sábado, setembro 22, 2012
[...]
Um sítio chama outro responde
Tolas ruas contentes, oh como a coisa promete
[...]
Pelo meu lado regresso à água do oceano. Adeus
[...]
Ora pois, velho hábito; pouco valho; mas tenho nos dedos
o jeito dos marinheiros de dar doze nós
numa corda e bombordo estibordo
balançar-me nas pernas, gosto disso.
Nas tempestades agarro-me ao grande mastro nu,
ouvido colado, há todo o tipo de ruídos;
entre duas rajadas vejo virem os va-
galhões com as cristas espumadas
e às vezes esta água violenta torna-se tão calma e
como que agonizante, senti-
mo-nos profundamente felizes
se ela apenas se agita com algumas rugas e dobras,
como algo que se aguenta tem-te-não-caias sob uns
velhos olhos benevolen-
tes e sábios de mulher.
Henri Michaux traduzido por Herberto Helder
Um sítio chama outro responde
Tolas ruas contentes, oh como a coisa promete
[...]
Pelo meu lado regresso à água do oceano. Adeus
[...]
Ora pois, velho hábito; pouco valho; mas tenho nos dedos
o jeito dos marinheiros de dar doze nós
numa corda e bombordo estibordo
balançar-me nas pernas, gosto disso.
Nas tempestades agarro-me ao grande mastro nu,
ouvido colado, há todo o tipo de ruídos;
entre duas rajadas vejo virem os va-
galhões com as cristas espumadas
e às vezes esta água violenta torna-se tão calma e
como que agonizante, senti-
mo-nos profundamente felizes
se ela apenas se agita com algumas rugas e dobras,
como algo que se aguenta tem-te-não-caias sob uns
velhos olhos benevolen-
tes e sábios de mulher.
Henri Michaux traduzido por Herberto Helder
sexta-feira, setembro 21, 2012
Malditas sinapses
Depois da declaração de Paulo Portas contra a TSU, Passos Coelho decidiu demitir-se. O receio de Portugal se tornar igual à Grécia com a abertura de uma crise política levou-o a recuar.
O semanário "Sol" escreve que a coligação governamental tremeu como nunca, mas ontem os dois partidos enterraram o machado de guerra. No domingo, após a declaração de Portas, Passos Coelho disse ao seu círculo político mais próximo de que estava a ponderar a demissão, pois entendia que a discordância pública do líder do CDS lhe retirava autoridade perante o País para continuar a liderar as difíceis medidas de ajustamento orçamental e maior austeridade - e que, ao mesmo tempo, o líder do CDS acabara por destruir a coesão política do Governo.
A indignação sentida pelos responsáveis do PSD perante a "declaração de guerra" do CDS obrigou a uma resposta pública imediata e ainda no domingo, em conferência de imprensa, Jorge Moreira da Silva assumiu que "as declarações do líder do CDS não são indiferentes para a coligação e, porventura, para o próprio Governo". E só o facto de o cenário de demissão de Passos Coelho estar ainda, nesse momento, em cima da mesa terá levado a protelar para quarta-feira à noite a resposta final do PSD.
Perante a iminência de uma crise política, sucederam-se os apelos junto de Passos Coelho para evitar esse cenário a todo o custo, sendo o primeiro-ministro confrontado, pelo seu "Núcleo duro", com o risco de a sua demissão transformar Portugal numa nova Grécia. Tornando o País ingovernável e sem uma alternativa política que oferecesse o mínimo de garantias aos nossos financiadores europeus
Bukowski era feio (tinha a cara coberta de crateras, há fotografias tenebrosas), tímido, pobre e tinha um pai crudelíssimo.
O seu pai fora o seu grande mentor literário porque lhe ensinara o valor do pain without reason, que procuraria verter para a escrita e que era algo universal e que portanto chegaria a muita gente nas suas páginas. Outra sua influência literária, dizia, era a sua experiência enquanto operário e funcionário dos correios. Aprendera que quando uma pessoa tem uma jorna estupidificante que mói o corpo e que faz chegar a casa só com vontade de se estirar, que quando uma pessoa tem essa experiência não tem paciência para adornos literários - que identifica imediatamente uma frase que não é verdadeira. Transportaria isso para a escrita libertando-se de toda a quinquilharia literária e procurando frases-verdades-que-gritam, sem quaisquer pretensiosismos.
Perdeu a virgindade com 24 com uma prostituta obesa e velha, que acabaria por partir a cama e adormecer, e antes de ser famoso, viveu muito tempo sem que as mulheres lhe ligassem peva.
Depois de famoso, entregou-se a viver o que não vivera e a conhecera o que não conhecera. Linda, a mulher que o acompanharia até ao final da vida, disse compreender dando-lhe por isso liberdade para completar o seu research. Fartar-se-ia e voltaria para ela. Linda acertara.
O problema da sua vida, explicou, é que as «young ladies with tight pussies came too late».
Ainda assim, era devoto da mulher. Achava que ao contrário dos homens, obcecados por cus e mamas, uma mulher, mesmo «que sejas feio desde que tenhas alguma coisa boa para lhe dar, ela pode gostar verdadeiramente de ti».
O seu pai fora o seu grande mentor literário porque lhe ensinara o valor do pain without reason, que procuraria verter para a escrita e que era algo universal e que portanto chegaria a muita gente nas suas páginas. Outra sua influência literária, dizia, era a sua experiência enquanto operário e funcionário dos correios. Aprendera que quando uma pessoa tem uma jorna estupidificante que mói o corpo e que faz chegar a casa só com vontade de se estirar, que quando uma pessoa tem essa experiência não tem paciência para adornos literários - que identifica imediatamente uma frase que não é verdadeira. Transportaria isso para a escrita libertando-se de toda a quinquilharia literária e procurando frases-verdades-que-gritam, sem quaisquer pretensiosismos.
Perdeu a virgindade com 24 com uma prostituta obesa e velha, que acabaria por partir a cama e adormecer, e antes de ser famoso, viveu muito tempo sem que as mulheres lhe ligassem peva.
Depois de famoso, entregou-se a viver o que não vivera e a conhecera o que não conhecera. Linda, a mulher que o acompanharia até ao final da vida, disse compreender dando-lhe por isso liberdade para completar o seu research. Fartar-se-ia e voltaria para ela. Linda acertara.
O problema da sua vida, explicou, é que as «young ladies with tight pussies came too late».
Ainda assim, era devoto da mulher. Achava que ao contrário dos homens, obcecados por cus e mamas, uma mulher, mesmo «que sejas feio desde que tenhas alguma coisa boa para lhe dar, ela pode gostar verdadeiramente de ti».
Informação é poder
Quando lhe telefonei a comunicar uma morte de uma pessoa em comum:
- Angel, tu és impressionante. Sabes sempre as notícias em primeira mão, fresquinhas, ainda se nota o cheiro da tinta.
Nunca fala comigo sem me perguntar:
- E novidades? Que contas? Novidades de A, B, C? E de D não sabes nada? Que tens para me contar? Alguma coisa bombástica?
Está sempre a tentar sugar informação. Mesmo perante notícias que deixariam uma pessoa normal contristada, a sensação dele é já-tenho-mais-uma-informação.
Antes de sair de um sítio, dá sempre voltas e voltas a observar as pessoas. Procura sempre saber no trabalho quem almoça com quem, quem corteja quem.
Nas segundas, quer sempre saber quem saiu, com quem, para que sítio e até que horas.
Está permanentemente a observar.
Até as conversas da mesa do lado escuta.
Quando me telefona, pergunta sempre:
«Que andas/estás a fazer?»
Às vezes, brinco com ele:
«Já sabes...»
Mediante estas duas palavras, fica ansioso, incompleto, sôfrego.
«Conta, conta, conta», diz velozmente.
- Angel, tu és impressionante. Sabes sempre as notícias em primeira mão, fresquinhas, ainda se nota o cheiro da tinta.
Nunca fala comigo sem me perguntar:
- E novidades? Que contas? Novidades de A, B, C? E de D não sabes nada? Que tens para me contar? Alguma coisa bombástica?
Está sempre a tentar sugar informação. Mesmo perante notícias que deixariam uma pessoa normal contristada, a sensação dele é já-tenho-mais-uma-informação.
Antes de sair de um sítio, dá sempre voltas e voltas a observar as pessoas. Procura sempre saber no trabalho quem almoça com quem, quem corteja quem.
Nas segundas, quer sempre saber quem saiu, com quem, para que sítio e até que horas.
Está permanentemente a observar.
Até as conversas da mesa do lado escuta.
Quando me telefona, pergunta sempre:
«Que andas/estás a fazer?»
Às vezes, brinco com ele:
«Já sabes...»
Mediante estas duas palavras, fica ansioso, incompleto, sôfrego.
«Conta, conta, conta», diz velozmente.
