segunda-feira, julho 08, 2013

Apresentação da personagem

Tenho sessenta e seis anos, mas se virem o meu rosto hediondo - porém, magnético - não acreditarão que tenho menos de oitenta. A cara sulcada, a pele curtida, os olhos duros, os lábios zangados, as sobrancelhas espessas e determinadas. Ainda assim, certas garotas param para me contemplar.(Cada vez menos.) Uma vez, uma mulher num bar, de tez trigueira e expressão juvenil, abeirou-se do meu posto solitário e disse que eu tinha um «rosto forte e admirável». (Na verdade, ela não disse isto, mas era isto que diria se se soubesse expressar.) Não gosto de dançar. Não gosto de crianças. Não gosto de passear. Não gosto de viajar. Não gosto de trânsito. Não gosto de planos. Detesto multidões. Não gosto do amarelo. Não gosto de manhãs. Não gosto de almoços de família, nem de beijinhos da prima, nem de conversa de chacha. Abomino gente que fala depressa. Abomino gente que fala muito. Não gosto de ruído. Não suporto publicidade. (Tenho pavor às figuras de plástico com largos sorrisos que exibem dentições perfeitas no cartazes da cidade.) Não gosto de abrir os lábios se não for para os encostar à espuma de uma garrafa ou à pachacha de uma rapariguinha. [Ultimamente, o meu emagrecimento verbal foi levado ao limite e chego a passar dias em que não emiti uma única palavra. (Como chego a casa leve nesses dias!) A palavra que mais utilizo é «Não».] Não gosto de restaurantes. Tenho horror a festas e a concentrações de entusiasmo. Não gosto de andar a pé. (Tenho a perna esquerda esfacelada, mas a verdade é que nunca suportei andar mais do que dez passos.) Não gosto de sol. Não gosto de caminhadas. Não gosto de sábados. Não gosto de médicos. Execro vendedores. (O mundo está cheio de vendedores. São todos vendedores. Vendedores de quinquilharias, vendedores de tecnologias, de futilidades, de necessidades induzidas, vendedores de si próprios.) Acham tudo isto bastante desnutrido? Estou-me nas tintas. Não tenho qualquer crença. Não defendo nenhuma ideia ou causa - não acredito em nada. Conheço-me. Isso basta-me. Estar comigo é suficiente. O sossego é o meu templo. Não imaginam o apaziguamento que é chegar a casa, bater com a porta, atirar as minhas velhas botifarras para um canto e estirar-me no sofá. Se tiver cerveja no frigorífico, um combate de pugilismo ou um filme pornográfico na televisão, consigo passar 363 dias felizes. Os outros são preenchidos com uma prostituta (a única categoria profissional que entrou cá em casa, tirando um pescador de rosto quase tão marcado como o meu e homem de pouquíssimas falas, que veio cá três vezes), preferencialmente duas vezes ou três vezes mais nova do que eu e com coxas e nádegas que me encham a mão. Durante as minhas incursões fora de casa, evito qualquer diálogo, por mais breve que seja, e tenho sempre o punho direito preparado para qualquer garoto que me venha importunar. Ao fim de duas semanas de silêncio absoluto, sou capaz de encontrar uma certa paz numa taberna se esta estiver frequentada por meia dúzia de almas solitárias sem ambição nem sonhos.

2 comentários:

Anónimo disse...

O mal é bastar-se, diz o poeta.

Anónimo disse...

Muito inspirado.