so i'll wait for you
where i always wait
behind the signs that sell the news
oh if i could just once catch your eye
invisible against the words
that hold you down in solitude
and never let you go
Robert Smith
sexta-feira, dezembro 31, 2010
Um amigo disse-me certa noite com os copos:
- Angel, eu quero que os meus amigos estejam bem, mas, digo-te, não podem ter mais sucesso do que eu. Isso não. Que estejam bem, mas que não tenham mais sucesso do que eu; um bocadinho menos, tem de ser.
Na altura, fiquei perplexo. Nove anos volvidos, acho que não é assim tão fácil encontrar uma amizade desprovida do verbo competir. Especialmente, quando te vêem como Grande.
- Angel, eu quero que os meus amigos estejam bem, mas, digo-te, não podem ter mais sucesso do que eu. Isso não. Que estejam bem, mas que não tenham mais sucesso do que eu; um bocadinho menos, tem de ser.
Na altura, fiquei perplexo. Nove anos volvidos, acho que não é assim tão fácil encontrar uma amizade desprovida do verbo competir. Especialmente, quando te vêem como Grande.
Camões
Num documentário sobre Camões, a certa altura conta-se a história de uma prostituta que dizia que Camões era o único homem que procurava dar-lhe prazer. Se recuarmos cinco séculos, é algo que nos faz perceber a grandiosidade do senhor. Não é por acaso que Camões, um homem muito à frente do seu tempo, escreveu (naquela época, lembrem-se) satirizando com os homens muito machões que só procuravam retirar prazer sexual unívoco com as mulheres. Julgam que elas não vão procurar noutro lado, seus marialvas - lê-se no subtexto.
2010
Este foi um ano de muito trabalho.
Este foi um ano em que intervalei algo infinito.
Este foi o ano em que recuperei aquilo que nunca perderei, creio.
Este foi um ano em que - eu que é difícil gostar mesmo de alguém - conheci algumas pessoas muito interessantes. Confesso.
Este foi um ano em que intervalei algo infinito.
Este foi o ano em que recuperei aquilo que nunca perderei, creio.
Este foi um ano em que - eu que é difícil gostar mesmo de alguém - conheci algumas pessoas muito interessantes. Confesso.
Tirésias
Cheguei ao conhecimento da personalidade mitológica Tirésias através da poesia de T. S. Elliot. Da mitologia greco-romana, juntamente com o Suplício de Tântal e a Sentença de Páris, a história e a figura de Tirésias são das que me mais me fascinam.
Duas coisas me fazem pensar muitas vezes em Tirésias. Tirésias foi castigado com a cegueira, mas em troca recebeu o dom de ver o futuro. Tirésias foi o único deus que experimentou os dois sexos - que conheceu o que era ser homem e mulher.
Quando Tirésias ia orar sobre o monte Citeron, deparou-se com um casal de cobras venenosas copulando que o atacar. Tirésias matou a fêmea e imediatamente se transformou em mulher (durante sete anos).
Numa discussão entre Zeus e Hera sobre quem tinha maior prazer sexual, Tirésias foi o único convidado a dar um parecer. Era o homem, sustentava Hera. Era a mulher, sustentava Zeus.
A resposta de Tirésias:
«Se dividirmos o prazer sexual em dez partes, a mulher fica com nove e o homem com uma.»
Hera, furiosa, cegou Tirésias. Zeus, para o compensar, dotou-o da capacidade da previsão e de sobreviver a sete gerações humanas.
Tirésias foi útil enquanto conselheiro da guerra devido às suas capacidades analítico-proféticas.
Arrastou-se pelo mundo durante sete, oito ou nove (consoante as múltiplas versões que há sempre na literatura envolvendo os mitos) gerações, cego, conhecedor dos dois sexos e conseguindo prever o futuro e auxiliar quem o consultava.
Duas coisas me fazem pensar muitas vezes em Tirésias. Tirésias foi castigado com a cegueira, mas em troca recebeu o dom de ver o futuro. Tirésias foi o único deus que experimentou os dois sexos - que conheceu o que era ser homem e mulher.