O superherói (sem hífen para não soar a Marvel)
O superherói não tem problemas. O superhéroi não partilha problemas. O superherói não deixa ninguém chegar perto da sua intimidade. O superherói nunca teve um pesadelo. Nunca contou uma fraqueza. Nunca narrou uma história em que no final fosse ridículo, idiota. Não. Nas suas histórias, todos eram parvos, idiotas - menos ele. As suas histórias são muito entendiantes. Já se sabe que no final ele resolveu o que parecia impossível. O superherói nunca tem chatice na vida que não resulte da estupidez ou malvadez alheia.O superherói ajudou toda a gente. O superherói modificou toda a gente O superherói não tem um par. O superherói afasta todo aquele que não o idolatre ou o critique ou não assimile acriticamente tudo o que diz - o superherói afasta todo aquele que não sinta a relação como vertical procurando horizontalizá-la. O superherói fomenta a imitação O superherói nunca fala do que não sabe - e desvaloriza tudo o que não sabe como «trivialidades». O superherói nunca deixa de ajudar - se não pode é porque está a ajudar outro.
- Angel, estive três dias sem dormir a acabar um trabalho. Tudo porque aqueles idiotas iam demorar seis meses a fazer isto e o prazo estava a apertar.
- Tive de estar a explicar a lei ao advogado.
- Não vou a médicos. Da última vez, tive de explicar ao médico os medicamentos que me devia receitar, Angel.
- Ela era boa para ti.
«Então e para ti?», perguntam-lhe.
- Não, para mim, não.
(Ou simplesmente faz um sorriso altivo com o seu arzinho superior.)
- Angel, estive três dias sem dormir a acabar um trabalho. Tudo porque aqueles idiotas iam demorar seis meses a fazer isto e o prazo estava a apertar.
- Tive de estar a explicar a lei ao advogado.
- Não vou a médicos. Da última vez, tive de explicar ao médico os medicamentos que me devia receitar, Angel.
- Ela era boa para ti.
«Então e para ti?», perguntam-lhe.
- Não, para mim, não.
(Ou simplesmente faz um sorriso altivo com o seu arzinho superior.)
the suicide kid | ||
| by Charles Bukowski | ||
I went to the worst of bars
hoping to get
killed.
but all I could do was to
get drunk
again.
worse, the bar patrons even
ended up
liking me.
there I was trying to get
pushed over the dark
edge
and I ended up with
free drinks
while somewhere else
some poor
son-of-a-bitch was in a hospital
bed,
tubes sticking out all over
him
as he fought like hell
to live.
nobody would help me
die as
the drinks kept
coming,
as the next day
waited for me
with its steel clamps,
its stinking
anonymity,
its incogitant
attitude.
death doesn't always
come running
when you call
it,
not even if you
call it
from a shining
castle
or from an ocean liner
or from the best bar
on earth (or the
worst).
such impertinence
only makes the gods
hesitate and
delay.
ask me: I'm
72.
| ||
Ofícios
As profissões exigem conhecimento e experiência. Mas há duas que a humanidade, particularmente os Portugueses, se sente habilitada a julgar e a executar. Todos podem ser poetas e treinadores de futebol (desde que acompanhem vagamente os jogos). E também, numa escala menor, políticos, psicólogos e jornalistas.
Poetas, poetas, todos são poetas, todos podem ser poetas, todos - mesmo os que nunca leram poesia - podem cagar poemas. (É um ofício de anos e anos e anos de ler, escrever, ouvir, treinar o olhar, de degustar as palavras na boca, de arquitecturar com régua e compasso o mais frágil dos edifícios em que uma palavra a mais o desaba: a poesia, de de observar cada instante como se fosse um instante poético.)
Poetas, poetas, todos são poetas, todos podem ser poetas, todos - mesmo os que nunca leram poesia - podem cagar poemas. (É um ofício de anos e anos e anos de ler, escrever, ouvir, treinar o olhar, de degustar as palavras na boca, de arquitecturar com régua e compasso o mais frágil dos edifícios em que uma palavra a mais o desaba: a poesia, de de observar cada instante como se fosse um instante poético.)
quinta-feira, setembro 20, 2012
Dos humanamente baixinhos
Quando o amigo se tornou rico e famoso, trocou o «abraço» no final das missivas por «abraço deste amigo que te adora».
quarta-feira, setembro 19, 2012
Razões para ler a revista? 1. Farto de diagnósticos que não apresentam soluções? Uma grande entrevista de alguém que propõe um plano exaustivo para o país. 2. O segredo de viver 70 anos juntos. 3. Um homem que viveu a vida em função da solidariedade de doou metade do sangue para salvar muitas vidas. 4. Polémica na Igreja
http://issuu.com/filipassuncao/docs/portela_magazine_5/1
terça-feira, setembro 18, 2012

Maria Teresa HortaFotografia © João Girão/Global Imagens
A escritora Maria Teresa Horta, distinguida com o Prémio D. Dinis pelo romance "As Luzes de Leonor", disse hoje à Lusa que não o aceita receber das mãos do primeiro-ministro, conforme o previsto.
A entrega do Prémio D. Dinis esteve agendada para a próxima sexta-feira, numa cerimónia com a presença do primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho.
"Na realidade eu não poderia, com coerência, ficar bem comigo mesma, receber um prémio literário que me honra tanto, cujo júri é formado por poetas, os meus pares mais próximos - pois sou sobretudo uma poetisa, e que me honra imenso -, ir receber esse prémio das mãos de uma pessoa que está empenhada em destruir o nosso país", explicou Maria Teresa Horta à Lusa.
"Sempre fui uma mulher coerente; as minhas ideias e aquilo que eu faço têm uma coerência", salientou a escritora que acrescentou: "Sou uma mulher de esquerda, sempre fui, sempre lutei pela liberdade e pelos direitos dos trabalhadores".
Para Maria Teresa Horta, "o primeiro-ministro está determinado a destruir tudo aquilo que conquistámos com o 25 de Abril [de 1974] e as grandes vítimas têm sido até agora os trabalhadores, os assalariados, a juventude que ele manda emigrar calmamente, como se isso fosse natural".
A autora afirmou que "o país está a entrar em níveis de pobreza quase idênticos aos das décadas de 1940 e 1950 e, na realidade, é ele [Passos Coelho], e o seu Governo, os grandes mentores e executores de tudo isto".
"Não recuso o prémio que me enche de orgulho e satisfação, recuso recebê-lo das mãos do primeiro-ministro", deixou claro Maria Teresa Horta.
A escritora disse que já informou a Fundação Casa de Mateus da sua decisão, assim como a sua editora e falou com cada um dos membros do júri.
A premiada salientou ainda a "satisfação" que lhe deu ter sido distinguida "por um júri que representa três gerações de poetas: o Vasco Graça Moura que é da minha [geração], o Nuno Júdice, que é da seguinte, e o Fernando Pinto do Amaral, que é a mais nova".
No sítio da Fundação Casa de Mateus, na Internet, é afirmado que "a sessão solene de entrega do Prémio será agendada brevemente".
O Prémio Literário D. Dinis, instituído pela Fundação da Casa de Mateus, foi atribuído por unanimidade à escritora, pela obra "As luzes de Leonor. A marquesa de Alorna, uma sedutora de anjos, poetas e heróis", editado pelas Publicações D. Quixote.
"Não recuso o prémio que me enche de orgulho e satisfação, recuso recebê-lo das mãos do primeiro-ministro", deixou claro Maria Teresa Horta.
Instituído em 1980 pela Fundação Casa de Mateus, em Vila Real, o galardão é atribuído a uma obra literária - de poesia, ensaio ou ficção - publicada no ano anterior ao da atribuição do prémio.
"As Luzes de Leonor", obra editada em 2011, é um romance sobre a vida da marquesa de Alorna, Leonor de Almeida Portugal de Lorena e Lencastre (1750-1839), neta dos marqueses de Távora, uma mulher que se destacou na história literária e política de Portugal num período denominado como "o século das luzes".
D.ª Leonor de Lorena e Lencastre é avó em quinto grau de Maria Teresa Horta, nascida em 1937, em Lisboa.
Maria Teresa Horta estudou na Faculdade de Letras de Lisboa, foi jornalista e ativista do Movimento Feminista de Portugal, com Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa, com quem escreveu o livro "Novas Cartas Portuguesas".
"Amor Habitado" (1963), "Ana" (1974) e "O Destino" (1997) contam-se entre mais de duas dezenas de obras publicadas da escritora.
segunda-feira, setembro 17, 2012
Preconceitos
Uma flama enorme e coruscante acendia-se, agigantava-se e bailava-se-lhe no peito sempre que ouvia a palavra «transgressão».
sábado, setembro 15, 2012
«Talvez tenhas medo do que possa acontecer se te entregares, medo de te permitires chorar e depois não conseguires parar, de que a dor seja tão avassaladora que te aniquile por completo, e, como não queres correr o risco de perder o controlo de ti mesmo, abafas a dor, engole-la, enterra-la bem fundo no coração.»
