparar mais na palavra do que na perspectiva global da página, do capítulo ou da obra. Não duvido de que muitos autores, mormente numa fase imatura da sua escrita, procuram despejar uma torrente de palavras caras (muitas vezes encaixadas forçadamente) para exibir uma putativa erudição. O narcisismo, a sensação de vaidade do conhecimento de algo partilhado por muito poucos, o poder de mandar o leitor fazer uma leitura intertextual (de que a ida ao dicionário é o exemplo mais corriqueiro) se quiser compreender a sua obra podem ser móbeis de muitos escritores na senda de Aquilino.
Mas convém lembrar que vivemos tempos em que o léxico utilizado (na televisão, na imprensa, na comunicação das novas tecnologias de informação, nos próprios livros) é cada vez mais reduzido. George Steiner afirmou que «Shakespeare usava 24 mil palavras. Num estudo muito recente, pela companhia telefónica americana Bell, o total de palavras usadas por 90 por cento dos americanos ao telefone é de 150 palavras». James Joyce recorreu a mais de 30 mil palavras em Ulisses.Vasco Pulido Valente escreveu que quando se dedicou a ler a obra inteira de Camilo verificou que muitas palavras não estavam em dicionário algum. Porquê? Porque um dicionário é um registo, um espelho das palavras usadas pelos escreventes e pelos falantes. Não utilizar determinadas palavras é aniquilá-las, é contribuir para a sua expulsão da língua.
Aqui, entramos num ponto essencial. Qual o problema de as palavras irem morrendo? Não é verdade que umas entram e outras saem? Porque devemos a todo o custo tentar preservar palavras que ninguém conhece? Porque quanto mais palavras temos cá dentro, mais chaves de decifração do mundo e do humano possuímos. Não só isso. Mesmo quem não defende a tese de que não há sinónimos perfeitos e de que portanto cada palavra, pelo seu étimo, pela sua conotação, transporta um significado único; mesmo quem não subscreve tal ideia concordará que o escritor munido de mais palavras dispõe de mais instrumentos para trabalhar a plasticidade, a beleza e a musicalidade da língua.
Um acrescento importante. Não são apenas as palavras que morrem pela falta de uso. Determinados significados associados às palavras morrem quando deixam de ser empregados (quando consultamos um dicionário, percebemos que as palavras são quase todas muito mais polissémicas do que julgamos). As almas mundas de Camões remetem-nos para um adjectivo extinto – mundo enquanto oposto de imundo. É essa a preocupação expressa por Orwell no final de 1984, quando a novilíngua mantinha a palavra «livre», mas já não aplicável a homens livres, permanecendo apenas para frases como: «O cão está livre de pulgas.»
Termino com uma confissão. Uma das coisas que mais me alimentam o espírito, provocando aquele preenchimento interior que é a satisfação intelectual, é o de conhecer uma palavra nova todos os dias. É o tipo de contentamento que não envelhece nem se embota – uma delícia no corpo que não consigo transmitir em palavras.
Eis algumas. (Fonte: Houaiss.)
vulpino Datação: 1840-1871 cf. SilCas
n adjetivo
1 relativo a ou próprio de raposa; raposino
Ex.:
2 (1881)Derivação: sentido figurado.
hábil com ardis; ardiloso, astuto, raposeiro, raposino, traiçoeiro
Ex.: vendedor v.
metuendo Datação: 1690 cf. Alma
n adjetivo
Uso: formal.
que causa temor, que mete medo
talássico Datação: 1877 cf. MS7
n adjetivo
1 relativo ao mar e às águas oceânicas profundas
2 Uso: formal.
da cor do mar
Ex.: azul t.
pusilanimidade Datação: sXV cf. FichIVPM
n substantivo feminino
1 característica ou condição do que é pusilânime
2 fraqueza de ânimo, falta de energia, de firmeza, de decisão
3 medo, covardia
queimor Datação: 1858 cf. MS6Ortoépia: ô
n substantivo masculino
1 sabor muito picante; ardência, queimo
Ex.: o q. da pimenta-malagueta
2 Derivação: por metáfora.
estado de sobreexcitação, de arrebatamento; exaltação
Ex.: o q. dos ânimos
3 Derivação: por extensão de sentido.
forte perturbação; ardor
Ex.: o q. das paixões
4 Derivação: por extensão de sentido.
quentura febril
Ex.: o q. do corpo
5 calor intenso
pudicícia Datação: 1540 cf. JBarV
n substantivo feminino
1 qualidade do que é casto; castidade, pureza
2 característica do que é pudico, tímido, recatado
Ex.: a p. do primeiro amor
3 m.q. pudor
femeeiro Datação: 1858 cf. MS6
n adjetivo e substantivo masculino
1 diz-se de ou macho que busca incessantemente a fêmea
Ex.: <é um f., vive atrás da fêmea>
2 Regionalismo: Brasil.
diz-se de ou reprodutor (touro ou garanhão) cujas crias são, na maioria, fêmeas
3 m.q. mulherengo ('dado a mulheres')
n adjetivo
Regionalismo: Minho.
4 m.q. fêmeo (vitic)
n substantivo masculino
5 reunião de meretrizes; femeaço
justafluvial Datação: 1899 cf. CF1
n adjetivo de dois gêneros
que está nas imediações ou junto de um rio; marginal, ribeirinho
deletério Datação: 1713 cf. RB
n adjetivo
1 que é prejudicial à saúde; insalubre
2 Derivação: por extensão de sentido.
que possui um efeito destrutivo; danoso, nocivo
3 Derivação: sentido figurado.
que conduz à imoralidade, à corrupção; degradante
4 Rubrica: genética.
cujo fenótipo é prejudicial para o organismo (diz-se de gene)
malsão Datação: a1587 cf. APP
n adjetivo
1 de saúde precária; que não se curou de todo, em mau estado
Ex.:
2 (1600)
nocivo à saúde; insalubre, doentio
Ex.: o ar m. que se respira junto aos pântanos
3 Derivação: sentido figurado.
que denota uma perversidade intelectual ou moral; mórbido
Ex.: curiosidade m.
4 Derivação: sentido figurado.
que ameaça o equilíbrio intelectual, moral; nocivo, maléfico
Ex.: leitura m.
1mormacento Datação: 1716 cf. RB
n adjetivo
em que há mormaço
Ex.: dia m.
mormaço Datação: 1716 cf. RB
n substantivo masculino
1 neblina quente e úmida, resultante de forte calor
2 temperatura abafada, quente
3 Regionalismo: Brasil. Uso: informal.
indivíduo impertinente, aborrecido
4 Regionalismo: Pernambuco. Uso: informal.
m.q. namoro ('ato', 'relação')
feérico Datação: 1899 cf. CF1
n adjetivo
1 pertencente ao mundo da fantasia; mágico
2 que revela suntuosidade; luxuoso, fastuoso, deslumbrante
Ex.: decoração f.
3 que turva a vista por excesso de luz ou brilho; deslumbrante, ofuscante
Ex.: iluminação f.
empíreo Datação: sXIV cf. FichIVPM
n substantivo masculino
1 Rubrica: mitologia.
lugar em que moram os deuses
2 Rubrica: teologia.
lugar reservado aos santos e bem-aventurados; o céu
n adjetivo
3 relativo ao céu; celestial
4 que está acima de tudo; supremo
adâmico Datação: 1871 cf. DV
n adjetivo
1 Rubrica: religião.
relativo a Adão, o primeiro homem, segundo a Bíblia
2 Derivação: por extensão de sentido.
relativo à primitiva raça humana
3 Derivação: por extensão de sentido.
que é primitivo
imarcescível Datação: 1680 cf. LacSJ
n adjetivo de dois gêneros
1 que não perde o viço, o frescor
Ex.: flor i.
