O pátio
Em qualquer competição, sobrepondo-se a qualquer outro critério, procuro sempre saber quem é o mais fraco para torcer por ele. Num jantar, quando sinto uma alma isolada, vou conversar com ela. Quando alguém é ostracizado ou humilhado, ergo-me pronto a defendê-lo antes de saber as suas razões. Mesmo quando o violador de crianças atravessa a multidão, sôfrega de fogo e pedras, é do lado do criminoso que eu estou. Não é uma escolha racional.
Desde cedo que algo muito forte dentro de mim me levou a acreditar que poderia mudar o mundo e salvar todos os infelizes que se cruzavam comigo.
Para conseguir mudar o mundo, enveredei pela política, montando casa na esquerda.
Porquê a esquerda?
Por causa de uma emoção.
Numa luta, o indivíduo de esquerda tem um preconceito irreprimível em favor do que está deitado no chão a levar pancada. Foi sobre este sentimento que se alicerçaram as montanhas de reflexões, teorias e sistemas de teorias da esquerda.
Qualquer arrazoado mais não é do que um encadeamento lógico a partir de axiomas não demonstráveis. (Autor: não debites epistemologia aqui, ainda para mais com aroma a matemática.) É por isso que conseguimos arranjar cem estudos para validar uma opinião e outros cem estudos para validar a opinião contrária.
A omnipresença desses buracos nos sistemas de crenças – pessoais, éticas, políticas ou religiosas – garante-nos que as nossas opções estão escoradas em algo que extravasa a Razão. Na origem das escolhas, habita uma fé, uma estética, um sentimento. Fosse a Razão a imperadora da mente e teríamos todos as mesmas opiniões e o mundo reger-se-ia cinzentamente pelo melhor modelo e pelas melhores leis. (Autor: estás aqui para contar uma história, Alexandre.)
Na faculdade, juntei-me a uma tribo da esquerda da esquerda. Passávamos tardes ao ar livre, no verde do «pátio» (como lhe chamávamos), fumando charros, e conversando sobre política, arte, filosofia e coisíssima nenhuma.
Sentíamos a universidade como algo mais do que uma fábrica de aulas. Faltávamos a algumas cadeiras para tertuliarmos, felizes por podermos estender o corpo e o espírito na relva e descalçar-nos ou usarmos calçar rotas.
Éramos livres e irreverentes, e estávamos convencidíssimos de que o mundo seria um local bem melhor se adoptasse as nossas ideias.
Todos os meses, no primeiro dia de lua cheia, marcávamos um jantar. Nos «jantares da lua cheia», brindávamos ao astro inspirador, à fraternidade, à poesia, e à nossa cumplicidade enquanto seres superiores, libertos das teias de aranha dos espíritos dos seus coevos empoeirados. Em noites mais etílicas, uivávamos à Lua.
Um desses jantares teve lugar em minha casa. Nessa tarde, com as compras na mão, cruzei-me com um amigo de longa data, meu vizinho, e convidei-o para o jantar.
À noite, a campainha tocou e umas calças de ganga de marca, uma camisa aos quadrados enfiada dentro das mesmas, uns sapatos rasos e um penteado de risco ao lado foram suficientes para gerar o silêncio. Apresentei-o como «um grande amigo meu», seguro de que isso amenizaria o ambiente.
Fui à cozinha preparar o jantar. Quando voltei à sala, ele estava num canto, fingindo fazer algo útil na lareira. Levei-o para a cozinha, onde uns murmúrios chegaram até nós: «Temos betaria aqui hoje», «O gajo tem toda a pinta de ser daqueles meninos mesmo buéda conservadores», «Deve tar a pedir ao Alexandre salmão com caviar». Falava com ele para abafar os sons vindos da sala.