Quando Tirésias ia orar sobre o monte Citeron, deparou-se com um casal de cobras venenosas copulando que o atacar. Tirésias matou a fêmea e imediatamente se transformou em mulher (durante sete anos).
Numa discussão entre Zeus e Hera sobre quem tinha maior prazer sexual, Tirésias foi o único convidado a dar um parecer. Era o homem, sustentava Hera. Era a mulher, sustentava Zeus.
A resposta de Tirésias:
«Se dividirmos o prazer sexual em dez partes, a mulher fica com nove e o homem com uma.»
Hera, furiosa, cegou Tirésias. Zeus, para o compensar, dotou-o da capacidade da previsão e de sobreviver a sete gerações humanas.
Tirésias foi útil enquanto conselheiro da guerra devido às suas capacidades analítico-proféticas.
Arrastou-se pelo mundo durante sete, oito ou nove (consoante as múltiplas versões que há sempre na literatura envolvendo os mitos) gerações, cego, conhecedor dos dois sexos e conseguindo prever o futuro e auxiliar quem o consultava.
Robert Smith, vocalista dos Cure, teve um incêndio na casa onde a banda preparava um disco. As chamas eram altíssima e Robert Smith corria perigo de vida. Enquanto todos procuravam fugir e salvar a vida, Robert Smith agarrou toalhas que encharcou de água e foi até ao armário. Tinha coisas valiosíssimas em casa. Mas só uma lhe interessava salvar. As suas letras para o próximo álbum. Correndo risco de vida, resgatou-as contra as chamas e os gritos dos membros da banda. Algumas estavam chamuscadas nas pontas, mas Robert Smith dedicou-se laboriosamente durante semanas a adivinhar as palavras cortadas.
A única coisa boa de sociedades secretas, é que são secretas. Mas deviam ser mais. Ao ponto de terem um único sócio.
Ou como disse o Groucho Max - "Nunca pertencerei a um clube que me aceite como membro". O Woody Allen parodiou a frase mais tarde referindo-a às suas relações falhadas com mulheres, no filme Annie Hall. É uma leitura.
Mas estávamos a falar de politica?
Alguém irá realmente votar num homem que ocupando o cargo, não demitiu um dos "cabecilhas" do BPN de Conselheiro de Estado?!!! Teve o próprio, pressionado pela imprensa (a nossa má imprensa!) que demitir-se! Um Presidente de Portugal, que tinha parte do seu dinheiro depositado lá, mais a filha, mais acções e vendeu (mais a filha) e depositou noutro banco (mais a filha), antes do escândalo rebentar, ganhando assim umas largas massas? É um bom adivinho, este presidente. Pena que não tenha adivinhado a crise financeira posterior. Ou avisado os portugueses que lá tinham dinheiro. Mas ok, vamos admitir apenas olho para o negócio. Um economista oriundo de Boliqueime, uma terra com honras de placas nas auto-estradas, onde ninguém vai, deve ter uma moral superior. Mas que agora culpa os novos administradores do BPN do buraco financeiro.. Sem uma palavra sequer, para a anterior administração! É preciso ter desplante.. Faz-me lembrar há uns anos, a gula do Bolo Rei - http://www.youtube.com/watch?v=KOWmcmbGp18&feature=player_embedded
Um homem que remete para o site da presidência todos os assuntos incómodos. Um homem que não sabe dar um murro na mesa em defesa de uma opinião.
