quarta-feira, julho 17, 2013

Alguns gostam de poesia, Wislawa Szymborska

«Alguns gostam de poesia./ Alguns –/ quer dizer nem todos./ Nem a maioria de todos, mas a minoria./ Excluindo escolas, onde se deve/ e os próprios poetas,/ serão talvez dois em mil./ Gostam –/ mas também se gosta de canja de massa,/ gosta-se da lisonja e da cor azul,/ gosta-se de um velho cachecol,/ gosta-se de levar a sua avante,/ gosta-se de fazer festas a um cão./ De poesia –/ mas o que é a poesia?/ Algumas respostas vagas/ já foram dadas,/ mas eu não sei e não sei, e a isto me agarro/ como a um corrimão providencial.»

5 comentários:

euexisto disse...

isto é tão bonito

Anónimo disse...

"Nesse polvo das redes sociais, quando alguém põe um texto a rimar alma e calma e uma foto de pôr do sol, 17 imbecis fazem joinha… Não tenho tempo para isso, não acabei de ler o Dostoiévski.“

Adorei.

Anónimo disse...

“Como é o ponto mais alto da palavra, a poesia pode formar sujeitos mais preparados, que percebam o seu lugar e o do outro no mundo, que aprendam a falar de si, do outro. Não se pode fazer nada grande sem muita leitura. Por isso nunca senti necessidade de escrever. Só valeria a pena se fosse Camões ou Haroldo. Já se disse tanta coisa sobre tudo, que vou dizer?”

Anónimo disse...

comoveu-me.

Anónimo disse...

POESIA

A bala no cérebro de Maiakóvski. A tuberculose de Álvares de Azevedo. O seppuku de Yukio Mishima. A miséria de Orides Fontela. A orelha de Van Gogh. A roupa puída & suja de Edgar Allan Poe. O tráfico de fogo de Arthur Rimbaud. A pindaíba de James Joyce. Os processos de Allen Ginsberg. O gás de cozinha de Torquato Neto. A cirrose hepática de Paulo Leminski. O vômito de Jimi Hendrix. O manicômio de Antonin Artaud. O salto de Ana Cristina Cesar. O tiro de espingarda de Hunter S. Thompson. A mágika sem lágrimas de Aleister Crowley. A gravata de Santos Dumont. O Hotel Inglaterra de Serguei Iessiênin. O desespero idílico de Werther. A convicção de Carlos Marighela. O cárcere de Rubin Carter. Os narcórticos & o forno de Sylvia Plath. O maligno plano virtual de Yoñlu. A heresia de Giordano Bruno. O mar salgado de Hart Crane. A extradição de Olga Benário Prestes. O tiro natalino no peito de Raul Pompéia. A morfina de Jack London. As ondas de Violeta Parra. O Sena de Paul Celan. O desespero de Walter Benjamin. O hospício de Lima Barreto. Os cinco frascos de arseniato de estricnina de Mário de Sá-Carneiro. A conversão de José Vicente. A forca de Ian Curtis. A crucificação de Jesus Cristo. A tara de Pier Paolo Pasolini. O silêncio de Buda. As quarenta doses de uísque de John Bonham. O chumbo na massa encefálica de Kurt Cobain. Os flagrantes delitros de Fernando Pessoa. O copo de vodca sobre a cabeça de Joan de William Burroughs. Os romances de Roberto Bolaño. A queda do helicóptero de Randy Rhoads. A coragem de Ernesto Che Guevara. As janelas de vidro de Unica Zürn. A calma do bosque de Wendy O. Williams. A sífilis nervosa de Manuel Laranjeira. A Praça da Glória de Pedro Nava. O câncer de próstata de Mario Monicelli. A gentileza do Profeta. A solidão do Tartaristão de Marina Tzvietáieva. Os radiogramas de João Cândido. O ataque cardíaco de Antonio Calixto. Os últimos tostões para Regine de Søren Kierkegaard. A decapitação de Zumbi dos Palmares. As proposições factuais da Primeira Guerra de Ludwig Wittgenstein. O esfolamento & o monóxido de carbono de Stuart Angel Jones. A queda de cinco andares de Jeanne Hébuterne. Os dedos triturados de Victor Jara. Os trilhos do Engenho Novo de Marcelo Gama. Os dezesseis tiros de calibre 38 & 45 no coração de Malcolm x. Os dentes no estômago de Joaquim Câmara Ferreira. O violento traumatismo craniano de Steve Biko. O rebolado de Harvey Milk. A copa do álamo de Frei Tito. O câncer no ovário de Clarice Lispector. O sonho de Martin Luther King. O fim do sonho de John Lennon. As 32 fugas, os 73 processos, os 530 inquéritos por roubos assaltos & estelionatos & as 28 facadas no corpo de Lúcio Flávio Vilar Lírio. A angústia de Graciliano Ramos. A cadeira elétrica de Nicola Sacco & Bartolomeo Vanzetti. O tiro no coração de Jacques Rigaut. A valentia de Frank Zappa. Os 109 dias de tortura de Eduardo Collen Leite. A cabeça desaparecida de Antonio Conselheiro. O misticismo de Guimarães Rosa. Os mais de cem tiros na carcaça de Cara de Cavalo. A cachacinha & o torresminho de Hélio Oiticica. A arma (presenteada por Fidel Castro) de Salvador Allende. A estrela no buraco dos olhos & o diálogo da tristeza com o fim de Cesare Pavese. A overdose de barbitúricos de Alejandra Pizarnik. A coragem, o amor, Dorine & André Gorz.


Fabiano Calixto, Telhados de Vidro