segunda-feira, setembro 30, 2013

- Sempre dei mais valor ao indivíduo do que ao colectivo, ao afecto do que à suposta razão. Depois do 25 de Abril, era comunista e sempre me causou asco os que deixaram de falar aos amigos. Tinha amigos de direita e ia atravessar a rua para os cumprimentar, eles andavam envergonhados e ficavam admirados. Sempre pus a amizade à frente do resto. Não confundo ideias com paixões.

domingo, setembro 29, 2013

«Begin with an individual, and before you know it you find that you have created a type; begin with a type, and you find that you have created nothing. That is because we are all queer fish, queerer behind our faces and voices than we want any one to know or than we know ourselves. When I hear a man proclaiming himself an "average, honest, open fellow," I feel pretty sure that he has some definite and perhaps terrible abnormality which he has agreed to conceal - and his protestation of being average and honest and open is his way of reminding himself of his misprision.» FSF
Falam, vociferam, juram, criticam - mas, na altura da verdade, eles como os outros. Sempre poucos, sempre muito poucos. Muitas vezes, só sobras tu.
- Eu nunca ajudo ninguém, acho que ajudar é interferir na ordem natural. Quando era miúdo, fiquei com um colega na escola que estava a chorar, a tentar apoiá-lo, demorei horas, na altura não havia telemóvel, os meus pais andaram à minha procura. A minha mãe teve uma crise de nervos. Aprendi a lição. E mais tarde vim a deparar com situações assim. Não vale a pena tentar mexer no funcionamento regular das coisas. Arranjei emprego a um amigo que está mal e depois ele prejudicou outros e foi despedido e ficou pior do que estava. Se visses - se fosse possível veres - todas as implicações do efeito borboleta, retrairias muitas das tuas tentativas de ajudar o outro.

sábado, setembro 28, 2013

«Cheguei à firme convicção de que a vaidade é a base de tudo, e de que finalmente o que chamamos de consciência é apenas a vaidade interior.» Gustave Flaubert

sexta-feira, setembro 27, 2013

Uma história real. Num bairro social, o miserável denuncia o pobre por este alegadamente gastar o dinheiro do rendimento mínimo em álcool e ter outros biscates. Já sabíamos que, mormente em alturas de crise, a raiva social é sempre encaminhada para o vizinho socioeconómico que vive portas-meias. De todas as marcas deixadas pelo actual Governo, destaco a destruição dos laços sociais - os novos contra velhos; os desempregados contra precários; os precários contra efectivos; os públicos (que se quer pôr em média a trabalhar o máximo legal do privado; média/máximo e não média/média) contra privados; os pobres contra miseráveis.

quinta-feira, setembro 26, 2013

Dos sete aos dezasseis, Bukowski, todos os dias, levou uma tareia do pai. «Imaginas quantas tareias levei? Fazes ideia do que isso é?» O pai obrigava-o a uniformizar o corte da grama. No início, Bukowski não acertava - e o pai batia-lhe. Quando conseguiu uniformizar a grama, o pai deitava-se na grama e via sempre, dessa perspectiva horizontal, um espiga mais alta - e batia-lhe. A mãe era passiva e, por vezes, dizia quando o pai lhe batia: «A ver se esse preguiçoso aprende a trabalhar!» Bukowski diz que se industriou a ser tremendamente frio e a encarar o mundo com frieza e indiferença e alheamento - e que isso nunca o largou. Por outro lado, diz que, graças ao pai, aprendeu a escrever. Ao sentir e guardar o sentimento de «pain without reason», libertou-se de todo o adorno literário. Quando estamos na merda, flores no discurso, na escrita parecem postiças. E o amarelo é insuportável.
sonoite: s.f. (1858); o crepúsculo da noite; o período logo depois do anoitecer; lusco-fusco. Houaiss

quarta-feira, setembro 25, 2013

Pensas pela tua cabeça a minha - e, com isso, a catadupa de mal-entendidos.

