quinta-feira, agosto 04, 2011

«[...] a sua voz era a promessa de que tomaria conta dela e que, um pouco mais tarde, abriria mundos inteiramente novos a seus olhos, desenrolando uma sucessão infindável de magníficas possibilidades.»

Francis Scott Fitzgerald


One need not be a chamber to be haunted, one need not to be a house.
The brain has corridors surpassing material place.


Emily Dickinson

Só a crença na geração-corrupção aristotélica nos poderá consolar

No exame nacional de Português de 12.º ano (2.ª fase), pedia-se um texto sobre «o papel do sonho no ser humano». Uma amiga minha, professora de Português, mostrou-me testes inenarráveis. Eis três excertos de três «composições» sobre o sonho:


«[...] por vezes, é através dos sonhos que nos apercebemos de certas coisas onde na realidade ignoramos.»

«as pessoas mais ricas sonham [...] com ter 2 ou 3 carros de luxo, e umas casas em todos os Paises, já o a passoa com dificuldade não.»

«No meu ponto de vista, sobre o sonho, e apesar de muitas teorias, acho que existem três bem engraçadas e com diferentes opiniões, estas três são: a teoria dos crentes, a teoria dos psicologias e filosóficos, e a teoria dos cientistas.»
- Vejo-te pendurado nos ombros da imortalidade.
Vassourar clichés da fala e da escrita - o primeiro passo para se ser uma pessoa interessante.

quarta-feira, agosto 03, 2011

Sthar e Kathleen dançaram. Quando ela se aproximou, a visão dele ficou turva. Por um instante, ela parecia irreal. Sthar continuou deslumbrado enquanto dançavam. Ambos estavam em sintonia, fossem quais fossem as palavras. Os olhos dela convidaram-no para um encontro de incrível intensidade. Como se tivesse percebido, disse, assustada: «Tenho de ir.» Sthar encostou-a a si. [...] «Não consigo respirar bem quando estou consigo», disse ela. Pegou no longo vestido e virou costas.

F. Scott Fitzgerald
Das ruínas do desespero é que se forma o nosso carácter.

Emerson
Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa - como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está?
As pessoas têm de morrer; os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar. Sim, mas como se faz? Como se esquece? Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Podem pôr-se processos e acções de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas! É preciso aguentar. Já ninguém está para isso, mas é preciso aguentar. A primeira parte de qualquer cura é aceitar-se que se está doente. É preciso paciência. O pior é que vivemos tempos imediatos em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou do coração. Ninguém aguenta estar triste. Ninguém aguenta estar sozinho. Tomam-se conselhos e comprimidos. Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se. Não se pode esquecer alguém antes de terminar de lembrá-lo. Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada. É uma dor que é preciso aceitar, primeiro, aceitar.
É preciso aceitar esta mágoa, esta moinha, que nos despedaça o coração e que nos mói mesmo e que nos dá cabo do juízo. É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução. Quantos problemas do mundo seriam menos pesados se tivessem apenas o peso que têm em si, isto é, se os livrássemos da carga que lhes damos, aceitando que não têm solução.
Não adianta fugir com o rabo à seringa. Muitas vezes nem há seringa. Nem injecção. Nem remédio. Nem conhecimento certo da doença de que se padece. Muitas vezes só existe a agulha.
Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado.
O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar.

Miguel Esteves Cardoso

O Fosso Sangrento

Tenho para mim que o desfecho desta governação vai desembocar em algo de muito mau. Um mês e pouco depois da entrada no poder, o que o Executivo tem feito não corresponde à ideia de que o bom Governo é aquele cujas decisões são balizadas pela equidade e pela ductilidade. Estas, têm sido marcadas por uma brutalidade insuportável, atribuindo-se a violência ao memorando da troika, que (dizem) pouco espaço de manobra permite. O aumento no preço dos transportes é outro dos sinais dessa brutalidade. E a inquietação generalizada dos que mais sofrem a insensibilidade das deliberações está a transformar-se em indignação.

Sabe-se que o pensamento social de Passos Coelho se baseia nas doutrinas ultraliberais, e que o seu projecto legislativo é um decalque do que de pior se recupera na Europa actual, onde as crispações neofascistas não são aparições momentâneas. A perseverança com que o Estado-previdência é atacado e minado, os termos com que o comunismo, o trabalhismo, a social-democracia e o socialismo democrático são execrados e embrulhados no mesmo saco leva a considerar que o plano visa mais longe.

