segunda-feira, novembro 12, 2012

Heteronímia

http://sorenkierkegaard.org/kierkegaard-authorial-method.html
Ao contrário de George Steiner, creio que a cultura humaniza e nos protege da barbárie. É difícil defender-se a pena de morte depois ler o argumentário de Camus ou a pungente descrição do enforcado de Orwell  (a que assistiu quanto trabalhava ao serviço do Império Britânico na Birmânia) ou a felicitação de Victor Hugo pelo abolicionismo pioneiro de Portugal. É difícil defender o totalitarismo depois de ler 1984 ou O Zero e o Infinito. É difícil ser um tecnófilo depois de ler Admirável Mundo Novo e o seu regresso. É impossível não perceber o perigo da cultura resvalar em entretenimento depois de ler Fahrenheit 451 . É mais difícil ser-se violento depois de ser ler Laranja Mecânica. É impossível ler Na Penúria em Paris e em Londres e ter um olhar desdenhoso para com o mendigo. É difícil ser-se racista lendo Camões e Whitman. Ou machista. Camões, que já há quinhentos anos. anos troçava dos homens que só procuravam as mulheres para obterem prazer, desconhecendo que elas iriam procurá-lo a outro lado.
A futilidade pode ser um pecado capital.

Aula de Sociologia

- Vêem esses homens lá fora - a socióloga apontava para um conjunto de trabalhadores das obras num andaime -, quantas de vós, mulheres, ficarão com eles como companheiros. Muito provavelmente, nenhuma. E eles sabem-no. E sentem-no. O preconceito mais transversal, mais intransponível, mais marcante ainda é o classista. De modo que eles olham para vós como inacessíveis e mandam piropos como o burguês sentado no sofá manda às divas do cinema... E dessa inacessibilidade, do saber que nada têm a perder vêm a facilidade no verbo, a necessidade de extravasar pela palavra os sonhos irrealizáveis. Claro que têm o direito de se sentir vexadas, mas eles são os primeiros vexados pela vossa exclusão. E lembrem-se de Adília Lopes: se um trolha me tivesse dito ó boa, comia-te toda na adolescência, hoje era uma mulher muito mais segura. Nas nossas sociedades ocidentais, não está no papel a discriminação sexual, étnica, religiosa, mas aceita-se e convive-se com a discriminação económica. E cada vez mais com o desmantelamento das funções do Estado. Começa a aceitar-se brandamente que uma pessoa que não tem dinheiro não possa ir ao hospital ou ter os filhos a comer em cantinas. A exclusão económica é uma forma de barbárie.

sábado, novembro 10, 2012

Precariedade

A desumanização não pára. A destruição dos laços sociais. A incessantemente crescente precarização laboral, além de demonstradamente não criar emprego, mata o afecto. Há pessoas que renovaram 112 vezes o contrato sem terem vínculo, há pessoas com contratos mensais, cada vez é mais fácil despedir, cada vez se exige mais mobilidade laboral.
Não há tempo para as relações com os colegas.
Não há tempo para o afecto com o senhor simpático do café perto do trabalho.

Finais epistolares

«Carta escrita e não relida para não interferir na autenticidade e contaminá-la de literatura.»
«Peço desculpa por me alongar, mas não tenho tempo para ser mais breve.»

Laranja Mecânica

Miúdos entre os treze e os dezasseis não gostam do ladrar de um cão. Um deles (o líder) vira-se para o idoso que o transporta:
- Ó Velho da merda, ou levas o bicho daqui ou levas um pontapé na boca. 
O senhor de porte erecto e rosto afável diz:
- Ele não faz mal a ninguém...
- Já te disse - o jovenzinho levantara-se - ou o levas daqui ou levas um pontapé na boca. Agora, escolhe.

Sempre houve vândalos. Mas havia alvos proibidos: velhos, grávidas, deficientes, pessoas de cadeira de rodas, sem-abrigo. Observo que há cada vez menos alvos proibidos.

