segunda-feira, fevereiro 21, 2011
Conversas interceptadas em transportes públicos
- Se o meu irmão morresse, eu ficava com a aparelhagem brutal que o gajo tem. Os cotas a mim deram-me uma que nem vale um terço da dele. Se o gajo morresse, ficava com iPad dele, com o LCD do quarto. A mim, nem um plasma me deram. Se o gajo morresse, não tás bem a ver a quantidade de CD com que eu ficava. E DVD, o gajo tem os concertos todos dos Arcade Fire, dos Stone Temple Pilots e dos Radiohead.
domingo, fevereiro 20, 2011
Jaymes Joyce, um dos produtores de literatura mais hard, teve uma grande paixão na vida: Nora Barnacle - uma mulher semianalfabeta. Nunca leu um livro do marido - mas afirmava que era o maior escritor de sempre. (Um pouco como aqueles pessoas que não entendem um discurso e por isso dizem: Foi muito bom.)
Num dia, ela gosta de bananas. No dia a seguir, ela detesta bananas.
Num dia, ela quer trabalhar a free lancer - e entusiasmadíssima com a ideia. No outro, ela está decidida a ter um contrato.
Num dia, ela quer viajar pelo mundo sem amarras. No outro, quer um lar e uma família.
Num dia, ela lê a Nova Gente. No dia seguinte, lê Proust.
Num dia, ela quer trabalhar a free lancer - e entusiasmadíssima com a ideia. No outro, ela está decidida a ter um contrato.
Num dia, ela quer viajar pelo mundo sem amarras. No outro, quer um lar e uma família.
Num dia, ela lê a Nova Gente. No dia seguinte, lê Proust.
O caminho do meio aristotélico
Um das ideais-motriz que norteiam o meu pensamento é a a de que todo o excesso contém a sombra do seu oposto.
Foi por isso que os totalitarismos de esquerda ou de direita tinha muito mais em comum do que aquilo que os separava. (Daí a expressão de William Reich dos «fascismos vermelhos» e dos «fascismos negros»).
Alguém imensamente seguro de si esconde uma tremenda fragilidade.
Alguém que persegue muito a liberdade, as viagens, o estilhaçar das paredes da mente - no fundo, sente-se preso.
Quantos puritanos e julgadores da impureza alheia não põem velas em cus de criancinhas ou se masturbam em animatógrafos?
Uma das melhores pessoas que conheço contou-me há poucos dias:
- Angel, tu não imaginas os detalhes dos meus sonhos. As coisas que eu faço nos sonhos... há torturas que nem sei onde vou buscar. Inspirariam um filme de terror.
(Fiquei assustado e triste.)
Só disse:
- Tu?!
Imagino que seja o escape para as suas pulsões más a que o seu corpo ético rígido não dê vazão.
Todo o excesso contém a sombra do seu oposto.
Foi por isso que os totalitarismos de esquerda ou de direita tinha muito mais em comum do que aquilo que os separava. (Daí a expressão de William Reich dos «fascismos vermelhos» e dos «fascismos negros»).
Alguém imensamente seguro de si esconde uma tremenda fragilidade.
Alguém que persegue muito a liberdade, as viagens, o estilhaçar das paredes da mente - no fundo, sente-se preso.
Quantos puritanos e julgadores da impureza alheia não põem velas em cus de criancinhas ou se masturbam em animatógrafos?
Uma das melhores pessoas que conheço contou-me há poucos dias:
- Angel, tu não imaginas os detalhes dos meus sonhos. As coisas que eu faço nos sonhos... há torturas que nem sei onde vou buscar. Inspirariam um filme de terror.
(Fiquei assustado e triste.)
Só disse:
- Tu?!
Imagino que seja o escape para as suas pulsões más a que o seu corpo ético rígido não dê vazão.
Todo o excesso contém a sombra do seu oposto.
- Eu gosto de intelectuais. Mais do que isso: admiro-os. Estão num altar. Mas como estão num altar, sinto-os superiores e não lhes toco. De resto, a santidade não é sexy. Por mais que te choque, prefiro coisas mais terrenas. Há corpos tão esculturais que me fazem idealizar que o que está dentro daquele corpo tão bonito só pode ser bonito. E, sim, prefiro ir para a cama com esses corpos esculturais do que com intelectuais.
sábado, fevereiro 19, 2011
- A pena de morte é uma estupidez. Porque se pretender qualificar, dignificar a vida, não pode dar o exemplo tirando a vida. Se alguém é contra a ofensa, não pode reagir à ofensa com uma ofensa, porque isso é dar valor à ofensa. Temos de valorizar o valor, recusando o acto. Odiar o acto e não o actuante. A retaliação é sempre um vitória daquilo que se pretende derrotar.
In vino, homo
Dois amigos meus, heterossexuais, em noites de copos, fizeram revelações homossexuais.
Um por actos. Estava bêbado e disse à saída da discoteca:
- Angel, dá-um um chocho - a sua voz era grossa e crescentemente intimidante. - ANGEL, DÁ-UM UM CHOCHO!
Insistiu algumas vezes e o «episódio» caiu para sempre nos baús do olvido.
Outro por palavras.
- Angel, tinha um amigo meu que era homossexual e estava apaixonado por mim. Um dia declarou-se, eu expliquei-lhe que gostava de mulheres mas que continuava amigo dele, como era óbvio. Depois da declaração, um dia íamos três num carro de dois lugares. Eu tive de me sentar ao colo dele. A certa altura, senti uma erecção. Foi estranho. Por saber que estava a provocar desejo em alguém, senti-me feliz comigo. Era uma questão de ego. E fiquei com uma erecção de contentamento do ego.
Um por actos. Estava bêbado e disse à saída da discoteca:
- Angel, dá-um um chocho - a sua voz era grossa e crescentemente intimidante. - ANGEL, DÁ-UM UM CHOCHO!
Insistiu algumas vezes e o «episódio» caiu para sempre nos baús do olvido.
Outro por palavras.
- Angel, tinha um amigo meu que era homossexual e estava apaixonado por mim. Um dia declarou-se, eu expliquei-lhe que gostava de mulheres mas que continuava amigo dele, como era óbvio. Depois da declaração, um dia íamos três num carro de dois lugares. Eu tive de me sentar ao colo dele. A certa altura, senti uma erecção. Foi estranho. Por saber que estava a provocar desejo em alguém, senti-me feliz comigo. Era uma questão de ego. E fiquei com uma erecção de contentamento do ego.
Do Real
Uma mulher persegue-te. Chamadas, mensagens, convites - diários, bidiários, tridiários... Todos os dias se declara apaixonadamente. Sempre que te vê, tenta atacar-te fisicamente - usando todos os truques. Tu não estás nem aí. (Mas nem aí um atomozinho.)
Fazes reserva disto - não contas a ninguém. Gostas de proteger a intimidade das pessoas.
´
Mais tarde, alguém te pergunta:
- Então atiraste-te à Daniela de forma promíscua?
- Eu?!
- Sim, ela anda a contar histórias terríveis sobre ti. Quase a violaste, meu... Desculpa, mas não se faz, pá.
Lembras-te das 1001 vezes que foste sitiado - e ou te enfureces ou, movido por pena, sorris.
Duas frases de José Alberto Braga ecoam em ti:
«A vingança é um carro sem travões.»
«Uma mulher rejeitada é um exército em ebulição.»
Fazes reserva disto - não contas a ninguém. Gostas de proteger a intimidade das pessoas.
´
Mais tarde, alguém te pergunta:
- Então atiraste-te à Daniela de forma promíscua?
- Eu?!
- Sim, ela anda a contar histórias terríveis sobre ti. Quase a violaste, meu... Desculpa, mas não se faz, pá.
Lembras-te das 1001 vezes que foste sitiado - e ou te enfureces ou, movido por pena, sorris.
Duas frases de José Alberto Braga ecoam em ti:
«A vingança é um carro sem travões.»
«Uma mulher rejeitada é um exército em ebulição.»
Um dos casos que mais me comoveu enquanto advogado foi o de um idoso que era espancado pelo filho por se recusar a ir para um lar. Falei com o senhor de 82 anos, tantas vezes coberto de sangue, dizendo que tínhamos de processar o seu filho e ele só me dizia: «Eu só quero morrer. Processar o meu filho, sôtor? Isso nunca.»
Marinho e Pinto
Marinho e Pinto
sexta-feira, fevereiro 18, 2011
Gosto de pessoas que lutam contra a pena de morte e a tortura.
Gosto de pessoas que não perguntam «O que é que fazes?» quando conhecem alguém.
Gosto de pessoas que não ligam a automóveis.
Gosto de pessoas que acham encantador o mundo das palavras e que escrevem «chegaste bem?» em vez de «chegas-te bem?».
Gosto de pessoas que não têm vestígios de machismo, homofobia e etnocentrismo.
Gosto de pessoas honestas. Gosto muito de pessoas honestas.
Gosto de pessoas que deixam gorjetas e dão esmolas.
Gosto de pessoas que não passam horas em compras ou em realidades virtuais.
Gosto de pessoas que preferem falar na noite a abanar o capacete.
Gosto de pessoas que lêem.
Gosto de pessoas que pensam no porquê e no para-quê-da-vida.
