terça-feira, dezembro 31, 2013

A minha última publicação na tasca

A minha luta contra o mundo digital demencial tem hoje dois gestos. Terminar hoje a minha conta de Facebook e parar de escrever aqui hoje. Sei que ainda viverei o suficiente para ver as novas tecnologias esmagarem o que resta da autonomia e da liberdade individual, para ver plantas criadas por máquinas, seres humanos clonados, a textura e o olfacto como os sentidos que falta adicionar ao digital. Ficção científica? Tanto quanto o era o «atarracado prédio de 34 andares» do Admirável Mundo Novo, o Soma que hoje se ramifica numa miríade crescente e crescente de escapismos. O mais estranho vai ser ver os prisioneiros sorrirem sem se aperceberem dos contornos das grades que os cercam - talvez alguns as divisem e as vejam douradas e sorriam. Talvez nessa altura o bombista da Apple, da Google ou da Microsoft tenha muitos nomes de suspeitos e o meu figure entre eles - isto se na altura os chips no cérebro não permitirem modificar interiormente uma pessoa e aspirar-lhe «a alma». É claro que continuarei a escrever. Entre outras coisas, o mais importante, aquilo de que me lembro desde ter memória - ser escritor, escrever Livros.

Dedicado ao filho que nunca tivemos

A BOY I NEVER KNEW To have his arms/ Around me/ To sense/ His perfect trust/ I'd give/ All I ever had/ All I ever had/ I'd love/ To see him dream/ I'd love/ To watch him sleep/ To have/ His arms around me/ Held his arms in mine/ Sense/ His perfect trust/ I'd give/ All I ever had/ For a moment/ Of his love/ He's my heart/ And my soul/ He's my blood/ And my bones/ He's my prayers/ And my hope/ My wishes/ And dreams/ Seems so long ago/ So long ago/ I'd love/ To watch him dream/ Love to see/ Him sleep/ To have his arms/ Around me/ Feel him/ As he breathes/ Hold his hands/ In mine/ Sense/ His perfect trust/ I'd give/ All I ever had/ For a moment/ Of his love/ He's my heart/ And my soul/ He's my blood/ And my bones/ He's my prayers/ And my hopes/ My wishes/ And dreams/ Seems/ So long ago/ He's my blood/ And my bones/ He's my heart/ And my soul/ He's my prayers/ And my hopes/ My wishes/ And dreams/ A boy I never knew/ And the man/ I'll never know/ I'll never know/ I'll never know/ To have his arms/ Around me/ Sense/ His perfect trust/ I'd give/ All I ever had/

segunda-feira, dezembro 30, 2013

Lembro-me de ser um miúdo e de parar para pensar em «beber as palavras». Que bem que aquela pessoa falava. Beber palavras, uau! Que coisa original, metafórica (no sentido literal, de transporte...). Lembro-me de com 13 anos ler uma entrevista em que o músico dizia «alimentar-se de Baudelaire». Alimentar-se, bem, como aquilo me bateu. Como era delicioso falar tão bem. Lembro-me de uma namoradinha que me escreveu: «Mostra-me os caminhos para o teu coração.» Como fiquei siderado. Deslumbrado. Encantado. O óbvio: o tempo embota o deslumbramento. Não vejo nisto uma nota de tristeza. Apenas um erguer da taça aos olhos. Aumenta a exigência. Faz procurar o original. A maravilha. E quando o alumbramento vem - fica - sólido, maduro, ancorado. Citando (F. Scott Fitzgerald, The crack-up, tradução da tasca): «Em trinta e nove anos, um olhar observador ensinou-me a detectar quando o leite é aguado e o açúcar polvilhado com areia, quando o pechisbeque procura imitar o diamante e o estuque a pedra.»

«Santidade»

Mais uma palavra corrompida. Associa-se mais a um conjunto de restrições. Os literalmente «advogados do Diabo» escrutinavam a vida em busca da mancha. Santo como o que não fez. Não gosto. Santo como o que pugnou pelo Homem (e pelo animal), o que «santificou» a vida à sua volta com pensamentos, palavras, actos. Cunhal tentou viver como um santo (ou tentou mostrar que vivia como um santo, a vaidade era a sua fraqueza). Eanes foi um santo na sua relação com o Estado, os seus dinheiros e interesses. Vítor Tavares da Etc. foi um santo, nunca se rendendo ao comercial, ao mercado, publicando livros artesanais a vida toda, com poucos exemplares e sempre sem se soçobrar naquilo que para si seria o «pecado» - a concessão ao vendável sem critério apurado do que era para si «qualidade».

domingo, dezembro 29, 2013

- Não há nada mais insondável, mais arredio do entendimento, do que aquilo que nos excita sexualmente. Não julgo ninguém. E, sim, sei o que possas pensar... ninguém quer dizer mesmo ninguém.
- Alguma vez conheceste alguém cuja vida fosse uma obra de arte? Ou que fatias dessa vida fossem obras de arte? Primas? Pessoas que incorporam a Arte na Vida, esse é o estado maior do artista. O resto - a Arte, ela mesma - é uma gratificação para a vaidade.

sábado, dezembro 28, 2013

«Say a group of scientists asks for a meeting with the leading politicians in the country to discuss the introduction of a new invention. The scientists explain that the benefits of the technology are indisputable, that the invention will increase efficiency and make everyone's life easier. The only down side, they caution, is that for it to work, forty-thousand innocent people will have to be killed each year. Would the politicians decide to adopt the new invention or not? The class was about to argue that such a proposal would be immediately rejected out of hand, then he casually remarked, "We already have it - the automobile.» Earth First!

Livro-Obrigatório-para-Gerações-Hodiernas-e-Vindouras

http://monoskop.org/images/5/55/Ellul_Jacques_The_Technological_Society.pdf
«O estilo é uma permanente criação pessoal.» Manuel Rodrigues Lapa
- Foi a única mulher que conheci que não fazia jogo.
Estranha língua esta em que quem vai à raiz das coisas (um radical) ganhou conotação negativa; em que quem segue a razão (ortodoxo) tem palas no entendimento; em que desce até aos fundamentos é um extremista (fundamentalista). Em que se diz «infracção à lei» impunemente e ao mesmo tempo não se diz «quebra ao contrato»; em que se morre de sede e estranhamente se «morre à fome». Em que se diz filmes a cores e a preto-e-branco, mas não se diz «preencha/completa as linhas a branco».
- Não gosto de homens nem de mulheres, não sou hetero nem homo; gosto de pessoas. Sou bissentimental. Gosto de pessoas. Já amei fortemente um homem e já amei fortemente uma mulher - ela disse. - Podes não acreditar, mas quando falo com uma pessoa não sinto, não me lembro do género; ela cativa-me ou não. Isto é mais emocional e intelectual do que corporal. Para mim, a atracção física vem depois. Num estádio superior da espiritualidade, caminharemos para... - hesitou - isto! - sorriu. - Mesmo os homens, não há nenhuma explicação fisiológica para que o sexo anal seja apreciado apenas pela mulher; nenhuma, é tudo cultural, tudo socializado, imposto. Não se pode rebater este ponto; aliás, os homens pela ligação com a próstata e os testículos até têm maior propensão ao prazer anal.

