quarta-feira, agosto 08, 2012


Cartilha para contrariar a assimilação acrítica das agendas mediáticas

Não confundas opinião pública com opinião publicada. Presta tanto atenção às notícias de rodapé como às manchetes. Lê o artigo inteiro para lá da manchete. Relê. Conclui se a manchete é séria. Só dês crédito ao soundbyte se tiveres lido a reportagem exaustivamente. Tem sempre presente que um argumento popular se resume num slogan e que um argumento impopular pede páginas de explicação. Verifica o parágrafo inteiro de que a citação é tirada e conclui se o excerto é sério pelo seu contexto, pela circunstância específica que foi truncada para a frase soar mais tonitruante.Lê quantas fontes foram escutadas para a produção de determinada peça jornalística. Vê quais as fontes dos números que são citados. Investiga se o que se diz que «cresceu no último trimestre» decresceu ao longo do ano inteiro. Desconfia sempre, rejeita sempre um artigo que te obrigue a pensar do modo como queres que o articulista pense. Despreza os cronistas que te apresentam soluções bacteriologicamente puras quanto a ideologia. Lembra-te de que lá fora há países que em que os jornalistas assumem a sua cor partidária. Pensa que tudo o que lês é 95% de mentiras, meias verdades, omissão de contraditório, perguntas direccionadas de jornalistas. Vê as fontes de publicidade do medium  – não lerás nada imparcial sobre tais empresas. Estuda os grupos económicos que estão por trás de cada medium. Lê o Provedor dos Leitores do Público. Investiga para onde trabalham e trabalharam e de quem são amigos todos os opinadores que lês e ouves. Um desses que aparece na televisão tem dezasseis empregos em grandes empresas – falará ele mal de quem lhe paga? Lembra-te da sondagem em que 90% dos jornalistas se afirmaram coagidos a escrever de acordo com a linha editorial do jornal. Procura confrontar uma estatística com outra. Lembra-te do ceteris paribus nas análises. Lembra-te de que se um come uma galinha e outro nenhuma, para a estatística ambos comem meia galinha. Se conseguires ou conheceres alguém do meio jornalístico, averigua como são os encontros entre jornalistas, poder político e poder económico – o fausto dos mesmos, a troca de favores, as palmadinhas nas costas. Lembra-te de que nem tudo o que existe vem nos media. Lembra-te de que há áreas que não são escrutinadas. Lembra-te de que não é por determinados fenómenos só serem abordados hoje que não existiam ontem. Desconfia dos que são muito maltratados pela comunicação social e procura investigar porque são levados ao colo certos senhores que cometem as piores tropelias. Faz o teu arquivo de imprensa – vê como os santificados de outrora são os diabolizados de hoje por coisas que realizaram no tempo em que supostamente eram santos. Recusa os bons e os maus que te querem impingir – mesmo nos casos mais tenebrosos, como da Síria. Tem de haver sempre direito ao contraditório. Têm de ter ser dadas sempre as duas versões das duas partes. Passa ao lado de todos aqueles que são mercenários de uma campanha por uma causa ou uma perseguição ad hominem – omitirão tudo o que não lhes convém porque perseguem interesses, vinganças. Evita ler sobre Paco Bandeira, Maddie, as férias de Cristiano Ronaldo, a destruição da vida de Sara Norte, especulações quanto a transferências de jogadores (e, se leres, vê quantas especulações sobre transferências são concretizadas; o rácio é assustador), mexericos, casos de justiça em que só sai cá para fora o que convém quando convém – tudo isso são coisas para desviar a tua atenção do essencial: o estado da nação.
Lê a imprensa estrangeira. Confronta dados. Vê, para lá das estatísticas, as lojas e empresas que vão falindo. Vê a situação dos teus amigos. Vai a hospitais públicos. Anda de transportes públicos. Vê como a polícia trata os desvalidos e os imigrantes numa esquadra. Vê o mundo com os teus olhos e confronta depois esse olhar com as lentes que te põem.
Recusa não questionares tudo o que é uma verdade feita. Por exemplo: na função pública, todos ganham melhor. Mentira: na função pública, as profissões com menos qualificações ganham menos do que no sector privado. Bebe pelo teu próprio copo.
Tem muita atenção à semântica. Dizer «ajuda financeira» ou «contracção de uma dívida» tem todo um programa. Dizer «flexibilização do mercado de trabalho» ou «facilitação dos despedimentos» tem todo um programa. Dizer «ajustamento salarial» ou «diminuição dos salários» tem todo um programa. Dizer «liberalização do aborto» ou «discriminalização do aborto» tem todo um programa. Lembra-te de Orwell – a história é uma produção gigantesca de mentiras (ditada pelos vencedores) e ver o que está em frente do nariz requer um esforço constante.

The Top Ten Most Difficult Books («Listas», é certo.)

http://www.publishersweekly.com/pw/by-topic/book-news/tip-sheet/article/53409-the-top-10-most-difficult-books.html

terça-feira, agosto 07, 2012

Oh Yes
there are worse things than
being alone
but it often takes decades
to realize this
and most often
when you do
it's too late
and there's nothing worse
than
too late.

Charles Bukowski

segunda-feira, agosto 06, 2012


O amor, quando se revela,
não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p'ra ela,
mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente.
Cala: parece esquecer.

Ah, mas se ela adivinhasse,
se pudesse ouvir o olhar,
e se um olhar lhe bastasse
pra saber que a estão a amar! 
Mas quem sente muito, cala;
quem quer dizer quanto sente
fica sem alma nem fala,
fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe
o que não lhe ouso contar,
já não terei que falar-lhe
porque lhe estou a falar... 

Fernando Pessoa
Para Kipling, o fracasso e o êxito eram dois grandes impostores.
- Desde pequenina, vi várias pessoas próximas morrerem junto de mim, o meu avô morreu nos meus braços. É menos assustador do que se possa pensar. Há uma grande serenidade na morte. Todos morreram  com uma tranquilidade espantosa. O meu avô, ao morrer, parecia que se emanava uma benigna luz pela sala, não sou crente, estou à vontade para o dizer, há uma irradiação de paz infinita e de todos os bons sentimentos na morte - eu vi isso acontecer seis vezes. Se leres ou ouvires os relatos de quase morte, todos falam numa profunda felicidade, tranquilidade e libertação. Pensar na morte, evocar estas experiências que vivi ajuda-me a perceber a nulidade da inveja, da mesquinhez, a absoluta ausência de sentido da disputa. Por vezes, faço um pequenino jogo que é pensar em alguém, o que pode acontecer olhando aleatoriamente para um nome no meu telemóvel, e pensar que ele ou ela morreu, pensar vivamente nisto. Sabes quando lês que determinada figura morreu e tu de repente lembras-te de uma simpatia escondida que vai crescendo. Isso ajuda-te a concentrar na pessoa. Eu tento fazê-lo para pessoas que estão vivas, imaginando durante 2, 3 dias que determinada pessoa que conheço morreu. Isso aproxima-me imenso dela, ando com ela durante dias, e depois acontece sempre que a trato melhor; é muito... É uma coisa muito minha, mas que acho que outros deveriam... pelo menos, tentar.
Ele nunca leu ou ouviu sequer falar de Balzac, Stendhal, Proust, Whitman, Tolstoi, Joyce, Kafka. Ele nunca - acredita -, nunca viu um filme. Não sabem quem sejam os Beatles, Mozart, Sinatra, Van Gogh, Dali. Nunca ouviu falar de Hitler, Marx, Freud, Einstein. Nunca leu um jornal. Nunca se ligou à Internet. O seu nome é William Shakespeare.

sábado, agosto 04, 2012

Das centenas de pessoas que li, ela era um das duas, três que alinhava sentenças que eram encadeamento de palavras coruscantes, uma harmonia, uma música cintilante. Agora, quando leio o que escreve, tudo diferente. Desde que enveredou por uma tese de doutoramento, a sua escrita mais espartilhada, mais baça, mais normalizada. O mundo académico mata o talento. Mata a criatividade. Mata o diferente. Afunila. Espartilha. Põe as palavras engravatadas.
Não é preciso ser-se reaccionário para se saber que a liberdade traz problemas terríveis. Há cinco séculos, 250 livros por ano. Agora, um em cada trinta segundos. Na altura, sem Internet, sem televisão, sem rádio, 35 000 livros era algo quase abarcável. Agora, biliões biliões biliões de livros, biliões de blogues, biliões de publicações periódicas, de filmes, músicas, séries. A angústia de tanto-para-sorver-e-tão-pouco-tempo maior do que nunca. Dantes, um homem para a vida, uma mulher para vida. Dantes, um ofício para a vida. Agora, a ansiedade do emprego por um dia.

