sábado, setembro 10, 2011

Minha laranja amarga e doce meu poema feito de gomos de saudade minha pena pesada e leve secreta e pura minha passagem para o breve breve instante da loucura.  Minha ousadia meu galope minha rédea meu potro doido minha chama minha réstia de luz intensa de voz aberta minha denúncia do que pensa do que sente a gente certa.  Em ti respiro em ti eu provo por ti consigo esta força que de novo em ti persigo em ti percorro cavalo à solta pela margem do teu corpo.  Minha alegria minha amargura minha coragem de correr contra a ternura.  Por isso digo canção castigo amêndoa travo corpo alma amante amigo por isso canto por isso digo alpendre casa cama arca do meu trigo.  Meu desafio minha aventura minha coragem de correr contra a ternura.
Idem

A cidade é um chão de palavras pisadas [...] A cidade é um céu de palavras paradas [...]  A cidade é um saco  um pulmão que respira pela palavra água  pela palavra brisa A cidade é um poro  um corpo que transpira pela palavra sangue  pela palavra ira.  [...]  A palavra sarcasmo é uma rosa rubra. A palavra silêncio é uma rosa chá. Não há céu de palavras que a cidade não cubra não há rua de sons que a palavra não corra à procura da sombra de uma luz que não há.                    
José Carlos Ary dos Santos
O erudito ingere. O culto saboreia.

O erudito debita exteriormente. O culto incorpora na vida.

O erudito encontra padrões. O culto, dissimilitudes.

O erudito é cinzento. O culto, multicolor.

O erudito privilegia o académico. O culto despreza-o.

O erudito tem uma visão de caixinhas. O culto tem o espírito dúctil.




Quando não se consegue desmontar a argumentação, desqualifica-se o interlocutor.

Estaline, boçal e crudelíssimo, fazia-o, e entre as muitas características do estalinismo, a máxima anterior era uma marca de água do mesmo.

Em morrendo alguém, assassinado pelas purgas, logo era forjada uma notícia:

«Um louco perigoso.» «Um burguês contra-revolucionário conspiracionista.»

O próprio Cunhal, instado a falar sobre a obra de Orwell, activou a máquina de diminuir os pensamentos e disse apenas:

«Um alcoólico, um alcoólico.»

Infelizmente, esta prática não morreu com a morte do estalinismo. É a mais paupérrima forma de retórica.
a nightmare of you of death in the pool
wakes me at quarter to three

RS
E um vago soluço partindo melodiosamente
Do antiquíssimo de nós
Onde têm raiz todas essas árvores de maravilha
Cujos frutos são os sonhos que afagamos e amamos
Porque os sabemos fora de relação com o que há na vida.

Fernando Pessoa
- Tu és muito romântico, sim. Mas reservas é todo o romantismo para a literatura e a poesia.
- As mulheres já nascem ensinadas.
Escreves um livro com o título: .

Não um livro sem título.

As pessoas chegam às livrarias e perguntam:

- Tem o ?
- Tenho. Vou buscar.

Um leitor sugere aos outros:

- Devias gostar de ler .

Quando se alvitra um livro para oferecer:

- Dá-lhe o .

Nas bibliotecas, basta pôr um enter no título. E como de á a zê, não se pode catalogar o livro, cria-se uma categoria à parte para o .


Todo o trabalho que não é remunerado é exploração. Todo. (Exceptuando o voluntariado para associações não lucrativas.)

Espanta-me sempre as pessoas que engolem as inanidades da «experiência enriquecedora» e seus derivativos.

Já José Alberto Braga escreveu que evoluímos tanto que hoje até os escravos têm bilhete de identidade.
Tinha as tatuagens, os aparatos todos do nazismo. Olhei-o nos olhos. É difícil ter imaginação para qualificar o ódio que vi.

Já alguma vez olhaste bem fundo no olhar de um nazi?

sexta-feira, setembro 09, 2011

Os especialistas em marketing garantem que quando se ouve uma frase começada por «não», a parte retida mentalmente é o que vem a seguir.

Quando um político diz que não rouba, pensamos que pode roubar.

Quando um marido diz que não trai a mulher, suspeitamos de que trai.

Quando alguém diz não ter medo de fazer xis, sabemos que é das coisas que mais o atemorizam.
Um conhecido meu assistiu, num café, a um individuo telefonar (presumivelmente, à polícia) a denunciar outro que fumava onde não podia. Parece que o fumador foi multado em centenas de euros, assim como o estabelecimento.

Lembrei-me de um episódio no liceu. Um colega graxista foi denunciar, num sussurro, a um professor que outro colega tinha copiado.

O professor assentiu com a cabeça.

O graxistazinho cívico ainda teve a lata de perguntar:

- Ele vai ser castigado?