Deixem-me contar uma legenda do Miguel Esteves Cardoso, sobre uma foto do nosso presidente, aquando 1º Ministro, ao receber o presidente de Angola, Eduardo dos Santos, em Lisboa. A foto, simples, consistia no Cavaco, a sua esposa, mais o Eduardo dos Santos e a sua mulher. Uma foto simples. O comentário:
"Há qualquer coisa de errado com esta foto. Sei o que estão a pensar - Um democrata, junto de um ditador, um déspota. Mas não é isso que eu vejo. Vejo um homem que parece um actor de cinema, com uma mulher lindíssima ao seu lado, junto de um labrego e sua esposa paralela." Mas isto foi apenas um fait divers. Voltando à vaca fria, há pouco tempo atrás, se me pedissem um rosto da corrupção neste país, elegia o Valentim Loureiro. Imaginam um cartaz com a sua cara e o a palavra Corrupção em baixo. Ninguém iria achar estranho. Neste momento elegeria o Sr. Dias Loureiro. O tal, que foi administrador do BPN. O tal, que foi Conselheiro de Estado do nosso presidente em funções. O tal, que é amigo pessoal da família Cavaco, segundo o próprio diz e foi Ministro da Administração Interna no mandato do nosso presidente quando 1.º Ministro. O tal, com todos os bens em nome dos filhos.
Já vi que é um problema da família Loureiro.
Que ninguém me leve mal, especialmente os Loureiros.
Luís Serra Santos
Ou como disse o Groucho Max - "Nunca pertencerei a um clube que me aceite como membro". O Woody Allen parodiou a frase mais tarde referindo-a às suas relações falhadas com mulheres, no filme Annie Hall. É uma leitura.
Mas estávamos a falar de politica?
Alguém irá realmente votar num homem que ocupando o cargo, não demitiu um dos "cabecilhas" do BPN de Conselheiro de Estado?!!! Teve o próprio, pressionado pela imprensa (a nossa má imprensa!) que demitir-se! Um Presidente de Portugal, que tinha parte do seu dinheiro depositado lá, mais a filha, mais acções e vendeu (mais a filha) e depositou noutro banco (mais a filha), antes do escândalo rebentar, ganhando assim umas largas massas? É um bom adivinho, este presidente. Pena que não tenha adivinhado a crise financeira posterior. Ou avisado os portugueses que lá tinham dinheiro. Mas ok, vamos admitir apenas olho para o negócio. Um economista oriundo de Boliqueime, uma terra com honras de placas nas auto-estradas, onde ninguém vai, deve ter uma moral superior. Mas que agora culpa os novos administradores do BPN do buraco financeiro.. Sem uma palavra sequer, para a anterior administração! É preciso ter desplante.. Faz-me lembrar há uns anos, a gula do Bolo Rei - http://www.youtube.com/watch?v=KOWmcmbGp18&feature=player_embedded
Um homem que remete para o site da presidência todos os assuntos incómodos. Um homem que não sabe dar um murro na mesa em defesa de uma opinião.
Deixem-me contar uma legenda do Miguel Esteves Cardoso, sobre uma foto do nosso presidente, aquando 1º Ministro, ao receber o presidente de Angola, Eduardo dos Santos, em Lisboa. A foto, simples, consistia no Cavaco, a sua esposa, mais o Eduardo dos Santos e a sua mulher. Uma foto simples. O comentário:
"Há qualquer coisa de errado com esta foto. Sei o que estão a pensar - Um democrata, junto de um ditador, um déspota. Mas não é isso que eu vejo. Vejo um homem que parece um actor de cinema, com uma mulher lindíssima ao seu lado, junto de um labrego e sua esposa paralela." Mas isto foi apenas um fait divers. Voltando à vaca fria, há pouco tempo atrás, se me pedissem um rosto da corrupção neste país, elegia o Valentim Loureiro. Imaginam um cartaz com a sua cara e o a palavra Corrupção em baixo. Ninguém iria achar estranho. Neste momento elegeria o Sr. Dias Loureiro. O tal, que foi administrador do BPN. O tal, que foi Conselheiro de Estado do nosso presidente em funções. O tal, que é amigo pessoal da família Cavaco, segundo o próprio diz e foi Ministro da Administração Interna no mandato do nosso presidente quando 1.º Ministro. O tal, com todos os bens em nome dos filhos.
Já vi que é um problema da família Loureiro.
Que ninguém me leve mal, especialmente os Loureiros.
