sábado, setembro 15, 2012

Porque é que os bons de coração são quase sempre abusados? Talvez que não tentemos ser justos, mas apenas avaliemos os outros em função das expectativas de fazerem aquilo que fizeram no passado. Menos, uma falta. Mais, uma oferta magnânima.
Cada um cumpria a sua função. Ele. Aquele que reabilitava o moral de todo o amigo que sofria amorosamente.
- O quê, aquela? Por amor...
- Mas,desculpa lá, o que é que ela tem para te dar? O que é que ela te pode dar?
- É uma pessoa desprovida de qualquer beleza.
- Tu arranjas hoje cem melhores do que ela. E não precisas de fazer nada. Senta-te. Basta-te estar sentado.
- Pensa nela a defecar.
- Quando ela fala, eu adormeço. Deverias fazer o mesmo. Ela fala, tu bocejas, adormeces, olhas para o lado, fazes-te perdido. Hã, o quê?
- Tu deste-lhe o privilégio de estares com ela. Só lhe resta a gratidão.


- Porque precisas tanto de mulheres?
- Porque preciso de ser validado.
- Mas eu valido-te.
- Mas tu és uma opinião em seis mil milhões de pessoas. Eu sou democrata, acaso tu acreditas no despotismo iluminado?
É um fardo aos ombros
o corpo, sem ti.
Até o amarelo
dos girassóis se tornou cruel.
Não invento nada,
na arte de olhar
a luz é cúmplice da pele.

Eugénio de Andrade

quinta-feira, setembro 13, 2012

Girassóis na borda dos dias

«BOICOTE - Certo irlandês chamado Boycott possuía vários armazéns. Muito severo, duro, rixento, maltratava os clientes e operários a todo o instante, por motivo ou sem ele. O trato do homem fez que o fossem abandonando os amigos e clientes, condenando-o ao ostracismo. Ninguém queria mais negócio com ele. E veio daí o primeiro boicote por ordem de importância e de antiguidade, vendo-se obrigado o áspero irlandês a fugir da sua pátria, sumindo no exílio. No ano de 1880, o jornalismo, que tudo fareja e muita coisa inova, fez a palavra boicote entrar em várias línguas latinas, criando fundas raízes.»

«CASTIGO - deverbal de castigar. O v. castigar vem de uma composição latina - castus + igare, frequentativo de agere, var. icare. Pelo castigo, esperava-se tornar casto, irrepreensível, o punido.»

«FÚTIL - o que vira e derrama com facilidade os líquidos. Procedente do verbo fundere (derramar), porque no culto a Vesta, divindade romana, o vaso não tinha superfície de apoio. Era a época dos grandes bebedores de vinho, se é que para isso existiram épocas especiais... Aqueles que tivessem nas mãos os copos não os podiam pousar na mesa senão depois que os houvessem esvaziado por completo. Havia o conviva que ter sempre o copo à mão, o que vale dizer tragá-lo todos à pressa. Pois esse vaso usado no culto a Vesta era chamado futile.»

«INSULTAR - intenção metafórica no sentido translato, in + sultare, var. de saltare, pular em cima de uma pessoa, pisar-lhe os calos.»

«PÂNICO - relativo ao deus Pã da mitologia grega, do cortejo de Dioniso. Andava ele a caçar, ao som da flauta mágica, com chifres e pés de cabra. Era a tal personagem filho de Hermes, e a sua aparição tornava-se assustadora aos homens de seu tempo, e veio daí a ideia de pavor, de medo, de horror!»