2 Derivação: sentido figurado.
impossível de corromper; incorruptível, inalterável
Manuel Monteiro
sábado, abril 20, 2013
quinta-feira, abril 18, 2013
Por Manuel Maria Carrilho
É possível combater o défice e a dívida, sem o garrote da austeridade. É possível combater o desemprego e a precariedade, mesmo sem grande crescimento. Para tanto, o que é preciso é outra compreensão da crise e pensar a médio/longo prazo, inventado um novo modelo de desenvolvimento. Rebobinar o passado não nos leva ao futuro, mas ao impasse. São estas algumas das teses de um dos sábios do socialismo francês, Michel Rocard.
Nada melhor, nem mais útil, no momento da reeleição de António José Seguro como secretário-geral do Partido Socialista, do que refletir nos conselhos deste antigo primeiro-ministro francês. Conselhos que, à luz das enormes dificuldades atuais do Presidente François Hollande - que está prestes a concluir o seu primeiro ano de mandato em condições calamitosas -, ganham ainda maior pertinência e oportunidade.
Num livro recente, que intitulou La Gauche n"a plus Droit à l"Erreur (Ed. Flammarion), Michel Rocard, que foi sempre um socialista aberto e moderado, faz uma clarificadora análise da situação atual, global e europeia, estabelece um diagnóstico inovador sobre a crise que vivemos, e defende linhas de ação originais que merecem a maior atenção.
Quanto à análise, é bom ter presente que há muito que Michel Rocard insiste em que a ideia, dominante em muitos governos europeus, de pagar a dívida em condições que enfraquecem ou inviabilizam o crescimento e provocam recessão é uma enorme estupidez, sobretudo que justamente condena qualquer perspetiva séria de efetivo pagamento da dívida.
E que, portanto, o que é urgente, é inventar - porque é disso mesmo que se trata - um equilíbrio entre o pagamento da dívida e a despesa (pública, mas não só) necessária à manutenção do poder de compra e do investimento.
Mas como? Tem sido aqui, neste ponto, que todos os impasses se têm acumulado e todos os dilemas se têm agudizado. Talvez porque, como sugeriu Joseph Stiglitz, todos eles conduzem ao paradoxo de se estar a pensar fazer uma transfusão a um doente que tem uma hemorragia interna...
O problema, pensa Michel Rocard, é mesmo este, pelo que a boa questão é a de saber onde é a hemorragia e quais são as suas causas. Isto é, dito de outro modo, "porque é que os nossos países se tornaram viciados na dívida? Porque é que, se diminui a transfusão, eles entram em recessão?"(p. 83)
A resposta está na história. Se olharmos para trás, umas décadas, verifica-se que este processo se inicia nos anos 80, depois de mais ou menos 30 anos em que as economias cresceram sem aumentar a sua dívida: foram 30 anos sob a égide do pleno emprego e do regular aumento do poder de compra.
Na linha de um fordismo que - convém lembrar - via o salário mais como um elemento nuclear da procura do que como um custo. Foi precisamente isso que levou Henry Ford a quase dobrar os salários dos seus operários e a diminuir o tempo de trabalho - é muito instrutivo reler hoje o famoso discurso onde ele explicou "why I favour 5 days work with 6 days pay", de 1926.
Esta inspiração seria mais tarde desenvolvida, no plano social, por Beveridge, e no plano económico por Keynes, dando forma ao que se convencionou designar o Estado Providência. (Entre parêntesis: e se o pleno emprego se instalou, foi em paralelo com outro processo de que raramente se fala, o da diminuição do tempo de trabalho, uma constante até aos anos 70 do século XX.)
E isto só viria a ser posto em causa nos anos 80, a seguir ao impacto da crise petrolífera da década anterior, com a revolução conservadora de Margaret Tatcher e Ronald Reagan. Foi aí que realmente tudo mudou. Os salários deixaram de crescer, nos quinze países mais ricos da OCDE a percentagem dos salários no PIB caiu constantemente, passando de 67% do PIB em 1982 para 57% em 2007: dez pontos!
É então que a dívida emerge e começa a crescer, num movimento ascendente que nunca mais parará: "Para garantir aos acionistas os lucros colossais e garantir um alto nível de consumo do conjunto da população, o neoliberalismo tem estruturalmente necessidade, todos os anos, de um nível de dívida mais elevado, para continuar a prosperar."(p. 92)
Hoje, a dívida total dos Estados Unidos é de 350% do PIB, e a da Inglaterra é de 900%. E a liquidez em circulação no mundo atinge o "exuberante" valor de 800 biliões de dólares, enquanto o PIB mundial anda nos 62 - ou seja a "economia" virtual é cerca de 13 vezes superior à economia real!
A análise de Michel Rocard altera substancialmente o retrato dominante da crise, e aponta para um diagnóstico que deve fazer pensar: "Nós não estamos face a uma crise do Estado-Providência, mas antes e acima de tudo face a uma crise do capitalismo, cuja duração e gravidade tornam insuficientes as respostas clássicas do Estado-Providência."(p. 107)
E continua: "A causa fundamental da crise encontra-se nas desigualdades que se cavaram no sector privado. Fala-se muito de dívida pública, em particular porque os Estados tiveram de funcionar como garante dos bancos, mas a crise não vem do Estado. A crise vem do desemprego e das desigualdades de rendimentos."
Este diagnóstico conduz, por sua vez, a uma nova abordagem do crescimento, da produtividade, do tempo de trabalho, da energia - além, naturalmente, da Europa. E a um conjunto de medidas muito concretas, que Michel Rocard apresenta com simplicidade, sentido pedagógico e ambição política. Só assim se libertará o futuro das armadilhas do passado. Vale mesmo a pena ler.
«Certo dia parei para observar as mulheres e só pude concluir uma coisa: elas não são humanas. São espiãs. Espiãs de Deus, disfarçadas entre nós.
Pare para refletir sobre o sexto-sentido.
Alguém duvida de que ele exista?
E como explicar que ela saiba exatamente qual mulher, entre as presentes, em uma reunião, seja aquela que dá em cima de você?
E quando ela antecipa que alguém tem algo contra você, que alguém está ficando doente ou que você quer terminar o relacionamento?
E quando ela diz que vai fazer frio e manda você levar um casaco? Rio de Janeiro, 40 graus, você vai pegar um avião pra São Paulo. Só meia-hora de vôo. Ela fala pra você levar um casaco, porque "vai fazer frio". Você não leva. O que acontece?
O avião fica preso no tráfego, em terra, por quase duas horas, depois que você já entrou, antes de decolar. O ar condicionado chega a pingar gelo de tanto frio que faz lá dentro!
"Leve um sapato extra na mala, querido.
Vai que você pisa numa poça..."
Se você não levar o "sapato extra", meu amigo, leve dinheiro extra para comprar outro. Pois o seu estará, sem dúvida, molhado...
O sexto-sentido não faz sentido!
É a comunicação direta com Deus!
Assim é muito fácil...
As mulheres são mães!
E preparam, literalmente, gente dentro de si.
Será que Deus confiaria tamanha responsabilidade a um reles mortal?
E não satisfeitas em ensinar a vida elas insistem em ensinar a vivê-la, de forma íntegra, oferecendo amor incondicional e disponibilidade integral.
Fala-se em "praga de mãe", "amor de mãe", "coração de mãe"...
Tudo isso é meio mágico...
Talvez Ele tenha instalado o dispositivo "coração de mãe" nos "anjos da guarda" de Seus filhos (que, aliás, foram criados à Sua imagem e semelhança).
As mulheres choram. Ou vazam? Ou extravazam?
Homens também choram, mas é um choro diferente. As lágrimas das mulheres têm um não sei quê que não quer chorar, um não sei quê de fragilidade, um não sei quê de amor, um não sei quê de tempero divino, que tem um efeito devastador sobre os homens...
É choro feminino. É choro de mulher...
Já viram como as mulheres conversam com os olhos?
Elas conseguem pedir uma à outra para mudar de assunto com apenas um olhar.
Elas fazem um comentário sarcástico com outro olhar.
E apontam uma terceira pessoa com outro olhar.
Quantos tipos de olhar existem?
