sábado, março 30, 2013
O tema é delicado. Os conservadores opõem-se-lhe pelo puritanismo. Os alegados progressistas pela institucionalização da mulher-objecto.
A regulamentação da mesma - que poderá assumir diferentes moldes - oferece mais vantagens do que desvantagens.
O primeiro: a saúde pública. Tanto de quem exerce a prostituição como de quem a frequenta. Os números sobre o VIH (além de todas as outras doenças sexualmente transmissíveis) dos clientes e das prostitutas juntamente com a quantidade de relações sexuais em que não há preservativo demonstram que estamos perante uma clandestinidade que mata muita gente.
O segundo: a hipocrisia da lei. O mesmo argumento utilizado pelos alegados progressistas para a legalização do aborto não é aplicado por estes aqui. Há uma lei que proíbe a prostituição - de quem a pratica e de quem a frequenta. E todos sabemos que não é aplicada. E todos sabemos que há milhares de anúncios por aí. E todos sabemos que no Técnico as pessoas não estão à espera da Carris durante horas. É proibido, mas pode-se fazer. Compreendo, por isso, sem concordar, aqueles que dizem que validar algo que é contra a dignidade da mulher é um retrocesso social. Porque mesmo numa sociedade ideal, esses putativos progressistas nunca aceitariam que duas pessoas pudesse negociar uma transacção sexual para ganhar dinheiro - e isso, por mais estranho que lhes pareça, seria algo a que o Estado não tinha direito de meter a mão.
O terceiro: a existência de um mercado paralelo em que a mulher é vítima de ameaça, coacção, extorsão, de todo o tipo de abusos. Sem um enquadramento legal que lhe atribua existência jurídica, um contrato, direitos laborais - a prostituta é muitas vezes atirada para a condição de escrava.
Quarto - o ponto mais difícil de explicar sem levantar ruído e insultos. Algo que levou Houellebecq a ser implacavelmente atacado. Muito antes, já Orwell explicara que para certos homens o sexo era uma necessidade tão primária como as outras - como comer. Num mundo ideal, bem o sei, não haveria prostituição - como não haveria polícia ou prisões. Tomando como certo o princípio de que para certas pessoas o sexo é uma necessidade primária ou, se preferirem, uma pulsão fundamental, chegamos à conclusão de que senão todos, pelo menos alguns, precisariam de um Sexo Mínimo Garantido (SMG). A verdade é que certas pessoas, por um vasto conjunto de características (que podem incluir, por exemplo, uma timidez profunda ou o medo de falhar), não conseguem o SMG. Uma pessoa com deformidades físicas profundas, por exemplo. E essa frustração, essa falta de sexo (muitas vezes, uma fala de carinho sublimada) encontra na prostituição um consolo, uma certeza, uma porta aberta no meio de todas as portas fechadas da sociabilidade dita normal.
sexta-feira, março 29, 2013
Assim são as grandes pessoas. Continuam iguais independentemente dos títulos e do poder e preocupadas com o outro seja ele quem for exactamente como era antes
PAPA LIGOU PARA QUIOSQUE EM BUENOS AIRES PARA CANCELAR RESERVA DE JORNAIS
2013-03-25
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O papa Francisco surpreendeu o dono de um quiosque em Buenos Aires ao telefonar-lhe do Vaticano para cancelar a reserva de jornais, noticia a BBC.
O recém-eleito papa ligou a Luis Del Regno, o dono do quiosque que entregava diariamente os jornais em sua casa e onde o sumo-pontífice comprava o jornal ao domingo.
O filho do proprietário do quiosque, Daniel Del Regno, disse que primeiro pensou que se tratava de uma partida.
«A sério, é Jorge Bergoglio, estou a ligar de Roma», disse o papa Francisco a um incrédulo Daniel.
«Fiquei em choque, desatei a chorar e não sabia o que dizer», contou Daniel ao jornal argentino La Nación. «Ele agradeceu-me pelas entregas dos jornais ao longo de tantos anos e mandou cumprimentos para a minha família», acrescentou.
Luis Del Regno disse ao jornal que tinha «mil histórias» sobre o papa, uma das quais a de que o então cardeal Bergoglio costumava guardar os elásticos que envolviam os seus jornais diários e os devolvia no quiosque ao final de cada mês.
terça-feira, março 26, 2013
Herberto Helder
Havia um homem que corria pelo orvalho dentro.
