«O que se busca é uma via»
Estou a revisitar os livros de André Malraux. Tenho de admitir, hoje, que a minha geração foi injusta e cáustica para o imenso escritor. O factor político determinou (sem explicar) o sentimento crítico. Tudo, agora, parece obsoleto. Aquela época foi fértil em contradições e a virulência saiu das baias morais e intelectuais para se transformar num ódio lamacento. As coisas talvez tivessem acalmado e os ajustes começaram. Tive grandes discussões com companheiros e camaradas meus. Líamos tudo e tudo contrariávamos. Possuo uma biblioteca imensa, porque aqueles tempos não permitiam atrasos. E tive a sorte de conviver com os maiores escritores, actores, artistas e cineastas portugueses da época. A idade da formação e do cimentar das convicções ética e ideológicas foi aí.
Os meus adversários na altura liam os mesmos livros que eu. O conceito de conhecimento não se coaduna com exclusões. Do comunista Aragon ao fascista Robert Brasilach, de Knut Hamsun a Ernst Junger, passando pelos grandes americanos, e, naturalmente, pela leitura da Bíblia, tudo passou pela minha curiosidade ardente. Sou um produto dessa gente toda. E de António Vieira, sempre folheado com mão diurna e mão nocturna. E mais do Camilo do que do Eça, devo dizê-lo.
A solidariedade e a fraternidade não estavam desempregadas. E o niilismo parecia estar removido para sempre. Não estava. O regresso do niilismo manifesta-se todos os dias e acentua os nossos pesares. Não importa se continuo na mesma luta; na mesma, não: em luta semelhante. Mas tenho pena de que as coisas estejam como estão. O abandono da grandeza de espírito, o esquecimento do grande monumento à humanidade e erguido pela humanidade, o desprezo pelas emoções e pela compaixão doem, e doem profundamente. Mas creio que nem tudo está perdido, apesar de assistir ao desespero dos mais novos e à negligência de muitos dos mais velhos.
"O mundo será religioso, ou não será", li em Malraux; e por isso tenho voltado a ele. O religioso como princípio de decência e estorvo ao niilismo, queria ele dizer. Recapitulando, afinal o que Dostoievski fez dizer ao mais velho dos irmão Karamazov: "Se Deus não existe tudo é permitido." Uma frase terrível no seu imperioso desígnio, que podemos aplicar, sem hesitações, à época e à inexistência de moral em que vivemos.
Ouvimos e lemos o que dizem e fazem os dirigentes europeus, e procedemos, instintivamente, a comparações. Depois, assistimos aos desaforos de miniaturas de gente, insultando e injuriando quase todos aqueles que abriram caminhos na História. Sei muito bem o que o Eclesiastes ensina: "Uma geração vem, uma geração vai…." Não se estuda, não se reflecte, não se abre uma pausa para meditar e ponderar. A exclusão e o apagamento reanimaram com esta nova ordem. Há dias, um preopinante, que escarmentei noutro local, caluniava o bispo das Forças Armadas, D. Januário Torgal Ferreira, por este dizer em público o que a maioria das pessoas diz em privado: este governo é constituído por gente desavinda com a integridade e com a competência. Poucas semanas depois, o prelado foi punido, ele disse: "linchado" na reforma, por delito de opinião.
Não é estalinismo, este método persecutório: tem origem na semente fascista, caracterizada e cauterizada pelo bispo. E que está aí, a florescer sem obstáculo, e notoriamente apoiada e estimulada um pouco por todo o lado, Portugal incluído. Não se defende a democracia como um todo, toleram-na como um meio. Quando ouço alguns políticos soletrar a palavra, penso que a maldição bíblica devia cair-lhe em cima e a boca encher-se-lhe de…
Desprovidos de experiência, apoiados pelo entusiasmo que o dislate cavaquista. A teoria da amnésia histórica é velha. Retornou, há anos, com o dr. Cavaco, quando, sem consciência do que provocava, incitou os mais novos a recusar referências e a construir os seus próprios passos. O turbilhão que se seguiu é conhecido. Derivaram em fazer saneamentos e em afastar velhos profissionais de todas as artes e ofícios. Está por fazer a história desse período sombrio. Sustentado pelos grandes grupos económicos, o cavaquismo não tinha deus nem fé, somente a permissão para fazer tudo quanto lhe apetecesse.
Apesar de as sombras negras pairarem por grande parte da Europa, apesar de tudo aparentar estar perdido, recorro a Manuel Alegre, que nos diz em "Nada está escrito": "Não é possível tornar semelhantes / as coisas que são incompatíveis. / O que se busca é uma via / tudo o mais é indecifrável."
Baptista-Bastos
sexta-feira, junho 15, 2012
Para os néscios que achavam que proibir o fumo em automóveis privados com crianças não abriria um perigosíssimo precedente
Ministério da Saúde quer inspeções às casas com bebés

A Direcção Geral de Saúde quer ir a casa de crianças até 4 anos para avaliar risco de acidente revela hoje o jornal i. A medida do Plano de Acção para a Segurança Infantil, em discussão pública, arrancará com projectos-piloto em alguns centros de saúde
Segundo o jornal i a Direção Geral da Saúde quer melhorar a prevenção de acidentes domésticos com crianças pequenas indo a casa das famílias avaliar o risco, ao mesmo tempo que sensibiliza os pais. Ver onde são guardados os medicamentos e os detergentes, como se protegem janelas e varandas ou que medidas são tomadas para evitar o risco de afogamento são alguns aspectos das projetadas visitas domiciliárias nos primeiros quatro anos de vida "para avaliação de risco de acidente em ambiente doméstico e educação para a saúde/segurança".
quinta-feira, junho 14, 2012
« [...] of all natural forces, vitality is the incommunicable one. In days when juice came into one as an article without duty, one tried to distribute it – but always without success; to further mix metaphors, vitality never “takes.” You have it or you haven’t it, like health or brown eyes or honor or a baritone voice. I might have asked some of it from her, neatly wrapped and ready for home cooking and digestion, but I could never have got it – not if I’d waited around for a thousand hours with the tin cup of self-pity. I could walk from her door, holding myself carefully like cracked crockery, and go away into the world of bitterness, where I was making a home with such materials as are found there – and quote to myself after I left her door:
“Ye are the salt of the earth. But if the salt hath lost its savour, wherewith shall it be salted?” Matthew 5-13.»
Ibidem
A finitude de algo não tem o seu lado mais dramático no início obnubilado e estranho em que parece que nada de grave se passou
Of course all life is a process of breaking down, but the blows that do the dramatic side of the work - the big sudden blows that come, or seem to come, from outside - the ones you remember and blame things on and, in moments of weakness, tell your friends about, don’t show their effect all at once. There is another sort of blow that comes from within - that you don’t feel until it’s too late to do anything about it, until you realize with finality that in some regard you will never be as good a man again. The first sort of breakage seems to happen quick - the second kind happens almost without your knowing it but is realized suddenly indeed.
