terça-feira, julho 31, 2012

Estás quinze anos apaixonado por um escritor morto.
Lês tudo o que está traduzido no teu idioma.
Depois, encomendas tudo em português do Brasil.
A seguir, lês tudo o que escreveu no original.
Estás sempre à procura de algo que não tenhas.
O escritor escreveu cento e cinquenta contos. Procura-los todos.
Precisas de pagar uma fortuna uma colectânea gigante só porque tem um conto de três páginas que tu não tens.
Aquela peça de teatro que desapareceu - consegues ao fim de anos, resgatá-la.
(Nos interstícios em que as encomendas não chegam, vai relendo, relendo, relendo.)
A seguir, compras todas as cartas que foram publicadas dele.
Todas as entrevistas.
Todos os diários.
Todas as notas soltas.
Todos os textos publicados em revistas que não foram publicados em livro.
Esgotas tudo.
Só te resta acordares e receberes uma mensagem de alguém que sabe (como ninguém?) da tua paixão:

Que felicidade! É como um ente querido ressuscitar, aparecer no teu quarto e dizer «Olá» com um sorriso.

Claro que o título do inédito te parece a coisa mais maravilhosa do mundo.

Thank you for the light

Escrever, Publicar

Lobo Antunes esteve muito anos com vontade de reescrever os seus primeiros livros e rasurar os inúmeros adjectivos (Baptista-Bastos chamaria a Lobo Antunes «um armário de adjectivos») que utilizara. Bastantes anos mais tarde, afirmou numa entrevista que só deveria ter publicado a partir do décimo segundo livro.
Herberto Helder vem escrevendo poemas contínuos e súmulas, como que procurando rasurar o que não interessa - esta é a poesia que quero que fique, tudo desaguou nisto, o resto que se foda.
Tolstoi disse que tudo o que tinha escrito até então estava em Ana Karenina (posterior a Guerra e Paz!).
Walt Whitman escreveu doze versões de Leaves of Grass ao longo da vida.

Tolstoi, o imortal, aespacial, atemporal. Quem nunca sentiu isto?

«Eu era o causador de tudo e ao mesmo tempo não tinha culpa.»

http://www.guardian.co.uk/global/2010/jan/06/leo-tolstoy-greatest-writer

segunda-feira, julho 30, 2012

A segunda-feira é também o dia em que chegam as maravilhosas notícias. (E como isso faz a semana parecer mágica.)

domingo, julho 29, 2012

«A senhora parecera desmaiar, pois as mulheres deste género têm sempre lágrimas e desmaios à disposição [...]».

Uma Aventura Amorosa, Giacomo Casanova


sábado, julho 28, 2012

É a falta de cultura, estúpido!