O orvalho da muita manhã.
Corria de noite, como no meio da alegria,
pelo orvalho parado da noite.
Luzia no orvalho. Levava uma flecha
pelo orvalho dentro, como se estivesse a ser caçado
loucamente
por um caçador de que nada se sabia.
E era pelo orvalho dentro.
Brilhava.
Não havia animal que no seu pêlo brilhasse
assim na morte,
batendo nas ervas extasiadas por uma morte
tão bela.
Porque as ervas têm pálpebras abertas
sobre estas imagens tremendamente puras.
Pelo orvalho dentro.
De dia. De noite.
A sua cara batia nas candeias.
Batia nas coisas gerais da manhã.
Havia um homem que ia admiravelmente perseguido.
Tomava alegria no pensamento
do orvalho. Corria.
Ouvi dizer que os mortos respiram com luzes transformadas.
Que têm os olhos cegos como sangue.
Este corria, assombrado.
Os mortos devem ser puros.
Ouvi dizer que respiram.
Correm pelo orvalho dentro, e depois
estendem-se. Ajudam os vivos.
São doces equivalências, luzes, ideias puras.
Vejo que a morte é como romper uma palavra e passar
— a morte é passar, como rompendo uma palavra,
através da porta,
para uma nova palavra. E vejo
o mesmo ritmo geral. Como morte e ressurreição
através das portas de outros corpos.
Como uma qualidade ardente de uma coisa para
outra coisa, como os dedos passam fogo
à criação inteira, e o pensamento
pára e escurece
— como no meio do orvalho o amor é total.
Havia um homem que ficou deitado
com uma flecha na fantasia.
A sua água era antiga. Estava
tão morto que vivia unicamente.
Dentro dele batiam as portas, e ele corria
pelas portas dentro, de dia, de noite.
Passava para todos os corpos.
Como em alegria, batia nos olhos das ervas
que fixam estas coisas puras.
Renascia.
Por Alberto Castro Ferreira
Aquilo que entre nós se designa, habitualmente por HINDUÍSMO ou BRAMANISMO, isto é, a religião da ÍNDIA , tem entre os HINDUS o nome de «SANÁTANA DHARMA» ( LEI ETERNA ) !
Para o Sanátana Dharma, BRAMA é o Absoluto, exterior ao homem, é aquele mesmo que está dentro do coração. O Brama existe na personalidade humana como a imagem do sol num lençol de água.
O fim do Sanátana Dharma realiza-se na identificação do ÁTMAN (alma,espírito pessoal ) com BRAMA. É o MOKSHA , ou Libertação.
A ordem cósmica é exposta em diálogos célebres, tais os UPANISHDDE(S). Um deles tem por interlocutores YAJNAVALKYA, brâmane ilustre e GARGI, mulher dialéctica e excepcional pela consideração que lhe era testemunhada. O diálogo começa admitindo as águas como a trama do universo, porque , segundo o VEDA, as Águas primordiais simbolizam a matéria.
Então Gargi interroga Yajnavalkya:
-Yajnavalkya, disse ela, se as águas são a trama com que tudo foi tecido, com que trama foram as mesmas águas tecidas?
-Com o ar ,ó Gargi.
-Com que trama foi o ar tecido?
-Com os mundos do espaço, ó Gargi.
-Com que trama foram tecidos os mundos do espaço?
-Com os mundos do sol, ó Gargi.
-Com que trama foram tecidos os mundos do sol?
-Com os mundos da lua, ó Gargi.
-Com que trama foram tecidos os mundos da lua?
-Com os mundos das constelações, ó Gargi.
-Com que trama foram tecidos os mundos das constelações?
-Com os mundos dos deuses,ó Gargi.
-E os mundos dos deuses, com que trama foram eles tecidos?
-Com os mundos de Indra, ó Gargi.
-E os mundos de Indra, com que trama foram eles tecidos?
-Com os mundos de Prajápati,ó Gargi.
-E os mundos de Prajápati, com que trama foram eles tecidos?
-Com os mundos de Brama, ó Gargi.
-E os mundos de Brama, com que trama foram eles tecidos?
