terça-feira, setembro 24, 2013

Bater onde dói, a antítese do jornalismo hodierno

Por paradoxal que possa parecer, apesar da ideia largamente disseminada de que não são os políticos quem nos governa, mas os grandes grupos económicos, o escrutínio feito pelos media à elite económica permanece residual ou nulo. Dezenas de comentadores, dezenas de «especialistas» enxameiam a televisão e os jornais, sempre atreitos a discutir os tacticismos partidários e a futebolização da política, sem discutir demoradamente as questões de fundo da política nacional e internacional. Repare-se como se difunde, sem um exame profundo e crítico, a diabolização das PPP, anátema que surgiu repentinamente após anos e anos a fio de PPP e que rapidamente se instalou como uma verdade feita para o cidadão comum, sem que contudo esse mesmo cidadão comum saiba quem está por trás dos contratos. Quem são estes grupos, os seus accionistas, quem beneficia e continuará a beneficar por muitos anos com tais contratos? Quem «rouba» afinal o Estado (que a maioria dos comentadores nos quer fazer esquecer de que somos todos nós)? Ainda Jorge Sampaio era presidente da República e uma sondagem aos jornalistas revelou que 90% se confessavam compelidos a produzir jornalismo (uma contradição nos termos) de acordo com a linha editorial do órgão em que estavam. Na altura, o presidente mostrou uma certa comoção e apreensão, mas desde então nada mudou. Pelo menos, para melhor, nada mudou. A concentração da propriedade da dita comunicação social cresce a par com os mecanismos de coacção pela publicidade, cada vez mais tremendos numa época de crise, de falência de publicações periódicas e de precariedade do jornalismo. Veja-se o tom bajulatório e deliciado com que a directora do Público descreve a filha do arquipoderoso Belmiro ou o editorial que José António Saraiva escreveu a endeusar Balsemão quando era director do Expresso, veja-se como os grandes senhores do dinheiro têm sempre entrevistadores neutrinhos, sorridentes e de pancadinhas nas costas, veja-se como o Governo de Angola é abordado com um extremo cuidado, para se achar tudo isto uma grotesca farsa. Faça-se um estudo de quantos media ousam investigar ou criticar os seus patrões ou as empresas que lhes pagam a publicidade. Qual é o pensamento destes grandes senhores do dinheiro? Os sinais que temos do seu «pensamento» são terrivelmente antidemocráticos, cavernícolas e racistas sociais de uma forma desdenhosa e sarcasticamente perversa. Belmiro de Azevedo, o homem que não está habituado a ouvir uma crítica e que disse que Marcelo Rebelo de Sousa tinha de ser «erradicado» e «aniquilado» da vida política quando ousou contrariá-lo, o companheiro de squash de Vítor Gaspar, garante que «se não for a mão-de-obra barata, não há emprego para ninguém», assegurando que «as manifestações são um divertimento para desempregados». Soares dos Santos, o homem que trata qualquer jornalista com enfado e condescendência, salpicando constantemente o seu interlocutor com «Ó filho, não é nada disso», entende que a economia enferma de problemas nascidos nesse terrível ano de 1974, sublinhando que não lhe interessa a Constituição e que «andamos sempre a mamar na teta do Estado. Porquê, porquê?». Fernando Ulrich soltou o célebre «ai, aguentam, aguentam» e reiteraria a sua certeza mais tarde desmontando a ideia de que se tratara de uma gafe, quando jurou que, sim, os Portugueses aguentavam mais austeridade, se até os sem-abrigo aguentavam, homessa. Este mesmo homem marcou presença na Quadratura do Círculo, naquele que foi um dos discursos mais confrangedores no espaço mediático, quer na forma nervosa que demonstrou perante quem o confrontava no plano das ideias, quer na total ausência de conteúdo, singularmente vácuo e contraditório. Quem quiser que veja o tristíssimo exercício em vídeo para aferir como estas conspícuas criaturas tartamudeiam e se afundam perante um homem culto e com relativa independência de espírito e coragem como Pacheco Pereira. Ricardo Salgado, o homem que se «esqueceu» de declarar 8,5 milhões ao Fisco, o homem que não se sabe com que mandato entra no Conselho de Ministros em que se irá aprovar o Orçamento do Estado, é severo a analisar a moralidade dos Portugueses que «preferem o subsídio de desemprego a trabalhar». Desempregados são, no fundo, preguiçosos. Alguém explique ao Dr. Ricardo Salgado que o subsídio de desemprego diminuiu ao longo dos últimos anos, sucessivamente, em montante, em condições de acesso, em extensão no tempo, e que o desemprego cresceu mais do que nunca. E de caminho pergunte-se a estes senhores como é que a sua solução da desregulamentação do mercado de trabalho que sempre preconizaram (por eles docemente referida como «flexibilização»), aplicada pelos sucessivos Governos não contribuiu para a diminuição do desemprego. Muito antes pelo contrário. Alguém lhe explique também que noutros países, que muitas vezes são referenciados parcialmente nas suas políticas, a desregulamentação foi contrabalançada pelo reforço das prestações sociais e que aqui sucedeu o contrário, aumentando-se o desemprego e agravando-se as condições de quem cai nas malhas do flagelo, cada vez mais contíguo à miséria e à exclusão social. E alguém o acompanhe na vida de um desempregado de longa duração (que os dados da OCDE de 2010 mostravam ser Portugal o país com mais percentagem de desempregados de longa duração) que toda a vida trabalhou e que o mercado de trabalho penaliza pela idade. Mas Ricardo Salgado está preocupado com questões maiores e decidiu brindar-nos com a conclusão filosófica das suas profundas elucubrações: «O sistema capitalista é amoral, tem de produzir resultados. As pessoas é que podem ser morais ou imorais, mas o sistema tem de ser amoral.» O excelso empresário Miguel Pais do Amaral «foi acusado pelo Ministério Público de ter apresentado, enquanto presidente da Media Capital, várias facturas, entre 2001 e 2004, num valor total superior a 4,5 milhões de euros, que circularam por empresas criadas no estrangeiro com o objectivo de fugir aos impostos». Esse mesmo homem que comanda inúmeras editoras em Portugal afirmou alegremente desconhecer Oscar Wilde e não «saber nada de poesia, filosofia e literatura» porque «não lhe interessam para nada». António Lobo Xavier, o homem da Sonae, da Mota-Engil, do fundo Vallis, da Riopele, da Fundação Serralves, da SIC Notícias,da Morais Leitão e Galvão Teles, da Soares da Silva & Associados, da ACEGE, da Associação Comercial do Porto, da Têxtil Manuel Gonçalves, da Jerónimo Martins e do CDS, é um comentador que poderá ser independente? É um homem que poderá não levantar suspeições quanto à parte interessada ao superintender a comissão de revisão do IRC? Este comentador fixo de um dos programas televisivos mais vistos de debate público defende que a redução das desigualdades em Portugal, o segundo país mais desigual da União Europeia, não deve ser uma prioridade e que tal não é «sustentável». É este o ideário que dirige superiormente as empresas destes sábios espíritos? São estes homens que reclamam contra «a mama», que falam em baixar salários e que troçam das prestações sociais, que a Autoridade Bancária Europeia revelou que estão entre os que mais ganharam em 2011 na União Europeia.« Num universo de 27 países, Portugal ficou em décimo, fruto dos rendimentos de 11 banqueiros portugueses, cujos nomes não foram revelados.» São estes «liberais» quem mais recebe do Estado, são estes os únicos donos de empresas que têm os seus prejuízos nacionalizados, isto é, encaminhados para todos os Portugueses, quando a sua gestão corre mal, ao mesmo tempo que defendem a privatização das empresas lucrativas do Estado. Termino com um episódio que vivi enquanto jornalista.No dia 28 de Fevereiro de 2007, estive numa palestra sobre a responsabilidade social das organizações, concretamente do Millenium BCP. A extensão das palmas parecia-me própria dos discursos de Estaline. Na minha mesa, um conjunto de funcionários do BCP reforçou-me a ideia de que estava numa liturgia. «Estão a ver as vossas mãos? Têm todas um eme [M] nas linhas... É um eme de Millenium.» Assustei-me com o tom. Quando perguntei pela satisfação laboral e a responsabilidade social do BPC, um fanático debitou: «No Millenium BCP, há 11 mil trabalhadores e não há um único insatisfeito.» Notando a incredulidade no meu rosto, repetiu maquinalmente: «No Millenium BCP, há 11 mil trabalhadores e não há um único insatisfeito.» No final, perguntei publicamente a Paulo Teixeira Pinto se era verdade que as doenças de foro psiquiátrico tinham aumentado no sector bancário, designadamente no BCP, e se havia estudos sobre isso. Os rostos da sala ficaram tensos, sussurando entre dentes. Enfurecido, respondeu-me que não havia estudos, que o mal em Portugal era preferir-se morrer por não se ter trabalho a morrer-se a trabalhar, desfiou a catilinária contra o rendimento mínimo, contou a piada de que quando perguntaram a um empresário quantos pessoas trabalhavam na sua empresa este respondera cerca de metade. No dia seguinte, na galeria Zé dos Bois, num lançamento de um livro, um indivíduo que não conhecia veio ter comigo e disse que eu não poderia ter feito o que fiz, que Paulo Teixeira Pinto era um homem perigoso que se vestia como SS na faculdade e que se eu estava interessado em ter uma carreira não poderia voltar a fazer uma pergunta assim.