terça-feira, setembro 24, 2013

Bater onde dói, a antítese do jornalismo hodierno

Por paradoxal que possa parecer, apesar da ideia largamente disseminada de que não são os políticos quem nos governa, mas os grandes grupos económicos, o escrutínio feito pelos media à elite económica permanece residual ou nulo. Dezenas de comentadores, dezenas de «especialistas» enxameiam a televisão e os jornais, sempre atreitos a discutir os tacticismos partidários e a futebolização da política, sem discutir demoradamente as questões de fundo da política nacional e internacional. Repare-se como se difunde, sem um exame profundo e crítico, a diabolização das PPP, anátema que surgiu repentinamente após anos e anos a fio de PPP e que rapidamente se instalou como uma verdade feita para o cidadão comum, sem que contudo esse mesmo cidadão comum saiba quem está por trás dos contratos. Quem são estes grupos, os seus accionistas, quem beneficia e continuará a beneficar por muitos anos com tais contratos? Quem «rouba» afinal o Estado (que a maioria dos comentadores nos quer fazer esquecer de que somos todos nós)? Ainda Jorge Sampaio era presidente da República e uma sondagem aos jornalistas revelou que 90% se confessavam compelidos a produzir jornalismo (uma contradição nos termos) de acordo com a linha editorial do órgão em que estavam. Na altura, o presidente mostrou uma certa comoção e apreensão, mas desde então nada mudou. Pelo menos, para melhor, nada mudou. A concentração da propriedade da dita comunicação social cresce a par com os mecanismos de coacção pela publicidade, cada vez mais tremendos numa época de crise, de falência de publicações periódicas e de precariedade do jornalismo. Veja-se o tom bajulatório e deliciado com que a directora do Público descreve a filha do arquipoderoso Belmiro ou o editorial que José António Saraiva escreveu a endeusar Balsemão quando era director do Expresso, veja-se como os grandes senhores do dinheiro têm sempre entrevistadores neutrinhos, sorridentes e de pancadinhas nas costas, veja-se como o Governo de Angola é abordado com um extremo cuidado, para se achar tudo isto uma grotesca farsa. Faça-se um estudo de quantos media ousam investigar ou criticar os seus patrões ou as empresas que lhes pagam a publicidade. Qual é o pensamento destes grandes senhores do dinheiro? Os sinais que temos do seu «pensamento» são terrivelmente antidemocráticos, cavernícolas e racistas sociais de uma forma desdenhosa e sarcasticamente perversa. Belmiro de Azevedo, o homem que não está habituado a ouvir uma crítica e que disse que Marcelo Rebelo de Sousa tinha de ser «erradicado» e «aniquilado» da vida política quando ousou contrariá-lo, o companheiro de squash de Vítor Gaspar, garante que «se não for a mão-de-obra barata, não há emprego para ninguém», assegurando que «as manifestações são um divertimento para desempregados». Soares dos Santos, o homem que trata qualquer jornalista com enfado e condescendência, salpicando constantemente o seu interlocutor com «Ó filho, não é nada disso», entende que a economia enferma de problemas nascidos nesse terrível ano de 1974, sublinhando que não lhe interessa a Constituição e que «andamos sempre a mamar na teta do Estado. Porquê, porquê?». Fernando Ulrich soltou o célebre «ai, aguentam, aguentam» e reiteraria a sua certeza mais tarde desmontando a ideia de que se tratara de uma gafe, quando jurou que, sim, os Portugueses aguentavam mais austeridade, se até os sem-abrigo aguentavam, homessa. Este mesmo homem marcou presença na Quadratura do Círculo, naquele que foi um dos discursos mais confrangedores no espaço mediático, quer na forma nervosa que demonstrou perante quem o confrontava no plano das ideias, quer na total ausência de conteúdo, singularmente vácuo e contraditório. Quem quiser que veja o tristíssimo exercício em vídeo para aferir como estas conspícuas criaturas tartamudeiam e se afundam perante um homem culto e com relativa independência de espírito e coragem como Pacheco Pereira. Ricardo Salgado, o homem que se «esqueceu» de declarar 8,5 milhões ao Fisco, o homem que não se sabe com que mandato entra no Conselho de Ministros em que se irá aprovar o Orçamento do Estado, é severo a analisar a moralidade dos Portugueses que «preferem o subsídio de desemprego a trabalhar». Desempregados são, no fundo, preguiçosos. Alguém explique ao Dr. Ricardo Salgado que o subsídio de desemprego diminuiu ao longo dos últimos anos, sucessivamente, em montante, em condições de acesso, em extensão no tempo, e que o desemprego cresceu mais do que nunca. E de caminho pergunte-se a estes senhores como é que a sua solução da desregulamentação do mercado de trabalho que sempre preconizaram (por eles docemente referida como «flexibilização»), aplicada pelos sucessivos Governos não contribuiu para a diminuição do desemprego. Muito antes pelo contrário. Alguém lhe explique também que noutros países, que muitas vezes são referenciados parcialmente nas suas políticas, a desregulamentação foi contrabalançada pelo reforço das prestações sociais e que aqui sucedeu o contrário, aumentando-se o desemprego e agravando-se as condições de quem cai nas malhas do flagelo, cada vez mais contíguo à miséria e à exclusão social. E alguém o acompanhe na vida de um desempregado de longa duração (que os dados da OCDE de 2010 mostravam ser Portugal o país com mais percentagem de desempregados de longa duração) que toda a vida trabalhou e que o mercado de trabalho penaliza pela idade. Mas Ricardo Salgado está preocupado com questões maiores e decidiu brindar-nos com a conclusão filosófica das suas profundas elucubrações: «O sistema capitalista é amoral, tem de produzir resultados. As pessoas é que podem ser morais ou imorais, mas o sistema tem de ser amoral.» O excelso empresário Miguel Pais do Amaral «foi acusado pelo Ministério Público de ter apresentado, enquanto presidente da Media Capital, várias facturas, entre 2001 e 2004, num valor total superior a 4,5 milhões de euros, que circularam por empresas criadas no estrangeiro com o objectivo de fugir aos impostos». Esse mesmo homem que comanda inúmeras editoras em Portugal afirmou alegremente desconhecer Oscar Wilde e não «saber nada de poesia, filosofia e literatura» porque «não lhe interessam para nada». António Lobo Xavier, o homem da Sonae, da Mota-Engil, do fundo Vallis, da Riopele, da Fundação Serralves, da SIC Notícias,da Morais Leitão e Galvão Teles, da Soares da Silva & Associados, da ACEGE, da Associação Comercial do Porto, da Têxtil Manuel Gonçalves, da Jerónimo Martins e do CDS, é um comentador que poderá ser independente? É um homem que poderá não levantar suspeições quanto à parte interessada ao superintender a comissão de revisão do IRC? Este comentador fixo de um dos programas televisivos mais vistos de debate público defende que a redução das desigualdades em Portugal, o segundo país mais desigual da União Europeia, não deve ser uma prioridade e que tal não é «sustentável». É este o ideário que dirige superiormente as empresas destes sábios espíritos? São estes homens que reclamam contra «a mama», que falam em baixar salários e que troçam das prestações sociais, que a Autoridade Bancária Europeia revelou que estão entre os que mais ganharam em 2011 na União Europeia.« Num universo de 27 países, Portugal ficou em décimo, fruto dos rendimentos de 11 banqueiros portugueses, cujos nomes não foram revelados.» São estes «liberais» quem mais recebe do Estado, são estes os únicos donos de empresas que têm os seus prejuízos nacionalizados, isto é, encaminhados para todos os Portugueses, quando a sua gestão corre mal, ao mesmo tempo que defendem a privatização das empresas lucrativas do Estado. Termino com um episódio que vivi enquanto jornalista.No dia 28 de Fevereiro de 2007, estive numa palestra sobre a responsabilidade social das organizações, concretamente do Millenium BCP. A extensão das palmas parecia-me própria dos discursos de Estaline. Na minha mesa, um conjunto de funcionários do BCP reforçou-me a ideia de que estava numa liturgia. «Estão a ver as vossas mãos? Têm todas um eme [M] nas linhas... É um eme de Millenium.» Assustei-me com o tom. Quando perguntei pela satisfação laboral e a responsabilidade social do BPC, um fanático debitou: «No Millenium BCP, há 11 mil trabalhadores e não há um único insatisfeito.» Notando a incredulidade no meu rosto, repetiu maquinalmente: «No Millenium BCP, há 11 mil trabalhadores e não há um único insatisfeito.» No final, perguntei publicamente a Paulo Teixeira Pinto se era verdade que as doenças de foro psiquiátrico tinham aumentado no sector bancário, designadamente no BCP, e se havia estudos sobre isso. Os rostos da sala ficaram tensos, sussurando entre dentes. Enfurecido, respondeu-me que não havia estudos, que o mal em Portugal era preferir-se morrer por não se ter trabalho a morrer-se a trabalhar, desfiou a catilinária contra o rendimento mínimo, contou a piada de que quando perguntaram a um empresário quantos pessoas trabalhavam na sua empresa este respondera cerca de metade. No dia seguinte, na galeria Zé dos Bois, num lançamento de um livro, um indivíduo que não conhecia veio ter comigo e disse que eu não poderia ter feito o que fiz, que Paulo Teixeira Pinto era um homem perigoso que se vestia como SS na faculdade e que se eu estava interessado em ter uma carreira não poderia voltar a fazer uma pergunta assim.