Men without women

(Plágio de um título de livro.) Conheço alguns. Digamos: pessoas adultas que estão há mais de 15 anos sem uma mulher, sem um beijo. A maioria destes alguns desenvolveu fobia. Tem um medo, uma insegurança, que foge. Um ou outro teve um grande desgosto e nunca se recompôs. Um ou outro nunca experimentou e tem vergonha de com uma determinada idade mostrar a sua incompetência. Tenho quase a certeza de que não vão às putas. Alguns dos alguns masturbam-se com hologramas (pornografia). Uma minoria dos alguns nunca teve contacto com pele de mulher - e creio que a sua líbido morreu. (Se alguma vez existiu.) Fala-se pouco dos assexuados. Mas eles existem. E têm bem mais vergonha em se assumir do que um homossexual. Merecem uma grande ternura da minha parte. (Não consigo racionalizar isto, não é preciso racionalizar tudo.) Freud dizia que a única aberração sexual era a abstinência. Não sei. Prefiro a convivência com eles à com tarados, sôfregos ou machões.
Leitor(a), se te dissesse o nome, aposto 98 contra 2 em como o reconherias. Digamos que é alguém da esfera da arte, a que associas irreverência, essas coisas. É um rebelde no que defende. E não é hipócrita. Mas há uma certa forma de viver a vida - a forma mais íntima, a verdade pessoal, aquilo que se é descascadas todas as camadas. O que fulge no centro, o que não se desapega. Num certo sentido, é a pessoa mais conservadora que alguma vez conheci. Neste: não consegue deixar de ir sempre ao mesmo sítio; não consegue deixar de fazer sempre o mesmo percurso na estrada; tem a mesma companheira há um quartel; tem os meus amigos de adolescente não lhe subtraindo ou acrescentando um; tem pânico de trabalhar com alguém com quem nunca trabalhou por mais farto que esteja deste ou daquele, mudar é que nunca; veste-se da mesma forma desde que nasceu (uma vez, explicou-me que cria relações de afeição com peças de roupa e que ruças ou rotas não as abandona); tem o mesmo médico há trinta anos. Recordo-me de uma frase dele ao declinar um convite: «Não quero conhecer pessoas, nem uma, já conheci as suficientes e já escolhi as necessárias. Ponto.»
- Foi o dia mais triste da minha vida. Estive um dia sem conseguir dizer uma palavra, só chorava. Não consegues entender isto; não és mulher. Não há nada pior do que o momento em que sabemos que quem amamos foi pai de outra mulher. Estive dois anos no Inferno. Não, não era possível descer mais. Acredita, não era.

Grande entrevista

http://www.primitivism.com/kaczynski.htm «One thing I found when living in the woods was that you get so that you don't worry about the future, you don't worry about dying, if things are good right now you think, 'well, if I die next week, so what, things are good right now.' I think it was Jane Austen who wrote in one of her novels that happiness is alwavs something that you are anticipating in the future, not something that you have right now. This isn't always true. Perhaps it is true in civilization, but when you get out of the system and become re-adapted to a different way of life, happiness is often something that you have right now.»

sexta-feira, dezembro 27, 2013

A desidealização é como descobrir que a pessoa a quem unimos todos os átomos do nosso ser era afinal um desenho de uma vinheta de banda desenhada.
Desde cedo, ouço a palavra «ninfomaníaca» e, desde cedo, observando (ou julgando observar e errando) que havia mais «tarados sexuais» do que «taradas sexuais» (no sentido da adição sexual e não da parafilia). Depois de tanto me interrogar, dediquei-me a pesquisar. Satiríase (dos sátiros, como das ninfas, está tudo nos Gregos) é o equivalente masculino da ninfomania. (Nem se quer encontrei o adjectivo ou nome...) O machismo, claro. A mulher com número alto é puta. O homem com número alto é campeão. Digam o que disserem: isto mudou pouco. Ainda a propósito de ninfomaníacas, as únicas que conheci - assumidas - não têm condição - o verbo é «estar», não «ser». Em tempos, tiveram uma fase de ninfomania. Em acreditando no que me disseram, nenhuma gostava particularmente de sexo - quase antes pelo contrário. Uma dizia que o fazia para se sentir desejada, para se sentir unida, ligada (falta de amigos, abandonos de toda a espécie e pinta, pai distante e gélido), de algo modo importante. Acreditei - até porque acredito que não retirava prazer de masturbar um velho no autocarro e de ser penetrada sem preservativo por um sem-abrigo fedorento e imundo. A outra dizia que nunca tivera um orgasmo - andou muito anos com o seu primeiro e único namorado; um geek do xadrez, amorfo e assexuado - e procurou com uma miríade de homens prazer no sexo. Sem o conseguir.
«Pode-se falar da boa saúde mental de Van Gogh, que em toda a sua vida apenas assou uma das mãos e, fora isso, limitou-se a cortar a orelha esquerda numa ocasião. Num mundo no qual diariamente comem vagina assada com molho verde ou sexo de recém-nascido flagelado e triturado, assim que sai do sexo materno. E isso não é uma imagem, mas sim um facto abundante e quotidianamente repetido e praticado no mundo todo. E assim é que a vida actual, por mais delirante que possa parecer esta afirmação, mantém sua velha atmosfera de depravação, anarquia, desordem, delírio, perturbação, loucura crónica, inércia burguesa, anomalia psíquica (pois não é o Homem, mas sim o mundo que se tornou anormal), propositada desonestidade e notória hipocrisia, absoluto desprezo por tudo que tem uma linguagem e reivindicação de uma ordem inteiramente baseada no cumprimento de uma primitiva injustiça; em suma, de crime organizado. Isso vai mal porque a consciência enferma mostra o máximo interesse, nesse momento, em não se recuperar da sua enfermidade. Por isso, uma sociedade infecta inventou a psiquiatria, para se defender das investigações feitas por algumas inteligências extraordinariamente lúcidas, cujas faculdades de adivinhação a incomodavam. E o que é um autêntico louco? É um homem que preferiu ficar louco, no sentido socialmente aceite, em vez de trair uma determinada ideia superior de honra humana. Assim, a sociedade mandou estrangular nos seus manicómios todos aqueles dos quais queria desembaraçar-se ou defender-se porque se recusavam a ser cúmplices em algumas imensas sujeiras. Pois o louco é o homem que a sociedade não quer ouvir e que é impedido de enunciar certas verdades intoleráveis.» Artaud

they, all of them, know

ask the side walk painters of Paris ask the sunlight on a sleeping dog ask the 3 pigs ask the paperboy ask the music of Donizetti ask the barber ask the murderer ask the man leaning against a wall ask the preacher ask the maker of cabinets ask the pickpocket or the pawnbroker or the glass blower or the seller of manure or the dentist ask the revolutionist ask the man who sticks his head in the mouth of a lion ask the man who will release the next atom bomb ask the man who thinks he's Christ ask the bluebird who comes home at night ask the peeping Tom ask the man dying of cancer ask the man who needs a bath ask the man with one leg ask the blind ask the man with the lisp ask the opium eater ask the trembling surgeon ask the leaves you walk upon ask a rapist or a streetcar conductor or an old man pulling weeds in his garden ask a bloodsucker ask a trainer of fleas ask a man who eats fire ask the most miserable man you can find in his most miserable moment ask a teacher of judo ask a rider of elephants ask a leper, a lifer, a lunger ask a professor of history ask the man who never cleans his nails ask a clown or ask the first face you see in the light of day ask your father ask your son and his son to be ask me ask a burned-out bulb in a paper sack ask the tempted, the damned, the foolish the wise, the slavering ask the builders of temples ask the men who have never worn shoes ask Jesus ask the moon ask the shadows in the closet ask the moth, the monk, the madman ask the man who draws cartoons for The New Yorker ask a goldfish ask a fern shaking to a tapdance ask the map of India ask a kind face ask the man hiding under your bed ask man you hate the most in this world ask the man who drank with Dylan Thomas ask the man who laced Jack Sharkey's gloves ask the sad-faced man drinking coffee ask the plumber ask the man who dreams of ostriches every night ask the ticket taker at a freak show ask the counterfeiter ask the man sleeping in an alley under a sheet of paper ask the conquerors of nations and planets ask the man who has just cut off his finger ask a bookmark in the bible ask the water dripping from a faucet while the phone rings ask perjury ask the deep blue paint ask the parachute jumper ask the man with the bellyache ask the divine eye so sleek and swimming ask the boy wearing tight pants in the expensive academy ask the man who slipped in the bathtub ask the man chewed by the shark ask the one who sold me the unmatched gloves ask these and all those I have left out ask the fire the fire the fire — ask even the liars ask anybody you please at any time you please on any day you please whether it's raining or whether the snow is there or whether you are stepping out onto a porch yellow with warm heat ask this ask that ask the man with birdshit in his hair ask the torturer of animals ask the man who has seen many bullfights in Spain ask the owners of new Cadillacs ask the famous ask the timid ask the albino and the statesman ask the landlords and the poolplayers ask the phonies ask the hired killers ask the bald men and the fat men and the tall men and the short men ask the one-eyed men, the oversexed and undersexed men ask the men who read all the newspaper editorials ask the men who breed roses ask the men who feel almost no pain ask the dying ask the mowers of lawns and the attenders of football games ask any of these or all of these ask ask ask and they'll all tell you: a snarling wife on the balustrade is more than a man can bear. Bukowski

quinta-feira, dezembro 26, 2013

«One thing I found when living in the woods was that you get so that you don't worry about the future, you don't worry about dying, if things are good right now you think, 'well, if I die next week, so what, things are good right now.' I think it was Jane Austen who wrote in one of her novels that happiness is alwavs something that you are anticipating in the future, not something that you have right now. This isn't always true. Perhaps it is true in civilization, but when you get out of the system and become re-adapted to a different way of life, happiness is often something that you have right now.» idem sem ibidem
«Imagine a society that subjects people to conditions that make them terribly unhappy then gives them the drugs to take away their unhappiness. Science fiction? It is already happening to some extent in our own society. Instead of removing the conditions that make people depressed modern society gives them antidepressant drugs. In effect antidepressants are a means of modifying an individual's internal state in such a way as to enable him to tolerate social conditions that he would otherwise find intolerable.» Theodore Kaczynski