Diário de Inverno, Paul Auster
Diário de Inverno, Paul Auster
«Laconismo - referia-se o termo a um velho hábito imputado aos homens de Lacónia (os Lacodemónios) de só falarem ou escreverem dentro de um sistema de acrologia muito especial. Tudo neles era breve, conciso, na exposição oral ou escrita. Não tardaram os Atenienses, sensíveis aos hábitos alheios, a imitar o povo da Lacónia, a princípio não passando da linguagem a imitação. Mas, pouco e pouco, foi-se generalizando aos costumes e instituições estrangeiras. Foi quando se criou o verbo laconizar para dizer dessa tendência que eles, os puritanos, tinham por malsã, reconhecendo-se nela uma espécie de adesão a fórmulas ou sistemas políticos alienígenas.»
Dicionário de Questões Etimológicas
Dicionário de Questões Etimológicas
Cada um cumpria a sua função. Ele. Aquele que reabilitava o moral de todo o amigo que sofria amorosamente.
- O quê, aquela? Por amor...
- Mas,desculpa lá, o que é que ela tem para te dar? O que é que ela te pode dar?
- É uma pessoa desprovida de qualquer beleza.
- Tu arranjas hoje cem melhores do que ela. E não precisas de fazer nada. Senta-te. Basta-te estar sentado.
- Pensa nela a defecar.
- Quando ela fala, eu adormeço. Deverias fazer o mesmo. Ela fala, tu bocejas, adormeces, olhas para o lado, fazes-te perdido. Hã, o quê?
- Tu deste-lhe o privilégio de estares com ela. Só lhe resta a gratidão.
- O quê, aquela? Por amor...
- Mas,desculpa lá, o que é que ela tem para te dar? O que é que ela te pode dar?
- É uma pessoa desprovida de qualquer beleza.
- Tu arranjas hoje cem melhores do que ela. E não precisas de fazer nada. Senta-te. Basta-te estar sentado.
- Pensa nela a defecar.
- Quando ela fala, eu adormeço. Deverias fazer o mesmo. Ela fala, tu bocejas, adormeces, olhas para o lado, fazes-te perdido. Hã, o quê?
- Tu deste-lhe o privilégio de estares com ela. Só lhe resta a gratidão.
quinta-feira, setembro 13, 2012
Girassóis na borda dos dias
«BOICOTE - Certo irlandês chamado Boycott possuía vários armazéns. Muito severo, duro, rixento, maltratava os clientes e operários a todo o instante, por motivo ou sem ele. O trato do homem fez que o fossem abandonando os amigos e clientes, condenando-o ao ostracismo. Ninguém queria mais negócio com ele. E veio daí o primeiro boicote por ordem de importância e de antiguidade, vendo-se obrigado o áspero irlandês a fugir da sua pátria, sumindo no exílio. No ano de 1880, o jornalismo, que tudo fareja e muita coisa inova, fez a palavra boicote entrar em várias línguas latinas, criando fundas raízes.»
«CASTIGO - deverbal de castigar. O v. castigar vem de uma composição latina - castus + igare, frequentativo de agere, var. icare. Pelo castigo, esperava-se tornar casto, irrepreensível, o punido.»«FÚTIL - o que vira e derrama com facilidade os líquidos. Procedente do verbo fundere (derramar), porque no culto a Vesta, divindade romana, o vaso não tinha superfície de apoio. Era a época dos grandes bebedores de vinho, se é que para isso existiram épocas especiais... Aqueles que tivessem nas mãos os copos não os podiam pousar na mesa senão depois que os houvessem esvaziado por completo. Havia o conviva que ter sempre o copo à mão, o que vale dizer tragá-lo todos à pressa. Pois esse vaso usado no culto a Vesta era chamado futile.»
«INSULTAR - intenção metafórica no sentido translato, in + sultare, var. de saltare, pular em cima de uma pessoa, pisar-lhe os calos.»
«PÂNICO - relativo ao deus Pã da mitologia grega, do cortejo de Dioniso. Andava ele a caçar, ao som da flauta mágica, com chifres e pés de cabra. Era a tal personagem filho de Hermes, e a sua aparição tornava-se assustadora aos homens de seu tempo, e veio daí a ideia de pavor, de medo, de horror!»
«PÂNICO - relativo ao deus Pã da mitologia grega, do cortejo de Dioniso. Andava ele a caçar, ao som da flauta mágica, com chifres e pés de cabra. Era a tal personagem filho de Hermes, e a sua aparição tornava-se assustadora aos homens de seu tempo, e veio daí a ideia de pavor, de medo, de horror!»
Dicionário de Questões Etimológicas, A, Mauricéa Filho
- Os intelectuais são pessoas que não suportam o calor. Como é que poderiam suportar a tortura? São pessoas que vivem distantes das pessoas, que não conseguem nem sabem viver e se refugiam no abstracto. E, pior do que tudo, não executam, não são virados para a acção. Já dizia o Gurdjieff que tinha mais consideração por um assassino que comprava a arma, procurava o seu objectivo, sentava-se apontando a mira sendo capaz de esperar horas pelo seu alvo e que disparava, conseguindo cumprir o seu propósito, do que por um intelectual.
Ela detesta o autoritarismo, detesta a vozearia, o tentar educar à força, o querer que o outro tente que sejamos mais parecidos com ele. Ela gosta da simpatia e da doçura. Vira-lhe as costas se ele aumenta a voz - vê nisso uma forma de intimidação. Reivindica a liberdade do estilo acima dos resultados.
Ele detesta os manipuladores e os calculistas. Distingue carácter de feitio. Conheceu pessoas magníficas com mau feitio. Os tipos mais perversos e desonestos que conheceu eram todos muito simpáticos. Acha que o declaradamente autoritário se expõe mais, que não joga, que não tenta dissimulada e maquiavelicamente levar o outro onde quer - que as costuras da vulnerabilidade da sua ausência de estratégias estão expostas. Gosta da frontalidade e da sinceridade. Conheceu tantos «brutos» com coração de manteiga. Prefere os aparentemente ditadores bem-intencionados aos de voz mansa e monocórdica sacanas. Irrita-lhe que ela seja iludida, cega e tonta com flores e melodia melíflua, levada para um poço. Ela podia antes escutar o grito e o esbracejar daquele que tenta impedir que o seu automóvel descambe no abismo.
Ele detesta os manipuladores e os calculistas. Distingue carácter de feitio. Conheceu pessoas magníficas com mau feitio. Os tipos mais perversos e desonestos que conheceu eram todos muito simpáticos. Acha que o declaradamente autoritário se expõe mais, que não joga, que não tenta dissimulada e maquiavelicamente levar o outro onde quer - que as costuras da vulnerabilidade da sua ausência de estratégias estão expostas. Gosta da frontalidade e da sinceridade. Conheceu tantos «brutos» com coração de manteiga. Prefere os aparentemente ditadores bem-intencionados aos de voz mansa e monocórdica sacanas. Irrita-lhe que ela seja iludida, cega e tonta com flores e melodia melíflua, levada para um poço. Ela podia antes escutar o grito e o esbracejar daquele que tenta impedir que o seu automóvel descambe no abismo.
O fanático é uma categoria que só pode ser vista de fora - o fanático nunca se vê a si próprio como tal. O fanático torna inumanos aos seus olhos os incréus do seu credo. O fanático recusa com uma emoção superlativa qualquer eco da razão que ataque a sua crença, confundida com a sua identidade. O fanático de esquerda ou de direita é igual porque ele odeia como ninguém e dispara sempre pelos melhores motivos e quer eliminar todos os que não persigam a sua Verdade - por isso Reich dividiu os fascistas em vermelhos e negros.
Da linguística e da filologia
Quem quer mergulhar a fundo tem de possuir livros em português do Brasil ou livros com muitos decénios editado em Portugal. (Como são incomparavelmente superiores os manuais escolares de Língua Portuguesa de antigamente.) Antes, tudo tão bem escrito. Tão bem explicado. Tudo na raiz da raiz da raiz. Arranha-céu, como hoje regista o Houaiss, versaletes, tem que ver, tem aceitado, quebra-cabeça, preferir a e nunca do que. A beleza da profundidade. A escrita escorreita. O amor inexcedível à língua que extravasa e se derrama em páginas límpidas (amor e tosse não dá para esconder). Sem filologia, etimologia não há capacidade de compreender os conceitos.
- Angel, tentei levar a autonomia ao limite, mas apercebi-me que mesmo que pudesse viver sem a densidade do afecto, ainda assim estou dependente de que continuem a fabricar e vender tabaco, por exemplo, e que nunca me poderei considerar autónomo por coisas fundamentais na minha vida dependem da acção de outros e que nada posso fazer quanto a isso.
quarta-feira, setembro 12, 2012
A sexta-feira negra
Na última sexta-feira, Pedro Passos Coelho fez a pública confissão da sua derrota. Um homem acabrunhado, curvado e antigo veio dizer-nos dos novos pesares que teríamos de suportar. O ambiente era denso, sépia e contrito. Ao lado, pendente e sem garbo, a bandeira portuguesa. Dezassete minutos durou a funesta declaração: mais impostos, mais retracção, mais subtracção de salários, mais infortúnio para os velhos, para os reformados, para os pensionistas. Enfim: os portugueses estão irremediavelmente condenados à pobreza, ao passado, à servidão sem mistério nem ambiguidade.
