domingo, julho 28, 2013

Há alturas para leituras densas e alturas para leituras fluidas. Mas não devemos desistir perenemente das primeiras, sabendo que procrastinar é muitas vezes uma ilusão e que a preguiça transforma o presente em perpetuidade. Lembro-me da tremenda dificuldade da primeira página de Ulisses, dos estranhíssimos adjectivos de abertura, «Pomposo e roliço», que me pareciam desenquadrados, dos objectos em cima da tijela, de como tudo não parecia fazer sentido e de como na quadragésima leitura as formas e as cores se agruparam e de como esse clarão foi arranhador do meu íntimo. Ou de como Proust com camadas sobre camadas na primeira página do primeiro tomo foi árduo, árduo. Isto que remetia para aquilo que sua vez para aqueloutro. O comboio, o apito, os vitrais, o século não sei quantos, o sofá e como tudo isso se ligou ao fim de meia hora de escalpe da página - o extenuamento cedeu ante a escrita hipnótica. Como ultrapassadas as dificuldades, grandes livros ficam cá dentro. Mais do que isso - como coisas que na altura, findo o livro, não eram importantes em mim e como, com os anos, eles ganharam peso e forma - e como ainda hoje são nutritivas do meu espírito. Como certas pessoas que com a distância aprendemos a admirar e a amar.

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