O pior analfabeto é o analfabeto político.
Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão,
do peixe, da farinha, do aluguer, do sapato e do remédio
dependem das decisões políticas.[…]
Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado […]
Bertolt Brecht
PIOR DO QUE O ANALFABETO POLÍTICO, SÓ O POLÍTICO ANALFABETO
Pela primeira vez, não sei em quem votar. O debate político nacional parece ter-se reduzido à mera troca de insultos ad hominem.
Perante o parlamento português, de resto, deveríamos adoptar a divisa dos estóicos: nihil admirari (não se admirar com nada). Já nem ficamos espantados quando vemos um deputado dizer a outro que a querela se poderia resolver lá fora (à pancada, presumimos), ou quando, numa comissão parlamentar, se come de boca aberta e se pede licença para ir «verter águas» [sic].
Não votarei em quem, perante mais de 90% dos manifestantes de uma profissão, contra as políticas no seu sector, afirma que são apenas instrumentalizações de sindicatos. (Detesto que me tomem por estúpido.)
Não votarei em quem tem tiradas desdenhosas sobre a democracia, e concepções arcaicas e homofóbicas sobre a família.
Não votarei em quem defende ditaduras. Ser anti-imperialista ou anti-administração-norte-americana não chega para validar um regime.
Não votarei em quem não revela o seu projecto para a sociedade ou a sua ideologia, em quem apenas exibe medidas avulsas, crítica (muita) e arrogância (imensa).
Não votarei em quem tem um discurso cada vez mais patrioteiro e securitário que, por vezes, roça o de Le Pen.
Abster-me, nunca. Porque houve quem morresse para que eu tivesse eleições livres.
Em branco, também não. Há nazis que votam em branco, há anarquistas que votam em branco. Como erigir, desta amálgama disforme e desconexa, um programa político, um modelo de sociedade viável?
(Uma voz interior diz-me: estuda bem até Outubro os programas políticos dos partidos sem assento parlamentar.)
Numa altura de descrença perante a Política e a Justiça, de corrupção e escândalos nas mais altas esferas, de salários e reformas pornográficas de gestores públicos, penso que são precisas referências.
Como os média tendem a falar mais do negativo do que do positivo, gostaria de enaltecer alguém que me arrisco a alvitrar como um Exemplo. Alguém que nos devolve a esperança de que é possível estar na política apenas para Servir.
Em 1984, quando Eanes cumpria o seu segundo mandato de Presidente da República, um governo de Mário Soares criou uma lei que impedia que o vencimento de um Presidente da República fosse acumulado «com quaisquer pensões de reforma ou de sobrevivência que aufiram do Estado». As relações entre ambos não eram as melhores, e a lei parecia feita para atingir o general, mas Ramalho Eanes teve a superioridade moral de aprovar a lei que o prejudicaria materialmente. Trinta e seis anos de carreira militar não lhe adiantaram de nada na sua reforma. O caso foi entregue aos tribunais e Eanes viu ser-lhe devolvida a Razão. A sentença decretou que Eanes deveria receber um milhão e trezentos mil euros do Estado. Eanes prescindiu do dinheiro (que ficou, naturalmente, para todos os portugueses).
Há, ainda, quem se continue a mover por coisas imateriais como princípios.
O gesto de Eanes exigia ecos de gratidão e reconhecimento. Mas o silêncio foi quase reinante.
Outra atitude que merecia mais solidariedade, não só mediática, mas também dos políticos e da sociedade em geral, foi a denúncia de tortura (infelizmente confirmada pelo tribunal) a Leonor Cipriano, feita pelo Bastonário Marinho e Pinto. Ninguém perdeu muito tempo a falar desta vergonha infame da nossa democracia porque, no fundo, a vox populis não se rala nada com a tortura. Basta ler os comentários nos jornais disponíveis on-line para chegarmos à conclusão de que o pro-
blema foi essa senhora ter levado poucas.
Outro dia, alguém me dizia que a solução para Portugal era promover-se a meritocracia em todos os sectores da sociedade.
Cada vez acredito menos nessa quimera. Não posso acreditar na meritocracia, quando pessoas que levantaram dinheiro indevidamente da associação de estudantes da qual fiz parte (do ISCTE) ocupam hoje cargos públicos de relevo. Não posso acreditar na meritocracia quando vou ao dentista-mais-caro e ele me cria mais problemas do que me resolve. Não posso acreditar na meritocracia, quando Santana Lopes já foi quase tudo na política portuguesa, ou quando Carlos Queirós é o seleccionador nacional. Não posso acreditar na meritocracia, quando a Manuela Moura Guedes é a apresentadora de um dos principais jornais televisivos nacionais.
Alguém imagina que o pivô de um jornal televisivo do Estado pudesse ser o cônjuge do director da estação de televisão estatal sem que isso fosse um escândalo? Ao que é privado, não fazemos exigências éticas. Ao que é do Estado, ao que é «dos nossos bolsos», sentimo-nos, pelo menos, no direito de o fazer. Pacheco Pereira, ex-maoísta, recém-teólogo-do-mercado, acha que não devemos perder muito tempo a discutir os defeitos ou virtudes desta ou daquela empresa privada. Se não gostarmos de uma, escolhemos outra. Seremos, portanto, apenas consumidores, e não cidadãos, no que ao sector privado diz respeito.
Fernando Dacosta escreve no seu mais recente (brilhante) livro Os Mal-Amados: «Vi políticos famosos entregarem nos jornais entrevistas a si – fabricadas por si; autores de nomeada apresentarem recensões de críticos estrangeiros – inexistentes; jovens cançonetistas e actores horizontalizarem-se por uma notícia, uma foto […] O estar do lado de dentro das redacções fez com que me tornasse bastante irónico a esses vedetismos: conheço demasiado bem as costuras da popularidade […] sei, de há muito, que as pessoas de valor não se encontram nas ribaltas, que os inovadores se situam foram dos marketings, dos tops, dos projectores.»
Uma pessoa, que trabalha numa dessas grandes empresas multinacionais, contava-me que, na sua área laboral, há quatro hierarquias: consultor (que não tem regalias), consultor sénior, manager e executive manager. O consultor sénior tem direito a lugar de garagem. O manager e o executive manager têm direito ao lugar e aos melhores carros. Com a crise, o que aconteceu? Retiraram o lugarzinho de estacionamento aos consultores seniores.
Já trabalhei numa empresa onde a recepcionista ganhava 500€, que era o montante da factura de telemóvel de outros cargos na empresa (que por sua vez ganhavam 12 000€). Bem, mas o que é isto, dir-me-ão, quando o Ronaldo vai ganhar
25 000€ por dia?
Em conversa com uma pessoa que trabalha num sector imobiliário, perguntei:
– Isto está mais fraco, não está?
– Está, menos as casas de luxo e os hotéis de seis estrelas, que não sofreram com a crise.
O mercado tem-se tornado demasiado amoral para que não o questionemos ou lhe tomemos as rédeas…