segunda-feira, setembro 23, 2013

- Se eu fosse castrado, teria produzido tanto mais. As mulheres são um saco de problemas, um bicho tremendamente esquisito, mas, porra, sem elas a vida era um bocejo.

sábado, setembro 21, 2013

Não há nada mais perigoso do que um homem que já não tem nada a perder. Passos Coelho deveria lembrar-se disso.
http://issuu.com/filipassuncao/docs/portela_magazine_n__11
Ela 1: Bem, acabei de postar há um minuto o nosso jantar e já tenho quatro likes! Ela 2: Chi, não vais acreditar! O Flávio mudou o estado para numa relação com. Ela 1: Quem é? Quem é? Ela 2: Uma Paula Teixeira. Ela 1: Abre lá a foto! Ela 2: É o que ´tou a fazer! Ela 3: Aí... que grande quenga! Aposto que a conheceu na noite. Ela 4: Mostra lá mais. Ela 2: Porra, isto não dá para ampliar. Ela 1: Ela tem 853 fotografias. Ela 2: Mas estão quase todas bloqueadas... Ela 3: Pede amizade. Ela 2: ´Tás louca? Ela 4: Mostra lá as fotos do casamento a que foste. Ela 2: Tenho no PC. Descarreguei e apaguei. Ela 1: Hoje, há uma festa no Jamaica. Ela 2: Hoje não, meninas... Eu não vou. Ela 3: Tenho uma sensação na gengiva desde que acordei. Bué estranha... Ela 1: Mas não querem ir sair um bocadinho? Ela 3: Eu gostava. Vamos só a um barzinho. Ela 2: É um barzinho e depois é o costume... Não me enganam... Ela 4: Anda lá, é só um bocadinho. Eu hoje nem fiz a depilação. Ela 2: Vão... eu fico a ver umas séries aqui. Ela 4: Anda lá, ou vão as quatro bruxinhas ou não vai nenhuma. Ela 2: Não, a sério, ´tou buéda cansada... E nem arranjei o cabelo. Ela 1: Pintei hoje. Gostam? Ela 3 segura-lhe as mãos e assente. Ela 2: Não vou, a sério, fiz uma aula de fat burn e ´tou toda partida. Ela 4: Eu agora só faço glúteos e pernas. Vou todas as quartas a uma de lower body blast. Ela 1: Hoje, há búeda people que vai a um evento no Lust. Ela 3: Ainda não fui lá! Mostra lá os amigos em comum que vão. Ela 1: ´Tá lenta a Net. Ela 4: Bora lá a algum lado... Ela 3: Esta cena nas gengivas... Posso usar a tua pasta? Ela 2: A minha pasta ou a minha escova? Ela 3: Pois, a tua escova... Ela 1: Eh, pá, hoje há buéda gente que vai sair... Temos de dar um pezinho... Ela 2: Preciso de um massagista e de um cabeleireiro primeiro... Ela 4: Deixa-te de coisas, miguita. Estás com ar de quem dormiu bem e estás bonita. Ela 2: Hoje, preciso de um sono de beleza. Saímos amanhã. Ela 4 sussurra a Ela 3. Ela 3 faz sinal a Ela 1. Levantam-se todas. - BRUXINHAS POWER| BRUXINHAS POWER! BRUXINHAS POWER! - gritam em uníssono esticando o braço com o punho cerrado para frent. Ela 2: Vá vamos lá. Mas levo o meu bóbi para não ficar dependente. Ela 4: Vamos de táxi. Bruxinha bebe sempre qualquer coisinha! Ela 2: Tenho de pôr a gravar a série na Box antes de sair.

