segunda-feira, janeiro 31, 2011
Memória eidética
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.Ir para: navegação, pesquisa
Memória eidética, ou fotográfica [1], é a capacidade de se lembrar de coisas ouvidas e vistas, com um nível de detalhe quase perfeito. É um tipo de quase-memória sensorial, cujo tempo de permanência é de cerca de 20 milissegundos. Precede a memória de curto prazo.
Em filosofia, se refere à essência do conhecimento intuitivo eidética (eides, em grego). As diferentes possibilidades de conhecimento do fenômeno (aparência) e o númeno (coisa em si) é uma discussão que vem, pelo menos, de Immanuel Kant. Podemos acrescentar que a distinção entre o conhecimento da coisa em si e o conhecimento de nossa percepção das coisas é a questão fundamental da alegoria "da Caverna" de Platão, filósofo grego clássico. Para resolver a actual fenomenologia de Husserl, o conceito eidético é central.
Na psicologia, as pessoas com hipertrofia da memória eidética podem se lembrar de algo que você não viu ou ouviu, mesmo que tenham recebido apenas uma vez e de maneira fugaz. Em geral, as memórias são menos claras e de percepções menos detalhadas, mas às vezes a imagem memorizada está completa em cada detalhe. Este fenômeno ocorre freqüentemente em crianças, que às vezes são capazes de reconstruir uma imagem tão completamente, que podem começar a soletrar uma página inteira escrita em um idioma desconhecido, ainda que mal a tenham visto por um tempo. Aqueles que tem memória eidética são capazes de retroceder aos dados de sua percepção visual através da memória eidética e projetá-los em uma tela de lona.
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.Ir para: navegação, pesquisa
Memória eidética, ou fotográfica [1], é a capacidade de se lembrar de coisas ouvidas e vistas, com um nível de detalhe quase perfeito. É um tipo de quase-memória sensorial, cujo tempo de permanência é de cerca de 20 milissegundos. Precede a memória de curto prazo.
Em filosofia, se refere à essência do conhecimento intuitivo eidética (eides, em grego). As diferentes possibilidades de conhecimento do fenômeno (aparência) e o númeno (coisa em si) é uma discussão que vem, pelo menos, de Immanuel Kant. Podemos acrescentar que a distinção entre o conhecimento da coisa em si e o conhecimento de nossa percepção das coisas é a questão fundamental da alegoria "da Caverna" de Platão, filósofo grego clássico. Para resolver a actual fenomenologia de Husserl, o conceito eidético é central.
Na psicologia, as pessoas com hipertrofia da memória eidética podem se lembrar de algo que você não viu ou ouviu, mesmo que tenham recebido apenas uma vez e de maneira fugaz. Em geral, as memórias são menos claras e de percepções menos detalhadas, mas às vezes a imagem memorizada está completa em cada detalhe. Este fenômeno ocorre freqüentemente em crianças, que às vezes são capazes de reconstruir uma imagem tão completamente, que podem começar a soletrar uma página inteira escrita em um idioma desconhecido, ainda que mal a tenham visto por um tempo. Aqueles que tem memória eidética são capazes de retroceder aos dados de sua percepção visual através da memória eidética e projetá-los em uma tela de lona.