Um dos livros que pedem metade de uma vida para o decifrar

http://panorama-direitoliteratura.blogspot.pt/2010/10/james-joyce-parte-vi.html

«Conservador»

Uma palavra que Agostinho da Silva desmontou. «Sou conservador se é para conservar a sardinha, se é para conservar a lata, não sou.» Como pessoa culta, evitou o reducionismo - é tão estúpido o que é favorável a todos os ventos da modernidade (que muitas vezes são o regresso à barbárie, caso do actual nazismo económico e do totalitarismo-omnipresente-e-vigilante do digital) como ser contra só por ser contra. Como nas tradições - há os patetas que são contra todas só porque são tradições (e há boas tradições que se estão a perder, como a cultura humanista da Europa que é contrária em todo e qualquer caso à pena de morte e à tortura; e há os igualmente patetas que são contra tudo o que quebra a tradição que assimilaram acriticamente como se esta fosse um garante de uma qualquer proscrição divina e noutros tempos queimariam pretos, mulheres, defenderiam a escravatura. A palavra é muito redutora - por várias razões. Politicamente, hoje, tentar conservar o que temos - o Estado social, a Constituição, os direitos e liberdadades adquiridos - conquistou até um homem que em tempos foram de direita-direita, como Adriano Moreia e Miguel Esteves Cardoso (que se assumiu de extrema-direita, ipsis verbis. E contudo ninguém chama conservadores a quem está deste lado da barricada. Mais: muitos conservadores como Borges falavam de revolucionários de esquerda e de direita com igual abjecção - o que eles queriam era não mexer muito nas coisas - qualquer engenharia social resultaria mal. Borges: aderi ao Partido Conservador apenas por ser o único que evita extremismos. Por outro lado, muitas pessoas confundem a antinomia conservador - libertino na vida pessoal com aquilo que é a sua posição em relação ao Estado. Muitos de direita (e não vou nomear, mas sei) levaram vida mais próximas de Kerouac ou Ginsberg do que o menino de coro Louçã - e contudo a defesa de uma ideologia política merece a uns o rótulo de conservador e a outro de radical ou revolucionário troskista (não confundir com troikista). Pode ser-se defender que o Estado não criminalize a eutanásia, o aborto, as drogas e nunca aceitar na sua vida pessoa nenhuma destas opções. Etc., etc. E o contrário - há inúmeros exemplos de vidas decadentes até nos republicanos dos EUA. Nem chamo hipocrisia. Acontece. A vida tem muitas curvas, ambivalências.

Snowden pelo Natal

«Hoje temos sensores nos nossos bolsos, que nos seguem para qualquer lugar para onde formos. Pensem no que isto significa para a privacidade do cidadão médio.» «Uma criança nascida hoje crescerá sem nenhum conceito de privacidade. Nunca saberá o que significa ter um momento privado para si, um pensamento que não seja analisado ou registado.»

A única inscrição dentro da cabina do Unabomber

««Taking a bath in winter breaks an Indiana law.»

Dito mexicano

Apenas os homens das montanhas são livres.
A compaixão é uma força mais poderosa do que a hostilidade? Na política, parece o contrário. Talvez tenha sido esse o caminho errado da esquerda? Mao: «Comunismo não é amor, comunismo é um martelo com o qual se golpeia o inimigo.» Mas: para atingir o estádio do amor? Não é isso que sustenta(rá/ria) o proclamado «colectivo»?

Do Real

É rebocador há trinta anos. Ganha 600 euros (não sei se brutos). Trabalha 6 dias em 7. Por vezes, 7 em 7, porque o patrão anda a «cortar-me nas folgas». Trabalha das sete da noite às sete da manhã. Doze horas que normalmente são mais, porque «quando estou às sete da manhã no meio da estrada, não posso largar tudo e ir para casa». O patrão dele, além da sua firma, tem uma frota de 73 táxis. O rebocador tem problemas de costas - mas está à espera de poder ser operado num hospital público e não pode largar muitos dias o trabalho, avisou o patrão. Tem três filhos. Desconheço o que faz a mulher. Ultimamente, correu um série risco de vida. No meio da estrada, da chuva, do nevoeiro (cenários que conhece de cor) um automóvel de gabarito disparou em alta velocidade fazendo voar o triângulo e travando a milímetros dele. Em 2013, um colega seu morreu assim no Porto, contou-me. Por mais paradoxal que possa parecer, a sua raiva não é contra o patrão - é contra os «brasileiros e ucranianos filhos da puta que estão a levar só 500 euros e eu ou baixo o salário ou vou c´o caralho». Isto é tudo menos episódico. Em França, Marine Le Pen, actual líder das sondagens, tem uma grande fatia do proletariado, ou operariado, com ela. 1) Atitude um. O povo é estúpido e de tão estúpido e mentalmente reles, não nos devemos preocupar com ele e se se aproximar da boca da fera que a fera o morda até ele pedir socorro - mas só se pedir bem alto e prometer não voltar a aproximar-se. 2) Atitude dois. A propaganda do sistema é tão forte, tão forte, que temos todos os dias de nos defender das falsas verdades que nos querem impingir e todos os dias procurar catequizar o próximo. Dividindo quase pobre contra pobres, pobres contra remediados, miseráveis contra esfaimados. (Sempre que há greve, a pergunta da jornalista do «serviço público» é sempre a mesma: - Gosta de estar aqui há espera do comboio; isto não lhe causou transtorno? - Puta que a pariu! E embalados respondem... os que vão para trabalhar na caixa do supermercado contra os que maquinistas... os trabalhadores fragmentados como Eles querem.) Dividindo e assim reinando. Atitude dois é, portanto, não embarcar em falácias de privados ou públicos, de velhos ou novos, de a minha empresa contra a tua, o meu sector contra o outro, o português contra o imigrante... 3) Atitude três. Desistir da esquerda. A esquerda não faz ideia do mundo em que vive, representando aqueles que não querem que ela fale em seu nome - antes pelo contrário, juntam-se ao ovo da serpente.