Portugal tem hoje uma pequeníssima elite que consome cultura, quase toda velha e sem sucessores.
Nós merecemos isto. Nós elegemos esta gente. Nós não somos muito diferentes disto. No meio do anedotário que converteria um homem mais inteligente num homem trágico, convém não esquecer o que nos separa, exatamente, do Relvas. Pouco. O dito não é um espécime isolado, um pobre diabo animado de força e disposição para fazer negócios e trepar na vida, que entrou em associações e cambalachos, comprou um curso superior e, de um modo geral, se autoinstituiu em conselheiro do rei. Já vimos isto.
Nunca vimos isto nesta escala, porque na 25ª hora da tragédia nacional, quando Portugal se confronta com a humilhação da venda dos bens preciosos (os famosos ativos) aos colonizados de antanho e seus amigos chineses, o que o país tem para mostrar como elite é pouco. Nada distingue hoje a burguesia do proletariado. Consomem as mesmas revistas do coração, lêem a mesma má literatura (que passa por literatura), vêem a mesma televisão, comovem-se com as mesmas distrações. Uns são ricos, outros pobres.
A elite portuguesa nunca foi estelar, e entre a expulsão dos judeus e a perseguição aos jesuítas, dispersámos a inteligência e adotámos uma apatia interrompida por acasos históricos que geraram alguns estrangeirados ou exilados cultos permanentemente amargos e desesperados com a pátria (Eça, Sena) e alguns heróis isolados ou desconhecidos (Pessoa, 0′Neill).
Em “Memorial do Convento”, Saramago dá-nos um retrato da estupidez dos reis mas exalta romanticamente o povo. Todos os artistas comunistas o fizeram, num tempo em que o partido comunista tinha uma elite intelectual e de resistência inspirada por um chefe que, aos 80 anos, quase cego, resolveu traduzir Shakespeare. Cunhal traduzindo o “Rei Lear” de um lado, Relvas posando nas fotografias ao lado da bandeira do outro. Relvas nem personagem de Lobo Antunes, o (d)escritor da tristeza pós-colonial, chega a ser. É um subproduto de telenovela O tempo dos chefes cultos acabou, e se serve de consolação, não acabou apenas em Portugal.
A cultura de massas ganhou. No mundo pop, multimédia, inculto e narcisista, em que cada estúpido é o busto de si mesmo, a burguesia e o lúmpen distinguem-se na capacidade de fazer dinheiro. Acumular capital. O dinheiro, as discussões em volta do dinheiro acentuadas pela falta de dinheiro, fizeram do proletariado (e desse híbrido chamado classe média) uma massa informe de consumidores que votam. E que consomem democracia, os direitos fundamentais, como consomem televisão, pela imagem. Sócrates e o Armani, Passos Coelho e a voz de festival da canção. Nós, e quando digo nós digo o jornalismo na sua decadência e euforia suicidária, criámos estas criaturas. Os Relvas, os Seguros, os Passos Coelhos, os amigos deles.
O jornalismo, aterrorizado com a ideia de que a cultura é pesada e de que o mundo tem de ser leve, nivelou a inteligência e a memória pelo mais baixo denominador comum, na esteira das televisões generalistas. Nasceu o avatar da cultura de massas que dá pelo nome de light culfure em oposição à destrinça entre high e low. O artista trabalha para o ‘mercado’, tal como o jornalista, sujeito ao raring das audiências e dos comentários online.
A brigada iletrada, como lhe chama Martin Amis, venceu. Estão admirados? John Carlin, o sul-africano autor do livro que foi adaptado ao cinema por Clint Eastwood, “Invictus”, conta que Nelson Mandela e os homens do ANC, na prisão, discutiam acaloradamente, apaixonadamente, Shakespeare. Foram “Júlio César” ou “Macbeth”, “Hamlet” ou “Ricardo III” que os acompanharam. Não é um preciosismo. A literatura, o poder das palavras para descrever e incluir o mundo num sistema coerente de pensamento, é, como a filosofia e a história, tão importante como a física ou a álgebra. A grande mostra da Grã-Bretanha nos Jogos Olímpicos é Shakespeare (no British Museum) e não um dono de supermercados ou futebolista.
Os ‘heróis’ portugueses descrevem-nos. E descrevem a nossa ignorância. Passos Coelho é fotografado à entrada do La Féria ou do casino. Um dono de supermercados ou um esperto ministro reformado são os reservatórios do pensamento nacional. Uma artista plástica é incensada não pela obra mas pela capacidade de “agradar ao mercado”, transformando-se, pela manifesta ausência de candidatos, em artista oficial do regime. É assim.
Não teria de ser assim. Portugal tem hoje uma pequeníssima elite que consome cultura quase toda velha e sem sucessores. Não estamos sós. Por esse mundo fora, a arte tornou-se cópia e reprodução (daí a predominância dos grandes copiadores de coisas, os chineses), tornou-se matéria tornou-se consumo. Como bem disse Vargas Iiosa, em vez de discutirmos ideias discutimos comida. A gastronomia é uma nova filosofia. Ferran Adriá é o sucessor de Cervantes e de Ortega Y Gasset.”
 Clara  Ferreira Alves

sexta-feira, julho 27, 2012

Quem ama a literatura nunca lê as páginas dos «livros para o Verão» da imprensa.
O oportunista explicou-me: «As pessoas dizem que eu chego onde chego porque estou sempre a correr, a trepar, a galgar. Eu corro a uma velocidade normal. A questão não é que eu corro mais depressa - a questão é que eu corro antes
«Football is beatiful and I normally use a phrase to convey this message. Football gives you happiness, football makes you suffer, but football always gives you another chance [...]. There is joy, there is pain, but there is always another chance.»

