quinta-feira, outubro 31, 2013

Amador sem coisa amada

Resolvi andar na rua/ com os olhos postos no chão./ Quem me quiser que me chame/ ou que me toque com a mão [...] António Gedeão

terça-feira, outubro 29, 2013

«Sometimes I think I've seen too much/ Sometimes nothing at all» RS

domingo, outubro 27, 2013

«E também me lembrei do que escreveu o filósofo agnóstico J. Habermas sobre o último encontro com o filósofo ateu H. Marcuse, que tinha citado: ele "estava na sala de cuidados intensivos de um hospital de Frankfurt, rodeado de aparelhos nos dois lados da cama. Nesta ocasião, que foi o nosso último encontro filosófico, Marcuse, em conexão com a nossa discussão de dois anos atrás, disse-me: "Sabes? Agora sei em que é que se fundamentam os nossos juízos de valor mais elementares: na compaixão, no nosso sentimento pela dor dos outros"» Anselmo Borges

Olhar para ontem, António Lobo Antunes

Não vale a pena falarmos, para quê, quanto mais falamos mais a gente se magoa um ao outro, fomo-nos distanciando tanto com o tempo, sinceramente nunca imaginei que isto acontecesse, não era assim ao princípio mas nunca é assim ao princípio, as coisas começam a correr mal devagarinho, não damos conta e nisto, de repente, tão longe um do outro, linguagens diferentes, falta de paciência, silêncios que magoam, frases a que não se responde, uma irritação surda, uma impaciência que se tenta disfarçar sem a conseguir disfarçar totalmente, um desconforto mudo mas presente, cada vez mais presente, uma espécie de enjoo, uma espécie de desgosto, o que faço aqui, o que fazes aqui, qual o motivo de continuarmos juntos se não faz sentido, qual o motivo de teimarmos ainda? Se ao menos houvesse alguma coisa que pudéssemos tentar, tu e eu, sentarmo-nos os dois no mesmo sofá, nem que não conversássemos, sentarmo-nos apenas, um ao lado do outro, tu a veres televisão, por exemplo, há aquela novela brasileira que gostas, e eu a olhar para ontem, sempre foi a minha especialidade, olhar para ontem, e permanecermos assim uma hora ou duas, em paz, pode ser que sejamos capazes de encontrar alguma paz, o que é que achas, não estou muito seguro disso mas sei lá, existem surpresas, voltarmos a habituar-nos um ao outro, devagarinho, e tirar prazer disso, pelo menos algum, ainda que pequeno, prazer disso ou, pelo menos, uma ausência de desprazer, o que já não seria mau, pergunto-me se ainda gostamos um do outro e, sinceramente, não conheço a resposta, penso que não, penso que sim, penso que um bocadinho, lá ao fundo, sob o tédio, o ressentimento, o cansaço, porque tanto tédio, tanto ressentimento, tanto cansaço, se mudasses de penteado, se comprasses uns vestidos novos, se usasses saltos mais altos, se me surpreendesses, tornámo-nos tão quotidianos, meu Deus, tão monótonos, não dizes nenhuma coisa que me interesse, não digo nenhuma coisa que te interesse e não é possível não dizermos nunca seja o que for que não interesse o outro havendo pessoas que nos acham divertidos, cultos, se calhar fascinantes, o Carlos, por exemplo, acha-te fascinante, o cretino - A Amélia é fascinante aquela tua amiga das saias curtas considera-me o máximo que bem lhe percebo nos olhos, fica de cigarro apagado, feita estátua, a mirar-me e não seria idiota tu inclinares-te para o Carlos e eu para a tua amiga, bastava passarem uns meses para nos fartarmos deles, tanto fascínio e tanta estátua cansam, e daí, quem sabe, não, deixemo-nos de fantasias, tanto fascínio e tanta estátua cansam mesmo, olhemos as coisas de frente, sem infantilidades, cansam mesmo, a questão importante, quer dizer, a única questão realmente importante, é saber se nos cansámos um do outro, do Carlos e da tua amiga podemos, ou não, ocupar-nos mais tarde, no que me diz respeito é não, no que te diz respeito suponho que também, e se a gente voltasse, ou antes, se a gente tentasse voltar a namorar, não sei se sou capaz, não sabes se és capaz, calculo eu, mas o que se perde em tentar, um namoro tímido, lento, envergonhado ao princípio mas que vai crescendo, crescendo, ainda não somos velhos, ainda não desistimos de ser felizes, pois não, o que te parece sermos felizes um com o outro, um beijo aqui, um beijo ali, uma palmadinha no rabo que, se calhar, excita, uma ida ao cinema, um fim de semana fora, num hotel qualquer perto do mar, se não for muito caro podemos, ouvir as ondas no escuro, da cama, enquanto nós, não faças essa cara, enquanto nós tal e coiso, há quantos meses nós não tal e coiso, nós não nada, tu de camisa de dormir transparente, eu, para variar, sem peúgas, se me permites uma confissão, perdoa ser atrevido, acho, como exprimir-me, acho que, não leves a mal, acho que continuo a, palavra de honra, amar-te, isto é a sério, não é da boca para fora, não é assim no ar, acho que continuo a amar-te e, desculpa a presunção, atrevo-me a pensar que continuas a amar-me, se estiver enganado não hesites em dizer que eu aguento, no ponto em que as coisas estão aguento tudo, mesmo esse telefone a tocar agora que não convinha nada que tocasse e tu - Carlos sem ouvires o que eu digo, tu, de olhos fechados - Carlos tu a sorrires sem ser para mim - Quando? tu - Este fim de semana acho que posso, sim tu - Um hotel em Madrid adorava tu - O meu marido? tu - Há séculos que esse deixou de contar tu - A que horas? tu - Estou pronta às três tu - Buzina da rua que eu desço tu - Agora não posso falar muito tu - Às três horas tenho a mala à porta e, se às três horas tens a mala à porta, talvez me possas fazer o favor de deixar escrito aí, num papel, o número da tua amiga das saias curtas que, de certeza, há-de gostar de acordar comigo em Barcelona. Ler mais: http://visao.sapo.pt/antonio-lobo-antunes=s23489#ixzz2iuUmdDeT