Como me posso queixar de trabalho quando tanta gente desempregada. Podia fazer uma lista das coisas que me enfurecem e entediam. Mas como me posso queixar quando tanta gente  sem fazer o que gosta (cada vez mais jovens sem saber o que gostariam de fazer), quando tanta gente nunca questionou se o trabalho que faz é útil para alguém. Aquele publicitário que só queria vender mais e mais e mudava de empresa e o inimigo de ontem era o amigo de hoje e vice-versa. E um dia deixou tudo, concluindo que toda a sua ansiedade e noites sem dormir não revertiam para nada a não ser para lucrar os bolsos do patrão A com prejuízo para os bolsos do patrão B. Tanta gente com trabalhos para os quais o cérebro não é convocado. Automatismos, comas cerebrais, pessoas-robotizadas.
O senhor do café, maneta, há vinte anos que não o via. Continua no mesmo sítio. Continua com o mesmo patrão a humilhá-lo à frente de todos.
O senhor da feira popular, vi-o com intervalo de décadas também, de manhã à noite a relatar a corrida de carros: o 3 ultrapassa o 1, o 2 ultrapassa o 5. Só o verbo «ultrapassar» e números. Imaginas o que seja isto doze horas por dia, dias após dia, tarde, após tarde, noite após noite, multiplicado por vinte, trinta anos?
Ele. Um das pessoas mais rectas e sensíveis que conheço. (Os dedos de uma mão não chegam para contar os outros.)
Quanto mais nos conhecemos, menos nos mostramos um ao outro. Talvez porque cada vez baste menos para nos entendermos.
«Estou com um complexozito emocional», basta para saber que passa noites insones e dias sem apetite.
Ou às vezes até o silêncio.
Deve ser triste amar em diferido. Sempre que está com alguém, não é ela. Mas quando ela acaba a relação (exaurida da sua negligência), a memória começa a falsificar o passado ou a revelar-lhe a verdade (ele acredita na segunda) e ele apaixona-se na ausência dela. E se a ausência se torna numa impossibilidade de reencontro, ama-a loucamente. Quando uma delas voltou, ele voltou a deixar de amar.
Diz que é como os entes amados quando partem - é na morte deles que os sentimos mais, que os valorizamos mais, que percebemos o quão vitais, afinal, eram.

Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
- Temos um talento doloroso e obscuro.
construímos um lugar de silêncio.
De paixão.

Herberto Helder (sem acento, Jornal de Letras)
- Eu sei que tu também, Angel.
- Hã?
- Eu sei... que tu também tens este segredo ainda que nunca o tenhas nomeado.
Pensei em várias coisas.
- Há coisas que estão para lá das palavras, para as quais as palavras não chegam, mas que sentimos e que não conseguimos transmitir, que não sabemos o que é, mas sabemos que está lá.
Pensei numa coisa.
»Tu também acreditas que há algo transcendente.
- Sim.
Acertara.
- Também sentes isso, mas não o consegues descrever. Sabes que há um continuum da vida mental. Ignoras completamente o que seja, mas sabes que há. Já tiveste experiências indizíveis por palavras, nunca me disseste, mas sei, é exactamente como eu. Interrogas-te: porquê a vida? Para quê a vida? Só para beber, comer, fornicar, defecar, urinar? Se toda esta aprendizagem, todos estes laços de afectos criados caem no abismo um dia... não faz sentido. Se não há vida depois da morte, a vida não faz sentido. E tu já sentiste, seja sob que forma for, a existência de Outra Coisa, não sabes nem eu sei que Outra Coisa é essa, mas é Outra Coisa, é outra vida, outro mundo. E essa certeza ninguém nos tira.
- Não acredito em planos. As melhores noites que tive na vida e que guardo dentro de mim sucederam sempre por acaso, foram sempre imprevistas. Sempre que foram obra de um plano, defraudaram-me.
Os tecnófilos projectam descompensações emocionais e sexuais para uma fetichização e erotização do objecto tecnológico. Adjectivos como «belo», «elegante», «curvilíneo», «mais táctil», «menos táctil» são frequentes para descrever peças frias e metálicas.
A sua sofreguidão de ter o 4.0, o 4.5, o 5.0 é também sexualizada. São do mais acarneirado que há. As grandes marcas adoram ter estes tolos que vão sempre atrás das suas inovações de meio grau, adquirindo compulsivamente tudo.
Excitam-se com os teasers (o princípio sexual de que o encoberto é sempre mais erótico do que o exposto), com as novas funções que não correspondem a necessidades que alguma vez tenham sentido, mas que passam a sentir depois de a Apple ou de o que quer que seja as tenha inventado. Percorrem a Worten como um tarado sexual percorre a Feira do Sexo.
E, claro, o seu dedilhar constante mais não é do que uma punheta transferida.
É uma senhora inglesa que tem uma firma. Sei que até há muito poucos anos, mostrou resistência em instalar e-mails na empresa. Quando instalou, adoptou a política de não responder imediatamente e de dizer aos funcionários que podiam responder com a mesma calma que respondiam às propostas que recebiam por outras formas.
Costumava dizer a frase: «I still need to think.»
Considerava que o e-mail encurtava esse período de maturação essencial  e que levava a muitas decisões que se revelavam precipitadas, além de equívocos na comunicação e a amuos e discussões. Para ela, o e-mail estava mais perto das palavras que voam do que da escrita que fica.
Espero que não tenha mudado.
- O mundo mudou para pior, para muito pior após a queda do comunismo. Nunca fui comunista, acho o que comunismo foi a pior mentira que história produziu. Como é que um regime de igualdade, meses após cair, revela não sei quantos milionários? Mas que faz falta ao mundo enquanto contraponto, faz. Porque era aquele olho que via: «Que é isso aí que estás a fazer?» Já não há esse olho e esse dedo que aponta e a pior canalhada está aí, o pior capitalismo está aí. Chegaram à pior das fases: perderam a vergonha. Podem ganhar milhões de euros e dizer com o máximo do despudor que é preciso que quem ganhe 485 euros por mês tenha de ganhar menos.

sexta-feira, agosto 03, 2012

«Deve-se ler pouco e reler muito. Há uns poucos livros totais, três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem. É preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia.»