Dicionário de Questões Etimológicas, A, Mauricéa Filho
- Olhando para trás, Angel, apercebo-me de que acabei por ficar com a que me tratava melhor e com a qual havia menos conflitos. Há uma linha ténue que separa isto do comodismo, acredita.
- Os intelectuais são pessoas que não suportam o calor. Como é que poderiam suportar a tortura? São pessoas que vivem distantes das pessoas, que não conseguem nem sabem viver e se refugiam no abstracto. E, pior do que tudo, não executam, não são virados para a acção. Já dizia o Gurdjieff que tinha mais consideração por um assassino que comprava a arma, procurava o seu objectivo, sentava-se apontando a mira sendo capaz de esperar horas pelo seu alvo e que disparava, conseguindo cumprir o seu propósito, do que por um intelectual.
- Quando estou sitiado pelo medo, tapo os olhos, meto-me debaixo dos cobertores e canto bem alto para não ver e não ouvir nada.
Ela detesta o autoritarismo, detesta a vozearia, o tentar educar à força, o querer que o outro tente que sejamos mais parecidos com ele. Ela gosta da simpatia e da doçura. Vira-lhe as costas se ele aumenta a voz - vê nisso uma forma de intimidação. Reivindica a liberdade do estilo acima dos resultados.
Ele detesta os manipuladores e os calculistas. Distingue carácter de feitio. Conheceu pessoas magníficas com mau feitio. Os tipos mais perversos e desonestos que conheceu eram todos muito simpáticos. Acha que o declaradamente autoritário se expõe mais, que não joga, que não tenta dissimulada e maquiavelicamente levar o outro onde quer - que as costuras da vulnerabilidade da sua ausência de estratégias estão expostas. Gosta da frontalidade e da sinceridade. Conheceu tantos «brutos» com coração de manteiga. Prefere os aparentemente ditadores bem-intencionados aos de voz mansa e monocórdica sacanas. Irrita-lhe que ela seja iludida, cega e tonta com flores e melodia melíflua, levada para um poço. Ela podia antes escutar o grito e o esbracejar daquele que tenta impedir que o seu automóvel descambe no abismo.
O fanático é uma categoria que só pode ser vista de fora - o fanático nunca se vê a si próprio como tal. O fanático torna inumanos aos seus olhos os incréus do seu credo. O fanático recusa com uma emoção superlativa qualquer eco da razão que ataque a sua crença, confundida com a sua identidade. O fanático de esquerda ou de direita é igual porque ele odeia como ninguém e dispara sempre pelos melhores motivos e quer eliminar todos os que não persigam a sua Verdade - por isso Reich dividiu os fascistas em vermelhos e negros.

Da linguística e da filologia

Quem quer mergulhar a fundo tem de possuir livros em português do Brasil ou livros com muitos decénios editado em Portugal. (Como são incomparavelmente superiores os manuais escolares de Língua Portuguesa de antigamente.) Antes, tudo tão bem escrito. Tão bem explicado. Tudo na raiz da raiz da raiz. Arranha-céu, como hoje regista o Houaiss, versaletes, tem que ver, tem aceitado, quebra-cabeça, preferir a e nunca do que. A beleza da profundidade. A escrita escorreita. O amor inexcedível à língua que extravasa e se derrama em páginas límpidas (amor e tosse não dá para esconder). Sem filologia, etimologia não há capacidade de compreender os conceitos.
A liberdade individual desregrada resulta quase sempre fascista para outro.
- Angel, tentei levar a autonomia ao limite, mas apercebi-me que mesmo que pudesse viver sem a densidade do afecto, ainda assim estou dependente de que continuem a fabricar e vender tabaco, por exemplo, e que nunca me poderei considerar autónomo por coisas fundamentais na minha vida dependem da acção de outros e que nada posso fazer quanto a isso.

quarta-feira, setembro 12, 2012

A sexta-feira negra

Na última sexta-feira, Pedro Passos Coelho fez a pública confissão da sua derrota. Um homem acabrunhado, curvado e antigo veio dizer-nos dos novos pesares que teríamos de suportar. O ambiente era denso, sépia e contrito. Ao lado, pendente e sem garbo, a bandeira portuguesa. Dezassete minutos durou a funesta declaração: mais impostos, mais retracção, mais subtracção de salários, mais infortúnio para os velhos, para os reformados, para os pensionistas. Enfim: os portugueses estão irremediavelmente condenados à pobreza, ao passado, à servidão sem mistério nem ambiguidade.
As causas da nossa infelicidade têm sido endossadas a outros. Quem trepa ao poder é imaculado, impoluto e virgem do mais escasso pecado. O caso vertente é uma melancólica repetição. Primeiro, Passos atacou Sócrates, com selvagem persistência; depois, foi-se à troika, e indicou-a como raiz de todos os nossos males; acabou por ultrapassá-la nas decisões; agora, coube a vez ao Tribunal Constitucional, que tentou, em vão, impedir a prática de um crime contra quem trabalha ou trabalhou. O coro de críticas contra o acórdão pertence, ele também, a uma estratégia simbólica de defrontar seja quem se opuser ao Governo. Esta cultura caótica não é casual: faz parte da dispersão do nosso civismo, que permite a impunidade a todos os cambalachos morais. 
O certo é que o dr. Passos Coelho e os seus estão metidos numa embrulhada fatal. Além das mentiras graves e das omissões patéticas a que se habituaram, enfiaram o dr. Cavaco, seu aliado preferencial, numa camisa de onze varas. O homem não pode continuar em mutismo formal. As pressões para que interfira não caucionam nenhuma daquelas ambiguidades em que é obstinado. Acontece um porém: se o dr. Cavaco veta ou se opõe às disposições do dr. Passos, a este não resta senão demitir-se. O que parece estar longe dos seus propósitos. Então, que fazer? 
As pesarosas explicações do dr. Passos no Facebook acirraram, ainda mais, os rancores, os ressentimentos e, até, os ódios. O documento é torpe nos objectivos, medíocre na gramática e absurdo nos princípios. A manifestação do dia 15, promovida na Internet, sustenta-se nesses desígnios emocionais. Cego, cego, e surdo, surdo, o dr. Passos presume ter criado um valor intrínseco, e favoravelmente contagioso. As recentes declarações do dr. Nuno Crato, cujas tropelias na Educação não se esgotam, são disso exemplo. Quando diz que os professores não irão para a rua protestar, ou confia no medo tornado endémico ou numa salvífica expressão de complacência para com a sua política.
Seja como for, penso que está a encerrar um ciclo, e dos mais agressivos, medíocres e perigosos na sociedade portuguesa. Nada pode preservar da condenação esta gente que se mobilou a si própria com sobranceria e desprezo. Esta gente de coração de gelo.

