quarta-feira, junho 19, 2013

«O meu pai a fumar e eu queria tanto fumar também. Perguntei - Posso fumar? e a resposta um par de olhos terríveis. O chalet que me parecia sempre abandonado, com espinhos em torno. Não me lembro muito nitidamente da minha mãe nessa época, lembro-me mais da minha avó, omnipresente. Imensas chávenas de asa quebrada. O meu avô usava um aparelho de ouvir complicadíssimo, quase não falava, sempre de casaco de linho branco. Lia o jornal na varanda, ia para a varanda, que esquisito, durante as trovoadas de verão, enquanto a minha avó rezava, apavorada. Era alta, o meu avô nem por isso, alta, de olhos azuis, sempre tão boa para mim. Adorava-a. Adorava a família da minha mãe, de resto, [sempre] me trataram com tanta ternura. Não tenho razão de queixa de ninguém. Reparo agora, que curioso, que até hoje a única pessoa de quem tenho razões de queixa é de mim mesmo. Fui um afortunado, sempre, embora nunca tivéssemos sido ricos. Que alegria chegar àquela casa, que pena virmo-nos embora para a tristeza do inverno, a tristeza das aulas, o suplício dos professores. Já escrevia nessa altura, versos, ninharias. Mas ia ser o maior escritor do mundo, isso era certo. Na minha opinião sou, claro, não vale a pena escrever se não se é o maior escritor do mundo. Infância, ainda sinto o teu mistério, as descobertas diárias, o teu murmúrio no meu sangue. Ainda me acompanhas com, nos intervalos da alegria, tristezas inexplicáveis que passavam depressa, perplexidades inexplicáveis que passavam depressa, angústias inexplicáveis que passavam depressa. Saudades disso, também e, de repente, o maravilhamento de novo. Paixões por meninas entrevistas, um par de tranças sem cara, um sorriso que se me não dirigia, e ainda bem porque, no caso de se me dirigir, não saberia o que fazer com ele. Isto vai tudo mal redigido mas pouco me importa. Importa-me a casa da minha infância muito longe de Lisboa, para mim, em criança, no outro lado do mundo, entre pinhais, castanheiros, a vinha, montes ao longe. E as amoras, claro, as amoras. A conversa das pessoas crescidas, à noite, no andar de cima, conversas, risos, passos no corredor e a trepadeira no postigo sempre, a trepadeira no postigo.» António Lobo Antunes

1 comentário:

Anónimo disse...

Ele transmite tão bem através da escrita quando escreve assim simplesmente. Assim, sim, seria o melhor escritor do mundo.