Idem
Solipsismo de um advogado
- Angel, nunca conheci um homem sem uma réstia de coração. A minha experiência nas cadeias com os piores presos, com os chamados monstros, isto não é ideologia rousseauniana, é a realidade sem lentes, pude ver que qualquer ser humano que é capaz das maiores vilezas, das maiores patifarias é capaz das maiores benfeitorias. Às vezes, o crime é fruto de uma sinapse que a própria pessoa nem sabe como aconteceu. Um tipo pacífico, boa pessoa, um dia, no trânsito, deu um tiro a outro e deitou as mãos à cabeça: «O que é que eu acabei de fazer, meu Deus!» Procurou socorrê-lo imediatamente, mas de nada lhe serviu. Foram cinco segundos em que ele não sabe o que aconteceu. Falei horas e horas com os piores bandidos. As histórias terríveis - quem seria eu no lugar deles, interrogo-me muitas vezes à noite? Quantos ladrões conheci que tiveram de roubar para sustentar os seus, velhinhas sem dinheiro para medicamentos. Os pedófilos que estavam genuinamente convictos de fazer bem aos objectos do seu amor e que não conseguiam conter a compulsão. Crimes de ciúmes que eu compreendia, crimes de ódio acumulado, de rancor e ressentimento acumulado que eu ouvia e pensava: claro, claro. Quando vejo um filho dar um estalo à mãe ou a mãe dar um estalo ao filho, ou o professor ao aluno ou o aluno ao professor, ou o trabalhador ao patrão ou o patrão ao trabalhador, ou o polícia ao pobre ou o pobre ao polícia, eu nunca julgo. O que é está por trás daquele estalo? Pode haver milhares de acções, palavras, omissões até, acumuladas do outro lado. A acção primária, directa, palpável pode ser infinitamente mais branda do que a violência indirecta, manipulativa, opressiva, psicológica, omnipresente do outro lado. Eu não julgo ninguém. Não tenho informação para isso - ninguém tem. É esse o cruzamento do só sei que nada sei de Sócrates com o não julgueis e não sereis julgados de Cristo. Compreendo o assassino, o pedófilo, o ladrão, o proxeneta, só não compreendo o sabujo e o corrupto. Compreendo-o, mas alguém em mim resiste a aceitá-lo.
Ela é muito boa pessoa. Ele é muito boa pessoa. Mas eles têm noções de Ética muito diferentes. Têm noções de regras de relação com o Outro muito diferentes. Ela é de esquerda. Ele é de esquerda. Mas têm conceitos muito diferentes do que é ser de esquerda e de como se deve intervir na sociedade para modificar as coisas. Do que é a Justiça. A Verdade. A Metafísica. Ela guarda e acumula. Ele explode e liberta. Ela vai mais longe do que ele - na ternura e no ódio. Ela prefere a intensidade do sentimento. Ele prefere a durabilidade do sentimento. Numa relação, o afinar de linguagens pode demorar muito tempo - e no entretanto os erróneos juízes de carácter sucedem. Com paciência, acrisolam-se as almas, olha-se para trás um dia e sorri-se.
quarta-feira, junho 13, 2012
A curiosa história de Leonard Woolf
Filho de uma família numerosa de dez irmãos, viveu a morte prematura do pai aos onze anos. Dedicado e meticuloso, conseguiu ser um aluno exímio. Aos 24 anos, tornou-se cadete e teve uma progressão rápida chegando a administrador de um distrito no Ceilão, uma colónia inglesa. A sua posição contra o Império Britânico levou-o a sair ao fim de sete anos para ser casar aos trinta anos com Virgina Woolf, uma mulher com acessos de loucura e de exaustão e uma propensão para o suicídio. Abusada pelo meio-irmão, sexualmente retraída e carregada de fantasmas, Virginia não era uma mulher completa (a sua relação é descrita como «meio amantes, meio amigos») para Leonard, que tinha uma relação paternal e maternal, ora crua ora terna, para amparar Virginia. No meio deste caos mental, Leonard sempre conseguiu escrever sobre o seu activismo político e exercer o seu papel cívico, enquanto «cuidava» de Virginia, e ainda manter um diário em que todos os dias anotava as suas refeições diárias e a quilometragem percorrida pelo seu automóvel.
Ainda que fosse o suporte de Virginia de acordo com os seus biógrafos, Leonard vivia profundos conflitos internos enquanto procurava a todo o custo manter a fachada de sustentáculo da mulher e de prolífico escritor e activista, tendo até fundado uma editora que publicaria, entre outros, T. S. Eliot. A sua hostilidade ao imperialismo e à guerra levaram-no a manter reservas de gasolina para se gasear até à morte no caso de a Inglaterra ser invadida pela tropa alemã. Em 1941, cansada da sua loucura, cansada de ser um peso para o marido, Virginia Woolf encheu os bolsos de pedras e atirou-se ao rio, deixando uma carta de suicídio em que dizia: «Tenho a certeza de estar ficando louca novamente. [...] Começo a escutar vozes e não consigo concentrar-me. Deste-me muitas possibilidades de ser feliz. Estiveste presente como nenhum outro. Não creio que duas pessoas possam ser felizes com esta doença terrível. Não posso lutar mais. Sei que estarei tirando um peso das tuas costas, pois, sem mim, poderás trabalhar. E vais, eu sei. [...] Sempre foste paciente comigo e verdadeiramente bom. [...] Se alguém me pudesse salvar, esse alguém serias tu. Tudo se foi para mim, mas o que ficará é a certeza da tua bondade. Não posso atrapalhar a tua vida.»
Ainda após a morte da mulher, Leonard Woolf escreveria cinco volumes autobiográficos. Mas o mais curioso de tudo é que nos seus diários, segundo a biógrafa que a eles teve acesso, não há um único dia em que não estejam anotadas as refeições e o número de quilómetros percorridos - NEM NO DIA DO SUICÍDIO DA ESCRITORA!
Seria essa forma de introdução de ordem na superfície das coisas uma forma de fuga à desordem emocional que lhe provocaram as suas atribulações da morte do pai, da desilusão em Ceilão, da exaustão emocional que lhe causou ter tentado tudo e não conseguir evitar o suicídio da mulher enquanto trabalhava como escritor e activista de forma frenética?
Mais curioso ainda é que o seu diário de notas estava imaculado - apenas uma única pequena e quase imperceptível mancha castanho-amarelada estava no dia do suicídio de Virginia Woolf. Mancha essa que terá tentando remover segundo a biógrafa que estudou os seus diários.
Os nervos de aço terão cedido nesse momento e uma mancha, «de chá, de café, ou de uma lágrima» tombaram no caderno imaculado que ainda assim foi capaz de registar o que comera nesse dia e quantos quilómetros percorrera. Um homem obsessivo-compulsivo que, perante o tremelicar de uma chávena ou uma lágrima que não pôde conter, ainda tentou expeditivamente rasurar a manchinha.
terça-feira, junho 12, 2012
segunda-feira, junho 11, 2012
domingo, junho 10, 2012
Ninguém é tão ofensivo como um escritor a falar de outro escritor
«War and Peace is [one of thoses] large loose baggy monsters.» «Tolstoy is a reflector as vast as a natural lake; a monster harnessed to his great subject—all human life!»
Henry James
sábado, junho 09, 2012
Porque erradamente sempre se apresentou estoicismo e epicurismo como antagonistas
A verdadeira riqueza não consiste em ter grandes posses, mas em ter poucas necessidades.