Giovanni Trapattoni

quinta-feira, julho 26, 2012

A roda do hamster


Habituados a viver sob os ditames de todos os tipos de urgências, como se a velocidade pudesse por si só dar sentido ao trabalho e à vida, temos nas férias uma ocasião rara para nos libertarmos desta nova forma de tirania.
Sobretudo porque ela assenta na mais enganadora ilusão do bluff tecnológico dominante, que é a que nos garante que as novas tecnologias vieram para nos libertar das pressões do tempo.
E apesar de a experiência nos mostrar quotidianamente que é bem o contrário que acontece, e que, com a parafernália tecnológica que invadiu o nosso dia a dia, vivemos afinal com uma angústia cada vez maior de não ter tempo para nada, a propaganda lá continua, alimentada por um tão generalizado como paradoxal deslumbramento.
Também aqui o ultraliberalismo se impôs sem grande resistência, legitimando a supremacia do tempo do mercado, o do imediato, sobre todas as outras temporalidades. Uma supremacia que, de A. Smith a Hayek, ao colocar a urgência no lugar da esperança, apostou sempre em dispensar tanto a intencionalidade que caracteriza a ação pública, como a perspetivação do futuro que é indispensável aos projetos e às convicções coletivas.
Tudo isto com consequências muitas vezes tremendas, como aquelas para que a Newsweek chamava recentemente a atenção, num texto que merece uma leitura atenta, intitulado "Icrazy: panic, depression, psychosis - how connection addiction is rewiring our brains". Nesta peça, que mereceu um destaque de capa integral, enumeravam-se diversos estudos científicos feitos em várias prestigiadas universidades sobre as já apuradas consequências do vício das novas tecnologias, a que tão pouca atenção se presta.
Um só exemplo: o cérebro de um viciado na Internet transforma-se num cérebro análogo ao de um alcoólico ou de um drogado, com "reduções" de dez a vinte por cento na massa cinzenta responsável pelas funções da linguagem, da memória, do controlo motor, das emoções. A situação é tal que o DSM (The Diagnosos Statistical Manual of Mental Disorders) do próximo ano incluirá, pela primeira vez, a "Internet Addiction Disorder"...
O que tem acontecido é que nos sujeitamos cegamente à lógica da aceleração temporal, que partindo do domínio da técnica tomou conta de todas as áreas da vida, sejam elas a laboral, a social ou a pessoal. Em todas elas o nosso quotidiano é permanentemente atravessado por uma urgência que impõe os fluxos mais diversos, multiplicando as situações de dessincronização patológica entre várias atividades.
Com as consequências que se vão vendo, nomeadamente a nível subjetivo, seja no stress ou na depressão, na incapacidade de atenção ou de concentração. E generalizando o curto prazo como o único horizonte de sentido - ou melhor, da falta dele - da humanidade contemporânea.
E o "curto-termismo" traz com ele não só o impasse, mas também a irresponsabilidade. O impasse porque, sem tempo de médio ou longo prazo, não há projeto de vida individual ou coletiva que consiga vingar. E a irresponsabilidade, porque ele coloca todos os processos de deliberação sob a ditadura da celeridade e do instante, incapazes de dar atenção à complexidade dos problemas das sociedades contemporâneas. E assim se vive, como escreveu J.-L. Servan-Schreiber, como se nos deslocássemos de noite, num automóvel cuja velocidade aumenta à medida que o alcance dos faróis diminui.
É bom lembrar que a modernidade assentou num projeto de autonomia, entendida como a emancipação da humanidade de diversos constrangimentos: materiais, sociais e culturais. Ora o que hoje constatamos é, inversamente, a perda dessa autonomia. Como diz Hartmut Rosa, um dos mais perspicazes estudiosos do fenómeno da aceleração, o indivíduo submetido à lógica da aceleração é cada vez "menos senhor da sua própria vida. Esta não parece ter direção, não se vê que conduza a algum lado, tudo o que se faz é patinar a um ritmo desenfreado".
Como se, acrescenta ele numa metáfora que descreve inspiradamente bem a crise atual, "a roda motriz que fazia avançar e dava um sentimento de liberdade se tivesse tornado uma roda de hamster na qual giramos freneticamente sem sair do mesmo sítio".
É mesmo isso: faz exatamente hoje um ano que começou uma quinzena negra que marcou o verão de 2011, com as bolsas em queda e as dívidas espanhola e italiana sob enorme pressão, o que obrigaria o BCE a comprar mais de 180 mil milhões de dívidas soberanas. Um ano depois continuamos, como se vê, na mesma, a viver dias politicamente escaldantes numa Europa cada vez mais próxima do colapso, mas sempre a girar freneticamente no mesmo sítio, como um hamster na sua roda! Gastando, como ele, toda a sua energia nas rotinas cegas de um carrossel de ilusões.

Manuel Maria Carrilho

quarta-feira, julho 25, 2012

Condena-se o plágio de palavras. Condena-se o plágio da produção científica e artística. E nada mais.
Mas e se alguém plagiar outrem nas acções, na indumentária, nas escolhas na vida, se alguém imitar tudo-tudo o que o outro é e faz?

O que tem isto que ver com Cristo?

