quinta-feira, dezembro 05, 2013

Quando o passado devora o futuro

«Insisto: há na persistência da crise que vivemos uma clamorosa falta de pensamento que deixa na maior impunidade os que a provocaram e continuam, apesar de tudo e de múltiplos modos, a beneficiar com ela. Falta de pensamento crítico que é, simultaneamente, uma falta de pensamento de futuro, o que se traduz num ronronar de protestos que, por mais intensos que se vão tornando - e têm tornado -, continuam a deixar desarmados e cada vez mais desesperados a generalidade dos cidadãos. Sob o imperium da comunicação e dos spin doctors, cavou-se entre o discurso político e o conhecimento efetivo dos problemas um abismo cada vez maior: colmatá-lo é a condição sine qua non da sua resolução. E só há um caminho, que é o de dar de novo função e voz, autoridade e influência aos que estudam e conhecem os problemas, avancem propostas e saibam dinamizar o seu debate. E exemplos não faltam. Nesse sentido, uma obra a não perder é a de Stephen D. King, When The Money Runs Out - The End of Western Affluence, que, conjuntamente com La Mystique de la Croissance, de Dominique Meda, problematizam de perspetivas muito distintas mas de um modo igualmente incisivo os lugares-comuns mais bloqueadores sobre o que é e não é o crescimento, as suas condições de possibilidade, os seus impasses, apontando ambas novos caminhos para o futuro. Mas a meu ver a obra mais importante dos últimos tempos é a de Thomas Piketty, Le Capital au XXI Siècle. São quase mil páginas que vale a pena ler atentamente, e não são difíceis de sintetizar. O seu tema nuclear é o das desigualdades, o estudo baseia-se numa base de dados impressionante, relativa a mais de vinte países num período de três séculos. É um trabalho que nunca havia sido feito, e que chega à clara conclusão de que, no longo prazo, os rendimentos do capital são largamente superiores não só aos do trabalho, mas também aos do próprio crescimento económico. Ou seja, dito noutros termos, que a dinâmica do capitalismo se revela criadora de desigualdades que ela é incapaz de corrigir, o que, na situação da economia globalizada dos nossos dias, exige que se pense na criação de um imposto mundial sobre o capital. Contrariando as ideias tradicionais de Ricardo, e sobretudo os trabalhos de Kuznets sobre a riqueza e a sua distribuição (que defendia a tese da convergência, isto é, a redução automática das desigualdades à medida que o capitalismo se desenvolvesse), o que o livro de Piketty traz de mais inovador é a ideia de que a repartição da riqueza não se pode compreender apenas no âmbito de um qualquer determinismo económico. Que, pelo contrário, este condicionamento está sempre ligado ao discurso político e às próprias representações dos cidadãos das várias épocas e regiões sobre o que é, e não é, justo. Não admira, por isso, que no decurso da história tenha sido precisamente no seguimento de acontecimentos excecionais que se abriram épocas de redução das desigualdades, como aconteceu com o "New Deal", o pós-guerra, etc. É neste plano que é preciso situar o papel do Estado que, nas circunstâncias dos nossos dias, tem de ser profundamente repensado, tema a que Thomas Piketty dedica uma boa parte da sua obra, seja quanto à reforma do Estado social do século XXI, seja quanto à reforma dos impostos sobre os rendimento mais altos, seja quanto à criação (ideia já há anos defendida pelo Nobel da Economia Maurice Allais) de um imposto progressivo sobre o capital a nível mundial. O que não se pode é continuar a permitir que o passado devore o futuro. Ora, como Thomas Piketty demonstra, quando o rendimento do capital ultrapassa clara e prolongadamente a taxa de crescimento isso implica mecanicamente que os patrimónios vindos do passado aumentam a um ritmo de progressão muito superior, tanto em relação ao da produção, como ao dos rendimentos. Foram as devastadoras guerras do século XX, nomeadamente ao criarem uma espécie de tábua rasa ao nível patrimonial, que levaram à criação dessa pertinaz ilusão de uma diminuição estrutural - por vezes a uma quase invisibilidade - das desigualdades e de uma possível, ou pelo menos anunciada, "superação do capitalismo". Mas uma tal ilusão desvaneceu-se com o passar do tempo, e o que agora é urgente, como afirma Piketty, é conseguir "repensar o capitalismo do século XXI nos seus fundamentos(...), construindo uma potência pública adaptada ao capitalismo generalizado do nosso tempo". É por isso que, no que se refere à Europa, ele continua, apesar de um inegável ceticismo de fundo, a alimentar alguma esperança. Porque a União Europeia continua a representar um quarto do PIB mundial. Porque o total dos patrimónios dos europeus é o maior do mundo, muito superior ao dos Estados Unidos ou do Japão, para já não falar da China.... E porque, contrariamente ao que muitas vezes se diz, o que os europeus possuem no resto do mundo é também ainda muito superior ao que o resto do mundo possui na Europa. A dívida europeia parece insuperável quando, na verdade, ela é a mais baixa do resto do mundo rico, e isto só acontece, pensa - e bem - Thomas Piketty, devido a facto de a União Europeia se ter tornado um gerador de impotência coletiva que continuará "enquanto formos governados por pequenos países em exacerbada concorrência uns com os outros (a França e a China em breve serão minúsculos à escala da economia global) e por instituições totalmente inadaptadas e disfuncionais". É o que acontece hoje em dia - é por isso que é aqui que está o grande desafio: o de olhar sem medo para o futuro, se não queremos ser devorados pelo passado.» Manuel Maria Carrilho

1 comentário:

o gajo que vai para onde lhe apetece disse...

'uma clamorosa falta de pensamento que deixa na maior impunidade os que a provocaram e continuam, apesar de tudo e de múltiplos modos, a beneficiar com ela'


Quem beneficia dela demonstra falta de pensamento?