sexta-feira, setembro 20, 2013

Eu sabia. Salinger continuou a escrever.
Natália Rediviva «"O Botequim da Liberdade", belíssimo livro de Fernando Dacosta (Casa das Letras Editores), recupera o ambiente, a atmosfera, o espírito do lugar e a memória das pessoas que frequentaram o espaço, criado por Natália Correia, no Largo da Graça. É, também, a recriação de uma época em que tantas coisas, tantas questões e tantas dúvidas foram postas em causa, problematizadas por gente de alta qualidade, que apreciava a discussão pela discussão com elegância e cortesia, mas com veemência e convicção. O Botequim da Natália foi a decorrência directa das tertúlias que a grande poetisa e ensaísta animou, durante anos, na sua residência. Por ali passou, discutiu e conspirou o melhor da estirpe cultural, moral, artística e política daquele tempo. Henry Miller lá esteve, numa das noites mais felizes do convívio estabelecido em volta da poderosa criadora de "Cântico do País Emerso", autora, igualmente, do ensaio sobre o barroco, editado pela Moraes, do melhor e mais original que, sobre o tema, em Portugal, foi publicado. Há um tenebroso esquecimento da importância da Natália na cultura, mas também na ética da liberdade, por ela pleiteada com coragem e brilho incomuns. Fernando Dacosta recupera episódios que, para alguns, podem parecer "petite histoire", mas que constituem informações definitivas acerca do carácter de uma mulher indomável, para a qual o conceito de ser livre era uma expressão marcada de filosofia de vida e uma estética. Uma mulher de rara beleza, que deixava atrás de si um halo de mistério e deslumbramento. Com a minúcia de um entomologista, Dacosta realiza o filme dos sentimentos, das acções e dos comportamentos de muitos de nós, sem aleivosia e com a atenção curiosa, por vezes irónica, do repórter que anota o quotidiano como elemento de História. Um livro fascinante a vários títulos, a merecer a meditação empenhada dos leitores. E uma comovida memória daquela grande senhora portuguesa. Sei do que falo porque estive lá, no Botequim, e nessa época fabulosa. Neste tempo de injúria e opróbrio, é urgente regressarmos à lição de Natália Correia.» Baptista-Bastos

Paul Auster, Relatório do Interior (continuação ou reformulação de Diário de Inverno - o primeiro o relato a autobiografia do corpo, o segundo, da mente)

No início, tudo estava vivo. Os mais pequenos objetos eram dotados de corações pulsantes, e até as nuvens tinham nomes. As tesouras caminhavam, os telefones e os bules eram primos direitos, os olhos e os óculos eram irmãos. A face do relógio era uma face humana, cada ervilha na tua taça tinha uma personalidade diferente, e a grelha na frente do carro dos teus pais era uma boca sorridente com muitos dentes. As canetas eram aviões. As moedas eram discos voadores. Os ramos das árvores eram braços. As pedras pensavam e Deus estava em toda a parte.
O problema do perfeccionista é que nunca fica satisfeito ou, se preferirem, em paz. O máximo a que pode aspirar - acaso a perfeição ocorra a seus olhos - é o que Tolstoi escreveu nos seus diários: Passei a vida inteira a procurar atingir Shakespeare. Excedi Shakespeare. E agora?

quarta-feira, setembro 18, 2013

Rogério Casanova, revelando a sua admiração por Christopher Hitchens, explica que mais do que aquilo que pensa, aprecia como pensa. É esse o ponto. Mais do que concordar ou discordar - sabe reconhecer o como.