Elas conhecem todos...
Parece que freqüentam escolas diferentes das que freqüentam os homens!
E é com um desses milhões de olhares que elas enfeitiçam os homens.
EN-FEI-TI-ÇAM !
E tem mais! No tocante às profissões, por que se concentram nas áreas de Humanas?
Para estudar os homens, é claro!
Embora algumas disfarcem e estudem Exatas...
Nem mesmo Freud se arriscou a adentrar nessa seara. Ele, que estudou, como poucos, o comportamento humano, disse que a mulher era "um continente obscuro".
Quer evidência maior do que essa?
Qualquer um que ama se aproxima de Deus.
E com as mulheres também é assim.
O amor as leva para perto dEle, já que Ele é o próprio amor. Por isso dizem "estar nas nuvens", quando apaixonadas.
É sabido que as mulheres confundem sexo e amor.
E isso seria uma falha, se não obrigasse os homens a uma atitude mais sensível e respeitosa com a própria vida.
Pena que eles nunca verão as mulheres-anjos que têm ao lado.
Com todo esse amor de mãe, esposa e amiga, elas ainda são mulheres a maior parte do tempo.
Mas elas são anjos depois do sexo-amor.
É nessa hora que elas se sentem o próprio amor encarnado e voltam a ser anjos.
E levitam.
Algumas até voam.
Mas os homens não sabem disso.
E nem poderiam.
Porque são tomados por um encantamento
que os faz dormir nessa hora.»
Luís Fernando Veríssimo
quarta-feira, abril 17, 2013
segunda-feira, abril 15, 2013
Há sentimentos que temos que não encontram palavra alguma em idioma algum.
Esta música permitiu-me uma coisa única - senti pela primeira vez que alguém expressava o sentimento que experenciara, particularmente em duas ocasiões. (Deliciosos os adjectivos e a sua musicalidade terminados em i grego que Robert Smith escolhe.)
Ela morava no estrangeiro, estava de passagem indo-se embora no dia seguinte, e eu encontrei-a por acaso na paragem de autocarro. Namoráramos há oito anos e o encontro causou uma efervescência em ambos. Apesar do encanto, apesar de saber que não a voltaria a ver facilmente (e, de facto, não voltei), um trabalho de grupo pendia sobre mim e, a muito custo, disse-lhe que não podia tomar café com ela - tinha um grupo à minha espera na faculdade para fazer um trabalho de não-sei-quê de uma disciplina de que não recordo com pessoas de que não recordo.
O outro é demasiado trágico. Desperdicei em nome das tizzy fizzy idiot things a oportunidade de estar com uma pessoa que morreu - e de dizer-lhe o quanto gostava dela.
sexta-feira, abril 12, 2013
quinta-feira, abril 11, 2013
É certo que a maioria das pessoas é mais de falar do que de ouvir. Mas sabes aquelas que ocupam a maioria do tempo e que mal te ouvem e que quando o fazem fingem que te ouvem ou despacham-te num instante. Pois, pois, claro, claro, sim, sim, sim, como eu estava a dizer... Na cabeça delas, o seu discurso nunca é interrompido. Quando discutes e elas te dão espaço, o que elas estão a fazer é a pensar no que vão dizer a seguir, a lembrar-se de tudo, a estruturar a coisa. E se tu tens um braço partido, a unha dele/a encravada é mais importante.
quarta-feira, abril 10, 2013
Amizade, Emerson
A RUDDY drop of manly blood
The surging sea outweighs;
The world uncertain comes and goes,
The lover rooted stays.
I fancied he was fled,
And, after many a year,
Glowed unexhausted kindliness
Like daily sunrise there.
My careful heart was free again,--
O friend, my bosom said,
Through thee alone the sky is arched,
Through thee the rose is red,
All things through thee take nobler form
And look beyond the earth,
The mill-round of our fate appears
A sun-path in thy worth.
Me too thy nobleness has taught
To master my despair;
The fountains of my hidden life
Are through thy friendship fair.
terça-feira, abril 09, 2013
segunda-feira, abril 08, 2013
Teorias que ouvi sobre as idades.
1. - Tenho oitenta e dois. Farei a última capicua daqui a seis anos na melhor das hipóteses. O mais doloroso foram os quarenta. É esse o meridiano que separa a vida tranquila da vida das coisas chatas. Os quarenta são terríveis, porque de ora em diante são sempre «entas» - entra-se na era dos enta sem se sair.
2. - Falar de uma idade que não se teve é como falar do sexo que não se tem. Só quando cheguei aos cinquenta é que percebi certos aspectos da vida. É impossível percebê-los antes dos cinquenta. A minha vista ficou mais turva e eu não me importei perante a claridade do entendimento que ganhei. É impossível de explicar. É como aquela frase do Leonard Cohen que diz ergueu a taça que não pode ser erguida aos olhos da juventude - a taça da verdade.
3. - O processo de envelhecimento é um processo de embotamento da intensidade - as respostas emocionais são mais brandas, nem tão negativas, nem tão positivas. Os melhores anos são os quarentas. É nessa altura que começa o abrandamento. Ganha-se uma serenidade. Ralamo-nos menos com as coisas, porque passamos a entender o que é verdadeiramente importante e ainda conservando uma forte capacidade de sentir alegremente as coisas boas.
quarta-feira, abril 03, 2013
- Mas se tu não tiveste um período de grande sofrimento, não consegues ter empatia com pessoas que passam por isso. Uma depressão é a forma de passarmos por um processo de autoquestionamento, de formulação das perguntas essenciais, sem o qual esse trabalho interior nunca é conseguido. É duro, muito duro, mas passa sempre e aprende-se o mais importante. Lembro-me sempre da frase de uma mulher que teve cancro e depressão em momento diferentes e disse: «Prefiro o cancro à depressão.»
terça-feira, abril 02, 2013
- Não, não, não, nada disso. Temei antes os fracos. Não é a pessoa resolvida consigo a que entra numa escola ou num café e mata meia dúzia de pessoas. Porque é que essas pessoas têm sempre uma história pessoal de frustração e infelicidade? Não são as conquistas, o sentir-se amado, as realizações pessoais que produzem déspotas, é antes a falta de amor e de compreensão que os leva a vingarem-se numa sede enorme de poder. Não é o homem que foi muito amado aquele que maltrata a mulher. Não é quando a vida vos corre bem menos que estão mais susceptíveis, mais irascíveis, mais propensos à raiva ou à violência? Não é quando estão frustrados por não conseguirem chegar a um sítio a horas que têm tendência a buzinar mais? Acaso será a vingança o resultado de uma compensação por um acto de amor ou de frustração? Freud dix it: a frustração é a origem de todos os males.
sábado, março 30, 2013
O tema é delicado. Os conservadores opõem-se-lhe pelo puritanismo. Os alegados progressistas pela institucionalização da mulher-objecto.
A regulamentação da mesma - que poderá assumir diferentes moldes - oferece mais vantagens do que desvantagens.
O primeiro: a saúde pública. Tanto de quem exerce a prostituição como de quem a frequenta. Os números sobre o VIH (além de todas as outras doenças sexualmente transmissíveis) dos clientes e das prostitutas juntamente com a quantidade de relações sexuais em que não há preservativo demonstram que estamos perante uma clandestinidade que mata muita gente.
O segundo: a hipocrisia da lei. O mesmo argumento utilizado pelos alegados progressistas para a legalização do aborto não é aplicado por estes aqui. Há uma lei que proíbe a prostituição - de quem a pratica e de quem a frequenta. E todos sabemos que não é aplicada. E todos sabemos que há milhares de anúncios por aí. E todos sabemos que no Técnico as pessoas não estão à espera da Carris durante horas. É proibido, mas pode-se fazer. Compreendo, por isso, sem concordar, aqueles que dizem que validar algo que é contra a dignidade da mulher é um retrocesso social. Porque mesmo numa sociedade ideal, esses putativos progressistas nunca aceitariam que duas pessoas pudesse negociar uma transacção sexual para ganhar dinheiro - e isso, por mais estranho que lhes pareça, seria algo a que o Estado não tinha direito de meter a mão.
