quarta-feira, setembro 04, 2013

Compartimentar

Claro que está que ninguém consegue estar inteiramente no presente, sem sombras e fantasmas do passado e sem inquietações quanto ao futuro. Claro que está que a maioria conhece, instintivamente que seja, os velhos adágios: grandes desgraças curam desgraças (há sempre alguém pior do que tu); não há bem ou mal que sempre dure; um homem pode ser destruído, mas não pode ser derrotado (EH); somos damos valor àquilo que perdemos desperdiçando o milagre que é ter saúde, ter os entes amados vivos, ter um tecto e comida; aquilo que não podes mudar, aceita - aquilo que podes mudar - luta, basta adquirires a sabedoria ao longo da vida para distinguir as duas. Ajudam, é certo. O envelhecer também ajuda - sempre vi o envelhecimento um abrandamento, uma moderação das paixões da alma. Envelhecer é não nos deixarmos atingir tanto pela vida. A alma calejada não se deixa voar estonteante na felicidade nem afundar no mais fundo abismo na melancolia. Muitos anciãos dizem que é isso a paz. Tudo esta introdução serve para apresentar uma ideia. Eis uma definição: a felicidade depende da capacidade de lidar com o verbo «compartimentar». Todos temos problemas (um truísmo) - mas a capacidade de usufruir da vida depende de como conseguimos absorver cada momento feliz, cada pequeno pormenor, o modo como conseguimos olhar um campo de girassóis no meio do trânsito infernal. Lembro-me sempre de duas histórias e de uma vivência. (E em todas emerge o padrão: compartimentar é o essencial. A primeira história é a do britânico fleumático que, ao sair da sua empresa na sexta-feira à noite, viu um envelope esquecido. Abriu a carta. A sua empresa falira. Fechou o envelope e disse: «Muito vou ter de me preocupar na segunda-feira.» A segunda é a do budista que em meio do apocalipse, vendavais, destruição, limpava com uma vassoura sorrindo um cantinho da estrada. (E cruzo isto com Tolstoi: se queres ser universal, pinta a tua aldeia.) A terceira (real) é da pessoa que eu conheci que mais bem sabia compartimentar. Nas férias que passámos, ele recebeu notícias terríveis da sua saúde de um familiar internado, enquanto lhe ligava a toda a hora da sua empresa de «eventos» a pedir isto e aquilo. Lembro-me de estar com ele nas montanhas a ver uma paisagem e de ele estar absolutamente concentrado (e contudo leve), extático, a contemplar um sol róseo, o céu na nossa frente, o azul límpido, e de me dizer com um sorriso: «Estou a ter uma epifania. Passei de ateu a agnóstico.»

3 comentários:

CCF disse...

Também sempre vi assim o envelhecimento, essa capacidade que chega de nos desprendermos mais das coisas fúteis e inúteis. Nesse aspecto não me assusta e às vezes até a desejo. Contudo, talvez seja esse apenas um lado das coisas, do outro está também a doença, a dor, a incapacidade...e isso é assustador (sobretudo a possível dependência de terceiros).
~CC~

Espiga disse...

E dar atenção ao subtil, aprender a hierarquizar situações e a conferir-lhes a real importância, no momento certo. É, no fundo, colocar em prática a tal teoria do saber viver no presente, o que não quer dizer que não se pense no passado e que não se façam planos para o futuro. É difícil, mas consegue-se. Para algumas pessoas, é quase natural (inveja :-)).

Sr Joao disse...

Thank you.