quinta-feira, novembro 29, 2012
Vídeo de lançamento do livro em que a tasca entra
http://www.culturafnac.pt/videos/?video_id=54464394
quarta-feira, novembro 28, 2012
Perceber o padrão
Ele é de esquerda e discute vivamente com os de esquerda vivamente. Ele é religioso e discute vivamente com os religiosos. Ele discute vivamente com muita gente. Por outro lado, ele dialoga muito pacificamente com pessoas de todos os credos, ele dialoga até com pessoas da direita mais à direita. Ele entende monárquicos, budistas, muçulmanos, protestantes, ateus, nacionalistas. Só ao fim de muito tempo entendi que só há uma coisa que o irrita - a defesa de uma posição sem se dominar um assunto.
- Não é verdade que todas as pessoas gostem de ser bem tratadas. Conheço quem aprecie o contrário. Conheço quem me ganhe respeito só quando as maltrato. Conheço quem confunda sobranceria com personalidade forte e bondade com submissão. Certa pessoa que conheço vê a ligação emocional do outro como uma fraqueza, gabando-se de ser autónomo e sem laços.
Certas coisas só se revelam após uma relação profunda. Afinal, ele, sempre pronto para a piadinha fácil, para o divertimento, para os filmes da pipoca, para noites adolescentes, sempre a lidar com pessoas muito mais novas; afinal, ele escolheu deliberadamente leveza da vida após um esgotamento.
Escolheu o riso, a frivolidade até, como escudo. Sofrera já demasiado por pensar muito e sentir muito. A escolha da futilidade pode vir depois de uma reflexão profunda. «Eu decidi que tinha de viver numa casa de bonecas depois de muitas angústias metafísicas que continuam comigo porque quem as tem nunca as perde.»
Escolheu o riso, a frivolidade até, como escudo. Sofrera já demasiado por pensar muito e sentir muito. A escolha da futilidade pode vir depois de uma reflexão profunda. «Eu decidi que tinha de viver numa casa de bonecas depois de muitas angústias metafísicas que continuam comigo porque quem as tem nunca as perde.»
terça-feira, novembro 27, 2012
segunda-feira, novembro 26, 2012
Pessoas que foram apanhadas a trair
Caryl Chessman (um grande escritor) dizia que apenas 13% dos crimes eram «apanhados». Nas traições, o número será bem maior.
1. Ele era hipercuidadoso em encontra-se com a amante. Só quando ela viajava para o estrangeiro, ele saía de casa de noite e desligava o telemóvel, dizendo antes: «Vou dormir. Boa noite.» Chegava a ponto de sair no sétimo andar do elevador e descer de escadas os restantes para casa dela. Ainda assim, a sua namorada - esta merda é real - soube pelo porteiro do prédio que era porteiro da sua empresa que o seu companheiro ia visitar um prédio.
2. Ela foi apanhada da forma mais incrível. Um amigo dele numa viagem de comboio para Abrantes ouviu duas mulheres a comentarem um caso de infidelidade nos bancos de trás. Ficou perplexo quando ouviu o nome e o apelido do amigo. Virou-se costas, descreveu numa SMS o rosto da mulher e o amigo respondeu pesaroso que era ela.
3. Ele descobriu no Facebook uns likes de um tipo à namorada de que suspeitou. «Quem é aquele Ricardo? Nunca me falaste dele.» Ela pareceu-lhe perturbada. No mural dele, viu que estudava na Lusófona. Trabalhando ele na secretaria da Lusófona, dedicou-se a investigar tudo sobre ele. Conseguiu ler testes dele. Uma resposta falava de um livro de Steiner, Os Logocratas, que a sua namorada estava sempre a citar, e, pior do que isso, os excertos que ela citava.
4. Ele falava com ela na casa da amante. Pedia-lhe que se calasse, desligasse telemóvel e televisão. Falava com a namorada como se estivesse em sua casa no sofá. Ele dizia: «Vai à Internet para falarmos e ele ia.» Contudo, um dia a namorada disse-lhe: «Este não é o som do silêncio da tua casa.» Ele ficou em pânico. Tenho perguntado a amigas minhas e elas concordam. As casas, mesmo no silêncio, têm sempre sons próprios. Todas elas concordam. Há casas com ruídos próprios de electrodomésticos, cada autoclismo tem um som distinto, as janelas que se abrem numa casa e não se abrem noutra, as varandas que há e não há, o som do vento que é mais ou menos intenso consoante a casa, uns imperceptíveis sons de fundo, os próprios aviões e ambulâncias e carros da polícia que há e não há.