Gosto de pessoas que pensam no sentido da vida e que, mesmo irreligiosas, nunca descurem o espiritual e o metafísico - a interrogação ante o Cosmos.
Gosto de pessoas que nunca deram um tiro a um animal.
Gosto de pessoas que nunca andaram à pancada.
Gosto de pessoas que não sobrestimam a beleza física.
Gosto de pessoas que sabem guardar um segredo.
Gosto de pessoas que criticam em privado e elogiam em público.
Gosto de pessoas que são incapazes de dizer algo de alguém que não lhe tenham previamente dito cara a cara.
Gosto de pessoas que separam o lixo por categoria.
Gosto de pessoas que tenham as unhas cortadas.
Gosto de pessoas que fazem rir.
Gosto de pessoas que sabem surpreender.
Gosto de pessoas que pensam pela sua cabeça.
Gosto de pessoas who don´t fuck on the first date.
Gosto de pessoas que arriscam e evitam comodismos e rotinas.
Gosto de pessoas que apreciem Poesia.
Gosto de pessoas que sejam idealistas sem serem fanáticas.
Gosto de pessoas que tentam empurrar os outros para a realização dos seus sonhos.
Gosto de pessoas com boa memória.
Gosto de pessoas atentas a pormenores.
Gosto de pessoas que sabem ouvir.
Gosto de pessoas com um sorriso sincero.
Gosto de pessoas que gostam de girassóis.
Gosto de pessoas multifacetadas.
Gosto de pessoas que não perguntam «O que é que fazes?» quando conhecem alguém.
Gosto de pessoas que não ligam a automóveis.
Gosto de pessoas que acham encantador o mundo das palavras e que escrevem «chegaste bem?» em vez de «chegas-te bem?».
Gosto de pessoas que não têm vestígios de machismo, homofobia e etnocentrismo.
Gosto de pessoas honestas. Gosto muito de pessoas honestas.
Gosto de pessoas que deixam gorjetas e dão esmolas.
Gosto de pessoas que não passam horas em compras ou em realidades virtuais.
Gosto de pessoas que preferem falar na noite a abanar o capacete.
Gosto de pessoas que lêem.
Gosto de pessoas que pensam no porquê e no para-quê-da-vida.
Gosto de pessoas que pensam no sentido da vida e que, mesmo irreligiosas, nunca descurem o espiritual e o metafísico - a interrogação ante o Cosmos.
Gosto de pessoas que nunca deram um tiro a um animal.
Gosto de pessoas que nunca andaram à pancada.
Gosto de pessoas que não sobrestimam a beleza física.
Gosto de pessoas que sabem guardar um segredo.
Gosto de pessoas que criticam em privado e elogiam em público.
Gosto de pessoas que são incapazes de dizer algo de alguém que não lhe tenham previamente dito cara a cara.
Gosto de pessoas que separam o lixo por categoria.
Gosto de pessoas que tenham as unhas cortadas.
Gosto de pessoas que fazem rir.
Gosto de pessoas que sabem surpreender.
Gosto de pessoas que pensam pela sua cabeça.
Gosto de pessoas who don´t fuck on the first date.
Gosto de pessoas que arriscam e evitam comodismos e rotinas.
Gosto de pessoas que apreciem Poesia.
Gosto de pessoas que sejam idealistas sem serem fanáticas.
Gosto de pessoas que tentam empurrar os outros para a realização dos seus sonhos.
Gosto de pessoas com boa memória.
Gosto de pessoas atentas a pormenores.
Gosto de pessoas que sabem ouvir.
Gosto de pessoas com um sorriso sincero.
Gosto de pessoas que gostam de girassóis.
Gosto de pessoas multifacetadas.
quinta-feira, fevereiro 17, 2011
Saudação a Walt Whitman
E conforme tu sentiste tudo, sinto tudo, e cá estamos de mãos dadas,
De mãos dadas, Walt, de mãos dadas, dançando o universo na alma.
[...]
Nos teus versos, a certa altura não sei se leio ou se vivo,
Não sei se o meu lugar real é no mundo ou nos teus versos,
[...]
Abram-me todas as portas!
Por força que hei de passar!
Minha senha? Walt Whitman!
Mas não dou senha nenhuma...
Passo sem explicações...
Se for preciso meto dentro as portas...
Sim — eu, franzino e civilizado, meto dentro as portas,
Porque neste momento não sou franzino nem civilizado,
Sou EU, um universo pensante de carne e osso, querendo passar,
E que há de passar por força, porque quando quero passar sou Deus!
[...]
Dança comigo, Walt, lá do outro mundo, esta fúria,
Salta comigo neste batuque que esbarra com os astros,
Cai comigo sem forças no chão,
Esbarra comigo tonto nas paredes,
Parte-te e esfrangalha-te comigo
Em tudo, por tudo, à roda de tudo
Álvaro de Campos
De mãos dadas, Walt, de mãos dadas, dançando o universo na alma.
[...]
Nos teus versos, a certa altura não sei se leio ou se vivo,
Não sei se o meu lugar real é no mundo ou nos teus versos,
[...]
Abram-me todas as portas!
Por força que hei de passar!
Minha senha? Walt Whitman!
Mas não dou senha nenhuma...
Passo sem explicações...
Se for preciso meto dentro as portas...
Sim — eu, franzino e civilizado, meto dentro as portas,
Porque neste momento não sou franzino nem civilizado,
Sou EU, um universo pensante de carne e osso, querendo passar,
E que há de passar por força, porque quando quero passar sou Deus!
[...]
Dança comigo, Walt, lá do outro mundo, esta fúria,
Salta comigo neste batuque que esbarra com os astros,
Cai comigo sem forças no chão,
Esbarra comigo tonto nas paredes,
Parte-te e esfrangalha-te comigo
Em tudo, por tudo, à roda de tudo
Álvaro de Campos
Corações ocos
Velhos, ó meus queridos velhos, saltem-me para os joelhos: vamos brincar?
ALEXANDRE O'NEILL
O número perturbador de velhos portugueses que morreram sós, e estiveram anos sem ninguém disso dar conta, permitiu uma série de piedosas declarações. A "atomização da sociedade", de que falou, admiravelmente, Simone de Beauvoir, num ensaio esquecido mas não datado [La Vieillesse], facilitou o sistema em que sobrevivemos, e que "confina com a barbárie."
Os nossos velhos pagam, amarga e dolorosamente, as nevroses das suas infâncias e as consequências das suas vidas frustradas, esmagadas, irrealizadas e aceitas com a resignação de quem foi alienado para consentir o inevitável declínio. A velhice, tal como as sociedades modernas a tratam, é uma questão de anomalia política, uma mutilação. Podíamos, talvez, atenuar essa violência, essa desolação social, com um pouco de compaixão.
Porém, autorizámos que nos esburacassem os sentimentos. Reparem: deixámo-nos de nos cruzar uns com os outros: simplesmente, atravessamo-nos; afastámo-nos da cordialidade, expulsámo-nos dos laços que nos uniam e justificavam como seres humanos e como comunidade. O nosso coração está oco.
Um país que abandona assim os seus velhos, que assim deixa morrer os seus velhos, é um sítio sem memória, um vácuo no vácuo. Um local inóspito que perdeu a ligação do espiritual e foi ocupado pela desordem estabelecida. Mas os sobressaltos de emoção são momentâneos. A dialéctica da Imprensa impede a durabilidade das nossas indignações, já de si muito ténues e muito frágeis. Os velhos mortos na solidão de todas as mortes serão substituídos pela inclemência da eterna actualidade. Morrem e passam a número. A dissolução do humano assimilou os nossos mais pequenos gestos, as nossas mais escassas fraternidades. A vulgaridade dos factos torna-se banalidade. Chega a ser indecoroso o lado mau da vida que os jornais expõem. Mas é assim. E o que assim é tem muito peso. O peso escandaloso da insensibilidade.
Os nossos velhos não estão, apenas, a morrer nas suas casas geladas de calor humano. Estão a morrer nos jardins, sentados na distância de já haverem perdido o pessoal sentido de identidade. O tempo flui neles e sobre eles, e já lhes não interessa, sequer, a desolação do seu fim de vida. Estão a morrer em caixotes horrendos, os paióis para onde são despejados como inutilidades que se desprezam.
E os jornais vão fornecendo números, levando, finalmente, para as primeiras páginas, aqueles que sempre as tinham merecido. Não gostamos dos nossos velhos. Abandonamo-los nos hospitais, rasuramos da nossa memória os seus afagos de pais e avós, as atenções que nos concederam, o amor que nos ofereceram sem contingências.
Que estamos a fazer a nós próprios?
Baptista-Bastos
ALEXANDRE O'NEILL
O número perturbador de velhos portugueses que morreram sós, e estiveram anos sem ninguém disso dar conta, permitiu uma série de piedosas declarações. A "atomização da sociedade", de que falou, admiravelmente, Simone de Beauvoir, num ensaio esquecido mas não datado [La Vieillesse], facilitou o sistema em que sobrevivemos, e que "confina com a barbárie."