As vozes foram-se extinguindo e, quando regressou à sala, um membro do pátio entabulou conversa com ele. Não demorou muito tempo, porém, até que viesse ter comigo à cozinha:
– Ó Alexandre, desculpa lá, posso fechar a porta? É que queria falar uma cena contigo… Eh pá, tá toda a gente a fazer sinais e a apontar para mim. Tenho tido uma postura tão discreta e só tão com piadinhas entredentes: «Olha o beto não vai gostar, olha o beto isto, olha o beto aquilo.» Eh pá, nunca me aconteceu uma cena assim, pá! A perguntarem-me em que colégio é que os meus pais me puseram a estudar, o que é que eles fazem…
No dia seguinte, falando de pé para um conjunto de indivíduos sentados nas cadeiras do pátio, vi-me na triste figura de pregar um sermão. Quando acabei, estava fisicamente aliviado. O sermão mudava da minha cabeça para a deles – eles que reflectissem se quisessem.
O meu sentimento tribal não saiu abalado, mas a primeira fenda foi sulcada – num ponto, não estava em sintonia com o pátio. Se não gostava de ser discriminado por usar calças rotas, de igual modo não gostaria de viver na ditadura das calças rotas.
Aquela noite permitiu-me interiorizar o que alguém perspicaz já teria intuído – o pátio não era misturável com uma grande fatia do «resto do mundo».
Com o tempo, percebi o que podia esperar e não esperar do grupo em que estava inserido, e, evitando os embates do pátio com o mundo herege, fui vivendo-o por dentro até ao tutano. O deslumbramento de sentir que havia criaturas como eu, com os mesmos códigos e linguagens, o mesmo desprendimento de grilhões absurdos, enclausurou-me num gueto – algo de cujas consequências só mais tarde me apercebi.
Outros episódios houve que não deixaram esbater o efeito daquele jantar da lua cheia, formando ligações com ele nos canais da minha mente.
Passeando com um amigo do pátio pelos corredores da faculdade, vi-o arrancar bruscamente um cartaz.
– Então? – perguntei, atónito.
– Tavam a anunciar uma reunião de jovens monárquicos.
– Foda-se, meu, eles têm liberdade de expressão.
– Foda-se, digo eu! Se um patrão tem liberdade para explorar os trabalhadores à vontade, o que é que essa merda me interessa? – gritou-me, como se eu tivesse atraiçoado o ideal por que lutávamos.
Fui invadido por um mal-estar orgânico que me levou a inventar um compromisso e despedir-me.
Era uma reunião cheia de agitação no ar para a constituição do jornal da faculdade. (Autor: falta uma ponte no início da frase.) Os habitantes do pátio eram contra a existência das figuras de editor, redactor e colaborador.
– O quê, bases e cúpulas? – soltou alguém, gerando o caos entre os presentes.
Depois, quando se afloraram os nomes a entrevistar, umas sobrancelhas arqueadas e um dedo em riste levantaram-se da cadeira à velocidade de uma bala:
– Essa mulher nunca será entrevistada para o jornal! Nunca!Ela é co-autora do despedimento do meu pai!
Mais importante do que construirmos algo era sentirmos que os nossos princípios não cediam à flacidez. Era preferível a pureza na inacção do que fazer-se qualquer coisa com o mínimo vestígio de cedência ao Capital.
Quando convidei alguém de direita moderada a escrever, o que deu uma nota dissonante à sinfonia monocromática (Autor: não tenho a certeza de que essa sinestesia pareça intencional) para a qual o Prisma deslizava, o pátio ergueu-se em peso contra a «fascização» do jornal. Um elemento do pátio veio ter comigo com o jornal aberto na página desse «reaccionário», exclamando numa voz tonitruante, enquanto davas palmadas no texto para punir o pecador:
– Isto é uma vergonha pra ti, pá! Este gajo é mesmo ridículo!
– O jornal tem de reflectir as várias tendências que existem na faculdade.
– Mas se tu não concordas, porque é que publicas?
– Não posso publicar só aquilo com que concordo. Mas se estás tão indignado com o que leste, escreve um artigo e eu publico-to.
Entregou-me um texto em que dizimava o opinante de direita. Tinha-lhe dado, como a qualquer colaborador, um limite de caracteres. O artigo excedia o dobro do espaço reservado. Pedi-lhe que encurtasse o texto, recordando-o do número de caracteres acordado.