4 comentários:

Anónimo disse...

Chega-se então à conclusão de que são os grandes empresários portugueses aqueles que roubam o estado e de que serão eles, eventualmente, que estarão a pôr a nossa economia de rastos.

Anónimo disse...

O que se deveria investigar era a promiscuidade entre os políticos e os empresários. São os políticos corruptos que dão dinheiro aos privados na esperança de uma dia o favor lhes ser retribuído. O estado nunca deveria ter tanto poder, o poder corrompe. E quando é com o dinheiro dos outros, ainda mais fácil é esbanjar. São estes abusos da democracia que importa expor.

Anónimo disse...

então o estado dá e eles são obrigados a aceitar??...

belo exemplo de um discurso mal informado de direita.

Anónimo disse...

Ninguém disse que eles eram santinhos. Mas os verdadeiros culpados são os políticos. Já é mais do que tempo de impedir o Estado de mexer no nosso dinheiro a seu bel-prazer. Provou-se agora que em vez de contribuirem para o bem-estar da população em geral, estão só a endividá-la e a criar amiguinhos milionários pelo caminho.

Como sempre a esquerda não quer arcar com nenhuma responsabilidade, são sempre umas vítimas e os outros é que são uns mauzões. Um discurso que esconde a verdade e engana os ignorantes.