Os nossos velhos pagam, amarga e dolorosamente, as nevroses das suas infâncias e as consequências das suas vidas frustradas, esmagadas, irrealizadas e aceitas com a resignação de quem foi alienado para consentir o inevitável declínio. A velhice, tal como as sociedades modernas a tratam, é uma questão de anomalia política, uma mutilação. Podíamos, talvez, atenuar essa violência, essa desolação social, com um pouco de compaixão.
Porém, autorizámos que nos esburacassem os sentimentos. Reparem: deixámo-nos de nos cruzar uns com os outros: simplesmente, atravessamo-nos; afastámo-nos da cordialidade, expulsámo-nos dos laços que nos uniam e justificavam como seres humanos e como comunidade. O nosso coração está oco.
Um país que abandona assim os seus velhos, que assim deixa morrer os seus velhos, é um sítio sem memória, um vácuo no vácuo. Um local inóspito que perdeu a ligação do espiritual e foi ocupado pela desordem estabelecida. Mas os sobressaltos de emoção são momentâneos. A dialéctica da Imprensa impede a durabilidade das nossas indignações, já de si muito ténues e muito frágeis. Os velhos mortos na solidão de todas as mortes serão substituídos pela inclemência da eterna actualidade. Morrem e passam a número. A dissolução do humano assimilou os nossos mais pequenos gestos, as nossas mais escassas fraternidades. A vulgaridade dos factos torna-se banalidade. Chega a ser indecoroso o lado mau da vida que os jornais expõem. Mas é assim. E o que assim é tem muito peso. O peso escandaloso da insensibilidade.
Os nossos velhos não estão, apenas, a morrer nas suas casas geladas de calor humano. Estão a morrer nos jardins, sentados na distância de já haverem perdido o pessoal sentido de identidade. O tempo flui neles e sobre eles, e já lhes não interessa, sequer, a desolação do seu fim de vida. Estão a morrer em caixotes horrendos, os paióis para onde são despejados como inutilidades que se desprezam.
E os jornais vão fornecendo números, levando, finalmente, para as primeiras páginas, aqueles que sempre as tinham merecido. Não gostamos dos nossos velhos. Abandonamo-los nos hospitais, rasuramos da nossa memória os seus afagos de pais e avós, as atenções que nos concederam, o amor que nos ofereceram sem contingências.
Que estamos a fazer a nós próprios?
Baptista-Bastos
quarta-feira, fevereiro 16, 2011
Li algures que viver é escrever sem emendar. Em altura de mudanças, tendemos a olhar para trás e fazer um balanço. Das coisas de que mais gosto é ver na vida que cada vez me rodeio mais de quem gosto e menos de quem não gosto.
Saber escolher as pessoas é tão importante. Há sempre erros de casting nas nossas vidas - como é que eu estive com aquela e aqueloutra?
Saber escolher as pessoas é tão importante. Há sempre erros de casting nas nossas vidas - como é que eu estive com aquela e aqueloutra?
terça-feira, fevereiro 15, 2011
segunda-feira, fevereiro 14, 2011
- Um jornalista esteve a fazer uma reportagem sobre as várias técnicas de engate [prefiro a palavra seduzir e ainda mais conquistar] e descobriu que a melhor estratégia é a do avança-e-recua. Estava a falar com uma mulher linda e disse: «Estou a gostar imenso de falar contigo.» Depois, passado um bocado, olhava para as horas e dizia: «Estou a ficar entendiado.» Mais tarde, soltava: «Eu peço desculpa mas amanhã tenho de me levantar às sete e vou ter de ir.» E depois persisitia no mesmo sítio. A rapariga ficou intrigada/fascinada.
Out of this world
When we look back at it all as I know we will
You and me, wide eyed
I wonder...
Will we really remember how it feels to be this alive?
And I know we have to go
I realize we only get to stay so long
Always have to go back to real lives
Where we belong
Where we belong
Where we belong
When we think back to all this and I'm sure we will
Me and you, here and now
Will we forget the way it really is
Why it feels like this and how?
And we always have to go I realize
We always have to say goodbye
Always have to go back to real lives
But real lives are the reason why
We want to live another life
We want to feel another time
Another time...
Yeah another time
To feel another time...
When we look back at it all as I know we will
You and me, wide eyed
I wonder...
Will we really remember how it feels to be this alive?
And I know we have to go
I realize we always have to turn away
Always have to go back to real lives
But real lives are why we stay
For another dream
Another day
For another world
Another way
For another way...
One last time before it's over
One last time before the end
One last time before it's time to go again...
RS
You and me, wide eyed
I wonder...
Will we really remember how it feels to be this alive?
And I know we have to go
I realize we only get to stay so long
Always have to go back to real lives
Where we belong
Where we belong
Where we belong
When we think back to all this and I'm sure we will
Me and you, here and now
Will we forget the way it really is
Why it feels like this and how?
And we always have to go I realize
We always have to say goodbye
Always have to go back to real lives
But real lives are the reason why
We want to live another life
We want to feel another time
Another time...
Yeah another time
To feel another time...
When we look back at it all as I know we will
You and me, wide eyed
I wonder...
Will we really remember how it feels to be this alive?
And I know we have to go
I realize we always have to turn away
Always have to go back to real lives
But real lives are why we stay
For another dream
Another day
For another world
Another way
For another way...
One last time before it's over
One last time before the end
One last time before it's time to go again...
RS
domingo, fevereiro 13, 2011
A Joana estava farta do Carlos. Desta vez, quando ele voltasse dos Açores, poria fim à relação. Não aguentava mais um minuto com ele.
Ele chegou das férias cheio de saudades dela.
- Comprei uma aliança [de ouro] para celebrar o nosso noivado.
A Joana perdeu a capacidade de conseguir terminar com o Carlos.
Já dizia o Dostoievski:
«Mas, homem, não se pode viver sem um pouco de piedade.»
Ele chegou das férias cheio de saudades dela.
- Comprei uma aliança [de ouro] para celebrar o nosso noivado.
A Joana perdeu a capacidade de conseguir terminar com o Carlos.
Já dizia o Dostoievski:
«Mas, homem, não se pode viver sem um pouco de piedade.»
- Pai, o que é «mesquinho»?
- Um rapariga fez uma festa de aniversário e tinha 40 pessoas para jantar. No final, veio a conta. Um casalinho aproximou-se da aniversariante e disse: «Desculpa, mas houve quem bebesse uísque no final do jantar. Não podemos fazer contas a dividir por todos. Nós não bebemos uísque. Queremos contas à parte. A aniversariante ficou aflita porque já tinha dado o preço a todos e disse: «Mas isso agora vai ser tão complicado.» O casalinho pega na factura, retirou os uísques e fez as contas só para si. Entregaram o dinheiro à aniversariante. «Mas agora vou ter fazer contas novas para todos... para incluir a vossa parte.» «Não é problema nosso», respondeu o casalinho.
- Um rapariga fez uma festa de aniversário e tinha 40 pessoas para jantar. No final, veio a conta. Um casalinho aproximou-se da aniversariante e disse: «Desculpa, mas houve quem bebesse uísque no final do jantar. Não podemos fazer contas a dividir por todos. Nós não bebemos uísque. Queremos contas à parte. A aniversariante ficou aflita porque já tinha dado o preço a todos e disse: «Mas isso agora vai ser tão complicado.» O casalinho pega na factura, retirou os uísques e fez as contas só para si. Entregaram o dinheiro à aniversariante. «Mas agora vou ter fazer contas novas para todos... para incluir a vossa parte.» «Não é problema nosso», respondeu o casalinho.
sexta-feira, fevereiro 11, 2011
Subtexto
O subtexto é o que está escrito sem estar escrito. A riqueza de um texto mede-se pela profundidade do subtexto.
- Há uma coisa que nunca consegui dizer a ninguém.
- Já sei... Vais-me dizer que és...
- Estava a pensar na...
- Não. Não penses nisso. Toca a todos.
- Sim, mas não consigo aceitar.
Não leram no primeiro texto: homossexual? Ou: virgem.
Não leram no segundo texto: morte? Ou: alguém que foi abandonado por uma mulher.
- Há uma coisa que nunca consegui dizer a ninguém.
- Já sei... Vais-me dizer que és...
- Estava a pensar na...
- Não. Não penses nisso. Toca a todos.
- Sim, mas não consigo aceitar.
Não leram no primeiro texto: homossexual? Ou: virgem.
Não leram no segundo texto: morte? Ou: alguém que foi abandonado por uma mulher.
Não facilite com a palavra amor.
Não a jogue no espaço, bolha de sabão.
Não se inebrie com o seu engalanado som.
Não a empregue sem razão acima de toda a razão (e é raro).
Não brinque, não experimente, não cometa a loucura sem remissão
de espalhar aos quatro ventos
do mundo essa palavra
que é toda sigilo e nudez, perfeição e exílio na Terra.
Não a pronuncie.
Carlos Drummond de Andrade
Não a jogue no espaço, bolha de sabão.
Não se inebrie com o seu engalanado som.
Não a empregue sem razão acima de toda a razão (e é raro).
Não brinque, não experimente, não cometa a loucura sem remissão
de espalhar aos quatro ventos
do mundo essa palavra
que é toda sigilo e nudez, perfeição e exílio na Terra.
Não a pronuncie.