Baptista-Bastos

Arnaldo Jabor
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O Ocidente caiu com as torres

11 de setembro de 2012 | 3h 08

Arnaldo Jabor - O Estado de S.Paulo
Enquanto o ex-presidente Bill Clinton fazia seu discurso histórico na Convenção democrática, senti-me em uma viagem no tempo - parecia que estávamos antes do 11 de Setembro, com os EUA em superávit, com uma visão multilateral do mundo, antes da brutal recessão que o boçal do Bush causou com sua política para milionários e Wall Street. Há muito tempo eu não era tão feliz. Pude esquecer por uma hora as caras dos republicanos: homens com fuças de bandidos violentos e mulheres com seus cabelos louros de 'chapinha', com o sorriso fixo de peruas imbecis.
Clinton explicou com destreza literária e estratégica como os republicanos provocaram o horror atual da economia, como impediram no Congresso que Obama fizesse correções na 'herança maldita' que deixaram e agora querem voltar para errar mais, num momento delicadíssimo da agenda internacional. Emocionou-me a dignidade daqueles dois, o preto bonito e o branco bonito, homens de bem, cultos, contrastando com os animais que pululavam na convenção republicana, com o fascista Clint Eastwood fazendo piadinhas e desonrando o fim de sua vida. Nunca mais vejo filme dele.
A crise econômica de 2008 começou em 2001, no 11 de Setembro. O ataque do Osama às torres dissimulou a estupidez do governo Bush (lembram de sua cara abestalhada quando soube do atentado?) Naquela cara estava traçado nosso destino dos últimos dez anos. Como um 'presidente de guerra', a desregulação das finanças foi escancarada, ninguém prestava atenção a nada, a não ser o 'Cheney-Oil' (que passou a mandar) e os 'mestres do universo', como os moleques de Wall Street se chamavam.
Logo depois do 11/9, o 'patriotic act' que Bush assinou justificou qualquer loucura, qualquer gasto para combater o terror. Não teríamos uma crise tão forte, se os EUA não estivessem gastando cerca de um trilhão por ano no Iraque e Afeganistão. O dinheiro rolava em cachoeira com baixos juros e a bolha imobiliária cresceu, os 'derivativos' e alavancagens criaram para os americanos um consumo fictício compensatório, que acabou estourando, como as minas que matavam jovens nos desertos do Oriente.
Bin Laden armou uma armadilha infalível: obrigou os EUA ao contra-ataque e, com isso, uniu o Islã.
Além disso, Bin Laden produziu a grande ressurreição do século 21: Deus. Ressurgiu Alá para eles e o fundamentalismo cristão na América. Alá e Jesus, ambos armados. Bin Laden 'islamizou' a América. Hoje há cerca de 40 milhões de evangélicos nos EUA, que acham que Deus criou o mundo em sete dias, 6 mil anos atrás, e que o Islã tem de ser arrasado com bombas nucleares. Barack Obama pode ser derrotado por milhões de ignorantes religiosos. Bin Laden nos jogou na Idade Média, numa era pré-política. Os nazistas queriam um milênio ariano, os comunas queriam construir um paraíso sem classes, os fanáticos do Islã não querem construir nada. Já estão prontos. Já chegaram lá. Já vivem na eternidade. Querem apenas destruir o demônio - que somos nós. A guerra é assimétrica - a América tem uma ideologia. Eles têm a teologia. O Islã quer o imóvel, a verdade incontestável. O Islã transcendeu a história há muito tempo. Suas multidões jazem na miséria, conformados, perfazendo um ritual obsessivo cotidiano que os libertou da dúvida. Sua obediência ao Alcorão lhes ensina tudo, desde como cortar as unhas até como matar 'cães infiéis'. Como disse o mulah Muhammad Omar, com desdém: "Nós amamos a morte; vocês sempre gostaram de viver..."
