domingo, setembro 15, 2013

«No quinquagésimo capítulo de sua História, Gibbon quer reduzir o esplendor do Inferno e escreve que os dois vulgaríssimos ingredientes que são o fogo e a escuridão bastam para criar uma sensação de dor, a qual pode ser agravada infinitamente pela ideia de uma duração eterna. Esta advertência, difícil de satisfazer, prova talvez que a preparação do Inferno é fácil, porém, não suaviza o admirável espanto de sua invenção. O atributo de eternidade é o horroroso. O de continuidade — os factos de que a perseguição divina carece de intervalos e de que no Inferno não existe o sono — é ainda pior, porém é de impossível imaginação. A eternidade da pena é o que se contesta.» Jorge Luis Borges Para Borges, a eternidade é sempre um castigo - e o Paraíso, por ser eterno, transforma-se no Inferno. Isso é verdade - mas numa concepção humana. A acreditar na vida além da morte, não tendemos a pensar em quantas gajas lá iremos ter à nossa espera, quem estará lá, que sensações teremos (de calor, por exemplo) ou se haverá música ou jardins no Paraíso - estamos presos a grilhões do mundo e da mente humana ao fazê-lo. Da mesma forma que um ser humano não consegue anatomicamente voar ou dar um salto de trinta metros, também mentalmente devemos aceitar limitações. Borges não se apercebe disso - é o problema de quem se julga sábio.

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