quarta-feira, julho 31, 2013

- Nada como um grande amor para demolir a ideia da poligamia e da poliandria como condição natural. Por mim, falo - ele disse durante a tertúlia, permanecendo o resto do tempo calado.

terça-feira, julho 30, 2013

- É à noite que as coisas acontecem. Eu preciso de sair à noite - é lá que tudo acontece. Basta sair à noite e estar sentado. Pode demorar. Mas algo acontece, algo vem ter comigo. Sempre. Basta ser paciente. Os diálogos íntimos, as confissões, o conhecimento de estranhas criaturas, incidentes estranhos, excessos, milagres, beijos, contactos telefónicos, promessas. Mesmo as coisas más, tudo isso passado algum tempo adquire outros contorno. A galeria da minha vida foi construída na noite. A noite é sempre incerta, quando pensas que nada nascerá, eis que surge a magia.
Finalmente, um livro que capta a atmosfera dos sonhos (pelo menos, dos meus). O último de Manuel Alegre.
Um dos principais dramas da existência é que as pessoas mais interessantes não são necessariamente as melhores pessoas.

domingo, julho 28, 2013

Um grupo de revisores terroristas que se dedica a emendar todos os erros na paisagem urbana assinando RT. Todos os «ç» assinalados em vermelhos e trocados por «ss», as pizzaria que passam a pizzeria, as vírgulas nos vocativos das inscrições em murais «Carrega, Benfica», «Amo-te, Teresa».
Há alturas para leituras densas e alturas para leituras fluidas. Mas não devemos desistir perenemente das primeiras, sabendo que procrastinar é muitas vezes uma ilusão e que a preguiça transforma o presente em perpetuidade. Lembro-me da tremenda dificuldade da primeira página de Ulisses, dos estranhíssimos adjectivos de abertura, «Pomposo e roliço», que me pareciam desenquadrados, dos objectos em cima da tijela, de como tudo não parecia fazer sentido e de como na quadragésima leitura as formas e as cores se agruparam e de como esse clarão foi arranhador do meu íntimo. Ou de como Proust com camadas sobre camadas na primeira página do primeiro tomo foi árduo, árduo. Isto que remetia para aquilo que sua vez para aqueloutro. O comboio, o apito, os vitrais, o século não sei quantos, o sofá e como tudo isso se ligou ao fim de meia hora de escalpe da página - o extenuamento cedeu ante a escrita hipnótica. Como ultrapassadas as dificuldades, grandes livros ficam cá dentro. Mais do que isso - como coisas que na altura, findo o livro, não eram importantes em mim e como, com os anos, eles ganharam peso e forma - e como ainda hoje são nutritivas do meu espírito. Como certas pessoas que com a distância aprendemos a admirar e a amar.

sábado, julho 27, 2013

Ela 1 tem o cabelo azul, rodeia-se de homens de cabelo comprido, sujos, calças rasgadas e cães. Subitamente, namora um executivo que conheceu por amigos dos dos pais. Ela 2 namora um amigo meu, artista. Tem uma grande paixão por ele. (Sim, isso sente-se) Os projectos dele em tempo de crise fazem-no ter uma vida financeira periclitante. Ela começa a namorar um auditor, casa e engravida. «Ele não me dava segurança, sempre com altos e baixos na vida, não podia prospectivar uma vida estável.» Ela 3 jurava que a liberdade e a independência eram os seus valores motrizes e que nunca por nunca carreira, casamento e filhos. Viajou, esteve com os índios, e nos últimos dois meses soube-a casada com um gestor «de sucesso». E grávida. Ela 4 ia sempre a bares góticos e punks. Sempre a encontrava quando ia a determinados sítios. Para meu espanto, ao fim de muitos anos sem a ver, vi-a com um advogado sócio de uma grande sociedade. Provoquei-a e recebi: «Ia ficar com um looser, queres ver?» Ela 5 é minha amiga há dezasseis anos. Conheço-a. Sei que é pouco dada à imagem, ao material, ao estatuto, aos que outros pensam, aos ditames sociais. Nesta semana, disse-me: «Há um lado meu que nem imaginas. Eu sou prática, muito prática nos relacionamentos, as mulheres são práticas e cerebrais, mais do que tu possas imaginar, e eu também sou; eu estou com 36 anos e o pai dos meus filhos tem de ter um emprego que me garanta uma casa razoável, o sustento necessário para partilharmos as despesas, tem de ser equilibrado, não pode ser mulherengo, e tem de saber muito bem o que quer da vida e ser uma pessoa que saiba cuidar da casa e, por mais que te choque, preferencialmente deve ter carro.» Só me consigo lembrar do conto The sensible thing de F. Scott Fitzgerald.