Os termos político-económicos com que hoje somos instados a pensar obedecem a uma estratégia global, a qual contribui para agudizar a situação de extrema vulnerabilidade em que nos encontramos. Acresce o facto de, depois da queda do Muro de Berlim e da implosão das sociedades do Leste, o que sobrou da esquerda foram caricaturas mal-amanhadas, de que são exemplos funestos o sr. Tony Blair e a "terceira via". Em Portugal, esta extensão particular do assassínio da ideia socialista foi perpetrada não só por António Guterres e José Sócrates mas por outros mais. A bom entendedor...

Passos Coelho resulta dessas contradições, e a canonização dos banqueiros e dos "empresários", a que procede, com ilimitada subserviência e admiração, não é maior do que aquela, precedida por Sócrates, e, embora mais moderada, por Guterres. A capitulação de uns e a argúcia ascensional de outros; a abdicação da ideologia e das convicções e a sua substituição pelo "pragmatismo" permitiram e facilitaram a fé cega e suicida no "mercado", no qual o Estado tem uma interferência mínima.

No pouco tempo da sua gestão, o primeiro-ministro já nos forneceu indicações do que pretende. E o que pretende, com afobamento criticável e impiedade infantil, contraria qualquer ideia de equilíbrio na sociedade portuguesa. Ainda há dias, quando as brutais decisões de "austeridade" deram outra sarrafada nos nossos infortúnios, a imprensa publicou a lista dos homens mais ricos no nosso país. O fosso entre nós e os outros é cada vez mais sangrento. Creio que Passos Coelho abriu a caixa de Pandora, sem se aperceber muito bem da natureza e das consequências dos seus actos.


Baptista-Bastos

terça-feira, agosto 02, 2011

- Eu tenho mais asco por um magnata corrupto que atira magotes para a miséria e o desemprego do que por um pedófilo. Bem sei dos traumas irreversíveis, bem sei do sofrimento inimaginável... Mas um pedófilo não escolheu, regra geral, ser assim. Ele tem de se debater com uma compulsão tremenda. A parafilia não é o prazer de ter sexo com crianças, a parafilia é o só conseguir ter prazer com crianças. Claro que qualquer progenitor terá uma dificuldade tremenda em poder escutar neutralmente este assunto. Comecemos com uma estatística. 75% dos pedófilos foram abusados na infância. Segundo, a psiquiatria diz ser a compulsão com maior taxa de reincidência. Terceiro, a maior parte dos pedófilos está convencido de que não faz mal às crianças. Quarto, vivemos uma cultura milenar que não pune a pedofilia. Na Grécia Antiga, era um ritual de iniciação dos efebos. Já no século XX, André Gide escreveu, sem despertar escândalo, as delícias incomparáveis de estar com os jovens entre de 14 anos. E no interior, isso nunca foi punido. Isto tudo só para não diabolizarmos ninguém. O rótulo monstro é apenas recusa obstinada de não tentar compreender o fenómeno.

segunda-feira, agosto 01, 2011

O amor é uma coisa muito estranha, que todos os dias nos acorda, depois de sonhos inequívocos, a lembrar-nos que estamos condenados à pessoa que amamos. E ficamos, por estarmos apaixonados, convencidos. Que o nosso inteiro coração, por estar ocupado por ela, está entregue a expandir-se ilimitadamente por causa disso, por uma só pessoa.


Miguel Esteves Cardoso
Tantas caras curiosas! Todas as caras são curiosas
E nada traz tanta religiosidade como olhar muito para gente.

Álvaro de Campos
Os órgãos de comunicação social estão dominados pela direita.

Mário Soares
Eles jogam um jogo estranho. Perversamente. Deliciosamente. Timidamente. Subtilmente.

Ela acha que ele é que começou a jogar.

Ele acha que ela é que começou a jogar.

Ele não sabe quando ela fala a sério ou quando ela fala a brincar.

Ela não sabe quando ele é provocador consequente ou inconsequente.

Ele dá e tira porque acha que ela dá e tira.

Ela tem medo de acreditar nele, mas, nos melhores momentos, contradiz tudo e faz declarações eivadas de pouca ambiguidade.

Vão viver nisto durante décadas.


Para uma alma jainista, alguém estar apaixonado por si de forma não correspondida é tão ou mais doloroso do que estar-se apaixonado sem reciprocidade.

Contrariedades

Eu hoje estou cruel, frenético, exigente;
Nem posso tolerar os livros mais bizarros.
Incrível! Já fumei três maços de cigarros
Consecutivamente.

Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos:
Tanta depravação nos usos, nos costumes!
Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes
E os ângulos agudos.

Sentei-me à secretária. Ali defronte mora
Uma infeliz, sem peito, os dois pulmões doentes;
Sofre de faltas de ar, morreram-lhe os parentes
E engoma para fora.

Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas!
Tão lívida! O doutor deixou-a. Mortifica.
Lidando sempre! E deve a conta na botica!
Mal ganha para sopas...

