quinta-feira, dezembro 26, 2013

Do Real

É rebocador há trinta anos. Ganha 600 euros (não sei se brutos). Trabalha 6 dias em 7. Por vezes, 7 em 7, porque o patrão anda a «cortar-me nas folgas». Trabalha das sete da noite às sete da manhã. Doze horas que normalmente são mais, porque «quando estou às sete da manhã no meio da estrada, não posso largar tudo e ir para casa». O patrão dele, além da sua firma, tem uma frota de 73 táxis. O rebocador tem problemas de costas - mas está à espera de poder ser operado num hospital público e não pode largar muitos dias o trabalho, avisou o patrão. Tem três filhos. Desconheço o que faz a mulher. Ultimamente, correu um série risco de vida. No meio da estrada, da chuva, do nevoeiro (cenários que conhece de cor) um automóvel de gabarito disparou em alta velocidade fazendo voar o triângulo e travando a milímetros dele. Em 2013, um colega seu morreu assim no Porto, contou-me. Por mais paradoxal que possa parecer, a sua raiva não é contra o patrão - é contra os «brasileiros e ucranianos filhos da puta que estão a levar só 500 euros e eu ou baixo o salário ou vou c´o caralho». Isto é tudo menos episódico. Em França, Marine Le Pen, actual líder das sondagens, tem uma grande fatia do proletariado, ou operariado, com ela. 1) Atitude um. O povo é estúpido e de tão estúpido e mentalmente reles, não nos devemos preocupar com ele e se se aproximar da boca da fera que a fera o morda até ele pedir socorro - mas só se pedir bem alto e prometer não voltar a aproximar-se. 2) Atitude dois. A propaganda do sistema é tão forte, tão forte, que temos todos os dias de nos defender das falsas verdades que nos querem impingir e todos os dias procurar catequizar o próximo. Dividindo quase pobre contra pobres, pobres contra remediados, miseráveis contra esfaimados. (Sempre que há greve, a pergunta da jornalista do «serviço público» é sempre a mesma: - Gosta de estar aqui há espera do comboio; isto não lhe causou transtorno? - Puta que a pariu! E embalados respondem... os que vão para trabalhar na caixa do supermercado contra os que maquinistas... os trabalhadores fragmentados como Eles querem.) Dividindo e assim reinando. Atitude dois é, portanto, não embarcar em falácias de privados ou públicos, de velhos ou novos, de a minha empresa contra a tua, o meu sector contra o outro, o português contra o imigrante... 3) Atitude três. Desistir da esquerda. A esquerda não faz ideia do mundo em que vive, representando aqueles que não querem que ela fale em seu nome - antes pelo contrário, juntam-se ao ovo da serpente.

1 comentário:

Anónimo disse...

"é contra os «brasileiros e ucranianos filhos da puta que estão a levar só 500 euros e eu ou baixo o salário ou vou c´o caralho»."

Deveria era ser contra os sucessivos governos que não pararam de acolher emigrantes sem qualificações e saturaram assim este mercado de trabalho, que não pode subir os preços porque ficam sem trabalho. Estes é que são os pobres sem voz de que ninguém fala porque lhes convém ter empregadas domésticas e trabalhadores para as obras baratos. Já aos emigrantes médicos e outros pôem muitos obstáculos porque é competição direta.