O real, como sugere Paul Auster, nas suas narrativas por vezes cospe na cara da ficção. Há coincidências que têm de vir de Cima.
domingo, novembro 25, 2012
.o sol brilha para você ele disse no dia que a gente estava deitado entre os rododendros no cabeço do Howth no terno de tuíde cinza e chapéu de palha dele dia que levei ele a se propor a mim sim primeiro eu dei a ele um pouquinho do bolinho-de-cheiro da minha boca e era ano bissexto como agora sim dezasseis anos atrás meu Deus depois desse beijo longo eu quase perdi minha respiração sim ele disse que eu era uma flor da montanha sim assim a gente é uma flor todo o corpo de uma mulher sim essa foi uma coisa verdadeira que ele disse na vida dele e o sol brilha para você hoje isso foi por que eu gostei dele porque eu via que ele entendia ou sentia o que é uma mulher eu sabia que eu podia dar um jeito nele e eu dei a ele todo o prazer que eu podia levando ele até que ele me pediu pra dizer sim e eu não queria responder só olhando primeiro para o mar e o céu eu estava pensando em tantas coisas que ele não sabia de Mulvey e do Sr Stanhope e Hesier e meu pai e do velho capitão Grovas e os marinheiros brincando de coelho-sai e pula-carniça e lavar-pratos como eles chamavam no cais e o sentinela na frente da casa do Governador com a coisa em redor do capacete branco dele pobre diabo meio tomado e as garotas espanholas se rindo nos xailes e nas grandes travessas delas e os pregões da manhã os gregos e os judeus e os árabes e o diabo sabe quem mais de todos os confins da Europa e a Rua do Duque e o mercado de aves todas cacarejando em frente do Larby Sharon e os pobres dos burricos escorregando meio dormidos e os sujeitos vagos nas mantas dormitando na sombra nos degraus e as rodas grandes das carroças de touros e o velho castelo milhares de anos velho e aquèles mouros bonitos todos de branco e tuìbantes como reis pedindo à gente pra sentar nas lojinhas pequeninas deles e Ronda com as velhas janelas das posadas olhos vislumbrados em muxarabiê escondidos para o amante dela beijar o ferro e as bodegas de vinho meio abertas à noite e as castanholas e a noite que a gente perdeu o bote em Algeciras o vigia indo por ali sereno com a lanterna dele e oh aquela tremenda torrente profunda oh e o mar o mar carmesim às vezes como fogo e os poentes gloriosos e as figueiras nos jardins da Alameda sim e as ruazinhas esquisitas e casas rosas e azuis e amarelas e os rosais e os jasmins e gerânios e cactos e Gibraltar eu mocinha onde eu era uma Flor da montanha sim quando eu punha a rosa em minha cabeleira como as garotas andaluzas costumavam ou devo usar uma vermelha sim e como ele me beijou contra a muralha mourisca e eu pensei tão bem a ele como a outro e então eu pedi a ele com os meus olhos para pedir de novo sim e então ele me pediu quereria eu sim dizer sim minha flor da montanha e primeiro eu pus os meus braços em torno dele sim e eu puxei ele pra baixo pra mim para ele poder sentir meus peitos todos perfume sim o coração dele batia como louco e sim eu disse sim eu quero Sims
James Joyce
James Joyce
Pintura e Literatura
http://www.amazon.com/Influence-Painting-Five-Canadian-Writers/dp/0773488383
Sempre me interessou este assunto. A influência da pintura nos escritores no processo da criação.
Baptista-Bastos criticando «o armário de adjectivos» que alegadamente é Lobo Antunes dizia que este devia aprender com a pintura, em que muitas cores garridas estragavam uma tela, devendo por isso ser doseadas.
Hemingway quando questionado sobre os escritores que o influenciaram despejou uma longa lista em que encaixou Cézanne, asseverando numa entrevista que tinha aprendido tanto com pintores como com escritores a escrever.
http://lorigordon.wordpress.com/2010/04/07/the-artists-that-influenced-hemingway/
Sempre me interessou este assunto. A influência da pintura nos escritores no processo da criação.
Baptista-Bastos criticando «o armário de adjectivos» que alegadamente é Lobo Antunes dizia que este devia aprender com a pintura, em que muitas cores garridas estragavam uma tela, devendo por isso ser doseadas.
Hemingway quando questionado sobre os escritores que o influenciaram despejou uma longa lista em que encaixou Cézanne, asseverando numa entrevista que tinha aprendido tanto com pintores como com escritores a escrever.
http://lorigordon.wordpress.com/2010/04/07/the-artists-that-influenced-hemingway/
Esse é o cheiro superlativo. Muito mais doce do que o da mais delicada flor, muito mais intenso do que o da gasolina, muito mais espumoso e cremoso do que o da terra molhada, mais subtil do que o da erva da manhã, mais inebriante do que qualquer perfume de frasco, mais indutor de apetite do que o do cozinhado que chega até ti quando estás esfaimado.
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