O obstáculo estimula, torna-nos perversos;
Agora sinto-me eu cheio de raivas frias,
Por causa dum jornal me rejeitar, há dias,
Um folhetim de versos.

Que mau humor! Rasguei uma epopéia morta
No fundo da gaveta. O que produz o estudo?
Mais duma redação, das que elogiam tudo,
Me tem fechado a porta.

A crítica segundo o método de Taine
Ignoram-na. Juntei numa fogueira imensa
Muitíssimos papéis inéditos. A imprensa
Vale um desdém solene.

Com raras exceções merece-me o epigrama.
Deu meia-noite; e em paz pela calçada abaixo,
Soluça um sol-e-dó. Chuvisca. O populacho
Diverte-se na lama.

Eu nunca dediquei poemas às fortunas,
Mas sim, por deferência, a amigos ou a artistas.
Independente! Só por isso os jornalistas
Me negam as colunas.

Receiam que o assinante ingênuo os abandone,
Se forem publicar tais coisas, tais autores.
Arte? Não lhes convêm, visto que os seus leitores
Deliram por Zaccone.

Um prosador qualquer desfruta fama honrosa,
Obtém dinheiro, arranja a sua coterie;
E a mim, não há questão que mais me contrarie
Do que escrever em prosa.

A adulação repugna aos sentimentos finos;
Eu raramente falo aos nossos literatos,
E apuro-me em lançar originais e exatos,
Os meus alexandrinos...

E a tísica? Fechada, e com o ferro aceso!
Ignora que a asfixia a combustão das brasas,
Não foge do estendal que lhe umedece as casas,
E fina-se ao desprezo!

Mantém-se a chá e pão! Antes entrar na cova.
Esvai-se; e todavia, à tarde, fracamente,
Oiço-a cantarolar uma canção plangente
Duma opereta nova!

Perfeitamente. Vou findar sem azedume.
Quem sabe se depois, eu rico e noutros climas,
Conseguirei reler essas antigas rimas,
Impressas em volume?

Nas letras eu conheço um campo de manobras;
Emprega-se a réclame, a intriga, o anúncio, a blague,
E esta poesia pede um editor que pague
Todas as minhas obras

E estou melhor; passou-me a cólera. E a vizinha?
A pobre engomadeira ir-se-á deitar sem ceia?
Vejo-lhe luz no quarto. Inda trabalha. É feia...
Que mundo! Coitadinha!

Cesário Verde

domingo, julho 31, 2011

Às vezes, quando penso nos homens célebres, sinto por eles toda a tristeza da celebridade.
A celebridade é um plebeísmo. Por isso deve ferir uma alma delicada. É um plebeísmo porque estar em evidência, ser olhado por todos inflige a uma criatura delicada uma sensação de parentesco exterior com as criaturas que armam escândalo nas ruas, que gesticulam e falam alto nas praças. O homem que se torna célebre fica sem vida íntima: tornam-se de vidro as paredes da sua vida doméstica; é sempre como se fosse excessivo o seu traje; e aquelas suas mínimas acções - ridiculamente humanas às vezes - que ele quereria invisíveis, coa-as a lente da celebridade para espectaculosas pequenezes, com cuja evidência a sua alma se estraga ou se enfastia. É preciso ser muito grosseiro para se poder ser célebre à vontade.

Depois, além dum plebeísmo, a celebridade é uma contradição. Parecendo que dá valor e força às criaturas, apenas as desvaloriza e as enfraquece. Um homem de génio desconhecido pode gozar a volúpia suave do contraste entre a sua obscuridade e o seu génio; e pode, pensando que seria célebre se quisesse, medir o seu valor com a sua melhor medida, que é ele próprio. Mas, uma vez conhecido, não está mais na sua mão reverter à obscuridade. A celebridade é irreparável. Dela como do tempo, ninguém torna atrás ou se desdiz.

E é por isso que a celebridade é uma fraqueza também. Todo o homem que merece ser célebre sabe que não vale a pena sê-lo. Deixar-se ser célebre é uma fraqueza, uma concessão ao baixo-instinto, feminino ou selvagem, de querer dar nas vistas e nos ouvidos.

Pessoa Ortónimo
- Estou entrincheirada no lado mais solar da minha alma desde que o conheci.
Kant não saiu da sua cidade. As irmãs Brönte mal saíram da clausura, quer da casa, quer da timidez. Kafka via os outros como estranhos, não convivendo e vivendo ensimesmado.

Se é verdade que é preciso viver para escrever, também é verdade que a densidade, a acutilância do globo ocular da alma é muito mais profunda em certos espíritos.
Há os que lutam por amar aquilo que têm e os que lutam por terem aquilo que amam.

George Bernard Shaw