terça-feira, setembro 17, 2013

Voltando à tese de que as multidões quase nunca têm razão. Uma conferência. O orador Marinho e Pinto diz aquilo que deveria ser uma obviedade: que os presos também têm direitos. (Recordemo-nos de que foi há muito poucos anos que foi removido o balde que servia para os dejectos dos prisioneiros que passava de cela em cela com o excremento acumulado.) Pois bem, um jovem dos seus vintes levantou-se e disse: - Como se pode vir defender os criminosos. Há velhos que não têm direito a pensões e vem-se para aqui falar de afectar mais recursos públicos para os criminosos, dinheiro esse que deveria ir para as pensões? A sala ovacionou-o. Acreditem: olhei para trás e para os lados e para a frente e não vi uma pessoa que não batesse palmas. É um truque baratucho, emocional, falso a conversa do rapaz. Nem vale a pena alongar-me. Já avisava Marco Aurélio nos seus pensamentos e reflexões de um estóico de que o homem sensato não se deveria espantar espantar e indignar com a estupidez e a ignorância e a crueldade - todos os dias iríamos tropeçar nela.
Camus dizia que para o crime do indivíduo se equiparar ao crime da pena de morte perpetrado pelo Estado implicava que um ser humano reunisse um série de criaturas, as enclausurasse, cada um sabendo que ia morrer, mas não quando, vendo, um por um, todos os outros se encaminharem na direcção da morte, tão inevitável quanto a sua.

segunda-feira, setembro 16, 2013

Juntem-se quatro homens que não têm por hábito falar de gajas, que não apreciam «gajas» pelo mero invólucro, que até repudiam o verbo «comer», que não separam o afecto do sexo - juntem-se esses quatro homens e o mecanismo de pressão grupal, de tactear um terreno comum fá-los-á cair nessa boçalidade, perdendo a sua individualidade.

domingo, setembro 15, 2013

«No quinquagésimo capítulo de sua História, Gibbon quer reduzir o esplendor do Inferno e escreve que os dois vulgaríssimos ingredientes que são o fogo e a escuridão bastam para criar uma sensação de dor, a qual pode ser agravada infinitamente pela ideia de uma duração eterna. Esta advertência, difícil de satisfazer, prova talvez que a preparação do Inferno é fácil, porém, não suaviza o admirável espanto de sua invenção. O atributo de eternidade é o horroroso. O de continuidade — os factos de que a perseguição divina carece de intervalos e de que no Inferno não existe o sono — é ainda pior, porém é de impossível imaginação. A eternidade da pena é o que se contesta.» Jorge Luis Borges Para Borges, a eternidade é sempre um castigo - e o Paraíso, por ser eterno, transforma-se no Inferno. Isso é verdade - mas numa concepção humana. A acreditar na vida além da morte, não tendemos a pensar em quantas gajas lá iremos ter à nossa espera, quem estará lá, que sensações teremos (de calor, por exemplo) ou se haverá música ou jardins no Paraíso - estamos presos a grilhões do mundo e da mente humana ao fazê-lo. Da mesma forma que um ser humano não consegue anatomicamente voar ou dar um salto de trinta metros, também mentalmente devemos aceitar limitações. Borges não se apercebe disso - é o problema de quem se julga sábio.
Bukowski dizia que quando via filas de gente, seguia sempre a que tinha menos pessoas - as maiorias quase nunca têm razão. (E não há nada mais terrível do que a psicologia das multidões. Um argumento popular desce da superfície da assimilação acrítica e da falta de profundidade. Koestler: a última verdade é sempre em penúltima análise uma mentira. Na Índia, para satisfação dos e das manifestantes lá enforcaram quatro indivíduos. Cá em Portugal, circula a petição para apanhar o Patrick, um suspeito (note-se bem, suspeito) de espoletar incêndio(s). Espuma-se que ele seja apanhado e morto e que devolva a vida de quem morreu heroicamente. E que talvez em se o apanhando grande parte do desemprego, da miséria, da exploração cesse - milhares e milhares de pessoas estão nesta causa. Não é difícil de imaginar o que aconteceria ao Patrick se a turba de 50 mil bárbaros o apanhasse. E talvez os piores até sejam os que não escrevem que ele devia ser isto&aquilo antes de ser assassinado - cão que não ladra morde. E com isto lembrei-me do final de Ratos e Homens de Steinbeck, um dos mais comoventes - para mim. O problema da pena de morte é o problema da matemática - duas negativas não fazem uma positiva. Como se pode em nome do valor da vida dar o exemplo com o Estado matando?

