sexta-feira, novembro 01, 2013

Ode à vida, Pablo Neruda

Toda a noite/ com um machado/ a dor me feriu,/ mas o sonho/ passando lavou como uma escura água/ ensangüentadas pedras./ Hoje estou vivo novamente./ De novo/ te levanto,/ vida,/ sobre os meus ombros/ Ó vida,/ Taça cristalina,/ de súbido/ enches-te/ de água suja,/ de vinho morto,/ de agonia, de desgraças,/ de pegajosas teias de aranha,/ e muitos crêem/ que guardarás para sempre/ essa cor infernal./ Não é verdade/ Um noite lenta passa,/ passa um só minuto/ e tudo muda./ Enche-se/ de transparência/ a taça da vida./ Um longo trabalho/ nos espera./ De um só golpe nascem as pombas./ Se engendra a luz sobre a terra./ Vida, os pobres/ Poetas/ Julgaram-te amarga,/ Não saíram da cama/ contigo/ com o vento do mundo./ Sofreram os amargores/ sem te procurar,/ barricaram-se/ num negro tugúrio/ e foram-se atolando/ no luto/ dum solitário poço./ Não é verdade, vida,/ és/ bela/ como a minha amada/ e tens entre os seios/ odor a menta./ Vida/ és uma maquina plena,/ felicidade, rumor/ de tempestade, ternura/ de delicado azeite./ Vida,/ és como uma vinha:/ amealhas a luz e reparte-la/ em cacho transformada./ Aquele que te renega/ que espere/ um minuto, uma noite/ um ano curto ou longo,/ que saia/ da sua mentirosa solidão,/ que indague e lute, junte/ as suas mãos a outras mãos,/ que não adopte nem proclame/ a má sorte,/ que a estilhace dando-lhe/ forma de muro,/ como à pedra fazem os canteiros,/ que a corte/ e dela faça/ umas calças./ A vida espera/ todos aqueles/ que amam/ o selvagem/ odor a mar e a menta/ que ela tem entre os seios.

1 comentário:

Anónimo disse...

Muito bonito e verdadeiro