segunda-feira, dezembro 30, 2013

Lembro-me de ser um miúdo e de parar para pensar em «beber as palavras». Que bem que aquela pessoa falava. Beber palavras, uau! Que coisa original, metafórica (no sentido literal, de transporte...). Lembro-me de com 13 anos ler uma entrevista em que o músico dizia «alimentar-se de Baudelaire». Alimentar-se, bem, como aquilo me bateu. Como era delicioso falar tão bem. Lembro-me de uma namoradinha que me escreveu: «Mostra-me os caminhos para o teu coração.» Como fiquei siderado. Deslumbrado. Encantado. O óbvio: o tempo embota o deslumbramento. Não vejo nisto uma nota de tristeza. Apenas um erguer da taça aos olhos. Aumenta a exigência. Faz procurar o original. A maravilha. E quando o alumbramento vem - fica - sólido, maduro, ancorado. Citando (F. Scott Fitzgerald, The crack-up, tradução da tasca): «Em trinta e nove anos, um olhar observador ensinou-me a detectar quando o leite é aguado e o açúcar polvilhado com areia, quando o pechisbeque procura imitar o diamante e o estuque a pedra.»

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