Os benefícios do tabaco
Viver sem fumar é como escrever sem pontuação. Pelo menos, para mim. A pequena cerimónia de acender um cigarro marca um "tempo": o princípio do dia, o princípio do trabalho, cada intervalo ou cada distracção, o alívio (ou o prazer) de acabar qualquer coisa, o almoço (quando almoço), o jantar (quando janto), o fim do dia, antes de fechar a luz, como um ponto parágrafo. O cigarro divide, acentua, encoraja, consola. Abre e fecha. É uma estação e uma recapitulação. "Já cheguei aqui. Falta ainda isto, isto e aquilo". Nas poucas vezes que tentei não fumar, tinha um sentimento de desordem, de arbitrariedade, de não saber passar de um frase a outra ou de um capítulo ao capítulo seguinte. Os fumadores, se repararem bem, não fumam ao acaso; fumam com ritmo.O cigarro também é uma companhia. Sobretudo para quem trabalha sozinho. A maior parte das pessoas vai falando, pouco ou muito, durante o trabalho. Por necessidade ou por gozo próprio. Do "serviço" à intriga, há milhares de oportunidades para o grande e simpático exercício de conhecer o próximo: para gostar dele ou para o detestar, para o observar, o comentar ou o intrigar. De porta fechada, à frente de um computador ou de um livro, não há nada à volta. Aí o cigarro ajuda. É um fiel amigo: a pausa que torna o resto tolerável. E que, além disso, recompensa uma boa ideia ou manifesta o entusiasmo ou a execração pelo que se leu. Com quem se pode conversar senão com o cigarro? De certa maneira, o cigarro substitui a humanidade; e não me obriguem a fazer analogias. Mas, principalmente, fumar serve para pensar. Quando, a ler ou a escrever, paro a meio de uma página, porque me perdi num argumento ou não consigo imaginar como se continua, pego num cigarro e penso. Não me levanto, não me agito, não abro a boca, não me distraio. Fumo e procuro com paciência a asneira. O cigarro concentra e acalma. Restabelece, por assim dizer, a normalidade. E este efeito "normalizador" é com certeza uma das suas maiores virtudes. Não comecei a fumar para ser adulto ou "viril". Comecei a fumar porque sou horrorosamente tímido e porque o cigarro é com certeza a maior defesa dos tímidos. Primeiro, porque ocupa as mãos e simula um arzinho de à-vontade. E, segundo, porque esconde e protege ou cria a ilusão de que esconde e protege. Por detrás de um cigarro, o mundo parece mais seguro. Mesmo se andam por aí a garantir que não.
Vasco Pulido Valente
Vasco Pulido Valente
Psicanálise
Nicole Diver não gostava de homens que se aproximassem dela de forma doce. O seu pai abusara dela quando era miúda e, antes de o fazer, cantava-lhe as mais doces canções. Um homem, para se aproximar dela, tinha de ser tudo menos sweet.
domingo, janeiro 30, 2011
Livrarias Modernas
Entro na livraria do Monumental (Bookstore?) e vejo o 1984 na secção de Psicologia. Os livros com maior destaque estão pejados de capas com os filmes respectivos (até aos clássicos já fazem isto).
Observo as pessoas. Não há uma pessoa dentro da livraria que não esteja a tactear os livros em voga. Os tais best sellers que nunca serão long sellers. Os que sobram procuram apenas livros «técnicos» - para alguma tese, para alguma cadeira e um sobre o Windows Vista.
Vou à caixa. Pergunto títulos de clássicos. Não há, dizem.
Acrescentam:
- Tem a certeza que existe?
(Só falta dizerem: o Tolstoi não é fashion.)
Observo as pessoas. Não há uma pessoa dentro da livraria que não esteja a tactear os livros em voga. Os tais best sellers que nunca serão long sellers. Os que sobram procuram apenas livros «técnicos» - para alguma tese, para alguma cadeira e um sobre o Windows Vista.
Vou à caixa. Pergunto títulos de clássicos. Não há, dizem.
Acrescentam:
- Tem a certeza que existe?
(Só falta dizerem: o Tolstoi não é fashion.)
sábado, janeiro 29, 2011
Qualquer pessoa com o coeficiente-mínimo-de-mundo sabe o que se segue à frase:
- Há uma coisa que gostaria de te dizer porque não queria que viesses a saber por outra pessoa.
(eu tenho alguém)
Para o jogador, contudo, esta frase não é dramática. Ele conhece a amplitude do tempo e a dissolução de todos os laços. Ele sabe que as paixões não são eternas, relativiza tudo e tem uma infinita capacidade de regeneração da esperança.
Além de uma voz que lhe sussurra sempre:
- Um dia, ela voltará.
(like all the other ones do)
- Há uma coisa que gostaria de te dizer porque não queria que viesses a saber por outra pessoa.
(eu tenho alguém)
Para o jogador, contudo, esta frase não é dramática. Ele conhece a amplitude do tempo e a dissolução de todos os laços. Ele sabe que as paixões não são eternas, relativiza tudo e tem uma infinita capacidade de regeneração da esperança.