Epicuro
Epicuro
quinta-feira, junho 07, 2012
quarta-feira, junho 06, 2012
5.13 insónia
nenhum som
nenhum automóvel de faróis acesos na estrada
(nunca mais nenhum automóvel de faróis acesos na estrada)
a árvore de folhas inexpressivas
estátuas, espelhos partidos
tudo são estátuas e espelhos partidos
o cigarro acende-se
o que é feito da sofia?
o cigarro esmaga-se contra o cinzeiro
o corpo não aguenta mais toxicidade
o livro abre-se
atira-se para bem longe
o cérebro é uma folha de jornal amarrotada
o que é feito do andré?
despejar o cinzeiro
ensacar o lixo
pensar no que fazer às garrafas vazias
deixá-los estar
à noite, eles são dotados de vida
e qualquer acção é inútil
irremediavelmente inútil na hora lúcida da insónia
pensar no que fazer às garrafas vazias
deixá-los estar
à noite, eles são dotados de vida
e qualquer acção é inútil
irremediavelmente inútil na hora lúcida da insónia
como se chamava aquele tipo com quem passavas férias no Verão
de há vinte anos
(ainda foram alguns Verões)
havia uma canção nessa altura
devia ser outra pessoa
era outra pessoa, certamente
havia uma canção nessa altura
devia ser outra pessoa
era outra pessoa, certamente
o mundo achata os diferentes
condena-os ao hospício
à insónia
ao suicídio
ou
pior do que isso
:
à integração.
pior do que isso
:
à integração.
terça-feira, junho 05, 2012
segunda-feira, junho 04, 2012
my sweet old etcetera
aunt lucy during the recent
aunt lucy during the recent
war could and what
is more did tell you just
what everybody was fighting
is more did tell you just
what everybody was fighting
for,
my sister
my sister
Isabel created hundreds
(and
hundreds)of socks not to
mention fleaproof earwarmers
etcetera wristers etcetera, my
mother hoped that
(and
hundreds)of socks not to
mention fleaproof earwarmers
etcetera wristers etcetera, my
mother hoped that
i would die etcetera
bravely of course my father used
to become hoarse talking about how it was
a privilege and if only he
could meanwhile my
bravely of course my father used
to become hoarse talking about how it was
a privilege and if only he
could meanwhile my
self etcetera lay quietly
in the deep mud et
in the deep mud et
cetera
(dreaming,
et
cetera, of
Your smile
eyes knees and of your Etcetera)
(dreaming,
et
cetera, of
Your smile
eyes knees and of your Etcetera)
e. e. cummings
plato told
him:he couldn’t
believe it(jesus
believe it(jesus
told him;he
wouldn’t believe
it)lao
wouldn’t believe
it)lao
tsze
certainly told
him,and general
(yes
certainly told
him,and general
(yes
mam)
sherman;
and even
(believe it
or
sherman;
and even
(believe it
or
not)you
told him:i told
him;we told him
(he didn’t believe it,no
told him:i told
him;we told him
(he didn’t believe it,no
sir)it took
a nipponized bit of
the old sixth
a nipponized bit of
the old sixth
avenue
el;in the top of his head:to tell
el;in the top of his head:to tell
him
e. e. cummings
domingo, junho 03, 2012
Ele viveu onze anos a pensar no processo que tinha em tribunal. Onze anos. Não havia um dia em que a sua cabeça não pensasse no processo - o superior objectivo, o superior interesse. Tudo se lhe sacrificava. Enquanto não acabar o processo, não - dizia a quase tudo. Isso sobrepunha-se a relações afectivas, familiares, de amizade, à sua própria saúde. Perdeu cabelo, ganhou rugas, nos convívios só conseguia falar do processo. Contente quando havia coisas positivas do processo, triste quando havia coisas negativas do processo. Quando estava tenso, davam-lhe uma palmadinha. «Estás a pensar no processo?» «Em que é que havia de estar a pensar?» Nem era possível imaginar como seria ele depois da sentença final do mesmo - porque o processo não era uma questão de vida ou de morte; era muito mais do que isso. O processo chegou ao fim. Ele ganhou, mas ficou vazio. O meio tornara-se num fim em si mesmo. A angústia, a ansiedade, o entusiasmo, a efervescência da coisa morriam para sempre. Em que pensaria agora ao deitar e ao acordar? O que o faria calçar os sapatos de manhã? O que preencheria agora o espaço vazio dos continentes da sua alma?
Ele começou uma carreia no kick boxing. Namorava uma amiga minha. Na primeira vez em que falámos, ele falou de um Cássio. Que precisava de ganhar peso para chegar à sua categoria. Viveu anos e anos com derrotas e vitórias, perda de dentes, e, num dia, após uma vitória importante, mostrou-se pouco satisfeito. «Enquanto não derrotar o Cássio...» Chegou ao peso dele e derrotou-o. Parece que nada extraordinário sobreveio desse milagre.
Nos seus diários, Tolstoi dizia que viveu a vida toda a tentar superar Shakespeare. Superei-o, dizia em idade tardia. Acrescentava: E agora?
Ele começou uma carreia no kick boxing. Namorava uma amiga minha. Na primeira vez em que falámos, ele falou de um Cássio. Que precisava de ganhar peso para chegar à sua categoria. Viveu anos e anos com derrotas e vitórias, perda de dentes, e, num dia, após uma vitória importante, mostrou-se pouco satisfeito. «Enquanto não derrotar o Cássio...» Chegou ao peso dele e derrotou-o. Parece que nada extraordinário sobreveio desse milagre.
Nos seus diários, Tolstoi dizia que viveu a vida toda a tentar superar Shakespeare. Superei-o, dizia em idade tardia. Acrescentava: E agora?
Numa noite etílica, ele falou-me da morte do irmão.
- Ele caiu da janela e eu tentei ampará-lo, não consegui, passei dez anos a pensar se não fui algo cobarde e se não o poderia ter evitado. Quando ele morreu, eu morri também. Fiquei dois anos fechado num quarto, sem trabalhar, a pensar se poderia de alguma forma terminar a vida fazendo um balanço feliz. Entretanto, ia prejudicando os meus alunos e familiares. Achei que a vida não fazia sentido porque não poderia acabá-la com a sensação de ter sido... só se salvasse duas vidas. Mas era o meu irmão. Eu morri naquela queda. Sou um cadáver com um copo permanentemente na mão.
- Ele caiu da janela e eu tentei ampará-lo, não consegui, passei dez anos a pensar se não fui algo cobarde e se não o poderia ter evitado. Quando ele morreu, eu morri também. Fiquei dois anos fechado num quarto, sem trabalhar, a pensar se poderia de alguma forma terminar a vida fazendo um balanço feliz. Entretanto, ia prejudicando os meus alunos e familiares. Achei que a vida não fazia sentido porque não poderia acabá-la com a sensação de ter sido... só se salvasse duas vidas. Mas era o meu irmão. Eu morri naquela queda. Sou um cadáver com um copo permanentemente na mão.
Da extrema-direita, e do incendiar da guerra miseráveis contra esfaimados.
A dimensão histórica perdeu-se e a prospectiva do futuro cruzando as referências do passado e erigindo padrões não se compadece com artigos curtos nos jornais. As longas reportagens, em forma de ensaio, não interessam, não vendem e por isso não se publicam. Ando zangado com esta merda.
Entrever, prospectivar é difícil nesta época imprevisível, mas há padrões do passado que podíamos conhecer.
