Cartilha para contrariar a assimilação acrítica
das agendas mediáticas
Não confundas opinião
pública com opinião publicada. Presta tanto atenção às notícias de rodapé como
às manchetes. Lê o artigo inteiro para lá da manchete. Relê. Conclui se a
manchete é séria. Só dês crédito ao soundbyte se tiveres lido a reportagem exaustivamente. Tem sempre presente
que um argumento popular se resume num slogan
e que um argumento impopular pede páginas de explicação. Verifica o parágrafo
inteiro de que a citação é tirada e conclui se o excerto é sério pelo seu
contexto, pela circunstância específica que foi truncada para a frase soar mais
tonitruante.Lê quantas fontes foram escutadas para a produção de determinada
peça jornalística. Vê quais as fontes dos números que são citados. Investiga se
o que se diz que «cresceu no último trimestre» decresceu ao longo do ano
inteiro. Desconfia sempre, rejeita sempre um artigo que te obrigue a pensar do modo como queres que o
articulista pense. Despreza os cronistas que te apresentam soluções
bacteriologicamente puras quanto a ideologia. Lembra-te de que lá fora há
países que em que os jornalistas assumem a sua cor partidária. Pensa que tudo o
que lês é 95% de mentiras, meias verdades, omissão de contraditório, perguntas
direccionadas de jornalistas. Vê as fontes de publicidade do medium – não lerás nada imparcial sobre tais
empresas. Estuda os grupos económicos que estão por trás de cada medium. Lê o Provedor dos
Leitores do Público. Investiga
para onde trabalham e trabalharam e de quem são amigos todos os opinadores que
lês e ouves. Um desses que aparece na televisão tem dezasseis empregos em
grandes empresas – falará ele mal de quem lhe paga? Lembra-te da sondagem em
que 90% dos jornalistas se afirmaram coagidos a escrever de acordo com a linha
editorial do jornal. Procura confrontar uma estatística com outra. Lembra-te do ceteris paribus nas análises. Lembra-te de que se um
come uma galinha e outro nenhuma, para a estatística ambos comem meia galinha.
Se conseguires ou conheceres alguém do meio jornalístico, averigua como são os
encontros entre jornalistas, poder político e poder económico – o fausto dos
mesmos, a troca de favores, as palmadinhas nas costas. Lembra-te de que nem
tudo o que existe vem nos media. Lembra-te
de que há áreas que não são escrutinadas. Lembra-te de que não é por determinados
fenómenos só serem abordados hoje que não existiam ontem. Desconfia dos que são
muito maltratados pela comunicação social e procura investigar porque são
levados ao colo certos senhores que cometem as piores tropelias. Faz o teu
arquivo de imprensa – vê como os santificados de outrora são os diabolizados de
hoje por coisas que realizaram no tempo em que supostamente eram santos. Recusa
os bons e os maus que te querem impingir – mesmo nos casos mais tenebrosos,
como da Síria. Tem de haver sempre direito ao contraditório. Têm de ter ser
dadas sempre as duas versões das duas partes. Passa ao lado de todos aqueles
que são mercenários de uma campanha por uma causa ou uma perseguição ad hominem – omitirão tudo o que não lhes convém
porque perseguem interesses, vinganças. Evita ler sobre Paco Bandeira, Maddie, as férias de
Cristiano Ronaldo, a destruição da vida de Sara Norte, especulações quanto a
transferências de jogadores (e, se leres, vê quantas especulações sobre
transferências são concretizadas; o rácio é assustador), mexericos, casos de
justiça em que só sai cá para fora o que convém quando convém – tudo isso são
coisas para desviar a tua atenção do essencial: o estado da nação.
Lê a imprensa
estrangeira. Confronta dados. Vê, para lá das estatísticas, as lojas e empresas
que vão falindo. Vê a situação dos teus amigos. Vai a hospitais públicos. Anda
de transportes públicos. Vê como a polícia trata os desvalidos e os imigrantes
numa esquadra. Vê o mundo com os teus olhos e confronta depois esse olhar com
as lentes que te põem.
Recusa não questionares
tudo o que é uma verdade feita. Por exemplo: na função pública, todos ganham
melhor. Mentira: na função pública, as profissões com menos qualificações
ganham menos do que no sector privado. Bebe pelo teu próprio copo.
Tem muita atenção à
semântica. Dizer «ajuda
financeira» ou «contracção de uma dívida» tem todo um programa. Dizer
«flexibilização do mercado de trabalho» ou «facilitação dos despedimentos» tem
todo um programa. Dizer «ajustamento salarial» ou «diminuição dos salários» tem
todo um programa. Dizer «liberalização do aborto» ou «discriminalização
do aborto» tem todo um programa. Lembra-te de Orwell – a história é uma
produção gigantesca de mentiras (ditada pelos vencedores) e ver o que está em
frente do nariz requer um esforço constante.





