segunda-feira, fevereiro 28, 2011

- As solidões normalmente encontram-se.

(a carta da paixão)

Esta mão que escreve a ardente melancolia
da idade
é a mesma que se move entre as nascenças da cabeça,
que à imagem do mundo aberta de têmpora
a têmpora
ateia a sumptuosidade do coração. A demência lavra
a sua queimadura desde os seus recessos negros
onde se formam
as estações até ao cimo,
nas sedas que se escoam com a largura
fluvial
da luz e a espuma, ou da noite e as nebulosas
e o silêncio todo branco.
Os dedos.
A montanha desloca-se sobre o coração que se alumia: a língua
alumia-se: O mel escurece dentro da veia
jugular talhando
a garganta. Nesta mão que escreve afunda-se
a lua, e de alto a baixo, em tuas grutas
obscuras, essa lua
tece as ramas de um sangue mais salgado
e profundo. E o marfim amadurece na terra
como uma constelação. O dia leva-o, a noite
traz para junto da cabeça: essa raiz de osso
vivo. A idade que escrevo
escreve-se
num braço fincado em ti, uma veia
dentro
da tua árvore. Ou um filão ardido de ponto a ponta
da figura cavada
no espelho. Ou ainda a fenda
na fronte por onde começa a estrela animal.
Queima-te a espaçosa
desarrumação das imagens. E trabalha em ti
o suspiro do sangue curvo, um alimento
violento cheio
da luz entrançada na terra. As mãos carregam a força
desde a raiz
dos braços a força
manobra os dedos ao escrever da idade, uma labareda
fechada, a límpida
ferida que me atravessa desde essa tua leveza
sombria como uma dança até
ao poder com que te toco. A mudança. Nenhuma
estação é lenta quando te acrescentas na desordem, nenhum
astro
é tao feroz agarrando toda a cama. Os poros
do teu vestido.
As palavras que escrevo correndo
entre a limalha. A tua boca como um buraco luminoso,
arterial.
E o grande lugar anatómico em que pulsas como um lençol lavrado.
A paixão é voraz, o silêncio
alimenta-se
fixamente de mel envenenado. E eu escrevo-te
toda
no cometa que te envolve as ancas como um beijo.
Os dias côncavos, os quartos alagados, as noites que crescem
nos quartos.
É de ouro a paisagem que nasce: eu torço-a
entre os braços. E há roupas vivas, o imóvel
relâmpago das frutas. O incêndio atrás das noites corta
pelo meio
o abraço da nossa morte. Os fulcros das caras
um pouco loucas
engolfadas, entre as mãos sumptuosas.
A doçura mata.
A luz salta às golfadas.
A terra é alta.
Tu és o nó de sangue que me sufoca.
Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões
da madeira fria. És uma faca cravada na minha
vida secreta. E como estrelas
duplas
consanguíneas, luzimos de um para o outro
nas trevas.



Herberto Helder

Perífrases

Expõe-me com quem deambulas e a tua idiossincrasia augurarei.
(Diz-me com quem andas e te direi quem és)



Espécime avícola na cavidade metacárpica, supera os congéneres revolteando em duplicado.
(Mais vale um pássaro na mão, que dois a voar)



Ausência de percepção ocular, insensibiliza órgão cardial.
(Olhos que não vêem, coração que não sente)



Equídeo objecto de dádiva, não é passível de observação odontológica.
(A cavalo dado não se olham os dentes)



O globo ocular do proprietário torna obesos os bovinos.
(O olho do amo engorda o gado)



Idêntico ascendente, idêntico descendente.
(Tal pai, tal filho)



Descendente de espécime piscícola sabe locomover-se em líquido inorgânico.
(Filho de peixe sabe nadar)



Pequena leguminosa seca após pequena leguminosa seca atesta a capacidadede ingestão de espécie avícola.
(Grão a grão enche a galinha o papo)



Tem o monarca no baixo ventre
(Tem o rei na barriga)



Quem movimenta os músculos supra faciais mais longe do primeiro,movimenta-os substancialmente em condições excepcionais.
(Quem ri por último ri melhor)



Quem aguarda longamente, atinge o estado de exaustão.
(Quem espera desespera)