Carlos Drummond de Andrade
quinta-feira, fevereiro 10, 2011
Um dos mais belos poemas em Língua Portuguesa
http://www.liriodovale.com/Portuguese/poesia/babel_siao.htm
Polpa
Quase tudo à tua volta te afasta do conhecimento de ti próprio.
Tens de pelejar a quase todo o instante para seres tu.
Em determinados contextos, tens de agir assim - e tu não és assim.
Em determinados locais, tens de parecer assado - e tu não és assado.
Com determinadas pessoas, tens de ter muitas defesas.
No mercado de trabalho, tens de criar uma persona.
(Se és líder, não podes dar a entender que tens um átomo de dúvida sobre qualquer coisa.)
Tens de sorrir de piadas de que não gostas.
Tens de ser hipócrita por vezes.
Tens de - terrível palavra - te adaptar ao «mundo real».
Tens de casar, ter filhos, uma carreira.
Tens de mentir - nem que sejam mentiras piedosas.
Nem te apercebes de que mentes - mas mentes sempre que não és tu. O pior de tudo é que para aceitares que não vives na ditadura da sociedade, mentes-te a ti próprio. Se apetecer cantar no meio da rua, fá-lo-ás? Se te apetecer usar um vestido e fores homem, fá-lo-ás?
Não serão os loucos os que se adaptaram? E os lúcidos os que se libertaram.
Ok, esquece toda esta conversa. Bem te ouço: «isso é um extremo».
Mas não achas que dia após dia, deves rasgar um pouco a máscara?
Dizer: não gosto, gosto - vindo de alma e sem medir consequências. Sentir-te-ás mais próximo do orvalho da tua alma.
Não mentires - sobretudo a ti próprio. Não digas a ti próprio que esse é o teu trabalho de sonho, se é apenas o menos mau que arranjaste. Não digas a ti próprio que é o parceiro ideal se lutas para amar aquilo que tens.
Procura afastar o ruído das vozes dos outros dentro de ti e escutar a voz soterrada da tua alma. Deixa-a falar. Dia. Tarde. Noite. É a coisa mais cristalina à face da Terra.
Não te preocupes com os outros acharão - aproxima-te do teu eu. Descobre-o e vive-o. Ninguém é infeliz quando é ele próprio sem medo.
Não te limites a ficar feliz com a descoberta da camada superficial - vai descascando, descascando, descascando até à polpa.
(Há tantas cortinas nebulosas em torno da tua alma - vejo-te e espanto-me. Não conheces sequer um dos quartos a partir do segundo piso...)
É uma batalha comprida. Foi uma vida inteira a tentares corresponder às expectativas dos outros - e não a procurares conhecer-te. Foi uma vida inteira a seres condicionado para o que deverias ser. O único julgamento que importa é o teu. A necessidade de reconhecimento é o corolário do desencontro entre a tua máscara e o teu eu.
Procura os fantasmas no sótão. Reflecte todos os dias em que és tu - longe da prisão dos outros, do que é suposto seres, do que durante anos e anos assimilaste acriticamente. Liberta-te, semana a semana, do fardo de não poderes seres tu.
Rasgarás assim todos os dias um centímetro da máscara que envolve o teu coração. Caminharás para seres livre.
Tens de pelejar a quase todo o instante para seres tu.
Em determinados contextos, tens de agir assim - e tu não és assim.
Em determinados locais, tens de parecer assado - e tu não és assado.
Com determinadas pessoas, tens de ter muitas defesas.
No mercado de trabalho, tens de criar uma persona.
(Se és líder, não podes dar a entender que tens um átomo de dúvida sobre qualquer coisa.)
Tens de sorrir de piadas de que não gostas.
Tens de ser hipócrita por vezes.
Tens de - terrível palavra - te adaptar ao «mundo real».
Tens de casar, ter filhos, uma carreira.
Tens de mentir - nem que sejam mentiras piedosas.
Nem te apercebes de que mentes - mas mentes sempre que não és tu. O pior de tudo é que para aceitares que não vives na ditadura da sociedade, mentes-te a ti próprio. Se apetecer cantar no meio da rua, fá-lo-ás? Se te apetecer usar um vestido e fores homem, fá-lo-ás?
Não serão os loucos os que se adaptaram? E os lúcidos os que se libertaram.
Ok, esquece toda esta conversa. Bem te ouço: «isso é um extremo».
Mas não achas que dia após dia, deves rasgar um pouco a máscara?
Dizer: não gosto, gosto - vindo de alma e sem medir consequências. Sentir-te-ás mais próximo do orvalho da tua alma.
Não mentires - sobretudo a ti próprio. Não digas a ti próprio que esse é o teu trabalho de sonho, se é apenas o menos mau que arranjaste. Não digas a ti próprio que é o parceiro ideal se lutas para amar aquilo que tens.
Procura afastar o ruído das vozes dos outros dentro de ti e escutar a voz soterrada da tua alma. Deixa-a falar. Dia. Tarde. Noite. É a coisa mais cristalina à face da Terra.
Não te preocupes com os outros acharão - aproxima-te do teu eu. Descobre-o e vive-o. Ninguém é infeliz quando é ele próprio sem medo.
Não te limites a ficar feliz com a descoberta da camada superficial - vai descascando, descascando, descascando até à polpa.
(Há tantas cortinas nebulosas em torno da tua alma - vejo-te e espanto-me. Não conheces sequer um dos quartos a partir do segundo piso...)
É uma batalha comprida. Foi uma vida inteira a tentares corresponder às expectativas dos outros - e não a procurares conhecer-te. Foi uma vida inteira a seres condicionado para o que deverias ser. O único julgamento que importa é o teu. A necessidade de reconhecimento é o corolário do desencontro entre a tua máscara e o teu eu.
Procura os fantasmas no sótão. Reflecte todos os dias em que és tu - longe da prisão dos outros, do que é suposto seres, do que durante anos e anos assimilaste acriticamente. Liberta-te, semana a semana, do fardo de não poderes seres tu.
Rasgarás assim todos os dias um centímetro da máscara que envolve o teu coração. Caminharás para seres livre.
Que os ricos vivem muito melhor do que nós era dado assente. O provérbio, absurdo, de que o dinheiro não traz felicidade constituía o resignado encosto com que soluçamos as nossas mágoas, desilusões e ressentimentos. Claro que somos ressentidos e rancorosos. As nossas raivas procedem das desigualdades afrontosas com que, desde muito cedo, nos deparamos. A frase, cabisbaixa, segundo a qual haverá sempre ricos e pobres tem servido a uns e amarfanhado a outros. De vez em quando servem-nos umas migalhas e atenuamos as nossas dores com essas módicas felicidades.
Um estudo, "Classes Sociais e a Desigualdade na Saúde", do sociólogo Ricardo Antunes, de que o Público deu notícia pormenorizada, indica, com dados evidentemente probatórios, que "os ricos vivem mais dez anos do que os pobres". As dificuldades, os problemas insanos, a incultura, a iliteracia, a falta de relações sociais, a ausência de perspectivas pertencem ao rol das misérias com que se debate a esmagadora maioria dos cidadãos.
Os operários, por exemplo, morrem mais cedo do que os profissionais ditos qualificados, os "quadros", os "gestores", os professores, os advogados. Os números estarrecem. E demonstram uma peculiar associação entre a identidade dominante e a servidão e o totalitarismo. As nossas democracias, tão incensadas nas virtualidades essenciais, têm cada vez mais tendência para se esvaziar de sentido e de objectivo, transformando-se em "democracias de superfície".
[...]
O documento de Ricardo Antunes, pela sua natureza, merecia uma expansão maior. E, acaso, suscitaria uma discussão mais alargada, com um tratamento jornalístico adequado à novidade e características do tema. As televisões, que se acotovelam com o crime de Nova Iorque, que praticamente ignoraram a morte de Vítor Alves, grande "capitão de Abril"; que carpem doridos queixumes com a ida embora de um Liedson e as declarações de um Costinha, remetem para os fojos das suas ignorâncias o que, na realidade, diz respeito ao nosso viver comum. [...]
Baptista-Bastos
Um estudo, "Classes Sociais e a Desigualdade na Saúde", do sociólogo Ricardo Antunes, de que o Público deu notícia pormenorizada, indica, com dados evidentemente probatórios, que "os ricos vivem mais dez anos do que os pobres". As dificuldades, os problemas insanos, a incultura, a iliteracia, a falta de relações sociais, a ausência de perspectivas pertencem ao rol das misérias com que se debate a esmagadora maioria dos cidadãos.
Os operários, por exemplo, morrem mais cedo do que os profissionais ditos qualificados, os "quadros", os "gestores", os professores, os advogados. Os números estarrecem. E demonstram uma peculiar associação entre a identidade dominante e a servidão e o totalitarismo. As nossas democracias, tão incensadas nas virtualidades essenciais, têm cada vez mais tendência para se esvaziar de sentido e de objectivo, transformando-se em "democracias de superfície".
[...]
O documento de Ricardo Antunes, pela sua natureza, merecia uma expansão maior. E, acaso, suscitaria uma discussão mais alargada, com um tratamento jornalístico adequado à novidade e características do tema. As televisões, que se acotovelam com o crime de Nova Iorque, que praticamente ignoraram a morte de Vítor Alves, grande "capitão de Abril"; que carpem doridos queixumes com a ida embora de um Liedson e as declarações de um Costinha, remetem para os fojos das suas ignorâncias o que, na realidade, diz respeito ao nosso viver comum. [...]