As causas da nossa infelicidade têm sido endossadas a outros. Quem trepa ao poder é imaculado, impoluto e virgem do mais escasso pecado. O caso vertente é uma melancólica repetição. Primeiro, Passos atacou Sócrates, com selvagem persistência; depois, foi-se à troika, e indicou-a como raiz de todos os nossos males; acabou por ultrapassá-la nas decisões; agora, coube a vez ao Tribunal Constitucional, que tentou, em vão, impedir a prática de um crime contra quem trabalha ou trabalhou. O coro de críticas contra o acórdão pertence, ele também, a uma estratégia simbólica de defrontar seja quem se opuser ao Governo. Esta cultura caótica não é casual: faz parte da dispersão do nosso civismo, que permite a impunidade a todos os cambalachos morais.
O certo é que o dr. Passos Coelho e os seus estão metidos numa embrulhada fatal. Além das mentiras graves e das omissões patéticas a que se habituaram, enfiaram o dr. Cavaco, seu aliado preferencial, numa camisa de onze varas. O homem não pode continuar em mutismo formal. As pressões para que interfira não caucionam nenhuma daquelas ambiguidades em que é obstinado. Acontece um porém: se o dr. Cavaco veta ou se opõe às disposições do dr. Passos, a este não resta senão demitir-se. O que parece estar longe dos seus propósitos. Então, que fazer?
As pesarosas explicações do dr. Passos no Facebook acirraram, ainda mais, os rancores, os ressentimentos e, até, os ódios. O documento é torpe nos objectivos, medíocre na gramática e absurdo nos princípios. A manifestação do dia 15, promovida na Internet, sustenta-se nesses desígnios emocionais. Cego, cego, e surdo, surdo, o dr. Passos presume ter criado um valor intrínseco, e favoravelmente contagioso. As recentes declarações do dr. Nuno Crato, cujas tropelias na Educação não se esgotam, são disso exemplo. Quando diz que os professores não irão para a rua protestar, ou confia no medo tornado endémico ou numa salvífica expressão de complacência para com a sua política.
Seja como for, penso que está a encerrar um ciclo, e dos mais agressivos, medíocres e perigosos na sociedade portuguesa. Nada pode preservar da condenação esta gente que se mobilou a si própria com sobranceria e desprezo. Esta gente de coração de gelo.
Baptista-Bastos
As causas da nossa infelicidade têm sido endossadas a outros. Quem trepa ao poder é imaculado, impoluto e virgem do mais escasso pecado. O caso vertente é uma melancólica repetição. Primeiro, Passos atacou Sócrates, com selvagem persistência; depois, foi-se à troika, e indicou-a como raiz de todos os nossos males; acabou por ultrapassá-la nas decisões; agora, coube a vez ao Tribunal Constitucional, que tentou, em vão, impedir a prática de um crime contra quem trabalha ou trabalhou. O coro de críticas contra o acórdão pertence, ele também, a uma estratégia simbólica de defrontar seja quem se opuser ao Governo. Esta cultura caótica não é casual: faz parte da dispersão do nosso civismo, que permite a impunidade a todos os cambalachos morais.
O certo é que o dr. Passos Coelho e os seus estão metidos numa embrulhada fatal. Além das mentiras graves e das omissões patéticas a que se habituaram, enfiaram o dr. Cavaco, seu aliado preferencial, numa camisa de onze varas. O homem não pode continuar em mutismo formal. As pressões para que interfira não caucionam nenhuma daquelas ambiguidades em que é obstinado. Acontece um porém: se o dr. Cavaco veta ou se opõe às disposições do dr. Passos, a este não resta senão demitir-se. O que parece estar longe dos seus propósitos. Então, que fazer?
As pesarosas explicações do dr. Passos no Facebook acirraram, ainda mais, os rancores, os ressentimentos e, até, os ódios. O documento é torpe nos objectivos, medíocre na gramática e absurdo nos princípios. A manifestação do dia 15, promovida na Internet, sustenta-se nesses desígnios emocionais. Cego, cego, e surdo, surdo, o dr. Passos presume ter criado um valor intrínseco, e favoravelmente contagioso. As recentes declarações do dr. Nuno Crato, cujas tropelias na Educação não se esgotam, são disso exemplo. Quando diz que os professores não irão para a rua protestar, ou confia no medo tornado endémico ou numa salvífica expressão de complacência para com a sua política.
Seja como for, penso que está a encerrar um ciclo, e dos mais agressivos, medíocres e perigosos na sociedade portuguesa. Nada pode preservar da condenação esta gente que se mobilou a si própria com sobranceria e desprezo. Esta gente de coração de gelo.
Baptista-Bastos


O Ocidente caiu com as torres
11 de setembro de 2012 | 3h 08
Arnaldo Jabor - O Estado de S.Paulo
Enquanto o ex-presidente Bill Clinton fazia seu discurso histórico na Convenção democrática, senti-me em uma viagem no tempo - parecia que estávamos antes do 11 de Setembro, com os EUA em superávit, com uma visão multilateral do mundo, antes da brutal recessão que o boçal do Bush causou com sua política para milionários e Wall Street. Há muito tempo eu não era tão feliz. Pude esquecer por uma hora as caras dos republicanos: homens com fuças de bandidos violentos e mulheres com seus cabelos louros de 'chapinha', com o sorriso fixo de peruas imbecis.
Clinton explicou com destreza literária e estratégica como os republicanos provocaram o horror atual da economia, como impediram no Congresso que Obama fizesse correções na 'herança maldita' que deixaram e agora querem voltar para errar mais, num momento delicadíssimo da agenda internacional. Emocionou-me a dignidade daqueles dois, o preto bonito e o branco bonito, homens de bem, cultos, contrastando com os animais que pululavam na convenção republicana, com o fascista Clint Eastwood fazendo piadinhas e desonrando o fim de sua vida. Nunca mais vejo filme dele.
A crise econômica de 2008 começou em 2001, no 11 de Setembro. O ataque do Osama às torres dissimulou a estupidez do governo Bush (lembram de sua cara abestalhada quando soube do atentado?) Naquela cara estava traçado nosso destino dos últimos dez anos. Como um 'presidente de guerra', a desregulação das finanças foi escancarada, ninguém prestava atenção a nada, a não ser o 'Cheney-Oil' (que passou a mandar) e os 'mestres do universo', como os moleques de Wall Street se chamavam.
Logo depois do 11/9, o 'patriotic act' que Bush assinou justificou qualquer loucura, qualquer gasto para combater o terror. Não teríamos uma crise tão forte, se os EUA não estivessem gastando cerca de um trilhão por ano no Iraque e Afeganistão. O dinheiro rolava em cachoeira com baixos juros e a bolha imobiliária cresceu, os 'derivativos' e alavancagens criaram para os americanos um consumo fictício compensatório, que acabou estourando, como as minas que matavam jovens nos desertos do Oriente.
Bin Laden armou uma armadilha infalível: obrigou os EUA ao contra-ataque e, com isso, uniu o Islã.
Além disso, Bin Laden produziu a grande ressurreição do século 21: Deus. Ressurgiu Alá para eles e o fundamentalismo cristão na América. Alá e Jesus, ambos armados. Bin Laden 'islamizou' a América. Hoje há cerca de 40 milhões de evangélicos nos EUA, que acham que Deus criou o mundo em sete dias, 6 mil anos atrás, e que o Islã tem de ser arrasado com bombas nucleares. Barack Obama pode ser derrotado por milhões de ignorantes religiosos. Bin Laden nos jogou na Idade Média, numa era pré-política. Os nazistas queriam um milênio ariano, os comunas queriam construir um paraíso sem classes, os fanáticos do Islã não querem construir nada. Já estão prontos. Já chegaram lá. Já vivem na eternidade. Querem apenas destruir o demônio - que somos nós. A guerra é assimétrica - a América tem uma ideologia. Eles têm a teologia. O Islã quer o imóvel, a verdade incontestável. O Islã transcendeu a história há muito tempo. Suas multidões jazem na miséria, conformados, perfazendo um ritual obsessivo cotidiano que os libertou da dúvida. Sua obediência ao Alcorão lhes ensina tudo, desde como cortar as unhas até como matar 'cães infiéis'. Como disse o mulah Muhammad Omar, com desdém: "Nós amamos a morte; vocês sempre gostaram de viver..."
Em um discurso que fez nas cavernas do Afeganistão, Bin Laden citou o tratado de Sèvres, quando o Ocidente acabou com o Império Otomano e com o sonho de unidade árabe, em 1920. Depois, declarou: "Nunca mais seremos humilhados como na Andaluzia". Ou seja, eles se vingam da expulsão da Península Ibérica em 1492. Osama nos odeia há 500 anos.