sexta-feira, setembro 13, 2013

As ditaduras começam assim

http://www.dn.pt/politica/interior.aspx?content_id=3417213 http://www.publico.pt/politica/noticia/sondagem-diz-que-87-dos-portugueses-estao-desiludidos-com-a-democracia-1563811
Desafio: escrever um livro sem uma palavra repetida (tirando artigos e preposições, e quando muito advérbios). Já foram publicados livros que começam todos pela mesma letra, sem um único adjectivo, etc. (A designada escrita constrangida.) Prosa, claro. Em poesia, diferente. (Eugénio e a sua casa de palavras.)

1, 2, 3, 4, 5

Estava andar na rua quando um indivíduo a correr me obrigou a desviar. Encostou-se a uma parede, começou a fazer alongamentos enquanto dizia de forma bastante audível: - Um, dois, três, quatro, cinco. Um, dois, três, quatro, cinco. Um, dois, três, quatro, cinco. Mais tarde, alguém me interceptava num chat enquanto trabalhava. Vi que essa me dizia me dizia «Estás aí? 5, 4, 3, 2...» (Respondi antes do um.) No dia seguinte, quando atravessava a passadeira, agradeci ao carro que parava subitamente ao ver o peão. Foda-se! A matrícula era 12-34. Comecei a sentir-me dentro um livro de Auster (acaba de sair em Portugal a tradução do último). Ontem, ao ligar a televisão na SIC Notícias, vi instintivamente as horas: 12h34.

quarta-feira, setembro 11, 2013

Sempre achei absurda a diferenciação de trabalho intelectual e de trabalho físico. Todo o trabalho é físico. Trabalhar com a mente muitas horas implica esforço físico - implica um cansaço físico no final. Implica dedos, articulações, costas, têmporas, olhos.
A tudo, o mestre budista respondia com duas palavras. E a morte? Faz parte. E a dor física? Faz parte. E o envelhecimento e a decrepitude? Faz parte. E a tristeza e o desespero que tenho de sentir? Faz parte. E a crueldade? Faz parte. E a ignorância? Faz parte. E a dissolução de todos os laços? Faz parte.

terça-feira, setembro 10, 2013

O último poema, Manuel Bandeira

Assim eu quereria meu último poema/ Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais/ Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas/ Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume/ A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos/ A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.
http://www.releituras.com/cmeireles_romanceiro.asp

segunda-feira, setembro 09, 2013

O revisor santifica a Língua.

sexta-feira, setembro 06, 2013

«Rebarbativo», como gosto da palavra. (Herberto Helder também.)Que tem duas barbas - no sentido mais literal. Mas o sentido atribuído, figurado, ditado pelo uso - tem qualquer coisa mais, que faz desta palavra uma palavra sem sinónimo. Repetitivo, enfadonho - não é a mesma coisa
«Talvez a minha velhice e o meu medo me enganem, mas suspeito de que a espécie humana – a espécie única – está prestes a ser extinta, mas a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, equipada com volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta.» Jorge Luis Borges
http://www.releituras.com/viniciusm_mensagem.asp