sexta-feira, julho 26, 2013

Ironia inteligente é isto

«Em 1517, o padre Bartolomé de Las Casas compadeceu-se dos índios que se extenuavam nos laboriosos infernos das minas de ouro antilhanas, e propôs ao imperador Carlos V a importação de negros, que se extenuassem nos laboriosos infernos das minas de ouro antilhanas. A essa curiosa variação de um filantropo devemos infinitos factos [...]» Jorge Luis Borges
O publicitário meu conhecido ao fim de oito anos extenuantes a procurar que a empresa número dois excedesse a número um na venda de softwares dedica-se agora extenuantemente na nova empresa número um a que esta não seja ultrapassada pela número dois - demonstrando o quão sem sentido é a sua vida.

quinta-feira, julho 25, 2013

O par

http://www.scottandzelda.com/

Esqueça as notícias - e aproveite para conversar por MANUEL MARIA CARRILHO

«Desta vez foi de mais, acabamos de viver um mês em que as notícias mais pareciam mosquitos de Verão que nos atacam por todos os lados, do que informação que nos permitisse olhar com algum discernimento para o País. O resultado é uma sociedade cada vez mais atordoada, desvitalizada e rebocada: atordoada pela confusão, desvitalizada pela deceção, rebocada pela rotina. Se calhar, o melhor é mesmo seguir o conselho de Rolf Dobelli, que recentemente sugeriu num estimulante texto publicado no The Guardian que as "news is bad for you - and giving up reading it will make you happpier" (12.04.2013). A ideia central é que, nos dias de hoje, as notícias se tornaram tão tóxicas para a mente, como o açúcar se revelou ser para o corpo. E propõe, em apoio desta corajosa analogia, dez pontos em que vale a pena refletir, sobretudo depois da semana de excitada e inútil especulação noticiosa que Cavaco Silva impôs ao País. Esses dez pontos são, na sua perspetiva, que as notícias enganam, são irrelevantes, não explicam, são tóxicas para o organismo, aumentam os erros cognitivos, impedem de pensar, funcionam como um uma droga, fazem perder tempo, tornam-nos passivos e matam a criatividade. As notícias enganam porque focam sempre o mais pitoresco ou o mais anedótico em qualquer acontecimento, em prejuízo do fundamental. As notícias são irrelevantes porque, se pensarmos nas cerca de dez mil novas histórias que as notícias passaram nos últimos doze meses, somos incapazes de indicar uma única que nos tenha ajudado a tomar uma boa decisão na nossa vida. Quando toda a gente vive em competição, elas são uma desvantagem competitiva. As notícias não explicam nada, elas são como a espuma à superfície das águas e quanto mais prendem a nossa atenção, mais incapazes nos tornam de compreender verdadeiramente o que se passa e mais insensíveis nos tornam ao que de facto conta. As notícias são tóxicas para o nosso corpo, elas interferem com o nosso sistema límbico (que é o responsável tanto pelas nossas emoções como pelos nossos comportamentos sociais), podendo alterar a produção de glucocorticóides, desregulando o sistema imunitário, afetando o crescimento e induzindo diversos problemas de saúde. As notícias funcionam como uma droga, elas estimulam os circuitos neuronais de "skimming" e multitarefas, bloqueando outros, nomeadamente os da leitura e do pensamento focado. O que, com o tempo, acaba por alterar a própria estrutura física do cérebro. As notícias aumentam os erros cognitivos porque em geral valorizam a confirmação e a repetição do que se sabe, ou se pensa que sabe, em detrimento de tudo o que é diferente e surpreende. As notícias inibem o pensamento, porque este requer um tempo de concentração que exige uma atenção contínua. Mas também porque elas afetam a memória, sujeitando-a a um fluxo ininterrupto de distrações e de insignificâncias. As notícias são uma perda de tempo. Todos sabemos, por experiência, que na verdade bastam uns minutos por dia para nos manter informados, o resto é repetição e ruminação que apenas visam alimentar o "infotenimento". As notícias tornam-nos passivos, elas valorizam tão intensamente o que está fora do nosso alcance, que só podem conduzir à resignação e ao conformismo. Por fim, as notícias matam a criatividade. Não há "notícia" de um único criador, seja em que domínio for, que seja um dependente, um obcecado ou um viciado em notícias. As notícias são inimigas da criação, elas colam-nos às ideias gastas e às velhas soluções, à sua banalidade e inutilidade. O argumentário é, como se vê, sugestivo. O leitor pode conhecer melhor a "lente" com que Rolf Robelli revê o mundo lendo "A Arte de Pensar com Clareza - 52 Erros de Raciocínio Que não Deveríamos Cometer", obra que acaba de ser editada em português pela editora Temas e Debates. O que R. Dobelli - muito inspirado por N. N. Taleb, o autor do famoso êxito O Cisne Negro - defende neste livro, é uma abordagem fria da racionalidade, que valoriza não só a propensão para o erro no comportamento humano, mas também o seu carácter sistemático. As notícias são, por isso, para ele, um excelente material para testar as consequências desta perspetiva, porque "a comunicação social é o meio onde a tendência para acreditar no relato se dissemina como uma doença contagiosa"(p. 62), tornando frequente o paradoxo de ser melhor a explicar do que a compreender. Eis pois um bom programa para o mês de agosto que se aproxima: esquecer as notícias - e, já agora, aproveitar para conversar. Aqui, o autor a seguir é Theodore Zeldin, que escreveu um fantástico "elogio da conversa", editado pela Gradiva. A conversa pode ser o antídoto das notícias: ela pode aproximar da verdade, pode ser explicativa e relevante, estimular o pensamento, a criatividade, desintoxicar a mente e a explorar as ressonâncias com o mundo. Como diz T. Zeldin, a conversa é, entre coisas, uma atividade que se situa entre o jogo e o puzzle, e que pode "modificar não só a maneira de ver o mundo, mas também o próprio mundo" - ora não é isto mesmo que todos queremos hoje»