DOZE NOTAS SOBRE LITERATURA EM TOM DE PRECEITO, Mário de Carvalho

1) Comece o escritor por ser um leitor curioso, variado e insaciável, capaz de ser «autor dos livros que lê», na expressão esclarecida de Óscar Lopes. 2) Há coisas que não se escrevem, nem sob tortura. Frases como um «rapaz alto e espadaúdo», «lábios vermelhos como cerejas», ou incipits como «tudo começou quando», são admissíveis em clave de ironia ou de apelo à cumplicidade do leitor. Se não, revelam o autor ingénuo, em demanda de leitor apropriado. 3) Aprenda-se com os mestres. Ainda com aqueles de quem não se goste, ou com quem não existam afinidades de imaginário, prosa ou família literária. Quer para os rejeitar (ou exorcizar) ou para os incorporar, impõe-se não serem esquecidos. A literatura não se inventa a cada instante. Reinventa-se. 4) As neves de antanho são despachadas a derreter. Em menos de uma geração estalam e desfazem-se as gloríolas literárias. É sensato ser circunspecto, quer em relação ao sucesso próprio, quer ao dos outros. Têm vocação de fugazes e frágeis. 5) Nunca se deve lisonjear o leitor. Apostar na moda é condenar-se àquilo que já passou. 6) Guardar-se de palavras fortes sobre a matéria, tais como «fulgor», «assombro» e «sublime» e adjectivos derivados. A literatura e a arte situam-se nas zonas do indizível a que as palavras não chegam. Por isso elas descaem, quando são forçadas. 7) A literatura não é sagrada, nem precisa de altares, santinhos, beatos e beatas. Mesmo o texto mais solene e dorido tem um fio lúdico que bule com o entranhado instinto de jogo dos humanos. 8 - Há que valorizar o ofício, a técnica, a velha techné dos antigos, o domínio cuidado e rigoroso sobre os materiais. Essa é a arte em que falavam os Gregos, emparelhada com o engenho, ou inventiva. 9) As teorizações e doutrinas vêm após o texto e exercem-se sobre ele. Quando se tenta o contrário, nem sempre dá bom resultado. Está para se saber se uma hiperconsciência do texto será ou não inibidora. 10) A língua com que trabalhamos apresenta variadíssimas panóplias de recursos. Nenhum deles está vedado ao autor que pode, até, escolher as soluções mais rudimentares. Mas que o texto resulte sempre de uma opção livre e não de uma ignorância limitadora. 11) Considerar que no jardim do Senhor há muitas tendas, como diz a Bíblia algures, ou, se não diz, podia dizer. Com os outros, aprende-se sempre alguma coisa. Pode ser que a criação de espaço e as demarcações impliquem algum alarido. Mas ponderadas em termos históricos, para já não dizer sub specie aeternitatis, soam um bocado a chocalho. Pode, aliás, ser um bom exercício formativo, o de encontrar qualidade naquilo de que se não gosta. 12) Todas as firmações peremptórias sobre literatura estão erradas. E, como no célebre paradoxo do cretense, se calhar, esta também está errada. Bem como as anteriores. Mas não deixa de ser curioso verificar que o gosto da frase bombástica e assertiva denuncia desde logo o outsider ou o parvenu.