O terceiro: a existência de um mercado paralelo em que a mulher é vítima de ameaça, coacção, extorsão, de todo o tipo de abusos. Sem um enquadramento legal que lhe atribua existência jurídica, um contrato, direitos laborais - a prostituta é muitas vezes atirada para a condição de escrava.
Quarto - o ponto mais difícil de explicar sem levantar ruído e insultos. Algo que levou Houellebecq a ser implacavelmente atacado. Muito antes, já Orwell explicara que para certos homens o sexo era uma necessidade tão primária como as outras - como comer. Num mundo ideal, bem o sei, não haveria prostituição - como não haveria polícia ou prisões. Tomando como certo o princípio de que para certas pessoas o sexo é uma necessidade primária ou, se preferirem, uma pulsão fundamental, chegamos à conclusão de que senão todos, pelo menos alguns, precisariam de um Sexo Mínimo Garantido (SMG). A verdade é que certas pessoas, por um vasto conjunto de características (que podem incluir, por exemplo, uma timidez profunda ou o medo de falhar), não conseguem o SMG. Uma pessoa com deformidades físicas profundas, por exemplo. E essa frustração, essa falta de sexo (muitas vezes, uma fala de carinho sublimada) encontra na prostituição um consolo, uma certeza, uma porta aberta no meio de todas as portas fechadas da sociabilidade dita normal.
sexta-feira, março 29, 2013
Assim são as grandes pessoas. Continuam iguais independentemente dos títulos e do poder e preocupadas com o outro seja ele quem for exactamente como era antes
PAPA LIGOU PARA QUIOSQUE EM BUENOS AIRES PARA CANCELAR RESERVA DE JORNAIS
2013-03-25
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O papa Francisco surpreendeu o dono de um quiosque em Buenos Aires ao telefonar-lhe do Vaticano para cancelar a reserva de jornais, noticia a BBC.
O recém-eleito papa ligou a Luis Del Regno, o dono do quiosque que entregava diariamente os jornais em sua casa e onde o sumo-pontífice comprava o jornal ao domingo.
O filho do proprietário do quiosque, Daniel Del Regno, disse que primeiro pensou que se tratava de uma partida.
«A sério, é Jorge Bergoglio, estou a ligar de Roma», disse o papa Francisco a um incrédulo Daniel.
«Fiquei em choque, desatei a chorar e não sabia o que dizer», contou Daniel ao jornal argentino La Nación. «Ele agradeceu-me pelas entregas dos jornais ao longo de tantos anos e mandou cumprimentos para a minha família», acrescentou.
Luis Del Regno disse ao jornal que tinha «mil histórias» sobre o papa, uma das quais a de que o então cardeal Bergoglio costumava guardar os elásticos que envolviam os seus jornais diários e os devolvia no quiosque ao final de cada mês.
terça-feira, março 26, 2013
Herberto Helder
Havia um homem que corria pelo orvalho dentro.
O orvalho da muita manhã.
Corria de noite, como no meio da alegria,
pelo orvalho parado da noite.
Luzia no orvalho. Levava uma flecha
pelo orvalho dentro, como se estivesse a ser caçado
loucamente
por um caçador de que nada se sabia.
E era pelo orvalho dentro.
Brilhava.
Não havia animal que no seu pêlo brilhasse
assim na morte,
batendo nas ervas extasiadas por uma morte
tão bela.
Porque as ervas têm pálpebras abertas
sobre estas imagens tremendamente puras.
Pelo orvalho dentro.
De dia. De noite.
A sua cara batia nas candeias.
Batia nas coisas gerais da manhã.
Havia um homem que ia admiravelmente perseguido.
Tomava alegria no pensamento
do orvalho. Corria.
Ouvi dizer que os mortos respiram com luzes transformadas.
Que têm os olhos cegos como sangue.
Este corria, assombrado.
Os mortos devem ser puros.
Ouvi dizer que respiram.
Correm pelo orvalho dentro, e depois
estendem-se. Ajudam os vivos.
São doces equivalências, luzes, ideias puras.
Vejo que a morte é como romper uma palavra e passar
— a morte é passar, como rompendo uma palavra,
através da porta,
para uma nova palavra. E vejo
o mesmo ritmo geral. Como morte e ressurreição
através das portas de outros corpos.
Como uma qualidade ardente de uma coisa para
outra coisa, como os dedos passam fogo
à criação inteira, e o pensamento
pára e escurece
— como no meio do orvalho o amor é total.
Havia um homem que ficou deitado
com uma flecha na fantasia.
A sua água era antiga. Estava
tão morto que vivia unicamente.
Dentro dele batiam as portas, e ele corria
pelas portas dentro, de dia, de noite.
Passava para todos os corpos.
Como em alegria, batia nos olhos das ervas
que fixam estas coisas puras.
Renascia.
Por Alberto Castro Ferreira
Aquilo que entre nós se designa, habitualmente por HINDUÍSMO ou BRAMANISMO, isto é, a religião da ÍNDIA , tem entre os HINDUS o nome de «SANÁTANA DHARMA» ( LEI ETERNA ) !
Para o Sanátana Dharma, BRAMA é o Absoluto, exterior ao homem, é aquele mesmo que está dentro do coração. O Brama existe na personalidade humana como a imagem do sol num lençol de água.
O fim do Sanátana Dharma realiza-se na identificação do ÁTMAN (alma,espírito pessoal ) com BRAMA. É o MOKSHA , ou Libertação.
A ordem cósmica é exposta em diálogos célebres, tais os UPANISHDDE(S). Um deles tem por interlocutores YAJNAVALKYA, brâmane ilustre e GARGI, mulher dialéctica e excepcional pela consideração que lhe era testemunhada. O diálogo começa admitindo as águas como a trama do universo, porque , segundo o VEDA, as Águas primordiais simbolizam a matéria.
Então Gargi interroga Yajnavalkya:
-Yajnavalkya, disse ela, se as águas são a trama com que tudo foi tecido, com que trama foram as mesmas águas tecidas?
-Com o ar ,ó Gargi.
-Com que trama foi o ar tecido?
-Com os mundos do espaço, ó Gargi.
-Com que trama foram tecidos os mundos do espaço?
-Com os mundos do sol, ó Gargi.
-Com que trama foram tecidos os mundos do sol?
-Com os mundos da lua, ó Gargi.
-Com que trama foram tecidos os mundos da lua?
-Com os mundos das constelações, ó Gargi.
-Com que trama foram tecidos os mundos das constelações?
-Com os mundos dos deuses,ó Gargi.
-E os mundos dos deuses, com que trama foram eles tecidos?
-Com os mundos de Indra, ó Gargi.
-E os mundos de Indra, com que trama foram eles tecidos?
-Com os mundos de Prajápati,ó Gargi.
-E os mundos de Prajápati, com que trama foram eles tecidos?
-Com os mundos de Brama, ó Gargi.
-E os mundos de Brama, com que trama foram eles tecidos?
Ele respondeu: ó Gargi, não perguntes demais; toma cuidado, porque a tua cabeça pode arrebentar. Perguntas além de uma divindade acima da qual nada mais há a perguntar. Não perguntes demais, ó Gargi.
E Gargi calou-se.
( Brhad aranyaka upa).
sábado, março 23, 2013
sexta-feira, março 22, 2013
Uma amiga contou-me que conhece uma senhora que não mexe o corpo - apenas pestaneja um olho. Deste modo, e perante o alfabeto que lhe vai passando ela comunica com o mundo. Pisca o olho ante a letra que quer. Demora dois minutos a formar uma palavra. Nunca expressou desejo de morrer. Fica sempre muito feliz quando os filhos lhes mostram fotografias dos netos.
Para quem leu o livro ou viu o filme O Escafândro e a Borboleta, a doença é conhecida e até o tratamento descrito das enfermeiras.