– Não consigo reduzir isto, não dá. Diminui o tamanho da letra que eu não me importo.
Procurei demonstrar-lhe o absurdo do pedido e, durante duas semanas, roguei-lhe que encurtasse o texto. Aumentava-lhe até, excepcionalmente, o limite de caracteres. Insisti, insisti, insisti. Garanti-lhe, quando o prazo da gráfica começava a apertar, que se ele não o fizesse, teria de ser eu a fazê-lo – algo que me desagradaria imenso porque nunca até então cortara ou modificara uma linha. À data do fecho, voltei a massacrá-lo. Não o consegui persuadir a reduzir o texto. Com pinças, tirei as partes mais inócuas. Quando o jornal saiu, vim a saber que ele andava a pregar:
– Há censura no Prisma e eu senti-a na pele.
Não lhe levei a mal. Conhecia o sentimento – oh, conhecia-o tão bem! – por trás dessa atitude. Nós ex-ci-tá-va-mo-nos quando a censura nos era aplicada. Era a mesma injecção deliciosa no ego que nos impelia a fazer tudo numa manifestação de modo que a polícia («a bófia») nos agredisse, só para nos podermos auto-proclamar vítimas da repressão policial. Como nos sentíamos poderosos quando transgredíamos, como era saboroso navegar contra-corrente…
Lento e teimoso de raciocínio, lá fui martelando dentro da cabeça a ideia de que para o grupo do pátio, liberdade de expressão, algo tantas e tantas vezes reclamado, era estritamente a liberdade concedida às suas ideias. Inutilmente, tentei defender a ideia de que a liberdade de expressão se aquilatava pela liberdade que determinado ambiente dava às ideias a que era precisamente mais hostil.
– Tens conceitos de liberdade burgueses.
Antes via uma linha longitudinal, onde de um lado estava a esquerda e do outro a direita. Quanto mais avançávamos para a esquerda, mais a liberdade aumentava. Quanto mais avançávamos para a direita, mais a liberdade se obliterava. Observando a mesma linha, as conclusões mudavam. Quanto mais nos afastávamos do meio da corda, menos liberdade de expressão havia. (Autor: uma conclusão tão idiota quanto a outra.) Nos extremos, praticamente não havia liberdade – aí morava uma sede inextinguível de poder que instalasse a Verdade.
O combate ao preconceito e à discriminação inundava a nossa prática discursiva de tal forma que estava genuinamente convicto de que lhes éramos imunes.
Mais tarde, percebi que um preconceito (demorei tanto tempo a entender algo tão simples) não é apenas uma generalização abusiva, um juízo de valor predeterminado e infundado contra minorias étnicas ou homossexuais. A definição de preconceito, a substância do mesmo, mantém-se quando as realidades distorcidas são os banqueiros ou os polícias.
Muitas coisas fui compartimentando, mas outras houve que violaram a minha identidade mais profunda – aquela polpa que não pode sofrer um arranhão.
Era próprio daquele grupo um modo de discutir. Massacrava-se o interlocutor com perguntas, fazendo-o entrar num comboio de lógica que no final o esmagava. Uma tirada irónica encerrava o exercício vexatório. Condenávamos, como bons juízes morais que éramos, toda e qualquer jocosidade assente no estatuto social – desde que inferior – ou no aspecto físico – desde que andrajoso, decadente ou proletário –, mas tínhamos um salvo-conduto para humilhar quem não partilhava da nossa cartilha.
– Eu pago-te o psiquiatra – disse um de nós, depois de derrotar intelectualmente o oponente de direita, provocando a hilaridade grupal.
Se torcia sempre pelo mais fraco, torcia só até àquele ponto em que o fraco não espancava o forte. Meus amigos, depois disso não contem comigo. É o risco na areia que não transponho. Nunca aprovarei presos políticos, tortura, pena de morte, linchamentos de fascistas, milionários ou patrões sem escrúpulos. Pensava que a universalidade da dignidade humana era mesmo… universal. Já sabem até onde eu vou, se quiserem levem-me convosco.