Ele respondeu: ó Gargi, não perguntes demais; toma cuidado, porque a tua cabeça pode arrebentar. Perguntas além de uma divindade acima da qual nada mais há a perguntar. Não perguntes demais, ó Gargi.
E Gargi calou-se.
( Brhad aranyaka upa).
sábado, março 23, 2013
sexta-feira, março 22, 2013
Uma amiga contou-me que conhece uma senhora que não mexe o corpo - apenas pestaneja um olho. Deste modo, e perante o alfabeto que lhe vai passando ela comunica com o mundo. Pisca o olho ante a letra que quer. Demora dois minutos a formar uma palavra. Nunca expressou desejo de morrer. Fica sempre muito feliz quando os filhos lhes mostram fotografias dos netos.
Para quem leu o livro ou viu o filme O Escafândro e a Borboleta, a doença é conhecida e até o tratamento descrito das enfermeiras.
Há sempre um novo alçapão debaixo do Inferno que se julga o mais fundo.
O príncipe Carlos visitou no hospital uma vítima de guerra. Não tinha pés, nem braços, não ouvia, via ou falava. Era dado como morto. Contudo, no Natal, as enfermeiras escreveram-lhe no peito «Feliz Natal» (em inglês, claro está) e o peito reagiu. Perceberam que o homem estava lúcido e consciente doravante.
A partir desse dia, o príncipe tornou-se num defensor da eutanásia (morte doce).
Quando te ralares com a vida, pensa neste homem.
É o único caso que a minha imaginação pode conceber como: não há pior.
quinta-feira, março 21, 2013
Anarquismo na alma
Nasci sem pedir. E com um corpo. Corpo esse que me exige necessidades que tenho de satisfazer. A sociedade em que nasci exige que tenho de realizar uma série de tarefas para o satisfazer. Ironia das ironias, nasce-se de graça, mas é preciso pagar para morrer, como sustentava Agostinho da Silva. Tudo isto me parece absurdo.
O Estado exige-me que eu esteja na reserva territorial para o caso de uma guerra. Exige-me documentos identificativos - cada vez mais. (Eu que nunca ando nem com o B.I., entretanto já caducado.) Vigia-me por todo o lado. Assim como as empresas. Exige que saiba e tenha de preencher uma série de coisas em computador. Exige-me muitos impostos. Exige que guarde durante dez anos todas os recibos relativos ao IVA.
Para quem abomina spreads, ipads,, i-isto e aquilo, twitter, linkedin, etc, etc, toda a parafernália tecnológica, para quem preza a privacidade, a liberdade individual, a sociedade é um Inferno. Sei que perco balúrdios por não me submeter a todos os prazos, por não conhecer todas as prerrogativas dos impostos, por não ter contabilista, consultor fiscal. Sei que desconheço as funcionalidades da televisão. Sei que detesto débitos directos e caixas online. Sei que a sociedade actual é impiedosa com pessoas assim.
Uma nova tecnologia aparece sempre como opcional - até se tornar obrigatória. Que trabalhador pode hoje dispensar o e-mail e o telemóvel e o computador?
Sou um anarquista antitecnófilo, aquele que entende que só uma sociedade pré-industrial pode ser livre. Sem Estado, sem tecnologia, sem leis. O homem e as suas necessidades primárias e a sua luta para as atingir - caçando, pescando, subindo a árvores para recolher folhas e frutos. Não são necessidades inventadas e os meios para as alcançar são conhecidos, palpáveis, tangíveis, reais.
Seríamos globalmente muito mais satisfeitos, livres, menos ansiosos e sem problemas existenciais. Sem sociopatias, sem toda esta série de doenças novas. Morreríamos em paz. Viveríamos em paz - os momentos de pausa seriam não de tédio mas de felicidade. A felicidade não é a soma dos prazeres, mas o que sobrevém no intervalo puro isento de pensamentos e tarefas.
Castro Caldas explica que a mente é conservadora. Vicia-se no hábito. Prefere o antigo. O conhecido. Saul Bellow dizia que sofrer era outro mau hábito.
Quando se fala em conservadorismo, pensa-se nos costumes e nas tradições. Mas não nos falam de mentes mais ou menos conservadoras.
Conheço pessoas «revolucionárias», «libertárias» que na vida pessoal não mudam de hábitos, de rotinas, que estão presas às mesmas pessoas. Uma delas diz que o processo de conhecer uma pessoa nova a cansa - «já conheci pessoas para o resto da vida. Dispenso conhecer mais».
