quinta-feira, dezembro 26, 2013

«Conservador»

Uma palavra que Agostinho da Silva desmontou. «Sou conservador se é para conservar a sardinha, se é para conservar a lata, não sou.» Como pessoa culta, evitou o reducionismo - é tão estúpido o que é favorável a todos os ventos da modernidade (que muitas vezes são o regresso à barbárie, caso do actual nazismo económico e do totalitarismo-omnipresente-e-vigilante do digital) como ser contra só por ser contra. Como nas tradições - há os patetas que são contra todas só porque são tradições (e há boas tradições que se estão a perder, como a cultura humanista da Europa que é contrária em todo e qualquer caso à pena de morte e à tortura; e há os igualmente patetas que são contra tudo o que quebra a tradição que assimilaram acriticamente como se esta fosse um garante de uma qualquer proscrição divina e noutros tempos queimariam pretos, mulheres, defenderiam a escravatura. A palavra é muito redutora - por várias razões. Politicamente, hoje, tentar conservar o que temos - o Estado social, a Constituição, os direitos e liberdadades adquiridos - conquistou até um homem que em tempos foram de direita-direita, como Adriano Moreia e Miguel Esteves Cardoso (que se assumiu de extrema-direita, ipsis verbis. E contudo ninguém chama conservadores a quem está deste lado da barricada. Mais: muitos conservadores como Borges falavam de revolucionários de esquerda e de direita com igual abjecção - o que eles queriam era não mexer muito nas coisas - qualquer engenharia social resultaria mal. Borges: aderi ao Partido Conservador apenas por ser o único que evita extremismos. Por outro lado, muitas pessoas confundem a antinomia conservador - libertino na vida pessoal com aquilo que é a sua posição em relação ao Estado. Muitos de direita (e não vou nomear, mas sei) levaram vida mais próximas de Kerouac ou Ginsberg do que o menino de coro Louçã - e contudo a defesa de uma ideologia política merece a uns o rótulo de conservador e a outro de radical ou revolucionário troskista (não confundir com troikista). Pode ser-se defender que o Estado não criminalize a eutanásia, o aborto, as drogas e nunca aceitar na sua vida pessoa nenhuma destas opções. Etc., etc. E o contrário - há inúmeros exemplos de vidas decadentes até nos republicanos dos EUA. Nem chamo hipocrisia. Acontece. A vida tem muitas curvas, ambivalências.

2 comentários:

Anónimo disse...

ocorre o mesmo com liberal: um liberal no plano económico é diferente de outro no plano político e de outro no plano pessoal. ambivalências: bem dito.

Sr Joao disse...

Inteiramente. Refiro-me ao «liberal».