sexta-feira, setembro 30, 2011

- O Herberto Helder nunca se interessou e nunca falou de mulheres num sentido vulgar. Até costumava satirizar de certos homens que eram «atletas da foda». Ele gostava de possuir num sentido mais profundo. É um possuir que permanece a distância.
Saberás que não te amo e que te amo
posto que de dois modos é a vida,
a palavra é uma asa do silêncio,
o fogo tem uma metade de frio.

Eu te amo para começar a amar-te,
para recomeçar o infinito
e para não deixar de amar-te nunca:
por isso não te amo ainda.

Te amo e não te amo como se tivesse
em minhas mãos as chaves da fortuna
e um incerto destino desafortunado.

Meu amor tem duas vidas para amar-te.
Por isso te amo quando não te amo
e por isso te amo quando te amo.

Pablo Neruda

To have his arms around me, to sense his perfect trust
I’d give all I ever had… all I ever had…

Robert Smith
O Dicionário Houaiss é um livro que se pode ler na cama.
Ela acha que eu sou continuadamente descontínuo. A minha luta é mostrar-lhe que sou descontinuadamente contínuo.

quarta-feira, setembro 28, 2011

Estilhaçando sonhos bolhas róseas
a armadura dos murmúrios
os presentes das nossas gargantas que não chegaremos a abrir
obliterando tudo isso
eu pergunto
se a noite tem ao fundo
para lá da palavra fim
um fogo perene
uma chama inflexível
onde o nosso sorriso possa acontecer
síncrono

Alguém que esteve em Angola disse-me:

- Em Angola, como médico, tive de salvar vidas. Cheguei a um sítio onde estavam dezenas de estropiados aglomerados. Vi-me na circunstância de ter de escolher quem salvar. Um tipo sem perna a jorrar sangue. Uma menina com a vagina a sangrar. Cabeças de lado, mortos, pensei, não adianta. E foi escolhendo inicialmente só um, com indivíduos a gemer e a morrer, porque eu sabia que só concentrando-me um a um poderia salvar alguém... Em Angola, não há necessidade de psicólogos ou psiquiatras, quem sobrevive, não tem espaço mental para problemas do mundo ocidental abastado.

Lembrei-me de três coisas.

1. A pirâmide de Maslow.

2. A frase de Agostinho da Silva, quando inquirido sobre o que faria se fosse ministro da Cultura. «Aumentar o salário mínimo.» Porque só depois da barriga saciada e da roupa sobre o corpo, se pode a aspirar a algo que eleve a alma.

3. Do Unabomber que divide as necessidades humanas em três. As facilmente alcançáveis, as só alcançáveis por intermédio de esforço, e as necessidades impossíveis. Para Unabomber, nas sociedades pré-industriais, o ser humano tinha as necessidades essencialmente situadas no segundo grupo. Ao invés, nas sociedades pós-tecnológicas, o ser humano tem - no mundo rico - grande parte das suas necessidades facilmente alcançáveis e outras impossíveis (onde se situam as a felicidade que o homem hodierno não consegue precisar quais são, como conseguia o homem do Paleolítico ou do Neolítico - comida, roupa, habitação. Faltam as do segundo grupo nas sociedades modernas. Cada vez mais.
- Não tenho saudades de quem amo; tenho saudades do amor.

O Desempregado

Começou por mentir aos amigos e à família. Saía de casa com a indumentária costumeira, vagueava pela cidade, voltando para jantar.

Apanhado na urbe (sempre com uma pasta e «documentos» na mão), despediu-se celeremente alegando uma reunião.

Gradativamente, acabou por contar aos mais próximos.

Passou a evitar conhecer pessoas novas. Tinha um medo terrível da pergunta: «O que fazes?»

Foi diminuindo o círculo.

Ao fim de dois anos, desenvolveu agorafobia. Cada vizinho ou mero transeunte pelo qual passava parecia saber o segredo só com o olhar. Diminuía-se a cada olhar que o interceptava.

Começou a temer telefonemas. (E se ligasse alguém da Marktest a indagar do seu ofício?) O desemprego era pior do que a lepra. Então, mas ele não servia para nada?

Os anos passaram e o opróbrio de ir a centros de emprego, onde se sentia pior do que nos Alcoólicos Anónimos, foi aumentando.