Directos ao muro, Manuel Maria Carrilho
A tragédia do País é, em geral, andar vários anos atrasado em relação
às evidências mais claras e mais incontornáveis. Foi assim quando só
em finais de 2009 se assumiu a crise que desde o verão de 2007 entrava
pelos olhos dentro. Foi assim quando, em 2011, rebentou a bomba que já
se via e impunha desde o começo de 2010. E é assim de novo, agora em
2013, quando se multiplicam as consequências do que já em 2011 era bem
óbvio: que o memorando estava, como agora se diz, "mal desenhado".
E não se trata de fazer profetismo a posteriori. Pelo contrário,
escrevi-o aqui, pouco depois das últimas legislativas, chamando a
atenção para a "armadilha atroz" para que se estava a empurrar o País
e para os perigos de se viver como se "tivesse acontecido um
verdadeiro milagre - o Milagre do Memorando. Um milagre operado pela
troika, que, em versão moderna dos três pastorinhos, conseguiu o
extraordinário feito de produzir em duas ou três semanas um documento
"estratégico" que deixou o País de joelhos, indicando-nos como
resolver finalmente todos os nossos problemas, tanto os imediatos com
os mais estruturais (14.07.2011).
E acrescentava, então: "Como desse documento dependia, e de uma
maneira dramática, o financiamento corrente do País, o seu elogio
desmiolado tornou-se uma espécie de prece diária de políticos,
jornalistas e comentadores, pouco interessados em avaliar friamente as
possibilidades e as consequências da tal estratégia.
O milagre era vivido com tal fervor que o que parecia tentador era
prometer ir ainda "mais além", ignorando-se completamente que o
objetivo fundamental do memorando era, sobretudo, o de garantir o
reembolso em perigo de empréstimos concedidos, confiscando para o
efeito a energia, os bens e as ilusões ainda disponíveis no País."
O reconhecimento do fracasso chegou agora, tarde demais como quase
sempre acontece quando lidamos com as funestas consequências do
fanatismo político. Um fanatismo que levou o Governo a comportar-se
desde o início como se, para enfrentar uma calamidade cuja realidade
ninguém contestava, o melhor fosse convocar uma outra bem maior.
Como se, afinal, para enfrentar por exemplo uma cheia, ou uma
avalanche, o melhor fosse provocar um tsunami... E agora desculpa-se
com argumentos indigentes, insinuando que, antes, tudo era
imprevisível. E, depois, tudo passou a ser inevitável. Mas não - a
verdade é que quase tudo era tão previsível como evitável.
E agora? Agora, todo o País sente que vamos direitos ao muro. A
angústia nacional é uma natural consequência desta insuportável
evidência, em que se vê o Governo acelerar na direção do muro, e com
tanto mais intensidade quanto menos ele vê à sua frente, como de resto
as suas previsões sistematicamente falhadas inequivocamente confirmam.
É urgente travar, mas tal não basta, porque isso só adiará o choque. O
que é urgente é mudar de direção.
Cá e na Europa. Foram muito comentadas as palavras de Jean-Claude
Juncker quando, na semana passada, em entrevista ao Der Spiegel,
lembrou as circunstâncias da Europa de há precisamente cem anos,
quando também se acreditava com complacência que não seria possível
haver mais guerras no continente europeu. E depois houve, e não foi só
uma...
E é também útil lembrar que se a Europa no começo dos anos 20 tinha 24
regimes democráticos, dez anos depois eles estavam reduzidos a menos
de metade, a 11. Um estudo sobre este processo, de B. Eichengreen, K.
H. O'Rourke e A. de Bromhead sobre as 171 eleições que tiveram lugar
em 28 países europeus entre 1929 e 1939, tira uma conclusão
importante, em que devíamos refletir: é que foi mais a duração do que
a intensidade das recessões desse período que provocou os terríveis
acontecimentos políticos dessa década.
O caso alemão é sempre de sublinhar: em 1928, a Alemanha tinha um
milhão de desempregados e o partido nazi obtinha 2,5% dos votos. Dois
anos mais tarde, em 1930, com o desemprego já nos três milhões, os
nazis atingem os 18,3%. E em 1932, quando o desemprego chega aos seis
milhões, Hitler consegue 37,2% dos votos, e poucos meses depois está
no poder.