Nelson Rodrigues, O Divino Delinquente

O meu Encontro com o Capitão Roby

O famoso Capitão Roby, mais ou menos no tempo em que o conheci

«Não sei precisar o ano, mas foi seguramente ali no bordejar dos anos oitenta. Na altura era recepcionista de hotel em Lisboa (Hotel Príncipe) e fazia o turno da noite.
Por lá passei muitos episódios que por aqui hei-de desfiar, mas hoje quero-vos falar de um em especial: o meu encontro com o Capitão Roby.
Tinha acabado de entrar de serviço às 23.30. Depois do colega que me antecedeu me ter passado o serviço, fui como sempre dar uma volta ao bar para ver como paravam as modas.
Naquela noite de Inverno o ambiente estava inusitadamente vivo. Clientes conhecidos que ali faziam poiso diário em animada cavaqueira com o barman de serviço, mais ao fundo na sala, pequenos grupos de estrangeiros bebericando cálices de porto e outras especialidades cá da "tuga" preenchiam a totalidade dos assentos disponíveis, mas ao canto do balcão pontuava uma cara nova, que pelo tom da voz ou pela sua minimal gaguez faziam com que a minha atenção fosse aprisionada por este novo e intrigante personagem, que por natureza ou insistência do discurso teimava em protagonizar a noite.
O individuo era emproado, vestia sobriamente e conversava fluentemente em várias línguas e sobre qualquer assunto, o que por razões (que só a ciência poderá explicar) atraía a atenção do mulherio de uma forma melosamente subtil.
Num tempo em que os telemóveis ainda eram ficção científica, os clientes eram chamados ao telefone pela recepção. Recordo que muitas dessas chamadas eram dirigidos a este enigmático personagem e como eu atendia a maioria delas, estranhava serem sempre mulheres que por ele demandavam.
Comecei a estranhar o tom das imperceptíveis conversas, o que me levou a cometer um acto que não devia revelar; passei a escutar parte desses diálogos na central telefónica onde abria um canal de escuta.
Recordo que as conversas tinham sempre um carácter apaixonado por parte de quem telefonava, sendo que o nosso interlocutor esbanjava charme da mesma forma com generosamente me gratificava, ou seja: aos montes.
Jorge Verissímo Monteiro, era o nome deste furacão que por ali se instalou nesse Inverno de há mais de 25 anos. Por essa altura teria uns 35 anos e um porte distinto, altivo, sendo o centro das atenções por onde quer que passasse, e neste particular para atrair atenções e admirações apresentava-se como adido naval da embaixada de Portugal em Estocolmo na Suécia,de onde era suposto ter acabado de chegar.
Era este o papel que representava, era esta a personagem que encarnava, não sem que, pelo menos a mim, me deixar sempre de pulga atrás da orelha, já que algumas das suas atitudes não eram condizentes com a do posto que se gabava de possuir.
De qualquer modo o nosso adido naval era um poço de generosidade, mandando-me servir copos dos mais finos maltes, até chegando a oferecer-me garrafas de Chivas Regal, um néctar caríssimo à altura.
Jorge, possuía um Opel Ascona (ou Manta, já não me recordo bem) verde onde me deixava dar umas voltas, o que para mim era um acto de extrema consideração. Um dia perguntou-me se gostava de ver uns filmes de “mariolice”. Respondi que sim. Este subiu ao seu quarto e trouxe-me uma máquina de projectar com uns filmes mudos a que na minha terra hoje chamam “cassetes de chumbança”. Estas mini-bobines eram o regalo das nossas noites. A estas sessões privadas assistia eu, o Serras (meu colega de turno) o velho Amadeu (chefe de bar já falecido) a Tita, o Engenheiro das Couves (clientes residentes do hotel) e demais clientes que entretanto fossem chegando e em quem nós depositássemos confiança.
Fizemos assim, muitas sessões de cinema "late night", tendo os lençóis do hotel servido de ecrã, de modo a visualizarmos todas as bobines que o Jorge Verissímo nos havia emprestado.
A vida deste personagem era a cada dia que passava mais intrigante, e muita da bota deixou de bater com a perdigota, especialmente quando começou a dizer a alguns clientes que pretendia adquirir o hotel, a outros que já estava em negociações e a outros ainda que o negócio já estava concluído.
Neste entrementes a vida do adido namoradeiro começa a levantar sérias suspeitas, especialmente no dia em que a Tita e um outro cliente do Hotel de seu nome Amado Estriga, foram convidados pelo nosso protagonista a visitar um apartamento na Av. Columbano Bordalo Pinheiro, onde pontuava uma senhora desconhecida que vestia de cabedal negro da cabeça aos pés, maquilhagem a condizer e na mão uma trela com que segurava dois poderosos cães de raça doberman aquando da altura em que esta lhes franqueou a porta.
O quadro foi-me descrito como insólito, algo temeroso e sobretudo desconfortável, só descansando quando dali se puderam pirar.
Entretanto já circulavam algumas manigâncias do nosso Jorge, com uma ou outra mulher a meter a boca no trombone.
Estava na altura de sair de cena!
Não me recordo se saiu de fininho sem pagar a conta, mas estou em crer que nada ficou a dever.
Regressou fugazmente noutras alturas mas já sem a pose inicial. Pela minha parte tinha por ele a admiração que tenho pelos personagens que do “ Planeta Agostini” descem á terra, vestem uma ou várias peles e passeiam-se pela vida, ostentando a personagem encarnada que por sua vez cilindra umas quantas inesperadas vidas, que afinal não passam de danos colaterais deste turbilhão que a determinada altura já só pede que o parem, pois por si só, já o não consegue fazer.

Uma noite Jorge telefonou-me a marcar um quarto, posteriormente voltou a telefonar e a desmarcar. Por portas e travessas, ou mesmo coincidência, soube que estava hospedado no Hotel Jorge V.
Nessa mesma noite fui abordado por dois inspectores da judiciária que o procuravam.
Embora sabendo onde este se encontrava, disse-lhes que de facto tinha tido uma reserva para aquele dia, mas que entretanto havia cancelado, omitindo deliberadamente a preciosa informação que possuía.
Passados dois dias sou confrontado com a notícia de 1ª página com a prisão do foragido “Capitão Roby” nesta unidade hoteleira.
Tinha nascido o mito que haveria de perdurar por mais de uma década, cujas façanhas foram descritas em livros e seriados de TV, mas que não têm o sabor e o élan de com ele ter compartilhado a vertigem dos abismos que este protagonizou.»

pulanito.blogspot
- Ele veio ontem para levar as coisas dele. É uma sensação tão estranha ver os cabides despidos. Não o amar mais e eu ao mesmo tempo chorar o fim. O vazio da casa, o vazio em mim. Devia haver uma palavra para isto.

terça-feira, julho 31, 2012

Estás quinze anos apaixonado por um escritor morto.
Lês tudo o que está traduzido no teu idioma.
Depois, encomendas tudo em português do Brasil.
A seguir, lês tudo o que escreveu no original.
Estás sempre à procura de algo que não tenhas.
O escritor escreveu cento e cinquenta contos. Procura-los todos.
Precisas de pagar uma fortuna uma colectânea gigante só porque tem um conto de três páginas que tu não tens.
Aquela peça de teatro que desapareceu - consegues ao fim de anos, resgatá-la.
(Nos interstícios em que as encomendas não chegam, vai relendo, relendo, relendo.)
A seguir, compras todas as cartas que foram publicadas dele.
Todas as entrevistas.
Todos os diários.
Todas as notas soltas.
Todos os textos publicados em revistas que não foram publicados em livro.
Esgotas tudo.
Só te resta acordares e receberes uma mensagem de alguém que sabe (como ninguém?) da tua paixão:

Que felicidade! É como um ente querido ressuscitar, aparecer no teu quarto e dizer «Olá» com um sorriso.

Claro que o título do inédito te parece a coisa mais maravilhosa do mundo.

Thank you for the light

Escrever, Publicar

Lobo Antunes esteve muito anos com vontade de reescrever os seus primeiros livros e rasurar os inúmeros adjectivos (Baptista-Bastos chamaria a Lobo Antunes «um armário de adjectivos») que utilizara. Bastantes anos mais tarde, afirmou numa entrevista que só deveria ter publicado a partir do décimo segundo livro.
Herberto Helder vem escrevendo poemas contínuos e súmulas, como que procurando rasurar o que não interessa - esta é a poesia que quero que fique, tudo desaguou nisto, o resto que se foda.
Tolstoi disse que tudo o que tinha escrito até então estava em Ana Karenina (posterior a Guerra e Paz!).
Walt Whitman escreveu doze versões de Leaves of Grass ao longo da vida.

Tolstoi, o imortal, aespacial, atemporal. Quem nunca sentiu isto?

«Eu era o causador de tudo e ao mesmo tempo não tinha culpa.»

http://www.guardian.co.uk/global/2010/jan/06/leo-tolstoy-greatest-writer

segunda-feira, julho 30, 2012

A segunda-feira é também o dia em que chegam as maravilhosas notícias. (E como isso faz a semana parecer mágica.)

domingo, julho 29, 2012

«A senhora parecera desmaiar, pois as mulheres deste género têm sempre lágrimas e desmaios à disposição [...]».

Uma Aventura Amorosa, Giacomo Casanova


sábado, julho 28, 2012

É a falta de cultura, estúpido!