- Não, mas tu se insistires vais. Por seres bufo. Isso é muito mais feio do que copiar.
Pacheco Pereira, a propósito da proposta do Bastonário da Ordem dos Médicos de aumentar imposto sobre fast food por fazer mal ao corpo, pergunta se também haverá imposto sobre as revistas cor-de-rosa por fazerem mal à mente.

quinta-feira, setembro 08, 2011

tu messias mais


se ninguém te quiser ouvir grita

escala um arranha-céus e diz tudo

até que as entranhas se esvaiam em acordeões

até que sejas impossível de ignorar

e se te baterem bate a mais portas

e se te baterem mais usa a testa como aríete e entra-lhes nos pensamentos

tu sabes que tens razão

tu tens sempre razão

tu vais salvar toda a gente de si própria

tu sabes o segredo que lhes vai mudar as vidas

tu és o sopro que lhes falta quando assobiam

o som da trombeta

o guizo do chapéu

o rasgo do papel

o mago da magia

o marco do correio

o pico do cume

a água do dromedário

tu vieste para ajudar

tu só queres ajudar

então porque não te deixam?

porque não te sopram carinho ao ouvido e te chamam nomes feios que tu sabes não serem da tua família nem da afastada

a sociedade também foi feita para ti

um bocadinho foi

um buraquinho foi

porque não te deixam entrar lá?

porque não te deixam estar lá?

querem-te à chuva e ao frio

sem amigos

sem calor

sem pão

sem sal

não te dão nem um naco da tua própria carne

nem a luz do teu quarto

nem o silêncio da tua mente

e tu aceitas?

e tu ficas-te?

e tu não protestas?

seu banana

seu falhado

seu funcionário sem sindicato

sua mulherzinha que nunca votou

sua criancinha que limpa o prato

seu homossexual não assumido

seu cão sem pulgas

seu cabrão sem cornos

seu tronco sem pau

seu pau mandado

seu arado sem terra

seu dinossauro radioactivo sem cidade japonesa

seu lamparina sem petróleo que foi inundar uma gaivota

seu cabeça sem capacho

seu diamante

seu bruto

seu papa-açorda

seu caramelo

seu lambe-cus

seu

seu

seu

seu és tu

seu és tu ouviste

seu é contigo

seu é para ti acorda

já é noite

já foi dia

amanhã vai ser tudo isso outra vez e tu estás ao relento

não tens onde ficar

não tens lugar na terra e ninguém to vai dar se não esgravatares

procura

pede

come

ataca

implora

arrasta-te

resvala

escorrega

assusta-os

ignora-os

tu sabes que tens razão

e a tua razão é respirar

se respiras tens direito à vida

se tens direito à vida tens direito a chorar

se tens direito a chorar tens direito a voz

se tens direito a voz tens direito a que te ouçam

se tens direito a que te ouçam tens direito a dizer algo que lhes mude as vidas

se tens direito a dizer algo a que lhes mude as vidas tens direito a mudar também a tua

não peças respeito

nasce respeitado

não implores por dignidade

apregoa a dignificação do Homem

não mendigues comida

acaba com a fome

não protejas os teus filhos

protege todos os filhos

não procures uma religião

faz o que um Deus bom faria

não ouças tudo o que te dizem

ouve todos os que falam

tens direito ao teu canto

e o teu canto é o de mudar tudo

tu podes mudar tudo

tu deves mudar tudo

tu sabes mudar tudo

repara nas pessoas e muda-as para melhor se elas quiserem

aproveita para ires melhorando também

dá-te como se fosses de borla

não peças nada em troca mas dá com um sorriso mais rasgado a quem te der um beijo no fim

não tenhas medo que te interpretem mal

aliás não tenhas medo que te interpretem

aliás não tenhas medo

guarda o melhor para os outros e o pior para ti

mas não sejas cruel contigo que és o único que tens

tens que ter noção do teu papel

e o teu papel é duro como se embrulhasse pregos ou cacos que não queremos nas mãos do senhor da recolha nem nos dentes do gato vadio

o que tu vais fazer agora porque é o único tempo que te pertence é mudar

mudar até que nada fica igual

até que esteja mesmo do agrado de todos

mas se por acaso no meio do teu percurso de conflito e mudança

no meio da tua jornada de luta pelo bem encontrares algo de profundamente belo

não lhe mexas

não lhe toques

pega numa cadeira de praia monta-a e senta-te calmamente a aprecia


João Negreiros

Santo Agostinho escreveu que Deus aprova as coisas porque são boas e não que as coisas são boas porque Deus aprova. Se assim não fosse, poderíamos considerar o Holocausto, a tortura, a pena de morte, a crueldade sobre os animais como o Bem.

Personagens - o Professor Ludovico

- Quando te deixar em casa, queres que te dê os meus olhos para veres o que eu vejo?
Para Jakobson, a linguagem, além de todas as suas funções práticas, tem uma função metalinguística. A linguagem permite falar sobre a própria linguagem.

«Napoleão é um nome próprio.»

«Vermelho é um adjectivo qualificativo.»

Capitalismo tentacular - as editoras e livrarias independentes estão condenadas à extinção

Presidente da APEL (Associação Portuguesa dos Editores e Livreiros): Paulo Teixeira Pinto, Babel.
Vice-presidente: Isaías Gomes Teixeira, Leya.
Vice-presidente: Carlos Teixeira, Porta Editora.
Livreiros: FNAC e Corte Inglês.