Porque é que os pobres cada vez mais pobres não se rebeliam contra esta (des)ordem social?
Em vez de diabolizar a direita e a extrema-direita, a esquerda devia procurar responder-se porque nunca sempre deixou fugir historicamente a sua base social de apoio para a direita, nomeadamente a extrema-direita.
Porque é que Hitler (que tinha no nome do seu partido a palavra «socialista») teve a base de apoio dos operários e dos desempregados? Habilmente, Hitler dizia que o varredor de ruas alemão era mais importante do que o Presidente da República e o professor universitário estrangeiro.
Porque é que os partidos de extrema-direita ainda hoje, veja-se França, têm o voto dos mais pobres? Foi sempre assim. Dividir os pobres dos miseráveis para reinar. Paulo Portas faz o mesmo, instigando os beneficiários do Rendimento Social de Inserção contra os imigrantes e particularmente os Ciganos.
Porque é que Carvalho da Silva diz que hoje o maior inimigo dos trabalhadores é a ideia do vestir a camisola? Porque se perdeu a solidariedade entre trabalhadores, se a corroeu instalando a ideia de que tenho-é-de-dar-o-máximo-pela-minha-empresa-para-esta-não-falir-e-eu-não-perder-o-meu-posto.
Porque é os motoristas da Carris e os taxistas detestam estrangeiro e pobres, eles que não são ricos? Porque são eles que põem em perigo a sua segurança.
Porque é que a direita manhosamente quando se fala nas condições dos presos, diz que está preocupada é com o velhos que não têm pensões. Porque precisa de agarrar numa base social de baixo para se ancorar, e a forma que encontra sempre é arranjar outro grupo de fracos para diabolizar. Como agora a do FMI com as criancinhas da Nigéria contra os Gregos.
Porque é que há esta demonização dos funcionários públicos? Para que o trabalhador deixe de ser um conceito uno e para que os dos privados estejam contra os do público.
Porque é que não há sindicatos de desempregados?
Porque é que há tantas lutas entre etnias diferentes em bairros sociais?
Porque é que a extrema-direita recrutava o lumpemproletarido para as suas milícias?
Porque é o pequeno proprietário rural era o maior inimigo do bolchevismo? Porque o seu contíguo era o mero assalariado rural.
Porque é Marx dizia que até o capitalista compreendia que o mínimo dos mínimos tinha de ser dado ao trabalhador para não garantir a revolta?
Porque é que Cavaco gosta tantos das IPSS? Porque sabe que sem elas a revolta social poderia ser possível - elas cumprem o papel a que o Estado se escapou, precavendo os motins.
A história repete-se, dizia o outro, primeiro como tragédia e depois como farsa.
Verticalidade
Ele perguntou-me o que eu verdadeiramente admirava no Outro. A raríssima espécie de homem e de mulher que têm princípios de que não abdica. Lembro-me de no secundário de todos terem combinado boicotar o teste da professora de Geografia (que ministrava uma em cada quatro aulas e dada a nepotismos na avaliação). Todos combinaram que não fariam o teste. Claro, mal começou a aula, os graxistas de serviço (a começar pelo Correia, o mentor do boicote) tinham estudado a matéria e começaram a preencher a folha de teste. Lembro-me de naquela empresa muitos dizerem que seriam solidários com o despedimento injusto do colega - chegou o julgamento e nenhum deles apareceu a testemunhar contra a empresa. Sei de um sítio pejado de ilegalidades. Todos os que lá trabalham passam a tarde a queixar-se. Milhares de horas perdidas na lamúria inconsequente - e ninguém faz nada. Uma presidente de junta é corrupta, os que têm provas lamentam-se, protestam, vociferam - mas não as apresentam, mas nada fazem para denunciar o polvo. Uma biblioteca municipal de luxo fecha - todos se revoltam em conversas de elevador; mas nada mais do que isso. Faz-me lembrar uma estada em Londres. Dois encurvados mentais a queixar-se de um buraco na estrada nevada, a vergonha que era, o estado das estradas, os autarcas, os políticos, os cidadãos que nada faziam. Um tipo ao lado da mesa, farto da conversa dos marretas, foi lá com o pé e tapou o buraco com a tampa que se tinha soltado e que estava a três metros. Olhou para eles e disse sem palavras: «E se fizessem isto»?
Um conhecido meu que emigrou para um país com Estado cleptomaníaco disse-me que quem tenta resistir à corrupção acaba por ser apontado ao povo como ladrão. Esses que resistem, que não se importam com a imagem pública, são talvez os únicos heróis.
E eu senti
Uma presença que me perturba
com a alegria
De elevados pensamentos;
um sentido sublime
De algo mais profundamente entremesclado,
Cuja moradia é a luz dos poentes
E o redondo oceano
e o ar vivo.
E o céu azul,
E na mente do homem:
Um movimento e um espírito
que impelem
Todas as coisas que pensam,
todos os objetos de todo o pensamento,
E que rola através de todas as coisas.
William Wordsworth
Basta estar atento ao sinais. Erradamente chamam-me perspicaz. Tenho raciocínio lento. Sou apenas um observador que deixa escapar pouco, auxiliado por uma boa memória.
1. Não era difícil perceber que eles os dois estavam juntos quando sempre, fora de horas, quando ia ao gmail só estavam os dois lá - sempre os dois sempre concomitantemente.
2. Não era difícil perceber que ele vendia droga. Sem gatos, semanalmente, vi-o transportar sacos de comida para gato cobertos de fita adesiva.
3. Não era difícil perceber que ela já não namorava, outrora os e-mails nunca vinham em reply. Outrora, ela apagava e escrevia um novo (que certamente apagaria também) com medo de ser apanhada. Quando começou a ver a longa cadeia de e-mails, ela garantidamente voltara a ser uma pessoa singular.
4. Não era difícil perceber que ele tivera problemas com álcool se numa noite bebia sete, oito cervejas sem álcool.
5. Não era difícil perceber que ela ia vomitar o que comia - ia sempre à casa de banho após as refeições, puxando o autoclismo ao entrar para abafar o som.
6. Não era difícil perceber que ele tinha medo de elevadores. Perguntava sempre em que andar era.
1. Não era difícil perceber que eles os dois estavam juntos quando sempre, fora de horas, quando ia ao gmail só estavam os dois lá - sempre os dois sempre concomitantemente.
2. Não era difícil perceber que ele vendia droga. Sem gatos, semanalmente, vi-o transportar sacos de comida para gato cobertos de fita adesiva.
3. Não era difícil perceber que ela já não namorava, outrora os e-mails nunca vinham em reply. Outrora, ela apagava e escrevia um novo (que certamente apagaria também) com medo de ser apanhada. Quando começou a ver a longa cadeia de e-mails, ela garantidamente voltara a ser uma pessoa singular.
4. Não era difícil perceber que ele tivera problemas com álcool se numa noite bebia sete, oito cervejas sem álcool.
5. Não era difícil perceber que ela ia vomitar o que comia - ia sempre à casa de banho após as refeições, puxando o autoclismo ao entrar para abafar o som.