Além de uma voz que lhe sussurra sempre:
- Um dia, ela voltará.
(like all the other ones do)
WHY?
A polícia ugandesa confirmou a morte de David Kato, não querendo avançar mais detalhes sobre a “investigação pendente”. O advogado do activista, John Francis Onyango, precisou que o assassinato se deu ontem, perto das 13h30, quando um homem entrou em casa de Kato, em Mukono, e o alvejou duas vezes na cabeça. Segundo Onyango, a polícia recebeu informação da matrícula do carro em que o suspeito assassino fugiu.
A organização de defesa dos direitos humanos Human Rights Watch, em comunicado divulgado esta manhã, refere porém com base em testemunhos dados à polícia que o activista foi agredido com duas pancadas violentas na cabeça, muito provavelmente com um martelo, e morreu já ao ser transportado para o hospital de Kawolo.
David Kato, militante da associação Minorias Sexuais do Uganda (Smug), fora identificado – com nome e fotografia – como sendo homossexual pelo tablóide ugandês "Rolling Stone" (sem qualquer relação com a revista musical norte-americana com o mesmo nome). Ele e outros dois homens eram identificados naquele artigo, o primeiro de uma longa série, publicado em 2010, intitulado “Enforquem-nos” e no qual era feito um apelo para “atar” os activistas homossexuais.
Em Novembro passado, na esteira de uma queixa judicial apresentada por David Kato, um juiz proibiu aquele tablóide de continuar a publicar fotografias de pessoas identificadas como homossexuais, justificando que tal viola o direito à privacidade – até aí o jornal tinha publicado as fotografias de 29 pessoas, identificando-as pelo nome e, em alguns casos, dando as suas moradas.
Vários activistas no país afirmam ter sido atacados devido àquela publicação e o próprio Kato já alertara ter recebido ameaças de morte.
Os EUA já condenaram esta morte, através do sub-secretário de Estado para África, Johnnie Carson. "Ficámos horrorizados com a morte do célebre militante pelos direitos humanos David Kato", escreveu Carson numa mensagem no Twitter.
Também o presidente do Parlamento Europeu, Jersy Busek, lançou um apelo às autoridades do Uganda para que os responsáveis por esta morte sejam julgados, e para que um projecto de lei contra os homossexuais seja abandonado. "Lamento que o Uganda continue a ser um país onde a homossexualidade é considerada um crime", disse à AFP. E adiantou: "David Kato era um homem que combatia pelo direito de as pessoas viverem livremente no Uganda, qualquer que fosse a sua orientação sexual e lanço um apelo para que os autores deste crime sejam levados perante a justiça".
Os actos homossexuais são considerados crime no Uganda, com penas previstas até 14 anos de prisão. Um deputado ugandês lançou uma proposta em Outubro de 2009 para que as penas fossem aumentadas, em alguns casos, até à pena de morte para os "criminosos reincidentes" – e contra a qual Kato fez campanha. A proposta acabou por ser abandonada, discretamente, depois de uma vaga de críticas da comunidade internacional.
O director do tablóide homofóbico, Giles Muhame, desvalorizou a relação entre os artigos que publicara e a morte do activista: "É mau se ele foi assassinado e rezamos pela sua alma. Mas têm havido muitos crimes e [a morte de Kato] pode não se dever a ele ser gay. Nós queremos que o Governo enforque as pessoas que promovem a homossexualidade, não que o público as ataque. O que dissemos foi que devem ser enforcados, não apedrejados ou atacados", explicou, citado pela agência noticiosa britânica Reuters.
A organização de defesa dos direitos humanos Human Rights Watch, em comunicado divulgado esta manhã, refere porém com base em testemunhos dados à polícia que o activista foi agredido com duas pancadas violentas na cabeça, muito provavelmente com um martelo, e morreu já ao ser transportado para o hospital de Kawolo.