Limitações da Democracia

1. A democracia tem de aceitar não-democratas ou então é uma imposição. Não pode proibir ideologias que perfilhem o fascismo como a nossa Constituição porque também não proíbe maoistas ou estalinistas.
2. Muita boa gente não percebe que a vontade da maioria pode ser impeditiva da liberdade pessoal. Aristóteles perguntava no terceiro volume de Política: e se a maioria for composta por ricos, se os ricos votarem para espezinhar os pobres? Aristóteles concluía assim que a democracia tem de ser algo mais do que supranumerária, algo mais do que a estrita decisão da maioria aplicada a TODOS. Hoje, pergunto-me se uma maioria decidir proibir a homossexualidade (como em muitos países é proibida e condenada penalmente, nalguns casos com a morte) ou as mulheres de vestirem mini-saia com em países africanos «para evitar as violações»? Há direitos que se não forem blindados ao voto conduzirão à barbárie. As liberdades individuais não podem ser sufragadas.

Porque volto sempre aos clássicos

Um estudo recente concluiu que a música do século XX tem pouquíssimas variações e que a larga maioria é uma gravitação em torno do mesmo ritmo. Na literatura, cada vez parece que anda tudo à roda da mesma corda, copiando-se, intertextualizando-se, clichezando-se.

A cultura hodierna

O BCP despede os trabalhadores por e-mail.
O Governo de Portugal legislou que senhorios possam ser despedidos por e-mail.

sexta-feira, novembro 09, 2012

Castas

No ISCSP, dois académicos contaram-me rigorosamente o mesmo. Os monitores convivem com monitores, os assistentes com assistentes e os «Professores» com «Professores». «Angel, se um assistente for visto com um monitor é um vexame. Não pode e terá de se justificar.» Cada macaco no seu galho.

Numa operadora de televisão, os jornalistas e os editores de vídeo tratam os câmaras como burros de carga e evitam misturas no contacto pessoal.

Numa empresa de aviação, quem tem licenciatura usa fato e gravata e quem não tem não usa para se distinguir e ninguém desobedece. O administrador distingue ainda dentro dos que têm fato os que têm posição de chefia e os que não têm. «Há os chefes e os índios e eu só falo com os chefes.»

Numa consultora, o chefe proíbe (desaconselhando veladamente) os almoços com a ralé. «Se vocês querem subir na empresa, porque é que vão almoçar com recepcionistas? São umas cuscas de primeira apanha.»

Numa empresa de comunicação, uma amiga minha ex-hippie dava-se muito com «as maquilhadoras». Um dia, foi chamada à atenção. Deixou de ir almoçar com elas. «Percebi que me estavam a discriminar por me dar com elas e que isso me prejudicava porque perdia credibilidade.»

Da humanidade dos escritores

Dinis Machado, um coração puro e bom, dizia que só por inadvertência ou distracção poderia ter magoado alguém. Quem o conhece diz que é verdade.

Lobo Antunes diz que viu pessoas muito boas cometerem as piores vilanias e más pessoas cometerem uma acção que só um grande coração praticaria - e que isso é uma lição que a vida lhe ensinou, desmontando o que pensava ser uma realidade em preto e branco. Diz que se emocionou quando na guerra um homem muito importante na tropa perante um «mero soldado» que estava de pé de vigia: «Você vai ter frio. Tome o meu casaco.» Também diz que no hospital veio um bebé morto encoberto num lençol e que só tinha um pezinho destapado, lateral, pendente, amorável. Garante ser para esse pé que escreve. Quem o conhece diz que não é bem assim.

Da humanidade dos meus amigos

No dia em que foi promovido a director, chegou ao pé de mim, gabardina castanho-clara, os olhos aquosos, deu-me um abraço.
- Estou muito triste, Angel, muito triste - a voz cheia de lágrimas - despediram um senhora de meia-idade, o que é que ele vai fazer agora? Esteve lá à vida toda e não merecia... e eu é que fico com o lugar, ele não merecia e agora não lhe dão trabalho. Estou na merda.

quinta-feira, novembro 08, 2012

O maior inimigo da luta de classes: o vestir a camisola da empresa.
Quanta gente conheço que acredita piamente que o importante é lutar para que a empresa esteja melhor - que quanto melhor estiver, mais os seus empregados beneficiarão. Quanta gente conheço que deu o litro desiludindo-se com a falta de reconhecimento e de gratidão. Quanta gente conheço que incorpora a ideia de que o inimigo são sempre as empresas concorrentes. Quanta gente conheço que desconhece a diferença salarial entre o que ganha menos e o que ganha mais. 1:20, 1:100, 1:1000, 1:15 000 em grandes empresas.

Coincidências - a matéria-prima de Auster

Ele falou à mulher de um homem que não via há vinte anos. Nesse dia, cruzou-se com ele duas vezes em dois sítios diferentes.
Eu acordei hoje com uma palavra. «Feérico.» Quase me perguntei porquê. Hoje, a palavra surgiu-me num jornal e num livro.