E, hoje, Drummond, aquele que quando acerta acerta

és tu mesmo, é tua poesia,/ tua pungente, inefável poesia,/ ferindo as almas, sob a aparência balsâmica,/ queimando as almas, fogo celeste, ao visitá-las;/ é o fenômeno poético, de que te constituíste o misterioso portador/

sábado, julho 20, 2013

Gatos

http://www.anda.jor.br/20/05/2012/quem-convive-com-gatos-vive-melhor-segundo-estudo

LUZ QUENTE, Bukowski

sozinho/ esta noite/ aqui em casa,/ sozinho com/ 6 gatos/ que me dizem/ sem/ esforço/ tudo o que/ há/ para saber

quinta-feira, julho 18, 2013

AGORA por Charles Bukowski

chegar aqui/ deslizando para a velhice/ as décadas passadas/ sem nunca ter conhecido uma pessoa/ realmente excepcional/ sem nunca ter conhecido uma pessoa/ realmente boa/ deslizando para a velhice/ as décadas passadas/ o pior são as manhãs.

quarta-feira, julho 17, 2013

Alguns gostam de poesia, Wislawa Szymborska

«Alguns gostam de poesia./ Alguns –/ quer dizer nem todos./ Nem a maioria de todos, mas a minoria./ Excluindo escolas, onde se deve/ e os próprios poetas,/ serão talvez dois em mil./ Gostam –/ mas também se gosta de canja de massa,/ gosta-se da lisonja e da cor azul,/ gosta-se de um velho cachecol,/ gosta-se de levar a sua avante,/ gosta-se de fazer festas a um cão./ De poesia –/ mas o que é a poesia?/ Algumas respostas vagas/ já foram dadas,/ mas eu não sei e não sei, e a isto me agarro/ como a um corrimão providencial.»

terça-feira, julho 16, 2013

jaça nome feminino 1. matéria estranha dentro de uma pedra preciosa, mancha 2. falha, defeito 3. popular cama 4. popular calabouço (De origem obscura) jaça In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013. [Consult. 2013-07-16]. Disponível na www: . 1jaça Datação: Referência bibliográfica da fonte de datação 1696 cf. MBLuz Cada um dos sentidos de uma palavra n substantivo feminino 1 imperfeição (mancha ou falha) na estrutura física de uma pedra preciosa 2 Derivação: por metáfora. mácula (p.ex., na reputação); desdouro Ex.: homem de caráter sem j.

segunda-feira, julho 15, 2013

Aleluia!