6. Não era difícil perceber que ele tinha medo de elevadores. Perguntava sempre em que andar era.
Fernando Dacosta diz que a censura em ditadura é impedir que se diga o que não se quer e em democracia é obrigar a dizer o que se quer. (Lembremo-nos da sondagem «secreta» em que 90% dos jornalistas se afirmavam coagidos a escrever de acordo com o pensamento da sua entidade patronal.) Os anarquistas franceses costumavam dizer que ditadura é «cala-te!» e democracia é «fala p´ràí».
Vivemos numa época de concentração dos ditos meios de comunicação social, das distribuidoras e editoras em oligopólio. Vivemos numa época em que os grandes publicitários dos media (no jornalismo regional, as autarquias) conseguem comprar o silêncio. A promiscuidade entre jornalistas e elites políticas e económicas vem ao de cima - mas só uma pontinha do lodo. Só uma pontinha - precisamente porque vem dos poucos que não estão totalmente submersos no lodo. Isto na hipótese mais rousseauniana. Na pior, é todo um jogo de vinganças e de luta de poleiro.
Vivemos numa época de concentração dos ditos meios de comunicação social, das distribuidoras e editoras em oligopólio. Vivemos numa época em que os grandes publicitários dos media (no jornalismo regional, as autarquias) conseguem comprar o silêncio. A promiscuidade entre jornalistas e elites políticas e económicas vem ao de cima - mas só uma pontinha do lodo. Só uma pontinha - precisamente porque vem dos poucos que não estão totalmente submersos no lodo. Isto na hipótese mais rousseauniana. Na pior, é todo um jogo de vinganças e de luta de poleiro.
Ela envia-me o meu mapa astral. Ela, que nunca acredita em coisas de astros, diz que passou a acreditar. Eu não.
Sol em Leão (Este é o seu Signo de nascimento)
Ele tem \"garra\", gosta de mandar porque é independente e autoritário. As suas aspirações vão na direcção de um ideal.Tem demasiado orgulho e uma certa cobiça. Gosta de dar conselhos.
É honesto, franco, leal, comunicativo e recto.
Pontos fracos: Orgulho, vaidade, arrogância, presunção e desprezo em relação aos outros.
Lua em Peixes
Tem a imaginação e a percepção bastante aguçadas. É impressionável, a sua imaginação é, por vezes, excessiva. É místico, romântico, sensível e sentimental.
Pontos fracos: Aborrecimentos causados pela sua grande sensibilidade, inquietações, problemas, imaginação doentia, neuroses. Mais virado para o devaneio do que para a acção: tem dificuldade para formar opiniões precisas.
Mercúrio em Leão
Ambicioso, sincero, leal, cordial, com maneiras simples. Grande capacidade de organização. Golpe de vista e clareza de ideias. Inteligência associada à vontade. Gosta de crianças e de lazer: boa posição para educador.
Pontos fracos: Gosta demasiado de jogar, o que o pode levar longe demais mesmo sem ele querer. Gosta de representar. Inesperadamente, dá meia volta deixando os outros confundidos. Gosta de correr riscos, umas vezes por divertimento, outras por leviandade.
Vénus em Virgem
Socorre as pessoas doentes e as pessoas de idade. É muito dedicado, mas não exterioriza os seus sentimentos. É austero, exigente.
Se está apaixonado raciocina e não se deixa convencer, ou com medo de se tornar ridículo ou com medo que não o amem tanto como ele ama. Duvida sempre dos sentimentos do outro.
Por vezes é tão rígido com a outra pessoa que esta, desorientada, acaba por ir-se embora.
Pontos fracos: Gosta de namoriscar e de provocar. Consegue controlar perfeitamente os seus sentimentos que, em geral, têm falta de paixão ou de força.
Os seus amores nunca são gratuitos, obrigatoriamente a relação deve dar-lhe algo em troca, nem que seja só um prazer intelectual.
Marte em Virgem
Habilidade, destreza, flexibilidade, agilidade, diligência, mas também ingenuidade. A agressividade e a energia estão em grande parte transpostas para o plano intelectual e dirigidas para o pormenor concreto. Gosta especialmente da actividade crítica.
Pontos fracos: Irrita-se com facilidade e por qualquer pequena coisa que lhe resista.
Júpiter em Caranguejo
Pessoa calma, tranquila. Tem muita imaginação. Gosta da vida de casa, do seu conforto material. É um bom cozinheiro, e também é relativamente guloso. Adora preparar receitas.
Pontos fracos: Abusa da boa carne, gosta demais da sua casa, do seu conforto e tem tendência para ter uma vida só caseira, sair pouco, porque a sua casa é o melhor lugar que há no mundo.
Saturno em Leão
Ocupará quase sempre um lugar de autoridade. Ele gosta de ter responsabilidades e assume-as. Beneficia de favores de protectores, que reconhecem os seus méritos. Receberá recompensas pelo seu trabalho bem feito.
Pontos fracos: autoridade abusiva, poucos sentimentos no ambiente de trabalho.
Urano em Escorpião
Inteligente e subtil. Paixão pela pesquisa, pelo questionamento, pelas investigações. Bastante sensualidade.
Neptuno em Sagitário
Gosta de longas viagens, do estrangeiro, da água.
Plutão em Balança
Traz mudanças
Sol em Leão (Este é o seu Signo de nascimento)
Ele tem \"garra\", gosta de mandar porque é independente e autoritário. As suas aspirações vão na direcção de um ideal.Tem demasiado orgulho e uma certa cobiça. Gosta de dar conselhos.
É honesto, franco, leal, comunicativo e recto.
Pontos fracos: Orgulho, vaidade, arrogância, presunção e desprezo em relação aos outros.
Lua em Peixes
Tem a imaginação e a percepção bastante aguçadas. É impressionável, a sua imaginação é, por vezes, excessiva. É místico, romântico, sensível e sentimental.
Pontos fracos: Aborrecimentos causados pela sua grande sensibilidade, inquietações, problemas, imaginação doentia, neuroses. Mais virado para o devaneio do que para a acção: tem dificuldade para formar opiniões precisas.
Mercúrio em Leão
Ambicioso, sincero, leal, cordial, com maneiras simples. Grande capacidade de organização. Golpe de vista e clareza de ideias. Inteligência associada à vontade. Gosta de crianças e de lazer: boa posição para educador.
Pontos fracos: Gosta demasiado de jogar, o que o pode levar longe demais mesmo sem ele querer. Gosta de representar. Inesperadamente, dá meia volta deixando os outros confundidos. Gosta de correr riscos, umas vezes por divertimento, outras por leviandade.
Vénus em Virgem
Socorre as pessoas doentes e as pessoas de idade. É muito dedicado, mas não exterioriza os seus sentimentos. É austero, exigente.
Se está apaixonado raciocina e não se deixa convencer, ou com medo de se tornar ridículo ou com medo que não o amem tanto como ele ama. Duvida sempre dos sentimentos do outro.
Por vezes é tão rígido com a outra pessoa que esta, desorientada, acaba por ir-se embora.
Pontos fracos: Gosta de namoriscar e de provocar. Consegue controlar perfeitamente os seus sentimentos que, em geral, têm falta de paixão ou de força.
Os seus amores nunca são gratuitos, obrigatoriamente a relação deve dar-lhe algo em troca, nem que seja só um prazer intelectual.
Marte em Virgem
Habilidade, destreza, flexibilidade, agilidade, diligência, mas também ingenuidade. A agressividade e a energia estão em grande parte transpostas para o plano intelectual e dirigidas para o pormenor concreto. Gosta especialmente da actividade crítica.