Sempre entendi que a nova forma de espiritualidade nascerá da observação das «coincidências».

A lata e a sardinha




Quando perguntaram a Agostinho da Silva se era conservador, respondeu que dependia. Se era para conservar a lata, não era conservador. Se era para conservar a sardinha, era conservador. Com uma frase tão simples desenvolveu uma ideia complexa - será esse o pináculo da sabedoria. 
Lembro-me de trabalhar numa empresa, de ter exercer o meu direito laboral e de uma acéfala técnica de recursos humanos me dizer: «Não, Angel, não pode ser.» «Mas está na lei!», ripostei e abri-lhe o Código de Trabalho na página. «Mas aqui nunca fizemos assim.» «Se sempre fizeram assim, sempre fizeram mal. Isso não é um argumento de uma pessoa inteligente.» Assustada, lá me deu o papel a que tinha direito. Nesse dia, decorei (gravar no coração) a estupidez do conservadorismo como valor intrínseco e supremo. Também o ser contra tudo aquilo vem de trás, sem distinguir o ouro da poeira, é uma estupidez de calibre idêntico. Como uns freaks que conhecia e que não queriam que o filho nascesse no hospital «porque era contra todo processo de normalização». «Porque não o ensinam a andar em quatro patas, então?», perguntei-lhes na altura. Incorporar-se um rótulo - «conservador», «progressista» - e agir de acordo com ele, sem atender à análise de uma ideia, é uma cegueira. E todo o fanatismo é autista.

Magritte, claro

Bourgeois

Ele trabalha o dia todo numa consultora.
Ela trabalha o dia todo num auditora.
Ligam-se durante o dia para falar de assuntos de trabalho.
À noite, jantar e tratar do filho.
Não falam com mais ninguém ao telefone além de colegas de trabalho, dos sogros e de um ou outro membro da família.
Ao fim-de-semana, estão de volta do filho, limpam a casa, vão às compras e tratam de arrumações.
Ele fazia surfe aos sábados, mas agora «não tenho tempo, trabalho e filho, não dá para mais»
Ela costumava estar com as amigas ao domingo, mas agora «é cada vez mais raro e quando há visitas, é preciso comprar uma série de coisas e depois arrumar tudo e eu ando sem energias».
Nunca foram ao teatro desde que casaram, nunca foram a uma exposição, ele foi uma vez a uma feira de automóveis e duas vezes a casas de strip. Ela só sai de casa para passear com ele e a criança ou ir a casa de outro casalinho (também isso cada vez mais esporadicamente).
Para o sacrossanto Facebook, lá arranjam um tempinho para irem debitando as fotos das fraldas, de aniversários do miúdo, do miúdo a brincar com o iPhone; tendo nas informações do Facebook que são casados e que trabalham nas empresas multinacionais.
Duas vezes por ano, viajam. Foram à Coreia do Sul e vieram cheios de fotografias e sobreexcitados, mas desconhecendo o regime que vigorava na Coreia do Norte. Foram a Singapura e não vieram minimamente perturbados com o sistema penal.
Quando calha encontrarem alguém das suas amizades de outrora, excluem quem ficou por empregos que consideram medianos. «Sabes que o Zé se ficou pelo 12.º ano? Há pessoal mesmo sem ambição», ele diz enquanto ela acena com a cabeça.
Ele diz que gostava de ir para Angola «ganhar muito dinheiro», mas «não seria bom para a família».
No trabalho, ele recebe muitos e-mails de gajas nua e vídeos porno. Ri-se. «Boas mamas aquela, grande porca a outra. Mas eu em casa tenho a refeição completa», diz contentinho com um sorrisinho malandro.
Ela joga Farmville. «Nem para a minha quintinha, tenho tido tempo», lamenta-se.
As promoções no trabalho, os feitos da criança, as viagens, os saldos que aproveitam e os novos produtos tecnológicos sofisticados que vão comprando são o colorido das suas vidas.

quarta-feira, novembro 07, 2012

- Eu estou sempre bem;
- Eu sou uma pessoa muito resolvida;
- Eu tenho uma grande força interior.

Ela disse-me.

Uma semana depois, aterraria na cama com depressão.
- Did you do it?
- No.
- Would you tell me if you did it?
- No.