Osama Bin Laden inventou a única arma possível para os miseráveis: a loucura suicida. Queremos desesperadamente explicar Osama à luz da ciência ou da razão, mas ele se mantém imune a interpretações. Finalmente, entendi a velha frase de Camus: "O suicídio é a grande questão filosófica de nosso tempo". Mas, não o suicídio raivoso de Mersault (v.O Estrangeiro) contra o mundo "absurdo". Não mais o suicídio da "náusea", mas o suicídio como manifestação de vida contra a dúvida e a diferença. Ai, que loucura!: o suicídio como esperança.
Além de incendiar a crise da economia, o ataque de 11/9 acabou com a fama de infalibilidade dos EUA. Acabou com a ideia de "finalidade", de "projeto". Acabou com a ideia de solução, com a ideia de vitória.
Ele trouxe de volta o que estava faltando ao Ocidente, desde o fim da guerra fria: o medo, a pulsão de morte que andava escondida, sublimada nos filmes, nos "hambúrgueres", na gargalhada infinita do entertainment. Acaba o happy end, a simetria, o princípio, o meio e o fim.
A arte revolucionária de Osama foi ter criado um fato. Hoje em dia não temos mais fatos; só expectativas. E ele nos trouxe um acontecimento em 2001, intempestivamente. E se o intempestivo acontece, Bin Laden atualizou a ideia do contemporâneo que, como disse Agamben, está dada numa relação de desconexão e dissociação com o tempo presente. E, para ele, "contemporâneo é aquele que mantém fixo o olhar no seu tempo, para nele ver não as luzes, mas o escuro". Bin Laden provou a morte das grandes narrativas e explicações. Pode estar pintando um horror à mudança, um tempo de conformismo deprimido. Ficaremos mais minimalistas, afirmando singularidades. Como disse Baudrillard: "O universal acabou; só resta o singular contra o mundial".
E depois de criar milhões de 'jihadistas' americanos, com os "tea parties" fascistas, com um Deus vingativo e reacionário, Bin Laden está no fundo do oceano. E pode ser que chegue agora sua vingança contra Barack Obama: do abismo gelado do mar, entre peixes luminosos, Bin Laden pode eleger o Mitt Romney em novembro.
terça-feira, setembro 11, 2012
De tanto pensarem na pessoa que idealmente querem ser, esquecem-se da pessoa que são. Que as acções determinam quem são. Porque ninguém quer ser mesquinho, materialista. Porque poucos querem ser cruéis. Mas o que querem ser, o como querem ser vistos - oblitera a auto-análise. Foi apenas uma acção. É uma fase. As circunstâncias. Eu não sou assim. Mas lá no fundo não sou assim. Mas isso foi contra o meu ser. Mas tu és o que fazes. É difícil não desviar os olhos do espelho - tornei-me num porco desonesto invejoso cobarde e perverso.
Um outro ângulo para ver as pessoas: aquelas em que acontecem muitas coisas na vida e aquelas em que quase nada acontece.
Ele. Sempre igual. A rotina. Um ano depois encontra-lo e «não há novidades». Os amigos dele gostam disso. Fideliza-os. Mesmo que não o vejam durante muito tempo, voltam a estar com ele como se não o tivessem visto apenas há um dia. O clima ameno. O saber que está tudo na mesma. O morninho da identidade indissolúvel, da casa que não muda.
Ele. Sempre igual. A rotina. Um ano depois encontra-lo e «não há novidades». Os amigos dele gostam disso. Fideliza-os. Mesmo que não o vejam durante muito tempo, voltam a estar com ele como se não o tivessem visto apenas há um dia. O clima ameno. O saber que está tudo na mesma. O morninho da identidade indissolúvel, da casa que não muda.
segunda-feira, setembro 10, 2012
As mulheres têm uma assombrada roseira
fria espalhada no ventre.
Uma roseira às vezes, uma planta
de treva.
Ela sobe dos pés e atravessa
a carne quebrada.
Nasce dos pés, ou da vulva, ou do ânus –
e mistura-se nas águas,
no sonho da cabeça.
As mulheres pensam como uma impensada roseira
que pensa rosas.
Pensam de espinho para espinho,
param de nó em nó.
As mulheres dão folhas, recebem
um orvalho inocente.
Depois a boca abre-se.
Verão, Outono, a onda dolorosa e ardente
das semanas,
passam por cima. As mulheres cantam
na sua alegria terrena.
Que coisa verdadeira cantam?
Elas cantam.
São fechadas e doces, mudam
de cor, anunciam a felicidade no meio da noite,
os dias brilhantes, a graça.
Com lágrimas, sangue, antigas subtilezas
e uma suavidade amarga –
as mulheres tornam impura e magnífica
nossa límpida, estéril
vida masculina.
Porque as mulheres não pensam: abrem
rosas tenebrosas,
Alagam a inteligência do poema com o sangue menstrual.
São altas essas roseiras de mulheres,
inclinadas como sinos, como violinos, dentro
do som.
Dentro da sua seiva de cinza brilhante.
O pão de aveia, as maçãs no cesto,
o vinho frio,
ou a candeia sobre o silêncio.
Ou a minha tarefa sobre o tempo.
Ou o meu espírito sobre Deus.
Digo: minha vida é para as mulheres vazias,
as mulheres dos campos, os seres
fundamentais.
que cantam de encontro aos sinistros
muros de Deus.
As mulheres de ofício cantante que a Deus mostram
a boca e o ânus
e a mão vermelha lavrada sobre o sexo.
Espero que o amor enleve a minha melancolia.
E flores sazonadas estalem e apodreçam
docemente no ar.
E a suavidade e a loucura parem em mim,
e depois o mundo tenha cidades antigas
que ardam na treva sua inocência lenta
e sangrenta.
Espero tirar de mim o mais veloz
apaixonamento e a inteligência mais pura.
- Porque as mulheres pensarão folhas e folhas
no campo.
Pensarão na noite molhada,
no dia luzente cheio de raios.
Vejo que a morte se inspira na carne
que a luz martela de leve.
Nessas mulheres debruçadas sobre a frescura
veemente da ilusão,
nelas - envoltas pela sua roseira em brasa -
vejo os meses que respiram.
Os meses fortes e pacientes.
Vejo os meses absorvidos pelos meses mais jovens.
Vejo meu pensamento morrendo na escarpada
treva das mulheres.
E digo: elas cantam a minha vida.
Essas mulheres estranguladas por uma beleza
incomparável.
Cantam a alegria de tudo, minha
alegria
por dentro da grande dor masculina.
Essas mulheres tornam feliz e extensa
a morte da terra.
Elas cantam a eternidade.
Cantam o sangue de uma terra exaltada.
|
Herberto Helder
Das relações
1. Ele está diferente. Brando onde era sentencioso. Calmo onde era impulsivo. Sorridente onde era sombrio. O pano de fundo do seu rosto mudou e o tique de estar sempre a mexer com as mãos no objecto mais próximo é agora muito mais intermitente. Ela afagou-lhe as arestas com doçura e suavizou-lhe os vértices com seda e magnólias.
2. Ele tem tanto de medo de a perder, que não contesta. No seu aniversário, com ela e a sua família, ele atendeu um telefonema de parabéns ao jantar. Era a ex-namorada. O telefonema foi lacónico. No fim do jantar, quando lhe dava boleia para casa, ela despejou um caudal de recriminações. «Tu humilhaste-me, atenderes um telefonema de uma ex a dar-te os parabéns! À frente da tua família. Nunca me senti tão traída e humilhada. Foi a pior humilhação que sofri na vida!» Ele chorou e disse que nunca mais faria tal coisa. Pediu-lhe que não o deixasse. Que faria tudo. Que estava arrependido. Que fora uma besta. Que era uma besta. Ele não analisa a razão, apenas atende ao volume do vociferar. Como ela grita sempre, ele dá-lhe sempre razão. Não tendo bitola de outras relações, pensa ser tudo normal e natural nela. «Angel, quando uma mulher aceita estar com um homem, ficar com ele, esse é o maior favor que ela pode dar. E então tudo o que tu faças é pouco perante a dádiva que é ela ter aceitado ficar contigo.»
2. Ele tem tanto de medo de a perder, que não contesta. No seu aniversário, com ela e a sua família, ele atendeu um telefonema de parabéns ao jantar. Era a ex-namorada. O telefonema foi lacónico. No fim do jantar, quando lhe dava boleia para casa, ela despejou um caudal de recriminações. «Tu humilhaste-me, atenderes um telefonema de uma ex a dar-te os parabéns! À frente da tua família. Nunca me senti tão traída e humilhada. Foi a pior humilhação que sofri na vida!» Ele chorou e disse que nunca mais faria tal coisa. Pediu-lhe que não o deixasse. Que faria tudo. Que estava arrependido. Que fora uma besta. Que era uma besta. Ele não analisa a razão, apenas atende ao volume do vociferar. Como ela grita sempre, ele dá-lhe sempre razão. Não tendo bitola de outras relações, pensa ser tudo normal e natural nela. «Angel, quando uma mulher aceita estar com um homem, ficar com ele, esse é o maior favor que ela pode dar. E então tudo o que tu faças é pouco perante a dádiva que é ela ter aceitado ficar contigo.»