Pontos fracos: Irrita-se com facilidade e por qualquer pequena coisa que lhe resista.
Júpiter em Caranguejo
Pessoa calma, tranquila. Tem muita imaginação. Gosta da vida de casa, do seu conforto material. É um bom cozinheiro, e também é relativamente guloso. Adora preparar receitas.
Pontos fracos: Abusa da boa carne, gosta demais da sua casa, do seu conforto e tem tendência para ter uma vida só caseira, sair pouco, porque a sua casa é o melhor lugar que há no mundo.
Saturno em Leão
Ocupará quase sempre um lugar de autoridade. Ele gosta de ter responsabilidades e assume-as. Beneficia de favores de protectores, que reconhecem os seus méritos. Receberá recompensas pelo seu trabalho bem feito.
Pontos fracos: autoridade abusiva, poucos sentimentos no ambiente de trabalho.
Urano em Escorpião
Inteligente e subtil. Paixão pela pesquisa, pelo questionamento, pelas investigações. Bastante sensualidade.
Neptuno em Sagitário
Gosta de longas viagens, do estrangeiro, da água.
Plutão em Balança
Traz mudanças
sábado, junho 02, 2012
Para a ministra da Justiça que quer sinalizar pedófilos que saíram da cadeia e obrigá-los a andar com um chip
Primeiro, sugiro-lho que veja o filme:
Depois, se tiver tempo, que leia Nabokov, Gide, Casanova e que perceba que, por mais que custe, a realidade é que a condenação do sexo com menores é culturalmente recente. A pedofilia, palavra infamemente estúpida que nos fala dos amigos das crianças, é terrível, sim, mas não podemos reduzir a discussão a um acéfalo reducionismo: pedófilos versus crianças. NÃO SE PRETENDE UMA APOLOGIA DA PEDOFILIA, UM DOS CRIMES MAIS TERRÍVEIS COM CONSEQUÊNCIAS QUASE SEMPRE IRREVERSÍVEIS PARA AS VÍTIMAS, BEM VOS OUÇO, SÓ SE PRETENDE A DEFESA DE UM ESTADO DE DIREITO DEMOCRÁTICO. Quem defende que não há penas perpétuas não pode defender que as entidades laborais e que toda a comunidade saiba onde mora o pedófilo. Isso mata-lhe a vida e pode abrir caminho a linchamentos.
Bem sei que isto é uma causa perdida. Bem sei que há inúmeras petições em favor da pena de morte, da castração dos pedófilos e nenhuma em favor do princípio abstracto do Estado de Direito Democrático - uma coisa é dar os dados dos pedófilos para investigação, outra é espalhá-los pela comunidade. Em Portugal, não há penas eternas. (Bem sei que o seu Governo não respeita as decisões do Tribunal Constitucional e a Constituição, veja-se o caso dos subsídios de férias e Natal.) Bem sei que numa época de crise económica, as pessoas não estão preocupadas com direitos, garantias, atentados da liberdade de imprensa - mas com o seu pão. É legítimo.
Mas um Estado não pode matar nem dar à morte (social ou material) ninguém. A senhora da Ministra sabe por que razão a polícia está presente em redor dos julgamentos: para proteger o criminoso. Não fosse ela e seria linchadas pelos familiares, amigos de familiares e pelos populares sedentos de justiça sangrenta. Lei de Talião e acabamos todos cegos.
Não há pior justiça do que a justiça das vítimas.
O argumento de «e se o teu filho fosse vítima?» é tão legítima como «se te o filho fosse o condenado?». Claro está que nenhuma mãe admite que o seu filho possa ser pedófilo, ainda que os pedófilos, por estranha que pareça a muita gente, também têm mães. A justiça rege-se - ou deve reger-se - pelo encontro do equilíbrio. Quem defende a justiça das vítimas defende a morte por imolação, por apedrejamento, por tortura lenta, cegando os olhos com alfinetes.
A seguir a uma lei, vei sempre outra. Reparem que no que aconteceu nas leis contra fumadores - leiam a cronologia e leiam o que aí vem. Não se expurga os vícios com a estigmatização oficial dos pecadores .
Um estudo da American Psychiatric Association concluiu que: «Although treatment does not eliminate sexual crime, research supports the view that treatment can decrease sex offense and protect potential victims.»
90% da pedofilia é praticada internamente, na família ou por amigos da mesma, pelo que a Lei de Megan, de avisar toda a comunidade de que para aí foi morar um pedófilo, nunca se revelou eficaz nos seus propósitos.
Mais: Jerome Miller, clinical director at the Augustus Institute in Alexandria, Va., who has treated more than 500 pedophiles and has also worked with their victims: "One of the things that drives pedophiles is a sense of isolation," Miller said. "They live in a trance-like world where they don't talk to others and get totally into their fantasies. If they don't have friends or associations, it will push some who aren't violent into the corner."
É claro que a realidade não interessa nada nesta saga persecutória. É claro que os linchamentos e as sovas a violadores e telheiras não comovem, mas geram os aplausos. É claro que os comentaristas dos jornais querem todos queimar os pedófilos. É claro que para muita gente um bom bandido é um bandido morto. É claro que a maioria defende a castração química, no mínimo, dos monstros (e até já houve um partido político do mérito e da sociedade com um cartaz gigante que não mereceu uma linha de prosa).
Bem sei, senhora ministra, que as manchetes do Correio da Manhã a fazem fazer leis. Mas não há pior legislador do que o que legisla com base num caso no dia seguinte, como aconteceu na Lei de Megan (caso tenebroso de Megan Kanka). E porque não sinalizar alcoólicos, violadores, assassinos, drogados?
Mas o que diz se um dia um pedófilo «sinalizado» (e que há que distinguir a parafilia de quem só tem prazer com de quem também tem prazer com, leia um pouco sobre psicologia, pelo menos neste assunto) for linchado depois de sair da cadeira por fazer uma festa a uma criança? Já viu o que aconteceu às casas dos pedófilos sinalizados da Lei de Megan? Já se informou sobre o que é a vida dele? Sabe que há milícias populares na Europa para linchar pedófilos? Sabe que eles ficam com a vida destruída? Sabe quantos foram mortos e de que maneira pela Lei de Megan? Tem dados sobre o assunto? Estudou-o exaustivamente?
Bem sei, senhora ministra, porque me lembro, de a ver defender há muitos anos, a Lei de Megan num programa da SIC. Ninguém fala disso, não é? Bem sei que quer julgamentos sumários de 48 horas para os crimes mais graves? É assim na Arábia Saudita.
E o que virá a seguir? Há tanto histerismo por aí. Já o ex-assessor de Cavaco, César das Neves, dizia que depois do casamento dos homossexuais viria o casamento com animais e a legalização da pedofilia.
Um argumentário não é algo hoje que cative. Vale o soundbyte. E vossa excelência vencerá esta luta. Está do lado das crianças, belas, ternas, macias, com o cheiro delicioso do cocuruto, contra os monstros perversos que deveriam ser queimados vivos. Não seria mais fácil matá-los e obrigar a família a pagar a bala?
Solitária que seja a minha posição, recuso-me a discursos bushistas: ou estão connosco ou com os terroristas. O reducionismo é perigosíssimo. Até com o crime horrível do abuso de menores.