sábado, outubro 26, 2013

F. Scott Fitgerald on writing

November 9, 1938 Dear Frances: I’ve read the story carefully and, Frances, I’m afraid the price for doing professional work is a good deal higher than you are prepared to pay at present. You’ve got to sell your heart, your strongest reactions, not the little minor things that only touch you lightly, the little experiences that you might tell at dinner. This is especially true when you begin to write, when you have not yet developed the tricks of interesting people on paper, when you have none of the technique which it takes time to learn. When, in short, you have only your emotions to sell. This is the experience of all writers. It was necessary for Dickens to put into Oliver Twist the child’s passionate resentment at being abused and starved that had haunted his whole childhood. Ernest Hemingway’s first stories ‘In Our Time’ went right down to the bottom of all that he had ever felt and known. In ‘This Side of Paradise’ I wrote about a love affair that was still bleeding as fresh as the skin wound on a haemophile. The amateur, seeing how the professional having learned all that he’ll ever learn about writing can take a trivial thing such as the most superficial reactions of three uncharacterized girls and make it witty and charming — the amateur thinks he or she can do the same. But the amateur can only realize his ability to transfer his emotions to another person by some such desperate and radical expedient as tearing your first tragic love story out of your heart and putting it on pages for people to see. That, anyhow, is the price of admission. Whether you are prepared to pay it or, whether it coincides or conflicts with your attitude on what is ‘nice’ is something for you to decide. But literature, even light literature, will accept nothing less from the neophyte. It is one of those professions that wants the ‘works.’ You wouldn’t be interested in a soldier who was only a little brave. In the light of this, it doesn’t seem worth while to analyze why this story isn’t saleable but I am too fond of you to kid you along about it, as one tends to do at my age. If you ever decide to tell your stories, no one would be more interested than, Your old friend, F. Scott Fitzgerald P.S. I might say that the writing is smooth and agreeable and some of the pages very apt and charming. You have talent — which is the equivalent of a soldier having the right physical qualifications for entering West Point. Two years prior, in another letter to his fifteen-year-old daughter Scottie upon her enrollment in high school, Fitzgerald offered more wisdom on the promise and perils of writing: Grove Park Inn Asheville, N.C. October 20, 1936 Dearest Scottina: […] Don’t be a bit discouraged about your story not being tops. At the same time, I am not going to encourage you about it, because, after all, if you want to get into the big time, you have to have your own fences to jump and learn from experience. Nobody ever became a writer just by wanting to be one. If you have anything to say, anything you feel nobody has ever said before, you have got to feel it so desperately that you will find some way to say it that nobody has ever found before, so that the thing you have to say and the way of saying it blend as one matter—as indissolubly as if they were conceived together. Let me preach again for one moment: I mean that what you have felt and thought will by itself invent a new style so that when people talk about style they are always a little astonished at the newness of it, because they think that is only style that they are talking about, when what they are talking about is the attempt to express a new idea with such force that it will have the originality of the thought. It is an awfully lonesome business, and as you know, I never wanted you to go into it, but if you are going into it at all I want you to go into it knowing the sort of things that took me years to learn. […] Nothing any good isn’t hard, and you know you have never been brought up soft, or are you quitting on me suddenly? Darling, you know I love you, and I expect you to live up absolutely to what I laid out for you in the beginning. Scott
«Eu temo o dia em que a tecnologia exceda nossa humanidade. O mundo só terá uma geração de idiotas.» Albert Einstein