Em um discurso que fez nas cavernas do Afeganistão, Bin Laden citou o tratado de Sèvres, quando o Ocidente acabou com o Império Otomano e com o sonho de unidade árabe, em 1920. Depois, declarou: "Nunca mais seremos humilhados como na Andaluzia". Ou seja, eles se vingam da expulsão da Península Ibérica em 1492. Osama nos odeia há 500 anos.
Osama Bin Laden inventou a única arma possível para os miseráveis: a loucura suicida. Queremos desesperadamente explicar Osama à luz da ciência ou da razão, mas ele se mantém imune a interpretações. Finalmente, entendi a velha frase de Camus: "O suicídio é a grande questão filosófica de nosso tempo". Mas, não o suicídio raivoso de Mersault (v.O Estrangeiro) contra o mundo "absurdo". Não mais o suicídio da "náusea", mas o suicídio como manifestação de vida contra a dúvida e a diferença. Ai, que loucura!: o suicídio como esperança.
Além de incendiar a crise da economia, o ataque de 11/9 acabou com a fama de infalibilidade dos EUA. Acabou com a ideia de "finalidade", de "projeto". Acabou com a ideia de solução, com a ideia de vitória.
Ele trouxe de volta o que estava faltando ao Ocidente, desde o fim da guerra fria: o medo, a pulsão de morte que andava escondida, sublimada nos filmes, nos "hambúrgueres", na gargalhada infinita do entertainment. Acaba o happy end, a simetria, o princípio, o meio e o fim.
A arte revolucionária de Osama foi ter criado um fato. Hoje em dia não temos mais fatos; só expectativas. E ele nos trouxe um acontecimento em 2001, intempestivamente. E se o intempestivo acontece, Bin Laden atualizou a ideia do contemporâneo que, como disse Agamben, está dada numa relação de desconexão e dissociação com o tempo presente. E, para ele, "contemporâneo é aquele que mantém fixo o olhar no seu tempo, para nele ver não as luzes, mas o escuro". Bin Laden provou a morte das grandes narrativas e explicações. Pode estar pintando um horror à mudança, um tempo de conformismo deprimido. Ficaremos mais minimalistas, afirmando singularidades. Como disse Baudrillard: "O universal acabou; só resta o singular contra o mundial".
E depois de criar milhões de 'jihadistas' americanos, com os "tea parties" fascistas, com um Deus vingativo e reacionário, Bin Laden está no fundo do oceano. E pode ser que chegue agora sua vingança contra Barack Obama: do abismo gelado do mar, entre peixes luminosos, Bin Laden pode eleger o Mitt Romney em novembro.

terça-feira, setembro 11, 2012

De tanto pensarem na pessoa que idealmente querem ser, esquecem-se da pessoa que são. Que as acções determinam quem são. Porque ninguém quer ser mesquinho, materialista. Porque poucos querem ser cruéis. Mas o que querem ser, o como querem ser vistos - oblitera a auto-análise. Foi apenas uma acção. É uma fase. As circunstâncias. Eu não sou assim. Mas lá no fundo não sou assim. Mas isso foi contra o meu ser. Mas tu és o que fazes. É difícil não desviar os olhos do espelho - tornei-me num porco desonesto invejoso cobarde e perverso.
Um outro ângulo para ver as pessoas: aquelas em que acontecem muitas coisas na vida e aquelas em que quase nada acontece.
Ele. Sempre igual. A rotina. Um ano depois encontra-lo e «não há novidades». Os amigos dele gostam disso. Fideliza-os. Mesmo que não o vejam durante muito tempo, voltam a estar com ele como se não o tivessem visto apenas há um dia. O clima ameno. O saber que está tudo na mesma. O morninho da identidade indissolúvel, da casa que não muda.

segunda-feira, setembro 10, 2012


As mulheres têm uma assombrada roseira
fria espalhada no ventre.
Uma roseira às vezes, uma planta
de treva.
Ela sobe dos pés e atravessa
a carne quebrada.
Nasce dos pés, ou da vulva, ou do ânus –
e mistura-se nas águas,
no sonho da cabeça.
As mulheres pensam como uma impensada roseira
que pensa rosas.
Pensam de espinho para espinho,
param de nó em nó.