Só uma última coisa: um terço deles também foi vítima de pedófilos.
"this dream never ends" you said
"this feeling never goes
The time will never come to slip away"
"this wave never breaks" you said
"this sun never sets again
These flowers will never fade"
"this world never stops" you said
"this wonder never leaves
The time will never come to say goodbye"
"this tide never turns" you said
"this night never falls again
These flowers will never die"
Never die
Never die
These flowers will never die
"this dream always ends" I said
"this feeling always goes
The time always comes to slip away"
"this wave always breaks" I said
"this sun always sets again
And these flowers will always fade"
"this world always stops" I said
"this wonder always leaves
The time always comes to say goodbye"
"this tide always turns" I said
"this night always falls again
And these flowers will always die"
Always die
Always die
These flowers will always die
Between you and me
It's hard to ever really know
Who to trust
How to think
What to believe
Between me and you
It's hard to ever really know
Who to choose
How to feel
What to do
Never fade
Never die
You give me flowers of love
Always fade
Always die
I let fall flowers of blood
Ela 1. Diz que só consegue ficar com homens que sinta como inferiores (que não têm «ascendente sobre mim») por medo do abandono, pela fuga à paranoia ciumenta, por necessidades maternais e instinto de poder.
Ela 2. Diz que ficou encantada com ele porque nada na casa dele assentava em pernas rectangulares no fundo. «Era tudo curvo, uma casa perfeita para quem sabe de Feng Shui ou, melhor ainda, quem dele tem um conhecimento intuitivo.»
Ela 3. Diz que lhe deu um beijo porque «ele é o tipo mais monocórdico que já vi, tem equanimidade perante tudo, não reage a nada, nunca o vi irritado, entusiasmado, está sempre naquele estado vegetativo. É branquinho, os amigos chamam-lhe "estátua". Eu tinha muito curiosidade em ver com ele reagia a um beijo.»
Ela 4. Diz que se apaixonou pelo modo de ele contar uma anedota.
Ela 5. Diz que se apaixonou por ele ser ultratímido e falar quase sempre de forma atabalhoada e a olhar para o chão.
Ela 6. Diz que entrou numa relação com ele por se o oposto do ex-marido, um homem maníaco das limpezas e da ordem. «Ele não tinha televisão, tinha a sanita imunda, a casa desorganizada na primeira vez que lá entrei e não atirou uma frase típica: "Desculpa ter a casa tão desarrumada.»
Ela 7. Diz que ficou impressionada num jantar por ele ter sido o único que não disse em que trabalhava, por não se ter gabado ao contrário de todos os outros, não lhe fazer uma única pergunta. «Foi pela sua atitude humilde e reservada. Foi o único com quem me apeteceu falar.»
Ela 8. Diz que só o via em conferências a fazer de moderador, em actividades culturais que organizava. Pensou «este homem, que se faz rodear de muita gente sempre e nunca está com pouca gente em volta, deve viver entrincheirado numa imensa solidão. E isso foi a porta para a curiosidade e a atracção no processo da busca».
Ela 9. Diz que se apaixonou pelo seu terrível mau feitio ao acordar.
Ela 10. Diz que se apaixonou por ele ter tantas doenças, tantos problemas e estar sempre feliz.
Ela 11. Diz que em casa dela havia sempre gritos e discussões e que não havia um único dia em que o pai não a criticasse ou chamasse à atenção. «Casei-me com o homem mais sereno e dócil do mundo, mesmo os pais dele, o ambiente familiar são o oposto do que eu tinha. Vivo tão mais serena e alegre.»
Ela 12. Diz só se apaixonar nos últimos anos por «cabrões». «Tive uma relação de 12 anos, muito boa no plano intelectual e emocional, mas sem o lado físico. É triste, mas preciso de viver no meu corpo o prazer que não tive durante 12 anos.»
Ela 13. Diz apaixonar-se por homens com sentido de humor, que gostem de viajar e sejam activistas políticos de esquerda, de preferência com barba e cabelo compridos.
Ela 14. Diz nunca ficou com quem se apaixonou porque as paixões a descontrolam. Ficou sempre, garante, homens «normais», «com sentido prático», «sem dramas existenciais», «o oposto das minhas paixões».
Ela 15. Diz que começou a namorá-lo por ser o homem que mais fácil e assertivamente sabia dizer não.
Ela 2. Diz que ficou encantada com ele porque nada na casa dele assentava em pernas rectangulares no fundo. «Era tudo curvo, uma casa perfeita para quem sabe de Feng Shui ou, melhor ainda, quem dele tem um conhecimento intuitivo.»
Ela 3. Diz que lhe deu um beijo porque «ele é o tipo mais monocórdico que já vi, tem equanimidade perante tudo, não reage a nada, nunca o vi irritado, entusiasmado, está sempre naquele estado vegetativo. É branquinho, os amigos chamam-lhe "estátua". Eu tinha muito curiosidade em ver com ele reagia a um beijo.»
Ela 4. Diz que se apaixonou pelo modo de ele contar uma anedota.
Ela 5. Diz que se apaixonou por ele ser ultratímido e falar quase sempre de forma atabalhoada e a olhar para o chão.
Ela 6. Diz que entrou numa relação com ele por se o oposto do ex-marido, um homem maníaco das limpezas e da ordem. «Ele não tinha televisão, tinha a sanita imunda, a casa desorganizada na primeira vez que lá entrei e não atirou uma frase típica: "Desculpa ter a casa tão desarrumada.»
Ela 7. Diz que ficou impressionada num jantar por ele ter sido o único que não disse em que trabalhava, por não se ter gabado ao contrário de todos os outros, não lhe fazer uma única pergunta. «Foi pela sua atitude humilde e reservada. Foi o único com quem me apeteceu falar.»
Ela 8. Diz que só o via em conferências a fazer de moderador, em actividades culturais que organizava. Pensou «este homem, que se faz rodear de muita gente sempre e nunca está com pouca gente em volta, deve viver entrincheirado numa imensa solidão. E isso foi a porta para a curiosidade e a atracção no processo da busca».
Ela 9. Diz que se apaixonou pelo seu terrível mau feitio ao acordar.
Ela 10. Diz que se apaixonou por ele ter tantas doenças, tantos problemas e estar sempre feliz.
Ela 11. Diz que em casa dela havia sempre gritos e discussões e que não havia um único dia em que o pai não a criticasse ou chamasse à atenção. «Casei-me com o homem mais sereno e dócil do mundo, mesmo os pais dele, o ambiente familiar são o oposto do que eu tinha. Vivo tão mais serena e alegre.»
Ela 12. Diz só se apaixonar nos últimos anos por «cabrões». «Tive uma relação de 12 anos, muito boa no plano intelectual e emocional, mas sem o lado físico. É triste, mas preciso de viver no meu corpo o prazer que não tive durante 12 anos.»
Ela 13. Diz apaixonar-se por homens com sentido de humor, que gostem de viajar e sejam activistas políticos de esquerda, de preferência com barba e cabelo compridos.
Ela 14. Diz nunca ficou com quem se apaixonou porque as paixões a descontrolam. Ficou sempre, garante, homens «normais», «com sentido prático», «sem dramas existenciais», «o oposto das minhas paixões».