Portugal tem hoje uma pequeníssima elite que consome cultura, quase toda velha e sem sucessores.
Nós merecemos isto. Nós elegemos esta gente. Nós não somos muito diferentes disto. No meio do anedotário que converteria um homem mais inteligente num homem trágico, convém não esquecer o que nos separa, exatamente, do Relvas. Pouco. O dito não é um espécime isolado, um pobre diabo animado de força e disposição para fazer negócios e trepar na vida, que entrou em associações e cambalachos, comprou um curso superior e, de um modo geral, se autoinstituiu em conselheiro do rei. Já vimos isto.
Nunca vimos isto nesta escala, porque na 25ª hora da tragédia nacional, quando Portugal se confronta com a humilhação da venda dos bens preciosos (os famosos ativos) aos colonizados de antanho e seus amigos chineses, o que o país tem para mostrar como elite é pouco. Nada distingue hoje a burguesia do proletariado. Consomem as mesmas revistas do coração, lêem a mesma má literatura (que passa por literatura), vêem a mesma televisão, comovem-se com as mesmas distrações. Uns são ricos, outros pobres.
A elite portuguesa nunca foi estelar, e entre a expulsão dos judeus e a perseguição aos jesuítas, dispersámos a inteligência e adotámos uma apatia interrompida por acasos históricos que geraram alguns estrangeirados ou exilados cultos permanentemente amargos e desesperados com a pátria (Eça, Sena) e alguns heróis isolados ou desconhecidos (Pessoa, 0′Neill).
Em “Memorial do Convento”, Saramago dá-nos um retrato da estupidez dos reis mas exalta romanticamente o povo. Todos os artistas comunistas o fizeram, num tempo em que o partido comunista tinha uma elite intelectual e de resistência inspirada por um chefe que, aos 80 anos, quase cego, resolveu traduzir Shakespeare. Cunhal traduzindo o “Rei Lear” de um lado, Relvas posando nas fotografias ao lado da bandeira do outro. Relvas nem personagem de Lobo Antunes, o (d)escritor da tristeza pós-colonial, chega a ser. É um subproduto de telenovela O tempo dos chefes cultos acabou, e se serve de consolação, não acabou apenas em Portugal.
A cultura de massas ganhou. No mundo pop, multimédia, inculto e narcisista, em que cada estúpido é o busto de si mesmo, a burguesia e o lúmpen distinguem-se na capacidade de fazer dinheiro. Acumular capital. O dinheiro, as discussões em volta do dinheiro acentuadas pela falta de dinheiro, fizeram do proletariado (e desse híbrido chamado classe média) uma massa informe de consumidores que votam. E que consomem democracia, os direitos fundamentais, como consomem televisão, pela imagem. Sócrates e o Armani, Passos Coelho e a voz de festival da canção. Nós, e quando digo nós digo o jornalismo na sua decadência e euforia suicidária, criámos estas criaturas. Os Relvas, os Seguros, os Passos Coelhos, os amigos deles.
O jornalismo, aterrorizado com a ideia de que a cultura é pesada e de que o mundo tem de ser leve, nivelou a inteligência e a memória pelo mais baixo denominador comum, na esteira das televisões generalistas. Nasceu o avatar da cultura de massas que dá pelo nome de light culfure em oposição à destrinça entre high e low. O artista trabalha para o ‘mercado’, tal como o jornalista, sujeito ao raring das audiências e dos comentários online.
A brigada iletrada, como lhe chama Martin Amis, venceu. Estão admirados? John Carlin, o sul-africano autor do livro que foi adaptado ao cinema por Clint Eastwood, “Invictus”, conta que Nelson Mandela e os homens do ANC, na prisão, discutiam acaloradamente, apaixonadamente, Shakespeare. Foram “Júlio César” ou “Macbeth”, “Hamlet” ou “Ricardo III” que os acompanharam. Não é um preciosismo. A literatura, o poder das palavras para descrever e incluir o mundo num sistema coerente de pensamento, é, como a filosofia e a história, tão importante como a física ou a álgebra. A grande mostra da Grã-Bretanha nos Jogos Olímpicos é Shakespeare (no British Museum) e não um dono de supermercados ou futebolista.
Os ‘heróis’ portugueses descrevem-nos. E descrevem a nossa ignorância. Passos Coelho é fotografado à entrada do La Féria ou do casino. Um dono de supermercados ou um esperto ministro reformado são os reservatórios do pensamento nacional. Uma artista plástica é incensada não pela obra mas pela capacidade de “agradar ao mercado”, transformando-se, pela manifesta ausência de candidatos, em artista oficial do regime. É assim.
Não teria de ser assim. Portugal tem hoje uma pequeníssima elite que consome cultura quase toda velha e sem sucessores. Não estamos sós. Por esse mundo fora, a arte tornou-se cópia e reprodução (daí a predominância dos grandes copiadores de coisas, os chineses), tornou-se matéria tornou-se consumo. Como bem disse Vargas Iiosa, em vez de discutirmos ideias discutimos comida. A gastronomia é uma nova filosofia. Ferran Adriá é o sucessor de Cervantes e de Ortega Y Gasset.”
 Clara  Ferreira Alves

sexta-feira, julho 27, 2012

Quem ama a literatura nunca lê as páginas dos «livros para o Verão» da imprensa.
O oportunista explicou-me: «As pessoas dizem que eu chego onde chego porque estou sempre a correr, a trepar, a galgar. Eu corro a uma velocidade normal. A questão não é que eu corro mais depressa - a questão é que eu corro antes
«Football is beatiful and I normally use a phrase to convey this message. Football gives you happiness, football makes you suffer, but football always gives you another chance [...]. There is joy, there is pain, but there is always another chance.»

Giovanni Trapattoni

quinta-feira, julho 26, 2012

A roda do hamster


Habituados a viver sob os ditames de todos os tipos de urgências, como se a velocidade pudesse por si só dar sentido ao trabalho e à vida, temos nas férias uma ocasião rara para nos libertarmos desta nova forma de tirania.
Sobretudo porque ela assenta na mais enganadora ilusão do bluff tecnológico dominante, que é a que nos garante que as novas tecnologias vieram para nos libertar das pressões do tempo.
E apesar de a experiência nos mostrar quotidianamente que é bem o contrário que acontece, e que, com a parafernália tecnológica que invadiu o nosso dia a dia, vivemos afinal com uma angústia cada vez maior de não ter tempo para nada, a propaganda lá continua, alimentada por um tão generalizado como paradoxal deslumbramento.
Também aqui o ultraliberalismo se impôs sem grande resistência, legitimando a supremacia do tempo do mercado, o do imediato, sobre todas as outras temporalidades. Uma supremacia que, de A. Smith a Hayek, ao colocar a urgência no lugar da esperança, apostou sempre em dispensar tanto a intencionalidade que caracteriza a ação pública, como a perspetivação do futuro que é indispensável aos projetos e às convicções coletivas.
Tudo isto com consequências muitas vezes tremendas, como aquelas para que a Newsweek chamava recentemente a atenção, num texto que merece uma leitura atenta, intitulado "Icrazy: panic, depression, psychosis - how connection addiction is rewiring our brains". Nesta peça, que mereceu um destaque de capa integral, enumeravam-se diversos estudos científicos feitos em várias prestigiadas universidades sobre as já apuradas consequências do vício das novas tecnologias, a que tão pouca atenção se presta.
Um só exemplo: o cérebro de um viciado na Internet transforma-se num cérebro análogo ao de um alcoólico ou de um drogado, com "reduções" de dez a vinte por cento na massa cinzenta responsável pelas funções da linguagem, da memória, do controlo motor, das emoções. A situação é tal que o DSM (The Diagnosos Statistical Manual of Mental Disorders) do próximo ano incluirá, pela primeira vez, a "Internet Addiction Disorder"...
O que tem acontecido é que nos sujeitamos cegamente à lógica da aceleração temporal, que partindo do domínio da técnica tomou conta de todas as áreas da vida, sejam elas a laboral, a social ou a pessoal. Em todas elas o nosso quotidiano é permanentemente atravessado por uma urgência que impõe os fluxos mais diversos, multiplicando as situações de dessincronização patológica entre várias atividades.
Com as consequências que se vão vendo, nomeadamente a nível subjetivo, seja no stress ou na depressão, na incapacidade de atenção ou de concentração. E generalizando o curto prazo como o único horizonte de sentido - ou melhor, da falta dele - da humanidade contemporânea.
E o "curto-termismo" traz com ele não só o impasse, mas também a irresponsabilidade. O impasse porque, sem tempo de médio ou longo prazo, não há projeto de vida individual ou coletiva que consiga vingar. E a irresponsabilidade, porque ele coloca todos os processos de deliberação sob a ditadura da celeridade e do instante, incapazes de dar atenção à complexidade dos problemas das sociedades contemporâneas. E assim se vive, como escreveu J.-L. Servan-Schreiber, como se nos deslocássemos de noite, num automóvel cuja velocidade aumenta à medida que o alcance dos faróis diminui.
É bom lembrar que a modernidade assentou num projeto de autonomia, entendida como a emancipação da humanidade de diversos constrangimentos: materiais, sociais e culturais. Ora o que hoje constatamos é, inversamente, a perda dessa autonomia. Como diz Hartmut Rosa, um dos mais perspicazes estudiosos do fenómeno da aceleração, o indivíduo submetido à lógica da aceleração é cada vez "menos senhor da sua própria vida. Esta não parece ter direção, não se vê que conduza a algum lado, tudo o que se faz é patinar a um ritmo desenfreado".
Como se, acrescenta ele numa metáfora que descreve inspiradamente bem a crise atual, "a roda motriz que fazia avançar e dava um sentimento de liberdade se tivesse tornado uma roda de hamster na qual giramos freneticamente sem sair do mesmo sítio".
É mesmo isso: faz exatamente hoje um ano que começou uma quinzena negra que marcou o verão de 2011, com as bolsas em queda e as dívidas espanhola e italiana sob enorme pressão, o que obrigaria o BCE a comprar mais de 180 mil milhões de dívidas soberanas. Um ano depois continuamos, como se vê, na mesma, a viver dias politicamente escaldantes numa Europa cada vez mais próxima do colapso, mas sempre a girar freneticamente no mesmo sítio, como um hamster na sua roda! Gastando, como ele, toda a sua energia nas rotinas cegas de um carrossel de ilusões.