Baptista-Bastos
quarta-feira, fevereiro 09, 2011
terça-feira, fevereiro 08, 2011
Para ti
Lembra-te: não existem pessoas ultra-cofiantes. Não há pessoas sem calcanhares de Aquiles.
Lembra-te: não és a única pessoa a sentir os teus medos. Milhões os tem, mas não os admitem. Ao menos tu, tens a coragem de admitir as tuas fraquezas.
Lembra-te: comigo, podes sentir-te perfeitamente à vontade.
Lembra-te: todos temos medo da solidão, da morte.
Lembra-te: todos precisamos de ser amados.
Lembra-te: os medos que tu tens não são medos em sim, são deslocações afectivas. Lê Freud.
Lembra-te: o histórico das tuas inseguranças revela que os teus receios não se concretizam 99% das vezes. Logo, a conclusão imparcial é: tu distorces pela negativa.
Lembra-te: és uma privilegiada. Tens realmente pessoas fantásticas à tua volta e que muito te amam.
Lembra-te: não há ninguém que não goste de ti.
Lembra-te: a multidão não existe. Só existe uma pessoa. A multidão é uma abstracção conceptual.
Lembra-te: somos todos mais parecidos do que imaginamos.
Lembra-te: a nossa verdade interior é sempre intransmissível. Vivemos todos numa bolha.
Lembra-te: não há estranhos e conhecidos. Os estranhos para ti hoje podem ser os conhecidos de amanhã. E os estranhos de uns são os conhecidos de outros.
Lembra-te: o que para uns é fácil, para outros é difícil e o que para esses outros é fácil, para os outros é difícil.
Se conhecesses todas as pessoas do mundo, compreenderias todos os pontos de vista e nada te seria estranho. O estranho é apenas o que é anterior à fase de compreensão.
Lembra-te ainda: procuramos todos o mesmo. Vivemos todos no mesmo barco, procurando o amor, e com a morte certa no horizonte, sem um porquê da viagem a iluminar-nos o caminho.
Lembra-te: não és a única pessoa a sentir os teus medos. Milhões os tem, mas não os admitem. Ao menos tu, tens a coragem de admitir as tuas fraquezas.
Lembra-te: comigo, podes sentir-te perfeitamente à vontade.
Lembra-te: todos temos medo da solidão, da morte.
Lembra-te: todos precisamos de ser amados.
Lembra-te: os medos que tu tens não são medos em sim, são deslocações afectivas. Lê Freud.
Lembra-te: o histórico das tuas inseguranças revela que os teus receios não se concretizam 99% das vezes. Logo, a conclusão imparcial é: tu distorces pela negativa.
Lembra-te: és uma privilegiada. Tens realmente pessoas fantásticas à tua volta e que muito te amam.
Lembra-te: não há ninguém que não goste de ti.
Lembra-te: a multidão não existe. Só existe uma pessoa. A multidão é uma abstracção conceptual.
Lembra-te: somos todos mais parecidos do que imaginamos.
Lembra-te: a nossa verdade interior é sempre intransmissível. Vivemos todos numa bolha.
Lembra-te: não há estranhos e conhecidos. Os estranhos para ti hoje podem ser os conhecidos de amanhã. E os estranhos de uns são os conhecidos de outros.
Lembra-te: o que para uns é fácil, para outros é difícil e o que para esses outros é fácil, para os outros é difícil.
Se conhecesses todas as pessoas do mundo, compreenderias todos os pontos de vista e nada te seria estranho. O estranho é apenas o que é anterior à fase de compreensão.
Lembra-te ainda: procuramos todos o mesmo. Vivemos todos no mesmo barco, procurando o amor, e com a morte certa no horizonte, sem um porquê da viagem a iluminar-nos o caminho.
António Lobo Antunes, prefaciando A Letra Escarlate, afirma que o livro roça a pieguice, a lamechice romântica sem nunca tocar nela. É esse o mérito de uma obra-prima: ser tangencial ao vulgar e nunca tocar nele.
Walt Whitman celebra a vida. A linha divisória entre os seus versos e um manual de auto-ajuda é ténue, mas separa-os a fronteira do génio.
É possível criar uma obra-prima que diga que somos todos lindos e maravilhosos, que a vida é maravilhosa, que não há dramas mas apenas percepções distorcidas? Walt Whitman demonstrou que sim.
É extraordinariamente mais difícil pegar num tópico vulgar e manuseá-lo de forma invulgar. Como o funambulista que anda sempre na corda bamba, mas que nunca cai (neste caso, no mau gosto, no kitsch, no cliché).
Walt Whitman celebra a vida. A linha divisória entre os seus versos e um manual de auto-ajuda é ténue, mas separa-os a fronteira do génio.
É possível criar uma obra-prima que diga que somos todos lindos e maravilhosos, que a vida é maravilhosa, que não há dramas mas apenas percepções distorcidas? Walt Whitman demonstrou que sim.
É extraordinariamente mais difícil pegar num tópico vulgar e manuseá-lo de forma invulgar. Como o funambulista que anda sempre na corda bamba, mas que nunca cai (neste caso, no mau gosto, no kitsch, no cliché).
- É natural que me venha a sentir atraída por outros. Isso acontece sempre a toda a gente, em maior ou menor grau.
- Essa transparência é importante.
- As pessoas sabem isto, mas não o verbalizam. Têm medo de ferir o outro e preferem viver na ilusão. Mas o importante é não sentir atracção a ponto de não se conseguir controlar o desejo.
- Essa transparência é importante.
- As pessoas sabem isto, mas não o verbalizam. Têm medo de ferir o outro e preferem viver na ilusão. Mas o importante é não sentir atracção a ponto de não se conseguir controlar o desejo.
- Não sei o que fazer mais para que ela goste de mim.
- A pensares assim não vais lá. Tu deves fazer tudo para gostares de ti. Ou dito de outra forma: tu deves sempre procurar conhecer-te e caminhares todos os dias para seres tu. E depois quem gostar gosta e quem não gostar não gosta. Mas também te digo que mesmo quem não gostar, no fundo gostará secretamente porque dirá: aqui está alguém com personalidade, aqui está alguém que não consigo amestrar.
- A pensares assim não vais lá. Tu deves fazer tudo para gostares de ti. Ou dito de outra forma: tu deves sempre procurar conhecer-te e caminhares todos os dias para seres tu. E depois quem gostar gosta e quem não gostar não gosta. Mas também te digo que mesmo quem não gostar, no fundo gostará secretamente porque dirá: aqui está alguém com personalidade, aqui está alguém que não consigo amestrar.
segunda-feira, fevereiro 07, 2011
As onze mulheres da minha vida
1. É a melhor pessoa da mundo. Nada nela me irrita ou choca ou desagrada. Sei que voltarei a estar com ela no futuro - sei que serei só dela.
2. É a mulher da minha vida. Volta sempre. Nunca desaparece. Sei que não terei outro amor como o dela. E ela sabe que não terá outro amor como o meu. É ela o grande amor.
3. Sonho com ela todos os dias. Não há ninguém no mundo com quem gostasse mais de estar. Penso nela todos os dias. E não há um átomo do seu ser que não me atraia. Os dias, o meu bem-estar só têm duas variáveis: falei com ela ou não.
4. É a mulher perfeita para mim. Aquela com quem me imagino a passar mais tempo. Aquela com quem passo mais tempo. Aquela que dormirá sempre a meu lado.
5. Até me custa olhar para ela. É uma divindade. Bolas, que mulher! É demasiado interessante. Demasiado tudo. Ninguém mexe tanto cá em cima e cá em baixo com ela. Já dizia o Walt Whitman falando do meu sentimento sobre ti, há muito que deveria ter deixado tudo e encaminhado-me só para ti.
6. Ai esta! Minha nossa! Tem todas as virtudes cardeais, todas. Uma voz divina. Era capaz de tudo por ela. Deixa tudo e vem comigo. Sempre que te vejo, arrepio-me.
7. Como é possível alguém mexer tanto cá em cima e cá em baixo? Demorei a conhecer esta preciosidade. Nunca pensei que alguém tão bonito por fora pudesse ser tão bonito por dentro. Que estúpido preconceito. Sim, é contigo que eu vou querer estar. Acredita em mim. Eu não te conhecia na altura. És tu quem eu quero.
8. A minha alma gémea. Não pode haver algo mais forte do que isto. Sei que nunca teremos uma discussão. Uma alma tão linda.
9. A minha namorada mais longa (e a minha eterna namorada). Continuaremos sempre. Temos de fazer amor brevemente.
10. Só podes ser tu a mulher ideal para mim, porque apesar de não te ver há anos, lembro-me de ti como a pessoa mais _____________ o teu sorriso apaixona-me mal o evoque. És para além da perfeição. E por isso tenho dentro de mim este juízo distorcido: és a mulher mais bonita do mundo.
11. Com ninguém, tive até hoje um entedimento espiritual e intelectual e emocional como contigo. Temos de voltar. Nós nunca terminámos. Contigo, alcandoro-me a patamares que só trepo contigo. És tu. Só tu. Aquela com quem devo ficar.