Ela 15. Diz que começou a namorá-lo por ser o homem que mais fácil e assertivamente sabia dizer não.
sexta-feira, junho 01, 2012
Crónica Inventada por António Lobo Antunes
Quando o quarto filho nasceu a mãe tinha completado trinta anos nesse mesmo mês. Como a produção não ficou por aqui passou o melhor tempo da vida dela às voltas com aquela gentinha toda, cinco loiros, de olhos claros, e um moreno, de cabelo preto. O primeiro, com oito ou nove meses, arranjou uma meningite: de repente febre muito alta e horas depois estava em coma. Foi um milagre, na verdadeira acepção da palavra, não ter morrido. Como lhe tomou o gosto iniciou uma tuberculose aos três anos: ainda se lembra da mãe a chorar porque ele não comia. Tornou a não morrer. Ainda antes da meningite, quando nasceu, ia matando a mãe com uma eclampsia. E depois, pelo resto da vida, foi-lhe acumulando os tormentos: apesar de uma precocidade que espantava a família era mau aluno, mal educado, estranho. Quase nada o interessava e não ligava a brinquedos. No liceu a mãe pedia para o sentarem na primeira fila porque passava o tempo, ao que parece, a olhar pela janela. Detestava as lições, os professores, o ensino. Entrou para a faculdade e não ia às aulas: escrevia o tempo inteiro, ou passava tardes estendido na cama a observar o tecto. Continua a escrever o tempo inteiro, continua a observar o tecto. A vida dele foi sempre um rebuliço de cataclismos interiores, angústias, aflições, um sofrimento contido e, com o passar dos anos, foi falando cada vez menos. No meu entender em lugar de coração tinha um sismógrafo que reagia com intensidade desmedida à menor tremura de fora ou de dentro. Que eu saiba não parou de escrever.
Os irmãos, embora muito diferentes e diferentes uns dos outros, eram bastante mais parecidos do que, à primeira vista, se podia imaginar. E existia entre eles uma união muito mais profunda do que, também à primeira vista, se supunha, debaixo do pudor e da cerimónia com que se relacionavam.
- Vocês têm uma ligação fortíssima
dizia, ao primeiro, um amigo dele que também escrevia.
- Vocês têm uma ligação fortíssima
dizia, ao primeiro, um amigo dele que lia. Esses amigos chamavam-se José Cardoso Pires e Ernesto Melo Antunes e o primeiro amou-os até ao fim das suas vidas demasiado curtas, e continua a amá-los. A ausência deles é uma chaga aberta, a doer.
- É para te dar os parabéns porque ganhei um prémio
telefonou-lhe uma vez José Cardoso Pires, que ficou amigo também do segundo irmão, que foi para o Zé de uma delicadeza de alma comovente e esta frase
- É para te dar os parabéns porque ganhei um prémio
é a maior declaração de amorzade que o primeiro alguma vez recebeu. O segundo amigo, Ernesto Melo Antunes, tornou-se, rapidamente, querido de quase todos os outros. Algumas vezes os irmãos adoeciam colectivamente dessa doença, a amorzade, como, em crianças, de gripe ou papeira mas, claro, não se falava nisso. Para quê? Saint-Ex dizia que se devia gostar das pessoas sem lhes dizer porque elas sabem. De modo que os irmãos sofriam das mesmas chagas sob vários aspectos. E o segundo, que escondia uma bondade de criança sob o que alguns consideravam, injustamente, um temperamento arrogante, auxiliou-o na doença de outros amigos, um que fazia versos, chamado Alexandre O'Neill, outro que pintava, chamado Júlio Pomar, assim de repente lembrava-se desses dois. O primeiro tinha a tendência de partilhar a alma com criaturas que sofriam da mesma sina que ele, e que passavam o tempo a construírem nuvens de papel com coisas escritas ou desenhadas no meio. Os bichos da mesma espécie em regra procuram-se. Os irmãos faziam outras coisas, mais úteis, e o primeiro achava que a actividade de cada um deles complementava a dos outros. Encontravam-se para jantar uma vez por semana, em casa dos pais, onde a capacidade de comunicação, não verbal, o princípio de vasos comunicantes que mantinham, os unia de uma maneira sui generis. Se não estavam de acordo percebia-se na mudança de clima do silêncio, os elogios eram mudos, os acordos sem necessidade de explicação, as diferenças aceites. Penso que lhes agradava que a relação fosse assim e, em caso de necessidade, defendiam-se uns aos outros numa ferocidade de matilha. Os filhos deles repetiam esta relação numa fraternidade endogâmica. Era uma tribu fechada, com as suas regras estritas e a sua Constituição própria, escrupulosamente respeitada. O pai fora um solitário, a mãe não os estragara com mimos. A seu modo, em todos eles havia uma boa parcela de solidão e uma distância que, paradoxalmente, facilitava a proximidade, às vezes mascarada de indiferença. Sequiosos de ternura, quase sempre recusavam recebê-la. Falhas de muito amor em crianças, faziam os possíveis por não o demonstrar e, se o amor aparecia, era de forma oblíqua, disfarçada. No entanto, mal tocava a fogo, uniam-se todos, com o arzinho casual de quem se juntou por acaso. Quando o pai morreu os irmãos pediram ao primeiro que dissesse em voz alta um soneto de Antero, ali, diante do caixão. À medida que os versos se iam sucedendo o primeiro pensava
- Somos uma família, somos uma família, somos uma família
embora a relação com o pai fosse, para alguns, complexa e difícil. Para quase todos complexa e difícil, para quase todos, em certas áreas, dolorosa. Mas eram uma família e o pai, claro, fazia parte dela. Mesmo debaixo da terra fazia parte dela. Eram, realmente, uma família. Isto foi escrito assim, ao correr da esferográfica: algumas notas acerca de criaturas que, por acaso, conheço. Não vou dizer o nome, é lógico. Uma família que não tem nome neste texto mas da qual não me desagradaria completamente fazer parte.
Metade da vida (Holderin)
Peras amarelas
E rosas silvestres
Da paisagem sobre a
Lagoa.
Ó cisnes graciosos,
Embrigados de beijos,
Enfiando a cabeça
Na água santa e sóbria!
Ai de mim, onde, se
É inverno agora, achar as
Flores? E onde
O calor do sol
E a sombra da terra?
Os muros avultam
Mudos e frios; à fria nortada
Rangem os cata-ventos.
«Exploro os mistérios irracionais dentro de uma toca que chamo 'lugar de ser inútil'. Exploro há 60 anos esses mistérios. Descubro memórias fósseis. Osso de urubu, etc. Faço escavações. Entro às 7 horas, saio ao meio-dia. Anoto coisas em pequenos cadernos de rascunho. Arrumo versos, frases, desenho bonecos. Leio a Bíblia, dicionários, às vezes percorro séculos para descobrir o primeiro esgar de uma palavra. E gosto de ouvir e ler "Vozes da Origem". Gosto de coisas que começam assim: "Antigamente, o tatu era gente e namorou a mulher de outro homem". Está no livro "Vozes da Origem", da antropóloga Betty Mindlin. Essas leituras me ajudam a explorar os mistérios irracionais. Não uso computador para escrever. Sou metido. Sempre acho que na ponta de meu lápis tem um nascimento.»
Manoel de Barros
Manoel de Barros
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