Até que um dia já não tinha idade para procurar emprego.

terça-feira, setembro 27, 2011

Diálogos reais

O engenheiro, chefe de um autor, perguntou-lhe, não entendendo bem o que era isso de uma segunda edição do livro:

- É uma nova empreitada?
- É a mesma obra, mas depurada.
- É uma obra com melhoramentos?

domingo, setembro 25, 2011

I don´t agree that several relationships can satisfy you, on different levels, equally as much as one relationship. I´m not saying that´s a wrong choice in life. But that doesn´t work for me, personally. It´s much better to have a very deep relationship with one person than several shallow ones with others.

Robert Smith
Harold Bloom escreveu que a persona que Walt Whitman criou esmaga, enquanto super-homem, o Zaratustra.

Jorge Luis Borges escreveu que Walt Whitman conseguiu o feito único de conseguir ser lido como se estivéssemos a ler algo que é fora do autor - uma espécie de tomar de empréstimo dos olhos do Universo.

Álvaro de Campos escreveu:

Não sou teu discípulo, não sou teu amigo, não sou teu cantor,
Tu sabes que eu sou Tu e estás contente com isso!
Nunca posso ler os teus versos a fio... Há ali sentir demais...
Atravesso os teus versos como a uma multidão aos encontrões a mim,
E cheira-me a suor, a óleos, a atividade humana e mecânica.
Nos teus ver sos, a certa altura não sei se leio ou se vivo,
Não sei se o meu lugar real é no mundo ou nos teus versos,
Não sei se estou aqui, de pé sobre a terra natural,
Ou de cabeça pra baixo, pendurado numa espécie de estabelecimento,
No teto natural da tua inspiração de tropel,
No centro do teto da tua intensidade inacessível.
Abram-me todas as portas!
Por força que hei de passar!
Minha senha? Walt Whitman!

E, ainda assim, tudo o que escreveram sobre é tão pouco para transmitir.

sábado, setembro 24, 2011

Thy fingers make early flowers of all things. 
thy hair mostly the hours love: 
a smoothness which sings,saying 
(though love be a day) do not fear,we will go amaying.  
thy whitest feet crisply are straying.
Always thy moist eyes are at kisses playing, 
whose strangeness much says;singing 
(though love be a day) for which girl art thou flowers bringing?  
To be thy lips is a sweet thing and small. 
Death,Thee i call rich beyond wishing
 if this thou catch, else missing.
 (though love be a day and life be nothing,it shall not stop kissing).
e. e. cummings

- Vou ter saudades da tua voz.

Liberdade*

Nos meus cadernos de escola
Nesta carteira nas árvores
Nas areias e na neve
Escrevo teu nome

Em toda página lida
Em toda página branca
Pedra sangue papel cinza
Escrevo teu nome

Nas imagens redouradas
Na armadura dos guerreiros
E na coroa dos reis
Escrevo teu nome

Nas jungles e no deserto
Nos ninhos e nas giestas
No céu da minha infância
Escrevo teu nome

Nas maravilhas das noites
No pão branco de cada dia
Nas estações enlaçadas
Escrevo teu nome

Nos meus farrapos de azul
No tanque sol que mofou
No lago lua vivendo
Escrevo teu nome

Nas campinas do horizonte
Nas asas dos passarinhos
E no moinho das sombras
Escrevo teu nome

Em cada sopro de aurora
Na água do mar nos navios
Na serrania demente
Escrevo teu nome

Até na espuma das nuvens
No suor das tempestades
Na chuva insípida e espessa
Escrevo teu nome

Nas formas resplandecentes
Nos sinos das sete cores
E na física verdade
Escrevo teu nome

Nas veredas acordadas
E nos caminhos abertos
Nas praças que regurgitam
Escrevo teu nome

Na lâmpada que se acende
Na lâmpada que se apaga
Em minhas casas reunidas
Escrevo teu nome

No fruto partido em dois
de meu espelho e meu quarto
Na cama concha vazia
Escrevo teu nome

Em meu cão guloso e meigo
Em suas orelhas fitas
Em sua pata canhestra
Escrevo teu nome

No trampolim desta porta
Nos objetos familiares
Na língua do fogo puro
Escrevo teu nome

