quinta-feira, julho 25, 2013

Esqueça as notícias - e aproveite para conversar por MANUEL MARIA CARRILHO

«Desta vez foi de mais, acabamos de viver um mês em que as notícias mais pareciam mosquitos de Verão que nos atacam por todos os lados, do que informação que nos permitisse olhar com algum discernimento para o País. O resultado é uma sociedade cada vez mais atordoada, desvitalizada e rebocada: atordoada pela confusão, desvitalizada pela deceção, rebocada pela rotina. Se calhar, o melhor é mesmo seguir o conselho de Rolf Dobelli, que recentemente sugeriu num estimulante texto publicado no The Guardian que as "news is bad for you - and giving up reading it will make you happpier" (12.04.2013). A ideia central é que, nos dias de hoje, as notícias se tornaram tão tóxicas para a mente, como o açúcar se revelou ser para o corpo. E propõe, em apoio desta corajosa analogia, dez pontos em que vale a pena refletir, sobretudo depois da semana de excitada e inútil especulação noticiosa que Cavaco Silva impôs ao País. Esses dez pontos são, na sua perspetiva, que as notícias enganam, são irrelevantes, não explicam, são tóxicas para o organismo, aumentam os erros cognitivos, impedem de pensar, funcionam como um uma droga, fazem perder tempo, tornam-nos passivos e matam a criatividade. As notícias enganam porque focam sempre o mais pitoresco ou o mais anedótico em qualquer acontecimento, em prejuízo do fundamental. As notícias são irrelevantes porque, se pensarmos nas cerca de dez mil novas histórias que as notícias passaram nos últimos doze meses, somos incapazes de indicar uma única que nos tenha ajudado a tomar uma boa decisão na nossa vida. Quando toda a gente vive em competição, elas são uma desvantagem competitiva. As notícias não explicam nada, elas são como a espuma à superfície das águas e quanto mais prendem a nossa atenção, mais incapazes nos tornam de compreender verdadeiramente o que se passa e mais insensíveis nos tornam ao que de facto conta. As notícias são tóxicas para o nosso corpo, elas interferem com o nosso sistema límbico (que é o responsável tanto pelas nossas emoções como pelos nossos comportamentos sociais), podendo alterar a produção de glucocorticóides, desregulando o sistema imunitário, afetando o crescimento e induzindo diversos problemas de saúde. As notícias funcionam como uma droga, elas estimulam os circuitos neuronais de "skimming" e multitarefas, bloqueando outros, nomeadamente os da leitura e do pensamento focado. O que, com o tempo, acaba por alterar a própria estrutura física do cérebro. As notícias aumentam os erros cognitivos porque em geral valorizam a confirmação e a repetição do que se sabe, ou se pensa que sabe, em detrimento de tudo o que é diferente e surpreende. As notícias inibem o pensamento, porque este requer um tempo de concentração que exige uma atenção contínua. Mas também porque elas afetam a memória, sujeitando-a a um fluxo ininterrupto de distrações e de insignificâncias. As notícias são uma perda de tempo. Todos sabemos, por experiência, que na verdade bastam uns minutos por dia para nos manter informados, o resto é repetição e ruminação que apenas visam alimentar o "infotenimento". As notícias tornam-nos passivos, elas valorizam tão intensamente o que está fora do nosso alcance, que só podem conduzir à resignação e ao conformismo. Por fim, as notícias matam a criatividade. Não há "notícia" de um único criador, seja em que domínio for, que seja um dependente, um obcecado ou um viciado em notícias. As notícias são inimigas da criação, elas colam-nos às ideias gastas e às velhas soluções, à sua banalidade e inutilidade. O argumentário é, como se vê, sugestivo. O leitor pode conhecer melhor a "lente" com que Rolf Robelli revê o mundo lendo "A Arte de Pensar com Clareza - 52 Erros de Raciocínio Que não Deveríamos Cometer", obra que acaba de ser editada em português pela editora Temas e Debates. O que R. Dobelli - muito inspirado por N. N. Taleb, o autor do famoso êxito O Cisne Negro - defende neste livro, é uma abordagem fria da racionalidade, que valoriza não só a propensão para o erro no comportamento humano, mas também o seu carácter sistemático. As notícias são, por isso, para ele, um excelente material para testar as consequências desta perspetiva, porque "a comunicação social é o meio onde a tendência para acreditar no relato se dissemina como uma doença contagiosa"(p. 62), tornando frequente o paradoxo de ser melhor a explicar do que a compreender. Eis pois um bom programa para o mês de agosto que se aproxima: esquecer as notícias - e, já agora, aproveitar para conversar. Aqui, o autor a seguir é Theodore Zeldin, que escreveu um fantástico "elogio da conversa", editado pela Gradiva. A conversa pode ser o antídoto das notícias: ela pode aproximar da verdade, pode ser explicativa e relevante, estimular o pensamento, a criatividade, desintoxicar a mente e a explorar as ressonâncias com o mundo. Como diz T. Zeldin, a conversa é, entre coisas, uma atividade que se situa entre o jogo e o puzzle, e que pode "modificar não só a maneira de ver o mundo, mas também o próprio mundo" - ora não é isto mesmo que todos queremos hoje»

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