Uma Igreja outra é possível, Anselmo Borges
No dia 8 de Agosto, em jeito de testamento espiritual, deu a sua última entrevista, no Il Corriere della Sera, afirmando que a Igreja precisa de "uma mudança radical. A começar pelo Papa e pelos bispos". Preocupava-o uma Igreja 200 anos atrasada, sem vocações, agarrada ao bem-estar: "os nossos rituais e vestimentas são pomposos." "Na Europa do bem-estar e na América, a Igreja está cansada." Três instrumentos para sair deste esgotamento: "O primeiro é a conversão. Deve reconhecer os próprios erros. Os escândalos de pedofilia obrigam-nos a empreender um caminho de conversão. As perguntas sobre a sexualidade e sobre todos os assuntos que dizem respeito ao corpo são um exemplo. Devemos perguntar-nos se as pessoas ainda escutam os conselhos da Igreja em matéria sexual. A Igreja é ainda uma autoridade de referência ou apenas uma caricatura nos media?" O segundo conselho e o terceiro têm a ver com a recuperação da palavra de Deus e dos sacramentos como ajuda e não como castigo.
O cardeal Carlo M. Martini morreu na semana passada. Lúcido, e depois de ter recusado a obstinação terapêutica. Perito em crítica textual do Novo Testamento, foi arcebispo de Milão durante 22 anos e um intelectual eminente. Homem de diálogo - é um best-seller a obra Em Que Crê quem não Crê, debate com o agnóstico Umberto Eco -, era a figura mais brilhante do Colégio dos Cardeais.
Em 2008, exprimiu, com coragem, o seu pensamento sobre questões fundamentais para a Igreja e para o mundo actual, num livro de conversas com outro jesuíta, G. Sporschill: Colóquios Nocturnos em Jerusalém. Aí, interrogava-se: "Quando o Reino de Deus chegar, como será? Como será, depois da minha morte, o meu encontro com Cristo, o Ressuscitado?"
Causava-lhe preocupação "a falta de coragem". "A Igreja deve ter coragem para reformar-se", pois ela "precisa constantemente de reformas". "Porque eu próprio sou tímido, digo a mim mesmo na dúvida: coragem!" Atreveu-se a pôr Lutero, "o grande reformador", como exemplo, recordando que "a Igreja católica se deixou inspirar pelas reformas de Lutero no Concílio Vaticano II". A Igreja actual tem "medo", mas, se Jesus voltasse, "lutaria com os actuais responsáveis da Igreja", recordando-lhes que "não devem estar fechados em si mesmos, mas olhar para lá da própria instituição".
Foi sempre fiel à "sua" Igreja, que devia ser "uma Igreja simples, com menos burocracia", pobre, humilde, que não depende dos poderes deste mundo, uma "Igreja inventiva", "jovem", que dá ânimo sobretudo aos mais pequenos e pecadores, que luta pela justiça, mais colegial, e que volte ao Concílio, pois "há a tendência de afastar-se dele".
Sobre a juventude e a sexualidade, incluindo as relações pré-matrimoniais: "nestas questões profundamente humanas, não se trata de receitas, mas de caminhos." A Igreja deve ir ao encontro de uma sexualidade que não está "reservada ao confessionário e ao âmbito da culpa", uma sexualidade "sã e humana", com "uma nova cultura que promova a ternura e a fidelidade".
Foi sensível no trato com os homossexuais e compreendia o uso do preservativo. Confessou que a encíclica Humanae Vitae, em 1968, com a proibição da "pílula contraceptiva", "é co-responsável pelo facto de muitos já não tomarem a sério a Igreja como parceira de diálogo e mestra". Mas estava convicto de que "a direcção da Igreja pode mostrar um caminho melhor do que o da encíclica". Procuramos "um novo caminho" para falar sobre a sexualidade, a regulação da natalidade, a procriação medicamente assistida. Contra o celibato obrigatório, disse que era preciso "debater a possibilidade" de ordenar homens casados e de abrir a ordenação às mulheres.
Reconheceu as suas "dúvidas de fé". "Combati com Deus", "porque, quando vejo o mal do mundo, fico sem alento e entendo os que chegam à conclusão de que Deus não existe". Mas acreditava que "o amor de Deus é mais forte", e o inferno está vazio.
Alguma imprensa inglesa definiu-o como o "Papa perfeito para o século XXI". Como seria a Igreja, se Martini tivesse sido Papa? De qualquer modo, ele foi um exemplo de que uma Igreja outra é possível.
Então, pensavas que a crise só tocava aos outros e que tu estarias imune e que haveria sempre algo em ti de belo e forte e adaptável que resistiria?
Primeiro levaram os anarquistas,
Mas eu não me importei
Porque não era nada comigo.
Em seguida levaram alguns operários,
Mas a mim não me afectou
Porque eu não sou operário.
Depois prenderam os sindicalistas,
Mas eu não me incomodei
Porque nunca fui sindicalista.
Logo a seguir chegou a vez
De alguns padres, mas como
Nunca fui religioso, também não liguei.
Agora levaram-me a mim
E quando percebi,
Já era tarde.
Primeiro levaram os anarquistas,
Mas eu não me importei
Porque não era nada comigo.
Em seguida levaram alguns operários,
Mas a mim não me afectou
Porque eu não sou operário.
Depois prenderam os sindicalistas,
Mas eu não me incomodei
Porque nunca fui sindicalista.
Logo a seguir chegou a vez
De alguns padres, mas como
Nunca fui religioso, também não liguei.
Agora levaram-me a mim
E quando percebi,
Já era tarde.
Adormeces no autocarro. Acordas para a paisagem lá fora. Mas não acordas. Apenas tens os olhos abertos. (Há uma fracção de tempo quando se desperta em que a realidade se funde com o sonho.) Não sabes onde estás. Não sabes para onde vais. Não sabes que dia é. Não sabes que realidade habitas. Nesse momento, esqueces-te de obrigações, calendários, topónimos.
sábado, setembro 08, 2012
sexta-feira, setembro 07, 2012
O escritor inveja o leitor. Ler é uma actividade mais tranquila, mais livre. O escritor inveja aquele que pode tirar meses e anos só para ler. Agora, os clássicos. Agora, a filosofia. Agora, a poesia romântica. Agora, a biografia de A. Agora, a correspondência epistolar entre B e C. O livro que tem na cabeça não o deixa, as personagens não param de falar consigo.
Cardeal Carlo Martini (um bom fisionomista raramente se engana)
Uma das figuras mais desempoeiradas da Igreja Católica que vale a pena ler e conhecer. Favorável à discussão do ordenamento de mulheres, do casamento de padres, de homossexuais, à luta de Igreja contra as desigualdades. Era contra a pompa das igrejas e das vestes religiosas, defendendo que tal dinheiro deveria ser usado para combater as desigualdades. Foi a ele que as Brigadas Vermelha confiaram a entrega das armas. Um homem que achava estar a Igreja atrasada em duzentos anos (um biblista, não um dogmático, que defendia que se devia ir à fonte primeva, ao livro, assimilando pela própria cabeça, e não às interpretações de outros) e que esta deveria rever a sua lista de pecados. Um dos maiores pecados para Martini (crítico do cartilha excessiva de pecados da Igreja, usada como fonte de terror e de poder) era as pessoas não quererem «sarilhos para a sua vida» (como te entendo!), a resignação, o individualismo, o não lutar por algo que não os interesses próprios num mundo que via como desigual, injusto e materialista. Um homem crítico da estrutura, a quem repugnava a fealdade da Igreja, tão longe de Cristo, e o esconder dos casos de pederastia. Alguém que propôs o diálogo ecuménico e, sobretudo, o diálogo com não crentes e os ateus. Para Martini, aqueles que poderiam fazer melhores críticas à Igreja eram os que estavam de fora - sem um olhar poluído.
quinta-feira, setembro 06, 2012
- Angel, as mulheres, tendencialmente, são muito mais time consuming do que os homens. Queres sentar-te no café a ler o jornal e um livro e ela na tua frente acha isso uma displicência porque tens de devotar o teu tempo a contemplá-la. Já viste o tempo que elas demoram para sair de casa? Para sair do banho? Para secar e pentear o cabelo? O tempo dos cremes, da maquilhagem... Dez vez mais do que nós, ou do que eu, pelo menos, já que sou o exemplo que conheço melhor. Há uma simplificação dos processos no homem das operações que tem de fazer.
quarta-feira, setembro 05, 2012
Da banalização do nojo
Alberto da Ponte, antigo presidente da Sociedade Central de Cervejas, será o novo presidente do conselho de administração da RTP. No conselho de administração mantém-se Luiana Nunes. José Lopes Araujo, da direcção jurídica da RTP, passa a vogal do conselho de administração. O Governo pretende oficializar o novo conselho de administração da RTP amanhã, em Conselho de Ministros.
