sábado, junho 01, 2013

Tecnofilia

Vais a um jantar em que só conheces uma pessoa. Tiras o telemóvel que toca do bolso e alguém diz que é igual ao dele e fala sobre quanto custou, como o comprou, pergunta-te quanto te custou, se sabes que há o -S. Indiferente ao teu ar de enfado, perora que vai sair o número ponto não sei quê e como isso mudará a vida dele e de muitos dotando-a de um conforto amigo, a conversa alastra, comparam «aplicações», soltam gritinhos «ah!», «espectáculo», «vou já sacar essa». Vais a um concerto e na tua frente várias criaturas em posição de imobilidade filmam com o seu i-coiso o espectáculo, horas a fio, quietas, olhando para o ecrã, perguntas-te se aquela é a sua ideia de fruição, cansam-se pedem a outro que vá segurando e olhando por um bocado, fazem a transição do equipamento com muito cuidado não vá um micro segundo ficar com a qualidade da imagem afectada, segura com jeitinho, pega nele aqui nesta posição em que está. Vais a uma iniciativa recreativa e metade dos pais estão a filmar os filhos com o mesmo zelo dos que estavam no concerto. Ouves comentários de que a fotografia já foi para o Facebook, de que ficou «brutal». Vais com um amigo a andar, subitamente ele entra numa loja, fica deslumbrado, erotizado com a forma, o desenho, a curva, a textura dos mil e um objectos que servem de auxílio aos i-merda. Pensas na criação de necessidades artificiais que sustenta o tecnocapitalismo. O teu amigo continua a ver coisas e tu ficas perplexo a ver o que ele vê, não sabias que a empresa da maçã daquele filho de puta hoje é uma causa. Que I LOVE APPLE vende. Que há estojos para miúdos e uma parafernália de objectos úteis em forma de i-merda. Não consegues entender como outros não vêm nisso um processo de infantilização. Continuas a ver os objectos e descobres coisas espantosas, como autocolantes de metal para o frigorífico em forma de aplicações. Não consegues entender como isto pode ser uma cenoura para um cérebro de um ser vivente, já nem dizes pensante. A teu lado, olhos bem abertos de drogados. Parabéns, tecnocapitalismo, que transformaste cidadãos em consumidores. Pensas que vives num país em que num ano houve uma queda na compra de livros não escolares de um milhão, de 1, 9 milhões de bilhetes de cinema, de 45 milhões de validações de viagens em transportes públicos - e que simultaneamente os telefones espertos aumentaram as suas vendas 46%. Que vives num mundo em que a hiperinformação conduz a pessoas menos informadas. Em que a facilidade de comunicação conduz a pessoas mais distantes entre si, menos afectuosas (aquele grupo de quatro amigos que marcaram um encontro para cada um deles estar no seu i-merda). Um mundo que tem afastado as pessoas das coisas fundas (porque necessariamente lentas), do silêncio, da recolha da alma, da reflexão, ao mesmo tempo que as dota de uma ilusão de conhecimento. Que vives num mundo em que tudo é urgente, em que todos temos sempre portas abertas para a nossa entidade laboral entrar. Em que tudo é premente. Em que tudo é agora. Em que há quem viva em directo. Que há quem não sinta o acontecimento se este não for visto na montra. Em que o importante é arranhar a superfície das coisas sendo multitarefa. Em que os múltiplos tópicos são mais valiosos do que um pensamento estruturado, reflexivo, demorado. Ir a reboque do 4.0, 4.0 e uma letra, 5.0, como matóides acéfalos. Validar uma coisa pelo número de likes, uma pessoa pelo número de pessoas que tem, validar algo como verdade ou falso em função do que a net dita. Um mundo que escarnece da privacidade. Um mundo que glorifica um ser para dois dias o demonizar. Um mundo em que numa semana se é herói para na semana seguinte, pela súbita fama e súbito escrutínio da sua vida, essa pessoa ficar louca ou ser morta. (Vejam o que aconteceu, por exemplo, ao do vídeo do Kony.) Todas as semanas te falam de dez blogues que tens de ver, cada um deles remetendo para não sei quantos outros, de sítios que tens de conhecer, de aplicações que tens de ter, pedem-te centenas de vezes para gostares de centenas de página. Perguntas-te se és tu que estás desfasado do mundo ou o mundo desfasado de ti.

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