David Kato, militante da associação Minorias Sexuais do Uganda (Smug), fora identificado – com nome e fotografia – como sendo homossexual pelo tablóide ugandês "Rolling Stone" (sem qualquer relação com a revista musical norte-americana com o mesmo nome). Ele e outros dois homens eram identificados naquele artigo, o primeiro de uma longa série, publicado em 2010, intitulado “Enforquem-nos” e no qual era feito um apelo para “atar” os activistas homossexuais.
Em Novembro passado, na esteira de uma queixa judicial apresentada por David Kato, um juiz proibiu aquele tablóide de continuar a publicar fotografias de pessoas identificadas como homossexuais, justificando que tal viola o direito à privacidade – até aí o jornal tinha publicado as fotografias de 29 pessoas, identificando-as pelo nome e, em alguns casos, dando as suas moradas.
Vários activistas no país afirmam ter sido atacados devido àquela publicação e o próprio Kato já alertara ter recebido ameaças de morte.
Os EUA já condenaram esta morte, através do sub-secretário de Estado para África, Johnnie Carson. "Ficámos horrorizados com a morte do célebre militante pelos direitos humanos David Kato", escreveu Carson numa mensagem no Twitter.
Também o presidente do Parlamento Europeu, Jersy Busek, lançou um apelo às autoridades do Uganda para que os responsáveis por esta morte sejam julgados, e para que um projecto de lei contra os homossexuais seja abandonado. "Lamento que o Uganda continue a ser um país onde a homossexualidade é considerada um crime", disse à AFP. E adiantou: "David Kato era um homem que combatia pelo direito de as pessoas viverem livremente no Uganda, qualquer que fosse a sua orientação sexual e lanço um apelo para que os autores deste crime sejam levados perante a justiça".
Os actos homossexuais são considerados crime no Uganda, com penas previstas até 14 anos de prisão. Um deputado ugandês lançou uma proposta em Outubro de 2009 para que as penas fossem aumentadas, em alguns casos, até à pena de morte para os "criminosos reincidentes" – e contra a qual Kato fez campanha. A proposta acabou por ser abandonada, discretamente, depois de uma vaga de críticas da comunidade internacional.
O director do tablóide homofóbico, Giles Muhame, desvalorizou a relação entre os artigos que publicara e a morte do activista: "É mau se ele foi assassinado e rezamos pela sua alma. Mas têm havido muitos crimes e [a morte de Kato] pode não se dever a ele ser gay. Nós queremos que o Governo enforque as pessoas que promovem a homossexualidade, não que o público as ataque. O que dissemos foi que devem ser enforcados, não apedrejados ou atacados", explicou, citado pela agência noticiosa britânica Reuters.
quinta-feira, janeiro 27, 2011
Megalomanias
Já escrevi o discurso para o caso de um dia vencer o prémio Nobel da Literatura.
«Desde sempre, quis ser escritor. É um ofício que implica anos e anos e anos de combate. Passa-se a vida a ler, a observar, a reflectir, a pelejar por encontrarmos a nossa própria voz contra os triliões de livros que nos garantem que já tudo foi dito.
Tudo desaparece um dia. As experiências, o amor, os laços entre as pessoas, o prazer, o sofrimento. A Literatura é, para mim, a tentativa mais plausível de alcançar a perenidade. A única luta em que somos capazes de derrotar a morte.
O escritor deve procurar uma força centrípeta no centro do papel - uma força colossal que sugue tudo, todas as vidas, todo o mundo, todas as casas, todas as ruas, todas as pessoas, todos os acontecimentos, todas as ideias, todos os sentimentos, para o centro da folha; vertendo tudo o que existe e não existe sob a forma de palavras.
O dinheiro que me é ofertado será utilizado para a criação de um fundo que todos os anos premeie um país que tenha abolido a pena de morte.
Obrigado.»
«Desde sempre, quis ser escritor. É um ofício que implica anos e anos e anos de combate. Passa-se a vida a ler, a observar, a reflectir, a pelejar por encontrarmos a nossa própria voz contra os triliões de livros que nos garantem que já tudo foi dito.
Tudo desaparece um dia. As experiências, o amor, os laços entre as pessoas, o prazer, o sofrimento. A Literatura é, para mim, a tentativa mais plausível de alcançar a perenidade. A única luta em que somos capazes de derrotar a morte.