Foi este o resultado de uma década de austeridade e deflação. As
analogias são cada vez mais inquietantes. E o que acaba de se passar
com Chipre assusta. No dia a seguir ao completo fiasco do Conselho
Europeu dedicado ao emprego e ao crescimento, a União Europeia decide
abordar o grave problema financeiro cipriota atacando o coração de
sistema bancário, isto é, a confiança dos cidadãos nas instituições
que têm de garantir a segurança dos seus depósitos.
Há de facto um sério problema de impunidade financista em Chipre que
não pode ser ignorado. Mas ele não pode ser resolvido poupando mais
uma vez os especuladores e caindo em cima das poupanças dos cidadãos,
impondo-lhes taxas que aparecem como uma inequívoca forma de extorsão.
Trata-se de uma machadada que se pode vir a revelar irreparável, não
só na confiança dos cidadãos no sistema bancário mas também nas
instituições europeias que promovem e caucionam este tipo de soluções.
Era do que a Europa, nesta fase, menos precisava. Mas parece que,
também aqui, a atração pelo muro é muito forte.
quarta-feira, março 20, 2013
O mundo cada vez se divide mais entre vencidos e vencedores.
Sempre tive um balanceamento positivo em relação aos que saltaram para fora da competição.
Como se isso não lhes dissesse nada.
Desmaterializados.
Sem necessidade de validação externa - tirando, claro, o amor e o afectos das almas únicas com quem se dão.
Com uma bravura enorme de romperem com o mais difícil.
O que separa isto da alienação, da anomia, do decadentismo concêntrico, da ditadura do prazer, do estou-me-nas-tintas para os outros pode, na superfície, ser frágil, mas separa coisas muito diferentes.
Não refiro pessoas que não consideram o interesse do Outro - mas o espelho do Outro.
Era muito novo e ao passar na rua com os meus pais parei subitamente impressionado.
Um homem-estátua.
Totalmente imóvel.
Fiquei mumificado a olhar para ele.
Aquilo não me saiu da cabeça e tive de convencer os meus pais a voltar lá.
Ele ficava horas e horas sem mexer nada - apenas pestanejava.
Como seria a sua vida interior enquanto ele estava ali de pé?
Era um sofrimento atroz - pior, do que isso, auto-induzido. Não conseguia perceber. (Ainda que lhe depositasse moedas no cesto.)
Para quê?
Nunca compreendi quem dedica um esforço sobre-humano a algo do qual não resultam benefícios para o Outro.
Sempre desprezei alpinistas que procuram records , competições que massacram o corpo para se obter uma medalha. Penso desde muito novo que tal capacidade de auto-superação é uma necessidade de mostrarem algo a si próprio. (Como na religião nunca percebi aqueles que só procuravam a salvação individual colocando-se em casas alçadas de longos metros verticais, distantes dos seus semelhantes e próximos de Deus, um paradoxo para mim.) E sempre admirei, esses sim, aqueles que partem para países mergulhaoos em sofrimento e alimentam quem tem fome, curam doentes, tratam pacientemente feridos.
terça-feira, março 19, 2013
Mais uma conversa em que em certa altura, o meu amigo, um solilóquio:
- Angel, somos todos bissexuais. Quem advoga que os homossexuais devem ter os mesmos direitos, blá blá blá, fica todo muito contente porque é uma pessoa liberta de preconceitos. Mas se ele ou ela nunca desenvolveu uma atracção por uma pessoa do sexo oposto tem um preconceito internalizado. A teoria é fácil. É como representaram os Monty Python. Os protestantes que podem ter relações sem preservativo, sem intencionalidade de fecundidade e depois na prática não o têm! É fácil dizer-se que se é um revolucionário na teoria quando se é um conservador na vida. As pessoas que defendem o poliamor e não o aplicam, as pessoas que defendem que se deve roubar para o comer mas não o fazem se não tiverem que comer; no fundo, acho mal que se roube para comer. Se não internalizas, é tudo treta, tudo etéreo. Como certos bloquistas que defendem vidas alternativas, mas nunca as conseguiriam praticar - aquela liberalidade abstracta não é sentida, porque a recusam para si. Há muito isto - para mim, era uma abjecção, mas eu acho que é o correcto. No fundo, essas mentes estão aprisionadas e encontram num mecanismo de evasão na abstracção de que se rebeliam no plano das ideias e das lutas e manifestações, de que não caem na zona confortável da segurança reprodutora do sistema. Como um professor catedrático que conheço, ultra-revolucionário, sempre a propugnar pelos pobres, trabalhadores - nunca conheceu um pobre ou operário sequer. São abstracções conceptuais - não conhece a realidade concreta, a individual. Ainda no outro dia, falei com uma pessoa que está a elaborar um estudo sobre a necessidade da melhoria das prisões e nunca lá esteve! Quanta esquerda nunca entrou numa barraca. O pai de uma amiga minha é um investigador na área da exclusão social, todo esquerdista e cheio de flamas no verbo, mas quando a filha quer levar um maltrapilho a casa, ele não deixa, discrimina classistamente, teve a lata de lhe dizer: «Estou cansado de te ver com a fina-flor do entulho.»