Um dia, fui positivamente surpreendido quando alguém no pátio interpelou o resto do grupo:
– Deveríamos aplicar o esforço que fazemos para compreendermos as causas sociais do crime para tentarmos perceber o que leva a que alguém seja etnocêntrico ou de direita.
Entreolhámo-nos com espanto. Estaria ali um inimigo?
Éramos fascistas das ideias. Intolerantes com os intolerantes. Preconceituosos com os preconceituosos. Genocidas intelectuais procurando eliminar até ao último resíduo qualquer ideia contrária à (nossa) Verdade. Era precisamente por termos removido esse determinante possessivo que deveria anteceder a palavra Verdade que nos faltava o grão da dúvida salutar nos nossos espíritos.
O caos informe da realidade estava bem arrumadinho nos nossos esquemas mentais. A direita era materialista e egoísta. Não se ralava que uma parte da humanidade morresse de fome desde que esta, no seu estertor de morte, não espirrasse sangue para os seus casacos de peles e os seus carros de luxo. A esquerda que ocupava o poder era traiçoeira e movediça ante os interesses dos poderosos.
E nós?
Nós éramos o Bem. É um truísmo afirmá-lo – não eram todas as nossas propostas eivadas de amor ao próximo?
Seguros da nossa superior posição moral, revelávamos uma recusa eclesiástica em reavaliarmos as nossas verdades. (Autor: aliteração feia e despropositada.) Os livros, os jornais e as almas que não fossem de esquerda eram desprezíveis.
Manifestávamos um puritanismo excessivo com as palavras. Gaguejávamos quando tínhamos de nos referir a alguma minoria étnica. Não sabíamos, por exemplo, como nomearmos os negros por serem tantas as palavras que púnhamos no Índex. Quando queríamos mencionar os trabalhos mal remunerados e não qualificados, enredávamo-nos em perífrases e eufemismos no pânico de dizermos «as profissões inferiores». Outras palavras havia, como fascista, que esvaziávamos de sentido de tão indiscriminadamente as empregarmos.
O esquerdistamente correcto estava de tal modo enraizado nos nossos espíritos que filtrava as nossas palavras (e, através delas, os nossos pensamentos). Não devia haver grupo religioso ou ultraconservador mais normativo do que o nosso.
A ausência de preconceitos (Autor: fizeste-me enjoar dessa palavra) não surgia de forma natural e espontânea. Era fruto de um constante exercício de vigilância.
Aceitávamos brandamente os preconceitos positivos para com os grupos mais discriminados e os preconceitos negativos para com os grupos dominantes. (Autor: inundaste a prosa com a palavra, outra vez. Merda, pá!)
Acredito que num patamar mais desenvolvido do espírito humano, o etnocentrismo ou a homofobia serão reduzidos a cinzas, porque simplesmente se deixará de reparar na diferença.
Emprestei um livro sobre história da cultura a um indivíduo do pátio e este, antes de o abrir, sensatamente perguntou: (Autor: outro salto de parágrafo desconexo.)
– Ouve lá, este autor é de esquerda?
– É.
– Tens a certeza?
– Tenho.
– Ok, vou ler.
O importante, quando se ouvia uma argumentação, não era confrontar o que nos era dito com o que sabíamos e desse confronto extrair alguma aprendizagem, mas rapidamente colocar uma etiqueta – esquerda ou direita. Se era a segunda, colocávamos todas as pedras de que dispuséssemos à porta dos ouvidos do cérebro.
Se a robustez e a agilidade de uma mente se medem pela quantidade de incerteza que ela é capaz de albergar, então nós éramos perfeitamente estúpidos. Pejávamos a realidade de legendas de modo que se eliminasse à nascença qualquer semente de confusão mental – tudo era preto ou branco sem matizes de cinzento.
A nossa visão parcial do mundo ia-se acentuando. Quando só se conhece uma versão da história, seja de um dos membros do casal, de um dos amigos que cortaram relações, de um dos lados da guerra, tendemos a concordar com o nosso interlocutor. Não é preciso mentir – basta empolar, omitir, tratar pormaiores como pormenores.