Há sempre um novo alçapão debaixo do Inferno que se julga o mais fundo.
O príncipe Carlos visitou no hospital uma vítima de guerra. Não tinha pés, nem braços, não ouvia, via ou falava. Era dado como morto. Contudo, no Natal, as enfermeiras escreveram-lhe no peito «Feliz Natal» (em inglês, claro está) e o peito reagiu. Perceberam que o homem estava lúcido e consciente doravante.
A partir desse dia, o príncipe tornou-se num defensor da eutanásia (morte doce).
Quando te ralares com a vida, pensa neste homem.
É o único caso que a minha imaginação pode conceber como: não há pior.
quinta-feira, março 21, 2013
Anarquismo na alma
Nasci sem pedir. E com um corpo. Corpo esse que me exige necessidades que tenho de satisfazer. A sociedade em que nasci exige que tenho de realizar uma série de tarefas para o satisfazer. Ironia das ironias, nasce-se de graça, mas é preciso pagar para morrer, como sustentava Agostinho da Silva. Tudo isto me parece absurdo.
O Estado exige-me que eu esteja na reserva territorial para o caso de uma guerra. Exige-me documentos identificativos - cada vez mais. (Eu que nunca ando nem com o B.I., entretanto já caducado.) Vigia-me por todo o lado. Assim como as empresas. Exige que saiba e tenha de preencher uma série de coisas em computador. Exige-me muitos impostos. Exige que guarde durante dez anos todas os recibos relativos ao IVA.
Para quem abomina spreads, ipads,, i-isto e aquilo, twitter, linkedin, etc, etc, toda a parafernália tecnológica, para quem preza a privacidade, a liberdade individual, a sociedade é um Inferno. Sei que perco balúrdios por não me submeter a todos os prazos, por não conhecer todas as prerrogativas dos impostos, por não ter contabilista, consultor fiscal. Sei que desconheço as funcionalidades da televisão. Sei que detesto débitos directos e caixas online. Sei que a sociedade actual é impiedosa com pessoas assim.
Uma nova tecnologia aparece sempre como opcional - até se tornar obrigatória. Que trabalhador pode hoje dispensar o e-mail e o telemóvel e o computador?
Sou um anarquista antitecnófilo, aquele que entende que só uma sociedade pré-industrial pode ser livre. Sem Estado, sem tecnologia, sem leis. O homem e as suas necessidades primárias e a sua luta para as atingir - caçando, pescando, subindo a árvores para recolher folhas e frutos. Não são necessidades inventadas e os meios para as alcançar são conhecidos, palpáveis, tangíveis, reais.
Seríamos globalmente muito mais satisfeitos, livres, menos ansiosos e sem problemas existenciais. Sem sociopatias, sem toda esta série de doenças novas. Morreríamos em paz. Viveríamos em paz - os momentos de pausa seriam não de tédio mas de felicidade. A felicidade não é a soma dos prazeres, mas o que sobrevém no intervalo puro isento de pensamentos e tarefas.
Castro Caldas explica que a mente é conservadora. Vicia-se no hábito. Prefere o antigo. O conhecido. Saul Bellow dizia que sofrer era outro mau hábito.
Quando se fala em conservadorismo, pensa-se nos costumes e nas tradições. Mas não nos falam de mentes mais ou menos conservadoras.
Conheço pessoas «revolucionárias», «libertárias» que na vida pessoal não mudam de hábitos, de rotinas, que estão presas às mesmas pessoas. Uma delas diz que o processo de conhecer uma pessoa nova a cansa - «já conheci pessoas para o resto da vida. Dispenso conhecer mais».
Directos ao muro, Manuel Maria Carrilho
A tragédia do País é, em geral, andar vários anos atrasado em relação
às evidências mais claras e mais incontornáveis. Foi assim quando só
em finais de 2009 se assumiu a crise que desde o verão de 2007 entrava
pelos olhos dentro. Foi assim quando, em 2011, rebentou a bomba que já
se via e impunha desde o começo de 2010. E é assim de novo, agora em
2013, quando se multiplicam as consequências do que já em 2011 era bem
óbvio: que o memorando estava, como agora se diz, "mal desenhado".
E não se trata de fazer profetismo a posteriori. Pelo contrário,
escrevi-o aqui, pouco depois das últimas legislativas, chamando a
atenção para a "armadilha atroz" para que se estava a empurrar o País
e para os perigos de se viver como se "tivesse acontecido um
verdadeiro milagre - o Milagre do Memorando. Um milagre operado pela
troika, que, em versão moderna dos três pastorinhos, conseguiu o
extraordinário feito de produzir em duas ou três semanas um documento
"estratégico" que deixou o País de joelhos, indicando-nos como
resolver finalmente todos os nossos problemas, tanto os imediatos com
os mais estruturais (14.07.2011).
E acrescentava, então: "Como desse documento dependia, e de uma
maneira dramática, o financiamento corrente do País, o seu elogio
desmiolado tornou-se uma espécie de prece diária de políticos,
jornalistas e comentadores, pouco interessados em avaliar friamente as
possibilidades e as consequências da tal estratégia.
O milagre era vivido com tal fervor que o que parecia tentador era
prometer ir ainda "mais além", ignorando-se completamente que o
objetivo fundamental do memorando era, sobretudo, o de garantir o
reembolso em perigo de empréstimos concedidos, confiscando para o
efeito a energia, os bens e as ilusões ainda disponíveis no País."
O reconhecimento do fracasso chegou agora, tarde demais como quase
sempre acontece quando lidamos com as funestas consequências do
fanatismo político. Um fanatismo que levou o Governo a comportar-se
desde o início como se, para enfrentar uma calamidade cuja realidade
ninguém contestava, o melhor fosse convocar uma outra bem maior.
Como se, afinal, para enfrentar por exemplo uma cheia, ou uma
avalanche, o melhor fosse provocar um tsunami... E agora desculpa-se
com argumentos indigentes, insinuando que, antes, tudo era
imprevisível. E, depois, tudo passou a ser inevitável. Mas não - a
verdade é que quase tudo era tão previsível como evitável.
E agora? Agora, todo o País sente que vamos direitos ao muro. A
angústia nacional é uma natural consequência desta insuportável
evidência, em que se vê o Governo acelerar na direção do muro, e com
tanto mais intensidade quanto menos ele vê à sua frente, como de resto
as suas previsões sistematicamente falhadas inequivocamente confirmam.
É urgente travar, mas tal não basta, porque isso só adiará o choque. O
que é urgente é mudar de direção.
Cá e na Europa. Foram muito comentadas as palavras de Jean-Claude
Juncker quando, na semana passada, em entrevista ao Der Spiegel,
lembrou as circunstâncias da Europa de há precisamente cem anos,
quando também se acreditava com complacência que não seria possível
haver mais guerras no continente europeu. E depois houve, e não foi só
uma...
E é também útil lembrar que se a Europa no começo dos anos 20 tinha 24
regimes democráticos, dez anos depois eles estavam reduzidos a menos
de metade, a 11. Um estudo sobre este processo, de B. Eichengreen, K.
H. O'Rourke e A. de Bromhead sobre as 171 eleições que tiveram lugar
em 28 países europeus entre 1929 e 1939, tira uma conclusão
importante, em que devíamos refletir: é que foi mais a duração do que
a intensidade das recessões desse período que provocou os terríveis
acontecimentos políticos dessa década.
O caso alemão é sempre de sublinhar: em 1928, a Alemanha tinha um
milhão de desempregados e o partido nazi obtinha 2,5% dos votos. Dois
anos mais tarde, em 1930, com o desemprego já nos três milhões, os
nazis atingem os 18,3%. E em 1932, quando o desemprego chega aos seis
milhões, Hitler consegue 37,2% dos votos, e poucos meses depois está
no poder.