http://divinacomedia.pt/wordpress/historia-da-minha-vida-1/ A maior lacuna editorial foi preenchida. O português do Brasil tem uma edição notável ilustrada. Havia excertos publicados. Tenho uma edição antiga Uma Aventura Amorosa, havia o livro da Visão e da sua colecção erótica, havia um pequeno livro com páginas sobre a fuga da prisão. Finalmente, 1200 páginas (das 4000, é certo...) são publicadas. Em dois tomos. O primeiro já está nas livrarias (e no meu quarto), o segundo sairá em Setembro. A tradução de Tamen já me demonstrou, pelo cotejo com outras do Brasil, que traduzir abre caminhos tão diferentes. Casanova, mais do que um ginecómano, foi um literato, um filósofo, um religioso, um conhecedor fundo da vida mundana e livresca - e, acima de tudo, um escritor exímio com uma diversidade vocabular singularíssima. Um clássico. «Aquele que tem a força de suspender os seus actos até que chegue a calma, esse é o sábio. Um ser raro.» Giacomo Casanova

domingo, julho 14, 2013

Apresentação da personagem

Tenho óculos, barba, o rosto e o corpo franzinos. Tenho muitos tiques nos olhos. O pessoal na escola gozava comigo, sempre me chamaram «intelectual» em tom trocista. Quando era novo, falava pouco, hoje falo muito e de forma eléctrica. Quando falo muito, os meus olhos piscam muito - é o que me dizem; as pessoas reparam mais na forma do que no conteúdo, especialmente as gajas fúteis e irritantes, passo o pleonasmo. Hoje, o estigma de «intelectual» mudou para «revoltado». Nunca fui particularmente tímido, mas fui sempre relativamente insociável - não suporto a estupidez humana de 90% dos viventes. Desde novo que costumo ir para cafés, beber café (bebo entre nove a onze cafés por dia), ouvir música, ler revolucionários socialistas, ler ateus, ou fazer coisas no computador. Não consigo ouvir um reaccionário num café, nem que tenha o dobro do meu tamanho, sem lhe procurar desmontar a estupidez do seu raciocínio. A generalidade das pessoas fala sem conhecer os assuntos, sem ler, sem reflectir, sem conhecer. Também não suporto crentes teístas - têm de levar sempre com Freud e a fantochada pueril do Papá, com Marx e Nietzsche. Umas figuras de Jeová que me interceptaram no caminho para o café levaram tal banho intelectual, que hoje fogem para o outro lado da rua. Julgam que estou possuído. Estou farto do anestesiamento e da passividade - é preciso agitar as mentes dormentes e ignaras. Por vezes, tenho momentos de uma ansiedade tal, que me apetece morrer. Quando mudei de casa, a ideia de ter de mudar os móveis todos, de tratar de uma série de burocracias fizeram-me desejar a morte. Por vezes, a simples antecipação de que no dia seguinte tenho de fazer isto e aquilo deixa-me de tal modo, que não consigo dormir. Mas a revolução precisa de mim.
A mãe disse à filha sobre o seu namorado: «Ele é boa pessoa, mas deves largá-lo. Ele é guiado por forças que não pode domar.»

