quinta-feira, dezembro 12, 2013

Uma conversa ocorrida num bar com música baixinho, ambiência e mesas com espaço para duas pessoas falarem

- Sade, Maquiavel, Hobbes esmagam Rosseau. - E Buda e Cristo também? E Sócrates? - O Mal vence o Bem - se assim não fosse, o mundo seria um quase paraíso. - O Rosseau que tu citaste diz que se um homem encontra outro atado numa floresta, sem o conhecer, sente uma empatia em libertá-lo. Não ganhando nada com isso, não perdendo nada com isso (quando muito perdendo tempo) - a tendência é ele ir libertá-lo. Numa situação neutra, em que não é beneficiado nem prejudicado, perante o sofrimento do outro, o Homem é compassivo. - Vê a sociedade actual... Tentaram-se tantos regimes e nada funcionou. O Homem não é bom por natureza. É difícil aceitar isto. A vaidade comanda tudo. 95% dos nossos pensamentos são sobre nós. - A sociedade promove isso... - Nós é que fazemos a sociedade... - Não, poucos controlam o poder e cada vez mais o indivíduo se sente atomizado e impotente... - A crença de que o Homem é bom, por natureza, é consoladora. - Ao longo da História, o Homem matou menos o Homem do que o Estado matou o Homem. Hoje, vive-se com uma incerteza de futuro tremenda, o Homem afastou-se da Natureza, há tremendas desigualdades, muita densidade populacional, mormente nas sociedades, etc., etc. Não podes isolar isso e dizer que o modelo não afecta o indivíduo. - Ninguém de te impede de entrar num estabelecimento e pôr lá dinheiro na caixa. Porque não acontece isso? Porque acontece o contrário, o roubo? E não apenas de pessoas que precisam. Há gente da classe média, sabes isso, que trafica e rouba para ter mais. - Mas também há muita gente dedicada a causas, aos direitos humanos, horas e horas, com sacrifícios materiais, familiares, pessoais. E não te esqueças de que o mal é mais impactante. Todos os actos são de construção... - De construção em função do eu... Mesmo os altruístas aspiram ou ao reconhecimento ou a um sentido de vaidade intrínseca ou ao medo das leis cármicas... - Dizia... todos os actos de construção, tu trabalhares, tu alimentares no sentido imaterial a família, as relações... Tudo isso passa despercebido. É um fio constante, quotidiano, invisível, o da construção. Mas um tipo que dá um tiro a outro é impactante. E nem vou discutir, porque sei que estás de acordo, qualquer pessoa reconhece o truísmo de que os media noticiam essencialmente o mal, e porquê?, porque ele é a excepção. A construção demora, é paciente, mas a destruição, o mal num segundo destrói tudo... Como uma onda na praia que desfaz numa fracção de segundo o castelo de areia construído durante muito mais tempo. O mal tem mais caminhos de agir. Eu posso hoje salvar uma vida? Muito difícil. Eu posso hoje matar? Vou aqui ao lado e mato o vizinho. O mal está sempre mais à mão. É mais fácil, por exemplo, destruir uma pessoa com palavras do que reabilitar-lhe o moral. - Mas essa construção é feita pela lei da sobrevivência. Damos afecto porque precisamos dele, trabalhamos por dinheiro ou sensação de utilidade. Transacções, meu caro. - Nunca conheci quem pensasse assim e não desaguasse na desistência, na alienação ante o Outro... Mesmo que verdadeiro - o que não concordo - é um pensamento perigoso. - A lucidez é perigosa.

2 comentários:

euexisto disse...

grande post

Sr Joao disse...

Curvo-me em agradecimento.