O escritor deve procurar uma força centrípeta no centro do papel - uma força colossal que sugue tudo, todas as vidas, todo o mundo, todas as casas, todas as ruas, todas as pessoas, todos os acontecimentos, todas as ideias, todos os sentimentos, para o centro da folha; vertendo tudo o que existe e não existe sob a forma de palavras.
O dinheiro que me é ofertado será utilizado para a criação de um fundo que todos os anos premeie um país que tenha abolido a pena de morte.
Obrigado.»
terça-feira, janeiro 25, 2011
Parabéns, Sofia Trindade
Basta-me ter acabado de escrever o teu nome para me lembrar de que a nossa ligação cósmica perdura, para lá da espuma das palavras, das estações e dos outros seres com joelhos e olhos como nós.
Como hoje celebras a idade de Cristo, deixa-me hoje chamar-te: Holy Trinity.
Holy Trinity, hoje aparecerei pontualmente no teu jantar. Haja o que houver.
Nunca me esquecerei de quando vieste de Londres com o único fito de celebrares os teus trinta em Lisboa. Que dia :).
Apesar de saber que não precisamos de combinar nada, por tantas vezes irmos aos mesmos sítios no minuto exacto da hora exacta, pelos motivos mais imprevistos (até no supermercado onde só foste uma vez e em que o tempo parou como no filme do Big Fish), este ano estarei garantidamente mais presente.
Angel
Como hoje celebras a idade de Cristo, deixa-me hoje chamar-te: Holy Trinity.
Holy Trinity, hoje aparecerei pontualmente no teu jantar. Haja o que houver.
Nunca me esquecerei de quando vieste de Londres com o único fito de celebrares os teus trinta em Lisboa. Que dia :).
Apesar de saber que não precisamos de combinar nada, por tantas vezes irmos aos mesmos sítios no minuto exacto da hora exacta, pelos motivos mais imprevistos (até no supermercado onde só foste uma vez e em que o tempo parou como no filme do Big Fish), este ano estarei garantidamente mais presente.
Angel
- O Vergílio Ferreira está num plano acima dos outros escritores. Porque ele era um interrogador disto tudo. Porque vivemos? Consegue responder? Porquê a vida? E depois: para quê viver? Para quê? Fiz ontem oitenta anos e cada vez mais tenho a certeza de que existe qualquer coisa depois da morte. Dizem-me: bom, então acredita na vida depois da morte. Eu não gosto do verbo acreditar, sabe, porque quem acredita deixa de ter dúvidas e de interrogar. E, de resto, se vir bem, mesmo quem acredita não consegue definir que coisa é essa que há depois da morte. E ninguém tem uma definição exactamente igual à de outro. A resposta é sempre individual. Uma coisa é clara para mim: se isto não tem continuidade, então porra, isto não tem sentido nenhum. Não é lógico. No meu aniversário, pus-me a olhar para a fotografia do Vergílio. É uma fotografia que tenho dele que lhe captou um sorriso... É um sorriso de quem entreviu outro plano ou outros planos. E eu perguntei-lhe: Vergílio, tu que já partiste, diz-me lá, em que plano estás tu?
domingo, janeiro 23, 2011
Porque há pessoas que ficam na terra mais tempo do que outras - porque têm projectos sempre
Não olho para o que fiz. Olho para o que vou fazer.
Manoel de Oliveira
Manoel de Oliveira
sábado, janeiro 22, 2011
Penso-te com tanto ruído à volta. Como se todos quisessem interferir involuntariamente num processo que lhes é alheio. Penso-te com a rapidez das imagens que flutuam na minha cabeça. Penso-te o cheiro e a pele. Lembro-me do som da tua gargalhada provocada por mais do que duas ou três palavras banais. E o teu olhar que é enorme e me invade de uma forma que me alter(n)a.
É noite. Da janela sai um fio de luz que não me ajuda. Quero ver-te. Chego com o toque. Cheiro-te. Embriago-me.
Embriago-me. Embriago-me. Embriago-me.
