quarta-feira, junho 13, 2012
A curiosa história de Leonard Woolf
Filho de uma família numerosa de dez irmãos, viveu a morte prematura do pai aos onze anos. Dedicado e meticuloso, conseguiu ser um aluno exímio. Aos 24 anos, tornou-se cadete e teve uma progressão rápida chegando a administrador de um distrito no Ceilão, uma colónia inglesa. A sua posição contra o Império Britânico levou-o a sair ao fim de sete anos para ser casar aos trinta anos com Virgina Woolf, uma mulher com acessos de loucura e de exaustão e uma propensão para o suicídio. Abusada pelo meio-irmão, sexualmente retraída e carregada de fantasmas, Virginia não era uma mulher completa (a sua relação é descrita como «meio amantes, meio amigos») para Leonard, que tinha uma relação paternal e maternal, ora crua ora terna, para amparar Virginia. No meio deste caos mental, Leonard sempre conseguiu escrever sobre o seu activismo político e exercer o seu papel cívico, enquanto «cuidava» de Virginia, e ainda manter um diário em que todos os dias anotava as suas refeições diárias e a quilometragem percorrida pelo seu automóvel.
Ainda que fosse o suporte de Virginia de acordo com os seus biógrafos, Leonard vivia profundos conflitos internos enquanto procurava a todo o custo manter a fachada de sustentáculo da mulher e de prolífico escritor e activista, tendo até fundado uma editora que publicaria, entre outros, T. S. Eliot. A sua hostilidade ao imperialismo e à guerra levaram-no a manter reservas de gasolina para se gasear até à morte no caso de a Inglaterra ser invadida pela tropa alemã. Em 1941, cansada da sua loucura, cansada de ser um peso para o marido, Virginia Woolf encheu os bolsos de pedras e atirou-se ao rio, deixando uma carta de suicídio em que dizia: «Tenho a certeza de estar ficando louca novamente. [...] Começo a escutar vozes e não consigo concentrar-me. Deste-me muitas possibilidades de ser feliz. Estiveste presente como nenhum outro. Não creio que duas pessoas possam ser felizes com esta doença terrível. Não posso lutar mais. Sei que estarei tirando um peso das tuas costas, pois, sem mim, poderás trabalhar. E vais, eu sei. [...] Sempre foste paciente comigo e verdadeiramente bom. [...] Se alguém me pudesse salvar, esse alguém serias tu. Tudo se foi para mim, mas o que ficará é a certeza da tua bondade. Não posso atrapalhar a tua vida.»
Ainda após a morte da mulher, Leonard Woolf escreveria cinco volumes autobiográficos. Mas o mais curioso de tudo é que nos seus diários, segundo a biógrafa que a eles teve acesso, não há um único dia em que não estejam anotadas as refeições e o número de quilómetros percorridos - NEM NO DIA DO SUICÍDIO DA ESCRITORA!
Seria essa forma de introdução de ordem na superfície das coisas uma forma de fuga à desordem emocional que lhe provocaram as suas atribulações da morte do pai, da desilusão em Ceilão, da exaustão emocional que lhe causou ter tentado tudo e não conseguir evitar o suicídio da mulher enquanto trabalhava como escritor e activista de forma frenética?
Mais curioso ainda é que o seu diário de notas estava imaculado - apenas uma única pequena e quase imperceptível mancha castanho-amarelada estava no dia do suicídio de Virginia Woolf. Mancha essa que terá tentando remover segundo a biógrafa que estudou os seus diários.
Os nervos de aço terão cedido nesse momento e uma mancha, «de chá, de café, ou de uma lágrima» tombaram no caderno imaculado que ainda assim foi capaz de registar o que comera nesse dia e quantos quilómetros percorrera. Um homem obsessivo-compulsivo que, perante o tremelicar de uma chávena ou uma lágrima que não pôde conter, ainda tentou expeditivamente rasurar a manchinha.
terça-feira, junho 12, 2012
segunda-feira, junho 11, 2012
domingo, junho 10, 2012
Ninguém é tão ofensivo como um escritor a falar de outro escritor
«War and Peace is [one of thoses] large loose baggy monsters.» «Tolstoy is a reflector as vast as a natural lake; a monster harnessed to his great subject—all human life!»
Henry James
sábado, junho 09, 2012
Porque erradamente sempre se apresentou estoicismo e epicurismo como antagonistas
A verdadeira riqueza não consiste em ter grandes posses, mas em ter poucas necessidades.
Epicuro
Epicuro
quinta-feira, junho 07, 2012
quarta-feira, junho 06, 2012
5.13 insónia
nenhum som
nenhum automóvel de faróis acesos na estrada
(nunca mais nenhum automóvel de faróis acesos na estrada)
a árvore de folhas inexpressivas
estátuas, espelhos partidos
tudo são estátuas e espelhos partidos
o cigarro acende-se
o que é feito da sofia?
o cigarro esmaga-se contra o cinzeiro
o corpo não aguenta mais toxicidade
o livro abre-se
atira-se para bem longe
o cérebro é uma folha de jornal amarrotada
o que é feito do andré?
despejar o cinzeiro
ensacar o lixo
pensar no que fazer às garrafas vazias
deixá-los estar
à noite, eles são dotados de vida
e qualquer acção é inútil
irremediavelmente inútil na hora lúcida da insónia
pensar no que fazer às garrafas vazias
deixá-los estar
à noite, eles são dotados de vida
e qualquer acção é inútil
irremediavelmente inútil na hora lúcida da insónia
como se chamava aquele tipo com quem passavas férias no Verão
de há vinte anos
(ainda foram alguns Verões)
havia uma canção nessa altura
devia ser outra pessoa
era outra pessoa, certamente
havia uma canção nessa altura
devia ser outra pessoa
era outra pessoa, certamente
o mundo achata os diferentes
condena-os ao hospício
à insónia
ao suicídio
ou
pior do que isso
:
à integração.