Manuel Maria Carrilho

quarta-feira, julho 25, 2012

Condena-se o plágio de palavras. Condena-se o plágio da produção científica e artística. E nada mais.
Mas e se alguém plagiar outrem nas acções, na indumentária, nas escolhas na vida, se alguém imitar tudo-tudo o que o outro é e faz?

O que tem isto que ver com Cristo?

A Igreja tem dificuldade em admitir a contradição que é defender-se o direito à vida como direito fundamental (o argumento sempre brandido contra o aborto e, até, contra a eutanásia) e ter a sua figura máxima a defender a pena de morte. Bem pode ter lá escrito nos seus textos e encíclicas «em condições excepcionais». Quem admite «só para determinados casos» defende-a. E não há volta a dar-lhe. Ou ela está inscrita no ordenamento jurídico ou não está.

Será que Cristo diria: «Não matarás o teu próximo, mas se o fizerdes, mantei-o num cela durante muito tempo, vendo outros homens passarem na sua frente, semana após semanas, sabendo que o seu destino é fatalmente semelhante a esses e que um dia será transportado no mesmo corredor, sofrendo a mesma electrocussão sob o olhar de vários homens que não mostrarão o mais ínfimo ricto de piedade»?
Entre todas as patologias que conheci, nunca ainda:
a) gostar de ir às Finanças;
b) gostar de ir ao dentista;
c) gostar de fazer «mudanças».
Odor a mar e a menta
que ela tem entre os seios

Pablo Neruda
Alguns músicos que conheço avaliam a qualidade musical de uma canção de outros pelo tempo que demoraram a conseguir tocá-la. O virtuosismo técnico não é, evidentemente, tudo. Não estando ao serviço de algo, é apenas exibicionismo. Claro está que inúmeras músicas antológicas são fáceis de tocar. Mas isso não lhes retira um átomo de mérito. Como aquele crítico de arte que olhava para as telas de Miró e dizia: «Eu consigo fazer isto, a questão é que nunca me lembrei de fazer isto.»


sexta-feira, julho 20, 2012

Como é óbvio, a sinalização dos pedófilos era apenas o início.

«A castração química [dos pedófilos] não me repugna.»

Paula Teixeira da Cruz

quinta-feira, julho 19, 2012

Não se deve usar a palavra «nazi» com ligeireza, mas que há ressonâncias há


Educação e deficiência: uma sentença justa contra uma medida injusta

Perante as notícias sobre a deliberação do Tribunal Administrativo e Fiscal de Braga, relativamente à realização provas de exames a nível de escola pelos alunos com necessidades educativas especiais, referido em textos anteriores, divulgo um artigo de opinião, publicado no jornal Público, em suporte de papel, do Eurodeputado Paulo Rangel.

É fundamental que se repense a ideia de que não deve haver exames adaptados aos alunos com necessidades especiais

1- Muitas vezes tenho dito o quanto aprecio a política educativa do Governo e, em especial, a liderança conhecedora, firme e realista do ministro Nuno Crato. Em questões localizadas, porém, o efeito automático de decisões administrativas do Ministério da Educação tem-se revelado fonte de graves injustiças. É o caso, de sobremaneira chocante, da submissão dos alunos com necessidades especiais – em particular, com deficiências cognitivas – ao modelo único de exames nacionais (sem qualquer consideração pela sua situação concreta).
De há muito, contra ventos e marés, que defendo um aumento gradual, mas sensível, do rigor e exigência no ensino. De há muito que preconizo a actual linha política de generalizar a prática da avaliação também por exames. Só um ensino rigoroso e exigente pode promover a inclusão, a igualdade de oportunidades e a mobilidade social. O laxismo e o facilitismo acabam sempre por se revelar como mecanismos de reprodução das desigualdades sociais.

2. Mas a defesa de uma certa “padronização” e “homogeneização” de procedimentos, decerto ditada pelo reforço da exigência, não pode pôr em causa os direitos dos alunos com deficiência. As crianças e adolescentes com necessidades especiais têm direito ao ensino e ao desenvolvimento da sua personalidade – direitos fundamentais garantidos pela Constituição. Sabemos que as deficiências, físicas e cognitivas, são as mais diversas e requerem respostas muito diferenciadas. Sabemos que o grau de certas deficiências, especialmente cognitivas, obriga mesmo a um ensino especial, já fora do sistema geral.
Mas grande parte das deficiências cognitivas – e a fatia de leão das deficiências físicas – é perfeitamente compatível com o sistema geral de ensino, desde que efetuadas adaptações. E é também sabido que o grau de progresso educativo e de realização pessoal destes alunos é tanto maior quanto mais estejam integrados no dito sistema geral. De resto, para todos os estudantes, a presença nas turmas de colegas com necessidades especiais é uma experiência humana e pedagógica altamente formativa – algo que, portanto, mesmo com custos e desvantagens, o Estado e os pais em geral devem fomentar.

3. Uma parcela dos alunos com deficiência, já integrados no sistema geral de ensino, desenvolve os seus estudos no quadro de um “programa educativo individual”. Programa que se traduz, desde logo, numa adaptação às suas capacidades e ao seu historial das metas curriculares de cada disciplina e dos processos de avaliação. Definido esse programa no contexto escolar e homologado pela entidade competente, o aluno é geralmente isento de exames nacionais e as suas provas de exame, que carecem de adaptação, são integralmente realizadas ao nível da escola.
Contra todas as expectativas, foi emanado, já em Abril, um despacho normativo que passou a sujeitar estes alunos, que frequentassem o 4.º e o 6.º anos, aos exames nacionais. Excecionou, e só para este ano lectivo, os alunos que frequentassem o 9.º ano, assim introduzindo uma discriminação injustificável entre o 9.º ano e o 4.º e 6.º anos. Nos 4.º e 6.º anos, foram ressalvadas algumas deficiências físicas graves, mas não as cognitivas. E as exceções previstas, aparentemente, vigoram para este ano, mas não valerão daqui em diante…

4. Perante uma tão flagrante injustiça, um aluno com necessidades especiais e seus pais interpuseram uma intimação para proteção de direitos, liberdades e garantias – que é uma ação urgente, raras vezes bem sucedida nos nossos tribunais. A sentença, justa e digna, representa um grande passo no reconhecimento dos direitos fundamentais aos cidadãos com deficiência. Considera que aquele despacho é inconstitucional porque viola o direito ao ensino – enquanto direito análogo a direitos, liberdades e garantias –, viola a proteção da confiança (altera as regras a meio do jogo) e viola o princípio da igualdade (alunos em situações idênticas têm direitos que outros não têm). Vou mais longe ainda: por detrás da conceção que inspira uma sentença tão lapidar, está a admissão de que esse despacho “nivelador” rasga o direito ao livre desenvolvimento da personalidade e à proteção legal contra a discriminação. 
É fundamental que o Ministério da Educação – em lugar de entrar na espiral de recursos, useira e vezeira na nossa praxe administrativa – execute esta sentença e tire dela todas as consequências. É fundamental que repense a ideia, aparentemente em voga, de que não deve haver exames adaptados a cada aluno com necessidades especiais. É, aliás, importante que acompanhe a aplicação dos programas individuais e a feitura dos respetivos exames, para garantir que, no nível adequado, a exigência também se estende aos alunos com deficiência. Com tantos professores com “horário-zero”, não será seguramente difícil, de futuro, contemplar as situações das crianças com necessidades educativas particulares…

5. Tive conhecimento desta sentença porque a dita intimação foi proposta em tribunal por dois colegas meus. Ao contrário do que, por lapso, no sábado dizia este jornal, não patrocinei esta acção nem intervim nela. Mas tive, de facto, conhecimento da mesma e do seu resultado pelo exemplo extraordinário dos pais deste adolescente e dos seus advogados, com quem partilho a profissão há vários anos. Não se vergaram ao conformismo, à inércia e ao desânimo. E tendo tido conhecimento desta jurisprudência, não posso calar a minha indignação e a minha alegria. Nenhuma política de exigência implica o distanciamento dos cidadãos com deficiência. Eles fazem parte da nossa vida, do nosso mundo e da nossa escola e tornam a vida, o mundo e a escola melhores e mais humanos do que seriam sem eles.

Paulo Rangel
Nos dias de hoje, «pragmático» quer dizer «oportunista».

Garcia Pereira

Nem de propósito, ela disse

http://internacional.elpais.com/internacional/2012/07/18/actualidad/1342639254_939819.html

quarta-feira, julho 18, 2012

Sócrates procurava a Verdade e a Virtude e foi condenado à por morte por envenenamento.
Séneca, o estóico, cortou os pulsos na presença dos amigos e morreu num lago de sangue.
Cristo, o revolucionário, morreu crucifixado.
Galileu, na sua demanda pela Verdade, foi condenado pelo Santo Ofício.
Lincoln foi assassinado.
Gandhi foi assassinado.
Luther King foi assassinado.
Aquele que escreveu e cantou Imagine foi assassinado.
Kennedy combateu a máfia e levou com uma bala nos cornos.
Olof Palme, o homem do Estado Social, foi assassinado à saída do cinema e a sua mulher igualmente baleada.
Giovanni Falcone combateu a máfia como ninguém e morreu no carro que explodiu. Paolo Borsellino era o seu braço direito. Morreria também dois meses mais tarde vítima de explosão.