2. É a mulher da minha vida. Volta sempre. Nunca desaparece. Sei que não terei outro amor como o dela. E ela sabe que não terá outro amor como o meu. É ela o grande amor.
3. Sonho com ela todos os dias. Não há ninguém no mundo com quem gostasse mais de estar. Penso nela todos os dias. E não há um átomo do seu ser que não me atraia. Os dias, o meu bem-estar só têm duas variáveis: falei com ela ou não.
4. É a mulher perfeita para mim. Aquela com quem me imagino a passar mais tempo. Aquela com quem passo mais tempo. Aquela que dormirá sempre a meu lado.
5. Até me custa olhar para ela. É uma divindade. Bolas, que mulher! É demasiado interessante. Demasiado tudo. Ninguém mexe tanto cá em cima e cá em baixo com ela. Já dizia o Walt Whitman falando do meu sentimento sobre ti, há muito que deveria ter deixado tudo e encaminhado-me só para ti.
6. Ai esta! Minha nossa! Tem todas as virtudes cardeais, todas. Uma voz divina. Era capaz de tudo por ela. Deixa tudo e vem comigo. Sempre que te vejo, arrepio-me.
7. Como é possível alguém mexer tanto cá em cima e cá em baixo? Demorei a conhecer esta preciosidade. Nunca pensei que alguém tão bonito por fora pudesse ser tão bonito por dentro. Que estúpido preconceito. Sim, é contigo que eu vou querer estar. Acredita em mim. Eu não te conhecia na altura. És tu quem eu quero.
8. A minha alma gémea. Não pode haver algo mais forte do que isto. Sei que nunca teremos uma discussão. Uma alma tão linda.
9. A minha namorada mais longa (e a minha eterna namorada). Continuaremos sempre. Temos de fazer amor brevemente.
10. Só podes ser tu a mulher ideal para mim, porque apesar de não te ver há anos, lembro-me de ti como a pessoa mais _____________ o teu sorriso apaixona-me mal o evoque. És para além da perfeição. E por isso tenho dentro de mim este juízo distorcido: és a mulher mais bonita do mundo.
11. Com ninguém, tive até hoje um entedimento espiritual e intelectual e emocional como contigo. Temos de voltar. Nós nunca terminámos. Contigo, alcandoro-me a patamares que só trepo contigo. És tu. Só tu. Aquela com quem devo ficar.
Era um homem com tanto carisma que se sentia a sua presença a chegar mal ele pisava os degraus.
Era um homem com tanto carisma que todos se calavam quando ele abria a boca.
Era um homem com tanto carisma que quando passava, interrompia assaltos, guerras, discussões.
Era um homem com tanto carisma que até os animais e as crianças não o largavam.
Era um homem com tanto carisma que quando havia uma filmagem só o seu rosto é que aparecia quando se via o vídeo.
Era um homem com tanto carisma que até uma baleia assassina quando estava esfaimada ficou com os olhos a brilhar quando o viu e bateu a cauda, nervosa pela paixão súbita, numa coreografia destinada a impressiná-lo.
Era um homem com tanto carisma que um dia ao passar por um casal de namorados que copulava, estes interromperam o acto e agredindo-se mutuamente disseram:
- É para mim! É para mim!
Era um homem com tanto carisma que todos se calavam quando ele abria a boca.
Era um homem com tanto carisma que quando passava, interrompia assaltos, guerras, discussões.
Era um homem com tanto carisma que até os animais e as crianças não o largavam.
Era um homem com tanto carisma que quando havia uma filmagem só o seu rosto é que aparecia quando se via o vídeo.
Era um homem com tanto carisma que até uma baleia assassina quando estava esfaimada ficou com os olhos a brilhar quando o viu e bateu a cauda, nervosa pela paixão súbita, numa coreografia destinada a impressiná-lo.
Era um homem com tanto carisma que um dia ao passar por um casal de namorados que copulava, estes interromperam o acto e agredindo-se mutuamente disseram:
- É para mim! É para mim!
Ilhas de fraternidade
É possível criar paraísos na Terra.
Conheço duas pessoas que só tem boas pessoas à sua volta. (As pessoas saberem escolher quem as rodeia - evita tantos problemas.)
Basta saber «é amigo de...» e já sei - é uma boa pessoa. E com as boas pessoas, não há defesas. Parte-se o pão e oferece-se ao outro com um sorriso.
Quando muitas almas limpas estão juntas, a certa altura há um silêncio e todos sorriem felizes. Há abraços em todos os olhares.
É uma tranquilidade.
Não há competição.
Não há mentira.
Não há cerimónia, hipocrisia, formalismos, sorrisos falsos.
Não há intriga.
Não há inveja - há felicidade pela felicidade do Outro.
Era a isso que Walt Whitman chamava a cidade perfeita - «a cidade dos amigos».
Conheço duas pessoas que só tem boas pessoas à sua volta. (As pessoas saberem escolher quem as rodeia - evita tantos problemas.)
Basta saber «é amigo de...» e já sei - é uma boa pessoa. E com as boas pessoas, não há defesas. Parte-se o pão e oferece-se ao outro com um sorriso.
Quando muitas almas limpas estão juntas, a certa altura há um silêncio e todos sorriem felizes. Há abraços em todos os olhares.
É uma tranquilidade.
Não há competição.
Não há mentira.
Não há cerimónia, hipocrisia, formalismos, sorrisos falsos.
Não há intriga.
Não há inveja - há felicidade pela felicidade do Outro.
Era a isso que Walt Whitman chamava a cidade perfeita - «a cidade dos amigos».
domingo, fevereiro 06, 2011
sábado, fevereiro 05, 2011
- Os bons são fortes. Porque para se amar é preciso ser-se amado. E a nossa força advém apenas do quanto nos sentimos amados. Aquele que não reage à ofensa não é banana. Pode ser - se a ofensa o abalar e ele tiver medo de reagir. Mas quem não se sente tocado pela ofensa, esse sim, é o verdadeiro ser resolvido consigo mesmo. Não precisa de que o Outro o valide. Sabe bem quem é e o que quer - e as opiniões dos outros são «sombras de árvores alheias», como dizia o Pessoa. O mal é sempre uma consequência da falta de amor. Estupidamente, alguns vêm a compaixão e a bondade como fraquezas. É virar do avesso as coisas! Amar o outro só surge depois de nos amarmos a nós mesmos. A inveja, a crueldade, a vingança são sempre filhas da frustração.
O extremo da compaixão
Numa das mais belas narrativas budistas, um bodhisattva vendo um tigre esfaimado, entrega voluntariamente o seu corpo para evitar que este passe fome.
Por vezes, quando queremos muito lembrar-nos de um nome de um actor ou de um nome de alguém, só quando libertamos o cérebro do peso do esforço é que o nome nos vem à tona.
- Mas como é que se chama? Caramba, tenho o nome debaixo da língua.
- Não penses nisso.
E quinze minutos depois de ser deixar de pensar no assunto, o nome surge.
Para um escritor, uma determinada ligação da trama surge quando ele deixa de pensar nela. (Neste aspecto, o sono é muito importante porque é nele que o inconsciente labora.)
Também com a apreciação das pessoas o cérebro vai actuando sem que pensemos conscientemente nelas.
Por isso, um dia acordamos apaixonados.
Por um isso, um dia acordamos atraídos por alguém.
Por isso, um dia, depois de tomar banho, a minha amiga me disse:
- O Francisco foi pelo ralo. Estava a ver a água a deslizar pelo ralo e estranhamente via a minha paixão esvair-se totalmente.
Por isso, um dia acordamos bem-dispostos sem saber porquê.
Por isso, um dia acordamos maldispostos sem saber porquê.
Por isso, uma dia dizemos - sem uma reflexão profunda - de alguém que tem carácter ou que não tem carácter. (É o cérebro a tecer o seu fio de raciocínio em silêncio.)
- Mas como é que se chama? Caramba, tenho o nome debaixo da língua.
- Não penses nisso.
E quinze minutos depois de ser deixar de pensar no assunto, o nome surge.
Para um escritor, uma determinada ligação da trama surge quando ele deixa de pensar nela. (Neste aspecto, o sono é muito importante porque é nele que o inconsciente labora.)
Também com a apreciação das pessoas o cérebro vai actuando sem que pensemos conscientemente nelas.
Por isso, um dia acordamos apaixonados.
Por um isso, um dia acordamos atraídos por alguém.
Por isso, um dia, depois de tomar banho, a minha amiga me disse:
- O Francisco foi pelo ralo. Estava a ver a água a deslizar pelo ralo e estranhamente via a minha paixão esvair-se totalmente.
Por isso, um dia acordamos bem-dispostos sem saber porquê.
Por isso, um dia acordamos maldispostos sem saber porquê.
Por isso, uma dia dizemos - sem uma reflexão profunda - de alguém que tem carácter ou que não tem carácter. (É o cérebro a tecer o seu fio de raciocínio em silêncio.)
sexta-feira, fevereiro 04, 2011
Mesmo Lisboa, a maior cidade do país, é tão pequenina. Se o mundo é pequeno, o que será uma cidade como Lisboa?