A Igreja tem dificuldade em admitir a contradição que é defender-se o direito à vida como direito fundamental (o argumento sempre brandido contra o aborto e, até, contra a eutanásia) e ter a sua figura máxima a defender a pena de morte. Bem pode ter lá escrito nos seus textos e encíclicas «em condições excepcionais». Quem admite «só para determinados casos» defende-a. E não há volta a dar-lhe. Ou ela está inscrita no ordenamento jurídico ou não está.

Será que Cristo diria: «Não matarás o teu próximo, mas se o fizerdes, mantei-o num cela durante muito tempo, vendo outros homens passarem na sua frente, semana após semanas, sabendo que o seu destino é fatalmente semelhante a esses e que um dia será transportado no mesmo corredor, sofrendo a mesma electrocussão sob o olhar de vários homens que não mostrarão o mais ínfimo ricto de piedade»?
Entre todas as patologias que conheci, nunca ainda:
a) gostar de ir às Finanças;
b) gostar de ir ao dentista;
c) gostar de fazer «mudanças».
Odor a mar e a menta
que ela tem entre os seios

Pablo Neruda
Alguns músicos que conheço avaliam a qualidade musical de uma canção de outros pelo tempo que demoraram a conseguir tocá-la. O virtuosismo técnico não é, evidentemente, tudo. Não estando ao serviço de algo, é apenas exibicionismo. Claro está que inúmeras músicas antológicas são fáceis de tocar. Mas isso não lhes retira um átomo de mérito. Como aquele crítico de arte que olhava para as telas de Miró e dizia: «Eu consigo fazer isto, a questão é que nunca me lembrei de fazer isto.»


sexta-feira, julho 20, 2012

Como é óbvio, a sinalização dos pedófilos era apenas o início.

«A castração química [dos pedófilos] não me repugna.»

Paula Teixeira da Cruz

quinta-feira, julho 19, 2012

Não se deve usar a palavra «nazi» com ligeireza, mas que há ressonâncias há


Educação e deficiência: uma sentença justa contra uma medida injusta

Perante as notícias sobre a deliberação do Tribunal Administrativo e Fiscal de Braga, relativamente à realização provas de exames a nível de escola pelos alunos com necessidades educativas especiais, referido em textos anteriores, divulgo um artigo de opinião, publicado no jornal Público, em suporte de papel, do Eurodeputado Paulo Rangel.

É fundamental que se repense a ideia de que não deve haver exames adaptados aos alunos com necessidades especiais

1- Muitas vezes tenho dito o quanto aprecio a política educativa do Governo e, em especial, a liderança conhecedora, firme e realista do ministro Nuno Crato. Em questões localizadas, porém, o efeito automático de decisões administrativas do Ministério da Educação tem-se revelado fonte de graves injustiças. É o caso, de sobremaneira chocante, da submissão dos alunos com necessidades especiais – em particular, com deficiências cognitivas – ao modelo único de exames nacionais (sem qualquer consideração pela sua situação concreta).
De há muito, contra ventos e marés, que defendo um aumento gradual, mas sensível, do rigor e exigência no ensino. De há muito que preconizo a actual linha política de generalizar a prática da avaliação também por exames. Só um ensino rigoroso e exigente pode promover a inclusão, a igualdade de oportunidades e a mobilidade social. O laxismo e o facilitismo acabam sempre por se revelar como mecanismos de reprodução das desigualdades sociais.

2. Mas a defesa de uma certa “padronização” e “homogeneização” de procedimentos, decerto ditada pelo reforço da exigência, não pode pôr em causa os direitos dos alunos com deficiência. As crianças e adolescentes com necessidades especiais têm direito ao ensino e ao desenvolvimento da sua personalidade – direitos fundamentais garantidos pela Constituição. Sabemos que as deficiências, físicas e cognitivas, são as mais diversas e requerem respostas muito diferenciadas. Sabemos que o grau de certas deficiências, especialmente cognitivas, obriga mesmo a um ensino especial, já fora do sistema geral.
Mas grande parte das deficiências cognitivas – e a fatia de leão das deficiências físicas – é perfeitamente compatível com o sistema geral de ensino, desde que efetuadas adaptações. E é também sabido que o grau de progresso educativo e de realização pessoal destes alunos é tanto maior quanto mais estejam integrados no dito sistema geral. De resto, para todos os estudantes, a presença nas turmas de colegas com necessidades especiais é uma experiência humana e pedagógica altamente formativa – algo que, portanto, mesmo com custos e desvantagens, o Estado e os pais em geral devem fomentar.