So you wanna change the world?

O Manipulador Dadivoso

Sempre que se encontrava com um amigo ou conhecido fazia-o sentir a quantidade de coisas que tivera de abdicar para estar ali. Mesmo ao telefone: «Só atendi porque vi que eras tu»; «Tenho meio minuto»; «Estou a resolver o problema de uma pessoa». Conseguia fazer sentir que o uso do seu tempo era um bem preciosíssimo - e que usar dele era, em si, um favor.
Invocava constantemente a ingratidão dos outros, os favores que fazia à humanidade e ao mundo, a quantidade de empregos que arranjara aos amigos e conhecidos. Se alguém lhe pedia algo, fazia-o - mas explicava que demorara cinquenta horas para o fazer.
Se se discutia um assunto, ele voltava a ele mais tarde. «Lembras-te quando estive a explicar ao Rui como era, como se fazia? Deu-me um trabalhão reunir aqueles dados.»
Sempre que dava um conselho e esse conselho corria bem: «Fui quem lhe disse para... Se não fosse eu...»
Se alguém lhe perguntava qualquer coisa, ele respondia em tom professoral. E depois, mais tarde, «aquilo que te ensinei foi útil para isto&aquilo».
Quando não conseguia fazer o que se lhe pedia, ele enumerava a putativa longa lista de acções que fizeram.
E vivia sustentado na cobrança de favores. Fazer um grande favor numa altura frágil da vida de alguém - tirar dividendos desse escravo para o resto da vida.
Uma das suas frases favoritas: «É sempre [introduz o seu nome] faz, o João faz. O João faz tudo. É sempre o João o comido e o enrabado. Sempre.» E os ouvintes, solidários com a teatralidade, comovem-se e agem, como que dizendo: «Não, desta vez eu faço por ti.»
Era mais uma forma de dividir os outros. Aqueles que preferiam estar sozinhos durante a maior parte do tempo. Aqueles que preferiam estar acompanhados a maior parte do tempo. Conhecia extremos. Quem nunca conseguia fazer nada sem testemunhas. Quem nunca conseguia socializar.
Calibragem. Havia quem não conseguia ir ao cinema sozinho. Depois, havia quem nunca conseguia ir ao ginásio sozinho. E depois havia quem não conseguia sequer estar em casa sozinho.
Que actividades cada um não conseguia fazer sozinho? Tomar o café e comprar o jornal, a maioria conseguia. Sair à noite poucos conseguiam.
Penso nos argumentos. Quem nunca conseguia estar sozinho dizia que a vida não tinha graça sem testemunhas, sem troca de opiniões sobre o filme que se vira, o debate que passava na televisão. Quem passava muito tempo sozinho dizia que os que nunca conseguiam estar sozinhos tinham medo de se confrontarem consigo próprio - e que essa era uma condição necessária para a auto-análise.
Cada um sabe da sua equação de felicidade, pensou. Mas os dois casos mais extremos vieram-lhe à mente. Aquele que estava sempre em casa, que dizia que não havia prazer maior em chegar a casa, pôr a música que queria, estar vestido como queria, ser dono e senhor no seu trono sem dar justificações a ninguém. Quase nunca socializava, e, quando o fazia, não raras vezes tinha ataques de pânico.
Aquele que estava sempre a sair, que vivia dentro de um automóvel, nunca dormia, que dizia «em 12 anos de namoro, nunca estive uma vez em casa no sofá com a minha namorada, andávamos sempre a viajar». Tinha sempre olheiras. «O único momento que tenho sozinho, Angel, é quando vou à casa de banho nas discotecas. São esses os momentos comigo.» Um dia, não conseguindo companhia para sair, foi sozinho de carro procurar um sítio pejado de gente onde, quiçá, encontrasse alguém.
 «Estacionei o carro em segunda fila e andei pela multidão. Precisava de sentir calor humano.»
Parecia haver qualquer coisa disfuncional em ambos.
O caminho aristotélico do meio, mais uma vez?

«Amar a vida pelo trabalho é ter intimidade com o segredo mais íntimo da vida.»
 Kahlil Gibran

terça-feira, julho 17, 2012


«Um estudo feito na Universidade de Chicago e publicado pela revista Forbes listou as dez profissões mais felizes do mundo.
A maioria delas é focada em áreas que se preocupam em ajudar as pessoas, espiritual ou fisicamente.
Outras destacam-se ainda pela maior autonomia e possibilidade de criação.»
Lista completa:
1.º – Clérigos
2.º – Bombeiros
3.º – Fisioterapeutas
4. º – Escritores
5. º – Professores de educação especial
6. º – Professores
7. º – Artistas
8. º – Psicólogos
9. º – Vendedores de serviços financeiros
10. º – Engenheiros de operação

Da realidade

O editor tinha duas meninas sem literatura de cara bonita a vender os livros. Em certa altura, cansada, uma delas pediu-me que me sentasse lá por uns tempos. Quando o editor me viu na banca, mandou-me sair.
- Angel, sai daí! Não quero que me intelectualizes as vendas!
Estava num museu em Londres e tive um «choque estético». Há casos relatados de pessoas que nunca confrontadas com o mar ou com a beleza de um tela atingem um paroxismo de prazer tal, que ficam em comoção, extáticas, podendo até ficar em estado catatónico.
Fiquei meia hora a olhar para um dos doze quadros de Van Gogh dedicados à minha flor. Aqueles girassóis de cores claras e vívidas eram muito mais do que girassóis. Os meus amigos não percebiam porque não saída dali. Em certa altura, li no quadro que Van Gogh o pintara para expressar a ideia de... gratidão. Era isso. Era isso.
Um das palavras mais bonitas do mundo, em que o «anuncia» algo forte e suave, o «ti» nos prolonga num estado... ti... a ti... num ti que sobe do particular ao universal, o tê e o i emergindo-nos num mundo de pura bondade, sensibilidade e amor e o «dão» nos dá a intensidade branda de um sentimento que merece terminar com um som que chancela um sentimento doce e sólido.

Financial Times, esse pasquim esquerdista



Assurance of Compliance in the 2nd GRC Programme

I. Background
According to information from the Troika, Greece has most likely missed key programme objectives again in 2011. In particular, the budget deficit has not decreased compared to the previous year. Therefore Greece will have to significantly improve programme compliance in the future to honour its commitments to lenders. Otherwise the Eurozone will not be able to approve guarantees for GRC II. 


II. Proposal for the improvement of compliance
To improve compliance in the 2nd programme, the new MoU will have to contain two innovative institutional elements on which Greece will have to commit itself. They will become further prior actions for the second programme. Only if and when they are implemented, the new programme can commence:

1. Absolute priority to debt service
Greece has to legally commit itself to giving absolute priority to future debt service. This commitment has to be legally enshrined by the Greek Parliament. State revenues are to be used first and foremost for debt service, only any remaining revenue may be used to finance primary expenditure. This will reassure public and private creditors that the Hellenic Republic will honour its comittments after PSI and will positively influence market access. De facto elimination of the possibility of a default would make the threat of a non-disbursement of a GRC II tranche much more credible. If a future tranche is not disbursed, Greece can not threaten its lenders with a default, but will instead have to accept further cuts in primary expenditures as the only possible consequence of any non-disbursement.

2. Transfer of national budgetary sovereignty
Budget consolidation has to be put under a strict steering and control system. Given the disappointing compliance so far, Greece has to accept shifting budgetary sovereignty to the European level for a certain period of time. A budget commissioner has to be appointed by the Eurogroup with the task of ensuring budgetary control. He must have the power a) to implement a centralized reporting and surveillance system covering all major blocks of expenditure in the Greek budget, b) to veto decisions not in line with the budgetary targets set by the Troika and c) will be tasked to ensure compliance with the above mentioned rule to prioritize debt service.

The new surveillance and institutional approach should be formulated in the MoU as follows: “In the case of non-compliance, confirmed by the ECB, IMF and EU COM, a new budget commissioner appointed by the Eurogroup would help implementing reforms. The commissioner will have broad surveillance competences over public expenditure and a veto right against budget decisions not in line with the set budgetary targets and the rule giving priority to debt service.” Greece has to ensure that the new surveillance mechanism is fully enshrined in national law, preferably through constitutional amendment.



