Estava numa casa cheia de luz. Sentado num sofá, tinha em frente uma janela toda espelhada com vista para uma piscina azul-celestial.
O que parecia o Éden era uma sala de tortura.
Em pé, andando à minha volta, levando a mão à cabeça, o marido dela ia soltando perguntas.
- Como é que tu justificas esta fotografia?
Mostrava-me uma fotografia com a mulher dele.
- Ela é minha mulher. Eu mato-te!!!! Eu mato-te!!!!
Além da espada que brandia, percebi que toda a sala tinha armas disfarçadas de objectos de arte.
- Ei, ouve... Eu não fiz nada. Cruzei-me acidentalmente na rua e alguém tirou a fotografia. Nós não estamos a fazer nada.
- E se me estás a enganar, cabrão? Eu mato-te. Eu vou descobrir. Eu mato-te se tiveste isto - juntava os dedos polegar e indicador - com ela.
- Eu não tive nada, nada com ela. E tu não tens provas. Porque não houve nada. Há anos que não a vejo.
- Há anos?
O indivíduo remexia caixas num frenesim.
- Há mais fotos, seu cabrão!
À medida que ia mostrando uma a uma, eu tinha de explicar se não queria morrer.
- É uma montagem.
Ele gritava e eu aproveitava as pausas.
- Repara! - gritava eu a certa altura. - Repara nisto. Não vês que não sou eu. Não vês que o tronco não joga com as pernas. Foi feita uma montagem.
«Se não podes convencê-lo, confunde-o», pensava.
- Pois... aqui, parece que não és tu.
Quando pensava que folgava, vinha outra.
- Não vês que isso é tudo montagem?
- Explica-me esta! Explica-me esta!
- Ouve, fazemos assim. Vamos identificar o lugar e vamos pedir filmagens.
- Filmagens?
- Sim, hoje é tudo filmado.
- Mas a que horas foi?
- Eh pá, pedimos filmagens do dia inteiro.
- Mas de que dia?
- Eu ou ela estávamos lá, o outro é que foi adicionado por montagem, percebes? Eu não estive lá.
- Hum...
Ele ligou à mulher. Ela confirmou ter estado lá no dia x.
- E agora quem é que nos dá as filmagens?
- Eu peço a um contacto que tenho na câmara. Posso ir-me embora?
- NÃO!!!!!! Há mais coisas que vais ter de me explicar!
- E esta fotografia?
- Esse nem é o corpo dela?
- MAS TU SABES COMO É O CORPO DELA?! - ele desembainhava a espada.
- ESTOU A DIZER PELO CABELO!
A espada não completava o percurso e o ódio aterrava.
- Não parece o cabelo dela, não.
- Não vês que é mais uma montagem?
- Pois é... Mas há uma coisa em que não se pode fazer montagens...
Sorria malevolamente.
Eu fingia tranquilidade.
- Sabes o que é?
- Não faço ideia.
- É O TELEMÓVEL!!!!!!!! Tenho chamadas dela para o teu número.
- Eu nunca lhe liguei, não sei... Nem falei com ela ao telefone.
- Mas está aqui, mentiroso!!!!
- Eu não te menti e já viste que estavas equivocado nas fotos...
- Calma, tu ainda cá voltas para ver as filmagens do teu amigo da câmara. Mas explica-me isto!
«Porra para o verbo explicar», já estava a ficar raivoso.
O meu nome aparecia num registo de chamadas.
- Mas, ouve lá, isso não tem aí o número? Os registos de chamadas têm números, pá. Pode ser alguém com o meu nome.
- Não gozes comigo!!!! TU NÃO GOZES COMIGO, OUVISTE?
- TU É QUE ESTÁS A GOZAR! UM PAPEL COM NOMES NO REGISTO. LIGA PARA A OPERADORA, SFF.
- Qual o número?
- Vê na Internet.
Ele foi procurar.
- Agora, pergunta-lhes se não dão os registos com os números e nunca com os nomes.
A chamada esclareceu-o.
- Eu acho é que estão a gozar contigo. Fotos montadas, registos não oficiais que só enganam parvos.
- Eu não sou parvo!!!
- Estás a ser. Prendes-me aqui. Alguém se está a rir de ti neste momento.
- Não sei, não sei... e enquanto não souber ficas aqui! Já me disseram que há filmagens... Ah, agora o teu rosto mudou!!!!!!!! Se calhar, fizeste o que não devias!!!!!
- Não há filmagens.
- Disseram-me que havia.
- Não há nada e já percebeste que te enganaram em tudo até aqui. Repara que nunca te enganei.
- Sim, não era o cabelo dela.
- Tu não és parvo.
- Pois não. Pede lá as filmagens à câmara. Liga daqui! Quero ouvir essa chamada!
Cumpri.
- Ele vai ter para a semana.
Levantei-me, ele baixou a arma, deu-me uma palmada amistosa nas costas e largou:
- Tu sabes que eu não sou parvo, não sabes?
- Não te deixes enganar.
- Quem é que me anda a enganar.
- Tenho de pensar nisso. Mas tenho algumas suspeitas.
- Tens?
(Ia ganhando espaço para me dirigir até à porta.)
- Mas olha que isto não acabou... E se tu tiveste alguma coisa com ela?
- NÃO TIVE!!!
- Vamos ver... Voltas cá para uma segunda sessão.