Luís Serra Santos
quinta-feira, dezembro 30, 2010
quarta-feira, dezembro 29, 2010
o estilo
o estilo é a resposta para tudo.
o modo fresco de encarar um dia chato ou perigoso.
fazer uma coisa chata com estilo é preferível a fazer uma
coisa perigosa sem estilo.
fazer uma coisa perigosa com estilo é o que chamo arte.
as touradas podem ser uma arte.
o boxe pode ser uma arte.
o amor pode ser uma arte.
abrir uma conserva de sardinhas pode ser uma arte.
não há muitos com estilo.
não há muitos que possam manter o estilo.
já vi cães com mais estilo que homens.
todavia poucos cães têm estilo.
os gatos têm-no em abundância.
quando hemingway pôs os seus miolos numa parede
com uma shotgun, isso foi estilo.
às vezes as pessoas dão-te estilo.
joana d´arc tinha estilo.
joão baptista tinha estilo.
jesus.
sócrates.
césar.
garcía lorca.
conheci homens na prisão com estilo.
conheci mais homens na prisão com estilo do que fora dela.
o estilo é a diferença, um modo de o fazer, um modo de ser feito.
seis pássaros em silêncio numa poça de água, ou tu,
saindo da casa-de-banho sem me veres.
Bukowski
o estilo é a resposta para tudo.
o modo fresco de encarar um dia chato ou perigoso.
fazer uma coisa chata com estilo é preferível a fazer uma
coisa perigosa sem estilo.
fazer uma coisa perigosa com estilo é o que chamo arte.
as touradas podem ser uma arte.
o boxe pode ser uma arte.
o amor pode ser uma arte.
abrir uma conserva de sardinhas pode ser uma arte.
não há muitos com estilo.
não há muitos que possam manter o estilo.
já vi cães com mais estilo que homens.
todavia poucos cães têm estilo.
os gatos têm-no em abundância.
quando hemingway pôs os seus miolos numa parede
com uma shotgun, isso foi estilo.
às vezes as pessoas dão-te estilo.
joana d´arc tinha estilo.
joão baptista tinha estilo.
jesus.
sócrates.
césar.
garcía lorca.
conheci homens na prisão com estilo.
conheci mais homens na prisão com estilo do que fora dela.
o estilo é a diferença, um modo de o fazer, um modo de ser feito.
seis pássaros em silêncio numa poça de água, ou tu,
saindo da casa-de-banho sem me veres.
Bukowski
domingo, dezembro 26, 2010
Corpo habitado
Corpo num horizonte de água,
corpo aberto
à lenta embriaguez dos dedos,
corpo defendido
pelo fulgor das maçãs,
rendido de colina em colina,
corpo amorosamente humedecido
pelo sol dócil da língua.
Corpo com gosto a erva rasa
de secreto jardim,
corpo onde entro em casa,
corpo onde me deito
para sugar o silêncio,
ouvir
o rumor das espigas,
respirar
a doçura escuríssima das silvas.
Corpo de mil bocas,
e todas fulvas de alegria,
todas para sorver,
todas para morder até que um grito
irrompa das entranhas,
e suba às torres,
e suplique um punhal.
Corpo para entregar às lágrimas.
Corpo para morrer.
Corpo para beber até ao fim –
meu oceano breve
e branco,
minha secreta embarcação,
meu vento favorável,
minha vária, sempre incerta
navegação.
Eugénio de Andrade
Corpo num horizonte de água,
corpo aberto
à lenta embriaguez dos dedos,
corpo defendido
pelo fulgor das maçãs,
rendido de colina em colina,
corpo amorosamente humedecido
pelo sol dócil da língua.
Corpo com gosto a erva rasa
de secreto jardim,
corpo onde entro em casa,
corpo onde me deito
para sugar o silêncio,
ouvir
o rumor das espigas,
respirar
a doçura escuríssima das silvas.
Corpo de mil bocas,
e todas fulvas de alegria,
todas para sorver,
todas para morder até que um grito
irrompa das entranhas,
e suba às torres,
e suplique um punhal.
Corpo para entregar às lágrimas.
Corpo para morrer.
Corpo para beber até ao fim –
meu oceano breve
e branco,
minha secreta embarcação,
meu vento favorável,
minha vária, sempre incerta
navegação.
Eugénio de Andrade
sábado, dezembro 25, 2010
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