3. Uma parcela dos alunos com deficiência, já integrados no sistema geral de ensino, desenvolve os seus estudos no quadro de um “programa educativo individual”. Programa que se traduz, desde logo, numa adaptação às suas capacidades e ao seu historial das metas curriculares de cada disciplina e dos processos de avaliação. Definido esse programa no contexto escolar e homologado pela entidade competente, o aluno é geralmente isento de exames nacionais e as suas provas de exame, que carecem de adaptação, são integralmente realizadas ao nível da escola.
Contra todas as expectativas, foi emanado, já em Abril, um despacho normativo que passou a sujeitar estes alunos, que frequentassem o 4.º e o 6.º anos, aos exames nacionais. Excecionou, e só para este ano lectivo, os alunos que frequentassem o 9.º ano, assim introduzindo uma discriminação injustificável entre o 9.º ano e o 4.º e 6.º anos. Nos 4.º e 6.º anos, foram ressalvadas algumas deficiências físicas graves, mas não as cognitivas. E as exceções previstas, aparentemente, vigoram para este ano, mas não valerão daqui em diante…

4. Perante uma tão flagrante injustiça, um aluno com necessidades especiais e seus pais interpuseram uma intimação para proteção de direitos, liberdades e garantias – que é uma ação urgente, raras vezes bem sucedida nos nossos tribunais. A sentença, justa e digna, representa um grande passo no reconhecimento dos direitos fundamentais aos cidadãos com deficiência. Considera que aquele despacho é inconstitucional porque viola o direito ao ensino – enquanto direito análogo a direitos, liberdades e garantias –, viola a proteção da confiança (altera as regras a meio do jogo) e viola o princípio da igualdade (alunos em situações idênticas têm direitos que outros não têm). Vou mais longe ainda: por detrás da conceção que inspira uma sentença tão lapidar, está a admissão de que esse despacho “nivelador” rasga o direito ao livre desenvolvimento da personalidade e à proteção legal contra a discriminação. 
É fundamental que o Ministério da Educação – em lugar de entrar na espiral de recursos, useira e vezeira na nossa praxe administrativa – execute esta sentença e tire dela todas as consequências. É fundamental que repense a ideia, aparentemente em voga, de que não deve haver exames adaptados a cada aluno com necessidades especiais. É, aliás, importante que acompanhe a aplicação dos programas individuais e a feitura dos respetivos exames, para garantir que, no nível adequado, a exigência também se estende aos alunos com deficiência. Com tantos professores com “horário-zero”, não será seguramente difícil, de futuro, contemplar as situações das crianças com necessidades educativas particulares…

5. Tive conhecimento desta sentença porque a dita intimação foi proposta em tribunal por dois colegas meus. Ao contrário do que, por lapso, no sábado dizia este jornal, não patrocinei esta acção nem intervim nela. Mas tive, de facto, conhecimento da mesma e do seu resultado pelo exemplo extraordinário dos pais deste adolescente e dos seus advogados, com quem partilho a profissão há vários anos. Não se vergaram ao conformismo, à inércia e ao desânimo. E tendo tido conhecimento desta jurisprudência, não posso calar a minha indignação e a minha alegria. Nenhuma política de exigência implica o distanciamento dos cidadãos com deficiência. Eles fazem parte da nossa vida, do nosso mundo e da nossa escola e tornam a vida, o mundo e a escola melhores e mais humanos do que seriam sem eles.

Paulo Rangel
Nos dias de hoje, «pragmático» quer dizer «oportunista».

Garcia Pereira

Nem de propósito, ela disse

http://internacional.elpais.com/internacional/2012/07/18/actualidad/1342639254_939819.html

quarta-feira, julho 18, 2012

Sócrates procurava a Verdade e a Virtude e foi condenado à por morte por envenenamento.
Séneca, o estóico, cortou os pulsos na presença dos amigos e morreu num lago de sangue.
Cristo, o revolucionário, morreu crucifixado.
Galileu, na sua demanda pela Verdade, foi condenado pelo Santo Ofício.
Lincoln foi assassinado.
Gandhi foi assassinado.
Luther King foi assassinado.
Aquele que escreveu e cantou Imagine foi assassinado.
Kennedy combateu a máfia e levou com uma bala nos cornos.
Olof Palme, o homem do Estado Social, foi assassinado à saída do cinema e a sua mulher igualmente baleada.
Giovanni Falcone combateu a máfia como ninguém e morreu no carro que explodiu. Paolo Borsellino era o seu braço direito. Morreria também dois meses mais tarde vítima de explosão.


So you wanna change the world?