sexta-feira, julho 12, 2013

A honra perdida de uma época que foi

«Sempre me fascinou o episódio de Egas Moniz, de baraço ao pescoço e filhos ao lado, de procurar cumprir, junto do rei de Castela, a palavra a que D. Afonso Henriques faltara. Lenda, História, mentira, verdade?, pouco me interessa. A natureza do assunto é que me toca. O símbolo da honra, contido na metáfora, exprime um princípio sagrado: quando se diz, faz-se. Cresci e fui educado, pela família e por velhos hábitos de antigos mestres, com estes princípios. Nada de heróico: simplesmente o cumprimento natural das exigências morais de conduta. A minha geração raramente traiu o testamento. "Entre os portugueses / traidores houve às vezes", falou Camões. Mas a generalidade (tomando as generalizações com todas as precauções devidas) manteve-se-lhe leal. Digo "leal" e não "fiel" porque fidelidade é coisa de cão, e lealdade tem a ver com carácter. A fidelidade pode conduzir ao apoio das maiores perversões e das mais torpes ignomínias. A lealdade, pelo contrário, tem a ver com convicções de natureza ética, e não pactua com a infâmia ou se torna conivente com a perfídia. Estou mais do lado de Sartre ou de Camus, que arriscaram a opinião, e algumas vezes erraram, porque envolvidos no turbilhão da época, do que de um Aron, ardiloso e medido. Como as ideias de um homem não lhe pertencem em sistema de exclusividade, antes fazem parte de um "tempo", de um "ambiente" e, até de uma "cultura" de grupo, fomos, em Portugal, os rapazes do meu tempo, marcados por essa "atmosfera." Reconheço que os nossos impulsos ideológicos e intelectuais conduziram, acaso, a injustiças e a arrogâncias tão desnecessárias quanto cruéis. Mas a grandeza do que íamos aprendendo talvez explicasse o propósito. E este consistia no seguinte: amigo não trai amigo; não se denuncia nunca; a amizade é um posto. Estes padrões de comportamento podem, nos sombrios tempos de agora, suscitar algum desdém e zombaria, mas eram exigências da razão antifascista. E o antifascismo, não esqueçamos e não admitamos que o deformem, foi uma admirável frente moral, que congregou comunistas e socialistas, monárquicos e católicos, democratas e simples cidadãos, movidos pelo singelo desejo de ser livres e felizes. A batalha pela liberdade era, antes e tudo, a batalha pela dignidade humana, que teria, inevitavelmente, de criar os seus valores e de recuperar o que de melhor envolvia o humanismo. "Humanismo e Terror" é, justamente, o título de um livro de Merleau-Ponty, outro dos grandes, a que regresso com frequência, e cuja leitura está longe de ser obsoleta ou datada. Honra, conhecimento, vontade e paixão representam, afinal, sinónimos da mesma galáxia. Quem não percebe a força destes conceitos e o que eles comportam de vida, de essência dos laços sociais, não percebe nada de nada. Sou um velho caturra, mas nunca serei um moralista caturra. O que define um homem, repito, é a qualidade das suas lealdades; não a servidão das suas fidelidades. E sei muito bem o que custou, a muitos homens, de mágoa, desapontamento e dor, a alteração das suas ideias. O que nos aconteceu foi sentirmos, na pele e na alma, vergonha por um homem que a não teve nem tem. Por um homem que representa uma associação de outros homens, os quais não se demarcaram do opróbrio e até, diz-se, que o empurraram para o acto. Alguma coisa se perdeu, nesta caminhada desventurada para o pior dos abismos: o que resta do que fomos. E que resta é tão escassa e selectiva como a memória delida de uma antiga juventude.» Baptista-Bastos

Duende

http://www.poetryintranslation.com/PITBR/Spanish/LorcaDuende.htm

Encantado com o conceito

http://en.wikipedia.org/wiki/Hubris

segunda-feira, julho 08, 2013

Um dos maiores elogios

- A minha maior fobia é entrar numa casa alheia. Nunca me sinto à vontade para ser eu. Gosto de estar meio despido com os pés na mesa. Sinto-me sempre constrangido, especialmente em casas em que se respira burguesmente, em que há cerimónia, vigilância, gestos controlados. Hipocrisia. Não suporto. Fico doente. Não poder pôr a beata onde quero, poder deixar cair um pinga no sofazinho novo. A tua casa é o único sítio que sinto como uma extensão da minha casa. Que é uma casa e não uma instituição. Gramo à brava poder ter descoberto um sítio em que posso ser eu além da minha pocilga.