Conheces alguém e há sempre uma ligação. Parece que só há um grupo de pessoas. Porque é tudo primo da namorada de alguém. As coincidências da vida: a tua amante é irmã do colega de carteira da tua namorada e tu sempre pensaste que elas viviam em mundos paralelos que nunca se tocariam. O mundo não pára de crescer, mas a tendência não se inverte.
Conheces alguém e há sempre uma ligação. Parece que só há um grupo de pessoas. Porque é tudo primo da namorada de alguém. As coincidências da vida: a tua amante é irmã do colega de carteira da tua namorada e tu sempre pensaste que elas viviam em mundos paralelos que nunca se tocariam. O mundo não pára de crescer, mas a tendência não se inverte.
Café Magnetic na Conde Valbom. Espaço agradável, elegante. Ao meu lado, quatro mesas com grupos de raparigas e rapazes entre os 19 e os 22.
Leio. A comida chega. Pouso o livro. Ouço, como um investigador, as conversas das quatro mesas.
Demoro cerca de meia hora a comer.
Só falam de iphones, ipads, fotos no facebook.
Será que tenho sempre azar nas amostras? Ou será que aquilo que mais mudou o comportamento da geração actual foi mesmo a tecnologia?
Leio. A comida chega. Pouso o livro. Ouço, como um investigador, as conversas das quatro mesas.
Demoro cerca de meia hora a comer.
Só falam de iphones, ipads, fotos no facebook.
Será que tenho sempre azar nas amostras? Ou será que aquilo que mais mudou o comportamento da geração actual foi mesmo a tecnologia?
- Quem não esteve na guerra, não sabe o que é amizade. Só na guerra se conhece a palavra amizade e se percebe o quão raro ela é. Só num cenário de mata ou morre, se percebe se temos amigos. Cheguei a atravessar terrenos com minas onde sabia que podia morrer para proteger um amigo meu, mais medroso. E conheci pessoas que eram mal formadas e que revelaram gestos de uma humanidade inexcedível em contexto de guerra. Aprendi que podemos esperar a melhor acção da pior pessoa e a maior monstruosidade do ser mais bondoso. Aprendi também a detestar os fracos. Pior do que um homem cruel, é um homem cobarde. O cobarde, no contexto de guerra, é o mais perigoso de todos e aquele que é capaz de praticar as maiores atrocidades para se proteger.
quinta-feira, fevereiro 03, 2011
Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei
Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso
Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo
Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento
Sophia de Mello Breyner Andresen
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei
Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso
Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo
Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento
Sophia de Mello Breyner Andresen
quarta-feira, fevereiro 02, 2011
Os assexuados
As presunções colectivas. É hetero, é homo? Esquecemo-nos de que há muitos bi (e já nem digo o que Freud disse de sermos todos bissexuais latentes socialmente constrangidos).
Mas a MAIOR presunção é a do esquecimento a votamos aqueles-que-não-são-tão-poucos-quanto-isso: os assexuados.
Sim, há os que não gostam. Quase não se fala disso. Eu conheço, sim. E nunca me esquecerei da reportagem com vários assexuados que abertamente falaram sobre a sua condição - uma condição muito mais difícil de assumir do que a própria homossexualidade.
É que grande parte das pessoas não conhecem esta categoria. E se lhes contarem, não acreditam. Não lhes entra na cabeça.
Mas a MAIOR presunção é a do esquecimento a votamos aqueles-que-não-são-tão-poucos-quanto-isso: os assexuados.
Sim, há os que não gostam. Quase não se fala disso. Eu conheço, sim. E nunca me esquecerei da reportagem com vários assexuados que abertamente falaram sobre a sua condição - uma condição muito mais difícil de assumir do que a própria homossexualidade.
É que grande parte das pessoas não conhecem esta categoria. E se lhes contarem, não acreditam. Não lhes entra na cabeça.
Tinha 14 anos.
O meu professor de Português do nono ano (com quem ainda hoje falo) discutiu comigo sobre um verso de Camões.
«o rei temido e amado»
Ele:
- Angel, qual é a figura de estilo?
- Não vejo nenhuma.
- É o paradoxo. O que é temido não pode ser amado?
- Isso é uma apreciação subjectiva, stôr.
- Angel, como é que alguém pode ser temido e amado ao mesmo tempo?
Hoje, 16 anos volvidos, ainda estou mais convicto do que na altura: o stôr não tinha razão.
O meu professor de Português do nono ano (com quem ainda hoje falo) discutiu comigo sobre um verso de Camões.
«o rei temido e amado»
Ele:
- Angel, qual é a figura de estilo?
- Não vejo nenhuma.
- É o paradoxo. O que é temido não pode ser amado?
- Isso é uma apreciação subjectiva, stôr.
- Angel, como é que alguém pode ser temido e amado ao mesmo tempo?
Hoje, 16 anos volvidos, ainda estou mais convicto do que na altura: o stôr não tinha razão.
Não é meia-noite quem quer
Há anos que este verso de René Char me persegue. Pensei usá-lo como título para um livro, como coda para um capítulo, fazer variações em torno dele num texto qualquer. Não fiz nada, até agora, porque me anda na cabeça mas não me aparece na mão, e só consigo escrever com os dedos, os miolos não pegam na esferográfica. Por qualquer motivo obscuro o bico da caneta não o aprova. E, no entanto, volta não volta lembro-me dele. Por exemplo quando me cruzo com a mendiga estrangeira, alemã ou holandesa, não sei, a pedir esmola no semáforo aqui perto. Dorme, com os seus sacos de plástico, na paragem do autocarro quase por baixo da minha janela, puxando trapos para si. Nunca lhe entendi a língua, mais sopros que palavras. Espera que o sinal fique vermelho e percorre os automóveis, de mão estendida, a murmurar. As pessoas dos carros fingem que não vêem, olhando, fixas, para diante: uma desgraçada, mais uma, o que não falta por aí é gente assim. O sinal torna-se verde e ela corre para o passeio, com os sacos. Um grande amigo meu, José Cardoso Pires, que não tinha muito dinheiro, que tinha muito pouco dinheiro, dava-o a todos aos infelizes que encontrava na rua. Isto era uma das coisas que eu mais admirava nele. E sentia-o, por dentro, comovido, o Zé que tentava sempre esconder as emoções. Fazia livros, como eu. Era irascível, temperamental, muitíssimo corajoso. Infelizmente a estrangeira nunca o encontrou. É em seu nome que entrego moedas à mulher
- Da parte do Zé
embora duvide que ela me entenda, ou oiça sequer. Não faz mal: oiço e entendo eu.
Não é meia-noite quem quer, que deslumbramento para mim: olha o meu pai no hospital, de bata, olha eu no hospital, a sofrer. Já não sofro: cansei-me de dar prazer à desgraça. Se acontecer alguma chatice leva-me mas não me aborreças. Na recruta, a certa altura, tinha um pé inchadíssimo, de uma queda naqueles exercícios que por lá se faziam, custava-me a andar como o caneco, mas continuava, a repetir para mim mesmo
- É só dor, é só dor
e foi aí que comecei a não ter vergonha de mim. Ainda hoje
- É só dor
e a gente aguenta. Apesar de tudo não é meia-noite quem quer, não é verdade? Há uns tempos que não encontro a estrangeira: terá mudado de poiso, terá morrido? Ninguém morre, que ideia mais idiota, morrer. A prova é que o meu pai, por exemplo, continua a andar, de bata e cachimbo, no hospital, não me tiram isto da ideia:
- Os meus rapazes
dizia ele dos filhos
- Os meus rapazes
e os seus rapazes cá estão, mais ou menos mas cá estão, olha este sol agora, a entrar casa dentro, o chão iluminado, os móveis, as paredes, as folhas das árvores com tantas cores diferentes, porque não convidá-las
- Não lhes apetece entrar?
começo a fazer esta crónica com pausas dado que a mão vazia, parece que tropeça na página, lá se recompõe, a pobre, ameaça desmaiar de novo, um livro na estante, não sei ao certo onde, à minha esquerda, acho eu, principia a conversar comigo, pergunta uma coisa que não entendo bem, não lhe respondo, faço um gesto sem destino na esperança de contentá-lo, o livro cala-se, que esquisitos os livros, tanta barulheira às vezes. Acabei o meu trabalho ontem, seguem-se os habituais meses de pousio, quando não ando às voltas com um romance o mundo torna-se estranho, devia ir para os semáforos com sacos de plástico
- Uma ajudinha, amigo
e fico aqui a ler, na mesma mesa em que rabisco as páginas, que silêncio nas coisas, que vazio, não é meia-noite quem quer, rodeio-me de pessoas que não existem, rodeio-me de vozes, sinto-me cheio de palavras que não amadureceram ainda, não palavras, larvas de palavras, imagens que surgem e se desvanecem, desfocadas, fugidias, peço a mim mesmo
- Uma ajudinha, amigo
vejo o Zé à cata de dinheiro nos bolsos, ainda me toca passar na rua dele, há-de tocar-me sempre
- Uma ajudinha, amigo
a eterna queixa do Zé
- Como é que eu consigo gramar um gajo que gosta de comida de avião?