As mulheres dão folhas, recebem
um orvalho inocente.
Depois a boca abre-se. 
Verão, Outono, a onda dolorosa e ardente
das semanas,
passam por cima. As mulheres cantam
na sua alegria terrena.

Que coisa verdadeira cantam?
Elas cantam.
São fechadas e doces, mudam
de cor, anunciam a felicidade no meio da noite,
os dias brilhantes, a graça.
Com lágrimas, sangue, antigas subtilezas
e uma suavidade amarga –
as mulheres tornam impura e magnífica
nossa límpida, estéril
vida masculina.
Porque as mulheres não pensam: abrem
rosas tenebrosas,
Alagam a inteligência do poema com o sangue menstrual.
São altas essas roseiras de mulheres,
inclinadas como sinos, como violinos, dentro
do som.
Dentro da sua seiva de cinza brilhante.

O pão de aveia, as maçãs no cesto,
o vinho frio,
ou a candeia sobre o silêncio.
Ou a minha tarefa sobre o tempo.
Ou o meu espírito sobre Deus.
Digo: minha vida é para as mulheres vazias,
as mulheres dos campos, os seres
fundamentais.
que cantam de encontro aos sinistros
muros de Deus.
As mulheres de ofício cantante que a Deus mostram
a boca e o ânus
e a mão vermelha lavrada sobre o sexo.

Espero que o amor enleve a minha melancolia.
E flores sazonadas estalem e apodreçam
docemente no ar.
E a suavidade e a loucura parem em mim,
e depois o mundo tenha cidades antigas
que ardam na treva sua inocência lenta
e sangrenta.
Espero tirar de mim o mais veloz
apaixonamento e a inteligência mais pura.
- Porque as mulheres pensarão folhas e folhas
no campo.
Pensarão na noite molhada,
no dia luzente cheio de raios.

Vejo que a morte se inspira na carne
que a luz martela de leve.
Nessas mulheres debruçadas sobre a frescura
veemente da ilusão,
nelas - envoltas pela sua roseira em brasa -
vejo os meses que respiram.
Os meses fortes e pacientes.
Vejo os meses absorvidos pelos meses mais jovens.
Vejo meu pensamento morrendo na escarpada
treva das mulheres.

E digo: elas cantam a minha vida.
Essas mulheres estranguladas por uma beleza
incomparável.
Cantam a alegria de tudo, minha
alegria
por dentro da grande dor masculina.
Essas mulheres tornam feliz e extensa
a morte da terra.
Elas cantam a eternidade.
Cantam o sangue de uma terra exaltada.

Herberto Helder

Das relações

1. Ele está diferente. Brando onde era sentencioso. Calmo onde era impulsivo. Sorridente onde era sombrio. O pano de fundo do seu rosto mudou e o tique de estar sempre a mexer com as mãos no objecto mais próximo é agora muito mais intermitente. Ela afagou-lhe as arestas com doçura e suavizou-lhe os vértices com seda e magnólias.

2. Ele tem tanto de medo de a perder, que não contesta. No seu aniversário, com ela e a sua família, ele atendeu um telefonema de parabéns ao jantar. Era a ex-namorada. O telefonema foi lacónico. No fim do jantar, quando lhe dava boleia para casa, ela despejou um caudal de recriminações. «Tu humilhaste-me, atenderes um telefonema de uma ex a dar-te os parabéns! À frente da tua família. Nunca me senti tão traída e humilhada. Foi a pior humilhação que sofri na vida!» Ele chorou e disse que nunca mais faria tal coisa. Pediu-lhe que não o deixasse. Que faria tudo. Que estava arrependido. Que fora uma besta. Que era uma besta. Ele não analisa a razão, apenas atende ao volume do vociferar. Como ela grita sempre, ele dá-lhe sempre razão. Não tendo bitola de outras relações, pensa ser tudo normal e natural nela. «Angel, quando uma mulher aceita estar com um homem, ficar com ele, esse é o maior favor que ela pode dar. E então tudo o que tu faças é pouco perante a dádiva que é ela ter aceitado ficar contigo.»

