domingo, julho 14, 2013

Apresentação da personagem

Tenho óculos, barba, o rosto e o corpo franzinos. Tenho muitos tiques nos olhos. O pessoal na escola gozava comigo, sempre me chamaram «intelectual» em tom trocista. Quando era novo, falava pouco, hoje falo muito e de forma eléctrica. Quando falo muito, os meus olhos piscam muito - é o que me dizem; as pessoas reparam mais na forma do que no conteúdo, especialmente as gajas fúteis e irritantes, passo o pleonasmo. Hoje, o estigma de «intelectual» mudou para «revoltado». Nunca fui particularmente tímido, mas fui sempre relativamente insociável - não suporto a estupidez humana de 90% dos viventes. Desde novo que costumo ir para cafés, beber café (bebo entre nove a onze cafés por dia), ouvir música, ler revolucionários socialistas, ler ateus, ou fazer coisas no computador. Não consigo ouvir um reaccionário num café, nem que tenha o dobro do meu tamanho, sem lhe procurar desmontar a estupidez do seu raciocínio. A generalidade das pessoas fala sem conhecer os assuntos, sem ler, sem reflectir, sem conhecer. Também não suporto crentes teístas - têm de levar sempre com Freud e a fantochada pueril do Papá, com Marx e Nietzsche. Umas figuras de Jeová que me interceptaram no caminho para o café levaram tal banho intelectual, que hoje fogem para o outro lado da rua. Julgam que estou possuído. Estou farto do anestesiamento e da passividade - é preciso agitar as mentes dormentes e ignaras. Por vezes, tenho momentos de uma ansiedade tal, que me apetece morrer. Quando mudei de casa, a ideia de ter de mudar os móveis todos, de tratar de uma série de burocracias fizeram-me desejar a morte. Por vezes, a simples antecipação de que no dia seguinte tenho de fazer isto e aquilo deixa-me de tal modo, que não consigo dormir. Mas a revolução precisa de mim.

2 comentários:

Anónimo disse...

E fugir aos homens intelectual-revoltado e não-gosto-do-mundo-só-tolero-putas e transformá-los em mulheres com traços similares? Desafio total, eu percebo; mas acredite que há pessoas do sexo feminino que, de facto, não gostam de amarelo, de planos ou de publicidade, falam o mínimo indispensável à sobrevivência, detestam a estupidez e também travam as suas pequenas revoluções... Destes seres, com idênticos maneirismos e de igual grau de futilidade, raramente se fala e o certo é que também têm umbigo - umbigo em torno do qual gira o seu mundo.

Anónimo disse...

Outro texto muito inspirado. A dose certa de exagero para tornar a realidade mais interessante, mas sem fugir dela. Faz uma leitura irrestível.