PROFISSÕES SIMPLES COM PALAVRAS CARAS



TÉCNICO DE CLÍNICA DE CALÇADO – SAPATEIRO



ESPECIALISTA NA ENTREGA DE MENSAGENS ESCRITAS – CARTEIRO



TÉCNICA DE COMUNICAÇÕES – TELEFONISTA



GESTORES DE PARQUEAMENTO - ARRUMADORES DE AUTOMÓVEIS



TÉCNICO DE ALVENARIA – TROLHA

(de autoria desconhecida)

Livros

No seu livro sobre a biblioteca pessoal de Hitler, Timothy Ryback cita Walter Benjamin e a eterna pergunta que toda gente que tem bibliotecas a dar para o grande conhece: "Mas já leu estes livros todos?" De um modo geral, quem faz esta pergunta não é um grande leitor nem tem muita experiência de leitura, porque senão saberia de imediato que é absolutamente impossível ler todos os livros de qualquer biblioteca que tenha mais de 6000-7000 livros, na melhor e raríssima hipótese de se ser um leitor excepcional. Mas na pergunta há também uma ingenuidade que me é muito simpática: se não lê todos esses livros, para que é que os tem? E aí estamos noutro território, passamos da leitura para a bibliofilia. No seu conjunto, tudo costumes dos antigos.

O número de livros que se pode ler em vida é controverso e difícil de avaliar. Há livros e livros, uns maiores e outros mais pequenos, uns mais fáceis de ler e outros impossíveis de ler de forma recreativa, fluente, e que exigem uma leitura muito especial e naturalmente muito lenta. Algumas das maiores asneiras e demonstrações de ignorância que conheço são as afirmações presumidas sobre livros de que não se faz a mínima ideia o que são, muito menos lê-los.

Colecciono testemunhos de três asneiras, uma clássica, duas de pura ignorância. A clássica, chamemos-lhe assim, ocorre num romance "social" de Abel Botelho e diz respeito ao operário que tinha alimentado as chamas da sua "revolução", porque, numa noite de insónia, tinha lido o Capital de Karl Marx. Está-se mesmo a ver na mansarda esquálida, o jovem a ler sem sono à luz da vela ou do gás, o árido volume, presume-se que o primeiro, da complexa obra, que é o último texto que se pode considerar incendiário. Ainda dei o benefício de dúvida de que podia ser a edição resumida que Lafargue fez, mas mesmo assim não calha o livro com o "incêndio". O segundo exemplo foi uma aluna minha de Filosofia, num curso de adultos, que me jurou a pés juntos que, também na noite passada, tinha lido de uma assentada a Crítica da Razão Pura de Kant "inteirinha". Está visto que as noites devem ser particularmente excitantes para certos leitores, que lhes permitem ler de uma assentada várias centenas de páginas de um dos livros mais complexos da história da Filosofia. O livro então nem sequer existia em português e o seu fascínio intelectual só se apreende com uma leitura lenta, longa e quase de vida, e que implica o acesso ao vocabulário filosófico alemão, sem paralelo na sua capacidade conceptual. Chumbou, apesar da sua especialidade nocturna em Kant. O último exemplo foi a tentativa por alguns seguidores cheios de zelo, que queriam justificar uma referência de Passos Coelho a um livro que não existia, a "Fenomenologia do Ser" de Sartre, com uma confusão do leitor então muito jovem com o Ser e o Nada de Sartre, cujo subtítulo é Ensaio de Ontologia Fenomenológica. A mera ideia de que um adolescente, com "interrogações existenciais", teria lido o Ser e o Nada de Sartre, livro que os tais zelosos seguidores não faziam a mínima ideia do que fosse, ainda é mais ignorante do que a pobre aluna que tinha lido o Kant nocturno ou o operário inflamado por Karl Marx.

Voltemos aos livros que efectivamente se podem ler numa vida, deixando as imaginárias leituras para os seus cultores. Para uma biblioteca minimamente razoável, ou seja, acima dos 5000 volumes, e por isso feita por quem gosta de livros, tomo como válidos os números entre 2500 e 6000, no máximo, de livros lidos. 2500, já se trata de um muito bom leitor, 5000 um excelente leitor. Benjamin calculava o número em cerca de 10% de uma biblioteca de amador, e Churchill, numa reflexão sobre os livros que nunca teria tempo para ler, achava que tinha lido por volta de 5000, um número já muito elevado, dado que duvido que tivesse muito tempo para ler, por exemplo, nos anos da guerra.