Do Onírico

Descobri que os sonhos têm cronologia. De dia para dia. Descobri isso nos meus. Em noites diferentes, há algo adquirido. Há uma narrativa que pega no ponto anterior. Supõe: estás na Hungria depois de teres estado na Bélgica de que te lembras apenas no sonho lembrado no sonho da noite anterior. Verifico apenas muito recentemente que há um fio narrativo, um acumular - uma vida paralela lá. Pelo menos, nos meus.

quarta-feira, dezembro 25, 2013

Revista da Tasca

http://issuu.com/filipassuncao/docs/portela_magazine_n__12

segunda-feira, dezembro 23, 2013

No meu ideolecto, não no sentido académico ou profissional

Engenheiro - aquele que não consegue sentir uma metáfora.

sexta-feira, dezembro 20, 2013

Hipálage apanhada no quotidiano

- Eu não vou à bola com ele; tem olhinhos ambiciosos.

quinta-feira, dezembro 19, 2013

I am too alone in the world, and yet not alone enough/ to make every moment holy./ I am too tiny in this world, and not tiny enough/ just to lie before you like a thing,/ shrewd and secretive./ I want my own will, and I want simply to be with my will,/ as it goes toward action;/ and in those quiet, sometimes hardly moving times,/ when something is coming near,/ I want to be with those who know secret things/ or else alone./ I want to be a mirror for your whole body,/ and I never want to be blind, or to be too old/ to hold up your heavy and swaying picture./ I want to unfold./ I don’t want to stay folded anywhere,/ because where I am folded, there I am a lie./ and I want my grasp of things to be/ true before you. I want to describe myself/ like a painting that I looked at/ closely for a long time,/ like a saying that I finally understood,/ like the pitcher I use every day,/ like the face of my mother,/ like a ship/ that carried me/ through the wildest storm of all. Rilke
«For a truly religious man nothing is tragic.» Ludwig Wittgenstein
«Ter uma pessoa próxima, cujas visões opostas se aliam a uma amizade profunda e convicta, pode ser uma influência maravilhosamente instrutiva. Pois, enquanto formos obrigados a ver o outro sempre como algo falso, mau, hostil, em vez de simplesmente o outro, não entraremos numa relação tranquila e justa com o mundo em que todos devem ter lugar: parte e contraparte; eu e o sumamente diferente de mim. E, apenas sob o pressuposto e a admissão de tal mundo completo, poderemos dar um arranjo amplo, espaçoso e arejado ao nosso Eu Interior, com seus contrastes e contradições internos.» Rilke

quarta-feira, dezembro 18, 2013

«Regard the society of women as a necessary unpleasantness of social life and avoid it as much as possible. [...] Indeed, from whom do we get sensuality, effeminacy, frivolity in everything, and many other vices, if not from women? Who is to blame that we lose out innate qualities of boldness, resolution, reasonableness, justice, and others, if not women? Women are more receptive than men, therefore in virtuous ages women were better than we, but in the present depraved and vicious age they are worse than we.» Tolstói (diários)
- Quanta candura, meu jovem, quanta candura - contrapôs o representante dos patrões na conferência com ar paternal defendendo que só está desempregado quem quer, arrogante, numa voz delico-doce, insidiosamente imperial, ostensivamente displicente, mas tremendamente mais ofensiva do que lhe se chamasse estúpido, como se estivesse tão acima dele, mas tão acima, que nem precisasse de descer ao insulto. Talvez que a escrita não permita relatar a displicência que observei.

terça-feira, dezembro 17, 2013

- Está com que idade? - 78. - A sério que pensava que era bastante mais nova. Parece mais nova. - Cheguei a uma fase que nunca tinha vivido. Todos os dias, dores horríveis, todos, a dor física como algo constante. É o envelhecimento. Pensava que só acontecia aos outros. A dor como uma constante, como os braços ou as pernas. Um dia só com dorzinhas é tão bom. Mas tão raro...
«O homem moderno faz para ser mais. para parecer mais. para parecer melhor e ser aceite. o homem não deixou de ser racista. ser racista é que passou a ser retrógrado. o homem pode fingir não acreditar em deus por ser careta. pode apoiar causas porque a maioria diz que sim. o homem não deixou de ser homofóbico, não passou a ser feminista ferrenho [...]». http://euestouvivo.blogspot.pt/

A tasca entrevista Mário de Carvalho - clicar para aumentar

DIGITAL DEMENCIAL

http://www.ericsson.com/res/docs/2013/consumerlab/10-hot-consumer-trends-report-2014.pdf
No 1.º Ciclo, ouvir o livro tende a substituir o antigo hábito de ler o livro. Já há canetas que escrevem e vibram quando dão erros ortográficos. Ortografia, sintaxe, para quê?, disseram-me professores. No futuro, dirão mais. A Matemática... tantas operações que não é preciso pensar, a máquina faz. O GPS indica o caminho, despreza-se o sentido de orientação espacial. Na arte, artistas programam robôs que defecam centenas de quadros durante a noite. Um novo assunto, um novo estímulo - quanto mais novos, mais a Wikimerda basta. E os filhos dos filhos deles... Mas a rapidez, a ajuda da tecnologia embota - e no futuro amputará (quem desconfia que pense sucessivamente em decénios passados e verá que a realidade do passado presente ultrapassou a ficção científica) - as funções de cognição.

segunda-feira, dezembro 16, 2013

Diferença entre cultura e conhecimento: a primeira não visa a técnica, o produtivismo. Saber mudar a bateria de um carro é conhecimento - é algo para e não por. Daí Wilde e a arte ser absolutamente inútil. Já Pessoa distinguia AINDA mais longe: o culto e o erudito. O erudito armazena dentro de si; o culto incorpora o que sabe no seu modus vivendi.
Se está tudo nos clássicos, para/por quê continuar a escrever? A angústia de Almada Negreiros cresce dia a dia. Camões poderia ser culto - poderia abarcar o legado, o caudal de cultura humanística com laborioso estudo - numa época em que havia tantos livros (trinta e cinco mil) como hoje se publicam por mês. E não havia ziliões de filmes, músicas, jornais, revistas, publicações periódicas, blogues, isto&aquilo. Julga-me a gente toda por perdido,/ Vendo-me tão entregue a meu cuidado,/ Andar sempre dos homens apartado/ E dos tratos humanos esquecido./ Mas eu, que tenho o mundo conhecido,/ E quase que sobre ele ando dobrado,/ Tenho por baixo, rústico, enganado/ Quem não é com meu mal engrandecido./ Vá revolvendo a terra, o mar e o vento,/ Busque riquezas, honras a outra gente,/ Vencendo ferro, fogo, frio e calma;/ Que eu só em humilde estado me contento/ De trazer esculpido eternamente/ Vosso fermoso gesto dentro na alma./

domingo, dezembro 15, 2013

«Por falta de dinheiro e, consequentemente, sem possibilidades de pagar, três em cada dez portugueses perderam o acesso a cuidados de saúde, alerta o Observatório Português dos Sistemas de Saúde (OPSS). Nos próximos tempos, e tendo em conta o período de austeridade que o País atravessa, a tendência é que a situação se agudize, acrescenta o OPSS. A falta de recursos também tem tido reflexos na qualidade da alimentação dos portugueses.»

sábado, dezembro 14, 2013

Gosto, como Fitzgerald, de acordar de um pesadelo. Não gosto de acordar de um sonho róseo e encantado e mágico. O alívio pode ser um grande contentamento. Como disse Woody Allen, a expressão mais agradável em língua inglesa não é I love you, mas antes: «It´s benign.» Tenzin Gyatso explica que a felicidade não pode ser isto - ninguém deseja uma comichão (metafórica) só para sentir o prazer do alívio. Mas que é das melhores sensaçõessentimentos É. (Quem passa por elas é que sabe.)

sexta-feira, dezembro 13, 2013

«As canções que ouvimos são suaves, mas atraem-nos/ ainda mais/ as que não escutamos: continuai pois, melodiosas flautas,/ o vosso ritmo. Não para o ouvido corpóreo: mais íntimas,/ entoai para o nosso espírito as canções silenciosas.» Copiado à mão, um dos melhores dos poemas de um dos maiores e mais precoces poetas, a Estrela Cintilante
«Eu adoro livros.» «Sou capaz de ficar um dia a ler.» «O que é preciso é apoiar os eventos culturais. O País precisa de cultura.» «Do que mais gosto é de ler, escrever e pensar.» «A poesia dá-me orgasmos.» Outras mais aparentemente sofisticadas, mas com a mesma substância nula: «A beleza da transparência da língua», «o lado onírico do autor arrebatou-me, «as vísceras do eu arrancadas para o texto, percebes?». Vacuidades - vacuidades pretensiosas. Que procuram causar impressão. Pensas nas pessoas concretas de que ouviste estas frases (e que muitas vezes apanhaste com SMS «chegas-te bem a casa?», «à tanto tempo que não ia lá» ou com aquela que, sim, A História Universal da Infâmia era um livro fabuloso, com centenas de páginas, etc., etc.), pensas nas variantes das pessoas de quem ouviste estas frases - curiosamente, são todas pessoas para quem a cultura é um ornamento como uma mota de água. Pessoas que realmente não navegam em águas profundas. Nem com o dedo maior do pé.