Já sabia que de cada vez que ouvia falar do governo ou da Igreja, era para dizer mal. Várias vezes, expressei a opinião de que perdíamos credibilidade tendo juízos tão monolíticos – os que eram bons eram sempre bons; os que eram maus eram sempre maus. Imagino o longo bocejo que suscitávamos naqueles que não eram nossos fiéis…
Ser de esquerda – fui percebendo com a resistência de quem não quer largar o seu filho – não era ter as medalhas da tolerância e da bondade; era antes pertencer a um clube, torcer por um dos lados.
Sintomático da nossa duplicidade era o facto de o nosso julgamento ser infinitamente mais suave quando a tortura, a polícia política, a censura, os assassinatos em larga escala ou o terrorismo ocorriam do nosso lado.
Distorcíamos os factos, achatando-os até que eles coubessem nos nossos ideais. Papagueávamos coisas em que não acreditávamos (a luta interna e as neuroses que não deveria haver em alguns!). Dizíamos, por exemplo, que tínhamos todos as mesmas capacidades.
– Então e um deficiente? – alguém perguntou.
Tacteámos uns bordões e melopeias que trazíamos sempre no bolso, mas como nenhum parecia encaixar-se bem na questão, tivemos de recorrer ao epíteto nazi. Quando não conseguíamos desmontar argumentos, desqualificávamos o inimigo.
Era um disparate fazer assentar o princípio da igualdade ontológica na igualização absurda das capacidades do ser humano. Muitos anos antes, já um escritor resumira a questão, explicando que por mais que diferissem as capacidades (Autor: terceira utilização contígua) dos indivíduos, os seus estômagos eram essencialmente os mesmos. Era um fundamento mais sólido, esse, porque mesmo que se demonstrasse que éramos profundamente díspares em habilidades, ainda assim o ideal da igualdade não ruiria. (Autor: afasta-te do tom ensaístico.)
Algo a que abundantemente apontávamos o dedo eram os três pecados capitais da direita (eu aqui era dos piores, sempre de dedo em riste a catequizar o próximo) – o etnocentrismo, o machismo e a homofobia.
O ponto que mais me impressionou no grupo do pátio foi a sua inflexibilidade na utilização dos dinheiros e bens públicos. (Autor: outra mudança brusca.) Nunca vi ninguém utilizar o telefone institucional, nos vários cargos públicos que ocuparam, para chamadas pessoais, e vi muitos usarem o telefone pessoal para defenderem os interesses de quem representavam. Cheguei a vê-los dormir no chão para evitarem gastar um quarto de hotel com o «dinheiro» dos estudantes.
A preocupação em mudar o mundo era tão exagerada que conduzia a um certo embotamento da sensibilidade aos problemas das pessoas concretas e individualmente consideradas. Houve um tempo prévio, demasiado longo, de idealização das almas de esquerda, em que imaginava que quem lutava por um sistema que eliminasse a fome seria mais solidário com o amigo na desgraça. (Autor: Excremento.)
Puxo fita das bobinas da memória e paro. Estou a falar com o meu melhor amigo do pátio:
– Tou com um problema sério. Preciso muito de falar contigo a sós – peço-lhe que abandonemos o verde do pátio para irmos até um café lá fora, porque senão depressa alguém se juntará e quebrará a intimidade.
Sentados na mesa do café, bebendo algo, atiro:
– O meu pai tem um cancro.
Onde? Há quanto tempo? Que tratamento está a fazer?
Passados dois minutos, diz:
– Não se podem privatizar os hospitais porque…
E discorre longamente sobre o assunto, desatento ao olhar que lhe lança «O meu pai…». Não consigo estancar a torrente, e, no final, quando nos despedimos, não deseja as melhoras e ainda consegue debitar uma estatística.