O número razoável para um grande leitor anda à volta de 100 por ano, o que, em 60 anos úteis de leitura, dá à volta de 6000, mas, mesmo assim, parece-me já muito exagerado, porque ninguém mantém tanta regularidade de leitura. Tenho registo de ter lido na juventude quase um livro por dia, trinta por mês, mas olho com espanto para muitos desses títulos de que não me recordo absolutamente nada. "Alimentaram o monstro", mas desapareceram da memória útil. Mas lembro-me de muitos outros na mesma altura, os únicos que deveriam figurar na lista. Foi assim que li toda a colecção Argonauta até pelo menos ao número 100 e muita literatura americana, Steinbeck, Faulkner, Upton Sinclair, John dos Passos, Erskine Caldwell, todos os volumes da Ática do Pessoa e as traduções do Eliot, antes da sucessão de leituras, já noutra fase, das traduções de Quintela de Holderlin, Novalis e Rilke, e das obras de Thomas Mann. Continuei a ler muito, mas o ritmo baixou para o actual de cerca de um livro por semana, número estatístico, visto que leio dois ou três ao mesmo tempo durante várias semanas. Deixo de parte as "releituras", porque o são do mesmo livro, embora haja uma moda de "releituras", muito faladas em certas entrevistas por quem não lê quase nada - "estou a reler Eça", o livro que toda a gente se "lembra" de ter na mesinha de cabeceira - e são tão inventadas como o Kant, o Sartre e o Marx imaginários.

Na Internet, respondendo a esta mesma pergunta, há quem dê totais superiores de livros lidos, mas se eu quiser ler alguns livros infantis, até posso ler 20 por dia e fazer uma estatística absurda. No meu cálculo, os livros andam à volta de uma média de 200-250 páginas e são, na sua maioria, de leitura "narrativa", ou seja, fáceis de ler. As minhas excepções confirmam a regra, alguns dos livros que li mais recentemente chegaram às 1000 páginas, por exemplo sobre a guerra civil americana, ou a história "oficial" do MI5, e um ou outro cai na categoria do "difícil", como alguns ensaios de Teologia, mas é na base desse cálculo mais modesto que eu me coloco a mim mesmo perante o mesmo espelho de Churchill: calculo ler na vida à volta de 4000-5000 livros, e terei já lido, melhor ou pior, cerca de 3500.

Ou seja, ainda me sobram nas estantes muitos milhares para poder ler, mesmo no caso pouco provável de chegar à idade de Matusalém. Não é grande drama, pior seria deixar de ter livros para ler.

Pacheco Pereira

domingo, fevereiro 27, 2011

- Muitas pessoas embarcam em relações que são apenas um seguro contra a solidão.
- Ainda estou apaixonado por ela, mas estou controlado. Tenho uma doença crónica, mas estou medicado.

Manipuladores

1. Os amuados. São pica-miolos. Nunca te dizem porque estão chateados, mas picam-te os miolos contantemente com os seus silêncios, os seus olhares reprovadores, os seus cantos dos lábios murchos.(Não há paciência.) Nunca te dizem o motivo, mas fazem-te andar a pensar sempre em qualquer-coisa-que-possas-ter-feito-que-os-tenha-melindrado. A culpa sonda-te, sitia-te.

2. Os proféticos. Querem comandar a tua vida. Aproveitam-se de alguma perspicácia para lançarem palpites (por vezes, ambíguos) sobre as tuas decisões. Estão sempre a dizer, especialmente na desgraça surgida das tuas decisões: «Eu bem te avisei.»

3. Os tabu-coléricos. Sempre que lhes falas num determinado assunto, ficam de tal modo irados que te inibes de o fazer doravante. Criam-te tabus por medo. Mas o tabu reside neles.