Desde sempre ligado à área da distribuição, Alberto da Pontetrabalhou na Bélgica, em Espanha e até na Malásia. Mais recentemente, foi presidente da Sociedade Central de Cervejas, entre Maio de 2004 e Abril de 2012. Atualmente era responsável pela estratégia de crescimento na Heineken, a empresa holandesa que controla a cervejeira portuguesa.
Numa recente entrevista ao jornal i, após a sua saída da Sociedade Central de Cervejas, Alberto da Ponte considerou Passos Coelho "o melhor primeiro-ministro desde Sá Carneiro": "Digo-o sem dúvida nenhuma, porque é um homem que tem uns nervos de aço e uma capacidade de encaixe e uma frieza que são absolutamente extraordinárias e é disso que precisamos: tranquilidade e alguém que inspire segurança."
Numa recente entrevista ao jornal i, após a sua saída da Sociedade Central de Cervejas, Alberto da Ponte considerou Passos Coelho "o melhor primeiro-ministro desde Sá Carneiro": "Digo-o sem dúvida nenhuma, porque é um homem que tem uns nervos de aço e uma capacidade de encaixe e uma frieza que são absolutamente extraordinárias e é disso que precisamos: tranquilidade e alguém que inspire segurança."
terça-feira, setembro 04, 2012
Jovem de 15 anos condenado depois de assassinar colega devido a comentários no Facebook
Por Redação
Um jovem de 15 anos, Jinshua K. (os últimos nomes dos envolvidos foram mantidos em segredo, por serem menores) foi condenado a uma ano de prisão num centro de detenção para adolescentes e outros três numa instituição psiquiátrica, por ter assassinado uma colega de escola, Joyce H.
Tudo aconteceu depois de Joyce ter feito alguns comentários no Facebook. Joyce tinha feito alguns comentários na página pessoal de uma outra rapariga Polly W, dizendo que esta saía com vários rapazes e, não ficando satisfeitos com as acusações, a referida Polly e o seu namorado, terão pedido a Jinshua para assassinar Joyce.
Assim, Jinshua, que nem conhecia a vítima, dirigiu-se à casa de Joyce e esfaqueou-a repetidamente. A jovem viria a falecer no hospital poucos dias depois. Jinshua confessou a autoria do crime, pelo qual terá recebido cerca de 100 euros.
Todos os envolvidos, incluído a rapariga ofendida no Facebook (Polly) e o seu namorado, tinham 15 anos. O jovem casal será agora julgado.
«O que é grave neste caso é que foram crianças a premeditar a morte de outra criança. A amizade transformou-se me ódio e o ódio foi o motor que levou a este fim», disse fonte do Ministério Público Holandês, à AFP.
Um jovem de 15 anos, Jinshua K. (os últimos nomes dos envolvidos foram mantidos em segredo, por serem menores) foi condenado a uma ano de prisão num centro de detenção para adolescentes e outros três numa instituição psiquiátrica, por ter assassinado uma colega de escola, Joyce H.
Tudo aconteceu depois de Joyce ter feito alguns comentários no Facebook. Joyce tinha feito alguns comentários na página pessoal de uma outra rapariga Polly W, dizendo que esta saía com vários rapazes e, não ficando satisfeitos com as acusações, a referida Polly e o seu namorado, terão pedido a Jinshua para assassinar Joyce.
Assim, Jinshua, que nem conhecia a vítima, dirigiu-se à casa de Joyce e esfaqueou-a repetidamente. A jovem viria a falecer no hospital poucos dias depois. Jinshua confessou a autoria do crime, pelo qual terá recebido cerca de 100 euros.
Todos os envolvidos, incluído a rapariga ofendida no Facebook (Polly) e o seu namorado, tinham 15 anos. O jovem casal será agora julgado.
«O que é grave neste caso é que foram crianças a premeditar a morte de outra criança. A amizade transformou-se me ódio e o ódio foi o motor que levou a este fim», disse fonte do Ministério Público Holandês, à AFP.
segunda-feira, setembro 03, 2012
Bibliotecas ardidas (obrigado, Efi)
A Biblioteca de Celso, em Éfeso, Turquia. A terceira maior da Antiguidade, depois de Alexandria e Pérgamo.
Agosto, mês de leituras. Relembrar o poder da literatura. Aquele poder específico de ler e ver na página algo que tinhas e não sabias que tinhas antes de veres outro apresentá-la; ou algo que tinhas, mas a que nunca deras nome e permanecera antes da leitura junto das coisas difusas e impalpáveis antes de o livro lhe desenhar os contornos vívidos e plenos de concretude.
Sentas-te num café. Na mesa do lado, muitos teens. Pensas: «Será um preconceito achar que vão falar de faces e i-phones e i-pads enquanto estou aqui? Muito bem, então aposto comigo mesmo que vão falar, se não falarem, assumo o preconceito.»
Passados minutos:
- Tirei-te a foto, vou já pôr no Facebook.
A pressa, a premência. Já pôr, já comentar. O velho Bukowski. As pessoas presas a acordar, fazer algo. Por vezes, as pessoas deviam parar três dias. Porque temos todos os dias de acordar, de fazer algo. Porque dita o Sol que tenhamos de ir fazer qualquer coisa - ou dita a sociedade?
Cada vez mais pressa. Como o coelho de Alice. Cada vez mais correr, correr. Tenho de. Tenho de. Tenho de, nada. As novas tecnologias coagem-te à premência das coisinhas. Os produtos tecnológicos cada vez mais celeremente obsoletos. Eu tenho de. A nova versão. Já não é fashion. Inventam-te novas necessidades. Querem-te fazer sentir que não fazes parte sem não acompanhares isto&aquilo, se não integrares o mostruário que é a rede social Y&Z.
I went to the woods because I wished to live deliberately, to front only the essential facts of life, and see if I could not learn what it had to teach, and not, when I came to die, discover that I had not lived.
Passados minutos:
- Tirei-te a foto, vou já pôr no Facebook.
A pressa, a premência. Já pôr, já comentar. O velho Bukowski. As pessoas presas a acordar, fazer algo. Por vezes, as pessoas deviam parar três dias. Porque temos todos os dias de acordar, de fazer algo. Porque dita o Sol que tenhamos de ir fazer qualquer coisa - ou dita a sociedade?
Cada vez mais pressa. Como o coelho de Alice. Cada vez mais correr, correr. Tenho de. Tenho de. Tenho de, nada. As novas tecnologias coagem-te à premência das coisinhas. Os produtos tecnológicos cada vez mais celeremente obsoletos. Eu tenho de. A nova versão. Já não é fashion. Inventam-te novas necessidades. Querem-te fazer sentir que não fazes parte sem não acompanhares isto&aquilo, se não integrares o mostruário que é a rede social Y&Z.
I went to the woods because I wished to live deliberately, to front only the essential facts of life, and see if I could not learn what it had to teach, and not, when I came to die, discover that I had not lived.
entrego-te as palavras mais brandas
que entre os meus dedos construí
para alimentar de ti os recantos da casa
invadindo o coração da noite
entrego-te as palavras com a redonda luz
das maçãs sobre a mesa e o rumor da água
rasgando o caminho da paixão
em horas que já não conseguimos sem ajuda recordar
mas que habitam a mais frágil memória de nós próprios
palavras jorrando dos meus olhos
invadindo-te o sono e tropeçando
nas esquinas das frases que decoro
ao longo dos veios da tua pele
e a verdade é que nunca terei outra história
para além da que nos aconteceu
e que ficamos à espera de um dia perceber melhor
porque nunca ninguém se prepara convenientemente
para a chegada do amor
e ele é um convidado estranho
sentado em silêncio na penumbra da sala
olhando os quadros o chão o tecto
como um velho parente da província
com medo de dizer o que não deve
Alice Vieira
que entre os meus dedos construí
para alimentar de ti os recantos da casa
invadindo o coração da noite
entrego-te as palavras com a redonda luz
das maçãs sobre a mesa e o rumor da água
rasgando o caminho da paixão
em horas que já não conseguimos sem ajuda recordar
mas que habitam a mais frágil memória de nós próprios
palavras jorrando dos meus olhos
invadindo-te o sono e tropeçando
nas esquinas das frases que decoro
ao longo dos veios da tua pele
e a verdade é que nunca terei outra história
para além da que nos aconteceu
e que ficamos à espera de um dia perceber melhor
porque nunca ninguém se prepara convenientemente
para a chegada do amor
e ele é um convidado estranho
sentado em silêncio na penumbra da sala
olhando os quadros o chão o tecto
como um velho parente da província
com medo de dizer o que não deve
Alice Vieira
domingo, setembro 02, 2012
Male bonding
É quase sempre mau. É quase sempre uma hipérbole. É quase sempre, mesmo que exageradamente fingido, o superlativo da peçonha.