Foi este o resultado de uma década de austeridade e deflação. As
analogias são cada vez mais inquietantes. E o que acaba de se passar
com Chipre assusta. No dia a seguir ao completo fiasco do Conselho
Europeu dedicado ao emprego e ao crescimento, a União Europeia decide
abordar o grave problema financeiro cipriota atacando o coração de
sistema bancário, isto é, a confiança dos cidadãos nas instituições
que têm de garantir a segurança dos seus depósitos.
Há de facto um sério problema de impunidade financista em Chipre que
não pode ser ignorado. Mas ele não pode ser resolvido poupando mais
uma vez os especuladores e caindo em cima das poupanças dos cidadãos,
impondo-lhes taxas que aparecem como uma inequívoca forma de extorsão.
Trata-se de uma machadada que se pode vir a revelar irreparável, não
só na confiança dos cidadãos no sistema bancário mas também nas
instituições europeias que promovem e caucionam este tipo de soluções.
Era do que a Europa, nesta fase, menos precisava. Mas parece que,
também aqui, a atração pelo muro é muito forte.
quarta-feira, março 20, 2013
O mundo cada vez se divide mais entre vencidos e vencedores.
Sempre tive um balanceamento positivo em relação aos que saltaram para fora da competição.
Como se isso não lhes dissesse nada.
Desmaterializados.
Sem necessidade de validação externa - tirando, claro, o amor e o afectos das almas únicas com quem se dão.
Com uma bravura enorme de romperem com o mais difícil.
O que separa isto da alienação, da anomia, do decadentismo concêntrico, da ditadura do prazer, do estou-me-nas-tintas para os outros pode, na superfície, ser frágil, mas separa coisas muito diferentes.
Não refiro pessoas que não consideram o interesse do Outro - mas o espelho do Outro.
Era muito novo e ao passar na rua com os meus pais parei subitamente impressionado.
Um homem-estátua.
Totalmente imóvel.
Fiquei mumificado a olhar para ele.
Aquilo não me saiu da cabeça e tive de convencer os meus pais a voltar lá.
Ele ficava horas e horas sem mexer nada - apenas pestanejava.
Como seria a sua vida interior enquanto ele estava ali de pé?
Era um sofrimento atroz - pior, do que isso, auto-induzido. Não conseguia perceber. (Ainda que lhe depositasse moedas no cesto.)
Para quê?
Nunca compreendi quem dedica um esforço sobre-humano a algo do qual não resultam benefícios para o Outro.
Sempre desprezei alpinistas que procuram records , competições que massacram o corpo para se obter uma medalha. Penso desde muito novo que tal capacidade de auto-superação é uma necessidade de mostrarem algo a si próprio. (Como na religião nunca percebi aqueles que só procuravam a salvação individual colocando-se em casas alçadas de longos metros verticais, distantes dos seus semelhantes e próximos de Deus, um paradoxo para mim.) E sempre admirei, esses sim, aqueles que partem para países mergulhaoos em sofrimento e alimentam quem tem fome, curam doentes, tratam pacientemente feridos.
terça-feira, março 19, 2013
Mais uma conversa em que em certa altura, o meu amigo, um solilóquio:
- Angel, somos todos bissexuais. Quem advoga que os homossexuais devem ter os mesmos direitos, blá blá blá, fica todo muito contente porque é uma pessoa liberta de preconceitos. Mas se ele ou ela nunca desenvolveu uma atracção por uma pessoa do sexo oposto tem um preconceito internalizado. A teoria é fácil. É como representaram os Monty Python. Os protestantes que podem ter relações sem preservativo, sem intencionalidade de fecundidade e depois na prática não o têm! É fácil dizer-se que se é um revolucionário na teoria quando se é um conservador na vida. As pessoas que defendem o poliamor e não o aplicam, as pessoas que defendem que se deve roubar para o comer mas não o fazem se não tiverem que comer; no fundo, acho mal que se roube para comer. Se não internalizas, é tudo treta, tudo etéreo. Como certos bloquistas que defendem vidas alternativas, mas nunca as conseguiriam praticar - aquela liberalidade abstracta não é sentida, porque a recusam para si. Há muito isto - para mim, era uma abjecção, mas eu acho que é o correcto. No fundo, essas mentes estão aprisionadas e encontram num mecanismo de evasão na abstracção de que se rebeliam no plano das ideias e das lutas e manifestações, de que não caem na zona confortável da segurança reprodutora do sistema. Como um professor catedrático que conheço, ultra-revolucionário, sempre a propugnar pelos pobres, trabalhadores - nunca conheceu um pobre ou operário sequer. São abstracções conceptuais - não conhece a realidade concreta, a individual. Ainda no outro dia, falei com uma pessoa que está a elaborar um estudo sobre a necessidade da melhoria das prisões e nunca lá esteve! Quanta esquerda nunca entrou numa barraca. O pai de uma amiga minha é um investigador na área da exclusão social, todo esquerdista e cheio de flamas no verbo, mas quando a filha quer levar um maltrapilho a casa, ele não deixa, discrimina classistamente, teve a lata de lhe dizer: «Estou cansado de te ver com a fina-flor do entulho.»
I only wanted absolute quiet to think out why I had developed a sad attitude towards sadness, a melancholy attitude toward melancholy, and a tragic attitude toward tragedy - why I had become identified with the objects of my horror or compassion.
Does this seem a fine distraction? It isn’t: identification such as this spells the death of accomplishment. It is something like this that keeps sane people from working. Lenin did not willingly endure the sufferings of his proletariat, nor Washington of his troops, nor Dickens of his London poor. And when Tolstoy tried some such merging of himself with the objects of his attention, it was a fake and a failure.
F. Scott Fitzgerald
O poder das palavras sempre me fascinou. Sei que é ridiculamente banal nomear-se o poder das palavras. (Um truísmo é sempre ridiculamente banal, mas ainda assim, talvez, uma prova de sensatez.) Por intermédio das palavras, constroem-se laços, quebram-se laços, enfeitiçam-se corações, resgatam-se criaturas da noite mais escura da alma. Por causa das palavras, matam-se seres humanos.
(Ao reler o parágrafo em cima, sinto que uma ideia-maior me sobreexcitou, mas que as palavras a esmagaram.)
domingo, março 17, 2013
O meu amigo, viajante do mundo, pensador, sociólogo da vida quotidiana, vampiro noctívago de essências, declarou-me:
- Hoje, tenho menos sede de infinito, menos sofreguidão walwhitmaniana de experimentar e de conhecer tudo. Sempre achei que quanto mais pessoas compreendemos, mais nos expandimos, mais somamos eus e experiências e compreendemos que o que nos unifica é sempre maior do que aquilo que nos separa - isso é o segredo para se eliminar o medo e se ser livre. Porque as pessoas e os grupos são todos iguais no espectro de emoções. Vi a rivalidade e a vaidade entre os sem-abrigo. Vi índios da América do Sul que «viviam desmaterializados» a tentar enganar-me subtraindo mel nas trocas directas. Vi membros da alta finança com poetas escondidos por trás dos fatos Armani. Vi machos latinos chorarem por desgostos amorosos. Vi óptimas pessoas praticarem actos de canalha e vi monstros com gestos de uma ternura inexcedível.
sábado, março 16, 2013
De tanto ouro que acumula, de tantas leituras (cultura), de tantas experiências (mundo), o escritor enlouquece se não consegue vazar tudo para o papel. O outro dentro de si enriquece e aprofunda o humano - mas para o escritor é diferente. O ouro transforma-se em tralha.
Só o sossega a teoria do icebergue de Hemingway. Quando lhe perguntaram se escrevera sobre insónias, afirmou que bastava tê-las vivido para elas estarem na sua obra. O subtexto como inclusivo de tudo o que homem transporta dentro de si - todos os fantasmas e todas as albas.
sexta-feira, março 15, 2013
Trocaram opiniões sobre relações e atracções. Atiraram aquelas verdades absolutas: «Não, as coisas numa relação só funcionam se...»
- Quando estou interessado numa rapariga, elevo-me. O meu verbo ganha fogo. É como se conhecesse o melhor de mim que desconhecia.