4. Os dadivosos-cobradores. Fazem-te um grande favor na vida. Cobram-to durante a vida inteira. Não te dizem que é pelo que te fizeram, mas tu sentes sempre que cada acção que possas fazer é pequenina ante o Grande Favor. E assim acumulas mil e um favores minúsculos... Porque se um dia falhares, uma grande boca olhar-te-á com perplexidade e assombro.

sábado, fevereiro 26, 2011

Lolita, luz da minha vida, fogo da minha virilidade. Pecado meu, alma minha. Lo-li-ta: a ponta da língua empreende uma viagem pelo céu-da-boca e apoia-se, na terceira sílaba, na borda dos dentes. Lo.Li.Ta.
Era Lo, simplesmente, de manhã, um metro e quarenta e oito de estatura com os pés descalços. Era Lola quando vestia calças. Era Dolly na escola. Era Dolores quando assinava. Nos meus braços, porém, era sempre Lolita.

Lolita, Vladimir Nabokov

sexta-feira, fevereiro 25, 2011

- Angel, eu acho que tu usas a estratégia do assexuado para engatares.
Os olhos dela não têm uma cor que venha em dicionários.
Se fosses uma palavra, serias «casa».

(As próprias sílabas do teu nome soam como campainhas que emanam acordes especialmente concebidos para a minha alma.)

A tua alegria é tão bonita quanto a tua tristeza.

A tua langorosa melancolia esconde um fruto veloz e erótico.

Debaixo do teu sono, um néctar assoma pronto a explodir - inundando o poema, o mundo, o coração da vida.

Anjo de lábios carregados de murmúrios e voz anelante, quero percorrer os meus dedos pelo teu corpo-alma até ao infinito... Quero desvelar o teu medo e ser queimado pelo teu vulcão.
Todos nós temos tantos quartos e sótãos por explorar.
Eduardo Prado Coelho afirmava que quando citamos de memória textos ou poemas de que gostamos, modelamo-los a ponto de serem como nós gostaríamos que fossem.
Acho que se houvesse um concurso hoje - sem possibilidade de preparação prévia - para ver quem recitava mais poemas de Walt Whitman, e. e. cummings, Herberto Helder, Camões, Álvaro de Campos ou prosa de Scott Fitzgerald ou textos do Pulido Valente ou do Miguel Esteves Cardoso, eu ganharia com larga distância do segundo.
Eu que gasto 45 euros a cortar o cabelo, que legitimidade tenho para chamar fútil a quem quer que seja?
A capacidade de resistência ao tédio.

Acontece-me a mim - e julgo que a todos já acontece, nem que seja por uma vez - ter de estar num acontecimento que é uma «seca». Seja um casamento, uma efeméride, um evento profissional, um jantar com «chatos».

São momentos que podes encarar como desafios. Se não se juntar álcool ou drogas, e quanto mais tempo demorar o fastio - mais endureces a tua carapaça de resistência ao tédio.

Mais consegues estar sozinho - tu-e-tu-próprio.

Por exemplo: a capacidade de resistência ao tédio.

Vivemos numa época (particularmente no Ocidente) em que olhamos muito para o espelho do corpo e pouco para o espelho da alma.
Gosto de desafios. Gosto de situações em que sou-só-eu-e-mais-ninguém. É esse o verdadeiro desafio.


São poucas as pessoas que conseguem estar sozinhas, um curtíssimo momento que seja.

«Estar sozinho» não é apenas não ter mais ninguém no quarto. É estar longe de estímulos - não ter de ir a correr para o telefone, a televisão, a Internet, a música, uma série, um filme, uma tarefa.

É não ter ruído nem distracções sensoriais à volta - como os monges da Cartuxa.

Pascal dizia que todos os problemas da humanidade começavam na incapacidade de um ser humano estar sozinho num quarto.
Um dos grandes problemas do mundo é que há muitas pessoas dispostas a falar e muito poucas dispostas a escutar.

quinta-feira, fevereiro 24, 2011

O segredo bem guardado é o segredo não revelado a ninguém.

Expressões latinas
- É fácil para mim lidar com as crises da minha ex-mulher. Eu antecipo tudo o que ela vai dizer. Mentalizo-me das palavras que vou ouvir e quando ela liga, eu próprio vou dizendo «ok, agora um insulto assim, ok agora um grito, ok agora um choro». Tento ver tudo de fora e como um mantra que já sei de cor e que eu próprio completo com o cérebro. É esta a minha forma de não ter stresse.