e é verdade, gosto de comida de avião, voltar a brincar aos jantarinhos com todos aqueles plásticos com coisas dentro, folhinhas, raminhos, pedrinhas, porcarias e eu com ar solene de quem almoça a sério, gosto de pedir vinho branco e ter medo que se espantem
- Vinho branco na sua idade?
e se queixem à minha mãe
- O miúdo bebe às escondidas
a minha mãe, severa
- Que história é essa do vinho?
mesmo que experimente amaciá-la com uma lista de bêbados ilustres
- Quero lá saber do Hemingway
confesso que realmente, eu que não tomo álcool, me bato com uma garrafa de vinho branco nos aviões, a indignação dela a aumentar
- E que fazes tu nos aviões, já agora?
quando devia estar no quarto às voltas com raízes quadradas e, aqui para nós, realmente devia, demorei que tempos a perceber porque chamavam quadradas às raízes, quer dizer, percebo vagamente, o professor acha que percebo e deixa-me em paz, no fundo não percebo
- Não sei nada da vida, senhor, desculpe
e não sei nada porque não é meia-noite quem quer, raio de verso, que mal fiz eu a Deus para me perseguires, a minha mãe não desiste
- Como estamos com a mão na massa a léria de ir para os semáforos é verdade?
eu com a estrangeira, alemã ou holandesa, nos sinais vermelhos, murmurando para os carros parados, com as pessoas, surdas, a olharem em frente, agarrando o volante com mais força, lá recolhemos ao passeio quando o verde chega, os dedos dela, com um resto de luva, pesam-me no ombro, hoje não durmo em casa, durmo na paragem do autocarro, e talvez não seja má ideia de todo porque, em frente, num out-door, há uma rapariga em lingerie, lindíssima, que de vez em quando me pisca o olho.
António Lobo Antunes
- Da parte do Zé
embora duvide que ela me entenda, ou oiça sequer. Não faz mal: oiço e entendo eu.
Não é meia-noite quem quer, que deslumbramento para mim: olha o meu pai no hospital, de bata, olha eu no hospital, a sofrer. Já não sofro: cansei-me de dar prazer à desgraça. Se acontecer alguma chatice leva-me mas não me aborreças. Na recruta, a certa altura, tinha um pé inchadíssimo, de uma queda naqueles exercícios que por lá se faziam, custava-me a andar como o caneco, mas continuava, a repetir para mim mesmo
- É só dor, é só dor
e foi aí que comecei a não ter vergonha de mim. Ainda hoje
- É só dor
e a gente aguenta. Apesar de tudo não é meia-noite quem quer, não é verdade? Há uns tempos que não encontro a estrangeira: terá mudado de poiso, terá morrido? Ninguém morre, que ideia mais idiota, morrer. A prova é que o meu pai, por exemplo, continua a andar, de bata e cachimbo, no hospital, não me tiram isto da ideia:
- Os meus rapazes
dizia ele dos filhos
- Os meus rapazes
e os seus rapazes cá estão, mais ou menos mas cá estão, olha este sol agora, a entrar casa dentro, o chão iluminado, os móveis, as paredes, as folhas das árvores com tantas cores diferentes, porque não convidá-las
- Não lhes apetece entrar?
começo a fazer esta crónica com pausas dado que a mão vazia, parece que tropeça na página, lá se recompõe, a pobre, ameaça desmaiar de novo, um livro na estante, não sei ao certo onde, à minha esquerda, acho eu, principia a conversar comigo, pergunta uma coisa que não entendo bem, não lhe respondo, faço um gesto sem destino na esperança de contentá-lo, o livro cala-se, que esquisitos os livros, tanta barulheira às vezes. Acabei o meu trabalho ontem, seguem-se os habituais meses de pousio, quando não ando às voltas com um romance o mundo torna-se estranho, devia ir para os semáforos com sacos de plástico
- Uma ajudinha, amigo
e fico aqui a ler, na mesma mesa em que rabisco as páginas, que silêncio nas coisas, que vazio, não é meia-noite quem quer, rodeio-me de pessoas que não existem, rodeio-me de vozes, sinto-me cheio de palavras que não amadureceram ainda, não palavras, larvas de palavras, imagens que surgem e se desvanecem, desfocadas, fugidias, peço a mim mesmo
- Uma ajudinha, amigo
vejo o Zé à cata de dinheiro nos bolsos, ainda me toca passar na rua dele, há-de tocar-me sempre
- Uma ajudinha, amigo
a eterna queixa do Zé
- Como é que eu consigo gramar um gajo que gosta de comida de avião?
e é verdade, gosto de comida de avião, voltar a brincar aos jantarinhos com todos aqueles plásticos com coisas dentro, folhinhas, raminhos, pedrinhas, porcarias e eu com ar solene de quem almoça a sério, gosto de pedir vinho branco e ter medo que se espantem
- Vinho branco na sua idade?
e se queixem à minha mãe
- O miúdo bebe às escondidas
a minha mãe, severa
- Que história é essa do vinho?
mesmo que experimente amaciá-la com uma lista de bêbados ilustres
- Quero lá saber do Hemingway
confesso que realmente, eu que não tomo álcool, me bato com uma garrafa de vinho branco nos aviões, a indignação dela a aumentar
- E que fazes tu nos aviões, já agora?
quando devia estar no quarto às voltas com raízes quadradas e, aqui para nós, realmente devia, demorei que tempos a perceber porque chamavam quadradas às raízes, quer dizer, percebo vagamente, o professor acha que percebo e deixa-me em paz, no fundo não percebo
- Não sei nada da vida, senhor, desculpe
e não sei nada porque não é meia-noite quem quer, raio de verso, que mal fiz eu a Deus para me perseguires, a minha mãe não desiste
- Como estamos com a mão na massa a léria de ir para os semáforos é verdade?
eu com a estrangeira, alemã ou holandesa, nos sinais vermelhos, murmurando para os carros parados, com as pessoas, surdas, a olharem em frente, agarrando o volante com mais força, lá recolhemos ao passeio quando o verde chega, os dedos dela, com um resto de luva, pesam-me no ombro, hoje não durmo em casa, durmo na paragem do autocarro, e talvez não seja má ideia de todo porque, em frente, num out-door, há uma rapariga em lingerie, lindíssima, que de vez em quando me pisca o olho.
António Lobo Antunes
Os homens que odeiam as mulheres
1. Quando tinha 15 anos, Stieg Larsson assistiu à violação de uma mulher por um grupo de homens. Impotente, nada pode fazer. O sentimento de culpa acompanhá-lo-ia pela vida fora, apenas conseguindo contar à mulher a experiência. Viria a expiar essa culpa, escrevendo livros - com detalhes vívidos do sadismo masculino - sobre os homens que odeiam, maltratam e violentam as mulheres.
2. Certa vez, um amigo meu disse-me sobre uma amiga sua que tinha acabado de apresentar:
- Para um homem conquistar a Maria, tem de ser a antítese do macho latino.
Guardei a frase na cabeça, sem perceber o fundamento. Anos mais tarde, tomando café com a Maria, ouvi:
- Quando tinha 18 anos, namorava com um jogador de rugby. A primeira vez que tive relações com ele marcou-me para a vida inteira. Quando saí de casa, estava uma turma inteira de rugby a bater palmas, a rir-se e a chamar-me vaca. Foi o pior momento da minha vida. Ele tinha deixado a janela aberta e todos tinham estado a assistir à perda da minha virgindade.
3. Um conhecido meu irritava-me por ter um tratamento tão diferenciado ante homens e mulheres.
Eu ia-lhe dizendo:
- Tu com as mulheres és outra pessoa.
Ele nada dizia.
E eu a dar-lhe:
- Mas porque é que tu só tens amizades femininas?
E ele nada.
Um dia, teve uma discussão violenta com um homem.
- Ouve lá, tu às mulheres permites tudo e com os homens és ultra-agressivo.
Ele olhou para baixo e com lágrimas na voz disse:
- Eu vi o meu pai a bater à minha mãe durante anos. Ela teve de fazer três abortos.
2. Certa vez, um amigo meu disse-me sobre uma amiga sua que tinha acabado de apresentar:
- Para um homem conquistar a Maria, tem de ser a antítese do macho latino.
Guardei a frase na cabeça, sem perceber o fundamento. Anos mais tarde, tomando café com a Maria, ouvi:
- Quando tinha 18 anos, namorava com um jogador de rugby. A primeira vez que tive relações com ele marcou-me para a vida inteira. Quando saí de casa, estava uma turma inteira de rugby a bater palmas, a rir-se e a chamar-me vaca. Foi o pior momento da minha vida. Ele tinha deixado a janela aberta e todos tinham estado a assistir à perda da minha virgindade.
3. Um conhecido meu irritava-me por ter um tratamento tão diferenciado ante homens e mulheres.
Eu ia-lhe dizendo:
- Tu com as mulheres és outra pessoa.
Ele nada dizia.
E eu a dar-lhe:
- Mas porque é que tu só tens amizades femininas?
E ele nada.
Um dia, teve uma discussão violenta com um homem.
- Ouve lá, tu às mulheres permites tudo e com os homens és ultra-agressivo.
Ele olhou para baixo e com lágrimas na voz disse:
- Eu vi o meu pai a bater à minha mãe durante anos. Ela teve de fazer três abortos.
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