Esmifrar os mais pobres dos pobres, ser brando com o capital

http://economia.publico.pt/Noticia/so-29-das-empresas-e-que-pagaram-irc-em-2010-1555142

http://www.rtp.pt/noticias/index.php?article=570818&tm=6&layout=122&visual=61&utm_source=twitterfeed&utm_medium=twitter

domingo, julho 15, 2012

O vazio do sábado e do domingo preenchido com «ir às compras» provoca-me um certo estranhamento do mundo.

quarta-feira, julho 11, 2012

Três paradoxos de Zenão (que Borges diz terem influenciado Kafka na escrita d´O Castelo)

É impossível atravessar o estádio; porque, antes de se atingir a meta, deve primeiro alcançar-se o ponto intermédio da distância a percorrer; antes de atingir esse ponto, deve atingir-se o ponto que está a meio caminho desse ponto; e assim ad infinitum.


Aquiles nunca pode alcançar a tartaruga; porque na altura em que atinge o ponto donde a tartaruga partiu, ela ter-se-á deslocado para outro ponto; na altura em que alcança esse segundo ponto, ela ter-se-á deslocado de novo; e assim sucessivamente, ad infinitum.


Um objecto está em repouso quando ocupa um lugar igual às suas próprias dimensões. Uma seta em voo ocupa, em qualquer momento dado, um espaço igual às suas próprias dimensões. Por conseguinte, uma seta em voo está em repouso.




«Tirava das prateleiras livro atrás de livro. Porque é que ninguém dizia nada? Porque é que ninguém gritava?»

Charles Bukowski

segunda-feira, julho 09, 2012

- Angel, enquanto professora, digo-te uma coisa. O Ministério da Educação tem uma grande missão: dar um tiro nas Humanidades.

Ricos e pobres



Bukowski gabava-se de ter trabalhado como operário e de conhecer todos os «traficantes de droga» (alguém que explora) e todas as «putas» (alguém que é explorado) de Los Angels. Viveu sempre na decadência e erigiu-a como o modo mais são de rejeitar a demência da sociedade. As meretrizes sem dentes, os «negros homossexuais», os bêbados sem-rumo, os sem-casa, os sem-ninguém era para eles «as flores da terra». Com esta fauna, não se imaginaria que Bukowski fosse simpatizante do nazismo que exterminaria todos os seus alegados comparsas. A tese não é sólida (até porque C. B. era um provocador extremo), mas quem privou com ele garante a simpatia. De resto, o próprio elogiou Hitler numa entrevista, gostava muito do Mein Kampf, tinha como escritores favoritos aqueles que eram acusados de nazismo (Hamsun, Céline) e de fascismo (Pound). O anti-semitismo está presente em Pulp. Em suma, as pessoas não são lineares.
Ainda que bebedolas e escritor também, Fitzgerald escreveu mais sobre os muito ricos do que sobre os muito pobres (sobre os quais também escreveu). Bukowski dizia que não tinha paciência para ler Fitzgerald, que nem entedia Tender is the night, e que Scott deveria ter desviado a atenção dedicada as ricos para as classes operárias e os oprimidos. Eu percebo a nobreza do sentimento, mas acho a análise de Bukowski redutora, tanto mais que Fitzgerald descreveu a futilidade, o vazio oco dos ricos como ninguém. E, como as pessoas não são lineares, se Bukowski era próximo do nazismo, Fitzgerald era marxista. De resto, em This side of paradise, o apelo do marxismo é de uma lucidez impressionante.
A questão é que cada um escreve sobre o que conhece. Não por acaso Bukowski escreveu tanto sobre pugilismo e corridas de cavalos, os seus passatempos (além de ouvir música clássica). E Fitzgerald conheceu os muitos ricos de perto. E Bukowski os bêbados profissionais e sem dinheiro. O importante é da experiência particular extrair o pedaço incandescente intemporal e aespacial. Porque, apesar de tudo, todos os seres humanos partilham das mesmas emoções.

(Mesmo quando parece que um escritor não escreve sobre o que viveu, como o caso frequentemente apontado de Kafka, convém desconfiar. O medo e a culpa eram os materiais da sua vida interior. E sobre eles erigiu uma construção magnífica de símbolos.)

Um bom retrato do que se passa


A desvalorização salarial e o excecionalismo português  
 
André Freire*  
 
Perante uma tão profunda desvalorização do trabalho, como explicar a apatia geral? Está em marcha uma brutal desvalorização salarial, a qual só muito parcialmente pode ser justificada pelas orientações da troika. Por um lado, porque muitos dos cortes salariais não estão vertidos no memorandum e foram recusados pelos partidos que venceram as legislativas de 2011, em sede de campanha eleitoral. Por outro lado, esses partidos foram também signatários, de facto, do dito programa e exultaram com o "resgate". Percebe-se porquê: tal desvalorização tem subjacente um programa ideológico radical que nunca passaria nas urnas se fosse explicitamente assumido. Neste texto passaremos em revista tal desvalorização, analisando algumas das suas consequências, bem como as causas da apatia com que tem sido recebida pelos portugueses, as quais radicam no "excecionalismo português".  
 
A desvalorização salarial ficou bem patente esta semana: o país ficou a saber que, sob pressão do Ministério da Saúde, os enfermeiros "tarefeiros" seriam pagos por um valor horário inferior ao da generalidade das empregadas da limpeza (3,96 euros). Idem para as propostas de aplicação do regime de tarefeiros, mal pagos e sem carreiras, aos médicos (do SNS). Idem em várias universidades e politécnicos onde, sob a pressão financeira do Ministério das Finanças e com o beneplácito do Ministério da Educação, há vários docentes que, apesar de terminarem os seus doutoramentos e agregações, ficam a receber na categoria anterior/inferior. Já para não falar do embuste meritocrático, isto é, sem consequências, da "avaliação de desempenho". Mas tal desvalorização não atinge só as classes médias. O número de pessoas a receber o salário mínimo (485 euros) duplicou entre 2007 e 2012, atingindo 605 mil trabalhadores (10,5% do total). Já para não falar da generalização da precariedade e do enfraquecimento do Estado social (abaixamento das indemnizações por despedimento, facilitação do mesmo raiando a inconstitucionalidade, etc.) para obrigar as pessoas a aceitarem qualquer trabalho, mesmo que muito mal pago e inadequado às suas qualificações.  
 
E que consequências tem a desvalorização? Primeiro, agrava as desigualdades porque a austeridade é profundamente assimétrica. Recordemos que os rendimentos de capital foram isentos do corte de subsídios em 2011-2015, que o corte de subsídios em 2012-2015 só atinge os rendimentos do trabalho no sector público e os pensionistas, ou ainda que, em 2011, "os salários dos presidentes do PSI-20 subiram 5,3%" (PÚBLICO, 14/5/12). Segundo, porque destrói toda a espécie de incentivos meritocráticos (forte seleção à entrada e na progressão), que têm sido o esteio da qualidade dos serviços públicos face aos seus correspondentes privados, logo irá erodir a qualidade dos serviços prestados à população. Terceiro, dirige-nos para uma economia de baixos salários e pobremente qualificada que dificilmente terá futuro.  
 
Perante uma tão profunda desvalorização do trabalho, com consequências tão graves nas vidas dos portugueses e na qualidade dos serviços, como explicar a apatia geral? Não é fácil, mas eu avanço três hipóteses. Primeiro, deixaram de funcionar os contrapesos no sistema político. Excetuando algumas declarações inconsequentes, sobre "iniquidades nos cortes de subsídios" e sobre a necessidade de apoio ao crescimento,  
 
Cavaco tem dado cobertura a tudo sem sequer pedir a devida fiscalização constitucional, mesmo quando ela era evidentemente necessária (cortes de subsídios, novas leis laborais, etc.). E o PS abdicou de ser oposição, preferindo trair os seus eleitores (a quem tinha prometido que não acompanharia derivas radicais além troika) para poder aceitar, com as suas "abstenções violentas", tudo o que vem do governo. Segundo, a atitude da generalidade dos jornalistas e comentadores que, com a sua débil cultura política, se especializaram em alimentar o cinismo político: apesar de muitas das mais graves medidas de desvalorização salarial não estarem no memorandum e contrariarem promessas eleitorais, tudo é aceite com a ideia cínica de que os políticos em campanha dizem uma coisa e depois fazem outra. Mas há países que levam a democracia a sério: veja-se o abaixamento da idade da reforma, etc., que está a ocorrer em França, conforme as promessas eleitorais e a contrário das previsões de jornalistas e comentadores portugueses… Por último, temos a falta de entendimentos entre as esquerdas portuguesas, incapazes de gerarem uma alternativa credível e minimamente consistente ao statu quo. Perante tal falta de sentido de alternativas, resulta quase compreensível a alienação dos portugueses: incapazes de se erguerem para defender os direitos fundamentais, preferem concentrar as energias na alienação futebolística, num estado de quase "morte cerebral" (Pacheco Pereira).  
 