quinta-feira, dezembro 12, 2013

Uma conversa ocorrida num bar com música baixinho, ambiência e mesas com espaço para duas pessoas falarem

- Sade, Maquiavel, Hobbes esmagam Rosseau. - E Buda e Cristo também? E Sócrates? - O Mal vence o Bem - se assim não fosse, o mundo seria um quase paraíso. - O Rosseau que tu citaste diz que se um homem encontra outro atado numa floresta, sem o conhecer, sente uma empatia em libertá-lo. Não ganhando nada com isso, não perdendo nada com isso (quando muito perdendo tempo) - a tendência é ele ir libertá-lo. Numa situação neutra, em que não é beneficiado nem prejudicado, perante o sofrimento do outro, o Homem é compassivo. - Vê a sociedade actual... Tentaram-se tantos regimes e nada funcionou. O Homem não é bom por natureza. É difícil aceitar isto. A vaidade comanda tudo. 95% dos nossos pensamentos são sobre nós. - A sociedade promove isso... - Nós é que fazemos a sociedade... - Não, poucos controlam o poder e cada vez mais o indivíduo se sente atomizado e impotente... - A crença de que o Homem é bom, por natureza, é consoladora. - Ao longo da História, o Homem matou menos o Homem do que o Estado matou o Homem. Hoje, vive-se com uma incerteza de futuro tremenda, o Homem afastou-se da Natureza, há tremendas desigualdades, muita densidade populacional, mormente nas sociedades, etc., etc. Não podes isolar isso e dizer que o modelo não afecta o indivíduo. - Ninguém de te impede de entrar num estabelecimento e pôr lá dinheiro na caixa. Porque não acontece isso? Porque acontece o contrário, o roubo? E não apenas de pessoas que precisam. Há gente da classe média, sabes isso, que trafica e rouba para ter mais. - Mas também há muita gente dedicada a causas, aos direitos humanos, horas e horas, com sacrifícios materiais, familiares, pessoais. E não te esqueças de que o mal é mais impactante. Todos os actos são de construção... - De construção em função do eu... Mesmo os altruístas aspiram ou ao reconhecimento ou a um sentido de vaidade intrínseca ou ao medo das leis cármicas... - Dizia... todos os actos de construção, tu trabalhares, tu alimentares no sentido imaterial a família, as relações... Tudo isso passa despercebido. É um fio constante, quotidiano, invisível, o da construção. Mas um tipo que dá um tiro a outro é impactante. E nem vou discutir, porque sei que estás de acordo, qualquer pessoa reconhece o truísmo de que os media noticiam essencialmente o mal, e porquê?, porque ele é a excepção. A construção demora, é paciente, mas a destruição, o mal num segundo destrói tudo... Como uma onda na praia que desfaz numa fracção de segundo o castelo de areia construído durante muito mais tempo. O mal tem mais caminhos de agir. Eu posso hoje salvar uma vida? Muito difícil. Eu posso hoje matar? Vou aqui ao lado e mato o vizinho. O mal está sempre mais à mão. É mais fácil, por exemplo, destruir uma pessoa com palavras do que reabilitar-lhe o moral. - Mas essa construção é feita pela lei da sobrevivência. Damos afecto porque precisamos dele, trabalhamos por dinheiro ou sensação de utilidade. Transacções, meu caro. - Nunca conheci quem pensasse assim e não desaguasse na desistência, na alienação ante o Outro... Mesmo que verdadeiro - o que não concordo - é um pensamento perigoso. - A lucidez é perigosa.
«Aquele que conheceu apenas a sua mulher, e a amou, sabe mais de mulheres do que aquele que conheceu mil.» Tolstói

Descrição de um dia

Sais de manhã, trabalhas, vais almoçar num ápice. Uma senhora de idade ao teu lado olha para a televisão e começa a falar contigo sobre o que se passa lá. Atiras umas frases. Ela insiste. Tu estás com pressa. Mas falas com ela sobre o assunto da televisão. A seguir, ela conta-te o que tem sofrido. Tu tens pressa, não queres ser indelicado. Cedes a ouvi-la: a saúde, os filhos, os problemas de dinheiro, uma vizinha que põe a música altíssima. Apanhas um táxi. Já falaste com muitos taxistas - mas nunca um te contou tanto sobre a tua vida. A relação com o pai, a psicanálise, o seu sentimento de inferioridade combatido ao longo de anos e anos de terapia. Ficas cerebralmente boquiaberto. Lembras-te de Eça procurando apaziguar o espanto: o que não contas ao teu melhor amigo conta-o a um estranho numa noite numa estalagem. Ao fim da tarde, compras. A rapariga da caixa pergunta-te se vais consumir tudo sozinho. Vens do trabalho à noite, passas num bar. Tanta gente que sai à noite sozinha num dia de semana. Tanta gente que quer falar contigo e com outras pessoas - tanto gente à procura de um ombro, de um ouvido. Falas com pessoas. Ouves frases dirigidas a ti e a outros: «Não tenho companhia para sair, mas sempre é melhor do que estar enfiada em casa a ver o Facebook», «Tem e-mail ou facebook que me possa dar?» «Inscrevi-me nuns workshops, é mais para conhecer gente.» Nunca sentiste tanta solidão na tua cidade. (O tema: A solidão e não o meu putativo magnetismo pessoal.)
Um fórmula que permite aquilatar se és amigo de outr@: se o estado de (in)felicidade del@ adiciona ou subtrai pelo menos metade do teu bem/mal-estar mental.
Dale Carnegie aconselhava a nunca se discutir. As convicções mais íntimas, os seus gostos são para muita gente uma família. Discordar delas com certa veemência é atacar-lhes a identidade - é atacá-las, no fundo. MAS AS DUAS GRANDES RAZÕES PROVÊM DA MATEMÁTICA E DA PSICOLOGIA. O teorema de Godel. É impossível que um sistema de encadeamento de premissas dispense axiomas não demonstráveis, logo todo o que é lógico, tudo o que é racional assente algures no buraco do dogma não demonstrável. Há sempre uma incompletude que só é preenchida com a crença. E o que nos faz aderir à crença - vem a psicologia - são a emoção, a estética, a experiência limitada que cada um teve, a educação que recebeu, o que sentiu e que inconscientemente - 95% do cérebro, apontam psicólogos em 2013, lhe fez criar com um entretecido de racionalidade que satisfaça a emoção. Por exemplo, os retornados que se tornaram de direita por emoção, por exemplo, os que levaram carga policial por serem de esquerda e que ficam com um preconceito contra a polícia para toda a vida. Mas o ponto mais sensível é outro. Precisamos de sobreviver. Mesmo Descartes que defendia que a única certeza era a do Penso logo sou (a tradução mais fiel) regia-se na sua vida por certezas, esta é a minha casa, esta é a mão, quando está frio, agasalho-me mais). Estas são certezas do quotidiano. Mas todos precisamos de um conjunto de certezas maiores para não nos sentirmos meros bichos. E, por isso, evitamos a fundo quem nos questiona. Freud dizia que lamentavelmente poucos eram os que recorriam à psicanálise no sentido do autoconhecimento - a maioria acorria a ela por puro desespero. Longe de querer defender a psicanálise, digo apenas o que leio sobre psicologia: as pessoas têm o seu sistema de pensamento, de valores, de princípios, de crenças organizado e quando outra pessoa, dados novos, a mutação da realidade lhes procura abalar as certezas mais fundas - aí, a emoção reage. Inconscientemente, atenção. Se fosse conscientemente, perceberiam. E com unhas e dentes a emoção força a razão a munir-se de encadeamentos lógicos que rebatam o novo (o novo na cabeça, o profundamente novo na cabeça) - se isso acontecesse a mente desorganizar-se-ia. E o que ela mais quer é funcionar organizada. Castro Caldas explica que o mais difícil de eliminar na mente é o hábito. E uma ideia certa e segura é um «hábito» para muitos.