Uma Igreja outra é possível, Anselmo Borges


No dia 8 de Agosto, em jeito de testamento espiritual, deu a sua última entrevista, no Il Corriere della Sera, afirmando que a Igreja precisa de "uma mudança radical. A começar pelo Papa e pelos bispos". Preocupava-o uma Igreja 200 anos atrasada, sem vocações, agarrada ao bem-estar: "os nossos rituais e vestimentas são pomposos." "Na Europa do bem-estar e na América, a Igreja está cansada." Três instrumentos para sair deste esgotamento: "O primeiro é a conversão. Deve reconhecer os próprios erros. Os escândalos de pedofilia obrigam-nos a empreender um caminho de conversão. As perguntas sobre a sexualidade e sobre todos os assuntos que dizem respeito ao corpo são um exemplo. Devemos perguntar-nos se as pessoas ainda escutam os conselhos da Igreja em matéria sexual. A Igreja é ainda uma autoridade de referência ou apenas uma caricatura nos media?" O segundo conselho e o terceiro têm a ver com a recuperação da palavra de Deus e dos sacramentos como ajuda e não como castigo.
O cardeal Carlo M. Martini morreu na semana passada. Lúcido, e depois de ter recusado a obstinação terapêutica. Perito em crítica textual do Novo Testamento, foi arcebispo de Milão durante 22 anos e um intelectual eminente. Homem de diálogo - é um best-seller a obra Em Que Crê quem não Crê, debate com o agnóstico Umberto Eco -, era a figura mais brilhante do Colégio dos Cardeais.
Em 2008, exprimiu, com coragem, o seu pensamento sobre questões fundamentais para a Igreja e para o mundo actual, num livro de conversas com outro jesuíta, G. Sporschill: Colóquios Nocturnos em Jerusalém. Aí, interrogava-se: "Quando o Reino de Deus chegar, como será? Como será, depois da minha morte, o meu encontro com Cristo, o Ressuscitado?"
Causava-lhe preocupação "a falta de coragem". "A Igreja deve ter coragem para reformar-se", pois ela "precisa constantemente de reformas". "Porque eu próprio sou tímido, digo a mim mesmo na dúvida: coragem!" Atreveu-se a pôr Lutero, "o grande reformador", como exemplo, recordando que "a Igreja católica se deixou inspirar pelas reformas de Lutero no Concílio Vaticano II". A Igreja actual tem "medo", mas, se Jesus voltasse, "lutaria com os actuais responsáveis da Igreja", recordando-lhes que "não devem estar fechados em si mesmos, mas olhar para lá da própria instituição".
Foi sempre fiel à "sua" Igreja, que devia ser "uma Igreja simples, com menos burocracia", pobre, humilde, que não depende dos poderes deste mundo, uma "Igreja inventiva", "jovem", que dá ânimo sobretudo aos mais pequenos e pecadores, que luta pela justiça, mais colegial, e que volte ao Concílio, pois "há a tendência de afastar-se dele".
Sobre a juventude e a sexualidade, incluindo as relações pré-matrimoniais: "nestas questões profundamente humanas, não se trata de receitas, mas de caminhos." A Igreja deve ir ao encontro de uma sexualidade que não está "reservada ao confessionário e ao âmbito da culpa", uma sexualidade "sã e humana", com "uma nova cultura que promova a ternura e a fidelidade".
Foi sensível no trato com os homossexuais e compreendia o uso do preservativo. Confessou que a encíclica Humanae Vitae, em 1968, com a proibição da "pílula contraceptiva", "é co-responsável pelo facto de muitos já não tomarem a sério a Igreja como parceira de diálogo e mestra". Mas estava convicto de que "a direcção da Igreja pode mostrar um caminho melhor do que o da encíclica". Procuramos "um novo caminho" para falar sobre a sexualidade, a regulação da natalidade, a procriação medicamente assistida. Contra o celibato obrigatório, disse que era preciso "debater a possibilidade" de ordenar homens casados e de abrir a ordenação às mulheres.
Reconheceu as suas "dúvidas de fé". "Combati com Deus", "porque, quando vejo o mal do mundo, fico sem alento e entendo os que chegam à conclusão de que Deus não existe". Mas acreditava que "o amor de Deus é mais forte", e o inferno está vazio.
Alguma imprensa inglesa definiu-o como o "Papa perfeito para o século XXI". Como seria a Igreja, se Martini tivesse sido Papa? De qualquer modo, ele foi um exemplo de que uma Igreja outra é possível.