sexta-feira, outubro 25, 2013

«A ditadura perfeita terá as aparências da democracia, uma prisão sem muros na qual os prisioneiros não sonharão com a fuga. Um sistema de escravatura em que, graças ao consumo e ao divertimento, os escravos terão amor à sua escravidão.» Aldous Huxley

quinta-feira, outubro 24, 2013

Um dos grande males da humanidade: não desintrincar ideias de paixões.
- Temos susceptibilidades diferentes. Cada um tem as suas - ouvi ao passar numa porta. A frase acompanhou-me durante o dia e fez-me pensar nas relações humanas de forma geral e particular.

quarta-feira, outubro 23, 2013

Tecnoloucura

quarta-feira, outubro 09, 2013

«Às vezes, quando penso nos homens célebres, sinto por eles toda a tristeza da celebridade. A celebridade é um plebeísmo. Por isso deve ferir uma alma delicada. É um plebeísmo porque estar em evidência, ser olhado por todos inflige a uma criatura delicada uma sensação de parentesco exterior com as criaturas que armam escândalo nas ruas, que gesticulam e falam alto nas praças. O homem que se torna célebre fica sem vida íntima: tornam-se de vidro as paredes de sua vida doméstica; é sempre como se fosse excessivo o seu traje; e aquelas suas mínimas ações — ridiculamente humanas às vezes — que ele quereria invisíveis, côa-as a lente da celebridade para espetaculosas pequenezes, com cuja evidência a sua alma se estraga ou se enfastia. É preciso ser muito grosseiro para se poder ser célebre à vontade.» Fernando Pessoa

terça-feira, outubro 08, 2013

A Few Words on the Soul We have a soul at times. No one’s got it non-stop, for keeps. Day after day, year after year may pass without it. Sometimes/ it will settle for awhile/ only in childhood’s fears and raptures./ Sometimes only in astonishment/ that we are old./ It rarely lends a hand/ in uphill tasks,/ like moving furniture,/ or lifting luggage,/ or going miles in shoes that pinch./ It usually steps out/ whenever meat needs chopping/ or forms have to be filled./ For every thousand conversations/ it participates in one,/ if even that,/ since it prefers silence./ Just when our body goes from ache to pain,/ it slips off-duty./ It’s picky:/ it doesn’t like seeing us in crowds,/ our hustling for a dubious advantage/ and creaky machinations make it sick./ Joy and sorrow/ aren’t two different feelings for it./ It attends us/ only when the two are joined./ We can count on it/ when we’re sure of nothing/ and curious about everything./ Among the material objects/ it favors clocks with pendulums/ and mirrors, which keep on working/ even when no one is looking./ It won’t say where it comes from/ or when it’s taking off again,/ though it’s clearly expecting such questions./ We need it/ but apparently/ it needs us for some reason too.

sábado, outubro 05, 2013

- Ele é ultratímido. - Hã? Ele é a pessoa que eu conheço que mais fala. - Ele nunca fala dele.

quarta-feira, outubro 02, 2013

«It is in the thirties that we want friends. In the forties we know they won't save us any more than love did.» F. Scott Fitzgerald

terça-feira, outubro 01, 2013

«[...] In a real dark night of the soul it is always three o'clock in the morning [...]» F. Scott Fitzgerald, The Crack-up