quarta-feira, dezembro 11, 2013

Resumo de todos os argumentos a favor e contra o meu casamento: 1. Incapacidade de suportar a vida sozinho, o que não implica incapacidade de viver, pelo contrário; até é improvável que eu saiba viver com alguém, mas sozinho não consigo aguentar o assalto da minha própria vida, as exigências da minha pessoa, os ataques do tempo e da idade, a vaga pressão do desejo de escrever, a insónia, a proximidade da loucura — não consigo aguentar isto só. É claro que junto «talvez» a tudo isto. A relação com F. vai dar à minha existência mais força para resistir. 2. Tudo me faz imediatamente pensar. Todas as piadas no jornal humorístico, o que me lembro de Flaubert e de Grillparzer, as camisas de noite nas camas dos meus pais, ali postas para a noite, o casamento de Max. Ontem a minha irmã disse: «Todas as pessoas casadas (as pessoas que conhecemos) são felizes. Não percebo», esta afirmação também me fez pensar, fiquei outra vez com medo. 3. Tenho de estar só muito tempo. O que consegui fazer foi apenas o resultado de estar só. 4. Odeio tudo o que não se relacione com a literatura, as conversas aborrecem-me (mesmo quando são sobre literatura), fazer visitas aborrece-me, as mágoas e as alegrias das pessoas da minha família aborrecem-me até ao fundo da alma. As conversas, a importância, a seriedade, a verdade de tudo o que penso. 5. O medo da relação, o passar para o outro. Então nunca mais fico só. 6. Antigamente a pessoa que sou na companhia das minhas irmãs era diferente da pessoa que sou na companhia de outras pessoas. Sem medo, poderoso, surpreendente, sensível como só sou quando escrevo. Se pela mediação da minha mulher eu pudesse ser assim em frente de toda a gente! Mas não seria então à custa do que escrevo? Isso não, isso não! 7. Só, eu talvez pudesse um dia desistir do meu emprego. Casado, isso nunca seria possível. Kafka, Diários

domingo, dezembro 08, 2013

Was the Unabomber correct? By Dr. Keith Ablow

Ted Kaczynski, aka the Unabomber, was rightly imprisoned for life in 1998 for sending bombs that maimed and killed three people and injured 23 more, from 1978 to 1992. No one can excuse his terrorism. Kaczynski’s ideas, however, described in a manifesto entitled, "Industrial Society and Its Future," cannot be dismissed, and are increasingly important as our society hurtles toward individual disempowerment at the hands of technology and political forces that erode autonomy. “Industrial Society and its Future” was published on September 19, 1995 by The New York Times and The Washington Post, to comply with Kaczynski’s demand, in exchange for him stopping the bombings. Kaczynski, who is still alive, wrote that the increasing industrialization of America and the world, and our increasing reliance on technology, would end up short-circuiting the ability of human beings to think for themselves and act on their own ideas and abilities. Kaczynski must wonder what it will take for Americans to wake up to the fact that their individuality and autonomy is under siege He saw the political “left” as embracing these technologies with special fervor, because they were in keeping with the “leftist” ideology that centralized power was the way to govern men. He saw these “leftists” as psychologically disordered—seeking to compensate for deep feelings of personal disempowerment by banding together and seeking extraordinary means of control in society. Well, Kaczynski, while reprehensible for murdering and maiming people, was precisely correct in many of his ideas. Watching the development of Facebook heighten the narcissism of tens of millions of people, turning them into mini-reality TV versions of themselves, I would bet he knows, with even more certainty, that he was onto something. Witnessing average Americans “tweeting” about their daily activities as though they were celebrities, with fans clamoring to know their whereabouts, he must marvel at the ease with which technology taps the ego and drains the soul. Thinking about the widespread use of GPS, he must wonder whether anyone realizes that following illuminated maps to get where you are going actually erodes your real sense of direction—on highways and, perhaps, in life. Hearing about Google Glass – a new device that will only sap the ability of users, in my opinion, to see anything clearly, Kaczynski might even prefer the reality of the iron bars and solitude of his cell. At least they, he may be thinking, are real. And having seen Barack Obama elected, in part, by mastering the use of the Internet as a campaign tool, then watching his administration preside over eavesdropping on the American public, monitoring their emails and tapping their phones, denying them their due process and privacy, and making a play to disarm them, Kaczynski, must wonder what it will take for Americans to wake up to the fact that their individuality and autonomy—indeed, what constitutes the core of a human life—is under siege (by the very forces he predicted—technology and leftist political leaders). What the Unabomber did was reprehensible. And he was wrong: Killing people to bring attention to his ideas ended up making most people lock up his ideas, along with him. They became unmentionable, for politically correct folks. Well, I would rather be correct, than politically correct. And it is time for people to read “Industrial Society and its Future,” by convicted serial killer Ted Kaczynski. His work, despite his deeds, deserves a place alongside “Brave New World,” by Aldous Huxley, and “1984,” by George Orwell. Dr. Keith Ablow is a psychiatrist and member of the Fox News Medical A-Team. Dr. Ablow can be reached at info@keithablow.com. Dr. Keith Ablow ALS

Digno de Bashô

«Silêncio:/ contemplar a neve/ até confundir-se com ela.» José Tolentino Mendonça

sábado, dezembro 07, 2013

VERDADES INCÓMODAS À MARGEM DA MORTE DE MANDELA "MUDAM-SE OS TEMPOS, MUDAM-SE AS VONTADES"

Galopim de Carvalho Geólogo. Antigo diretor do Museu Nacional de História Natural da Fac. Ciências da Universidade de Lisboa «Morreu, aos 95 anos, Madiba, assim lhe chamavam, carinhosa e afectivamente, os que o admiraram, respeitaram e amaram. Estamos de luto, de verdade, todos os que puderam conhecer a vida e a obra desta figura ímpar, bondosa, tolerante, sorridente e bonita, moral e fisicamente. No dia 11 de Junho de 2008, o deputado António Filipe, do PCP, numa intervenção no Parlamento, por altura da comemoração do 90º aniversário de Mandela, disse para os que não sabiam e lembrou aos interessados em fazer esquecer que, em 1987, há pouco mais de um quarto de século, a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou, com 129 votos, um apelo para a libertação incondicional de Nelson Mandela, e que os três países que votaram contra foram os Estados Unidos da América, de Ronald Reagan, a Grã-Bretanha, de Margaret Thatcher, e Portugal, de Cavaco Silva, na altura Primeiro-Ministro. No site da Presidência da República, datada de 5 de Dezembro de 2013, pode ler-se a mensagem de condolências enviada pelo Senhor Professor Cavaco Silva ao seu homólogo Jacob Zuma pela morte de Nelson Mandela, que aponta como "figura maior da África do Sul e da História mundial". Nesta mensagem, o Professor afirma que "Nelson Mandela deixa um extraordinário legado de universalidade que perdurará por gerações". Realça: "O seu exemplo de coragem política, a sua estatura moral e a confiança que depositava na capacidade de reconciliação constituem verdadeiras lições de humanidade". Acrescenta, lembrando que "A dedicação de Nelson Mandela aos valores da democracia, da liberdade e da igualdade invadiu os corações de todos quantos o admiram, na África do Sul ou em outro lugar, incutindo esperança, mesmo diante dos desafios mais difíceis". O Professor afirma, ainda, que "A atribuição do Prémio Nobel da Paz a Nelson Mandela e a sua eleição massiva para a mais elevada Magistratura da África do Sul simbolizaram o merecido reconhecimento de um político de causas e uma vitória para os Direitos Humanos no mundo". Nesta dualidade de posições, flagrantemente antagónicas, duas conclusões se poderão tirar: ou o nosso Presidente mudou radicalmente de opinião ou as palavras que agora subscreve são pura hipocrisia.» Casal das Letras
«Isto não é um país, é um negócio.» Gonçalo M. Tavares