A minha mão entrelaçou-se na tua e olho-nos o encaixe. É perfeito.
Continuo a pensar-te por vezes o indizível. E pedes para te dizer e tento dar a volta ao texto e às palavras que querem saltar de um peito em cheio.Sinto-te o aroma.
Quero-te.
MC
É noite. Da janela sai um fio de luz que não me ajuda. Quero ver-te. Chego com o toque. Cheiro-te. Embriago-me.
Embriago-me. Embriago-me. Embriago-me.
A minha mão entrelaçou-se na tua e olho-nos o encaixe. É perfeito.
Continuo a pensar-te por vezes o indizível. E pedes para te dizer e tento dar a volta ao texto e às palavras que querem saltar de um peito em cheio.Sinto-te o aroma.
Quero-te.
MC
quinta-feira, janeiro 20, 2011
De Deus como apreciador de jazz
Cresci com um enorme retrato de Charlie Parker no quarto. Julgo que para um miúdo que resumia toda a sua ambição em tornar-se escritor Charlie Parker era de facto a companhia ideal. Esse pobre, sublime, miserável, genial drogado que passou a vida a matar-se e morreu de juventude como outros de velhice continua a encarnar para mim aquela frase da Arte Poética de Horácio que resume o que deve ser qualquer livro ou pintura ou sinfonia ou o que seja: uma bela desordem precedida do furor poético
diz ele
é o fundamento da ode. Sempre que me falam de palavras e influências rio-me um pouco por dentro: quem ajudou de fato a amadurecer o meu trabalho foram os músicos. A minha estrada de Damasco ocorreu há cerca de dez anos, diante de um aparelho de televisão onde um ornitólogo inglês explicava o canto dos pássaros. Tornava-o não sei quantas vezes mais lento, decompunha-o e provava, comparando com obras de Haendel e Mozart, a sua estrutura sinfónica. No fim do programa eu tinha compreendido o que devia fazer: utilizar as personagens como os diversos instrumentos de uma orquestra e transformar o romance numa partitura. Beethoven, Brahms e Mahler serviram-me de modelo para A Ordem Natural das Coisas, A Morte de Carlos Gardel e O Manual dos Inquisidores, até me achar capaz de compor por conta própria juntando o que aprendi com os saxofonistas de jazz, principalmente Charlie Parker, Lester Young e Ben Webster, o Ben Webster da fase final, de Atmosfera para Amantes e Ladrões, onde se entende mais sobre metáforas directas e retenção de informação do que em qualquer breviário de técnica literária. Lester Young, esse, ensinou-me a frasear. Era um homem que começou por tocar bateria. Um crítico perguntou-lhe qual o motivo que o levara a mudar da bateria para um instrumento de sopro e ele explicou:
–Sabe, a bateria é uma coisa horrivelmente complicada. No fim dos concertos, quando acabava de desarmá-la, já todos os colegas se tinham ido embora com as raparigas mais bonitas.
O facto de desejar ter também raparigas bonitas levou-o, entre outras obras-primas, a These Foolish Things onde cada nota parece o último suspiro de um anjo iluminado. A fotografia que dele tenho mostra um homem sentado na borda da cama de um quarto de hotel com um sax tenor ao lado. Magro e envelhecido fita-nos através dos anos com os olhos mais doces e tristes que já vi. Usa uma gravata torta e um casaco amassado, e poucas pessoas estiveram decerto tão perto de Deus quanto esse vagabundo celeste.
Ben Webster, por seu turno, assemelhava-se a um lojista gordo que uma auréola invisível mas óbvia transfigurava. Estas três criaturas sentavam-se à direita do Pai e espanta-me não as encontrar nos altares das igrejas. Talvez que não exista lugar, em céus de mármore e gesso, para alcoólicos promíscuos e pecadores sem remédio. Talvez haja pessoas que se sintam melhor na companhia de criaturas edificantes que não edificaram nada a não ser vidas sem alegria rematadas por agonias virtuosas em odores de açucena. Como penso que Deus não é parvo estou certo que lhe daria comichão tanta bondade melancólica e tanta estreiteza sem mérito. Aposto mesmo que toca bateria a fim de deixar para os outros as raparigas mais bonitas, e ficar a arrumar discretamente tudo aquilo, tambores e pratos, enquanto Charlie Parker, Lester Young e Ben Webster levam em paz o gin, a marijuana e as miúdas jeitosas para um estúdio de gravação onde Billie Holliday principiou agora mesmo a cantar o Seu poder e a Sua glória até ao fim dos tempos.