Na minha mente pouco porosa de então, lá se foi inflitrando a ideia de que a personalidade não era apenas um epifenómeno do ideário político, e, acessoriamente a esta ideia, uma verdade difícil de aceitar para alguém que concebera a esquerda como a causa suprema da sua vida: a solidariedade não era, afinal, uma-virtude-cardeal-património-exclusivo-da-esquerda.
Na política, vemos as pessoas (Autor: palavra em abundância) como seres no papel, etereamente desprovidos de densidade psicológica. O problema é quando lidamos com elas no dia-a-dia, quando nos irritamos com elas, quando nos desiludimos com elas, quando pura e simplesmente, por mais que nos esforcemos… não conseguimos gostar delas (Autor: quando, quando, quando, ela, ela, ela…). O abraço teórico da esquerda que envolve fraternamente toda a humanidade é precisamente isso: teórico. (Autor: parágrafo sofrível.)
Outro factor (Autor: não sei se me agrada esse vocábulo) que, com o tempo e a reflexão inerente, se veio juntar à lista de coisas que me afastavam do grupo do pátio era que este naufragava maldizendo as marés e os ventos, mas quase nunca procurando a bússola. Para cada mil diagnósticos negativos, havia, com sorte, uma solução apontada. Sabíamos de cor os inimigos – o capitalismo, o imperialismo, os grandes grupos económicos –, mas padecíamos de uma incapacidade de apresentar alternativas.
Na origem disto, estaria talvez o sentimento consolador de nós-sozinhos-contra-o-mundo e a orfandade de ideias da esquerda, depois da perda de modelos.
Percorrêramos um longo caminho de ideologias e experiências históricas para voltarmos ao início. Éramos, de novo, socialistas utópicos. Boas intenções, uma nobreza de fins, mas uma indefinição nebulosa quanto aos meios que nos levariam a esse mundo de fraternidade e igualdade.
Afastei-me gradualmente do pátio. Sei que uns inflectiram o caminho, sei que outros, provavelmente a maioria, continuam na senda messiânica. Alguns mudaram logo que acabaram o curso.
Um deles, quando lhe perguntei o que ia fazer, concluída que estava a sua licenciatura, disse-me prontamente:
– Não vou fazer népia, só tirei o curso pra não dar sofrimento aos meus pais. Vou polir umas rochas pá praia…
Duas semanas depois, trabalhava de fato e gravata numa seguradora. O pátio não tornou a vê-lo.
Anos mais tarde, encontrei outro que continuava igual até na própria indumentária e no desenho da barba. Apesar de não me ver desde há muitas mudanças na minha vida, aproximou-se de mim, circunspecto e grave, e, sem uma pergunta prévia de cariz pessoal, sem ter tempo para perder com outra coisa que não fosse o preparar da revolução, afirmou com tom de urgência:
– Isto está cada vez pior. Falta alguém que faça uma reformulação do comunismo que ainda não foi feita. Qualquer reflexão sobre a sociedade, de resto, só pode vir da esquerda. Temos de nos unir e fazer essa reflexão imediatamente. A crise está aí e temos de aproveitá-la. Os gajos de direita não reflectem e isso é uma vantagem que temos de capitalizar. Eles só querem é putas e vinho.
Fiquei momentaneamente sem reacção, e, de repente, desatei a rir-me de forma audível em toda a livraria.
Uma amiga do pátio telefonar-me-ia anos mais tarde para tomarmos café «só os dois».
– A minha cena não é ser do contra. Eu não sou contra nada, sou a favor de… A energia que canalizas é totalmente diferente… Sabes uma coisa, Alexandre? Havia ali muito ódio. Não gosto do ódio. Os grupos de extrema-direita cultivam o ódio e eu demorei muito a perceber que nós fazíamos o mesmo; simplesmente, com alvos diferentes.
Para um idealista, a realidade não é a fonte privilegiada do saber. Apesar de tudo aquilo que ela me fez engolir a contra-gosto, ainda assim, cada vez que conheço alguém e descubro que «é de esquerda», algo continua a sorrir dentro de mim.
(A minha velha mente de esquerda continua a segregar o seu pus.)