sexta-feira, dezembro 06, 2013

O enorme presente

Artistas e pensadores vivem perplexos — não sabem o que filmar, escrever, formular. Sinto em mim mesmo como é difícil criar sem esperança ou finalidade Um amigo meu, cultíssimo, tem um filho muito “conectado” na internet. E o menino disse a ele: “Pai, você sabe tudo que já aconteceu, mas não sabe nada que está acontecendo”. O pai, como todos nós, embatucou. A mutação cultural dos últimos anos foi tão forte, a turbulência no mundo pós-industrial dissolveu tantas certezas, que caímos num vácuo de rotas. Artistas e pensadores vivem perplexos — não sabem o que filmar, escrever, formular. Sinto em mim mesmo como é difícil criar sem esperança ou finalidade. Como era gostoso nosso modernismo, os cinemas novos, os movimentos literários, as cozinhas ideológicas. Os criadores se sentiam demiurgos falando para muitos. Sei que, neste exato momento, jovens filhos da web, os “hackers” da arte devem estar rindo de mim. Por isso, lembro a frase de Drummond: “Cansei de ser moderno, quero ser eterno...” (“frase manjada”, dirão meus inimigos...); tudo bem, mas sinto muita falta do tempo em que alguma “síntese”, mesmo ilusória, nos era oferecida. Aí, a “contemporaneidade”, esse “faz-tudo” do novo vocabulário, inventou a “utopia da distopia”. Nada como uma boa distopia para saciar nossa fome de certezas. Vá em qualquer exposição de arte e veja o “conceito” ou a “narrativa” (outras palavras de mil utilidades) das obras: “o futuro vai ser uma bosta”. E os artistas vibram de orgulho, radiantes como profetas do nada. A fruição poética é impedida, como se o prazer fosse uma coisa reacionária, “alienada”, nos levando a ignorar o “mal do mundo”. Há uma encruzilhada de linguagens, uma mutação no pensamento. As palavras que eram nosso muro de arrimo foram esvaziadas e ficamos à deriva. Por exemplo, “futuro”. Que quer dizer? Antes, era visto como um lugar a que chegaríamos. Agora, no lugar de “futuro”, temos um presente incessante, sem ponto de chegada. Pela influência do avanço tecnológico da informação e pelo mercado global, foram se afastando do grande público as criações artísticas e literárias, as ideias filosóficas, os valores. “Toda aquela dimensão espiritual chamada antigamente de cultura que, ainda que confinada nas elites, transbordava sobre o conjunto da sociedade e nela influía, dando uma razão de ser para a existência” — escreveu Vargas Llosa. Passamos a viver diante de telas — ou TV ou games que nos matam a fome de sentido. Surgiu uma “segunda vida” digital e audiovisual que nos afasta do antigo vazio da realidade misteriosa. Nas telas, nos games nossa existência se explica; é só seguir as regras do jogo. Agora, na falta das “grandes narrativas” do passado, estamos a idealizar irrelevâncias, porque ali pode haver pistas para novas “verdades” a desvelar. Nunca tivemos tantos criadores, tanta produção cultural enchendo nossos olhos e ouvidos com uma euforia medíocre, mas autêntica. A aura deslizou da obra para o próprio autor. Há uma grande vitalidade neste cafajestismo poético, enchendo a “web” de grafites delirantes. Não sei em que isso vai dar, mas o tal “futuro” chegou. Talvez este excesso de “irrelevâncias” esteja produzindo um acervo de conceitos “relevantes”, ainda despercebidos. Podemos nos arriscar ao erro com mais alegria; mas, isso não pode justificar um desprezo pela excelência. As tentativas de “grande arte” são vistas com desconfiança, como atitudes conservadoras, diante da cachoeira de produções que navegam no ar. Isso me lembra o tempo em que achávamos que o “fluxo da consciência”, “the stream of consciousness”, ou o discurso psicótico continham uma sabedoria insuspeitada. Hoje há uma espécie de presente eterno, que esqueceu o passado ou as influências dele. Como se crianças nascessem por geração espontânea, sem pai nem mãe. Uma psicanalista me disse que estão todos desesperados na profissão, porque os pacientes não têm mais interioridade. Não têm sobre o que refletir. A psicanálise está diante de um tipo de subjetividade inesperada. Nas artes, o mesmo. Na literatura nova atual, sente-se que a busca não é só de um tema ou assunto, mas que a preocupação maior é “como” escrever. Como ser “contemporâneo”? Como buscar um sentido para a falta de sentido? A própria superficialidade ou talvez a vulgaridade, a irrelevância sejam relevantes — acham. A irrelevância é buscada. Temos de ter um “não enredo”, um “não final” , uma “não explicação” buscada. A utopia da distopia. Há livros cultuados na literatura contemporânea que são absolutamente insuportáveis, mas que são vendidos (e lidos?) para milhões que acham aquilo arte “da hora”. É o difícil superficial, o óbvio disfarçado de profundo. Aliás, a própria crítica está intimidada, porque “julgar” algo pode denotar que o sujeito que ousou fazê-lo teria opiniões conservadoras, que ele seria um crítico “estraga prazer”, um intrometido. Será que houve a morte da “importância”? Ou ela seria justamente esta explosão de conteúdos e autores? O “importante” seria agora o quantitativo? Não sei; mas, se tudo é “importante”, nada o é. A importância de uma obra reside no grau de decifração da vida de seu tempo e para onde ela aponta, mesmo no túnel sem luz. Se olharmos as obras primas de, digamos, Jan Van Eyck, o gênio holandês, vemos ali todo o espírito da Idade Média, revelada nos detalhes mais banais, mesmo nas encomendas de príncipes ou cardeais. Contudo, é preciso que esses tópicos sejam discutidos, pois na tal conversa do pai erudito com o filho conectado, a resposta do pai poderia ser: “Você acha que sabe tudo que está acontecendo e nada sabe sobre o que já aconteceu”. Por isso, dou uma pequena contribuição ao assunto: tenho um filho de 13 anos. Eu, zeloso pai, botei o Quarteto de Cordas opus 133 de Beethoven para que ele ouvisse um momento máximo da história da música. Ouviu tudo atentamente enquanto, no ritmo exato do quarteto, jogava um game, no Xbox. Beethoven e o game se uniram em harmonia. Talvez haja futuro. Arnaldo Jabor