António Lobo Antunes
diz ele
é o fundamento da ode. Sempre que me falam de palavras e influências rio-me um pouco por dentro: quem ajudou de fato a amadurecer o meu trabalho foram os músicos. A minha estrada de Damasco ocorreu há cerca de dez anos, diante de um aparelho de televisão onde um ornitólogo inglês explicava o canto dos pássaros. Tornava-o não sei quantas vezes mais lento, decompunha-o e provava, comparando com obras de Haendel e Mozart, a sua estrutura sinfónica. No fim do programa eu tinha compreendido o que devia fazer: utilizar as personagens como os diversos instrumentos de uma orquestra e transformar o romance numa partitura. Beethoven, Brahms e Mahler serviram-me de modelo para A Ordem Natural das Coisas, A Morte de Carlos Gardel e O Manual dos Inquisidores, até me achar capaz de compor por conta própria juntando o que aprendi com os saxofonistas de jazz, principalmente Charlie Parker, Lester Young e Ben Webster, o Ben Webster da fase final, de Atmosfera para Amantes e Ladrões, onde se entende mais sobre metáforas directas e retenção de informação do que em qualquer breviário de técnica literária. Lester Young, esse, ensinou-me a frasear. Era um homem que começou por tocar bateria. Um crítico perguntou-lhe qual o motivo que o levara a mudar da bateria para um instrumento de sopro e ele explicou:
–Sabe, a bateria é uma coisa horrivelmente complicada. No fim dos concertos, quando acabava de desarmá-la, já todos os colegas se tinham ido embora com as raparigas mais bonitas.
O facto de desejar ter também raparigas bonitas levou-o, entre outras obras-primas, a These Foolish Things onde cada nota parece o último suspiro de um anjo iluminado. A fotografia que dele tenho mostra um homem sentado na borda da cama de um quarto de hotel com um sax tenor ao lado. Magro e envelhecido fita-nos através dos anos com os olhos mais doces e tristes que já vi. Usa uma gravata torta e um casaco amassado, e poucas pessoas estiveram decerto tão perto de Deus quanto esse vagabundo celeste.
Ben Webster, por seu turno, assemelhava-se a um lojista gordo que uma auréola invisível mas óbvia transfigurava. Estas três criaturas sentavam-se à direita do Pai e espanta-me não as encontrar nos altares das igrejas. Talvez que não exista lugar, em céus de mármore e gesso, para alcoólicos promíscuos e pecadores sem remédio. Talvez haja pessoas que se sintam melhor na companhia de criaturas edificantes que não edificaram nada a não ser vidas sem alegria rematadas por agonias virtuosas em odores de açucena. Como penso que Deus não é parvo estou certo que lhe daria comichão tanta bondade melancólica e tanta estreiteza sem mérito. Aposto mesmo que toca bateria a fim de deixar para os outros as raparigas mais bonitas, e ficar a arrumar discretamente tudo aquilo, tambores e pratos, enquanto Charlie Parker, Lester Young e Ben Webster levam em paz o gin, a marijuana e as miúdas jeitosas para um estúdio de gravação onde Billie Holliday principiou agora mesmo a cantar o Seu poder e a Sua glória até ao fim dos tempos.
António Lobo Antunes
Relações modernas
- Porque estamos juntos?
- Porque temos medo de ficar sozinhos.
- Não gosto propriamente dela...
- Ninguém te obriga a estar com ela.
- O hábito tem uma força tremenda.
- Porque temos medo de ficar sozinhos.
- Não gosto propriamente dela...
- Ninguém te obriga a estar com ela.
- O hábito tem uma força tremenda.
Subscrever:
Mensagens (Atom)