- A mim, sucede exactamente o contrário. Fico patético, errático, contraditório. Encolho-me, sou calculista no dizer e no agir, não sou eu - perco-me e lamento-me.
- Pois, não deve haver leis gerais nestas matérias.
Daniel Sampaio escreveu que o mais trágico no Verão é uma paixão. A paixão de Verão mata o Verão. A pessoa torna-se uma recolectora de sinais - positivos, negativos, inquietantes, difusos. A ansiedade impede a fruição. O espírito hiperanalítico atrofia a acção, escreveu Bernardo Soares. Para o budismo, a felicidade - obtida por intermédia da ausência o eu, da equanimidade, do desapego e da percepção da vacuidade inerente a todos os fenómenos - não é obter um prazer maior e maior; é a libertação da roda da satisfação, do aprisionamento das paixões (positivas e negativas).
Mas e onde fica o sal, o colorido da vida?
Solidão, Rilke
A solidão é como uma chuva./
Ergue-se do mar ao encontro das noites;/
de planícies distantes e remotas/
sobe ao céu, que sempre a guarda./
E do céu tomba sobre a cidade./
Cai como chuva nas horas ambíguas,/
quando todas as vielas se voltam para a manhã/
e quando os corpos, que nada encontraram,/
desiludidos e tristes se separam;/
e quando aqueles que se odeiam/
têm de dormir juntos na mesma cama:/
então, a solidão vai com os rios...
Tribunal autoriza partido pedófilo
Um tribunal de Haia chumbou, ontem, um requerimento que pretendia que a Justiça holandesa proibisse um grupo criado por três pedófilos de fundarem um partido político. "A liberdade de expressão, incluindo a liberdade de se criar um partido político, é visto como a base de uma sociedade democrática", afirmou o juiz HFM Hofhuis num acórdão citado pela Associated Press e onde diz que o PNVD, iniciais que traduzem Amor Fraternal, Liberdade e Diversidade, "não cometeu nenhum crime".
Aquele partido, criado por três pedófilos assumidos, defende a legalização de relações sexuais entre adultos e crianças com mais de 12 anos; a idade mínima legal de consentimento de relações sexuais de crianças e de adultos varia conforme os países, sendo que na Holanda e na maioria dos países da União Europeia é de 16 anos (14 no Canadá).
O anúncio da criação do PNVD gerou uma onda de revolta, ao ponto de o advogado dos contestatários, Anke Wijn, afirmar que os pedófilos estão a abusar da tolerância holandesa.
Com a decisão do tribunal, o PNVD pode apresentar-se às eleições legislativas de 22 de Novembro. Mas não deverão obter os 60 mil votos necessários para terem um deputado no Parlamento.
Sinais da demência do horror económico
http://www.jn.pt/PaginaInicial/Mundo/MundoInsolito/Interior.aspx?content_id=2125606
http://www.abola.pt/mundos/ver.aspx?id=375572
quinta-feira, março 14, 2013
Enquanto se desregulamenta a economia, cada vez se invade mais a vida privada legislando-a
http://www.cafedemacho.com.br/happy-hour/lei-sueca-pode-proibir-os-homens-de-urinarem-em-pe/
Quem ainda se lembra do étimo?
formidável
adjetivo de 2 géneros
1. muito grande
2. que inspira terror; terrível
3. que provoca medo; temeroso
4. que infunde respeito
5. espantoso; excelente; fantástico; maravilhoso
(Do latim formidabĭle-, «idem»)
formidável In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013. [Consult. 2013-03-14].
Disponível na www: .
quarta-feira, março 13, 2013
they say that hell is crowded, yet,/
when you’re in hell,/
you always seem to be alone./
& you can’t tell anyone when you're in hell/
or they’ll think you’re crazy/
& being crazy is being in hell/
& being sane is hellish too./
those who escape hell, however,/
never talk about it/
& nothing much bothers them after that./
I mean, things like missing a meal,/
going to jail, wrecking your car,/
or even the idea of death itself./
when you ask them,/
“how are things?”/
they’ll always answer, “fine, just fine…”/
once you’ve been to hell and back,/
that’s enough/
it’s the greatest satisfaction known to man./
once you’ve been to hell and back,/
you don’t look behind you when the floor creaks/
and the sun is always up at midnight/
and things like the eyes of mice/
or an abandoned tire in a vancant lot/
can make you smile/
once you’ve been to hell and back.
Charles Bukowski
Pensam que são invisíveis ao mundo. Que ninguém lhes dirigirá palavras sem ser de reprovação. As mulheres negras que limpam as escadas do edifício afastam-se quando passo. Escondem o rosto. Param o trabalho. Julgam que os outros julgam que lhe são superiores. Quando passo, escondem-se, afastando o balde, como um gato escondendo os dejectos. Se sorrio, perplexas. Se cumprimento, pasmadas. Não se sentem merecedoras de um aceno. A culpa é nossa.
segunda-feira, março 11, 2013
Os livros contêm notas de autor. Contêm notas de tradutor. De editor.
Deveriam conter notas de revisor.
Que explicassem que «o bracelete» não é uma gralha, que a palavra é mesmo masculina - e, de caminho, explicar a origem do erro, o étimo francês masculino, a contaminação da pulseira feminina.
Que explicasse que é mesmo «salgalhada» e não «salganhada».
Que é «ribaldaria» e não «rebaldaria», que «ribaldo» é um velhaco patifório.
sexta-feira, março 08, 2013
Creio que o mais difícil para um escritor é não produzir uma obra redonda - não andar sempre a escrever o mesmo livro, não gravitar sempre em torno dos mesmos temas, ideias, emoções.
Creio que o mais difícil para um escritor é não produzir uma obra desigual - ou a obra é curta ou, se extensa, patina algures. E quando o escritor tenta produzir vários géneros - tremendamente difícil manter-se na corda do funambulista. Prosa e poesia - é como se a mão tivesse de escolher um dos dois caminhos.
quarta-feira, março 06, 2013
sexta-feira, março 01, 2013
Decálogo do Escritor
1. Se escrever não é a coisa mais importante para ti, nunca serás escritor. Se escrever não é uma necessidade absolutamente vital para ti, se a escrita não é a tua amante dilecta, larga depressa a ideia de te dedicares a este ofício sombrio e doentio. Se entendes que escrever é fácil, se as tuas botas não estão revestidas de uma fé indestrutível para a longa estrada de rejeições, crítica, desânimo, irrisão, incompreensão, de luta sangrenta e contínua com o papel, com o tormento que é as palavras nunca serem suficientes para expressar algo anterior a elas; lembra-te de que há um bom quinhão de clássicos que repousa durante séculos sem ganhar uma ruga e de que, portanto, não é premente que escrevas.
2. Se não habitam monstros dentro de ti, se não há algo que te tumultua, se não estás disposto a arrancar as vísceras e a espalhá-las pelo papel; não se vislumbra como serás escritor. Não há nada mais vácuo e inane do que o exercício da escrita insincera e desvivenciada.
3. Se entendes que para escrever não necessitas de mil revisões posteriores, de uma miríade de páginas deitadas fora para apenas preservar um parágrafo, de recuos, de rasuras, de permanentes modificações; se pensas assim, ainda dás os primeiros passos titubeantes. O doloroso e árduo processo da escrita leva tempo. Muito tempo. Tens de deixar a página dormir a sono solto antes de voltar a ela. O problema não é a escrita inicial, torrencial, de um jacto só – o problema é a sempiterna revisão/reescrita do que se fez. A demanda da perfeição. Lembra-te da personagem de Camus que querendo escrever o livro perfeito não saía do mesmo parágrafo.