Em toda carne possuída
Na fronte de meus amigos
Em cada mão que se estende
Escrevo teu nome

Na vidraça das surpresas
Nos lábios que estão atentos
Bem acima do silêncio
Escrevo teu nome

Em meus refúgios destruídos
Em meus faróis desabados
Nas paredes do meu tédio
Escrevo teu nome

Na ausência sem mais desejos
Na solidão despojada
E nas escadas da morte
Escrevo teu nome

Na saúde recobrada
No perigo dissipado
Na esperança sem memórias
Escrevo teu nome

E ao poder de uma palavra
Recomeço minha vida
Nasci pra te conhecer
E te chamar

Paul Éluard
O homem que preservava a sua juventude considerava-se mais adulto.

Por um fenómeno inexplicável, o homem que preservava a liberdade via os outros desaparecerem do Éden. Eles iam constituindo família, tendo filhos, vindo do hipermercado cheios de sacos, labutando, mudando fraldas, não dormindo com o choro bebés.

Eles eram mortos-vivos aos seus olhos. Autómatos.

Da praia infinita onde habitava, com os cambiantes azuis, verdes e iridescentes das águas, com o areal de todas as texturas, com o sol de todos os sabores e o luar de todos os odores, não entendia como alguém poderia afundar-se na floresta escura.

Via-os com pena e distanciamento.

Eles outrora tinham viço e alma. Desapareciam subitamente alguns na floresta de árvores escuras, como se uma corda vinda das entranhas da terra se lhes enlaçasse no pescoço sugando-os para as profundezas. Desapareciam lentamente... Alguns imergindo lentamente na terra da floresta das árvores de copas negras. Lá era sempre noite ou nevoeiro.

Tentava falar com os homens da floresta escura. Mas quando eles passavam para lá, a linguagem era outra, o passado era rasurado, a alma era aspirada.

Um dia, espreitou de cima a floresta das árvores escuras.

Todos trajavam de igual e todos tinham a cabeça rapada. O ricto na face era o mesmo. O sorriso impossível de acontecer na clausura do rosto era um horror difícil de ver de olhos abertos. Prometeu a si mesmo não voltar a olhar.

«Que barbárie.»



As omissões [na entrevista de Passos Coelho] foram muitas, como já se viu. Uma, acaso a mais importante, foi a da cultura. Nada se disse. Nem sequer a palavra foi pronunciada. A cultura mete medo. Sempre meteu, a qualquer Governo e em qualquer circunstância. Este, até acabou com o ministério e substituiu-o por uma secretaria de Estado. É uma minimização, queira-se ou não se queira. Todavia, a cultura é um bem rendível, para quem entenda a cultura como uma componente fundamental de qualquer Estado moderno. Este Executivo é composto de burocratas e de economistas, gente pouco dada às belas letras e às belas artes. Alguém teria de dizer ao dr. Passos Coelho que não é bom sinal nem clara perspectiva ignorar-se o que de melhor temos nos País.

Baptista-Bastos

quinta-feira, setembro 22, 2011

quarta-feira, setembro 21, 2011

Da distorção da Igreja Católica do que era a Família para Cristo

Mateus 12:46-50

  1. Enquanto ele ainda falava à multidão, a mãe e os irmãos dele estavam de fora, procurando falar-lhe.
  2. E alguém disse-lhe: "olha, tua mãe e teus irmãos estão lá fora e procuram falar-te".
  3. Mas ele respondeu ao que lhe falava: "quem é minha mãe e quem são meus irmãos"?
  4. E estendendo a mão para seus discípulos, disse: "Eis minha mãe e meus irmãos;
  5. porque aquele que fizer a vontade de meu Pai que está nos céus, esse é meu irmão, irmã e mãe!
9 – Não julgueis que vim trazer paz a Terra; não vim trazer-lhe paz, mas espada; porque vim separar o homem contra seu pai, e a filha contra sua mãe, e a nora contra sua sogra; e os inimigos do homem serão os seus mesmos familiares. (Mateus, X: 34-36).
A mais-valia de Marx deveria ser redistribuída pelos trabalhadores porque era um confisco sobre o trabalho. Mas isso só é aplicável em empresas que dêem lucro. Acaso deveríamos fazer cobrar os prejuízos aos trabalhadores como menos-valias?