O contraditório


Teolinda Gersão – uma das nossas melhores escritoras por quem tenho admiração e amizade – escreveu "Redacção - Declaração de Amor à Língua Portuguesa". A leitura deste texto desagradou-me de tal modo que cheguei a julgar tratar-se de uma brincadeira da autora sob a forma de uma crítica sarcástica ao ensino do português.

Mas como nem todas as pessoas a entendem assim, pus-me algumas perguntas: A quem se dirige esta brincadeira? Aos autores do programa de português na parte que diz respeito à gramática? Aos manuais de que se servem os professores, que podem conter erros por não haver a certificação de correção e qualidade, decidida há uns anos e não implementada? E já que o artigo assenta nas “ideias” de um estudante, será que o que está em causa é um professor que não conhece o que ensina?
Uma escritora do nível da Teolinda Gersão não pode aceitar como bons todos os disparates que lhe são transmitidos pelo seu neto estudante. Existem materiais de fácil acesso para refutar o que considera asneira. Já conhece o Programa de Português do Ensino Básico? Já viu os materiais que podem ser consultados pelos professores (ou pelos pais/avós) para perceber como e porquê se analisa uma língua, como se adequa esse ensino ao nível de escolaridade, o que deve ser transmitido em cada ano e o que serve apenas para informação do professor? Já pensou em como uma explicação da construção de um texto ou frase que o aluno produz ajuda a desenvolver o seu raciocínio e aumenta o seu domínio da oralidade e da escrita?
Os alunos não são tolos e têm curiosidade pelo ensino de qualquer disciplina se forem estimulados a olhar crítica e criativamente o que está por detrás das suas produções linguísticas e artísticas e dos mistérios da natureza. É nisto que consiste a educação. Mas o que verdadeiramente os desestimula é que alguém, que tem responsabilidade na escrita de uma língua, diga que “vai deitar a gramática na retrete “ (as palavras são da escritora mas “as ideias são deles”). Considera a Teolinda que não vale a pena estudar gramática? E aprender a fazer operações de matemática ou conhecer a física nas suas diversas forças e energias já vale a pena? Preparar materiais para o ensino do português tem sido o trabalho criterioso e dedicado de equipas, tal como tem sido feito para a matemática e para as ciências. Todas estas áreas têm tido a sua atualização didática e implicam uma adaptação a novos conhecimentos por parte dos agentes de ensino. E se um professor não sabe como explicar a construção das frases, do texto, da entoação e sons com que se constrói esta maravilha que é uma língua, é absurdo assacar ao ensino da língua materna erros, dislates e desinteresse que sente um estudante que julga que aprender português é só ter lido alguns livros (quando o faz) e não dar erros de ortografia. Deste modo, ele nem sequer vai tomar consciência da razão por que um texto literário é melhor do que outro, ou por que uma instrução ou uma lei pode ser ou não ser ambígua. Uma generalização da inutilidade e dos erros do ensino do português, apresentada a sério ou a brincar, apenas mostra uma completa falta de respeito pelos agentes desse ensino e por todos os que têm trabalhado nesta área. E de certeza que não se trata de uma “declaração de amor”, visto que o amor procura e proclama os aspetos bons do objeto amado.
Não desejo discutir aqui os exemplos dados pela autora do artigo porque eles têm tanto de errado como de ridículo. Aconselho somente uma consulta do Programa de Português do Ensino Básico e, já que tem uma completa falta de conhecimentos de gramática, poderia também consultar o Dicionário Terminológico destinado aos professores (e não aos alunos). Dessa maneira ajudaria mais um estudante do que tornando pública uma atitude que não é, certamente, recomendável num educador.

Maria Helena Mira Mateus
O medo do escuro da criança mantém-se sempre ao longo da vida. Apenas muda de nome: preconceito.
O caminho mais rápido para o preconceito é julgarmo-nos imunes a ele.
- Para uma pessoa da minha geração, a instantaneidade que há no contacto é algo desumanizante. Já não há o ter saudades de alguém e escrever uma longa carta. No meu tempo, demorava-se mais tempo a ir de Lisboa ao Porto ou a Faro do que hoje a África. Cheguei a demorar 32 dias com 1200 pessoas a chegar a Moçambique. Hoje, é tudo imediato. Perdeu-se algo nas relações humanas. E na relação com o conhecimento. O não estar tudo à mão obrigava-nos a procurar, investigar. Hoje, perdeu-se a reflexão profunda, a filosofia deixou de ser um objecto de interesse porque não é imediato, pensa-se que o que está na wikipédia basta, criou-se a ilusão do conhecimento total e imediato à distância de um clique. Qualquer um pode editar conhecimento sobre os assuntos mais complexos, alguns que levam uma vida a estudar. Só o estímulo facilmente satisfeito interessa. E isso afasta-nos das coisas espiritualmente elevadas.
- Não tenho paciência para encontros em que tenho saudades de alguém, vontade de falar, de comunicar, e sou recebido como num acto formal, como num acto social. Transformar a tertúlia em efemeridade. Mesas postas, guardanapos, quando nem são horas de comer ou beber. A cerimónia que se sobrepõe ao prazer puro do convívio, da fraternidade, do encontro de carnes e almas.

domingo, julho 08, 2012

Ternura


Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma...
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar 
                                                                     [ extático da aurora.


Vinicius de Moraes

terça-feira, julho 03, 2012

segunda-feira, julho 02, 2012


Se há coisa que acho «piegas» é à idolatria do «grande amor» destas duas almas dadivosas e humanitárias. A Fundação José Saramago lá teve o apoiozinho do Estado quando dinheiro não faltava a Saramago e a Pilar. Nada de surpreendente num homem que deve 717 mil de euros ao fisco de Espanha. O que me espanta é que esta «esquerda» tenha um preço para portugueses e outro para estrangeiros e que isso não seja motivo de escândalo. Como já não o foi o plágio de Saramago a Teófilo Huerta Moreno. http://saramagoplagiario.blogspot.pt/
Um Nobel, num país de parolos, tudo rasura. Os despedimentos políticos. A defesa de regimes totalitários. A comparação do Holocausto ao Estado de Israel actual. Pior do que a ideologia abjecta, só o oportunismo. O oportunismo ante Isabel da Nóbrega que o lançou no mundo editorial e cujo nome viria rancorosamente a mandar retirar de todos os livros com dedicatórias. O oportunismo da sua entrada para o PCP (ler o que Carlos Brito escreveu sobre o que Cunhal achava de Saramago). O oUm amigo meu de oitenta anos privou muito com Saramago e disse que no seu grupo todos ficaram espantados aquando da sua entrada no PCP «porque ele era tudo menos comunista». O oportunismo de Pilar, essa mulher que diz que o pai é uma figura medonha e sinistra (só pode estar a falar do pai dela, não percebendo a terrível generalização). Sim, o oportunismo de Pilar que deixou de ser qualquer outra coisa que não A MULHER DE SARAMAGO. Enfim, dois oportunistas, rancorosos - um com a família e outro com as agruras da vida - e sem qualquer mérito literário.

E - não esqueçamos - a dualidade do PCP. O tratamento de triunfo dos porcos. Todos eram iguais, mas só Saramago podia apelar ao voto no Soares pai, no Soares filho, no voto em branco nas europeias. Nenhum outro membro do PCP gozou de tal estatuto. Nenhum outro membro era Nobel.

Um jornalista que esteve com eles em Lanzarote disse-me em off que entre eles havia muita zanga e ruído. Para evitarem um escândalo, afastaram-se dele e ele pôde ler nos lábios de Saramago:
- Só queres é que eu morra depressa para ficares com a minha herança. Tu e os teus irmãos só querem é o meu dinheiro. ´Tou farto!





Mia Couto, o homem mais monoexpressivo e monocórdico (e um pouco anódino e neutrinho nas suas visões do mundo) que alguma vez vi, diz que se teve escola para escreve foi ouvir os outros. Talvez que a sua imaginação seja tão importante como a sua capacidade de escutar, designadamente os Moçambicanos.
Expressões deliciosas como «O carro dormiu fora» ou «O jornal ainda trabalha?» (no sentido de ainda tem actualidade?) ouviu-as e tomou-as de empréstimo, e, claro, deu-lhe uma plasticidade para criar muitas outras. Como aquela personagem que «sentou a insónia». Que prodígio.
O mundo é um palco, mas os actores são horríveis.

Oscar Wilde