quinta-feira, dezembro 12, 2013

Descrição de um dia

Sais de manhã, trabalhas, vais almoçar num ápice. Uma senhora de idade ao teu lado olha para a televisão e começa a falar contigo sobre o que se passa lá. Atiras umas frases. Ela insiste. Tu estás com pressa. Mas falas com ela sobre o assunto da televisão. A seguir, ela conta-te o que tem sofrido. Tu tens pressa, não queres ser indelicado. Cedes a ouvi-la: a saúde, os filhos, os problemas de dinheiro, uma vizinha que põe a música altíssima. Apanhas um táxi. Já falaste com muitos taxistas - mas nunca um te contou tanto sobre a tua vida. A relação com o pai, a psicanálise, o seu sentimento de inferioridade combatido ao longo de anos e anos de terapia. Ficas cerebralmente boquiaberto. Lembras-te de Eça procurando apaziguar o espanto: o que não contas ao teu melhor amigo conta-o a um estranho numa noite numa estalagem. Ao fim da tarde, compras. A rapariga da caixa pergunta-te se vais consumir tudo sozinho. Vens do trabalho à noite, passas num bar. Tanta gente que sai à noite sozinha num dia de semana. Tanta gente que quer falar contigo e com outras pessoas - tanto gente à procura de um ombro, de um ouvido. Falas com pessoas. Ouves frases dirigidas a ti e a outros: «Não tenho companhia para sair, mas sempre é melhor do que estar enfiada em casa a ver o Facebook», «Tem e-mail ou facebook que me possa dar?» «Inscrevi-me nuns workshops, é mais para conhecer gente.» Nunca sentiste tanta solidão na tua cidade. (O tema: A solidão e não o meu putativo magnetismo pessoal.)

2 comentários:

CCF disse...

Já senti isto muitas vezes e fico a perguntar-me porquê eu com a mesma certeza quando ao magnetismo pessoal. É porque há mesmo muita solidão.
~CC~

Sr Joao disse...

Obrigado, CCF :).