quinta-feira, setembro 05, 2013

«Fala-se pouco quando a vaidade não faz falar.» La Rochefoucauld

quarta-feira, setembro 04, 2013

Compartimentar

Claro que está que ninguém consegue estar inteiramente no presente, sem sombras e fantasmas do passado e sem inquietações quanto ao futuro. Claro que está que a maioria conhece, instintivamente que seja, os velhos adágios: grandes desgraças curam desgraças (há sempre alguém pior do que tu); não há bem ou mal que sempre dure; um homem pode ser destruído, mas não pode ser derrotado (EH); somos damos valor àquilo que perdemos desperdiçando o milagre que é ter saúde, ter os entes amados vivos, ter um tecto e comida; aquilo que não podes mudar, aceita - aquilo que podes mudar - luta, basta adquirires a sabedoria ao longo da vida para distinguir as duas. Ajudam, é certo. O envelhecer também ajuda - sempre vi o envelhecimento um abrandamento, uma moderação das paixões da alma. Envelhecer é não nos deixarmos atingir tanto pela vida. A alma calejada não se deixa voar estonteante na felicidade nem afundar no mais fundo abismo na melancolia. Muitos anciãos dizem que é isso a paz. Tudo esta introdução serve para apresentar uma ideia. Eis uma definição: a felicidade depende da capacidade de lidar com o verbo «compartimentar». Todos temos problemas (um truísmo) - mas a capacidade de usufruir da vida depende de como conseguimos absorver cada momento feliz, cada pequeno pormenor, o modo como conseguimos olhar um campo de girassóis no meio do trânsito infernal. Lembro-me sempre de duas histórias e de uma vivência. (E em todas emerge o padrão: compartimentar é o essencial. A primeira história é a do britânico fleumático que, ao sair da sua empresa na sexta-feira à noite, viu um envelope esquecido. Abriu a carta. A sua empresa falira. Fechou o envelope e disse: «Muito vou ter de me preocupar na segunda-feira.» A segunda é a do budista que em meio do apocalipse, vendavais, destruição, limpava com uma vassoura sorrindo um cantinho da estrada. (E cruzo isto com Tolstoi: se queres ser universal, pinta a tua aldeia.) A terceira (real) é da pessoa que eu conheci que mais bem sabia compartimentar. Nas férias que passámos, ele recebeu notícias terríveis da sua saúde de um familiar internado, enquanto lhe ligava a toda a hora da sua empresa de «eventos» a pedir isto e aquilo. Lembro-me de estar com ele nas montanhas a ver uma paisagem e de ele estar absolutamente concentrado (e contudo leve), extático, a contemplar um sol róseo, o céu na nossa frente, o azul límpido, e de me dizer com um sorriso: «Estou a ter uma epifania. Passei de ateu a agnóstico.»
«A lentidão, que na verdade foi sempre uma condição sine qua non da civilização, tem vindo a ser cada vez mais substituída por uma apologia estonteada da velocidade, que se tornou, como escreveu Milan Kundera, na forma contemporânea do êxtase, apesar de muitas vezes mais não ser do que um atalho para o regresso à selva. Institui-se deste modo uma tirania do imediato que [...] se acompanha de um incentivo à excitação cada vez mais alucinada que atravessa todo o sistema de comunicação - imprensa, televisões, blogosfera, redes sociais, etc. -, transformando cada cidadão num espectador histérico, preso a narrativas que o hipnotizam e manipulam sem fim nem contraponto.» Manuel Maria Carrilho

uma palavrinha sobre os fazedores de poemas rápidos e modernos

é muito fácil parecer moderno/ enquanto se é o maior idiota jamais nascido;/ eu sei; eu joguei fora um material horrível/ mas não tão horrível como o que leio nas revistas;/ eu tenho uma honestidade interior nascida de putas e hospitais/ que não me deixará fingir que sou/ uma coisa que não sou —/ o que seria um duplo fracasso: o fracasso de uma pessoa/ na poesia/ e o fracasso de uma pessoa/ na vida./ e quando você falha na poesia/ você erra a vida,/ e quando você falha na vida/ você nunca nasceu/ não importa o nome que sua mãe lhe deu./ as arquibancadas estão cheias de mortos/ aclamando um vencedor/ esperando um número que os carregue de volta/ para a vida,/ mas não é tão fácil assim —/ tal como no poema/ se você está morto/ você podia também ser enterrado/ e jogar fora a máquina de escrever/ e parar de se enganar com/ poemas cavalos mulheres a vida:/ você está entulhando a saída — portanto saia logo/ e desista das/ poucas preciosas/ páginas. Charles Bukowski

domingo, setembro 01, 2013

JAAB ou José Alberto Braga, o grande frasista

«O preço da liberdade é a eterna vigilância. Ou cem mil dólares ao câmbio de hoje.»