terça-feira, junho 25, 2013

Ele e ela coabitam o mesmo café há uns anos. Ele zanga-se com ela constantemente, principalmente quando ela tem namorado. Pretexta isto e aquilo e censura-a e ralha - uma opinião estúpida, o ela falar alto quando há Quiz, o ela ter o computador a ocupar a tomada mais tempo do que os outros. Algumas vezes, ele entornou-lhe um líquido, alegadamente sem querer. Ela hesita em protestar - não sabe se foi intencional. Ele jura que não foi. (Seria um «acto falhado» para Freud.) Mas da última vez ela gritou com ele - ele disse que ela estava maluca, que ninguém gritava a ninguém por sem querer lhe entornar uns pingos de água. Além disso, ele treme das mãos. Era cruel, ela. No café, as amigas disseram-lhe que ela lhe dera o troféu - conseguira gerar-lhe uma reacção. Mostrava que não lhe era indiferente. Todas as semanas, ele anuncia que deixou de falar com ela - e voltar sempre a falar com ela. E a relação conduz sempre a novos conflitos. A nova maledicência - estão sempre a dizer mal um do outro, mas não conseguem sair do quadrado malsão, não se conseguem libertar - principalmente ele que arranja sempre forma de lhe voltar a falar. Ela por amizade, diz. Ele não diz porquê. Todos lhe dizem para a ignorar. Ele faz votos de renovadas promessas. «É que desta vez nunca mais lhe dirijo a palavra, nem um "olá". Se me quiserem ter na mesa, garanto-vos que só se ela não estiver.» Mas ele voltou sempre.Para novos gritos, discussões, agressões. Quantas relações não conheces assim?

5 comentários:

Anónimo disse...

Nunca disse mal dela, não tenho razões para isso; e só lhe gritei uma vez, por desilusão e descontrolo; não sei se me perdoou - espero que sim.
Também não sei porque volto; talvez para ter a certeza de que a anterior, não foi a última vez que a vi; talvez para lhe observar os gestos e trazê-los na mente; talvez porque só faça sentido procurar onde é difícil encontrar; sinceramente, não sei...
Nem faço votos de não tornar a vê-la; apenas aguardo que o tempo passe e limpe a memória - eficazmente, como só ele sabe.

Não, não conheço muitas relações assim.

Sr Joao disse...

Pungente, caro amigo.

Anónimo disse...

O pior é que cada milímetro de mim sabe ela vale cada minuto da espera e cada segundo de todos os regressos; é vil e repugnante, não é? Boa noite.

Sr Joao disse...

Não é vil nem repugnante. A mim, comove-me ainda que o desaconselhe.

euexisto disse...

não conheço? milhões. não posso dizer quantas porque não as conheço

:)