quinta-feira, dezembro 05, 2013

Quando o passado devora o futuro

«Insisto: há na persistência da crise que vivemos uma clamorosa falta de pensamento que deixa na maior impunidade os que a provocaram e continuam, apesar de tudo e de múltiplos modos, a beneficiar com ela. Falta de pensamento crítico que é, simultaneamente, uma falta de pensamento de futuro, o que se traduz num ronronar de protestos que, por mais intensos que se vão tornando - e têm tornado -, continuam a deixar desarmados e cada vez mais desesperados a generalidade dos cidadãos. Sob o imperium da comunicação e dos spin doctors, cavou-se entre o discurso político e o conhecimento efetivo dos problemas um abismo cada vez maior: colmatá-lo é a condição sine qua non da sua resolução. E só há um caminho, que é o de dar de novo função e voz, autoridade e influência aos que estudam e conhecem os problemas, avancem propostas e saibam dinamizar o seu debate. E exemplos não faltam. Nesse sentido, uma obra a não perder é a de Stephen D. King, When The Money Runs Out - The End of Western Affluence, que, conjuntamente com La Mystique de la Croissance, de Dominique Meda, problematizam de perspetivas muito distintas mas de um modo igualmente incisivo os lugares-comuns mais bloqueadores sobre o que é e não é o crescimento, as suas condições de possibilidade, os seus impasses, apontando ambas novos caminhos para o futuro. Mas a meu ver a obra mais importante dos últimos tempos é a de Thomas Piketty, Le Capital au XXI Siècle. São quase mil páginas que vale a pena ler atentamente, e não são difíceis de sintetizar. O seu tema nuclear é o das desigualdades, o estudo baseia-se numa base de dados impressionante, relativa a mais de vinte países num período de três séculos. É um trabalho que nunca havia sido feito, e que chega à clara conclusão de que, no longo prazo, os rendimentos do capital são largamente superiores não só aos do trabalho, mas também aos do próprio crescimento económico. Ou seja, dito noutros termos, que a dinâmica do capitalismo se revela criadora de desigualdades que ela é incapaz de corrigir, o que, na situação da economia globalizada dos nossos dias, exige que se pense na criação de um imposto mundial sobre o capital. Contrariando as ideias tradicionais de Ricardo, e sobretudo os trabalhos de Kuznets sobre a riqueza e a sua distribuição (que defendia a tese da convergência, isto é, a redução automática das desigualdades à medida que o capitalismo se desenvolvesse), o que o livro de Piketty traz de mais inovador é a ideia de que a repartição da riqueza não se pode compreender apenas no âmbito de um qualquer determinismo económico. Que, pelo contrário, este condicionamento está sempre ligado ao discurso político e às próprias representações dos cidadãos das várias épocas e regiões sobre o que é, e não é, justo. Não admira, por isso, que no decurso da história tenha sido precisamente no seguimento de acontecimentos excecionais que se abriram épocas de redução das desigualdades, como aconteceu com o "New Deal", o pós-guerra, etc. É neste plano que é preciso situar o papel do Estado que, nas circunstâncias dos nossos dias, tem de ser profundamente repensado, tema a que Thomas Piketty dedica uma boa parte da sua obra, seja quanto à reforma do Estado social do século XXI, seja quanto à reforma dos impostos sobre os rendimento mais altos, seja quanto à criação (ideia já há anos defendida pelo Nobel da Economia Maurice Allais) de um imposto progressivo sobre o capital a nível mundial. O que não se pode é continuar a permitir que o passado devore o futuro. Ora, como Thomas Piketty demonstra, quando o rendimento do capital ultrapassa clara e prolongadamente a taxa de crescimento isso implica mecanicamente que os patrimónios vindos do passado aumentam a um ritmo de progressão muito superior, tanto em relação ao da produção, como ao dos rendimentos. Foram as devastadoras guerras do século XX, nomeadamente ao criarem uma espécie de tábua rasa ao nível patrimonial, que levaram à criação dessa pertinaz ilusão de uma diminuição estrutural - por vezes a uma quase invisibilidade - das desigualdades e de uma possível, ou pelo menos anunciada, "superação do capitalismo". Mas uma tal ilusão desvaneceu-se com o passar do tempo, e o que agora é urgente, como afirma Piketty, é conseguir "repensar o capitalismo do século XXI nos seus fundamentos(...), construindo uma potência pública adaptada ao capitalismo generalizado do nosso tempo". É por isso que, no que se refere à Europa, ele continua, apesar de um inegável ceticismo de fundo, a alimentar alguma esperança. Porque a União Europeia continua a representar um quarto do PIB mundial. Porque o total dos patrimónios dos europeus é o maior do mundo, muito superior ao dos Estados Unidos ou do Japão, para já não falar da China.... E porque, contrariamente ao que muitas vezes se diz, o que os europeus possuem no resto do mundo é também ainda muito superior ao que o resto do mundo possui na Europa. A dívida europeia parece insuperável quando, na verdade, ela é a mais baixa do resto do mundo rico, e isto só acontece, pensa - e bem - Thomas Piketty, devido a facto de a União Europeia se ter tornado um gerador de impotência coletiva que continuará "enquanto formos governados por pequenos países em exacerbada concorrência uns com os outros (a França e a China em breve serão minúsculos à escala da economia global) e por instituições totalmente inadaptadas e disfuncionais". É o que acontece hoje em dia - é por isso que é aqui que está o grande desafio: o de olhar sem medo para o futuro, se não queremos ser devorados pelo passado.» Manuel Maria Carrilho

quarta-feira, dezembro 04, 2013

A tradução

No início, tudo estava vivo. Os mais pequenos objetos eram dotados de corações pulsantes, e até as nuvens tinham nomes. As tesouras caminhavam, os telefones e os bules eram primos direitos, os olhos e os óculos eram irmãos. A face do relógio era uma face humana, cada ervilha na tua taça tinha uma personalidade diferente, e a grelha na frente do carro dos teus pais era uma boca sorridente com muitos dentes. As canetas eram aviões. As moedas eram discos voadores. Os ramos das árvores eram braços. As pedras pensavam e Deus estava em toda a parte. Não havia problema em acreditar que o homem na lua era um homem a sério. Vias o rosto dele a olhar para ti do céu noturno e era sem dúvida o rosto de um homem. Pouco importava que este homem não tivesse corpo – não deixava de ser um homem para ti, e a possibilidade de que talvez houvesse uma contradição em tudo isto nem por uma vez te passou pela cabeça. Ao mesmo tempo, parecia perfeitamente credível que uma vaca pudesse saltar por cima da Lua. E que um prato pudesse fugir com uma colher.

Que primeiro parágrafo (QUE DUAS PRIMEIRAS FRASES!) - a tradução em português está boa, Relatório do Interior, Paul Auster

terça-feira, dezembro 03, 2013

- Estás em conflito com o mundo ou estás em conflito contigo? Queres aprender e trocar ideias acrescentando nós algo mutuamente um ou ao outro ou queres desafiar por desafiar?
«I had jumped off the edge, and then, at the very last moment, something reached out and caught me in midair. That something is what I define as love. It is the one thing that can stop a man from falling, powerful enough to negate the laws of gravity.« Paul Auster, Moon Palace

segunda-feira, dezembro 02, 2013

Digital, Valter Hugo Mãe

Quando o livro for apenas digital, estarão em perigo todas as traduções e será solicitada ao autor uma brevidade que vá ao encontro da especificação rigorosa dos assuntos e da falta de paciência do leitor. A literatura correrá o risco de, mais do que nunca, se transformar abundantemente numa espécie de manifestação fugaz que procura o mesmo sucesso de um tema musical. Um só tema, breve, conciso, acerca de algo preciso, e que passe logo. Ninguém vai sustentar a tradução de um livro que será pirateado. Apenas através dos apoios institucionais se justificarão as traduções para as mais diversas línguas, e isso levará a um mundo de decisões que independem completamente da lógica dos mercados que conhecemos. Contudo, mais grave, será efectivamente a pressão para que os textos se abreviem. O universo digital suscita a capacidade de rarefacção, sendo certo que as novas gerações parecem acelerar-se nos modos de relacionamento com todas as obras. A fragmentação e a rapidez serão características quase essenciais para que um determinado texto proceda. A música já padece grandemente desta vulnerabilidade. Os músicos parecem pressionados a voltar à lógica do single que, na verdade, no universo pop, existiu antes dos trabalhos de longa duração. O álbum, que ainda propõem, quase sempre passa desapercebido, inexplorado, dado como algo excessivo perante o que não se desenvolveu interesse nem paciência. Subitamente, o álbum tem algo de exagero intelectual, quando o vasto auditório se basta com guardar uma ou duas canções. Os livros, que sempre estiveram sujeitos à impaciência do mundo, serão a ela submetidos dramaticamente. Estou certo de que um núcleo de leitores seguirá lendo os textos de grande fôlego, essas máquinas preguiçosas que implicam o empenho de quem lê. Mas também estou convencido de que as novas gerações estarão disponíveis sobretudo para uma literatura que, não perdendo o brilhantismo, se apresente como experiência substancialmente fugaz. No meio do desafio, o conto e a poesia serão géneros bem mais aptos a sobreviver do que o romance. Lentamente, o mercado deixará de produzir em papel os livros que queremos ler. A indústria perderá o interesse em tal produto porque as vendas digitais subirão de tal modo que não se justificará o esforço das edições em papel. Resistirão casos em que o livro, como objecto, possa ser visto enquanto documento. Serão casos excepcionais. Por mais que queiramos o livro tradicional, o mercado já não no-lo vai fornecer. Experimente procurar um disco muito específico para perceber que ele já só se vende na Internet, com custos elevados, porque só um grupo muito obstinado de gente está disposto a comprá-lo. O livro será sempre pior. Se considerar o facto de não existirem traduções, terá de imaginar os mercados nacionais como células sempre mais confinadas. O domínio da expressão inglesa ou do mandarim vão fazer-se sentir. Sim, acho que a pressão vai levar a que muito boa gente escreva directamente em inglês ou suporte pessoalmente a imediata tradução. Vai ser de um mesmismo insuportável.

domingo, dezembro 01, 2013

No, it's not like any other love/ This one is different - because it's us/ [...] we've something they'll never have The Smiths
«Admiramos o mundo através do que amamos.» Lamartine