4. Se consideras que existem universos que o escritor deve desprezar na sua absorção do mundo e da vida, ignoras o essencial. O escritor deve procurar uma força centrípeta no centro do papel – uma força colossal que sugue tudo, todas as vidas, todas as ruas, todas as casas, todas as pessoas, todos os acontecimentos, todas as ideias, todos os sentimentos, para o centro da folha. Até que o livro seja o espelho de cada rosto que se aproxima. Bukowski ia assistir a corridas de cavalos e a combates de pugilismo e dizia que o seu olhar sobre estas realidades influenciava o seu estilo literário. O que realmente interessa não é o que se vê, mas a forma como se vê. Não há «realidades» maiores ou menores para abordar na escrita – tudo é símbolo.
5. Se escreves para mostrar o quão erudito e inteligente és – desiste. Se não consegues sacrificar uma frase coruscante, um pensamento que te sobreexcitou, em favor da coesão do livro, então ainda não estás preparado. Se de alguma forma escreves a pensar no leitor, isso será fatal para a tua escrita.
6. Se acreditas que o que está escrito (o texto) é mais importante do que o que não está escrito (o subtexto), dedica-te a escrever a folhetos de medicamentos em vez de literatura. Cultiva a omissão, o não-dito, o não-explícito. Lê um livro sobre amor que nunca utilize a palavra «amor». Lê Kafka. Dizem que escreveu sobre Deus, o Estado, a Burocracia, a Culpa, a Vergonha, o Absurdo – e nunca encontrarás estas palavras na sua obra.
7. Se precisas de escarrapachar adjectivos, truísmos, obviedades, para definir ambientes, personagens, paisagens, sentimentos, a tua escrita nunca passará rente ao coração da natureza humana. «Maria era cem por cento determinada, cem por cento honesta, cem por cento feminina.» Este é o tipo de descrição preguiçosa de quem desconhece o que é a emanação subtil da caracterização da personagem pela acção. O que é uma personagem bem conseguida? Esquece a teoria da literatura. Uma personagem bem conseguida é aquela que é tão forte, tão real, tão vívida, que conheces pelo menos tão bem quanto o teu melhor amigo.
8. Se a tua voz não emerge concreta e distinta, se tudo mais não é do que uma bola amassada de vozes, continua a encostar o ouvido ao búzio do texto, dia após dia, noite após noite, até que o murmúrio ganhe o contorno de voz. É a luta mais difícil.
9. Se desprezas a prosa, tenta perceber o que significa: forma é conteúdo. Se assim não fosse, todos seríamos – ou poderíamos ser – escritores. Todos temos histórias para contar, afirmou Céline. Todos vivemos, ouvimos, vimos histórias tenebrosas, miríficas, inacreditáveis, únicas. Forma e conteúdo têm de aparecer tão indissoluvelmente ligados como um só corpo.
10. Se não seguras na mão cada palavra, medindo-a, pesando-a, mirando-a de todos os ângulos, conhecendo-lhe todas as texturas, trincando-a, brincando com ela na boca antes de a atirares para o papel, inundarás o texto de clichés – de caminhos sinuosos, de odores inebriantes, de olhos rasgados, de lábios carnudos, de corpos esculturais, de almas atormentadas. O problema de cuspir este tipo de expressões, quais peças inconsúteis, é que elas estão gastas – perderam o poder evocativo. Quem consegue ainda recriar mentalmente a cor dourada quando lê «época áurea»? Ou de imaginar caudais tombando do céu quando lê «chovia torrencialmente»? Ou de ver claramente visto o ouro sobre o azul? Ou de desenhar o fogo do «desejo ardente»? O escritor é aquele que faz chover na página quando escreve «chuva».
Teus Olhos, Octavio Paz
Teus olhos são a pátria do relâmpago e da lágrima,
silêncio que fala,
tempestades sem vento, mar sem ondas,
pássaros presos, douradas feras adormecidas,
topázios ímpios como a verdade,
outono numa clareira de bosque onde a luz canta no ombro
duma árvore e são pássaros todas as folhas,
praia que a manhã encontra constelada de olhos,
cesta de frutos de fogo,
mentira que alimenta,
espelhos deste mundo, portas do além,
pulsação tranquila do mar ao meio-dia,
universo que estremece,
paisagem solitária.
Camilo Lourenço, a História e a utilidade económica Henrique Monteiro
«Um colega de universidade chamou-me a atenção para um comentário de Camilo Lourenço sobre professores de História no qual afirma que estes não são necessários à economia.
Camilo Lourenço é um homem que tem feito carreira no comentário económico através de declarações provocadoras. Algumas, como esta, são infelizes; outras interessantes e acutilantes. (Num parêntesis, esclareço que apesar de nunca ter trabalhado com ele, fui publisher de uma revista - a Exame - de que fora diretor, pelo que posso dizer que a versão que por aí circula do seu afastamento por causa de um artigo sobre o BPN é... ficção).
Se Camilo tivesse estudado Humanidades, sabia que a utilidade não pode ser a medida de todas as coisas e conheceria as críticas ao utilitarismo. Ocorre-me, até, que caso seja economista, Camilo possa conhecer essas críticas. E isso torna as coisas piores, porque significa que ele foi levado a dizer o que disse não por desconhecimento - o que conduz àquele pensamento cristão, "Perdoa-lhe Senhor, que ele não sabe o que diz" -, mas por convicção, o que eleva o debate a um novo patamar.
O utilitarismo analisa as ações pela utilidade que têm ou virão a ter na produção de bem estar numa sociedade. Por exemplo, um utilitarista moderado dirá que os idosos produzem bem estar social através do exemplo, ou da integração social e da transmissão de conhecimentos e sabedoria. Já um radical - camilista? - dirá que um velho é um desqualificado porque já nada produz e só gasta dinheiro.
"Não pode ser. Mas um licenciado em História é qualificado só por que tem um canudo?" pergunta Camilo. E a resposta é sim. É qualificado porque o reconheceram como possuidor de um conjunto de conhecimentos (se bem ou mal é outra discussão). Claro que a qualidade do seu trabalho pode ser melhor ou pior, mas dizer que licenciados em História, ou em Filosofia, ou em Clássicas ou em Literatura não têm qualificação só por terem um canudo - uma vez que não "têm utilidade no mercado de trabalho", é o mesmo que dizer que um idoso não tem utilidade porque só gasta dinheiro e não produz nada (algo que lembrou a um senhor economista no Japão). Ou, como diz Camilo, "Não tem utilidade para a economia".
A Economia é importante, Camilo, claro que é. Mas o mundo é mais do que a Economia. A mera racionalidade económica, se não for compensada por aspetos como caridade/solidariedade; amizade/companheirismo/amor; coesão/camaradagem/vizinhança entre muitas outras categorias não económicas (ocorre-me também a boa educação), é inútil.
Como já demonstrou o suspeito licenciado em História Rui Tavares (ontem, num artigo no 'Público') acresce que os licenciados em História têm utilidade para a Economia. E os licenciados em Filosofia também. Muitas empresas, por todo o mundo, contratam quadros destes cursos porque o conhecimento da história e do pensamento permite às empresas evitar erros.
Por exemplo, Amos Shapira, o CEO da Cellcom,a maior empresa de Cabo nos EUA, diz literalmente isto: "O conhecimento que uso como CEO pode ser adquirido em duas semanas... A principal coisa que os estudantes têm de aprender é como estudar e analisar as coisas, incluindo a História e a Filosofia". O design da Apple deve-se a um curso de caligrafia de Steve Jobs. Grandes vendedores dos EUA vêm de cursos de letras e de teatro. Em França, caro Camilo, Filósofos dão consultas a dirigentes de empresas, para os ajudar a ultrapassar certos dilemas. A própria utilidade das Humanidades na Economia é indiscutível e é reconhecida por fontes insuspeitas como a Harvard Business Review.
Porque qualquer licenciado em Filosofia diria que a teoria do crescimento constante da Economia é anti-natural (não há nada na natureza que cresça constantemente sem morrer). Qualquer licenciado em História sabe que o desequilíbrio entre a China e a Europa é bastante recente em termos históricos, pelo que tender-se-ia para o re-equilíbrio que está a acontecer.
São coisas úteis para a sociedade, sobretudo se a sociedade não for formada por um conjunto de ignorantes.»
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