Por vezes, é horrível.
No ginásio, um vómito.
Eles arrotam, eles mijam, eles contemplam-se ao espelho como símios.
«Foda-se, se tivesse um filho paneleiro arriava-lhe uma carga da porrada!»
«Viste-me aquilo? Bem, que par de tetas. Parecia me´mo uma stripper do Galery que andei a comer. Deu-me uma tesão, enrolava aqueles cabelos todos à volta da picha!»
«´Tás grande. Andas na bombada?»
«Cortaram-te a picha ou quê? Aonde é que ficou a outra metade?» e gargalham.
«´Tá na hora do cereal, não posso ficar pequenino!»
«Foooda-se, fooooda-se, gostas de mim e o caralho, eu p´a falar falo com a minha mãe, quero é foder. Ai, não és sensível, fooooda-se, ainda bem que não sou, sensíveis são os paneleiros.»
«Tive a malhar no ferro. Aqui o animal... olha...» e faz o músculo.
«E o gajo a olhar prà minha mulher. Dass, que é essa merda? Tás a fazer reportagem, disse ao bacano, comecei logo a crescer p´a ele. Tá bem, tá...»
«Tou mais magro, deve ser das quecas» e riem-se babuinamente.
«Comi a gaja toda, a gaja não sabe pinar, mas faz bons broches. Broches-toalha, não fica uma gotinha, engole tudo. Só tem um fiozinho na cona, me´mo à brasuca.»
Por vezes, é horrível.
No ginásio, um vómito.
Eles arrotam, eles mijam, eles contemplam-se ao espelho como símios.
«Foda-se, se tivesse um filho paneleiro arriava-lhe uma carga da porrada!»
«Viste-me aquilo? Bem, que par de tetas. Parecia me´mo uma stripper do Galery que andei a comer. Deu-me uma tesão, enrolava aqueles cabelos todos à volta da picha!»
«´Tás grande. Andas na bombada?»
«Cortaram-te a picha ou quê? Aonde é que ficou a outra metade?» e gargalham.
«´Tá na hora do cereal, não posso ficar pequenino!»
«Foooda-se, fooooda-se, gostas de mim e o caralho, eu p´a falar falo com a minha mãe, quero é foder. Ai, não és sensível, fooooda-se, ainda bem que não sou, sensíveis são os paneleiros.»
«Tive a malhar no ferro. Aqui o animal... olha...» e faz o músculo.
«E o gajo a olhar prà minha mulher. Dass, que é essa merda? Tás a fazer reportagem, disse ao bacano, comecei logo a crescer p´a ele. Tá bem, tá...»
«Tou mais magro, deve ser das quecas» e riem-se babuinamente.
«Comi a gaja toda, a gaja não sabe pinar, mas faz bons broches. Broches-toalha, não fica uma gotinha, engole tudo. Só tem um fiozinho na cona, me´mo à brasuca.»
Descobres livros no sótão onde não vais há anos. Um sentimento maravilhoso e opressivo. O livro de Filosofia do 10.º ano. (Por alguma razão, o tens bem guardado e junto de clássicos.) Como agora tudo faz mais sentido. Como era possível aos quinze anos perceberes o que agora te encanta. Como era entendiante e hermético na altura- como é prazeroso hoje deslizar do sótão para o sofá e mergulhar entre páginas que te falam só para ti. Com outra maturidade, sem ter de decorar, sem a pressão do teste.
sábado, setembro 01, 2012
A nova fase do capitalismo - a perda da vergonha
1. É australiana, chama-se Gina Rinehart e é a mulher mais rica do mundo, de acordo
com o ranking da «Business Review Weekly». Farta de ouvir «as queixas» de
quem tem «inveja» dos bem-afortunados, decidiu dar alguns
conselhos.
«Se tem inveja dos que têm mais dinheiro, não se limite a ficar aí sentado e a queixar-se. Faça qualquer coisa para ganhar mais dinheiro para si - gaste menos tempo a beber, fumar ou a socializar e mais tempo a trabalhar», disse Rinehart numa entrevista à «Business Review Weekly», citada pela AFP.
Rinehart ganha um milhão de dólares a cada 30 minutos e tem uma fortuna avaliada em 30,1 mil milhões de dólares (cerca de 24 mil milhões de euros). A forma como conquistou tal património foi, digamos, da maneira mais tradicional: herdou-o.
Filha de Lang Hancock, magnata na mineração de ferro, Gina Rinehart é herdeira do grupo Hancock Prospecting, ganhou o cognome de «dama de ferro» e está, atualmente, em disputa legal com os filhos. O motivo? Dinheiro.
Agora encoraja os mais pobres do que ela a trabalhar mais: «Não há uma receita para se tornar milionário».
«Seja uma daquelas pessoas que trabalham arduamente, que investem, constroem e que, ao mesmo tempo, criam emprego e oportunidades para os outros», aconselha Rinehart.
Conselhos práticos que levam à questão: então porque há tantos pobres na Austrália? Devido, diz Rinehart, às políticas «socialistas» e anti-empreendedoras. Por isso, lançou o apelo ao governo do seu país para que reduza o salário mínimo (606,40 dólares australianos, perto de 500 euros) e corte nos impostos.
«Os milionários e bilionários que optam por investir na Austrália são, realmente, aqueles que mais ajudam os pobres e os nossos jovens. Este segredo tem de ser amplamente difundido», considerou Rinehart na mesma entrevista.
2. «A redução das desigualdades não é sustentável.» António Lobo Xavier, o homem dos 16 empregos.
3. «A desigualdade não é o problema em Portugal.» Rui Ramos, o historiador revisionista.
4. «Nem tudo aconteceu exactamente como o esperado. Há comportamentos, sobretudo do lado do desemprego, que têm reflexos orçamentais do lado das receitas fiscais, em particular, e do lado dos subsídios de desemprego.» A mais vergonhosa declaração de Passos Coelho que não foi entendida porque não tão explícita (mas mais grave, mais arrasadoramente reaccionária) quanto a do «piegas», «não-assunto» [Relvas], «oportunidade» do desemprego ou convite à emigração
«Se tem inveja dos que têm mais dinheiro, não se limite a ficar aí sentado e a queixar-se. Faça qualquer coisa para ganhar mais dinheiro para si - gaste menos tempo a beber, fumar ou a socializar e mais tempo a trabalhar», disse Rinehart numa entrevista à «Business Review Weekly», citada pela AFP.
Rinehart ganha um milhão de dólares a cada 30 minutos e tem uma fortuna avaliada em 30,1 mil milhões de dólares (cerca de 24 mil milhões de euros). A forma como conquistou tal património foi, digamos, da maneira mais tradicional: herdou-o.
Filha de Lang Hancock, magnata na mineração de ferro, Gina Rinehart é herdeira do grupo Hancock Prospecting, ganhou o cognome de «dama de ferro» e está, atualmente, em disputa legal com os filhos. O motivo? Dinheiro.
Agora encoraja os mais pobres do que ela a trabalhar mais: «Não há uma receita para se tornar milionário».
«Seja uma daquelas pessoas que trabalham arduamente, que investem, constroem e que, ao mesmo tempo, criam emprego e oportunidades para os outros», aconselha Rinehart.
Conselhos práticos que levam à questão: então porque há tantos pobres na Austrália? Devido, diz Rinehart, às políticas «socialistas» e anti-empreendedoras. Por isso, lançou o apelo ao governo do seu país para que reduza o salário mínimo (606,40 dólares australianos, perto de 500 euros) e corte nos impostos.
«Os milionários e bilionários que optam por investir na Austrália são, realmente, aqueles que mais ajudam os pobres e os nossos jovens. Este segredo tem de ser amplamente difundido», considerou Rinehart na mesma entrevista.
2. «A redução das desigualdades não é sustentável.» António Lobo Xavier, o homem dos 16 empregos.
3. «A desigualdade não é o problema em Portugal.» Rui Ramos, o historiador revisionista.
4. «Nem tudo aconteceu exactamente como o esperado. Há comportamentos, sobretudo do lado do desemprego, que têm reflexos orçamentais do lado das receitas fiscais, em particular, e do lado dos subsídios de desemprego.» A mais vergonhosa declaração de Passos Coelho que não foi entendida porque não tão explícita (mas mais grave, mais arrasadoramente reaccionária) quanto a do «piegas», «não-assunto» [Relvas], «oportunidade» do desemprego ou convite à emigração
Tempos de crise
Alguns bancos portugueses (BES, Santander e CGD) começaram este ano a distribuir aos seus clientes cartões que são um misto entre o vulgar cartão Multibanco (de débito direto) e o cartão de crédito. Esta prática permite-lhes receber comissões mais elevadas quando são utilizados no pagamento de compras ou serviços.
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