Apresentação da personagem

Tenho sessenta e seis anos, mas se virem o meu rosto hediondo - porém, magnético - não acreditarão que tenho menos de oitenta. A cara sulcada, a pele curtida, os olhos duros, os lábios zangados, as sobrancelhas espessas e determinadas. Ainda assim, certas garotas param para me contemplar.(Cada vez menos.) Uma vez, uma mulher num bar, de tez trigueira e expressão juvenil, abeirou-se do meu posto solitário e disse que eu tinha um «rosto forte e admirável». (Na verdade, ela não disse isto, mas era isto que diria se se soubesse expressar.) Não gosto de dançar. Não gosto de crianças. Não gosto de passear. Não gosto de viajar. Não gosto de trânsito. Não gosto de planos. Detesto multidões. Não gosto do amarelo. Não gosto de manhãs. Não gosto de almoços de família, nem de beijinhos da prima, nem de conversa de chacha. Abomino gente que fala depressa. Abomino gente que fala muito. Não gosto de ruído. Não suporto publicidade. (Tenho pavor às figuras de plástico com largos sorrisos que exibem dentições perfeitas no cartazes da cidade.) Não gosto de abrir os lábios se não for para os encostar à espuma de uma garrafa ou à pachacha de uma rapariguinha. [Ultimamente, o meu emagrecimento verbal foi levado ao limite e chego a passar dias em que não emiti uma única palavra. (Como chego a casa leve nesses dias!) A palavra que mais utilizo é «Não».] Não gosto de restaurantes. Tenho horror a festas e a concentrações de entusiasmo. Não gosto de andar a pé. (Tenho a perna esquerda esfacelada, mas a verdade é que nunca suportei andar mais do que dez passos.) Não gosto de sol. Não gosto de caminhadas. Não gosto de sábados. Não gosto de médicos. Execro vendedores. (O mundo está cheio de vendedores. São todos vendedores. Vendedores de quinquilharias, vendedores de tecnologias, de futilidades, de necessidades induzidas, vendedores de si próprios.) Acham tudo isto bastante desnutrido? Estou-me nas tintas. Não tenho qualquer crença. Não defendo nenhuma ideia ou causa - não acredito em nada. Conheço-me. Isso basta-me. Estar comigo é suficiente. O sossego é o meu templo. Não imaginam o apaziguamento que é chegar a casa, bater com a porta, atirar as minhas velhas botifarras para um canto e estirar-me no sofá. Se tiver cerveja no frigorífico, um combate de pugilismo ou um filme pornográfico na televisão, consigo passar 363 dias felizes. Os outros são preenchidos com uma prostituta (a única categoria profissional que entrou cá em casa, tirando um pescador de rosto quase tão marcado como o meu e homem de pouquíssimas falas, que veio cá três vezes), preferencialmente duas vezes ou três vezes mais nova do que eu e com coxas e nádegas que me encham a mão. Durante as minhas incursões fora de casa, evito qualquer diálogo, por mais breve que seja, e tenho sempre o punho direito preparado para qualquer garoto que me venha importunar. Ao fim de duas semanas de silêncio absoluto, sou capaz de encontrar uma certa paz numa taberna se esta estiver frequentada por meia dúzia de almas solitárias sem ambição nem sonhos.

quarta-feira, julho 03, 2013

Está tudo nos livros

«A indiferença silenciosa, grave, quase benévola, é a manifestação legítima da morte de toda a crença.» Alexandre Herculano

segunda-feira, julho 01, 2013

Ele foi criticado e com razão, mas eu achei a frase de uma bravura, comicidade, genuinidade. A verdade é que o seu interlocutor fica com uma fácies digna de uma fotografia.

- Ei, tu estás obcecado com a ideia de que quero «comer» a tua mulher. É mentira. Além de não gostar de determinantes possessivos, digo-te a verdade. Eu quero conquistar a «tua» mulher. Não comê-la. De resto, abominar isso verbo aplicada a seres humanos. [Lembrei-me de Herberto Helder. O Bom Ladrão não é o que rouba a cinza, mas o fogo.]

Da maledicência dos cafés ociosos (conversas interceptadas)

- Já viste a namorada do Miguel? - Ai, nem me digas nada. Tem umas olheiras. - E magra, é tão magra. - Que amostra de gente. Credo, mete medo ao assusto. Quando a vi aqui, aqueles olhos, aquela palidez, ao menos podia pintá-los, pôr maquilhagem. - E tem uma pele. Viste as mãos? Pele seca. E tremia a segurar a chávena. - O que é o que Miguel anda a fazer com ela, poça. - Eu não entendo aquele homem. Então agora que está desempregado pede jarros de sangria. Mas de onde é que lhe vem o dinheiro? - Ele não tem dinheiro para isso. Ele está maluco. Deve andar nalgum esquema ou a estoirar o dinheiro de alguém. - Eu digo-te uma coisa. Eu trabalho e não consumo como ele aqui. Ai, podes querer que não.

Blargh

Verdadeiramente insuportável - as pessoas que usam uma linguagem informática e de gestão pejada de estrangeirismos (e de alguns neologismos ainda mais odientos) para descrever as coisas da vida. «Faz reset. Vamos começar de novo. Start-up. O.K, ´bora lá.» Mais à frente na reunião. «Desculpem lá, só para fazer um checkcpoint. Deixem-me lá ver o paper. Ah, depois teremos de fazer aqui um upload.» De repente, um eureca. «Ah, agora já deu. Podem logar-se.» Percebi logo que nunca navegaríamos nas mesmas águas.

Para Gastão Cruz

Todas as línguas do mundo se sujaram./ Fomos condenados à gaguez triunfal/ pela qual procuramos ainda dizer o que nos recusaram./ Na mínima dor há um pomar onde colhemos/ os esplêndidos frutos que alimentam a nossa linfa, o nosso sangue,/ a corrente que sem recurso nos prende/ à furiosa morte./ A metáfora da alma será ainda a melhor dádiva/ deste corpo tão eficiente e tão pobre./ Assim nos saciamos. Luís Quintais