I only wanted absolute quiet to think out why I had developed a sad attitude towards sadness, a melancholy attitude toward melancholy, and a tragic attitude toward tragedy - why I had become identified with the objects of my horror or compassion.
Does this seem a fine distraction? It isn’t: identification such as this spells the death of accomplishment. It is something like this that keeps sane people from working. Lenin did not willingly endure the sufferings of his proletariat, nor Washington of his troops, nor Dickens of his London poor. And when Tolstoy tried some such merging of himself with the objects of his attention, it was a fake and a failure.
F. Scott Fitzgerald
O poder das palavras sempre me fascinou. Sei que é ridiculamente banal nomear-se o poder das palavras. (Um truísmo é sempre ridiculamente banal, mas ainda assim, talvez, uma prova de sensatez.) Por intermédio das palavras, constroem-se laços, quebram-se laços, enfeitiçam-se corações, resgatam-se criaturas da noite mais escura da alma. Por causa das palavras, matam-se seres humanos.
(Ao reler o parágrafo em cima, sinto que uma ideia-maior me sobreexcitou, mas que as palavras a esmagaram.)
domingo, março 17, 2013
O meu amigo, viajante do mundo, pensador, sociólogo da vida quotidiana, vampiro noctívago de essências, declarou-me:
- Hoje, tenho menos sede de infinito, menos sofreguidão walwhitmaniana de experimentar e de conhecer tudo. Sempre achei que quanto mais pessoas compreendemos, mais nos expandimos, mais somamos eus e experiências e compreendemos que o que nos unifica é sempre maior do que aquilo que nos separa - isso é o segredo para se eliminar o medo e se ser livre. Porque as pessoas e os grupos são todos iguais no espectro de emoções. Vi a rivalidade e a vaidade entre os sem-abrigo. Vi índios da América do Sul que «viviam desmaterializados» a tentar enganar-me subtraindo mel nas trocas directas. Vi membros da alta finança com poetas escondidos por trás dos fatos Armani. Vi machos latinos chorarem por desgostos amorosos. Vi óptimas pessoas praticarem actos de canalha e vi monstros com gestos de uma ternura inexcedível.
sábado, março 16, 2013
De tanto ouro que acumula, de tantas leituras (cultura), de tantas experiências (mundo), o escritor enlouquece se não consegue vazar tudo para o papel. O outro dentro de si enriquece e aprofunda o humano - mas para o escritor é diferente. O ouro transforma-se em tralha.
Só o sossega a teoria do icebergue de Hemingway. Quando lhe perguntaram se escrevera sobre insónias, afirmou que bastava tê-las vivido para elas estarem na sua obra. O subtexto como inclusivo de tudo o que homem transporta dentro de si - todos os fantasmas e todas as albas.
sexta-feira, março 15, 2013
Trocaram opiniões sobre relações e atracções. Atiraram aquelas verdades absolutas: «Não, as coisas numa relação só funcionam se...»
- Quando estou interessado numa rapariga, elevo-me. O meu verbo ganha fogo. É como se conhecesse o melhor de mim que desconhecia.
- A mim, sucede exactamente o contrário. Fico patético, errático, contraditório. Encolho-me, sou calculista no dizer e no agir, não sou eu - perco-me e lamento-me.
- Pois, não deve haver leis gerais nestas matérias.
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