Na primeira vez em que a conheci, falámos muito. Convivemos durante muitos meses. Ela era uma óptima ouvinte. Muito educada, sensível, frequentava espaços alternativos («gosto de gente
sui generis»). Nunca a ouvi dizer mal de alguém. Vi fazerem-lhe coisas menos bonitas, mas ela tentava sempre compreender. «És demasiado compreensiva», disse-lhe um dia. Para mim, ela era, pelos seus comportamentos, uma das melhores (comparativo de «mais boas») pessoas que conhecia.
Reparava que não conhecia as pessoas que se davam com ela - e que, astuciosamente, ela evitava que as conhecesse. Um dia, ia com ela a um sítio e ela disse que talvez não fosse boa ideia eu ir - era gente de que não iria gostar, garantiu-me.
- Motards e pessoal que mete um bocado de medo.
Não a associava àquele meio e vi na sua cara que algo mais bailava - algo que tentava esconder e que deveria ser muito pouco bonito.
Numa discoteca, certa vez, ela disse-me que fosse seu guarda-costas.
- Não precisas de guarda-costas... Ninguém te fez nada.
- Se se meterem comigo.
- Se se meterem contigo, manda-os bugiar.
- O meu cunhado quando sai comigo se alguém se mete comigo, tem uma conversa mais séria e... Ahn...
- Eu não sou amigo de violência, excepto em auto-defesa extrema, e não me parece que alguém que venha falar contigo seja merecedor de levar um enxerto.
- Em alguns casos, tem de ser.
- Que raio de sítios deves frequentar.
- Se são muito insistentes, gosto de ser protegida.
- Com violência...
- O meu cunhado às vezes...
- E tu não o censuras?
- Acho que ele faz bem. Se me protege é porque gosta de mim.
- Nunca contes comigo para isso.
Certo dia, ao falar dos incêndios, disse-me na sua voz sempre calma:
- Isso é tudo fogo posto.
- Não tens base para dizer isso. É especulativo o que dizes.
- É, é. Deviam era...
Calou as palavras.
(Este curto diálogo estabeleceu uma conexão na minha mente com o episódio anterior. Fiquei desconfiado.)
Uma vez, ao dar uma esmola a um cego, ela disse-me:
- Há muitos que podiam trabalhar e fazem disto vida.
Outra vez, ao ler uma notícia do jornal, vi-a abanar a cabeça.
- Então?
- Agora, está na moda dizer que os criminosos são todos doentes.
Perguntei-lhe um dia em que votava, preocupado com estes indícios subtis.
- No PNR.
O meu fácies foi tão instantaneamente óbvio, que ela sorriu, deu-me uma palmada e disse:
- Angel, estava a brincar.
Insistiu.
- Angel, estava a brincar... Sim?
No Bairro Alto, um dia, ela cruzou-se com amigos. Olhei para os braços tatuados. Hell Angels, os fanáticos das motos de extrema-direita. Sei que nessa noite me vi num bar rodeado de nazis e não mais lhe voltei a falar.
(Visitar-me-ia num pesadelo em que me vi em meio de uma conferência de negacionistas do Holocausto.)