pior do que isso
:
à integração.
terça-feira, junho 05, 2012
segunda-feira, junho 04, 2012
my sweet old etcetera
aunt lucy during the recent
aunt lucy during the recent
war could and what
is more did tell you just
what everybody was fighting
is more did tell you just
what everybody was fighting
for,
my sister
my sister
Isabel created hundreds
(and
hundreds)of socks not to
mention fleaproof earwarmers
etcetera wristers etcetera, my
mother hoped that
(and
hundreds)of socks not to
mention fleaproof earwarmers
etcetera wristers etcetera, my
mother hoped that
i would die etcetera
bravely of course my father used
to become hoarse talking about how it was
a privilege and if only he
could meanwhile my
bravely of course my father used
to become hoarse talking about how it was
a privilege and if only he
could meanwhile my
self etcetera lay quietly
in the deep mud et
in the deep mud et
cetera
(dreaming,
et
cetera, of
Your smile
eyes knees and of your Etcetera)
(dreaming,
et
cetera, of
Your smile
eyes knees and of your Etcetera)
e. e. cummings
plato told
him:he couldn’t
believe it(jesus
believe it(jesus
told him;he
wouldn’t believe
it)lao
wouldn’t believe
it)lao
tsze
certainly told
him,and general
(yes
certainly told
him,and general
(yes
mam)
sherman;
and even
(believe it
or
sherman;
and even
(believe it
or
not)you
told him:i told
him;we told him
(he didn’t believe it,no
told him:i told
him;we told him
(he didn’t believe it,no
sir)it took
a nipponized bit of
the old sixth
a nipponized bit of
the old sixth
avenue
el;in the top of his head:to tell
el;in the top of his head:to tell
him
e. e. cummings
domingo, junho 03, 2012
Ele viveu onze anos a pensar no processo que tinha em tribunal. Onze anos. Não havia um dia em que a sua cabeça não pensasse no processo - o superior objectivo, o superior interesse. Tudo se lhe sacrificava. Enquanto não acabar o processo, não - dizia a quase tudo. Isso sobrepunha-se a relações afectivas, familiares, de amizade, à sua própria saúde. Perdeu cabelo, ganhou rugas, nos convívios só conseguia falar do processo. Contente quando havia coisas positivas do processo, triste quando havia coisas negativas do processo. Quando estava tenso, davam-lhe uma palmadinha. «Estás a pensar no processo?» «Em que é que havia de estar a pensar?» Nem era possível imaginar como seria ele depois da sentença final do mesmo - porque o processo não era uma questão de vida ou de morte; era muito mais do que isso. O processo chegou ao fim. Ele ganhou, mas ficou vazio. O meio tornara-se num fim em si mesmo. A angústia, a ansiedade, o entusiasmo, a efervescência da coisa morriam para sempre. Em que pensaria agora ao deitar e ao acordar? O que o faria calçar os sapatos de manhã? O que preencheria agora o espaço vazio dos continentes da sua alma?
Ele começou uma carreia no kick boxing. Namorava uma amiga minha. Na primeira vez em que falámos, ele falou de um Cássio. Que precisava de ganhar peso para chegar à sua categoria. Viveu anos e anos com derrotas e vitórias, perda de dentes, e, num dia, após uma vitória importante, mostrou-se pouco satisfeito. «Enquanto não derrotar o Cássio...» Chegou ao peso dele e derrotou-o. Parece que nada extraordinário sobreveio desse milagre.
Nos seus diários, Tolstoi dizia que viveu a vida toda a tentar superar Shakespeare. Superei-o, dizia em idade tardia. Acrescentava: E agora?
Ele começou uma carreia no kick boxing. Namorava uma amiga minha. Na primeira vez em que falámos, ele falou de um Cássio. Que precisava de ganhar peso para chegar à sua categoria. Viveu anos e anos com derrotas e vitórias, perda de dentes, e, num dia, após uma vitória importante, mostrou-se pouco satisfeito. «Enquanto não derrotar o Cássio...» Chegou ao peso dele e derrotou-o. Parece que nada extraordinário sobreveio desse milagre.
Nos seus diários, Tolstoi dizia que viveu a vida toda a tentar superar Shakespeare. Superei-o, dizia em idade tardia. Acrescentava: E agora?
Numa noite etílica, ele falou-me da morte do irmão.
- Ele caiu da janela e eu tentei ampará-lo, não consegui, passei dez anos a pensar se não fui algo cobarde e se não o poderia ter evitado. Quando ele morreu, eu morri também. Fiquei dois anos fechado num quarto, sem trabalhar, a pensar se poderia de alguma forma terminar a vida fazendo um balanço feliz. Entretanto, ia prejudicando os meus alunos e familiares. Achei que a vida não fazia sentido porque não poderia acabá-la com a sensação de ter sido... só se salvasse duas vidas. Mas era o meu irmão. Eu morri naquela queda. Sou um cadáver com um copo permanentemente na mão.
- Ele caiu da janela e eu tentei ampará-lo, não consegui, passei dez anos a pensar se não fui algo cobarde e se não o poderia ter evitado. Quando ele morreu, eu morri também. Fiquei dois anos fechado num quarto, sem trabalhar, a pensar se poderia de alguma forma terminar a vida fazendo um balanço feliz. Entretanto, ia prejudicando os meus alunos e familiares. Achei que a vida não fazia sentido porque não poderia acabá-la com a sensação de ter sido... só se salvasse duas vidas. Mas era o meu irmão. Eu morri naquela queda. Sou um cadáver com um copo permanentemente na mão.
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